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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

UM RETRATO FIEL DOS ALOPRADOS QUE VANDALIZARAM A CÂMARA E O SENADO

antonio prata
O HORROR ACIMA DE TODOS
Eis que, por razões que fogem à razão, num dia agourento de 2018 o pior aluno da escola foi alçado ao cargo de diretor. 

Zé Peidola, que estava havia 28 anos sem conseguir passar da quinta série, tinha este apelido por conta de sua ocupação favorita: liberar gases durante as aulas. Os amigos do fundão riam muito e diziam que o Zé Peidola era mó zoeiro!

Após ser empossado, a primeira atitude do Zé Peidola foi demitir todos os professores e colocar em seus lugares os amigos do fundão. 

No lugar da Fátima, professora de física formada pela USP, entrou o Mosca, que era bom de Lego. Gilberto, de geografia, formado pela Unicamp, foi trocado pelo Horroroso, que já tinha viajado pra Disney e pra Bariloche. 
 
Chris, a professora de português, com dois livros de poesia publicados, foi trocada pelo Língua Presa porque Zé Peidola achou muito engraçado colocar alguém de língua presa para ensinar uma língua. No lugar do professor de artes não entrou ninguém, porque, segundo Zé Peidola, arte é coisa de viado. Mó zoeiro, o Zé Peidola
!

O único adulto colocado como professor foi o Teles, pra ensinar matemática. Teles tinha feito faculdade nos Estados Unidos 50 anos antes e ainda era membro de uma antiga seita que ninguém mais seguia –nem nos Estados Unidos– segundo a qual a escola não tinha que dar nenhuma orientação, era pra deixar os alunos fazerem o que quisessem e eles se entenderiam.

Depois, Zé Peidola trocou a fruta do lanche por cheetos sabor churrasco. A média para passar de ano foi de seis e meio para dois. 

Zé Peidola cortou todas as árvores do pátio e colocou no lugar televisões passando Silvio Santos. 

Na biblioteca, Zé Peidola instalou TVs passando Tom & Jerry e botou os livros para serem usados como papel higiênico. 

O laboratório ele e os amigos destruíram a marretadas, salvando só o clorofórmio pra fazer lança-perfume. Mó zoeira!
 
A escola, sob os desmandos de Zé Peidola, foi se desmilinguindo. Ninguém aprendia nada com aqueles professores.

Os bons alunos passaram a sofrer bullying. Por medo, as alunas só iam ao banheiro em bando. Um dia o Zé Peidola viu uma aluna pedindo pras amigas irem ao banheiro com ela e disse que ela não precisava ter medo porque era feia e não merecia ser estuprada. Mó zoeira!

Então, no começo do segundo ano de Zé Peidola na direção, surgiu na escola uma epidemia. O médico consultor da escola sugeriu algumas medidas profiláticas. Zé Peidola disse que quem mandava ali era ele, demitiu o médico e botou um amigo no lugar.

Os alunos começaram a morrer. Zé Peidola disse, com visível raiva das vítimas, que só morria aluno com problema de saúde. (Ele pensou, satisfeito, mas não disse, que ia morrer muito preto e pobre, também). 

Morreu um. Morreram dez. Cem. Mil. Dez mil. Quinze mil. Zé Peidola pediu pro amigo médico receitar aos doentes cheetos sabor churrasco –tinha visto no Twitter que curava a doença. O amigo recusou-se. Zé Peidola o demitiu também.

Chegou uma hora em que morriam mil por dia. Morriam sem ar. Afogados, com os pulmões inundados. Roxos. Sós. Eram enterrados sem velórios, em valas comuns. 

E os adultos –você se pergunta–, não faziam nada?! Nada. 

Aqui e ali, publicavam umas notas de repúdio e enquanto viam seus pais morrerem, seus irmãos morrerem, seus filhos morrerem, as paredes da escola ruírem e o teto desabar, diziam que não era o caso de tirar Zé Peidola da direção. Vinte mil. Trinta mil. Cinquenta mil. Cem mil? Mó zoeira! (por Antonio Prata).

Observação: republico esta crônica de 17 de maio de 2020 como reconhecimento pela fidelidade com que Antonio Prata expôs a característica fundamental do bolsonarismo: constituir-se numa invasão de bárbaros, que colocou sob holofotes o que há de pior, mais desumano e mais grotesco no Brasil atual. 

Podemos considerar tal crônica premonitória, pois foi exatamente isso que vimos no 08.01.2023 e acabamos de ver nos últimos dias. De onde saíram tantos ratos de esgoto?! (CL)

quinta-feira, 8 de maio de 2025

PARECE SOMENTE RAMAGEM, MAS É O CAVALO DE TROIA BRASILEIRO...

S
abendo que a correta aplicação das leis brasileiras torna inevitável a responsabilização de Jair Bolsonaro como o principal culpado pela tentativa de golpe de Estado do 8/1, ultradireitistas e corporativistas se uniram para aprovar na Câmara Federal, por 315 votos a 143, um  absurdo jurídico. 

Trata-se de projeto que se constitui num verdadeiro cavalo de Troia, pois pode ser usado para atrasar as merecidas condenação e prisão do ex-presidente delinquente. 

Suspende a ação penal à qual o deputado Alexandre Ramagem, do mesmo partido de Bolsonaro, responde por sua participação naquela intentona flopada. A falácia: seriam proibidas todas e quaisquer investigações contra parlamentares após sua diplomação. 
 
Uma vez aprovado tal casuísmo, os adeptos ou cúmplices do golpismo requereriam que entrasse pela mesma brecha aquele que comandou a conspiração para, inclusive, assassinarem-se o presidente Lula, o vice Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Alexandre de Moraes.

Ou seja, se Ramagem explodisse uma bomba num cinema lotado e matasse centenas de pessoas, ainda assim isto só poderia ser investigado ao término do seu mandato. Faz sentido? É óbvio que não.

Como a escalada da insanidade ainda não chegou a tal ponto, supõe-se que o Supremo Tribunal Federal consiga impedir que a tramoia obtenha êxito, separando-se de forma mais racional os crimes e delitos. 

Como? Primeiramente, Ramagem não responderia de imediato por dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, porém o que houve de mais grave continuaria sujeito a processo na presente legislatura.

Afinal, quem tramou e agiu para concretizar a abolição violenta do Estado de Direito, tendo participado de uma associação criminosa armada, constituída para encabeçar uma tentativa de golpe de Estado, não é um criminoso qualquer. 

O sucesso dos seus planos implicaria matança em larga escala, usurpação do poder e instalação de uma ditadura que poderia acarretar outros 21 anos perdidos para o povo brasileiro.

De resto, como não há nada como um dia depois do outro,  agora sabemos exatamente o que Bolsonaro queria dizer quando falava em "jogar dentro das quatro linhas da Constituição". 

Vigaristas hábeis usam frases de efeito para engambelarem os otários... (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 1 de maio de 2025

ACORDO ENTRE STF E CONGRESSO, COM O AVAL DO LULA, VAI MESMO ESCANCARAR A PORTA DA CELA PARA BOLSONARO ENTRAR

A
o tomar conhecimento, nesta terça-feira (29), do acordo que estava sendo articulado entre o Supremo Tribunal Federal, o Senado e a Câmara dos Deputados, não tive nenhuma dúvida de que se tratava do golpe de misericórdia nas ilusões de impunidade do Jair Bolsonaro.  

Esvai-se sua última esperança de salvar-se da prisão iminente como golpista que, para manter-se ilegalmente no poder, admitira até mesmo o assassinato do presidente eleito, do seu vice e de um ministro do STF. 

Bolsonaro pretendia, inspirando compaixão pelos descerebrados presos ao contribuírem com sua tentativa de autogolpe do 8/1, alavancar uma anistia que lhe servisse de cavalo de Tróia.

Davi Alcolumbre e Hugo Motta se uniram para esvaziar a sórdida tramoia bolsonarista para, a pretexto de reduzir-se o excesso de severidade adotado contra os paus mandados, viabilizar uma anistia que acabasse incluindo também os mandantes, começando pelo próprio ex-presidente, indiscutível líder e beneficiário da pretendida virada de mesa.

Dois dias depois tal interpretação se tornou praticamente consensual. O competente Josias de Souza, por exemplo, já qualifica as tratativas em curso de um xeque-mate no Bolsonaro, explicando:

"Pelo acordo, o Congresso aprova um projeto para reduzir as penas leoninas dos condenados de 8 de Janeiro, sem atenuar as prováveis punições que serão impostas pelo Supremo a Bolsonaro e aos seus altos cúmplices do golpe. 

...alguns dos peixes pequenos podem ser libertados, outros podem ser beneficiados com a troca da tranca por uma prisão domiciliar. E, com isso, o projeto de lei  da anistia, empinado pelo Bolsonaro em causa lógica [ou seja, própria], perderia o sentido e a falange bolsonarista no Legislativo seria constrangida a aprovar. 

Os riscos sempre são possíveis na política, mas, enquanto os dois presidentes da Casa [encabeçarem o acordo], esse risco [de beneficiar o maior culpado] estará afastado".

O senador Jaques Wagner, líder da bancada do governo no Senado, confirmou que o novo projeto deverá isolar os cabeças do golpe que ainda insistem na votação do PL da Anistia.
Celso Lungaretti

E, para finalizar: quem é o sujeito oculto nessa história toda? Segundo o Josias de Souza, trata-se do que Nelson Rodrigues qualificaria de óbvio ululante:

"O senador Jaques Wagner disse que o presidente Lula não está diretamente envolvido nesse acordo, mas ele faz isso de maneira protocolar, porque é evidente que o Lula o está até o último fio de cabelo que ainda lhe resta"...

sábado, 26 de abril de 2025

SE COLLOR MERECE OITO ANOS DE PRISÃO, BOLSONARO DEVERIA PEGAR OITO SÉCULOS

Q
uando Jair Bolsonaro, o pior presidente brasileiro de todos os tempos, tudo fazia para arrastar os trabalhadores a seus empregos no auge da pandemia de covid, com enormes riscos de encontrarem a morte após agonias terríveis, estávamos próximos da unanimidade. 

Quase todos os esquerdistas defendíamos com unhas e dentes que o direito das pessoas à vida prevalecia de forma esmagadora sobre o desespero dos agentes econômicos face aos prejuízos que estavam sofrendo.

Outros mudaram, mas eu não. Continuo sustentando que vida vale infinitamente mais do que grana.

Então, pergunto: se o também ex-presidente Fernando Collor de Melo merece cumprir oito anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a quantos SÉCULOS de prisão Bolzonaro deveria ser condenado por, com sua sabotagem premeditada ao combate científico da covid, haver causado a morte de algo entre 350 mil e 400 mil brasileiros que, noutras circunstâncias, teriam sobrevivido à pandemia, segundo as projeções matemáticas CONFIÁVEIS de vários institutos científicos estrangeiros (já que os balanços brasileiros, subdimensionados desde a base, eram totalmente INCONFIÁVEIS!).

De resto, coerente com as convicções que nortearam toda a minha vida adulta, deixo registrado meu inconformismo com o vezo oportunista de nossa esquerda, que mais uma vez se curvou a uma conveniência de momento ao ínvés de ser fiel a seus valores e discursos anteriores.   

Refiro-me a não ter feito a mais ínfima ressalva à decisão do Supremo Tribunal Federal, de julgar primeiramente o golpismo (crime contra as instituições) e só depois a morosidade intencional na disponibilização de vacinas para o povo e a confusão causada pelo fato de o próprio presidente da República estar impingindo preferencialmente à população  ridículas pajelanças (crime contra a vida).

Simbolicamente, isto passou para o homem comum a noção de que a vandalização dos suntuosos palácios do poder seja um crime pior do que, com uma inconcebível e inaceitável omissão no cumprimento do dever, causar a morte por atacado de cidadãos em sua maioria fragilizados pela pobreza.

Acossados pela barbárie ultradireitista, muitos esquecemos que a democracia burguesa seja o que é: um avanço com relação ao absolutismo feudal, mas uma ordenação jurídica que consagra o direito à propriedade como superior a todos os demais.

Cabia, sim, lutarmos decididamente contra um retrocesso civilizatório que, em muitos aspectos, equivaleria a uma volta ao autoritarismo e ao obscurantismo da Idade Média. Mas foi um exagero nós também endeusarmos. ACRITICAMENTE, o dito estado democrático de direito. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 22 de abril de 2025

O GENERAL QUERIA MATAR O JECA, O JOCA E O JUCA. E O MANDANTE? ELE ESTAVA NA DISNEY, ACONSELHANDO-SE COM O PATETA

Hoje o Supremo Tribunal Federal começa a julgar seis integrantes do Alto Comando do golpe de Estado tentado em janeiro de 2023 para anular o resultado da eleição presidencial e empossar o candidato derrotado.

Destaque para o general Mário Fernandes, em cujo computador foi encontrado o plano Punhal Verde Amarelo, que incluía a execução do Jeca (Lula), do Joca (Alexandre de Moraes) e do Juca (Geraldo Alckmin).

Os conspiradores não negam a existência do plano, apenas tentam inutilmente tirar o corpo fora, inclusive incriminando os cúmplices. 

A Inteligência Artificial do mandante Jair Bolsonaro (a natural não serve pra nada...) se indigna: 

"Eles têm minhoca na cabeça. Mas ninguém pode me acusar disso, pois eu estava bem longe, aconselhando-me com o Pateta na Disneylândia".

Para azar de todos eles, o golpe não foi nenhum desenho animado. Existiu mesmo e está descrito nos mínimos detalhes, com toneladas de depoimentos e provas, na denúncia da Procuradoria Geral da República. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 14 de abril de 2025

DEMAGOGIA ANTES DA CIRURGIA ATESTA QUE CINISMO DO BOLSONARO É ILIMITADO

Jair Bolsonaro jamais demonstrou a menor compaixão pelas centenas de milhares de brasileiros vitimados por sua  alucinada sabotagem à vacinação contra a covid. 

Pelo contrário, até acreditava estar sendo engraçado ao imitar a agonia dos que morriam tentando desesperadamente respirar. 

Agora, ele cometeu a pior demagogia de sua carreira, ao misturar, numa mesma mensagem, a cirurgia pela qual passaria e a campanha que desenvolve para evitar a merecida prisão. 

Ele finge cinicamente estar preocupado com os transtornos que causou a seus seguidores, sujeitando-os à prisão enquanto se colocava a salvo na Disneylândia...

Se tivesse a mínima empatia com o sofrimento alheio, pediria em alto e bom som que fossem anistiados os golpistas ingênuos, mas não, nunca, jamais ele próprio, que passou o mandato presidencial inteiro conspirando para usurpar definitivamente o poder. 

O maior obstáculo à anistia ou redução das penas dos que não sabiam direito o que estavam fazendo é a possibilidade de isso vir a servir de cavalo de Tróia para os que sabiam muito bem quão criminosos eram os próprios atos.

Apesar de merecer o mesmo destino que tiveram congêneres seus como Hitler e Mussolini, a pena máxima que a Justiça brasileira poderá aplicar a Bolsonaro é de 30 anos de prisão. Para ele, isto seria lucro. 

Mesmo assim, faz uma descarada chantagem emocional e esperneia como um menininho que não quer tomar purgante. Que nojo! (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 1 de março de 2024

A INSANA CREDULIDADE DO GADO BOLSONARISTA

 


O
que leva algumas centenas de milhares de pessoas a vestirem uma camisa verde-amarela, simbolizando as cores da pátria, e alguns outros a empunharem a bandeira de Israel - e em apoio ao governo sionista genocida de Israel -, prestando apoio político a um charlatão fundamentalista religioso cujo próprio nome está a indicar a sua essência - mala feia e sem alça, no linguajar popular - e a um político com certidão de golpista ditatorial passada pela sua própria história de afirmações e reafirmações nesse sentido?   

Qual a razão de se prestar apoio a um falso Messias, afastado da própria corporação militar ainda no início de sua investidura na farda por planejamento terrorista; golpista assumido, queria que a ditadura tivesse matado pelo menos 30.000 adversários; que faz ostensivamente homenagem ao seu ídolo Brilhante Ustra, militar que trucidou covardemente presos indefesos; e governante negligente social consciente capaz de provocar a morte de centenas de milhares de brasileiros por epidemia da Covid 19 negando medidas de profilaxias públicas necessárias e urgentes? 

A resposta não pode ser outra, senão a inconsciência social da maioria dos apoiadores desses tipos sobre a própria essência do seu agir político por considerarem, equivocadamente, que seus líderes são eficazes salvadores da pátria, que consideram como bastião seguro da boa cidadania.  

Começa pela inconsciência do próprio conceito de pátria.  

Qual é a pátria de um trabalhador assalariado de renda média mensal de RS 2.500,00, e isso quando não está desempregado, que paga pesados impostos em tudo que compra, desde energia elétrica, água e alimentos? 

- que é atendido pelo SUS, cuja ideia e intenção  é maravilhosa, mas é mal executada, em Upas lotadas e com estruturas físicas e de pessoal insuficientes? 

- que pelos salários cada vez mais mínimos é impossibilitado de adquirir uma moradia decente e mora na periferia das cidades e em bairros com ruas mal pavimentadas e sem esgoto sanitário e dominadas pela violência urbana e crime organizado? 

- que tem seus filhos estudando em escolas públicas mal conservadas e com professores mal pagos, e tantas outras mazelas sociais que bem conhecemos?  

Será que ali estavam presentes assalariados de melhores níveis de poder aquisitivo? Ou será que ali estavam crédulos cidadãos que, embora explorados, acreditam no estado como ente protetor de suas cidadanias explotadas?  

Seja qual for a sua motivação, o fato é que a pátria em nome da qual vestem verde-amarelo é-lhes madrasta justamente porque é a sua institucionalidade que mantém via impostos cobrados aos cidadãos uma estrutura jurídico-coercitiva do modo de produção social na qual quem a produz não se apropria integralmente de sua cota-parte.  

Somente quando os trabalhadores abstratos deixarem de serem o que são, e se organizarem sob seus próprios domínios comunitários e livres da exploradora e totalitária pátria patrão é que serão suficientemente livres e conscientes do significado manipulador desse conceito culturalmente introjetado nas mentes infantis e adultas como sendo algo virtuoso.  


O patriota é um idiota. A rima é pobre, mas o conteúdo é transcendental. Mas há patriotas que sabem a função protetora do patriotismo aos seus interesses políticos e econômicos, e que nada mais são do que oportunistas da credulidade ingênua dos que são explorados pelo capital e acreditam na aliança  - patriótica - para o progresso e o anticomunismo; lembram-se? 

O segundo elemento no processo sublinear que galvaniza o pensar de muitos dos que estiveram na Avenida Paulista em 25 de fevereiro de 2024, prestando apoio aos golpistas do dia 8 de janeiro de 2023, é a ideia de que o bem estar social que almejam passa por uma governabilidade dentro da ordem para o progresso, que se consubstanciaria numa disciplina rígida, de obediência legal aos pressupostos capitalistas da relação capital e trabalho, sob tutela militar, e que seria a consecução do que entendem como “justo”  e “correto”. 

São os inocentes inúteis a eles mesmo, mas muito úteis aos que os mantêm com os trabalhadores assalariados explorados uma relação social de jugo e subalternidade irrefletidamente consentida pelos primeiros. 

Nesse processo, a esquerda institucional brasileira, social democrata, que aceita jogar o jogo eleitoral da democracia burguesa nas quatro linhas constitucionais do estado democrático de direito, padece as agruras de uma relação social que vive um processo de depressão econômica irreversível, mas que se dispõe a administrar a crise do capital a partir da assunção política ao aparelho de estado burguês, e que recebe em troca as migalhas que o poder político oferece pela legitimidade que confere ao aceitar tais condições de disputa eleitoral e governabilidade. 

O Nationalsozialistische Deutsche Arbeitepartei – NSDAP, ou Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha - arrebanhou multidões em apoio à cantilena nazista patriótica de soerguimento econômico da Alemanha devastada pela derrota na primeira guerra mundial (1914/1918) e depressão dos anos 1929/1930, e que levou a humanidade ao genocídio de cerca de 50 milhões de pessoas, ou 3% de toda a população mundial à época.

Tal qual a mentira nazista massificada pelo rádio, o mais novo meio de comunicação de então, reproduz-se no Brasil, hoje, e em várias partes do mundo em depressão econômica que se prenuncia como apocalíptica em face da impossibilidade de ajustes econômicos salvadores dentro da própria lógica do capital, conjuminado com a crise ecológica que causa aquecimento global, uma reprodução de métodos de comunicação via internet e pela via eleitoral, da tentativa de legitimação do totalitarismo. 

O populismo de direita no mundo e no Brasil muito se assemelha aos pressupostos nazistas de tomada do poder e de perpetuação dos seus líderes absolutistas. 

Elementos novos se agrupam a tais métodos, como o fundamentalismo religioso pentecostal, de direita que está de braços dados com o populismo de direita; setores empresariais do agronegócio; e de militares saudosos dos tempos em que gozavam de bons salários como dirigentes de grandes empresas privadas e estatais - não nos esqueçamos que foi na ditadura militar que houve mais estatização nesse país.    

A direita, vendo-se acuada por uma derrota eleitoral e pelo fracasso da tentativa de putsch do 8 de janeiro - tal qual aquele de Munique, na Alemanha,   em 8-9 de novembro de 1923 - recicla o seu discurso se fazendo de vítima dos inimigos da pátria, tal qual fez Hitler ainda na prisão, pedindo anistia aos pretensamente injustiçados presos políticos e antevendo a extensão disso em causa própria.  

O veneno sórdido da serpente direitista, diante do impasse causado pela depressão econômica que aflige o povo, tenta galvanizar em torno de si apoio popular que lhe dê poder político absolutista, iludindo a todos com um velho discurso de salvação da pátria, mas travestido de novo - como fez Javier Milei, na Argentina.  

A mesa de apostas está colocada, mas cabe a nós termos a suficiente lucidez para galvanizar o apoio popular a uma ideia humanista de superação da lógica do capital, razão de base do infortúnio social, e que somente pode ser assim efetivada e considerada com a própria superação das categorias capitalistas que a sustenta, e substituindo-as por uma relação social direta e sob controle dos que produzem coletivamente a riqueza material. (por Dalton Rosado) 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

UM ANO DA FARSA DO 8 DE JANEIRO

 Há um ano, um punhado de gatos pingados bolsonaristas invadiam e quebravam os prédios na Praça dos Três Poderes em Brasília. Era o epílogo do frustrado movimento que desde outubro tentava reverter as eleições de 2022 com fechamentos de estradas e acampamentos nas portas de quartéis país afora. 

A imprensa burguesa, em aliança com o lulopetismo e com a oligarquia política encastelada no Congresso e no STF, transformaram o ato aloprado em uma tentativa de golpe, em uma narrativa tão absurda que mesmo Kafka teria dificuldades de acompanhar. A Globo não se vexou mesmo de nomear os aposentados, vendedores de bolo de pote, agricultores, donas de casa ociosas e milicos aposentados de terroristas por terem quebrado relógios, cadeiras, vidraças e rasgado quadros. 

Foi o momento dos valentões brilharem contra os joão-ninguéns invasores. Alexandre de Moraes, o vingador da República, foi muito macho contra senhorzinhos e senhorzinhas, tendo, segundo contas recentes, chegado a efetuar mais de 6 mil processos desde então, um nível produtivo jamais visto na história das galáxias. Um homem com fúria de justiça! Pena que sua fúria tenha se elevado no máximo a um Coronel da PM e um ex-ministro de Bolsonaro, não alcançando fazendeiros, comerciantes, banqueiros, generais e demais figurões por trás do levante bozoísta. Mas não poderia ser diferente, pois pegar formigas gera mais número que pegar tubarões.  

Do Lula não precisamos falar muito. Presidente cada dia mais patético, precisou da intervenção da esposa para não decretar uma GLO, pois não havia ninguém em sua equipe com perspicácia suficiente para compreender o momento e tomar decisões adequadas. Rendido aos milicos, manteve Múcio, ministro da Defesa, que o havia traído pouco antes, não fez nenhuma intervenção nas Forças Armadas, exceto a demissão de um teimoso generaleco, e hoje compactua com a impunidade a Bozo e seus asseclas.

A falsificação do que foi o 8 de janeiro serve para validar a podridão das instituições, criminalizar manifestações populares e blindar o lulopetismo de qualquer crítica. Taxar de golpe é desconsiderar o que é um Golpe de Estado e, pior, desconsiderar a estratégia por trás de todo o movimento bolsonarista iniciado em outubro de 2022. Não importa o que este ou aquele participante dos atos acreditava, se eles tinham ilusão de estarem pondo abaixo a República, nada daquilo tinha o poder de subverter a estrutura social e política do país e nem mesmo uma GLO o faria, isso porque o núcleo duro das elites e o Imperialismo tinham fechado questão em torno de Lula e não apoiariam uma aventura golpista naquele contexto. 

Perigosa terrorista que atemorizava ministros
do STF

Esse ponto já tinha sido deixado claro pelo governo Biden aos milicos durante todo o ano de 2022. A União Europeia, na liderança de Macron, também já tinha dado sinais que não dariam sustentação a uma virada de mesa no país, não tendo sido gratuitas as inúmeras viagens de Lula aos EUA e à Europa antes da eleição. Por fim, a oligarquia brasileira, cristalizada nos bancos e na mídia, já tinha fechado questão contra o golpismo bozista de forma veemente no cômico movimento da Carta pela Democracia.

Tudo isso porque amam a democracia? Óbvio que não! Os capitalistas odeiam a democracia e, no Brasil, ela é limitada ao máximo para impedir a concreta participação popular. O grande temor da plutocracia era com o efeito desestabilizador de um golpe da extrema-direita, com consequências imprevisíveis. Lula pelo menos eles já conhecem, é um fiel servidor da burguesia, tão manso quanto um cãozinho. E, melhor, pode apaziguar as massas com seu discurso de pseudo esquerda

Então, se era assim, por que o bolsonarismo foi às ruas? Porque o jogo é de longo prazo! Steve Bannon, o grande estrategista mundial da extrema direita, já tinha traçado que se fosse para o movimento sair vencedor, seria uma tarefa talvez de décadas. Ao mobilizar o povaréu fascistóide nas ruas, os líderes da extrema-direita estão apenas mantendo o movimento energizado após uma derrota que, para eles, é momentânea. Foi assim na invasão ao Capitólio, outra ação que não tinha poder nenhum para mudar nada, mas serviu para manter as bases trumpistas mobilizadas após a derrota para Biden. Mesmo as prisões ajudam nesse processo, pois afinam o discurso da perseguição política e da podridão do sistema, gerando ainda mais coesão e senso de propósito aos participantes. 

Desgraçadamente, a esquerda até hoje não compreendeu o movimento da extrema-direita e insiste em considera-la a partir de categorias equivocadas. A extrema-direita não precisa dar golpes claros e inequívocos porque está modificando as instituições burguesas por dentro, de forma democrática e legal, ao eleger deputados, senadores, colocar ministros nas cortes de justiça, aprovar leis restritivas, etc. Não se trata de uma Copa, com uma final apoteótica, mas de um campeonato de pontos corridos com pequenas vitórias corriqueiras, mas que se agregam  na totalidade da competição. E, é preciso dizer, estão abrindo pontos de vantagem.

Passado o circo bolsonarista, foi a vez
dos palhaços mais veteranos adentrarem o picadeiro 


QUAL DEMOCRACIA, CARA PÁLIDA?

Para concluir, é preciso dizer que das narrativas sobre o 8 de janeiro a mais irritante é sobre a defesa da democracia. Não apenas porque nossa burguesia não acredita na democracia, mas também porque se trata de uma democracia apodrecida, falsa. 

Uma democracia em que, por exemplo, acaba de ser aprovada, pelo governo Lula, uma lei geral das Polícias Militares liberando a militarização geral da sociedade e reforçando o caráter repressivo de tais instituições. Isso sem qualquer debate social!

Numa democracia em que o Congresso, um aglomerado de bandidos e parasitas, decide tudo na base da extorsão e sem qualquer debate com o povo ou em que as leis mudam de acordo com a conveniência dos poderosos, não valendo hoje o que valia ontem.

Ou em que a Justiça, corporativa e oligárquica, faz o máximo de esforço para tomar decisões às escondidas, em vergonhosos acordões que achincalham a Constituição e colocam ministros do STF no podre jogo do toma lá dá cá , mas, óbvio, sempre em favor dos poderosos e de si mesmos. 

Steve Bannon: é um campeonato de pontos 
corridos, não um mata-mata
A democracia em que tudo muda para permanecer igual, pois cada eleição é mero teatro com personagens medíocres e previsíveis, com debates inúteis, superficiais, sem jamais tocar no essencial. A cada novo ciclo eleitoral, a vida segue a mesma.

Defender tal democracia é defender a perpetuação da ignomínia humana. 

Na realidade, a ponderar bem as coisas, nenhuma ação dos aloprados do 8 de Janeiro se compara em nível destrutivo ao que é pacatamente praticado nos corredores daquele mesmo Senado, Câmara Federal, STF e Palácio do Planalto todo dia, pois ali o resto da democracia é vilipendiada e a vida do povo atacada sem levantar qualquer indignação. (por David Emanuel Coelho)  

sábado, 17 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 7: O LEVANTE NACIONAL



O LEVANTE NACIONAL 


 Após o massacre perpetrado pelas forças policiais de São Paulo na quinta-feira, dia 13 de Junho, a população brasileira se indignou profundamente e manifestações começaram a ser convocadas em todo país. 

Dia 17 de Junho de 2013 pode ser considerada a data chave para as manifestações em nível nacional. Naquele dia, milhões de pessoas tomaram as ruas das grandes, médias e pequenas cidades para mostrar seu descontentamento com a ação arbitrária contra os manifestantes de São Paulo e demandar melhores condições de vida. A contagem da mídia e das autoridades é enviesada, pois apenas metrópoles como Belo Horizonte e Rio de Janeiro contaram com número superiores aos cem mil nas ruas.

Em Brasília, a cúpula exterior do Congresso Nacional é tomada por milhares de manifestantes. Ao contrário do 8 de janeiro de 2023, os manifestantes não depredaram a sede do poder legislativo, mesmo estando em número milhares de vezes maior que os pouquíssimos gatos pingados bolsonaristas. Lá subiram pacificamente, com cartazes e palavras de ordem em uma forma clara de exigir da classe política nacional o cumprimento de suas demandas. 

Em todas as capitais, grandes manifestações são registradas, com milhares e até milhões de pessoas tomando os logradouros públicos. De acordo com pesquisas da época, a maioria esmagadora - cerca de 70% - dos manifestantes tinha entre 15 e 25 anos, ou seja, eram adolescentes e jovens mostrando sua insatisfação. Importante notar o quanto esse quadro é destoante do que viriam a ser as manifestações direitistas, formadas majoritariamente por pessoas de meia idade - por volta de 45 anos - e mesmo os atos bolsonaristas, dominados pela terceira idade. É como se a juventude estivesse lutando pela mudança e a velha guarda estivesse na reação, se posicionando pelo antiquado. 

Esse quadro etário também desmente a propaganda lulopetista de que os manifestantes de Junho de 2013 eram fascistas ou foram a base para o bolsonarismo. Na realidade, aqueles manifestantes foram dramaticamente derrotados pelo governo Dilma, dando passagem à tomada da dianteira da insatisfação popular pela direita fascistóide. 

A principal característica de todas as manifestações ao redor do país era a aspiração pelo cumprimento das promessas inscritas na Constituição de 1988, ou seja, a plena execução dos direitos cidadãos à saúde e à educação, sobretudo. Contudo, implicitamente havia um ultimato ao próprio capitalismo brasileiro, pois as demandas populares só poderiam ser cumpridas se viesse abaixo o Pacto urdido na República Nova e fossem feitas reformas profundas na estrutura social e econômica do país. 

Enquanto portador maior do Pacto conservador, o lulopetismo não titubeou: assumiu o lado da burguesia e descambou forte campanha criminalizadora contra os manifestantes, além de fazer todos os esforços em apoiar a repressão. Dilma colocou nas ruas do país tropas do Exército e da Força Nacional de Segurança a fim de cooperar no esforço dos governos locais em conter a revolta.

Ao mesmo tempo, soou o alarme da classe capitalista brasileira através de sua mídia. Tendo a princípio assumido o discurso repressor, a imprensa burguesa mudou de tática diante do crescimento contínuo dos atos. Ao invés de simples condenar os atos, ela passou a usar dois métodos: por um lado, começaram a separar os manifestantes entre os bons - ordeiros, pacíficos - e os maus - baderneiros, vândalos infiltrados; de outro, passou a disputar a pauta das manifestações, trazendo a temática da luta contra a corrupção e colocando as questões econômicas e sociais em segundo plano.

Na época, se discutia no Congresso Nacional a PEC 37, um projeto de lei que visava ampliar o controle externo do Ministério Público. Nas manifestações ninguém havia elegido a luta contra a referida PEC uma pauta importante, pois era um assunto pouquíssimo debatido, mas acabou se tornando, para a mídia, a principal bandeira a ser entregue aos manifestantes. Assim, a luta moralista tomava o lugar da luta social, um prenúncio do processo vindouro da lava jato. 

Sintomático desse processo de mudança tática da mídia é o papelão desempenhado pelo medíocre Arnaldo Jabor. Cumprindo fielmente o script determinado por seus patrões da Globo, em primeiro lugar ele aparece em vídeo atacando os manifestantes e se perguntando se toda aquela violência era mesmo por 20 centavos. Posteriormente, diante da nova tática, se retifica e passa a defender as manifestações, mas com a pauta anticorrupção. 

Ou seja, se uniram na luta contra os levantes populares o lulopetismo, através de sua militância e do governo Dilma, e a mídia burguesa. À burguesia ficou claro que o lulismo não tinha mais o controle das massas e que agora era preciso reconstruir um processo de dominação e controle do povo. Esse processo, a rigor, começou ali com as pautas vazias anticorrupção e continuou nos anos seguintes até se cristalizar com o bolsonarismo, embora esse tenha se mostrado incontrolável por demais. 

A rigor, a mídia criou o ideário, disseminado até hoje, de que os manifestantes não possuíam pautas claras, de que os atos eram dispersos e sem foco, implicando implicitamente que apenas a pauta anticorrupção, introduzida por ela, teria validade. Na realidade, os atos questionavam de forma radical e muito bem estruturada toda a lógica excludente do capitalismo, em particular o modo como esse se configura no Brasil. 

De qualquer forma, naquela semana do dia 19 de Junho o Brasil começava um período crítico de possibilidades revolucionárias, tendo todas o país ficado em suspenso. Viveram-se ali aqueles períodos únicos na história em que tudo de sólido se desmanchava e em que tudo era possível de acontecer enquanto a história se acelerava bem diante de todos. (por David Emanuel Coelho) 



LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

 


quarta-feira, 19 de abril de 2023

A PRISÃO DO BOZO TEM DE VIR COMO UM AJUSTE DE CONTAS COM OS QUE MORRERAM POR CAUSA DELE E NÃO ESTÃO MAIS AQUI

F
aço questão de reproduzir e endossar o artigo desta 4ª feira (19) do Josias de Souza, por ele ser uma das raríssimas vozes da grande imprensa a implicitamente posicionar-se contra a infâmia que os pizzaiolos dos três Poderes estão prestes a levar ao forno, aprovando rapidamente a inelegibilidade do golpista vacilão e deixando que se arrastem até a prescrição os processos para puni-lo pela infinidade de outros crimes por ele cometidos. 

O maior exterminador de brasileiros de nossa História não pode safar-se com tanta facilidade como se safaram os torturadores da ditadura militar, mas é a isto que chegaremos se depender dos magistrados, dos parlamentares e do  Lula, aquele que em 2008 proibiu seus ministros mais combativos de proporem a revisão da anistia de 1979 (aquela que livrara a cara dos algozes, igualando-os a suas vítimas).  

Há meses venho alertando que, se os que deveriam falar pelos coitadezas que o palhaço psicopata massacrou continuarem calados, nem sequer o pior criminoso que este país já produziu irá para trás das grades. 

Ou saímos às ruas numa nova campanha tipo
diretas-já, ou estaremos compactuando com a avacalhação definitiva desta joça que um dia foi um país. (por Celso Lungaretti)
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.COM CHANCE DE AMARGAR CADEIA, FICAR SÓ INELEGÍVEL SERÁ LUCRO PARA BOLSONARO
Bolsonaro gosta de encenar dois papeis: o de machão que bate e arrebenta, que fala que "a morte é o destino de todos" e diz a pessoas em luto pela covid-19 deixarem de "frescura e mimimi", e o sujeito frágil que se vitimiza e chora diante das câmeras, sempre com pena de si mesmo. Conecta-se, dessa forma, com uma parcela do seu público fiel, que quer seguir, mas também proteger seu mito

Às vésperas do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral que deve decretar sua inelegibilidade devido à micareta que montou no Palácio do Alvorada para atacar o sistema de votação brasileiro a embaixadores estrangeiros, Jair já ensaia em frente ao espelho as expressões de injustiçado indignado com as quais vai manter seu rebanho mobilizado nos próximos anos.

Mas, se é pequena a chance de absolvição no TSE, é menor ainda a possibilidade de recursos reverterem a decisão na própria corte. Ou de o Supremo Tribunal Federal (aquele que seus seguidores destruíram no dia 8 de janeiro) torná-lo apto a concorrer novamente em 2026 ou 2030.  
Até porque ele produziu uma quantidade absurda de provas contra si mesmo, descritas nas 16 ações que pedem sua inelegibilidade.

A vergonhosa micareta com os embaixadores estrangeiros chegou a ser transmitida usando a estrutura pública da TV Brasil, fazendo com que as provas do crime chegassem ao lar de qualquer brasileiro. 

Jair Bolsonaro passou anos atacando o sistema eleitoral, difundindo que as urnas eletrônicas eram corrompidas e manipuladas em nome de Lula, usando técnicos das Forças Armadas para tentar colocar em dúvida a lisura da corte, transformando os chefes do TSE (Luís Roberto Barroso e, depois, Alexandre de Moraes) em alvos móveis, armando seus seguidores através de decretos para depois conclamá-los a fazer o que fosse necessário para defende-lo. 

O seu vitimismo, mais do que uma pressão à Justiça, é uma forma de garantir a manutenção de sua influência, vendendo a seus seguidores a perspectiva de manutenção de poder. Talvez até plagiando algumas frases usadas pelo cristianismo, como "Ele voltará!".

Se o TSE e o STF foram a representação do demônio para os bolsonaristas até aqui, por que não continuar, não é mesmo? E o que pode ser mais motivador para um bolsonarista radical do que o entendimento que seu líder foi sacaneado por diabo Xandão? Afinal, a realidade nunca importou para esse pessoal, não seria diferente agora. 

Se ficar apenas inelegível, Bolsonaro permanecerá no lucro. Ele deve passar os próximos anos lutando para não ser condenado e preso por um rosário de crimes que cometeu antes, durante e depois de sua passagem pela Presidência da República. Uma novidade a quem agiu protegido pelo foro privilegiado por mais de três décadas. 

Há quem sustente que uma prisão não deveria acontecer para não aumentar seu vitimismo e gerar uma onda de violência entre seus seguidores. 

Mas, desde quando a polícia deixa de prender bandido por que seus associados vão estourar uma reação? 

Jair Bolsonaro foi extremamente modesto ao afirmar, em entrevista ao Wall Street Journal, em fevereiro, que "uma ordem de prisão pode vir do nada", quando ele voltasse ao Brasil do seu autoexílio nas cercanias da Disney. Afinal, fez por merecer uma cana longa. 

As investigações em curso sendo tocadas pela Policia Federal apontam que é ele quem está no centro de uma série de ações voltadas a derrubar o Estado democrático de direito. 

Esse pacote envolveu o fomento aos acampamentos golpistas de onde brotaram as ações terroristas de 12 de dezembro (quando ônibus e carros foram queimados em Brasília), de 24 de dezembro (com a bomba plantada em um caminhão de combustível para explodir o aeroporto da capital federal) e de 8 de janeiro (com a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes). 

Isso sem contar as centenas de indígenas Yanomami mortos e os quase 700 mil óbitos por covid-19 por ação de seu governo. E os pastores que cobraram propina em ouro no Ministério da Educação, a corrupção que grassava na na compra de vacinas no Ministério da Saúde, a tentativa de adquirir votos de miseráveis usando o Auxílio Brasil e o crédito consignado. 

Não é à toa que Jair Bolsonaro voou para os Estados Unidos dias antes de terminar o mandato e por lá ficou, tentando vender que o golpismo não pode ser operado de longe. "Eu nem estava lá, e eles querem me culpar!", disse ele ao jornal estadunidense, usando um álibi tão eficaz quanto a cloroquina para a covid-19. 

Uma ordem de prisão não virá do nada, pelo contrário, se vier será uma ação tardia, um ajuste de contas com os que morreram por causa dele e não estão mais aqui para exigir Justiça. 

Se fosse condenado à prisão como Lula, que papel ele desempenharia? A do machão, que não se importa com o que acontecerá consigo mesmo? Da vítima, choramingando na cela? Ou do fujão, rumo a algum país com o qual o Brasil não tem acordo de extradição? (por Josias de Souza)
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