"Cruz, credo! O tal Michelangelo tem de se danar! Criança não pode ver essa putaria!"
De hora em hora, o Lula piora. Ou perdeu a memória, ou crê que nós todos a perdemos, pois acaba de fazer uma profissão de fé naquele moralismo rançoso que virou peça de museu a partir da década de 1960:
"Eu sou da turma em que artista, cinema e novela não é (sic) para ensinar putaria. É para ensinar cultura, contar historia, contar narrativas, e não para dizer que nós queremos ensinar às crianças coisas erradas. Nós só queremos fazer aquilo que se chama arte. Quem não quiser entender o que é arte, dane-se. Queremos muita arte, muita cultura".
Depois de ele haver admitido que no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo usava o seu cargo para cantar as viúvas que vinham atrás dos seus benefícios e de ter sido fulminado em plena campanha eleitoral de 1989 pela revelação de que escondia a existência de uma filha fora do casamento e pressionara em vão a amante para abortá-la em benefício de sua carreira política, que moral ele tem para dar palpites sobre o que deva ou não ser ensinado ás crianças?
Além de levantar um assunto totalmente desaconselhável para quem possui telhado de vidro, o Lula parece inclusive estar pregando a volta à abominável censura artística do período militar. Sua incontinência verbal não tem mais limites.
Faz um bom tempo que ele deixou de sentir necessidade de esconder que foi, desde o início de sua trajetória sindical, um conservador em pele de esquerdista, com uma visão política absorvida do coronelismo nordestino e lapidada pelo sindicalismo de resultados estadunidense.
Mas, a desfaçatez com que ele descarta os valores que um dia fingiu professar desembestou de forma chocante no terceiro mandato.
Sua verdadeira compulsão de chocar e espezinhar aqueles dos quais serviu-se para a conquista da faixa presidencial se tem voltado, nos últimos tempos, para a pauta de costumes. A nova aposta reeleitoral é a de ele se tornar um sapo engolido pelo poder econômico como a alternativa menos extremada ao bolsonarismo.
Sonha com o tetra sem haver honrado os compromissos assumidos para, na bacia das almas, conquistar o tri. Embriagado com sua condição de principal serviçal dos que realmente mandam no Brasil, parece nem dar-se conta de que de que seu prazo de validade está chegando ao fim e a sua maria-fumaça pode muito bem descarrilar no meio do caminho.
Seria uma justiça poética o Lula ser usado e jogado fora assim como, desde a década de 1970, vem usando e jogando fora as bandeiras da esquerda combativa.
Mas, um novo impeachment tenderia a produzir outro monstro, provavelmente o governador paulista Tarcísio de Freitas, já que falta ao palhaço assassino equilíbrio mental para não atrapalhar os negócios dos poderosos, como fez ao sabotar a vacinação contra a covid-19, o que apenas alongou em muito a paradeira geral causada pela pandemia.
Os episódios do Jânio Quadros, Fernando Collor e Dilma Rousseff evidenciaram que quem é expelido da presidência da República não volta a ela no Brasil. E salta aos olhos que o Bozo não será exceção (alguém pode tentar contrapor o caso do Getúlio Vargas, mas ele não foi defenestrado como presidente eleito e sim como o ditador do período 1930-1945).
Enfim, melhor será se um dos incontáveis ministros do Lula convencê-lo a desistir desses sincericídios, caso contrário vai estar não só dando tiros no pé, como poderá despertar suspeitas de que algo da loucura do antecessor escapou no ano passado à desinfecção do 3º andar do Palácio do Planalto. (por Celso Lungaretti)
Qual será a opinião do palpiteiro com faixa presidencial sobre o erotismo
refinado do Raul Seixas? Ele também o coloca na vala comum da putaria?
No último grande festival de música popular realizado antes da decretação do Ato Institucional nº 5, o IV da TV Record, Sérgio Ricardo foi obrigado a alterar versos de sua Dia da Graça por imposição da censura.
A letra falava num "dia de alegria", com "a cidade diferente da normalidade", sem os acontecimentos habituais daquela época turbulenta: "nenhum militar de arma em punho", "nenhum estudante morreu", "nenhum inocente foi julgado e ninguém se matou".
Mas, bem no finalzinho, o autor da inesquecível trilha musical de Deus e o Diabo na Terra do Sol esclarece que se tratava de um "canto que eu conto pra mentir, de 1º de abril".
Já os acontecimentos positivos daquele dia hipotético seriam, entre outros, estes: "retoma o povo o seu lugar na praça", "o Brasil exportou toda banana e o café solúvel", "funcionários e operários ganham novo aumento" e... "o novo coração do paciente batendo apaixonadamente pela enfermeira"..
Bem, o Faustão viveu o seu dia da graça neste 27/08 e muitos textos pipocaram pela imprensa discutindo a possibilidade de a lista de pacientes à espera de transplante do coração haver sido por ele furada.
Como nunca tive tal lista em mãos, não posso, em sã consciência, dizer se anteontem existiam ou não pacientes mais merecedores do transplante além daquele que, em primeiro lugar na relação, teria desistido da graça a ele concedida.
Mas, como se trata de uma questão de vida ou morte e como existe uma clamorosa tendência a se privilegiarem no Brasil os magnatas, os poderosos e os famosos em questões desse tipo, afirmo que só ingênuos descartam a possibilidade de autoridades da área médica, ou de quaisquer outras áreas, se vergarem ao populismo reinante no país.
Aqui é o fim do mundo, Torquato Neto dixit e eu canso de repetir.
Então, também nessa dramática escolha entre os que vão viver e os que vão morrer deveria haver alguém isento verificando se as decisões tomadas foram imparciais como teriam obrigatoriamente de ser.
Ou seja, uma espécie de ombudsman ou ouvidor, como existem no jornalismo e em várias outras atividades.
Nada contra o Faustão, que parece ser uma pessoa de bem. Não me desagrada nem um pouco a sua salvação.
Mas, se havia 386 pessoas esperando por um coração, é pertinente indagarmos se era mesmo ele a segunda mais necessitada de uma solução imediata.
O sistema de seleção (vide aqui) parece estar imune a intervenções por baixo do pano para que sejam contemplados os mais iguais. A coisa dependeria toda de médicos e computadores. Só que...
...só que nestes tristes trópicos, depois de todas as decepções que tivemos durante a recente pandemia, ficamos logo com uma pulga atrás da orelha quando um famoso parece ter sido beneficiado indevidamente.
Se foi clamorosamente falseada a quantidade de óbitos resultantes da covid, a ponto de grandes órgãos de imprensa terem de formar uma equipe conjunta para conferir as totalizações do Ministério da Saúde (o que só dificultava a manipulação dos dados na reta de chegada, mas nada podia fazer quando municípios e estados já tivessem enviado os números devidamente maquilados), então tudo é possível.
No Brasil, quem assina cheque em branco um dia acorda embaixo da ponte. E quem põe as mãos no fogo acaba maneta (por Celso Lungaretti)