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quinta-feira, 7 de maio de 2026

MAIO É UM BOM MÊS PARA LEMBRARMOS O LIBERTÁRIO 1968 FRANCÊS

Não existe unanimidade quanto ao dia em que começou a chamada Primavera de Paris, mas um certo consenso quanto às manifestações unicamente estudantis terem se iniciado em 2 de maio de 1968; se avolumado com a entrada de outros segmentos na semana seguinte; e erguido barricadas no dia 10.

São acontecimentos de 58 anos atrás, mas nossa história começa ainda mais longe, em 1871, ano da Comuna de Paris.

O avanço crescente das lutas do proletariado parecia indicar que a profecia de Karl Marx se concretizaria, com uma onda revolucionária varrendo o mundo de forma quase espontânea, como resultado do esgotamento do capitalismo e da necessidade de sua substituição por uma forma mais avançada de organização da sociedade.

O ancién régime, no entanto, contou com o braço forte da Alemanha para retomar o controle da situação e massacrar os communards, com as baixas refletindo bem a desigualdade que marcou o enfrentamento entre as tropas da reação (100 mil soldados) e os defensores da primeira república proletária da História (menos de 15 mil milicianos): foram mil os mortos do lado vencedor e 80 mil dentre os perdedores. Ai dos vencidos!
A liberdade guiando o povo (versão 68)
Marx concluiu que os inexperientes revolucionários haviam sido tímidos demais, deixando, p. ex., de 
quebrar a máquina burocrática e militar do Estado enquanto podiam. 

E ficou evidenciado que os governos de países capitalistas acudiam prontamente seus congêneres ameaçados por revoluções, enquanto a solidariedade do proletariado internacional demorava a se organizar.

Lênin foi além, priorizando a estruturação de um partido revolucionário duro, que funcionasse com uma disciplina quase militar, apto a assumir a liderança dos trabalhadores nos momentos agudos para direcionar corretamente sua ação. 

Sua concepção vanguardista levava em conta, também, o surgimento de opositores relevantes no campo da esquerda: os adepto do reformismo, para o qual tendia naturalmente a chamada aristocracia proletária (os operários com cargos superiores e salários mais elevados).  

Constatando que a perspectiva de melhorarem progressivamente de vida sob o capitalismo, sem revolução nenhuma, seduzia muitos trabalhadores, Lênin chegou à conclusão de que o proletariado não se compenetraria espontaneamente de que seu papel histórico era o de dar um fim à exploração capitalista.

Necessitava de uma vanguarda que, participando com ele das lutas por ganhos materiais, lhe fosse incutindo a compreensão de que as eventuais vitórias eram ilusórias e logo se dissipariam, daí a necessidade de uma profunda e definitiva transformação da sociedade para que as conquistas se eternizassem.

Lênin estava certo em termos de eficácia: só um partido como o Bolchevique conseguiria tomar o poder em novembro de 1917, apesar de contar com efetivos bem menores do que os de seus competidores do campo da esquerda. 

Em momentos críticos, poucos são os militantes que sabem o que querem, estão dispostos a irem até o fim e obedecem sem pestanejar a comandantes capazes. 
Esses poucos, contudo, pesam bem mais do que muita gente confusa, sem grande determinação nem líderes à altura dos acontecimentos.

Mas, a profecia de Trotsky sobre a maldição do vanguardismo, lançada no tempo em que ele ainda se opunha aos bolcheviques, também se revelou correta: Primeiramente, o partido substitui o proletariado. Depois, o Comitê Central substitui o partido. Finalmente, um tirano substitui o Comitê Central.

O certo é que a União Soviética foi se tornando um mero capitalismo de Estado totalitário: 
— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;
— seja porque a Rússia não estava mesmo pronta para o socialismo e os vitoriosos de 1917 foram obrigados a cumprir, em seguida, muitas tarefas características de uma revolução burguesa, com a duplicidade de objetivos necessariamente causando desvirtuamentos;
— seja porque o proletariado russo, embora aguerrido e heroico, era numericamente muito reduzido, tendo boa parte dos seus melhores filhos tombado na defesa da revolução;
 Invasão da Tchecoslováquia desiludiu socialistas do mundo inteiro
— seja porque a consolidação do novo regime se deu em condições dramáticas, num terrível isolamento, com a URSS  tendo de, em 1918/1921, resistir sozinha à invasão de tropas de umas 20 nações capitalistas e aos contingentes dos reacionários internos, para depois desenvolver esforços hercúleos no sentido de saltar rapidamente de um país com desenvolvimento tardio para uma nação moderna).

De certa forma, a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencer militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiar economicamente ou derrubar governantes adversos por meio das Forças Armadas, do Judiciário ou do Legislativo de seus países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizada por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.

Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são muito significativas as semelhanças da pauta dos communards de 1871 com a dos congêneres de 1968, ambas inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando o século atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. 

Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. 

Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como em 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com o Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados mais de meio século depois, por que não? (por Celso Lungaretti)  

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

UMA ESQUERDA MORREU MAS NÃO SABE, OUTRA PRECISA NASCER MAS NÃO CONSEGUE

Comunidade primitiva, escravidão, feudalismo, cada etapa histórica pela qual a humanidade passou teve começo, meio e fim.

Agora está em curso a agonia do capitalismo, que não sobrevive sem contínua expansão, só que não tem mais para onde expandir-se, depois de vir por tanto tempo driblando com artifícios o fato de que cada vez se alarga mais o abismo entre os volumes sob ele produzidos e os indivíduos em condições de adquiri-los.

O desenvolvimento das forças produtivas que ele impulsionou em séculos passados seria suficiente para que cada habitante do planeta dispusesse do suficiente para uma existência gratificante e para que não esgotássemos estupidamente os requisitos imprescindíveis para a própria sobrevivência da humanidade.

Mas, como o Império Romano conseguiu esmagar a única força capaz de fazê-lo avançar para um estágio superior de civilização  (os gladiadores de Spartacus, que acenaram com a promessa de fim da escravidão, embora não sentissem-se suficientemente fortes para assumir bandeira tão ambiciosa e quisessem apenas escapar para serem livres longe dos romanos), o capitalismo já estagnou e está nos estertores, mas ainda consegue evitar a imprescindível ruptura.

Os ganhos obtidos pela humanidade com os desenvolvimentos científicos e com o barateamento da produção foram usurpados pelo capitalismo, que acumulou um monumental poder de fogo e, com isto mais a lavagem cerebral martelada dia e noite por sua indústria cultural, consegue não só perpetuar e fazer aumentar cada vez mais os riscos de extinção da espécie humana, como alavancar implacavelmente a desigualdade entre as classes em cada país e entre os países mais desenvolvidos e os países relegados à miséria, à fome, às pestes e às guerras insanas como as duas atuais.

O capitalismo conseguiu neutralizar inclusive a esquerda institucional, que por vários motivos já não consegue mais sobreviver fora do sistema, como nós, os contestadores da geração 68, tentamos e em parte então conseguimos durante um curto período. Hoje, os jovens de que desesperadamente necessitamos em nossas fileiras, não se dispõem mais a lutar em duas frentes, a militância anticapitalista e a batalha pela subsistência.

Então, os partidos que se rendem à institucionalidade burguesa, como o PT, levam a esmagadora vantagem de darem a seus quadros a possibilidade de  se dedicarem somente ou principalmente à militância.

[Falo do fundo eleitoral, da cota de assessores dos quais cada representante no Legislativo pode dispor às expensas dos contribuintes, das boquinhas na administração pública e nas estatais, dos salários exorbitantes que são pagos para militantes do partido no poder ao atuarem em entes na esfera de influência do dito cujo, na enxurrada de anúncios para as páginas virtuais de blogueiros mais dependentes que nunca do PT, etc., etc., etc.]
O centrão todo poderoso e a rainha da Inglaterra

È óbvio que a dependência financeira gera a dependência política. Tal esquerda
teúda e manteúda é obrigada a omitir-se vergonhosamente quando o PT passa como um trator sobre os valores fundamentais do marxismo e do anarquismo.

Quanto à esquerda que tenta sustentar-se na raça, sem vender sua alma ao donos do Brasil, ela fica eternamente relegada à insignificância, com efetivos e recursos insuficientes para virar o jogo mediante uma ação organizada de atração/conscientização de novos quadros, ou formação de territórios livres como a Colônia Cecília no final do século retrasado e em nossas comunas alternativas de 1968, muito menos para expropriar o inimigo (como fazíamos em 1969/1972).

O que resta é a alternância infinita de governos da esquerda domesticada e governos da direita selvagem, como está se vendo no Brasil e na Argentina, sem que consigamos quebrar essa polarização que faz a História travar e tudo piorar cada vez mais.

Por enquanto, a esperança que restou são novas explosões de indignação como a do Brasil em 2013 e a de diversos países (com destaque para o Chile) em 2019, pois se todas as portas da razão estão fechadas, pelo menos o espontaneísmo é impossível de represar infinitamente: sempre acaba chegando a gota d'água que extravasa o copo da cidadania manietada.

Mas, até para isto, precisamos formar os mínimos quadros de uma nova vanguarda, caso contrário as ondas de revolta, com líderes como a pobre Sininho, passarão sem que consigamos cravar a estaca no coração do vampiro. 

Vale lembrar: numa dessas
janelas históricas, o Partido Bolchevique, que seria quase insignificante em tempos normais, conseguiu em 1917 tomar o poder como quem tira o doce da boca de uma criança, simplesmente porque era a única força disciplinada e consciente dos seus meios e dos seus fins durante aquele pandemônio.

E é para a formação dessa nova vanguarda, que resgate a combatividade esquerdista evaporada durante a hegemonia do PT, que eu venho lutando ao longo do presente século. Trata-se do último legado que quero deixar, depois de dedicar a minha vida à revolução desde a virada de 1967 para 1968, quando tracei meu caminho na vida.

E uma bandeira a ser erguida imediatamente, para a acumulação de forças, é a adequada punição do indiscutível responsável pela morte evitável de centenas de milhares de vulneráveis durante a recente pandemia de covid. 

Salta aos olhos e clama aos céus que Lula, depois de tudo haver feito para que os torturadores da ditadura militar não fossem punidos, age agora de forma muito semelhante, tendo inclusive demorado uma eternidade para indicar o novo procurador geral da República e, depois, escolhido um candidato que inspira mais dúvidas do que certezas.

É óbvio que o encarceramento do genocida causaria comoção, e gente indo às ruas defender seus ideais assusta a esquerda que se desvirtuou e hoje pouco mais é do que uma força auxiliar da burguesia. A ela convém a pasmaceira, que lhe permite continuar se satisfazendo com as migalhas que caem da mesa da burguesia. Mas nós queremos muito mais: que finalmente se banqueteiem os que fazem o PIB crescer mas sempre veem, impotentes, uma minoria usurpar a parte do leão. 

Depois de todos os crimes cometidos pelo genocida no quadriênio infernal de 2019/2022, se ele escapar das grades será como se um Hitler, caso sobrevivesse à derrota nazista, tivesse sido deixado livre e solto para continuar praticando e pregando sua necropolítica abominável.

Cada derrota consentida fortalece o inimigo e debilita nossa moral. É fundamental cessarmos o quanto antes tal hemorragia. Se quisermos resgatar a esquerda autêntica do fundo do poço, o primeiro passo é termos a coragem de agir como nossos corações e mentes mandam, ao invés de permitirmos que se passe pano naquelas imagens dantescas de seres humanos morrendo sufocados por falta de respiradores. 

Temos de projetar para os brasileiros a imagem de uma esquerda que está de novo disposta à luta. Aquela que se deixou expulsar pusilanimemente  da avenida Paulista e depois ficou assistindo de longe enquanto secundaristas e torcedores de futebol travavam suas batalhas no seu lugar não nos serve mais para nada. Seu prazo de validade está definitivamente vencido.

Já passou da hora de arregaçarmos as mangas e começarmos a construir uma esquerda de verdade. (por Celso Lungaretti)
"Inventando o necessário movimento pra não estar morto. Xaxando,
sambando, frevando ou sem saber dançar direito: renascer das cinzas!"

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

BYE BYE BRASIL. ATÉ NO FUTEBOL!

O
Brasil está se acabando aos poucos. 

Depois de passarmos, nos últimos quatro anos, pelo mais exacerbado retrocesso civilizatório de nossa história, constatamos dia após dia que a falta de um bem maior como alternativa nos levou a engolir um mal menor que nem de longe tem as respostas para evitar novos surtos de barbárie. 

Pelo contrário, o portador da faixa presidencial vê a realidade atual com a nuca, acreditando que a retomada de políticas que caducaram há pelos menos meio século vá resolver alguma coisa. 

Enquanto isto, com  seu governo submetido a um Congresso acima de tudo voltado para a satisfação do apetite pantagruélico da maior parte de seus integrantes por poder, riqueza e privilégios, Lula não passa de um pobre fantoche fingindo canhestramente ser ele quem manda. 

O centrão nem se preocupa mais em salvar as aparências. Então, os poucos brasileiros perspicazes já percebem claramente que é com esse bloco imantado por interesses vis que o poder econômico conta para impor o cumprimento de suas determinações.

Tudo está tão desalentador que o primeiro filme no qual pensamos, ao indagar-nos sobre qual película refletiria melhor o que este gigante eternamente adormecido se tornou, não pode ser outro: Bye bye Brasil (d. Cacá Diegues, 1979)

É sobre os mambembes que entretinham o povo dos grotões antes da imposição avassaladora dos padrões (ou seria melhor dizer grilhões?) televisivos.

De quebra, a Caravana Rolidai percorre a Transamazônica, de tão triste memória pela proximidade com uma das maiores tragédias brasileiras. "Quando eu me banho no meu Araguaia/ e bebo da sua água sangre fria, / bichos caçados na noite e no dia/ bebem e se banham, eles são comigo", cantou o cearense Ednardo.

Destaque para José Wilker num de seus melhores papéis. Foi um ator vitimado pelo toque de sadim de uma TV globalmente nociva: desperdiçou seu talento em telenovelas e em produções cinematográficas com estética de telenovelas, acabando por não deixar nenhuma verdadeira obra-prima para trás.

Enfim, sua atuação como Lorde Cigano é uma das que guardo com carinho em minhas lembranças de cinéfilo. Espero que ocorra o mesmo com vocês.

Por último, não vejam em mim nenhuma intenção de aludir à atuação do escrete brasileiro contra o Uruguai. A escolha do filme para ver no blog de hoje foi mera coincidência (rs). 

Agora falando sério, o futebol é mais um afeto que se encerra no fim de feira pelo qual o Brasil está passando há dez anos. 

Ou seja, desde que a esquerda institucional fez sua definitiva opção contra-revolucionária nas jornadas de 2013. (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 9 de março de 2023

BOLSONARO ESTÁ FORA DE COMBATE, MAS LULA AINDA PODE SER NOCAUTEADO PELA ESTAGNAÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA

U
m dos poucos respiradouros através dos quais a vida inteligente ainda ventila a grande imprensa, William Waack coloca uma questão interessante em sua última coluna n'O Estado de S. Paulo: por que a popularidade do Lula não decolou significativamente nem a do Bozo despencou para profundidades abissais neste começo de 2023?

Afinal, tais deveriam ser as consequências lógicas da fuga do genocida para a Disneylândia, após ter armado a bomba-relógio da mais alucinada de suas micaretas golpistas e dado a mais vergonhosa de suas brochadas, deixando os bovinizados seguidores a arcarem sozinhos com as consequências judiciais de sua insanidade mental e incompetência política. 

Segundo Waack, "a insurreição bolsonarista do 8 de janeiro (...), supõe-se, destruiria a essência" de tal corrente política, enquanto "o escândalo das joias das Arábias (...) destruiria a essência da pessoa" que a encabeçava.

Isto não ocorreu por enquanto (embora deva ir acontecendo aos poucos, tanto que os ultradireitistas já buscam um líder alternativo) devido a "dois fatores de grande abrangência", segundo Waack.
"Um deles é aquilo que os profissionais de pesquisas chamam de calcificação, ou seja, as duas metades que saíram das urnas em 2022 continuam mais ou menos iguais, com o mesmo teor de polarização. E minimizam, ignoram ou absorvem qualquer fato negativo dentro da própria corrente. 
Outro fator (...) é a maneira como vastas parcelas da população lidam com o uso do dinheiro público (que milhões nem entendem que é o dinheiro dos impostos que pagam). No ambiente calcificado, a indignação com o uso privado de recursos públicos é ainda mais seletiva. Perdoa-se sem muitos rodeios se o ocorrido for no lado certo, ou se há necessidade política de votos no Congresso".  

Só que a calcificação não vem de agora. A sabotagem premeditada do combate científico à pandemia de covid, jamais deixarei de repetir, fez do palhaço sinistro o maior assassino de brasileiros de nossa História. 

Institutos ligados a grandes universidades do exterior dão como favas contadas que um contingente de aproximadamente 400 mil das vítimas fatais se deveu às decisões hediondas do portador da faixa presidencial. Com o tempo isto é a que se lerá nos livros de História brasileiros, mas aí não haverá mais a quem castigar. 

Bolsonaro não chegou ao patamar de Adolf Hitler, responsável último pela morte de algo entre 1,5 milhão e 3 milhões de alemães, mas neste país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, sem um passado tão sangrento quanto o de várias nações europeias, tal número é simplesmente estarrecedor e deveria ter despertado indignação exacerbada. 

No entanto, não há sequer a certeza de que, mesmo voltando ao Brasil, o celerado vá para trás das grades: é bem capaz de escapar apenas com a inelegibilidade. Mereceria é ter o mesmo final de seus antepassados ideológicos, o alemão faniquiteiro com bigodinho ridículo e o italiano careca com alma e camisa de corvo...

Mas, a tal da calcificação embute um perigo maior do que o apontado por Waack: o de que, mesmo o contrabandista de joias acabando por se tornar um personagem secundário como o é hoje Fernando Collor (os próprios políticos ultradireitistas temem que sua popularidade desabe até uma faixa de 10% a 15% do eleitorado), por este caminho se destruirá o personagem, mas não se vai imunizar a sociedade brasileira contra uma nova investida fascista.

Os desvarios e vilanias do Bozo são gritantes demais e extrapolaram os limites que o poder econômico traçara para ele, daí a decisão tomada no semestre passado, de lhe retirarem a escada, deixando-o pendurado na brocha. 
[Ou alguém acredita que os ministros do STF, no momento decisivo, agiriam com tamanha firmeza se não soubessem estar respaldados pelos que realmente mandam no Brasil?]

No entanto, o capitalismo mundial continua marchando para o fim, a empurrar com a barriga suas contradições até que a situação se torne totalmente insustentável:
— seja com as bolsas de valores do mundo inteiro despencando como peças de dominó e provocando uma depressão mais terrível ainda do que a iniciada em 1929;
— seja com as catástrofes decorrentes do aquecimento global aumentando cada vez mais em quantidade e contundência, podendo inclusive provocar outros acidentes radiativos como o de 2011 na usina japonesa de Fukushima; 
— seja com a 3ª Guerra Mundial que já pode estar começando na Ucrânia;
— seja com a simultaneidade e sinergia das ameaças já citadas, além de outras possíveis (como uma intensificação do surgimento e aumento da letalidade das epidemias).

Então, a aposta lulista em que um capitalismo cada vez mais fragilizado ainda vá tirar a economia brasileira da longa recessão que nos despedaça (nosso último ano com evolução expressiva do PIB foi 2010: 7,5%) não passa de sonho de uma noite de verão. De 2003 para 2023 a crise do sistema de exploração do homem pelo homem se agravou muito.

Com a permanência da estagnação econômica, que é um fenômeno estrutural e não pode ser removida apenas alterando-se a taxa básica de juros, logo o desencanto popular morderá os calcanhares de Lula, dando oportunidade a qualquer outro(a) aventureiro(a) fascista que mentirosamente se proponha a acabar com a velha política. 

A insatisfação popular vai sendo represada até que exploda como aqui em 2013 e no Chile e outros países em 2019. E o alvo principal será sempre quem o povo vê como responsáveis por suas mazelas: os políticos profissionais, o presidente da República, o Congresso, o poder judiciário, etc.

Ao avassalar-se ao centrão de forma vexatória e caricata, a ponto de perdoar até os descalabros cometidos pelo ministro das Comunicações Juscelino Filho no exercício de uma função da qual não entende bulhufas, Lula terá se tornado um personagem tóxico quando o povo não aguentar mais tudo que está aí. 

Ainda dá tempo para a esquerda desembarcar dessa canoa furada, pois as pastas ministeriais, mordomias, falcatruas e boquinhas poderão ser-lhe cobradas em dobro pelas multidões enfurecidas adiante. 

Ou a esquerda resgata sua independência com relação ao poder econômico e deixa de cumprir a função de mera força auxiliar da dominação burguesa, ou será arrastada pela tempestade que está se formando.

A alternativa que os fascistas oferecem é a entropia, o caos e um retrocesso civilizatório de vários séculos.

Temos de personificar a promessa de sobrevivência e o aperfeiçoamento da civilização, com a priorização do lucro e da ganância sendo substituída pela do pleno atendimento das necessidades humanas.

Caso contrário, perderemos inclusive a nossa razão de existir. (por Celso Lungaretti)  
 
Nesta excelente canção de 1988, Leonard Cohen avisa, entre outras
coisas, que a peste estava chegando. Mas morreu antes disto, em 2016.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

LULA 3 FAZ 1 MÊS (E JÁ PARECE TER 100 ANOS)

Lula com os companheiros Rodrigo Pacheco e
Arthur Lira. Navegar é preciso... mas, chafurdar?! 
Tão logo o 8 de janeiro sepultou de vez o bolsonarismo (a ultradireita, embora duramente atingida, poderá nos incomodar  de novo lá por 2024 ou 2025, mas o movimento identificado com as características peculiares do genocida ensandecido só tem futuro nas prisões federais e nos manicômios judiciais), cantei a bola de que Lula, à falta de propostas para fazer a economia brasileira sair do fundo do poço, obteria aplausos fáceis com a obrigatória desbozificação. 

O bêbado, desta vez, merece mesmo a sova, mas bater nele não passa da obrigação. Se Lula tivesse um pouco de simancol, não estaria exibindo o muque como se fosse um Hércules após matar a hidra de Lerna... 

Como a sorte continua bafejando Lula, ao genocídio dos idosos (uso os termos como o povo os entende, não como os doutos pregam) no qual se constituiu a pandemia de covid veio somar-se o genocídio dos indígenas, com suas imagens terríveis de até onde pode chegar a desumanidade do homem contra o homem.

[Aliás, nem tudo deve ter sido apenas sorte. Assim como vários espiões alertaram a Inteligência estadunidense de que os japoneses atacariam precisamente Pearl Harbor mas o governo considerou válido o sacrifício de vidas e equipamentos para convencer a população a aceitar a entrada do país na 2ª Guerra Mundial (até então prevalecia amplamente a posição de que deveria permanecer neutro), é impossível que Lula e seus ministros ignorassem o que se tramava. 

Lá em 1941, como cá em 2023, deixou-se acontecer o que nem de longe representaria um perigo verdadeiro,  mas, no nosso caso,  serviu para destruir a imagem do bolsonarismo e alavancar poderosamente a do Lula. Me engana que eu gosto...]   
Noves fora, a realidade do novo governo é dada pelas alianças que já foi obrigado a fazer, apoiando a manutenção de Rodrigo Pacheco e Arthur Lira como presidentes das duas casas legislativas. 

Ou seja, quando o povo não aguenta mais a putrefação
 da política brasileira, Lula coloca a esquerda institucional cada vez mais a reboque dos podres poderes, alinhada até com o centrão! É por aí que o fascismo deverá voltar à tona, novamente fingindo-se de outsider, embora não passe da versão mais tóxica do submundo que nos governa.

Se a direita convencional lembra as famílias mafiosas que deixaram a violência estridente de lado, trocando-a por empreendimentos mais respeitáveis na ótica capitalista (como os imobiliários), a extrema-direita miliciana ainda conserva os maus bofes do tempo de Al Capone, daí não ter sido tão difícil derrotá-la desta vez. Mas, tudo faz crer que, depois da disputa que se trava pela liderança do movimento ora acéfalo, o lobo trajará pele de cordeiro quando da sua nova investida.

De resto, só não vê quem não quer que, a pretexto de minar o golpismo ultradireitista, Lula investe cada vez mais no autoritarismo e no punitivismo (que têm como alvo visível os fascistas e como alvo oculto a esquerda). 

Ou seja, já prepara os instrumentos para reprimir as grandes manifestações de insatisfação popular que tendem a eclodir quando cair para os brasileiros a ficha de que, com suas posturas econômicas do século passado, o governo mais do mesmo do PT não tirará o Brasil da recessão interminável nem que a vaca tussa. 

Coerente com sua aversão figadal à esquerda revolucionária, evidenciada desde as caças às bruxas no seio do PT durante a década de 1980, Lula já se preocupa com uma nova onda de protestos como a brasileira de 2013 e a de vários países em 2019.

É por a maior parte da esquerda brasileira ter desistido de transformar em profundidade a sociedade que as falsas soluções do fascismo iludiram a tantos nos últimos anos. 

E se nossa esquerda não acordar para a realidade de que a crise capitalista se agrava cada vez mais  e acabará provocando uma devastadora explosão social em futuro não muito distante, as bandeiras fantasiosas dos fascistas poderão até prevalecer da próxima vez, consumando a destruição do país.

Temos de corporificar também uma alternativa ao status quo, mas propondo para o Brasil um caminho diametralmente oposto ao deles, que só têm a oferecer o retrocesso civilizatório, o caos e a barbárie. 

De nossa parte, o posicionamento a assumirmos é o de defensores do aprofundamento da civilização, com a superação do primado do lucro e da competição insana, substituídos pela priorização do bem comum e dos esforços solidários para a satisfação plena das necessidades humanas. (por Celso Lungaretti)
Aproveito a deixa do título do post para reverenciar o principal
cineasta espanhol das últimas décadas, Carlos Saura, que neste sábado,
04/02, completou 91 anos de idade. Ele está na ativa desde 1956. 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

PARA LER E REFLETIR: "UMA REVOLUÇÃO MOLECULAR ASSOMBRA A AMÉRICA LATINA"

Se os brasileiros reagissem às reformas neoliberais como os colombianos, elas teriam passado?
O
termo veio pelas mãos de Álvaro Uribe, ex-presidente da Colômbia e líder efetivo da direita linha-dura que hoje governa aquele país. 

Diante das inéditas manifestações que tomaram as ruas colombianas, fazendo o governo abandonar um projeto de reforma tributária que, como sempre, passava para os mais pobres os custos da pandemia, não lhe ocorreu ideia melhor do que conclamar os seus à luta contra uma revolução molecular dissipada que estava a tomar conta do país. No que, há de se reconhecer, Uribe tinha razão. Normalmente, são os políticos de direita que entendem primeiro o que se passa.

A América Latina, ou ao menos uma parte substantiva do continente, está a passar por um conjunto de levante populares cuja força vem de articulações inéditas entre recusa radical da ordem econômica neoliberal; sublevações que tensionam, ao mesmo tempo, todos os níveis de violência que compõem nosso tecido social; e modelos de organização insurrecional de larga extensão.  
Protestos chilenos de 2019 desembocaram...
As imagens de lutas contra a reforma tributária, que têm à frente sujeitos trans em afirmação de sua dignidade social ao lado de desempregados a fazer barricadas juntamente com feministas, etc., explicam bem o que revolução molecular significa nesse contexto.

Significa que estamos diante de insurreições não centralizadas numa linha de comando e que criam situações que podem reverberar, num só movimento, tanto a luta contra disciplinas naturalizadas na colonização dos corpos e na definição de seus pretensos lugares quanto contra macroestruturas de espoliação do trabalho. 

São sublevações que operam transversalmente, colocando em questão, de forma não hierárquica, todos os níveis das estruturas de reprodução da vida social.

De fato, o século 21 começou assim. Engana-se quem acredita que o século 21 começou em 11 de setembro de 2001, com o atentado contra o World Trade Center. Essa é a maneira como alguns gostariam de contá-lo. 

Pois seria a forma de colocar o século sob o signo do medo, da ameaça terrorista que nunca passa, que se torna uma forma normal de governo. Colocar nosso século sob o signo paranoico da fronteira ameaçada, da identidade invadida. Como se nossa demanda política fundamental fosse, numa retração de horizontes, segurança e proteção policial.

Na verdade, o século 21 começou numa pequena cidade da Tunísia chamada Sidi Bouzid, no dia 17 de dezembro de 2010. Ou seja, começou longe dos holofotes, longe dos centros do capitalismo global. Ele começou na periferia. 
...na eleição de uma nova constituinte, domingo passado.

Nesse dia, um vendedor ambulante, Mohamed Bouazizi decidiu ir reclamar com o governador regional e exigir a devolução de seu carrinho de venda de frutas, que fora confiscado pela polícia. 

Vítima constante de extorsões policiais, Bouazizi foi à sede do governo com uma cópia da lei em punho. No que ele foi recebido por uma policial que rasgou a cópia na sua frente e lhe deu um tapa na cara. Bouazizi então tacou fogo em seu próprio corpo. 

Depois disso, a Tunísia entrou em convulsão, o governo de Ben Ali caiu, levando insurreições em quase todos os país árabes. Começava assim o século 21: com um corpo imolado por não aceitar submeter-se ao poder. 

Começava assim a primavera árabe. Com um ato que dizia: melhor a morte do que a sujeição, com uma conjunção toda particular entre uma ação restrita (reclamar por ter seu carrinho de venda de frutas apreendido) e uma reação agonística (imolar-se) que reverbera por todos os poros do tecido social.

Desde então o mundo verá uma sequência de insurreições durante 10 anos. occupy, Plaza del Sol, Istambul, Brasil, gillets jaunes [coletes amarelos/França], Tel-Aviv, Santiago: são apenas alguns lugares por onde esse processo passou. 

E na Tunísia já se via o que o mundo conheceria nos próximos 10 anos: sublevações múltiplas, que ocorrem ao mesmo tempo, que recusam centralismo e que articulavam, na mesma série, mulheres egípcias que se afirmavam com seios a mostra nas redes sociais e greves gerais. 
 Indignação de um injustiçado foi o estopim da primavera árabe 

A maioria dessas insurreições irá se debater com as dificuldades de movimentos que levantam contra si as reações mais brutais, que se deparam com a organização dos setores mais arcaicos da sociedade na tentativa de preservar o poder tal como sempre foi. 

Mas há um momento em que a repetição acaba por gerar uma mudança qualitativa. Dez anos depois, ela ocorreu e foi possível de ser vista no último domingo, no Chile.

No último domingo, o Chile elegeu uma nova Assembleia Constituinte. Depois de manifestações massivas em outubro de 2019 que fizeram as ruas chilenas queimarem até o governo parar de matar sua própria população e aceitar convocar um processo constitucional, o Chile elegeu 155 deputados constituintes, dos quais 65 são independentes, ou seja, não vinculados a estrutura partidária alguma.

Mas unidos, como os 24 constituintes da lista del pueblo por um Estado ambiental, igualitário e participativo; 79 constituintes são mulheres, sendo a única Assembleia Constituinte da história mundial a ter maioria feminina; 18 são povos originários, sendo que todos estão presentes (desde os rapanui da ilha da Páscoa até os mapuches). 

A direita, que ansiava alcançar ao menos um terço para poder barrar as modificações constitucionais, terá apenas 37 deputados.
Em 2013 já houve aqui um ensaio de revolução molecular; o segundo ato será sua consumação.
O caráter absolutamente único do processo chileno encontra-se no fato de ele se produzir como institucionalização insurrecional. Ele foi resultado de uma insurreição que exigiu imediatamente uma nova institucionalidade. 

Os islandeses tentaram isso, quando a crise econômica produziu profundas mobilizações populares que terminaram por produzir uma nova constituição. No entanto, o Parlamento não reconheceu a nova carta, abortando o processo.

Tal excepcionalidade andina deve ser compreendida à luz do que foi a via chilena para o socialismo. O governo de Salvador Allende (1970-1973) procurou realizar um programa marxista por meio de uma mutação progressiva da vida social que preservava largas partes da estrutura da democracia liberal. 

Muitos criticaram tal estratégia depois do golpe, mas há de se lembrar de suas razões. Era a maneira dos chilenos e chilenas impedirem a militarização da vida social, como normalmente ocorreu em todos os processos revolucionários até agora. Havia uma questão real que o Chile procurou resolver inovando.
"O cenário tendencial entre nós é o de uma insurreição contra outra insurreição"
De certa forma, esse processo interrompido retoma agora 47 anos depois. Desde as revoltas estudantis no Governo Bachelet, o Chile viu lideranças estudantis se tornarem deputados e deputadas para arrancar do Congresso uma reforma que tornava gratuito o sistema público de ensino. Agora, eles fizeram o movimento inédito de só saírem das ruas com uma constituinte nas mãos, o que os tunisianos só conseguiram anos depois da formação do primeiro governo pós-ditadura. 

Ao acoplar os dois processos, o Chile permitiu que o entusiasmo insurrecional comandasse o processo constitucional, institucionalizando sua revolução molecular.

O espectador que vê tudo isso do Brasil pergunta-se o que ocorre conosco. No entanto, erram aqueles que pensam que tal dinâmica não chegará no Brasil. Ocorre que ela encontrará uma situação muito mais dramática. Pois o Brasil é o país no qual as forças da reação organizaram-se de forma insurrecional. São setores expressivos da população que foram e irão às ruas pedir golpe militar e defender o fascismo de quem nos governa. 

Dentro da lógica da contrarrevolução preventiva, o Brasil, à diferença de outros países latino-americanos, foi capaz de mobilizar as dinâmicas de um fascismo popular. Por isso, o cenário tendencial entre nós é o de uma insurreição contra outra insurreição. Uma revolução fascista contra uma revolução molecular dissipada. 

Melhor seria estarmos preparados para tanto. (por Vladimir Safatle, na edição brasileira do jornal global El Pais) 
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