Mostrando postagens com marcador moralismo rançoso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador moralismo rançoso. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de junho de 2024

O LULA DIZ PARA SE DANAREM OS ARTISTAS QUE ENSINAM PUTARIA ÀS CRIANÇAS. ESTARÁ FLERTANDO COM UMA VOLTA DA CENSURA?

"Cruz, credo! O tal Michelangelo tem de se 
danar! Criança não pode ver essa putaria!"
De hora em hora, o Lula piora. Ou perdeu a memória, ou crê que nós todos a perdemos, pois acaba de fazer uma profissão de fé naquele moralismo rançoso que virou peça de museu a partir da década de 1960:
"Eu sou da turma em que artista, cinema e novela não é (sic) para ensinar putaria. É para ensinar cultura, contar historia, contar narrativas, e não para dizer que nós queremos ensinar às crianças coisas erradas. Nós só queremos fazer aquilo que se chama arte. Quem não quiser entender o que é arte, dane-se. Queremos muita arte, muita cultura".
Depois de ele haver admitido que no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo usava o seu cargo para cantar as viúvas que vinham atrás dos seus benefícios e de ter sido fulminado em plena campanha eleitoral de 1989 pela revelação de que escondia a existência de uma filha fora do casamento e pressionara em vão a amante para abortá-la em benefício de sua carreira política, que moral ele tem para dar palpites sobre o que deva ou não ser ensinado ás crianças? 

Além de levantar um assunto totalmente desaconselhável para quem possui telhado de vidro, o Lula parece inclusive estar pregando a volta à abominável censura artística do período militar. Sua incontinência verbal não tem mais limites.  

Faz um bom tempo que ele deixou de sentir necessidade de esconder que foi, desde o início de sua trajetória sindical, um conservador em pele de esquerdista, com uma visão política absorvida do coronelismo nordestino e lapidada pelo sindicalismo de resultados estadunidense. 

Mas, a desfaçatez com que ele descarta os valores que um dia fingiu professar desembestou de forma chocante no terceiro mandato. 
Sua verdadeira compulsão de chocar e espezinhar aqueles dos quais serviu-se para a conquista da faixa presidencial se tem voltado, nos últimos tempos, para a pauta de costumes. A nova aposta reeleitoral é a de ele se tornar um sapo engolido pelo poder econômico como a alternativa menos extremada ao bolsonarismo. 

Sonha com o tetra sem haver honrado os compromissos assumidos para, na bacia das almas, conquistar o tri . Embriagado com sua condição de principal serviçal dos que realmente mandam no Brasil, parece nem dar-se conta de que de que seu prazo de validade está chegando ao fim e a sua maria-fumaça pode muito bem descarrilar no meio do caminho. 

Seria uma justiça poética o Lula ser usado e jogado fora assim como, desde a década de 1970, vem usando e jogando fora as bandeiras da esquerda combativa. 

Mas, um novo impeachment tenderia a produzir outro monstro, provavelmente o governador paulista Tarcísio de Freitas, já que falta ao palhaço assassino equilíbrio mental para não atrapalhar os negócios dos poderosos, como fez ao sabotar a vacinação contra a covid-19, o que apenas alongou em muito a paradeira geral causada pela pandemia. 

Os episódios do Jânio Quadros, Fernando Collor e Dilma Rousseff evidenciaram que quem é expelido da presidência da República não volta a ela no Brasil. E salta aos olhos que o Bozo não será exceção (alguém pode tentar contrapor o caso do Getúlio Vargas, mas ele não foi defenestrado como presidente eleito e sim como o ditador do período 1930-1945).

Enfim, melhor será se um dos incontáveis ministros do Lula convencê-lo a desistir desses sincericídios, caso contrário vai estar não só dando tiros no pé, como poderá despertar suspeitas de que algo da loucura do antecessor escapou no ano passado à desinfecção do 3º andar do Palácio do Planalto. (por Celso Lungaretti)
Qual será a opinião do palpiteiro com faixa presidencial sobre o erotismo
refinado do Raul Seixas? Ele também o coloca na vala comum da putaria? 

domingo, 29 de outubro de 2017

O FESTIVAL DE HIPÉRBOLES DEFORMA O DEBATE POLÍTICO. O DE MORALISMO RANÇOSO TENTA RESTAURAR A CENSURA.

TEMPOS DE HISTERIA
Vivemos tempos histéricos. Não que isso seja o fim dos tempos. A democracia liberal permite aos cidadãos serem tão hiperbólicos quanto desejarem.

Apesar de o exagero ser permitido, não creio que seja bom conselheiro. Ao contrário, penso que uma análise equilibrada dos fatos é o ponto de partida necessário para decisões sábias. Assim, hesito entre a frustração e o divertimento (não podemos perder o bom humor) ao ver gente protestando contra a pedofilia em museus, a ração humana para pobres ou a revogação da Lei Áurea.

O Congresso andou endurecendo as leis de crimes sexuais, mas, até onde sei, levar filhos a uma exposição que mostre nus ainda é uma atitude legal, assegurada pelo princípio da liberdade de expressão e pelas normas que dão à família o direito de educar rebentos segundo seus próprios valores, não os do MBL.
Se museu de arte moderna não comporta isto, para que serve?!

O prefeito João Doria, mais uma vez, pisou na bola ao privilegiar factoides em detrimento de planos consistentes, mas, até onde sei, não há nada de intrinsecamente errado ou imoral em liofilizar alimentos prestes a vencer. É tudo uma questão de mostrar que a farinha resultante é segura e útil –o que o prefeito não fez.

Já a portaria que muda a definição de trabalho análogo à escravidão tem problemas morais, legais e políticos, mas, daí a afirmar que equivale à revogação da Lei Áurea, vai enorme distância. Por mais graves que sejam os abusos hoje cometidos por empregadores, não dá para compará-los com a escravidão de verdade, que incluía chibatadas, admitia a venda de pessoas, a separação de famílias e ainda mobilizava o Estado para recapturar os negros fujões.

Aliás, não entendo como o movimento negro, que protesta até contra o uso da expressão black is beautiful num comercial, nunca se insurgiu contra o uso do termo escravo no contexto trabalhista. Essa sim me parece uma imagem que avilta a memória da chaga que foi a escravidão.

De volta aos velhos e maus tempos: meio século depois,
somos obrigados a gritar de novo É PROIBIDO PROIBIR!

domingo, 22 de outubro de 2017

"É TRISTE QUANDO ATÉ MUSEUS PARAM DE BRIGAR PARA QUE ADOLESCENTES TENHAM ACESSO Á ARTE"

MASP FORA DA LEI

"O Masp se acovardou ao organizar uma exposição sobre sexualidade em que não admite a presença de menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos responsáveis. Pior, o faz com base numa interpretação de dispositivos legais e infralegais que me parece francamente inconstitucional.

O ponto central é que o constituinte de 1988 sabiamente retirou do Estado a possibilidade de determinar o que os cidadãos podem ou não dizer, escrever, ler, assistir, encenar etc. O banimento da censura aparece duas vezes na Carta, no art. 5º, IX e no 220.

O que o constituinte reservou para a União, na tentativa de proteger menores, foi só a competência para proceder a uma classificação etária de diversões públicas, tomando o cuidado de especificar que ela tem caráter apenas indicativo (art. 21, XVI). Isso significa que a classificação é uma simples sugestão, a ser ou não acatada pelos pais —o que é razoável, considerando que o grau de maturidade de cada jovem assim como os valores de cada família variam.

Grupos conservadores adoram se socorrer em normas programáticas do Estatuto da Criança e do Adolescente, como o "direito ao desenvolvimento moral" (que significa qualquer coisa e, portanto, nada), para tentar justificar impulsos liberticidas. 

Mas, quem ler o ECA com atenção, verificará que ele em nenhum momento proíbe menores de visitar nenhum tipo de exposição. Diz só que informações sobre a natureza do espetáculo e a faixa etária a que se destina precisam ser afixadas em local visível. Trata a classificação etária como recomendação, isto é, um conselho, para o qual os pais podem, se quiserem, dar uma banana.

O que há é a portaria nº 1.100 que admite o poder dos pais de passar por cima da classificação etária, exceto quando ela for de 18 anos. Salvo melhor juízo, tal dispositivo carece de base legal e contraria a Carta.

É triste quando até museus param de brigar para que adolescentes tenham acesso à arte. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

MAIS RETROCESSO: MINISTRO DA JUSTIÇA QUER CENSURA PRIVATIZADA!!!

Está na coluna da Mônica Bergamo desta 4ª feira, 4:
"O ministro da Justiça, Torquato Jardim, quer mudar o sistema de classificação indicativa no Brasil. 'Vamos continuar tendo uma repartição em Brasília para dizer a idade em que se pode assistir a novela e cinema no país? É uma loucura. Está na hora de a sociedade assumir isso', diz ele.
Jardim afirma que já abriu a discussão no ministério. Hoje, oito analistas e 12 estagiários classificam produtos para TV, cinema e vídeo, jogos eletrônicos, aplicativos e jogos de interpretação.
O ministro cita o exemplo dos EUA: segundo ele, associações privadas ligadas à produção de conteúdo fazem pesquisas com as comunidades para estabelecer recomendações de idade e até alterar o conteúdo das obras.
Já no caso de exposições de arte, focos recentes de polêmicas, ele diz que a discussão é 'mais complicada' pois o acesso 'é restrito'. As mostras não estão sujeitas à regulamentação do ministério. O artigo da lei que determina a autoclassificação não cita museus e artes visuais.
Depois da polêmica do MAM com a performance de um homem nu, os museus dizem querer aprimorar a autoclassificação".
O canto de sereia ministerial é igual ao da lenda: quem se deixar hipnotizar por ele será devorado. 

Como o Estado abdicou da inglória tarefa de nos tratar a todos como incapazes de avaliar o que é bom para nós e para nossos filhos, o tal Torquato (um antípoda do grande poeta tropicalista Torquato Neto) quer privatizar a censura, colocando os artistas e pensadores à mercê da invasão bárbara de autoritários e totalitários compulsivos, que passam a vida querendo tutelar a vida dos seres humanos equilibrados e saudáveis. 

Suas pressões e mobilizações acabarão determinando o que vamos poder ver, ler e ouvir. E, como os produtores de arte geralmente enfrentam dificuldades financeiras para viabilizarem suas obras, tenderão, por receio de prejuízos, à autocensura e ao emasculamento das propostas originais. 

Foi bem lembrada pelo ministro a submissão da indústria de entretenimentos estadunidense à tirania da mediocridade preconceituosa e reacionária. Lá está tudo dominado há muito tempo, hoje com mecanismos de controle mais sutis mas não menos efetivos do que os do período 1930-1967, em que era avassaladora a influência do Código Hays, assim lembrado pelo mordaz blogueiro português Pedro Cinemaxunga:
"No inicio dos anos 30 a famosa MPAA [Motion Picture Association of America] achou que havia algum descontrole por parte das produções de cinema dos estúdios de Hollywood. Demasiado sexo, profanidade, álcool e violência. Um horror! 
Um dia, enquanto snifava cocaína das costas de um escravo tailandês e era oralmente aliviado por duas prostitutas menores, um diretor da MPAA terá decidido criar um código de conduta e ética de referência obrigatória. Havia de se acabar com os exageros dos filmes. 'Coxas? Ligas à vista? Fumar e beber? Não, não…', vociferava o diretor da MPAA nos eventos de tiro ao alvo negro organizados pelos colegas do KKK [Ku Klux Klan]. 'Isto há-de acabar. E é já!'. 
E foi nessa noite, depois de um jantar de bifinhos de Panda e creme de golfinho, que decidiu escrever o código que haveria de mutilar irreversivelmente a criatividade de Hollywood..."
Agora, a escalada começa por aqui, com a conivência inclusive do Supremo Tribunal Federal, que abriu uma porta para as escolas também serem submetidas às lavagens cerebrais dos mercadores da fé (aqueles que erguem templos mais faraônicos que os do Egito antigo e escondem dinheirama até nas bíblias).

Os novos cruzados da obtusidade estridente são piores, muito piores do que a famosa dona Solange, personagem emblemática do nosso último surto de obscurantismo e retrocesso. Diretora do Depto. de Censura Federal entre 1980 e 1984, Solange Teixeira Hernandes acabou virando sinônimo e símbolo da atividade, talvez porque seu nome aparecesse no atestado de liberação do filme, que antecedia o início de sua projeção. 
Juventude Nazista queima livros: sonho dos reaças daqui

Mas, aquela senhora fazia o que fazia apenas por incumbência profissional, como esclareceu em entrevistas posteriores. As novas donas Solanges que agora se mobilizam para impor limites hipócritas ao pensamento e às artes são mais do tipo
Senhoras de Santana, outra excrescência dos anos de chumbo (esta, aliás, me atingiu pessoalmente).

Depois de a censura ter contribuído para fazer dos bumbuns a preferência nacional (pois estes podiam ser exibidos em abundância nas pornochanchadas e revistas masculinas, enquanto o nu frontal feminino era implacavelmente proibido), na vidada da década de 1970 para a de 1980 a civilização começou a ser restabelecida, com a lenta, gradual e progressiva desativação dos instrumentos do arbítrio.

Isto ocorreu numa época em que eu ganhava meu pão na Editora Sublime. Quando a revista Fiesta passou a mostrar pelos púbicos livremente, as tiragens quintuplicaram, fazendo lembrar as teorizações do Freud sobre a fúria do retorno do reprimido. Gatos escaldados, os apreciadores  do gênero corriam às bancas para adquirirem seus exemplares antes que acontecesse alguma reviravolta.

E aconteceu: uma associação de moralistas rançosas do bairro paulistano de Santana desandou a fazer protestos patéticos até conseguir um momentâneo recuo, com vários títulos sendo apreendidos.
Processo contra fechamento da exposição Queermuseu
Já desligado da Fiesta, fui surpreendido com minha inclusão num processo criminal por pornografia! E mais ainda ao constatar que me inculpavam pelas agressões à moral e aos bons costumes presentes num conto (cujo autor estava identificado e não era eu) e de um anúncio de produto erótico (cuja responsabilidade, evidentemente, cabia ao anunciante e não a mim). 

Bem, como o redator de uma revista nada tinha a ver com contos e anúncios alheios, supus que logo na primeira audiência a confusão fosse desfeita e me excluíssem do processo. Ledo engano. Acabei tendo de comparecer umas cinco vezes ao ambiente depressivo do fórum da Praça da Sé, sempre convocado para as 13 horas e tendo de lá mofar umas quatro até a audiência do meu interesse começar. Finalmente, caiu para o promotor a ficha de que eu era um estranho no ninho e deveria ser inocentado.

É isto que se quer trazer de volta: trevas espessas como nunca onde já não existia muita luz. O retrocesso não tem fim.
Related Posts with Thumbnails