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sábado, 7 de dezembro de 2024

NO QUE ANDRÉ MALRAUX, GUILHERME BOULOS E LEONEL BRIZOLA CONCORDAM

Os intelectuais e políticos passam a vida fazendo longos discursos e redigindo textos intermináveis, mas o grande público acaba guardando apenas uma ou duas frases simbólicas, negadas por eles ou das quais não se lembram. 

Frases geralmente fora de contexto, mas imortalizadas por terem sido consideradas como previsões, vaticínios ou profecias. E para quem sabe antecipar o futuro existe um enorme público de curiosos.

É o caso do francês André Malraux, escritor, combatente contra o nazismo alemão durante a ocupação da França e político francês, conhecido pelo seu livro A Condição Humana; por ter lançado as bases da política cultural francesa, logo depois da 2a. Guerra Mundial; e como ministro da Cultura.

Muitos atuais universitários não tiveram tempo para ler A Condição Humana, A Esperança ou Os Conquistadores, mas conhecem ou já ouviram falar da frase "O século XXI será religioso ou não será". Existe um grande debate sobre esta afirmação, que o próprio Malraux nega ter feito, embora muitos seus contemporâneos, garantam tê-la ouvido. Alguns imaginam ter sido uma versão paralela como "O grande problema do século 21 será religioso".

Em todo caso, embora a religião em si não seja o centro dos problemas mundiais atuais, ela está presente nas guerras no Oriente Médio e, nas Américas, ela tem  força para decidir o resultado das eleições.

Me lembrei dessa frase apócrifa ou não de Mauraux ao ouvir uma entrevista de Guilherme Boulos à
Folha de São Paulo, logo depois de sua derrota para a prefeitura de São Paulo. 

Nela, ele dizia textualmente:
"O risco é o Brasil se tornar um Irã no sentido cultural e social, com o domínio do fundamentalismo monolítico, e virar politicamente um México pelos crimes, cartéis da política e assassinatos de gente da política".
É interessante notar ter havido só essa frase sobre o fundamentalismo monolítico cultural e social iraniano, numa entrevista de quase uma hora. Boulos procurava explicar o porquê da derrota frente a uma ultradireita em expansão:
"A extrema-direita está construindo uma hegemonia de pensamento nos setores populares, conquistando setores que já foram da esquerda. Deixando uma sociedade de conquista de direitos por uma sociedade de cada um por si”.
Ou seja, Boulos apontou o fundamentalismo monolítico cultural e social, entrando nos setores populares da esquerda, sem nomeá-lo abertamente. Esse crescimento da extrema direita faz o povo ignorar minha casa minha vida, mais empregos, crescimento econômico do país com redução das diferenças sociais, etc.

Preferiu fazer referência ao Irã por estar num terreno minado, motivo pelo qual uma referência clara e direta poderia ser negativa e contraproducente. E acentuou ser necessário reagir nas redes sociais e nas ruas, para evitar o avanço da extrema-direita.

Mas afinal o que é esse fundamentalismo monolítico cultural e social, cujo nome não foi pronunciado? Os evangélicos, aos quais Lula acaba de fazer um aceno com a criação do Dia Nacional da Música Gospel (9 de julho). 

Os partidos de esquerda ainda não conseguiram encontrar o equivalente para contrabalançar a influência e penetração das igrejas e congregações evangélicas nas camadas pobres da população substituindo o discurso das conquistas sociais pelas promessas bíblicas de melhor vida depois da morte.
E aí surge outro visionário como Malraux, que teria previsto o retorno em força do islamismo e sua influência sobre a própria esquerda. Trata-se do ex-governador do Rio de Janeiro e ex-candidato à Presidência, Leonel Brizola.

Brizola também teve sua frase, hoje atual e profética na época: “Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço, o país retrocederá vergonhosamente”. 

Como no caso de Malraux, existem dúvidas quanto à origem da frase, mas Brizola, embora não praticante, era de origem metodista.

Vale lembrarmos uma reportagem do Jornal do Brasil em 1990, quando Brizola rompeu com Garotinho (evangélico presbiteriano governador do RJ) e criticou a participação de pastores evangélicos no seu governo e na equipe da vice-governadora Benedita da Silva, evangélica da Assembleia de Deus.

O crescimento em número e em influência dos evangélicos conteve o deputado federal do Psol Guilherme Boulos na sua análise de sua derrota à Prefeitura e da perda de força da esquerda. Por enquanto, ao que se saiba, nem o PT e nem a esquerda em geral encontraram um antídoto para deter o crescimento da extrema-direita apoiada nos evangélicos. (por Rui Martins)

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

VEJAM O QUE RESTOU DE UMA GRANDE MARACUTAIA CONTRA A QUAL NOS POSICIONAMOS EM 2007 – 1

Por Celso Lungaretti
Durante o segundo mandato de Lula, eu não enxergava qualquer possibilidade de uma Presidência da República sob o capitalismo servir verdadeiramente aos explorados, pois o Poder que decide, numa democracia burguesa, é o econômico. 

Então, apesar da repulsa que sentia pelo reformismo e o assistencialismo praticados pelo governo federal, eu considerava ocioso criticar as administrações petistas, já que meu foco não era o de melhorar o gerenciamento do capitalismo, mas sim o de fazer avançarem as lutas pela sua superação. 

Não transigia, contudo, no tocante à defesa dos valores mais caros aos revolucionários. Quando tais valores eram atingidos por aquele governo de esquerda que tão pouca afinidade mostrava ter com eles (vinha desprezando-os desde os expurgos que o PT efetuou em suas fileiras na década de 1980), aí sim eu ia à luta. E com toda contundência de que era capaz. 

Foi o que aconteceu durante a greve de fome de D. Luiz Flávio Cappio contra o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, porque, sendo as mesmas um recurso que revolucionários sempre utilizaram em situações extremas, eu temia que ficassem definitivamente desmoralizadas. 
Protagonistas de greves de fome fracassadas

Já bastavam os vexames do Lula e do Garotinho para dar-lhes má fama! 

Isto porque em 1980, no vigor de seus 34 anos, Lula desistira após os míseros 6 dias durante os quais recusou alimentação no Dops/SP.

E o robusto Anthony Garotinho em 2006, aos 46 anos, aguentara 11 dias. Ou seja, exatamente um sexto da duração daquela em que morreu o mártir Bobby Sands, do IRA.

Já uma greve de fome vitoriosa que teve lugar no Brasil, a dos quatro de Salvador em 1986 (vide aqui), tanto a imprensa burguesa quanto a esquerda domesticada optaram por ignorar olimpicamente, pois tal êxito não lhes convinha...   

Naquela de 2007, o bispo acabaria entregando os pontos no 23º dia, mas era um sexagenário e sua vontade só fraquejou ao sofrer um desmaio e ser hospitalizado. Aproveitando que ele estava fragilizado, médicos e sacerdotes fizeram sua cabeça.

Antes desse desfecho pífio, eu escrevi o libelo abaixo, postando-o no meu blog principal de então (Celso Lungaretti – O Rebate). E estou trazendo-o para cá porque uma reportagem desta 2ª feira (2) sobre a realidade atual do projeto de transposição lança novas luzes sobre a questão, conforme os leitores verão adiante. 
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LULA VAI MIRAR-SE EM CRISTO OU PILATOS?
Qualquer semelhança entre as frases abaixo NÃO é mera coincidência:
"Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso." (Mateus 27:24)  
"Eu tenho de escolher entre ele, que está fazendo uma greve de fome premeditada, e 12 milhões de nordestinos (...) que precisam da água para sobreviver. E não tenha dúvida que eu ficarei com os pobres." (presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lavando as mãos diante do novo protesto de D. Luiz Flávio Cappio contra o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, iniciado no último dia 27)
Resta sempre a esperança de que Lula ponha a mão na consciência e faça a opção correta: não a de repetir Pilatos, que, mesmo não vendo culpa nenhuma em Cristo, foi responsável por seu açoitamento e crucificação; mas sim a de repetir Cristo, que expulsou os vendilhões do templo para evitar que continuasse servindo de covil a ladrões.

O bravo bispo de Barra (BA), que já ficara 11 dias sem alimentar-se em 2005, sustenta que “essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital”, acusando o Governo Federal de difundir “propaganda falsa” e Lula, de desrespeitar o acordo que pôs fim à greve de fome anterior: 
D. Flávio Cappio sendo levado para o hospital

— Nós só suspendemos o jejum lá em Cabrobó porque houve um compromisso para que fossem paralisadas as obras e houvesse negociações. Nós confiamos na palavra do governo. O diálogo teve início, mas logo se acabou. Nós acreditávamos que fosse devido ao ano eleitoral. Quando Lula foi reeleito, nós o procuramos, pedindo a reabertura do diálogo. A resposta do presidente foi o início das obras de transposição, usando o Exército. O governo manteve-se surdo. As coisas ficaram piores. Este é o motivo pelo qual retomei o jejum.

Segundo os opositores, a transposição vai ter impacto extremamente negativo sobre o rio São Francisco (que já está fragilizado e necessitando de urgente revitalização) ao levar suas águas para os grandes açudes do Nordeste, com a principal finalidade de favorecer empreendimentos privados. 

Alegam que, pela metade do custo, poderia ser implementados projetos como o da Agência Nacional de Águas, para beneficiar os 32 milhões de habitantes de mais de mil municípios; e as obras da Articulação do Semi-árido Brasileiro, voltadas para outros 10 milhões. 

Então, tanto em termos ambientais quanto econômicos, seria uma péssima destinação dos recursos públicos. "O governo se tornou a voz de um pequeno grupo da elite e, infelizmente, o presidente Lula se tornou refém do capital internacional", afirma D. Cappio, que desta vez se diz disposto a levar seu protesto até a morte, se não for retirado o Exército e arquivado o projeto. “O rio e o povo merecem.”
Não deveriam envolver Antônio Conselheiro com mamatas!
Ele também rebateu as críticas dos que o acusam de suicida, como o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, para quem “essa postura fundamentalista do bispo vai contra ensinamentos da igreja, como saber que é pecado atentar contra a vida”:

— Eu recomendaria que conhecessem um pouquinho mais a pessoa de Jesus Cristo e a sua doutrina. Que lessem o Evangelho de João 10:10, onde Jesus diz que ele é o bom pastor, que veio pra doar a vida às suas ovelhas. A história da Igreja é uma história de mártires, de homens e mulheres que deram a vida por amor à sua fé, por amor a seus irmãos. 

Finalmente, vale lembrar que personagens históricos da grandeza do Mahatma Gandhi também consideraram válida uma “greve de fome premeditada”, como recurso extremo para tentarem fazer com que a justiça prevalecesse, quando todos os outros caminhos estavam bloqueados. (por Celso Lungaretti, em 05/12/2007)
(continua neste post)

domingo, 31 de dezembro de 2017

MUITOS TERNOS, SMOKINGS E VESTIDOS JÁ FORAM LAVADOS. FICARAM FALTANDO AS TOGAS. SUA VEZ CHEGARÁ EM 2018?

Por Jânio de Freitas
SÓ PARA ESQUENTAR
A crítica de que o Judiciário não recebeu as atenções da Lava Jato cresceu desde que o poder político do Estado do Rio se tornou alvo. Pois agora, um dos mais graúdos e mais conhecedores dos subterrâneos do seu meio, preso sem esperar complacências, revelou a amigos a disposição de abrir a cortina do Judiciário. Iniciativa que criaria na Lava Jato uma etapa diferente de tudo o que houve até aqui. 

A sensibilidade do Judiciário é muito maior que a dos demais poderes, não sendo necessário grande número de acusações para irradiar uma crise. Além disso, cada figura atingida, com veracidade ou não, como é do método da Lava Jato, em princípio desfruta das condições materiais para mover seus interesses em tribunais, quer dizer, é sempre alguém de notoriedade. O que inclui Brasília.

Ainda no Judiciário, o confronto envolvendo o juiz Glaucenir Oliveira, de Campos (RJ), e naturalmente Gilmar Mendes, transborda esquisitices. Esse juiz, dado a incidentes, fixado em demolir Anthony e Rosinha Garotinho, surgiu nas redes em uma gravação de acusações gravíssimas e insultos muito fortes ao ministro. 

No que disse de mais barato, o ex-governador pagou a Gilmar pelo habeas-corpus para tirá-lo da prisão. "Uma mala grande", diz Oliveira ter ouvido de "gente de dentro". Versão mais do inverossímil, tanto pelo pagador como pelo recebedor.

Mas por que a caça, não de agora, ao ex-governador? Até delegado da Polícia Federal já se complicou nesse tiro ao alvo. "Briga de grupos políticos". "Disputa de domínio religioso". "É um esquema para tirar Garotinho da disputa pelo governo do Estado". 

Tudo isso, e mais alguma coisa, é possível. Mas não explica a ausência da PF na apuração de atos, inclusive de aparência oficial, que ferem liberdades democráticas em geral e, em particular, direitos político-eleitorais.
Divulgada a gravação de ataque a Gilmar Mendes, seu imediato pedido de ação da PF resultou na informação de que a autenticidade da voz do juiz seria logo verificada. 

Investigação em sigilo, vá lá, porém em mais de uma semana não se teve notícia do que levaria apenas minutos. Com várias reputações em jogo.

O texto de solidariedade ao ministro, por dez integrantes do STJ, parece feito para evitar que a pedra posta sobre o assunto se transforme em lápide. 

E, conquanto não seja pouca a opinião de que Gilmar Mendes provoca reações crescentes, está sendo articulado o afastamento do juiz Glaucenir Oliveira. O que resolve um lado do problema, mas não o outro. A cúpula do Judiciário mais se divide do que se recompõe.

sábado, 26 de novembro de 2016

PEDRO CARDOSO: MANDADOS DE PRISÃO SOBEM DE HIERARQUIA NO RJ.

Garotinho chegando no reformatório e Cabral descobrindo a prisão
Até nas prisões de ex-governadores o Rio de Janeiro se tornou pioneiro. Na semana passada, dois fluminenses foram presos: Sérgio Cabral pela Operação Lava-Jato e Anthony Garotinho sob a acusação de compra de voto. 

Antes, ninguém do andar de cima era alcançado pelas leis ou pela justiça. O mensalão foi um divisor de águas entre a impunidade reinante e a punição de gente graúda. Até os ministros do Supremo Tribunal Federal demonstravam perplexidade.

Num passado não muito distante, vez ou outra era condenado um prefeito ou um vereador de cidadezinhas nos grotões do Brasil.  Tudo acabava em cestas  básicas.
Nenhum limão é azedo demais para se fazer limonada...

A Operação Lava-Jato, a assombração de Brasília, fez o brasileiro acostumar-se com a prisão de gente grande, além de fazer escola junto aos demais juízes de primeira instância. 

Os tribunais superiores só demonstraram ciumeira. Já que não mudaram por iniciativa própria, deveriam ter aprendido a lição. Mas, vale mais o orgulho de seus ministros e o argumento de dizer apenas que não têm processo demais, mas sim não têm perfil para esse ou aquele julgamento. Além de coroarem com o argumento de que a demora eterna resulta em julgamentos perfeitos.

Neste episódio das prisões dos peixes grandes, ficou estranha a coincidência entre a prisão de Garotinho e uma gravação de voz atribuída a ele no Fantástico, em que se mostra satisfeito por seu processo ter ido para uma relatora  do Tribunal Superior Eleitoral.  

Quando a gravação foi ao ar, ela já havia determinado a transferência de Anthony Garotinho para um hospital particular – seria um castigo demasiado ele ser tratado numa daquelas pocilgas que deixou para a população quando era governador – e, pouco depois, ganhou prisão domiciliar.
A verve dos cariocas nunca falha

Como o caso ficou mal com essa coincidência entre gravações do beneficiado e o resultado que ele pretendia, o plenário do TSE deveria agilizar o julgamento desta liminar ou do mérito.  

Da mesma forma deveria ter agido o Supremo Tribunal Federal, com relação ao fatiamento do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff.

Preocupam, apenas, os novos artifícios que os tradicionalmente impunes decerto adotarão, agora que quem aprontou está começando a pagar.

Nós, sociedade, deveríamos botar o bloco nas ruas, como em 2013, para evitar que esses assombrados aprovem leis engessadoras para ficarem livres de possíveis acertos com a Justiça. Aqueles do andar de cima que coloquem as barbas de molho.

Se ex-governadores, ministros e senadores não saírem mais como cordeirinhos, aumentará a força da mais eficiente Polícia Federal do mundo.

domingo, 20 de novembro de 2016

ARTIGO DE HOJE DO CARLOS HEITOR CONY FAZ LEMBRAR OS DE MEIO SÉCULO ATRÁS. QUEM FOI REI, NUNCA PERDE A MAJESTADE!

Por Carlos Heitor Cony
O RIO AMANHECEU CHORANDO
Uma onda de insânia, um tsunami moral e financeiro fizeram o Rio de Janeiro dar um tiro no próprio pé. 

Depois do sucesso indiscutível da Olimpíada (sucesso efêmero, mesmo assim grandioso), a cidade, que continua sendo a capital cultural do Brasil, cantada por gregos e troianos como a mais maravilhosa do mundo em sua parte panorâmica, está amargando os piores momentos da sua história, o inverno de nosso descontentamento [alusão ao livro de John Steinbeck, um clássico da literatura mundial] que já se transformou num inferno de nossa vergonha.

Não se trata de balas perdidas, guerra de traficantes do Complexo do Alemão e violência generalizada. Desta vez, o furo é mais em cima. 

São autoridades eleitas pelo povo que se transformam em Al Capones subdesenvolvidos, que sangram o dinheiro e a honra da cidade que já foi maravilhosa e hoje parece tenebrosa.

Entre os descalabros da semana que passou, o mais lamentável não foram as prisões de dois ex-governadores e outras autoridades estaduais.

O mais deplorável, e também o mais perigoso, foi a turma que invadiu a Câmara dos Deputados, em Brasília, clamando pela volta dos militares.

Até agora, pelo que se sabe, o Exército permanece em seu papel de grande mudo. Apesar do recente e truculento movimento de 1964 que se prolongou por 21 anos, o povo, em sua maioria de classe média, começa a pensar numa solução cruenta, que ponha fim à corrupção e à incompetência que tiveram no PT sua maior expressão.

Desta vez não podemos culpar o imperialismo e a gula de países interessados em nossas riquezas naturais. Infelizmente, os desmandos atuais fazem parte do DNA de um povo que amanheceu cantando e agora anoitece chorando. O mais deplorável é que não chegamos ainda ao fundo do poço.

sábado, 19 de novembro de 2016

A EBULIÇÃO SOCIAL, A CORRUPÇÃO E A SUTILEZA DA MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA.

"A pior forma de desigualdade é tentar
fazer duas coisas diferentes, iguais"
(Aristóteles, filósofo grego) 
Como dizia a letra do samba intitulado Plataforma, “não sou candidato a nada... mas o meu peito não se conforma”. 

Não tenho o perfil de ganhador de Prêmio Pulitzer, do Nobel de Literatura, e muito menos eu me habilito a vestir um fardão de qualquer academia de letras. De pessoas com fardão só aceito aqueles humildes atendentes de portarias de hotéis cinco estrelas que, quando tiram aquela ridícula fantasia de gala, pegam ônibus lotados para as suas humildes residências. 

É por não pretender galardão de qualquer espécie que tenho a pretensão (talvez vaidosa, pois existe a vaidade de não ter vaidade) de tentar botar o dedo na ferida com liberdade e isenção.  

Vivemos um incrível período de ebulição dentro do chamado Estado de Direito, cujas causas e efeitos merecem análise acurada.

Os três poderes da República funcionam institucionalmente,  os estados e municípios têm governantes eleitos. Só que: 
- prendem-se políticos corruptos em processos judiciais como nunca antes se viu neste país (um ex-presidente da Câmara dos Deputados há um mês e dois ex-governadores do Rio de Janeiro em menos de 24 horas); 
 - a presidente eleita é afastada do cargo por diversos fatores, que vão da convivência com a corrupção até a manipulação contábil do Tesouro como forma de se encobrir o verdadeiro caos das contas públicas; 
- o vice-presidente que dirigia o partido que dava sustentação política à presidente deposta termina se beneficiando do próprio caos que ajudou a criar (e da chapa eleitoral) e se torna presidente da República. Tudo constitucionalmente resolvido e continuado;     
- nada funciona na economia. O PIB do Brasil permanece caindo; 
- o desemprego, aumentando; 
- a União apresenta um orçamento com déficit de bilhões;  
- os estados e municípios, que não emitem moeda sem lastro (como disse o Pesão, governador do RJ, num arroubo de sinceridade que denuncia a prática comum aos governos federais, causadora de inflação num período de depressão econômica, tal é a gravidade da situação), estão falidos e com dificuldades até de pagar salários do funcionalismo e dos aposentados. 
Não é de se admirar que numa situação destas, pre-anomia política, grupos das mais variadas tendências políticas se sintam compelidos a resolver tais problemas na marra. 

Foi o que se viu quando um grupo de manifestantes interrompeu sessão da Câmara Federal agredindo pessoas e pedindo intervenção militar, como se os fardados tivessem o poder de resolver problemas econômicos que não dominam (ou que dominam tanto quanto a turba que os quer no poder).

QUESTÃO NODAL: A FALÊNCIA DO CAPITALISMO.  

O mais grave disso tudo é a perigosa manipulação midiática da crise. Ouvi e vi, na cobertura em TV fechada de um canal pertencente a uma grande rede de televisão, uma multidão exultando com a prisão dos ex-governadores. Havia quem usasse lenços brancos na cabeça e estourasse champanhe, numa alusão a um triste evento num restaurante de luxo internacional patrocinado por um dos ex-governadores presos. Uma apresentadora afirmou ser "triste vermos que todo o sofrimento da população vem dessa corrupção com o dinheiro público”. 

Qualquer espectador passivo e justificadamente indignado com a corrupção engole tal pílula midiática sem água e sem perceber a mensagem subliminar. Tentam convencer a todos e a si próprios que tudo é uma questão de gestão competente e honesta, e não de forma e conteúdo de uma relação social falida por seus próprios fundamentos, silenciando sobre a questão nodal: a falência do capitalismo!

O dano causado pela corrupção é grave. Além de retirar do povo recursos que deveriam ser utilizados em seu benefício ao invés de desperdiçado em espetáculos grotescos de mulheres de políticos recebendo joias e mimos de milhares de dólares em meio a uma celebração bizarra num hotel internacional suntuoso, demonstra a relação promiscua dos governantes que não se regem pela definição de prioridades num orçamento público sabidamente deficitário, mas sim pelo interesse econômico que dita o processo eleitoral e pelo desejo de enriquecimento fácil. 

Mas apesar de tantos desvios de dinheiro e de conduta, este ainda não é ponto fulcral do problema, como quer fazer-nos crer o comentário da tal apresentadora, cujo subtexto é: “Se acabarmos com a corrupção, tudo se resolverá”. 

Tal comentário, superficial mas muito bem elaborado, dentro dos limites aceitáveis para uma crítica jornalística chapa branca, incita a população revoltada contra um alvo equivocado, pelo menos para quem guarda um sentimento de credulidade sistêmica conservadora ou por quem se considera um mudancista (ainda que meramente reformista); ou ainda, se quisermos rotular os comportamentos (o que é sempre uma postura temerária e susceptível de equívocos), para a chamada direita e a chamada esquerda.

Há um silêncio midiático retumbante (se é que cabe tal figura de retórica) quanto a um ponto fundamental, sobre o qual nada se ouve e não se lê uma linha sequer: o fato de que o sistema não tem mais uma conexão mínima com a capacidade de provimento das necessidades sociais. Este ponto fundamental silenciado se refere à ocorrência, às causas e às consequências da falência sistêmica econômica e política mundial (o segundo aspecto ligado ao primeiro) do capitalismo!

Por que a apresentadora e comentaristas da referida rede de televisão passam batidos pela questão da falência do sistema capitalista? 
Por que não reconhecem a sua existência e não aprofundam as razões de sua ocorrência? 

É porque a empresa para a qual trabalham faz parte de um sistema que é corrupto ontologicamente e antologicamente. Embora noticie o combate à corrupção, é do sistema corrupto que retira os seus lucros para remunerar os empregados jornalistas, deles extraindo mais-valia (uma das espécies de corrupção), ainda que os ditos cujos sejam excepcionalmente bem pagos na comparação com os demais trabalhadores jornalistas de mídias menos abrangentes.    

A corrupção política é um cancro social abominável, que deve ser combatido com antibióticos jurídicos penais e civis em dosagens fortes, como agora ocorre graças a magistrados e promotores que se vestem com as roupas de paladinos da justiça. A corrupção sistêmica, contudo, é consentida por leis e inalcançável pela justiça, daí sua letalidade em termos sociais! (por Dalton Rosado)
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terça-feira, 20 de julho de 2010

ESTA GREVE DE FOME FOI VITORIOSA -- E TODOS PREFEREM ESQUECER!

Atendendo a pedido do poeta, jornalista e
militante revolucionário Rubens Lemos
(foto), fui porta-voz da greve de fome
do seu filho Marcos Wilson, em 1986.


A nós, brasileiros, as greves de fome pareciam ser um instrumento ultrapassado na luta política, depois do abandono, por diferentes motivos, das mais conhecidas que aqui tiveram lugar nas últimas décadas: as iniciadas por Lula e outros sindicalistas do ABC, D. Flávio Cappio, Anthony Garotinho e Cesare Battisti.

A experiência cubana de 2010 mostrou que não é bem assim: o sacrifício de Orlando Zapata e a obstinação de Guilherme Fariñas comprovam que ainda existe quem morra por seus ideais e também quem saia vencedor desse desafio extremo.

Há exatos 24 anos tive a oportunidade de contribuir para outra vitória -- e aqui no Brasil! --, quando militantes nordestinos adotaram tal forma de luta e tive de fazer esforços desesperados para conseguir repercussão na imprensa. Só que, por ser inconveniente para a direita derrotada e a esquerda omissa, foi convenientemente relegada ao esquecimento.

Daquela vez muitos se furtaram ao dever da solidariedade: houve quem se distanciasse completamente e quem não fizesse tudo que podia/deveria.

Mesmo assim, os esforços bem-intencionados frutificaram -- ainda que de forma dramática, a duríssimas penas.

Para reconstituir o episódio, aproveitarei a narrativa que fiz em Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005), único livro que parece ter registrado tal acontecimento.

Como escrevi boa parte do Náufrago na 3ª pessoa, refiro-me a mim mesmo pelo pseudônimo que então utilizava para driblar a censura do regime militar: André Mauro.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa:
"Final de 1986. André chega atrasado para a reunião da Cacimba, numa tarde de sábado. O grupo literário se distribui por cadeiras e pelo chão do quarto. A palavra está com um visitante ilustre: Rubens Lemos, jornalista, poeta e velho militante comunista. André cumprimenta a todos, pede desculpa pelo atraso e se acomoda. Rubens continua expondo o problema que o trouxe a São Paulo.

"Seu filho e três outros companheiros foram presos ao assaltarem um banco na capital baiana, alguns meses atrás. Dinheiro para a revolução, uma prática que já parecia extinta. Por serem todos petistas, a imprensa fez estardalhaço. E o partido, temendo que esse fato fosse explorado na campanha eleitoral, voltou as costas aos chamados quatro de Salvador.

"O PT está obsessivamente empenhado em livrar-se da imagem de reduto dos antigos terroristas.

"Na primeira eleição de que participou, em 1982, a lei eleitoral só permitia a exibição, no horário gratuito da TV, do currículo e foto de cada candidato. Os aspirantes petistas a deputados eram quase todos originários da resistência à ditadura — e orgulhavam-se disso, fazendo questão de destacar a condição de ex-presos políticos.

"A direita, por sua vez, aproveitou ao máximo para insuflar preconceitos. Colocava em circulação piadas tipo “os candidatos do PT não estão mostrando currículos, mas sim folhas corridas e boletins de ocorrência”...

"Então, na eleição de 1986, o que o partido mais queria era dar a volta por cima, projetando uma imagem de respeitabilidade. Quando a prisão dos quatro de Salvador ameaçou relacionar o PT com as expropriações outrora praticadas pela vanguarda armada, foi um deus-nos-acuda!

"Além de negar qualquer apoio a esses militantes, a tendência majoritária começou a reprimir e expurgar as correntes radicais abrigadas em suas fileiras. Pertencer simultaneamente à Articulação e ao PT continuou in, mas ser da Convergência Socialista e do PT virou out. Porta da rua é serventia da casa.

"Os quatro párias ficaram numa situação extremamente vulnerável — e os policiais, contrários à redemocratização do País, não desperdiçaram a chance. Agentes da Polícia Federal começaram a levá-los a outros Estados, sem mandado judicial nem comunicação a seus advogados, para serem mostrados a testemunhas de todos os assaltos a bancos ocorridos em passado recente.

"Nem mesmo a Ordem dos Advogados do Brasil obtinha permissão para dar assistência aos prisioneiros nessas praças e acompanhar os reconhecimentos. Havia uma intenção óbvia de inculpá-los de tantos delitos quanto fosse possível.

"A gota d’água foi o telefonema recebido por Rubens Lemos na rádio de Natal em que comanda um programa esportivo, alertando-o de que os explosivos recentemente roubados de uma pedreira se destinariam à simulação de uma revolta no presídio de Salvador; no meio da confusão, os quatro seriam assassinados.

"Lemos fez essa denúncia no ar, abortando — se havia — tal plano. Os quatro decidiram entrar em greve de fome a partir de segunda-feira. Dois dias antes, não há nenhum esquema de imprensa estruturado para fazer com que seu protesto repercuta nas principais capitais do País.

"O comitê de solidariedade paulista é imediatamente formado. E André aceita ficar com a missão mais difícil: colocar a greve de fome no noticiário...

"Começa enviando um comunicado à imprensa para cientificá-la da greve. Ninguém publica.

"Convence Lemos a escrever uma carta emocionada à população brasileira, afirmando que, em face de seus (reais) problemas cardíacos, delega ao povo a missão de assegurar a sobrevivência do filho Cícero, caso não possa fazê-lo pessoalmente. Ninguém publica.

"Visita deputados, redações, agências noticiosas. Na do Governo Federal, a Empresa Brasileira de Notícias, quem o atende é um agente do Serviço Nacional de Informações travestido de jornalista. Fazendo-lhe uma ameaça velada:
— O tempo não está bom para os presos políticos e muito menos para quem já esteve preso. Se for pra jaula de novo, é bem provável que nunca mais saia. Ou ir direto pra baixo da terra...

"Tem melhor sorte nos contatos com os correspondentes estrangeiros, que enviam algumas linhas a seus veículos. Mas é pouco para incomodar o governo brasileiro.

"A cada dia, aumenta a apreensão no comitê de solidariedade. André atua em tempo integral, atirando em todas as direções.

"Procura o promotor Hélio Bicudo, que já entrevistara para uma revista, e pede ajuda. Bicudo lhe dá uma apresentação para a Cúria Metropolitana de São Paulo. Acaba conseguindo uma carta anódina na Igreja, na linha por piores que hajam sido seus crimes, esses presos devem ter seus direitos respeitados. Ninguém publica.

"Faz idêntica gestão na OAB, obtém uma carta igualmente cautelosa e também a distribui inutilmente aos jornalistas.

"Manda um fax pessoal a todos os diretores-proprietários de veículos da grande imprensa, alertando-os de que, caso persista o boicote às notícias sobre a greve de fome, frustrando quaisquer chances de atendimento das reivindicações, caberá a eles a responsabilidade por qualquer tragédia que venha a ocorrer.

"Quando já não sabe mais o que fazer ou a quem recorrer, o colunista que escreve sobre o Rio de Janeiro na página de Opinião da Folha de S.Paulo, Newton Rodrigues, dedica todo seu espaço daquele dia ao assunto. Diz que recebeu do jornalista Lungaretti uma denúncia consistente sobre violação dos direitos humanos dos quatro de Salvador, tendo repassado-a ao ministro da Justiça, Fernando Lyra.

"André, que enviara o dossiê a Newton Rodrigues apenas por causa das posições libertárias que este assumia na coluna diária e do seu passado de resistência ao golpe de 1964, fica então sabendo que o veterano jornalista faz parte do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (...). Um golpe de sorte, no momento exato! Os quatro, segundo os médicos, começam a correr riscos mais graves!

"No dia seguinte, Rodrigues relata a seqüência do caso: o ministro determinou ao governador da Bahia, Waldir Pires, que tome as providências cabíveis para que a greve de fome tenha um desfecho humanitário.

"André e o comitê de solidariedade são informados de que o governador baiano oferece aos presos a garantia de não serem mais seqüestrados pela Polícia Federal para reconhecimentos arbitrários, além de estar disposto a permitir que estudem ou trabalhem durante o dia, somente pernoitando na prisão.

"Mas os quatro, empolgados com a mobilização de estudantes de Salvador em seu favor, pretendem prolongar a greve de fome por mais dois dias. Querem arriscar ainda mais a vida para desfrutar seu momento de glória, depois de terem sido vilipendiados pela própria esquerda!

"André compreende seus sentimentos, mas considera o êxito político mais importante do que o desagravo pessoal. Então, na reunião do comitê, ele é incisivo:
— Estávamos sem perspectiva nenhuma e a vitória praticamente caiu do céu. Não podemos permitir, de jeito nenhum, que ela se transforme em derrota.

"Decide-se mandar um ultimato a Salvador: ou os quatro saem imediatamente da greve, ou o comitê de apoio paulista vai mandar um comunicado a todos os jornais expressando sua discordância dessa postura.

"É um blefe pois, a julgar pelos precedentes, ninguém publicaria. Mas, surte efeito. Depois de mais de uma semana sem alimentar-se, os quatro são socorridos e se restabelecem plenamente.

"Como recompensa por ter agido enquanto o PT se omitia, André recebe um insulto insólito do dirigente petista Rui Falcão:
— O Lungaretti e os quatro de Salvador são todos cachorros loucos!"
ÚNICA ATITUDE DO PT: EXPULSAR TODOS ELES

Por último, vale acrescentar que, ao relatar este episódio no meu livro, ainda não havia registros na Internet a que eu pudesse recorrer para checar/complementar o que retinha na lembrança, quase duas décadas depois.

Agora há, embora seja uma notícia bem tendenciosa, refletindo a visão repressiva que se mantinha inalterada nos órgãos de segurança em 1986 (vide aqui). Ainda assim, serviu para eu colher alguns dados.

P. ex., a tentativa frustrada de assalto a uma agência bancária de Salvador ocorreu no dia 11 de abril de 1986 e o filho do meu falecido companheiro de coletâneas poéticas Rubens Lemos (1941/1999), que estava entre os militantes presos, era o Marcos Wilson, então com 22 anos.

Embora ficasse conhecido no noticiário como os quatro de Salvador, aparentemente o grupo tinha seis integrantes, dos quais foram identificados cinco: o próprio Marcos, José Wellington Diógenes, Cícero Araújo, Jari José Evangelista e Antonio Prestes de Paula. Talvez algum deles não tenha sido preso, pois a greve de fome, lembro-me bem, foi só de quatro.

Mas, acabaram todos cinco expulsos do PT, que não lhes deu chance de apresentar sua defesa e só se preocupou com os danos à sua imagem pública, não movendo uma palha para evitar que sofressem arbitrariedades na prisão.
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