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domingo, 10 de agosto de 2025

ESTAMOS VENDO O PRIMEIRO GRANDE DUELO ENTRE SOBERANIA NACIONAL E GOVERNANÇA DAS CORPORAÇÕES

celso rocha de barros
XANDÃO ESTÁ 100% CERTO
Alexandre de Moraes está obviamente certo em decretar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro.

Bolsonaro não foi preso porque tentou um golpe de Estado depois de perder a eleição de 2022. Esse processo ainda está em andamento. Bolsonaro só deve ser preso por isso depois de condenado.

Foi preso agora noutro inquérito, instaurado porque Jair cometeu, com seus cúmplices Eduardo e Donald, a mais clara e evidente tentativa de obstrução de Justiça da história moderna. 

Isto porque a maior superpotência do mundo tomou a economia brasileira como refém até que o Judiciário brasileiro aceite entregar para os Estados Unidos o direito de dizer que leis valem ou não valem em nosso território.

É como se o Primeiro Comando da Capital parasse São Paulo para exigir a libertação de Marcola, em um cenário em que o PCC tivesse armas nucleares, um PIB de US$ 30 trilhões e tivesse começado a queimar as empresas brasileiras com os funcionários dentro. (por Celso Rocha de Barros, doutor em sociologia pela Universidade de Oxford, na Inglaterra).
celso lungaretti
o que trump quer é a livre manipulação das consciências
.
A lógica do Celso Rocha de Barros é impecável para analisar a pendenga entre Donald Trump e o governo brasileiro segundo o ordenamento jurídico da democracia burguesa,

Trata-se, contudo, de um cenário que desde a década de 1970 é contestado por autores para os quais o poder de fogo cada vez maior das corporações transnacionais na política e economia global faz delas o verdadeiro poder dominante, tornando os governos nacionais uma relíquia do passado que convém às ditas cujas preservarem para ajudar a manter as ilusões dos cidadãos comuns.

Ou seja, deixá-los esbravejando contra governos que na verdade já perderam sua autonomia real e servem apenas para mascararem a influência avassaladora das grandes corporações nas principais decisões econômicas do nosso tempo.

Então, a real motivação de Trump não seria a de defender um medíocre aliado político da pena de prisão que há muito faz por merecer, mas sim garantir que as
big techs continuem praticando sua lavagem cerebral sem quaisquer limites impostos pelos estados nacionais.  

Como a esquerda brasileira mais uma vez foi pega de surpresa e não estava nem de longe preparada para esta batalha, é normal que se defenda do ataque trumpiano global envolta na bandeira brasileira. Em termos táticos, era o que lhe restava fazer.

Mas, em termos estratégicos, é uma batalha de antemão perdida: o capitalismo, em sua fase terminal, se tornará cada vez mais agressivo e tirânico, dando solenes bananas para o direito das nações e dos povos. 

Um exemplo dos excessos que cometerá no afã de perpetuar a dominação burguesa é dado por Israel, que a cada momento se comporta mais como um odioso IV Reich do que como o país vítima do Holocausto praticado pelo III Reich.

Enquanto luta contra as pretensões hegemônicas dos EUA com as fracas armas que lhe restam, a esquerda  deveria ao menos ir preparando seus seguidores para a verdadeira luta do nosso tempo: contra o capitalismo, a favor de uma nova ordem mundial que priorize o bem comum e a liberdade plena. 

Comete erro crasso ao não o fazer. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

A FAMIGLIA BOLSONARO ESTÁ EM PÂNICO: PABLO MARÇAL AVANÇA PARA SER O NOVO MALVADO FAVORITO DA EXTREMA-DIREITA.

N
uma única semana, o ultradireitista Pablo Marçal deu um salto gigantesco nas pesquisas de intenção de voto para prefeito de São Paulo, passando a ser visto e temido pela famiglia Bolsonaro como a maior ameaça atual ao seu futuro político.  

E isto no que tange não apenas  à anistia ilegal e inconstitucional que o palhaço psicopata espera obter do Congresso Nacional para disputar a presidência da República em 2026, quanto à sua própria chance de êxito em tal eleição.

[A segunda hipótese, evidentemente, no caso de o Brasil avacalhar-se em definitivo e admitir a candidatura do responsável indiscutível pelo maior extermínio de brasileiros em todos os tempos: os cerca de 400 mil que teriam sobrevivido à covid se a presidência não estivesse sendo exercida por um sabotador da vacinação.] 

Por que Pablo Marçal assusta tanto seus iguais? A melhor explicação que encontrei é a de Celso Rocha de Barros neste artigo simplesmente brilhante. Sua conclusão:
Na disputa de qual parlapatão é mais crível fazendo cara de mau...
"...a guerra civil na extrema-direita prova que há riscos em recrutar seus eleitores apenas por estímulos emocionais de curto prazo, por choques de adrenalina causados por ofensas e grosserias, por reflexos de autodefesa diante de ameaças imaginárias. Deu certo para Bolsonaro até aparecer alguém com ainda mais disposição do que ele para mentir, para ofender, para chocar pela baixeza".
É bom que já haja quem analise o fenômeno sem papas na língua. A vitória do Bozo em 2018 apenas confirmou o que Charles De Gaulle disse  (ou lhe imputam erroneamente) quando da chamada guerra da lagosta, seis décadas atrás: "O Brasil não é um país sério". 

Ademais, tem um povo tão embasbacado diante do autoritarismo que já elegeu abominações como Jânio Quadros, Fernando Collor e Jair Bolsonaro. além de sujeitar-se docilmente a 15 anos de ditadura sob Vargas e a 21 anos de ditadura sob os generais.

A grande novidade deste mês do cachorro louco, contudo, foi apenas e tão somente o que eu já venho cantando em prosa e verso desde a tentativa circense de golpe de estado no 08.01.2023: que Jair Bolsonaro seria fatalmente substituído por outra aberração qualquer como principal líder da extrema-direita brasileira. Agora já sabemos quem vai para o trono.
...o Bozo, após as brochadas de 2021, 2022 e 2023, não dá nem pra saída.

E isso não foi nenhuma adivinhação ou fruto de profundas análises acadêmicas. Bastava o bom conhecimento que tenho das trajetórias tanto dos chefões fascistas do século passado quanto dos que seguem seus passos no século atual; ele me dava a certeza de que, para liderar tal malta ignara, seria sempre necessário alguém com uma forte imagem de valentia e truculência.

Então, depois de o bufão amarelão haver convocado duas vezes seu gado para o golpe (nos Dias da Pátria de 2021 e 2022), refugando vergonhosamente na hora H; e de haver engatilhado a terceira tentativa para quando estivesse a salvo na Disneylândia, deixando os seguidores no Brasil a sofrerem as consequências no seu lugar, era impensável que continuasse a liderá-los. 

Inevitavelmente haveria de surgir quem desempenhasse o papel de Brucutu com a credibilidade que ele perdera. 

E esse alguém tomaria o seu lugar, como o Pablo Marçal está avançando para tomar. Quem viver, verá. (por Celso Lungaretti)
 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

QUANDO A COVID ESTIVER CONTROLADA E O BOZO FORA DO PODER, RESTARÁ A DÚVIDA: POR QUE DEMORAMOS TANTO PARA REAGIR?

celso rocha de barros
POR QUE BOLSONARO DEIXOU MORRER 500 MIL?
Como previsto pelos especialistas, chegamos no meio milhão de brasileiros mortos por Covid-19 antes do fim do primeiro semestre. Só agora começamos a calcular quantos, dentre eles, foram mortos diretamente, documentadamente, pelas decisões de Jair Bolsonaro.

As revelações da CPI sobre os contratos de compra de vacinas, quando inseridas em modelos epidemiológicos construídos com o que já sabemos sobre a relação entre vacinação e mortandade, colocava 90 mil mortes nas costas de Bolsonaro com os números até o final de maio. Isso foi antes de sabermos que ele se recusou a comprar 43 milhões de doses do consórcio Covax Facility. Com as novas informações e os mortos de junho, mal dá para ver a marca de cem mil no retrovisor.

Desde fevereiro, quando, segundo estimativas do jornal O Estado de S. Paulo, já teria sido possível vacinar todos os idosos brasileiros se a oferta do Butantan em 2020 tivesse sido aceita por Bolsonaro, o número de brasileiros mortos dobrou.

Por que Bolsonaro fez isso? Hoje em dia parece claro que, além de um crime, foi um erro. Se Bolsonaro perder a eleição de 2022, terá sido pelas centenas de milhares, talvez pelo milhão de mortes que causou entre 2020 e 2021.

Por que, você deve estar pensando, esse idiota não comprou as vacinas? Por que este imbecil não tentou unir o país com um discurso de mobilização nacional contra a pandemia? Se tivesse feito isso, sua reeleição seria certa. Bolsonaro foi um dos poucos líderes mundiais cuja popularidade não subiu no começo da pandemia.

Bolsonaro deixou essa gente toda morrer por três motivos.

O primeiro foi ideologia: uma desconfiança populista dos especialistas, aversão ao globalismo da Organização Mundial de Saúde, ódio visceral dos chineses, a influência ideológica de Donald Trump e da direita radical estadunidense, a dificuldade de encaixar problemas complexos do mundo real na retórica paranoica do bolsonarismo. 

É sempre bom lembrar que a primeira demonstração clara de insatisfação de Bolsonaro contra as medidas de isolamento social foi sua reação aos apelos para que cancelasse a primeira de suas manifestações golpistas de 2020.

O segundo motivo foi cálculo eleitoral. Bolsonaro temia que as medidas de contenção da pandemia derrubassem a economia e ameaçassem sua reeleição em 2022. 
Com sua aposta na promoção da
imunidade de rebanho, documentada em estudo dos pesquisadores Deisy Ventura, Fernando Aith e Rossana Reis, Bolsonaro esperava que os curados ficassem imunes, a economia continuasse rodando e os mortos não votassem em 2022. Se os brasileiros se mostrassem um rebanho recalcitrante, Bolsonaro lhes ofereceria a falsa esperança de cura pela cloroquina.

Quase deu certo. A popularidade de Bolsonaro sobreviveu bem à primeira onda da pandemia, e só voltou a cair porque o auxílio emergencial foi cancelado, com requintes de crueldade, na hora em que a segunda onda se formava. Mesmo assim, se a alta das commodities ajudar a economia, Bolsonaro pode testar de novo ano que vem a hipótese de que genocídio não custa voto.

Mas o terceiro motivo pelo qual Bolsonaro mandou tantos brasileiros para a morte por asfixia é o que realmente deve nos preocupar como país.

Foi porque nós deixamos. (por Celso Rocha de Barros)

segunda-feira, 10 de maio de 2021

CULPANDO O BOZO PELO ASSASSINATO EM CURSO DE AO MENOS 100 MIL BRASILEIROS, CELSO ROCHA DE BARROS EXIGE SUA PRISÃO

celso rocha de barros
CONSULTÓRIO DO CRIME TENTA
SALVAR BOLSONARO NA CPI DA COVID
O
Brasil deve atingir meio milhão de mortos por Covid-19 em junho. 

Supondo que nenhuma grande medida de isolamento social seja adotada doravante e mantendo-se o ritmo lento da vacinação, é praticamente certo que ultrapassaremos 600 mil mortos nos próximos meses.

Se os subnotificados forem 30% dos casos notificados, como estimou a organização Vital Strategies, é razoavelmente provável que terminemos o ano com um milhão de mortos (entre notificados e subnotificados), sem contar as pessoas que morreram de outras doenças, por falta de hospital etc.

Na estimativa do Institute for Health Metrics and Evaluation da Universidade de Washington, se contarmos tudo isso já estamos com quase 600 mil mortos agora.

Se houver uma terceira onda de inverno agora que tudo reabriu, é perfeitamente possível que cheguemos ao milhão de mortos notificados antes do fim da pandemia.

Já não é impossível que o pessoal do Imperial College, no final das contas, tenha errado para menos.

Enquanto era possível evitar esse assassinato em massa, as elites brasileiras tinham outras preocupações, como as reformas econômicas, o acordão e o trauma que um impeachment obviamente necessário causaria tão pouco tempo depois de um impeachment sem qualquer justificativa.

Resta-nos, ao menos, torcer para que a CPI da pandemia faça seu trabalho e mande o presidente da República para a cadeia.

As primeiras sessões da CPI da Covid foram razoáveis. O número de crimes de Bolsonaro denunciados por Mandetta e Teich é suficiente para prender Bolsonaro e seus cúmplices diretos. Já Queiroga provou estar mesmo só a duas letras de distância de Fabrício Queiroz.

Falando em Queiroz, se no Rio de Janeiro Bolsonaro era amigo do chefe da milícia Escritório do Crime, na CPI é defendido pelo que podemos chamar de Consultório do Crime, um grupo de senadores que buscam tumultuar a investigação mentindo sobre medicina. Seus principais representantes são Eduardo Girão e Luiz Carlos Heinze.

Girão e Heinze mentem sobre a eficácia da cloroquina, mas o curandeirismo presidencial não é o principal crime que tentam acobertar.

Bolsonaro usou a cloroquina como artifício para minimizar os riscos da pandemia e mandar o povo brasileiro morrer na rua.

A cloroquina não é só um remédio ruim, é o remédio ruim que Bolsonaro ofereceu ao Brasil no lugar de isolamento social e vacina. Por isso morreu tanta gente.

Os fatos gritam: Bolsonaro causou uma proporção enorme das mortes brasileiras na pandemia, que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, p. ex., aconteceram em sua maioria depois da descoberta da vacina.
Desafio Heinze, Girão, Osmar Terra ou qualquer outro cúmplice de Bolsonaro a me mostrar um estudo em que Bolsonaro seja responsável por menos do que 100 mil mortes até o fim da pandemia.

Essa estimativa camarada e favorável a Bolsonaro já o torna culpado de mais assassinatos do que os cometidos por todos os assassinos brasileiros em 2019 (41.730) somados aos cometidos por todos os assassinos brasileiros em 2020 (43.892).

Se os bolsonaristas defendem as execuções no Jacarezinho (RJ) porque alguns dos mortos eram suspeitos de crimes, o que defendem que se faça com o assassino de, na estimativa mais camarada, cem mil brasileiros? 

Eu só peço cadeia. E cadeia eu exijo. (por Celso Rocha de Barros, jornalista e doutor em sociologia pela Universidade de Oxford)

segunda-feira, 19 de abril de 2021

BOLSONARO GOSTARIA DE TORTURAR OS NÚMEROS DA PANDEMIA...

...MAS, NO TRIBUNAL DA CIÊNCIA,
 NÃO EXISTE ANISTIA.
C
om a instauração da CPI, os bolsonaristas aceleraram a produção de mentiras para fazer parecer que a gestão da pandemia por Bolsonaro não foi tão ruim assim. 

Algumas são pura ficção (Lulinha é dono da fábrica chinesa de vacina), e, sinceramente, se você acredita nisso, você é otário.

Mas algumas das mentiras que os bolsonaristas vão contar na CPI são baseadas em dados verdadeiros. O que é sempre falso são as coisas que os governistas tentam dizer com esses dados.

P. ex., os governistas gostam de dizer que o número de vacinados no Brasil é alto, se comparado ao de outros países. Até é, mas Bolsonaro não tem nada a ver com isso: 80% dessas vacinas são Coronavac, do Butantan de Doria, que Bolsonaro prometeu não comprar. Tente refazer o ranking só com as vacinas que Bolsonaro importou e veja em que posição estamos.

Note que na hora de olhar para as vacinas aplicadas, os bolsonaristas gostam de usar os números absolutos (quantos foram vacinados), e não os relativos (a porcentagem da população vacinada, que é bem menor no Brasil do que em outros países).

Mas na hora de olhar para o número de mortos, preferem usar os números relativos (mortos por milhão, em geral). Não é por acaso: no número absoluto de mortes, só estamos atrás dos Estados Unidos (que têm 100 milhões a mais de pessoas e muito mais velhos).

Olhemos então para o ranking de mortes por milhão, o mais favorável a Bolsonaro. 

Mesmo neste ranking, só há 12 países piores do que nós (passamos os Estados Unidos outro dia). Entre eles há países com muito mais velhos do que o Brasil, como o Reino Unido e a Itália, e países pouco populosos (e também velhos) do Leste Europeu (em geral, com menos de 10 milhões de habitantes).

A Covid-19, em especial na sua forma original, matava mais velhos do que jovens; é preciso, portanto, levar isso em conta na comparação entre países.

Em 3 de fevereiro de 2021, o jornal Correio Braziliense publicou um estudo do pesquisador Marcos Hecksher, do Ipea, que calculou a probabilidade de um cidadão morrer de Covid-19 nos diferentes países, levando em conta tanto o tamanho do país quanto as características demográficas (número de idosos) de cada um.

No geral, segundo o estudo, a chance de um brasileiro morrer de Covid-19 é de 3 a 4 vezes maior do que no resto do mundo. Foi o estudo de Hecksher que causou a proibição a pesquisadores do Ipea de discutir suas pesquisas com a imprensa sem autorização do governo.

No ranking de Hecksher, o Brasil só aparecia melhor do que 9 países, a maioria na América Latina. O estudo, entretanto, compara os dados de 2020. A explosão de mortes no Brasil em 2021 foi muito pior do que no ano passado.

Faz um mês que os brasileiros mortos por Covid-19 são cerca de 30% dos mortos pelo vírus no mundo. A população brasileira representa apenas cerca de 2,7% da população do mundo. Na comparação internacional, já devemos estar bem piores do que na medição do estudo censurado.

Enfim, é sempre importante olhar os dados de vários lados, mas não há nenhum ângulo sob o qual o desastre brasileiro na pandemia não pareça imenso. O tamanho desse crime é consenso entre os pesquisadores internacionais. 

Até por coerência, Bolsonaro gostaria de torturar os dados. Mas no tribunal da ciência não existe anistia. (por Celso Rocha de Barros)

segunda-feira, 22 de março de 2021

MEDO DE SER PRESO FAZ BOLSONARO PERSEGUIR OS SEUS CRÍTICOS

O
Brasil vive a catástrofe que os epidemiologistas previram no começo do ano passado. Não há mais vagas em UTIs. O equipamento necessário para intubações deve acabar em poucos dias em várias cidades. Já há pacientes sendo intubados com anestésico diluído.
Só 7,3% da população brasileira recebeu alguma dose de alguma vacina. Só 2,6% recebeu as duas doses. O número de mortos já beira os 3 mil por dia, e nesta semana cruzaremos a marca de 300 mil mortos. É muito mais do que a Aids matou no Brasil desde que surgiu.

Segundo reportagem da CNN Brasil, o governo Bolsonaro cancelou a compra de kits intubação em agosto do ano passado. Em setembro, recusou a oferta de vacinas da Pfizer. Durante esse tempo todo, fez guerra ao isolamento social, o que só torna o isolamento mais necessário e mais economicamente custoso cada vez que precisa ser reimplementado.

Até um sujeito alienado em sua bolha como Jair Bolsonaro sabe que isso tudo é culpa dele. Mesmo Bolsonaro sabe que, se as instituições funcionarem, ele será preso.

Bolsonaro está com medo.

Por isso, enquanto o departamento de camuflagem do Exército tenta desenvolver uma calça marrom que permita ao presidente da República voltar a andar nas ruas, Bolsonaro promove assédio judicial contra quem denuncia seus crimes.
O ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas Pedro Hallal foi formalmente censurado por criticar Bolsonaro. 

O youtuber Felipe Neto foi investigado por ter chamado Bolsonaro, responsável direto pela morte de dezenas de milhares de brasileiros, de genocida. 

O ministro da Justiça, André Mendonça, determinou abertura de inquérito contra um professor do Tocantins que gastou R$ 2 mil para confeccionar um outdoor contra Bolsonaro comparando-o desfavoravelmente a um pequi roído.

Na última 6ª feira (19), o ex-governador Ciro Gomes tornou-se alvo de inquérito da Polícia Federal assinado pelo próprio Bolsonaro; Ciro chamou Bolsonaro, cujo envolvimento nas rachadinhas familiares é indiscutível, de ladrão.

É sempre bom lembrar, foi o aparelhamento da Polícia Federal por Bolsonaro que causou a renúncia do ex-ministro Sergio Moro.

A grande maioria desses inquéritos e processos não vai gerar condenações. São flagrantemente ilegais. Mas o objetivo dos bolsonaristas não é ganhar; é dar trabalho a seus críticos, fazê-los correr atrás de advogado, responder intimação, e assim desestimular que outras pessoas os critiquem. Os bolsonaristas sabem que, se um brasileiro falar sobre eles sem medo e/ou de graça, será para criticá-los.

Como resultado da ofensiva bolsonarista, o Supremo Tribunal Federal deve reunir-se em breve para finalmente decidir o que vale e o que não vale (tecnicamente, o que será ou não será recepcionado na Constituição) na Lei de Segurança Nacional. 

O Brasil precisa de uma LSN que proteja a democracia contra movimentos autoritários, mas não interfira no sagrado direito dos brasileiros de xingarem seus políticos.

É uma boa iniciativa, mas pergunto: 
— até quando as instituições brasileiras vão jogar na defesa contra Jair Bolsonaro? 
— Vocês acham que, se impedirem seu último crime, ele não vai cometer novos? 
— Deu certo da última vez? 
— Quantas vidas teriam sido salvas se ele tivesse sido punido na primeira? (por Celso Rocha de Barros)

segunda-feira, 1 de março de 2021

BRASÍLIA FOGE E FARIA LIMA VENDE ENQUANTO BRASILEIROS MORREM

A semana passada deve ter sido a pior do século 21 brasileiro. Enquanto os primeiros países a se vacinarem já discutem a volta à normalidade, as mortes por Covid-19 crescem aceleradamente no Brasil.

Os óbitos já começaram a cair em países que também se saíram mal no combate à pandemia, como o México e os Estados Unidos, mas continuam a crescer no Brasil.

Em Manaus, pacientes intubados precisam ser amarrados para suportar a agonia porque a anestesia acabou, como antes havia acabado o oxigênio.

O governo Bolsonaro mandou as vacinas do Amazonas para o Amapá porque errou a sigla. Em várias regiões do Brasil a ocupação de UTIs se aproxima de 100%.

No célebre hospital Albert Einstein, o preferido do presidente, já está em 104%. Se Bolsonaro fosse esfaqueado por Adélio Bispo hoje, morreria sangrando na sala de espera.

Enquanto isso, o auxílio emergencial acabou e a população brasileira mergulhou na mais profunda miséria.

Sem perspectiva de vacinação, não há cenário de crescimento econômico que empregue essa gente toda.

Passaremos a recuperação da economia mundial doentes, morrendo, pobres, deixados para trás pelas nações que não elegem Bolsonaros.

O que as elites política e econômica brasileiras estavam fazendo durante tudo isso? Num país funcional, teriam apoiado e promovido impeachment e prisão dos responsáveis por tudo isso.

Um governo de união nacional estaria já implementando a nova política de sustentação de renda. Todos os esforços estariam focados em conseguir vacinas desde o impeachment de maio de 2020.

Ao invés disso, na pior semana do século as pautas em Brasília eram as seguintes:
— o Congresso passou tempo precioso tentando tornar mais difícil que parlamentares sejam presos;
— O governo inventou um pacote de medidas liberalizantes projetadas nas coxas para acalmar o mercado depois da intervenção na Petrobras (cujas ações voltaram a cair);
— Bolsonaro conseguiu que o Superior Tribunal de Justiça aliviasse para seu filho Flávio, criando jurisprudência que será usada por todos os acusados de corrupção de agora em diante;
— na 5ª feira, 25, o presidente da República foi à internet para mentir que máscaras não funcionam para combater a Covid-19.

A Brasília que sustenta Bolsonaro resolveu deixar o resto do Brasil morrer enquanto eles todos, como o primeiro-filho Flávio, fogem da polícia.
O acordo é esse: Jair Bolsonaro, o responsável por muitas milhares de mortes durante a pandemia, mantém seu cargo e permanece impune pelas mortes que causou. Em troca, nenhum político será preso pelo dinheiro que roubou.

E os ricos? Até a semana passada, apoiavam isso tudo.

Desde a intervenção na Petrobras, estão em dúvida: discutem se Bolsonaro, que mudou de Palmeiras para Flamengo no dia seguinte à decisão do Campeonato Brasileiro, tem convicções liberais firmes. Se concluírem que tem, voltam a apoiar. Enquanto discutem, a bolsa cai.

Na pior semana do século brasileiro, Brasília fugiu da polícia, e a Faria Lima vendeu Petrobras. Se já houve mecanismo capaz de fazer as duas trabalharem pelo Brasil, parece ter parado de funcionar.​ (por Celso Rocha de Barros)

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

QUANDO O GUINNESS AFINAL ANUNCIARÁ QUE O BOZO É RECORDISTA MUNDIAL DE CRIMES DE RESPONSABILIDADE IMPUNES?

O
Reinaldo Azevedo, que gosta de fazer tal contabilidade, atribuiu ao Bozo o cometimento do 17º crime de responsabilidade suficiente para justificar o seu impeachment em novembro último, como se pode ler aqui.

O Celso Rocha de Barros atualizou a relação, detectando uma tentativa de chantagear e/ou intimidar o Ministério Público no minuto 34 da última live presidencial de 2020. O trecho é o seguinte: 
"Agora, o MP do Rio, presta bem atenção aqui: imagine se um dos filhos de autoridade do MP do Rio fosse acusado de tráfico internacional de drogas. O que aconteceria, MP do Rio de Janeiro? Vocês aprofundariam a investigação ou mandariam o filho dessa autoridade pra fora do Brasil e procuraria (sic) uma maneira de arquivar esse inquérito? 

Um caso hipotético, falando de um caso hipotético (...). Caso um filho de uma autoridade do Ministério Público do Rio de Janeiro entrasse no inquérito da Polícia Civil do Rio e ali um delator tivesse falado que ele participava de tráfico internacional de drogas. Fica (sic) com a palavra as autoridades do Ministério Público do Rio de Janeiro".
Tanto a ele quanto a mim parece claríssimo que o Bozo, graças a seu serviço de espionagem paralelo e ilegal, ficou sabendo de algo que desconhecemos a respeito do filho de alguém importante no Ministério Público do Rio e ameaça trombeteá-lo se o MP não mudar sua postura nas investigações da
rachadinha do Flávio Bolsonaro, passando a tapar o sol com a peneira.

Assino embaixo da conclusão do meu xará colunista:
"Quanto à acusação feita pelo presidente, de duas, uma. Se ela for verdadeira, Bolsonaro vazou dados sigilosos de uma investigação da Polícia Civil que obteve ilegalmente. Se ela for falsa, Bolsonaro caluniou tanto o Ministério Público quanto a Polícia Civil.

A propósito, se Bolsonaro tiver aparelhado a polícia a ponto de vazar a acusação, pode perfeitamente tê-la aparelhado a ponto de forjá-la".
Por último, recomendo ao Rodrigo Maia, que de tanto sentar em cima dos pedidos de abertura de processo de impeachment contra o Bozo acabará batendo com a cabeça no teto, o velho sucesso de Osvaldo Farrés, Quizás, quizás, quizás, no qual há uma estrofe que parece ter sido composta especialmente para ele: 
"Estás perdiendo el tiempo/ Pensando, pensando/ Por lo que más tú quieras/ ¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?" (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

COM A DÉCADA INFERNAL A 2 MESES DO FIM, A REMOÇÃO DOS REBOTALHOS PARA A LIXEIRA DA HISTÓRIA COMEÇA PELO TRUMP.

celso rocha de barros
O GRANDE PORRE MUNDIAL DOS ANOS 2010 ESTÁ PASSANDO?
A
o que tudo indica, nesta 3ª feira (3) Donald Trump se tornará um presidente de um mandato só. As pesquisas são favoráveis a Biden, e, se elas errarem só o que erraram em 2016, Biden ainda ganha. 

O site 538, do estatístico norte-americano Nate Silver, dá a Trump pouco mais de 10% de chance de vencer a eleição. Não é zero. É o risco de morte de quem faz roleta-russa com uma arma de dez tiros. Mas é pouco.

É possível que Trump não aceite a derrota e tente ganhar no tapetão. Grande parte da votação já ocorreu por correspondência, por causa da pandemia. Trump pode sair em vantagem no início da contagem, quando os votos por correspondência ainda não tiverem sido totalmente contados.

No cenário golpista, declararia vitória enquanto estivesse na frente e montaria uma ofensiva jurídica para interromper contagens estaduais por um motivo ou outro. Para isso contaria com sua recém-adquirida maioria na Suprema Corte e com os juízes federais que nomeou nos últimos anos. 

Temendo conflitos de rua em caso de impasse, a rede de supermercados Walmart interrompeu a venda de armas até a confusão passar.

Não é o cenário mais provável, até porque há uma chance razoável de Biden vencer por margem incontestável. Mas o fato de que uma eleição possa terminar em conflito civil generalizado mostra o tamanho do dano que Donald Trump já causou ao ambiente cívico estadunidense. 

Se a roleta-russa der errado e Trump vencer nesse clima de radicalização, o dano pode ser ainda maior.

A vitória de Trump em 2016 foi um marco decisivo da onda populista reacionária que já havia começado antes, em lugares como a Hungria e a Polônia, mas que chegou ao centro do capitalismo internacional com o brexit.

As negociações do brexit vão mal. E, sem o Reino Unido, deve crescer a pressão por uma federação europeia mais centralizada, o que não é boa notícia para os radicais poloneses e húngaros.

A maré está virando? O grande porre mundial da década de dez está passando?

Mesmo se virar, nenhum dos problemas que criaram a onda populista terá sido resolvido. A desigualdade continua alta. A desindustrialização de áreas inteiras do mundo desenvolvido (e do Brasil) continuará difícil de reverter. Como as crises da pandemia deixaram claro, a desconfiança com relação aos especialistas não vai embora da noite para o dia.

As notícias falsas, a política difícil das redes sociais, tudo isso ainda continuará existindo. A tensão entre Estados-nação e capitalismo global não desapareceu, muito pelo contrário.

Por outro lado, é possível ter esperança, ao menos alguma esperança, de que certas soluções idiotas para esses problemas serão descartadas:
— Não, não foi o encanador polonês que tirou o emprego do mineiro britânico;
— Não, Trump não tinha uma alternativa ao Obamacare que preservasse tudo que o programa tinha de popular e descartasse tudo que tinha de impopular;
— Não, Bolsonaro não era inimigo da corrupção (nem a corrupção era a causa da crise econômica brasileira), etc.

De qualquer maneira, ao que tudo indica, amanhã a democracia estadunidense vai para  
rehab [clínica de reabilitação]. Nos EUA os grandes partidos sobreviveram, a volta ao normal deve ser mais fácil. 

Nós, que decidimos não derrubar Bolsonaro em 2020, seguimos fincando pé na cracolândia por mais dois anos, agora como párias internacionais. (por Celso Rocha de Barros)
Está mesmo faltando um. Mas, expelido o Trump, tudo leva a crer 
que seu fiel mas tosco vassalo será varrido pela depressão econômica

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

WITZEL MERECE MESMO CAIR, MAS QUEM ORQUESTROU SUA QUEDA É PIOR AINDA

celso rocha de barros
O PRESIDENTE DERRUBOU UM GOVERNADOR?
Se o governador do Rio de Janeiro tiver caído por influência do presidente da República, a deterioração institucional brasileira deu um salto grande.

A decisão de afastar Witzel monocraticamente foi ilegal. Quem quiser saber por que, leia este artigo do professor Rafael Mafei Rabelo Queiroz, da Faculdade de Direito da USP. 

É possível que a decisão do ministro Benedito Gonçalves, do STJ, não tenha sido uma tentativa de conseguir uma vaga no Supremo. Mas é curioso que tanta gente no mundo da Justiça esteja tomando decisões claramente ilegais —a libertação de Queiroz, o dossiê contra os antifascistas, a perseguição a Hélio Schwartsman, o afastamento de Witzel —que coincidem perfeitamente com os interesses de Jair Bolsonaro, justamente o sujeito que vai decidir quem fica com a vaga no STF.

O afastamento de Witzel não é conveniente para Bolsonaro apenas porque o governador fluminense havia se tornado rival do presidente da República. No final deste ano, seja lá quem for o governador do Rio vai escolher o novo procurador-geral do Estado.

Bolsonaro quer influir nessa escolha para que o novo nome seja sensível aos interesses de seu esquema de corrupção familiar.

[A escolha terá que ser feita dentro da lista tríplice, mas nada impede que os bolsonaristas inventem um candidato até lá e trabalhem por ele.]

Se a decisão do STJ for um sintoma de aparelhamento da Justiça por Bolsonaro, pense bem no tamanho do que estamos discutindo.

Volte mentalmente até o dia da promulgação da Constituição de 1988 e tente explicar para Ulysses Guimarães que, 30 anos depois, o governador do Rio será afastado por decisão de um único ministro do STJ, com forte suspeita de que a coisa toda foi uma armação para resolver uns problemas do presidente da República com a polícia.

Depois disso, peça para o Doutor Diretas tentar adivinhar se, em 2020, o documento que ele acabou de aprovar ainda está vigente.

Longe de mim botar a mão no fogo pela honestidade de Wilson Witzel. Ele foi eleito com o apoio de Jair Bolsonaro. Ao contrário da família Flordelis, a família Bolsonaro nunca precisou do Google para achar gente da barra pesada 
No mesmo dia do afastamento de Witzel, aliás, rodou o Pastor Everaldo, velho chapa de Bolsonaro que  o batizou simbolicamente nas águas do rio Jordão. Foi tudo encenação: Bolsonaro continuou católico.

Everaldo também teria sido um dos responsáveis pela aproximação de Bolsonaro com o liberalismo econômico, e esse batismo tampouco parece ter sido lá muito para valer.

Mas para lidar com as acusações contra Witzel já existia o processo de impeachment, este sim claramente previsto na Constituição e já em curso no Rio de Janeiro. Qual a necessidade de uma decisão que coloca as instituições sob suspeita?

É muito grave, mas, ao que parece, ninguém se importa. Pelo contrário, parte do mundo político vem tentando se reaproximar de Bolsonaro.

O exemplo de Witzel deveria servir-lhes de aviso: ser adotado como aliado por Bolsonaro é como ser adotado como marido pela deputada Flordelis.

Mesmo depois das repetidas tentativas de envenenamento, o establishment brasileiro parece disposto a ir com Bolsonaro para a casa de swing. (por Celso Rocha de Barros)

terça-feira, 11 de agosto de 2020

O BOZO DEVERIA IR EM CANA POR CAUSA DO SEU CHILIQUE NAQUELE EPISÓDIO DO "ME SEGURA QUE EU VOU TER UM TROÇO"?

celso rocha de barros
BOLSONARO MERECE
 SER PRESO
A edição da revista piauí deste mês traz uma matéria, assinada por Monica Gugliano, com o título Vou Intervir!. Ela conta a história de uma reunião de 22 de maio, no Palácio do Planalto, em que Bolsonaro teria decidido mandar tropas para fechar o STF.

O plano seria substituir os 11 ministros por 11 puxa-sacos de Bolsonaro, por tempo indeterminado. Uma quartelada vagabunda raiz, nada dessas sutilezas de lenta corrosão democrática Steven Levitsky de que eu vivo falando. O presidente teria sido dissuadido pelo general Heleno, que, para apaziguá-lo, soltou uma nota ameaçando o STF.

A princípio, o governo poderia ter desmentido a matéria, que é baseada em depoimentos concedidos off the record. Nessa situação, cabe ao leitor decidir se confia na reputação da revista —que, no caso da piauí, é impecável.

Entretanto, entre os bolsonaristas a desconfiança com relação à imprensa é generalizada. Se o governo quisesse desmentir a matéria, poderia tê-lo feito e considerado o assunto encerrado dentro da bolha que o elegeu. Não desmentiu.

Houve quem interpretasse que o conteúdo da reunião vazou por interesse do governo, para avisar que o golpismo ainda está vivo. Se for, foi desnecessário: era só mandar o pessoal ler minha coluna, sempre digo isso.
Houve quem suspeitasse que o general Heleno vazou para parecer moderado. Houve ainda uma suspeita de que o governo teria vazado o conteúdo da reunião de propósito, para depois desmoralizar a imprensa com um desmentido (uma gravação, p. ex.). É triste viver num país em que essa suspeita não é absurda.

De qualquer forma, a revelação da piauí não teve repercussão política nenhuma. E a explicação é simples: em geral, só se admite em voz alta aquilo de cujas consequências práticas se está disposto a arcar.

Muito antes da matéria da piauí, todo mundo já tinha visto Bolsonaro tentar o autogolpe em 2020. Mas, se você disser em voz alta que Bolsonaro tentou um autogolpe, a solução é impeachment e cadeia. Se você não puder e/ou não quiser fazer impeachment e cadeia, é mais fácil não dizer em voz alta que Bolsonaro tentou um autogolpe.

Ainda não parece haver correlação de forças para impeachment e cadeia: o centrão está no bolso do governo, o auxílio emergencial ainda deve durar alguns meses. Enquanto for assim, a turma vai fingir que não viu o golpe, os 100 mil mortos, o aparelhamento na Polícia Federal.

Talvez essa correlação de forças não mude nunca. Nesse caso, a fraqueza natural humana fará com que muita gente racionalize que não foi tão ruim assim: 
"Olha só como ele era democrata, até comprou o Roberto Jefferson, todos nós aqui sempre dissemos que isso era a marca do democrata, ninguém aqui nunca reclamou de quem comprava o Roberto Jefferson".
Eu, aqui, não vou racionalizar isso, não.

O dia de trabalho de Bolsonaro durante a pandemia de 2020 se dividiu entre organizar um golpe de manhã, aparelhar a Polícia Federal de tarde e demitir o ministro da Saúde no telejornal da noite.

Se esses crimes ficarem impunes, prefiro viver com o incômodo dessa injustiça e esperar a maré virar. Se não virar, levo o incômodo comigo até o fim. 

Não tenho como fazer acontecer, mas deixo registrado para os leitores do futuro: em 2020, nós sabíamos que Bolsonaro merecia ser preso. Todos nós sabíamos. (por Celso Rocha de Barros)
TOQUE DO EDITOR — O meu xará está certo, claro, mas todos nós também já sabíamos que, numa democracia burguesa de verdade (!), o Bolsonaro sequer disputaria a eleição presidencial, pois estaria no xilindró por incitar o golpismo, negar as atrocidades da ditadura militar e prestar homenagens públicas a torturadores da caserna e a milicianos do crime organizado. 

E, se aqui não fosse uma república das bananas, o 2º turno do pleito jamais teria sido realizado sem que se apurassem as denúncias acachapantes de disparos em massa de fake news, financiados ilegalmente por apoiadores. 

Afora crimes de responsabilidade suficientes para ele ser impichado já terem ocorrido às dúzias antes do ridículo chilique presidencial de 22 de maio último.

Quanto àquele em particular (vide aqui), é óbvio que presidente nenhum pode sair gritando histericamente "Vou intervir!", "Vou intervir!", diante da cúpula do seu (des)governo. 

Mas, é-me difícil levar tal chanchada a sério. Quem realmente pretende dar golpes de Estado, como Pinochet, esconde até o último segundo sua intenção. Alguém que fica berrando para até a mulher do cafezinho escutar quer mesmo é parecer perigoso/poderoso e depois ser dissuadido.

Fiquei me lembrando do Jackson do Pandeiro interpretando (vide abaixo), numa velha chanchada da Atlântida, a marchinha carnavalesca que dizia "Me segura que eu vou ter um troço"... (por Celso Lungaretti
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