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terça-feira, 21 de abril de 2026

O REVOLUCIONÁRIO TIRADENTES MERECIA UM POVO MUITO MELHOR DO QUE A PARVA GENTE BRASILEIRA

"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 

...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação.... 

O mito está mistificado.

Brecht cantou: Feliz é o povo que não tem  heróis. Concordo. Porém nós não somos um povo feliz. Por isso precisamos de heróis. Precisamos de Tiradentes" (Augusto Boal, Quixotes e Heróis). 

Liberdade, ainda que tardia... Mas a
tardança precisava ser de 3 décadas?!
"
Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...

O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. 


Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas. 

Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto após assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário" (CL)
"Esse traidor [Joaquim Silvério dos Reis] foi correndo falar com o governador. Fez
uma tal cena que o Visconde de Barbacena soltou os milicos na rua, 
mandou sentar pua, pegar e bater e matar e prender"

segunda-feira, 21 de abril de 2025

TIRADENTES PODERIA TER SIDO O BOLIVAR BRASILEIRO, MAS NOSSO POVO PREFERIU RECEBER A LIBERTAÇÃO COMO DÁDIVA

 "Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
  • É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes e sua falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale uma citação da epígrafe escrita por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação ... 
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma de suas maiores inspirações. 
.
(por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 20 de abril de 2022

MÁRTIR? TIRADENTES FOI, ISTO SIM, UM HERÓI REVOLUCIONÁRIO!

 "Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.


E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
  • É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes e sua falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação da epígrafe escrita por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação ... 
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma de suas maiores inspirações. 
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(por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

HÁ 6 ANOS, APÓS ALTERAR A LEI RESPECTIVA, DILMA FEZ DE BRIZOLA "HEROI DA PÁTRIA", MAS IGNOROU LAMARCA E MARIGHELLA

Jamais faltou a Brizola coragem para
arriscar a vida em defesa dos seus ideais...
Nesta semana se completam seis anos desde que a então presidente Dilma Rousseff sancionou lei incluindo no Livro dos Heróis da Patria o político Leonel Brizola que, quando era governador do RS, liderou a resistência ao golpe de estado tentado pela direita em agosto de 1961, aproveitando a renúncia de Jânio Quadros.

Infelizmente, a conspiração militar acabou sendo vitoriosa na oportunidade seguinte, dois anos e meio depois. Mas não por omissão do Brizola: ele bem que pretendeu confrontar os fascistas, só que o presidente João Goulart era de outra têmpera e preferiu escafeder-se com o rabo entre as pernas para o Uruguai, deixando o governo acéfalo.

Honraria merecidíssima, portanto. Brizola ficou em boa companhia, ao lado:
— de Anita Garibaldi, Chico Mendes, Frei Caneca, Tiradentes e Zumbi dos Palmares; 
— dos líderes da Conjuração Baiana, das Guerras Guaraníticas, da Insurreição Pernambucana de 1624-1654, da Revolução Acriana e da Revolução Federalista; 
— dos heróis da Revolução Pernambucana de 1817;
— e dos estudantes MMDC, mortos em praça pública pela ditadura de Getúlio Vargas.
...mas, sacrifício maior foi o de quem entregou a vida,
sendo 
executado como os comandantes Lamarca...
 

A lei sancionada por Dilma, oriunda de um projeto do seu governo, alterou também o prazo necessário, após sua morte, para que um cidadão possa ter o nome acrescentado a tal livro. Era de 50 anos, passou a ser de 10.

Este outro tipo de pedalada permitiu à Dilma antecipar em quase quatro décadas a homenagem ao seu maior ídolo, morto em 2004.

Já os comandantes Carlos Lamarca e Carlos Marighella –assassinados covardemente pela ditadura militar quando estavam sem a mínima possibilidade de reação, o primeiro combalido e já rendido, o segundo emboscado por tocaieiros– não mereceram de Dilma idêntico reconhecimento. No entanto, eles compõem, com Tiradentes, a trinca dos maiores heróis que este País já produziu.

O casuísmo da presidente pelo menos permitia que não precisássemos esperar 2019 nem 2021 para prestar-lhes o merecido tributo. Mas, como era previsível, após a falseta da Dilma faltou grandeza e/ou coragem para alguma liderança esquerdista influente erguer tal bandeira. 

Lancei sozinho a proposta e fiquei clamando no deserto. Ninguém mais ousou lutar para que isto acontecesse, nem ousou vencer a paúra que os verdes-olivas  ainda inspiravam.
...e Marighella, ambos alvos de saraivadas de balas
quando não tinham nenhuma possibilidade de reação

Por esta e outras, o impeachment de Dilma despertou tão pífia resistência por parte da esquerda. 

Difícil termos ânimo para salvar do defenestramento aquela que prometera solenemente (na campanha para reeleger-se, em 2014) impedir a imposição das reformas exigidas pela burguesia e depois correu a empossar um ministro da Economia neoliberal, dando-lhe carta branca para socar-nos o austericídio garganta adentro. 

E que sempre mandara às urtigas as outras tendências do campo da esquerda, fazendo da solidariedade revolucionária letra morta. 

Mereceu receber o mesmíssimo apoio que ofereceu aos manifestantes de junho de 2013 e do #NãoVaiTerCopa, ao cruzar os braços enquanto eles eram barbarizados pela direita. E merece estar no limbo atual. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 22 de junho de 2021

ESTAMOS PERDENDO TEMPO, PENSANDO, PENSANDO SOBRE AQUILO QUE MAIS QUEREMOS. ATÉ QUANDO? ATÉ QUANDO?

hélio schwartsman
COMO BOLSONARO NÃO FOI DEPOSTO?
O fim de semana foi agitado, mas as duas grandes notícias do feriado, os 500 mil mortos e as manifestações contra Bolsonaro, não me comovem muito. 

Calma, eu explico. Cada uma das mortes é uma tragédia e ver as pessoas se mobilizando para depor o pior presidente da história é positivo. Receio, porém, que a forma como essas notícias se colocam obscurece a gravidade da situação.

Meu pendor racionalista faz com que eu não veja diferença de escala ou essência entre 500.000 e, digamos, 502.324, mas, mesmo que aquiesçamos ao fetiche humano por números redondos, a marca do meio milhão já foi ultrapassada um bom tempo atrás.

O fenômeno da subnotificação é quase universal. Até há países como a Bélgica em que o cômputo dos óbitos pelo Sars-CoV-2 é praticamente o mesmo que o do excesso de mortes em relação a anos não pandêmicos, só que isso é uma raridade. 

Na maioria das nações, a contagem oficial fica sistematicamente abaixo da de óbitos não esperados. Em casos extremos, como o de alguns estados indianos, o número real de vítimas pode ser até dez vezes maior que o oficial.

Para o Brasil, estudos como o da infectologista Ana Luiza Bierrenbach estimam uma subnotificação da ordem de 30%. Isso significa que ultrapassamos os 500 mil lá pelo meio de abril e já nos aproximamos dos 700 mil.

Algo parecido ocorre com as manifestações. Como prefiro medidas objetivas a impressionismos, dou mais relevo a pesquisas que a fotos. 

E o Datafolha nos diz que 49% dos brasileiros com mais de 16 anos defendem o impeachment. Estamos falando de um universo de descontentes da ordem de 75 milhões de pessoas, o que empalidece até as mais fantasiosas estimativas dos organizadores sobre o número de manifestantes no sábado.

A moral que extraio dessas considerações é que estamos atrasados. Com quase 700 mil mortos e maioria relativa a favor do afastamento, como Bolsonaro continua no poder? (por Hélio Schwartsman)
T
OQUE DO EDITOR 
– Elementar, meu caro Schwartsman, embora tão vexatório que poucos ousam somar 2 mais 2 e anunciarem 4 como resultado.

Ocorre que os brasileiros somos historicamente dóceis ao autoritarismo e (não há maneira mais delicada de dizer) pusilânimes quando nos cabe enfrentar o tirano da vez, mesmo que ele não passe de um palhaço demente.

Para não alongar-me, lembrarei que, houvesse um mínimo de determinação e ousadia, o projeto dos inconfidentes teria sido assumido por toda a colônia e coroado de êxito, com a independência sendo conquistada pra valer, ao invés de se reduzir a uma mera troca, tardia ainda por cima, da dependência política a Portugal pela dependência econômica à Inglaterra. 

"Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação", disse o Tiradentes, mas ele era exceção e quase todos tinham algo a perder, preferindo então permanecer em cima do muro.

Das maiores ditaduras do século passado, a de 15 e a de 21 anos, saímos pela porta dos fundos, com a redemocratização ocorrendo apenas ambas quando se tornaram insustentáveis e contraproducentes; os que ousaram resistir a elas antes disso se viram entregues às bestas-feras, exatamente como Tiradentes.

E por aí vai.  O povo heroico, ao invés de fazer ecoarem seus brados retumbantes,  é useiro e vezeiro em miar quando deveria rugir. (por Celso Lungaretti)
"Estas perdiendo el tiempo / Pensando, pensando /
Por lo que mas tu quieras / ¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?"

terça-feira, 21 de abril de 2020

TIRADENTES, O HERÓI DE UM POVO QUE SE IDENTIFICA MAIS COM FIGURAS PROTETORAS

"Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.


E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.

Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.


Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude. 

É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: 
  • em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes: muita falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros somos carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação do artigo do qual extraímos a epígrafe, escrito por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação 
 ...O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma das maiores inspirações. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

OS CRÉDULOS O TOMAVAM POR UM BATMAN. DEPOIS DA VAZA-JATO, ELE É VISTO MAIS COMO UM CORINGA...

gregorio duvivier
TRÊS BIOGRAFIAS PARA SERGIO MORO
Querido Sergio Moro, vi que você gosta de ler biografias, mas ainda assim não consegue citar nenhuma. 

Entendo a dificuldade: imagino que esteja muito empenhado tentando salvar a sua. Tomo a liberdade de indicar três obras de não ficção —afinal, de ficção já bastam suas sentenças.

O Tiradentes, do Lucas Figueiredo, conta a vida de um herói nacional —aquilo que você imaginou que viria a ser, antes de virar figurante de chanchada. 

Com base em documentos oficiais, Figueiredo perfila esse preso político, único condenado de fato pela conspiração da qual ele era, coincidentemente, o mais desvalido dos integrantes. 

Seu advogado, dr. Oliveira Fagundes, fez todo o showzinho da defesa e compôs uma peça sólida, ignorada pelo juiz português —que, só se descobriu depois, tinha chegado ao Rio, meses antes, com a sentença já escrita.

Tudo, acredite se quiser, se baseava em delações. O primeiro delator, Joaquim Silvério dos Reis, um dos homens mais ricos e endividados da colônia, teve suas dívidas perdoadas —mais ou menos como você perdoou, duas vezes, o doleiro Alberto Youssef.

A corte também fez vista grossa pros conspiradores do Estado, que não eram poucos. Talvez lhe parecerá estranho, mas lembra que você perdoou até o Onyx. 

Mas, claro, é preciso ser justo: ele se arrependeu.

Vários foram os juízes que condenaram Tiradentes e, ainda assim, ninguém se lembra do nome de nenhum. Isso pode te servir de consolo. Mesmo orquestrando uma farsa que elegeu o homem que hoje te emprega, existem fortes chances de que a história te esquecerá.

Mas talvez esteja cansado de política brasileira. Medo, do Bob Woodward, não é exatamente uma biografia, mas a história das eleições em que um bufão chegou ao poder. 

À sua volta, todos pensam que poderão usá-lo, sem perceber que legitimaram um autocrata que os descartará na primeira oportunidade.

Deviam ter suspeitado: não há papel mais triste —nem mais ingrato— que o de ajudante de bufão.

Pra terminar, vale ler Cartas da Prisão, de Nelson Mandela. A coletânea de cartas publicada pela Editora Todavia conta a história de um líder político que passou 27 anos na prisão após uma condenação. 

Desculpa o spoiler: o sujeito sai da prisão ainda maior do que entrou, e termina presidente do país que o prendeu.

Ah, não está ali o nome do juiz que o condenou. Ufa. (por Gregorio Duvivier)
.
Toque do editor —  Tomarei a liberdade de acrescentar um filme à lista das obras que fariam de Moro um homem melhor, se o dito cujo nelas se inspirasse para tentar dar uma improvável volta por cima, após tanto haver feito para arruinar sua biografia.

Trata-se do  O homem que não vendeu sua alma, ganhador do Oscar de melhor filme em 1967, que destacou exatamente a grandeza de um personagem histórico que entregou a vida para não aviltar-se traindo suas convicções: Thomas More. 

O sobrenome é quase igual, mas o comportamento, diametralmente oposto. Além de uma vogal, há um mundo de diferenças entre ambos...

As características pessoais do Moro nunca foram as de um Tiradentes ou de um Mandela, mas um More, sim, ele poderia haver sido, caso tivesse caráter para tanto. 

Enfim, aos 47 anos, ele ainda pode tentar correr atrás do prejuízo. Quem sabe o destino lhe concede uma segunda chance... (por Celso Lungaretti) 

domingo, 16 de junho de 2019

O LIVRO É DOS HERÓIS DA PÁTRIA OU DAS TRAPALHADAS HISTÓRICAS?

Por Celso Lungaretti
Já estava atravessada na minha garganta a mesquinhez (vide aqui) de Dilma Rousseff, que, quando presidente, alterou de 50 anos para 10 anos após a morte o prazo necessário para que um cidadão pudesse ter seu nome incluído no Livro dos Heróis da Pátria. 

Ela fez isto com o único objetivo de poder homenagear seu ídolo Leonel Brizola, ao mesmo tempo em que se omitia vergonhosamente a respeito do reconhecimento do heroísmo expresso no sacrifício extremo de Carlos Lamarca e Carlos Marighella. Lamentável!

Agora ficamos sabendo que, nessa relação na qual não cabem dois dos três maiores heróis que este país já produziu (o terceiro é Tiradentes), cabem personagens fictícias!

É o que revelou Ana Lúcia Araújo no site do Intercept Brasil, conforme os leitores podem constatar no resumo abaixo do artigo Dandara e Luísa Mahin são consideradas heroínas do Brasil – o problema é que nunca existiram  (para acessar a íntegra, clique aqui): 
Até o ano de 2018, nenhuma mulher negra havia sido inscrita no livro de aço do Panteão da Pátria. Mas no dia 27 de março de 2019, o Senado Federal aprovou o projeto de lei 55/2017 inscrevendo no livro os nomes de Dandara dos Palmares e Luísa Mahin. 

Dandara dos Palmares é descrita como sendo noiva de Zumbi dos Palmares. Em matéria recente, referem-se a ela como tendo lutado “junto do esposo, Zumbi, no Quilombo dos Palmares”. 
O ridículo foi ao ponto de criarem imagens de quem não existiu
Luísa Mahin, descrita como sendo a mãe de Luis Gama, “liderou os escravos malês na Bahia, tendo participação decisiva na Sabinada”.

Pelo que se tem notícia, o projeto de autoria da atual secretária de políticas para as mulheres Tia Eron foi elaborado sem consultar nenhum historiador da escravidão. 

Ainda assim, a inclusão das duas figuras legendárias no Panteão da Pátria foi aplaudida por políticos de todos os espectros políticos, inclusive pelos senadores petistas Paulo Paim e Jacques Wagner.

Ao contrário de todas as figuras inscritas no livro até aqui, nenhum historiador corrobora a existência de Dandara dos Palmares e Luísa Mahin. Como bem coloca Nei Lopes, o grande escritor, compositor e estudioso das culturas africanas e afro-brasileiras, Dandara emergiu como um personagem literário no romance Ganga-Zumba de João Felício dos Santos, publicado pela editora Civilização Brasileira em 1962, dois anos antes do início da ditadura militar no Brasil. 

...Luísa Mahin também é um personagem fictício. Sua aparição em registros escritos data do final do século 19 quando o abolicionista Luís Gama escreveu uma carta a seu amigo Lúcio Mendonça onde descreve sua mãe como sendo uma africana escravizada nascida no Golfo do Benim, que teria participado da Revolta dos Malês de 1835 e na Sabinada (1837-1838). 
Este existiu mesmo, mas é preciso ter caráter para homenageá-lo

Luísa Mahin também foi recentemente imortalizada como personagem principal do romance épico Um Defeito de Cor, da escritora Ana Maria Gonçalves. Mesmo assim, Luísa Mahin não aparece na documentação conhecida sobre a Revolta dos Malês. 

O historiador João José Reis, até hoje a maior estudioso dessa rebelião, afirma categoricamente na edição revisada e ampliada de seu livro Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835, que “o personagem Luísa Mahin, então, resulta de um misto de realidade possível, ficção abusiva e mito libertário”.

Apesar de serem há muito reconhecidas como personagens legendárias e não como figuras históricas, a chegada da internet tornou Dandara e Luísa Mahin ainda mais populares no imaginário brasileiro... (por Ana Lúcia Araújo)
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