(Donald Trump, flertando com a barbárie)
Estamos presenciando se não o fim, pelo menos o declínio (perigoso, mas benfazejo) de um império.
O que se viu nos últimos dias, com o presidente Donald Trump a ameaçar abertamente e sem o menor escrúpulo a extinção de uma civilização milenar como a iraniana, num país extenso e populoso (90 milhões de habitantes), bem demonstra o grau de retrocesso civilizatório causado por uma forma de relação social que se exaure pelos seus próprios fundamentos.
Os Estados Unidos, país abençoado por recursos naturais existentes em grande extensão territorial, desde a sua ocupação por imigrantes europeus (como, de resto, ocorreu em todos os outros países das Américas), deu um mau exemplo aos autóctones com a implantação de uma civilização de rapinagem trazida por governos que escravizavam os servos do feudalismo. Estes apenas se submeteram como colonos à velha ordem institucional escravista europeia.
A grande maioria dos colonos, de servos europeus passaram a ser donos de terras, e cedo trouxeram africanos escravizados em substituição aos autóctones que haviam sido dizimados por não se submeterem ao jugo dos invasores e suas culturas escravistas.
Tratados como semi-humanos, os autóctones acabaram sendo em grande parte dizimados e expulsos das terras nas quais habitavam há milênios e, incorporados à nova ordem, foram sempre tratados com resquícios de racismo desumano.
A história da humanidade em sua segunda natureza racional se pontua pela irracionalidade, ainda que se queira admitir uma evolução intelectual e científica capaz de prodígios. E Donald Trump é o exemplo mais eloquente de que há algo profundamente primário (e errado) no sentido de obsolescência no nosso modo de ser institucional e econômico.
Somos, simultanea e coletivamente, vítimas e coautores inconscientes de nossa própria tragédia; mas está mais do que na hora de mudarmos nossa realidade, até porque talvez nunca as condições contextuais tenham sido tão propícias para tanto.
Vivemos o impasse de fim de linha de uma lógica de relação social contraditória, segregacionista, escravista, socialmente destrutiva e autodestrutiva da forma, posto que a sua própria dinâmica se encarregou de expor a sua irracionalidade.
Mas, infelizmente, os governos e suas tiranias insistem em manter de pé uma forma de relação social exaurida que clama por superação. Como disse o poeta, caberá à gente exausta a tarefa da emancipação humana, e nós nos juntamentos a esse sobrecarregado contingente humano emancipatório. Aproveitemos as condições materiais e subjetivas que se apresentam para o fazermos!
A guerra de escolha promovida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, com alta disparidade de forças bélicas (que afinal demonstraram não serem tão díspares assim, posto que Davi sempre encontra meios de retrucar a violência de Golias), demonstrou a dependência econômica que pode ser exposta por fatores da assimetria de efeitos colaterais econômicos mal dimensionados pelos agressores.
Os Estados Unidos, por terem o maior PIB entre os países mundo afora e emitirem o dólar como moeda internacional, representam o centro nervoso de uma crise de fundamentos econômicos que lhe causa desespero por evidente esgotamento do seu poder de tração. Tal se expressa não só na queda de poder aquisitivo de sua população, mas, principalmente, pelo medo da perda da hegemonia internacional que exerce. É o exemplo mais claro do feitiço virando contra o feiticeiro.
O fundamento da crise atual do modo de relação social que vem se aperfeiçoando e se ajustando ao longo dos séculos de modo desigual nos diversos cantos do Planeta, reside no fato de que a sua base de sustentação configurada na exploração do trabalho humano pela escravização direta e, posteriormente, pela escravização indireta do salário, perdeu função.
A guerra concorrencial de mercado promoveu a mecanização da produção de mercadorias e agora no estágio de automação, com a substituição majoritária do trabalho abstrato (assalariado), único capaz de produzir valor econômico e extração de mais valia necessária para dar dinâmica à valorização do valor. É a morte da galinha dos ovos de ouro.
A crise mundial do capitalismo em rota direta para o colapso se acelera com as guerras e guerrilhas (como no Iêmen), e isso ocorre por três motivos básicos:
--a redução do fluxo de comércio mundial em face dos riscos de transporte de mercadorias dos navios mercantes (de valor muito maior do que as mercadorias que transportam), onerando custos de seguros dos fretes e de rotas alternativas mais distantes;
--o petróleo continua sendo o insumo mais usado na produção e transporte de mercadorias e o seu aumento de preço implica o aumento de investimento em capital constante (máquinas, instalações e insumos) na relação com o capital variável (salários), com a consequência de reduzir a porcentagem de geração de mais valia e lucro sob o capital investido, já precarizada;
--o aumento do já acentuado endividamento privado e público, por força dos investimentos em capital constante, sem que haja correspondente remuneração para pagamento dos juros dessas dívidas, aponta para o crash futuro de todo o sistema bancário que já vem demonstrando fissuras (como na crise do subprime).
Esse é o leitmotiv da rendição do governo de Donald Trump diante do clamor mundial e perda de prestígio interno do seu governo, que recua sem ver saída para a nova realidade que se apresentou perante um governante bilionário e ególatra, cuja capacidade de percepção da nova realidade é do tamanho do cérebro dos seus assessores energúmenos e imberbes a dizerem amém às suas sandices.
O capitalismo é mesmo uma contradição em processo (Marx) e que agora se explicita como metástase num corpo cancerígeno.
Nunca estivemos tão próximos da virada emancipatória da humanidade. (por Dalton Rosado)
Nenhum comentário:
Postar um comentário