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quinta-feira, 9 de março de 2023

BOLSONARO ESTÁ FORA DE COMBATE, MAS LULA AINDA PODE SER NOCAUTEADO PELA ESTAGNAÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA

U
m dos poucos respiradouros através dos quais a vida inteligente ainda ventila a grande imprensa, William Waack coloca uma questão interessante em sua última coluna n'O Estado de S. Paulo: por que a popularidade do Lula não decolou significativamente nem a do Bozo despencou para profundidades abissais neste começo de 2023?

Afinal, tais deveriam ser as consequências lógicas da fuga do genocida para a Disneylândia, após ter armado a bomba-relógio da mais alucinada de suas micaretas golpistas e dado a mais vergonhosa de suas brochadas, deixando os bovinizados seguidores a arcarem sozinhos com as consequências judiciais de sua insanidade mental e incompetência política. 

Segundo Waack, "a insurreição bolsonarista do 8 de janeiro (...), supõe-se, destruiria a essência" de tal corrente política, enquanto "o escândalo das joias das Arábias (...) destruiria a essência da pessoa" que a encabeçava.

Isto não ocorreu por enquanto (embora deva ir acontecendo aos poucos, tanto que os ultradireitistas já buscam um líder alternativo) devido a "dois fatores de grande abrangência", segundo Waack.
"Um deles é aquilo que os profissionais de pesquisas chamam de calcificação, ou seja, as duas metades que saíram das urnas em 2022 continuam mais ou menos iguais, com o mesmo teor de polarização. E minimizam, ignoram ou absorvem qualquer fato negativo dentro da própria corrente. 
Outro fator (...) é a maneira como vastas parcelas da população lidam com o uso do dinheiro público (que milhões nem entendem que é o dinheiro dos impostos que pagam). No ambiente calcificado, a indignação com o uso privado de recursos públicos é ainda mais seletiva. Perdoa-se sem muitos rodeios se o ocorrido for no lado certo, ou se há necessidade política de votos no Congresso".  

Só que a calcificação não vem de agora. A sabotagem premeditada do combate científico à pandemia de covid, jamais deixarei de repetir, fez do palhaço sinistro o maior assassino de brasileiros de nossa História. 

Institutos ligados a grandes universidades do exterior dão como favas contadas que um contingente de aproximadamente 400 mil das vítimas fatais se deveu às decisões hediondas do portador da faixa presidencial. Com o tempo isto é a que se lerá nos livros de História brasileiros, mas aí não haverá mais a quem castigar. 

Bolsonaro não chegou ao patamar de Adolf Hitler, responsável último pela morte de algo entre 1,5 milhão e 3 milhões de alemães, mas neste país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, sem um passado tão sangrento quanto o de várias nações europeias, tal número é simplesmente estarrecedor e deveria ter despertado indignação exacerbada. 

No entanto, não há sequer a certeza de que, mesmo voltando ao Brasil, o celerado vá para trás das grades: é bem capaz de escapar apenas com a inelegibilidade. Mereceria é ter o mesmo final de seus antepassados ideológicos, o alemão faniquiteiro com bigodinho ridículo e o italiano careca com alma e camisa de corvo...

Mas, a tal da calcificação embute um perigo maior do que o apontado por Waack: o de que, mesmo o contrabandista de joias acabando por se tornar um personagem secundário como o é hoje Fernando Collor (os próprios políticos ultradireitistas temem que sua popularidade desabe até uma faixa de 10% a 15% do eleitorado), por este caminho se destruirá o personagem, mas não se vai imunizar a sociedade brasileira contra uma nova investida fascista.

Os desvarios e vilanias do Bozo são gritantes demais e extrapolaram os limites que o poder econômico traçara para ele, daí a decisão tomada no semestre passado, de lhe retirarem a escada, deixando-o pendurado na brocha. 
[Ou alguém acredita que os ministros do STF, no momento decisivo, agiriam com tamanha firmeza se não soubessem estar respaldados pelos que realmente mandam no Brasil?]

No entanto, o capitalismo mundial continua marchando para o fim, a empurrar com a barriga suas contradições até que a situação se torne totalmente insustentável:
— seja com as bolsas de valores do mundo inteiro despencando como peças de dominó e provocando uma depressão mais terrível ainda do que a iniciada em 1929;
— seja com as catástrofes decorrentes do aquecimento global aumentando cada vez mais em quantidade e contundência, podendo inclusive provocar outros acidentes radiativos como o de 2011 na usina japonesa de Fukushima; 
— seja com a 3ª Guerra Mundial que já pode estar começando na Ucrânia;
— seja com a simultaneidade e sinergia das ameaças já citadas, além de outras possíveis (como uma intensificação do surgimento e aumento da letalidade das epidemias).

Então, a aposta lulista em que um capitalismo cada vez mais fragilizado ainda vá tirar a economia brasileira da longa recessão que nos despedaça (nosso último ano com evolução expressiva do PIB foi 2010: 7,5%) não passa de sonho de uma noite de verão. De 2003 para 2023 a crise do sistema de exploração do homem pelo homem se agravou muito.

Com a permanência da estagnação econômica, que é um fenômeno estrutural e não pode ser removida apenas alterando-se a taxa básica de juros, logo o desencanto popular morderá os calcanhares de Lula, dando oportunidade a qualquer outro(a) aventureiro(a) fascista que mentirosamente se proponha a acabar com a velha política

A insatisfação popular vai sendo represada até que exploda como aqui em 2013 e no Chile e outros países em 2019. E o alvo principal será sempre quem o povo vê como responsáveis por suas mazelas: os políticos profissionais, o presidente da República, o Congresso, o poder judiciário, etc.

Ao avassalar-se ao centrão de forma vexatória e caricata, a ponto de perdoar até os descalabros cometidos pelo ministro das Comunicações Juscelino Filho no exercício de uma função da qual não entende bulhufas, Lula terá se tornado um personagem tóxico quando o povo não aguentar mais tudo que está aí

Ainda dá tempo para a esquerda desembarcar dessa canoa furada, pois as pastas ministeriais, mordomias, falcatruas e boquinhas poderão ser-lhe cobradas em dobro pelas multidões enfurecidas adiante. 

Ou a esquerda resgata sua independência com relação ao poder econômico e deixa de cumprir a função de mera força auxiliar da dominação burguesa, ou será arrastada pela tempestade que está se formando.

A alternativa que os fascistas oferecem é a entropia, o caos e um retrocesso civilizatório de vários séculos.

Temos de personificar a promessa de sobrevivência e o aperfeiçoamento da civilização, com a priorização do lucro e da ganância sendo substituída pela do pleno atendimento das necessidades humanas.

Caso contrário, perderemos inclusive a nossa razão de existir. (por Celso Lungaretti)  
 
Nesta excelente canção de 1988, Leonard Cohen avisa, entre outras
coisas, que a peste estava chegando. Mas morreu antes disto, em 2016.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

BORIC SEGUE O MESMO CAMINHO DE ALLENDE. NOVA TRAGÉDIA À VISTA?

Mao Tse-tung, "a
revolução não é
um jantar".
 
david emanuel coelho
AS LIÇÕES DA DERROTA
 CONSTITUINTE NO CHILE
Neste domingo (4), o povo chileno votou num referendo para decidir se aprovava ou não uma nova constituição, elaborada há cerca de um ano pela assembleia eleita para tal fim. 

Negando as etapas anteriores, em que foi amplo o endosso ao trabalho que estava sendo realizado, desta vez 61% dos eleitores rejeitaram a obra finalizada numa derrota estrondosa para o presidente Gabriel Boric e os grupos de centro-esquerda líderes do processo. 

A carta trazia, contudo, avanços importantes para a população daquele país andino. Garantia direitos sociais relevantes, além de dar autonomia aos povos originários e avançar na igualdade de gênero. Em muitos aspectos, tratava-se de uma proposta de constituição correspondente aos anseios populares. 

Mas sua força era também sua fraqueza, pois, embora formalmente transformadora, a carta pecou por não estar substancializada numa mobiliação popular capaz de fazer o povo encampá-la, sendo este o primeiro grande motivo de seu fracasso. 

Quando olhamos experiências latino-americanas semelhantes de mudanças constitucionais – como nos casos do Equador, Bolívia e Venezuela –, a mudança da carta magna sempre foi acompanhada de forte engajamento popular. A marcha constituinte era respaldada pelo clamor revolucionário nas ruas e bairros populares, com o povo engajado no processo. 

Tal não foi o caso do Chile. A constituinte se tornou uma bolha, isolada do resto da população, passando paulatinamente a ser identificada com os já desmoralizados políticos tradicionais. Boric, p. ex., optou por agir antes como um líder imparcial acima das disputas, apelando apenas à cidadania, do que como um líder revolucionário. 
 
Com isso, a população não se identificou com o novo texto constitucional, deixando espaço aberto para a direita e os capitalistas promoverem sua descontrução.

A ação conservadora e apática de Boric também se estende a outros âmbitos da realidade social chilena.

Após seis meses de mandato, o ex-líder estudantil não disse a que veio, fazendo um governo praticamente em tudo igual ao de seu antecessor. 

A condução econômica foi entregue aos capitalistas, com uma espécie de Henrique Meirelles chileno sendo colocado à frente. Nenhuma reforma foi avançada e o povo não é convocado pelo presidente para participar.

O resultado desta pasmaceira é o derretimento da aprovação popular de Boric, agravado pelo momento de crise capitalista. A população chilena esperava mudanças radicais e vê não apenas a continuidade da situação de opressão econômica, mas até mesmo uma piora. 

Neste sentido, a identificação da constituinte com o presidente favoreceu a derrubada do texto, pois foi uma forma do povo mostrar sua insatisfação com os rumos do governo e com a demora das mudanças estruturais. E tudo pode piorar, pois o caminho proposto por Boric após a derrota é acentuar a guinada à direita, dando mais poder ao desacreditado congresso nacional.  

Por fim, a burguesia chilena conseguiiu o que objetivava. Numa clara ação estratégica, tinha proposto a constituinte para esvaziar as mobilizações populares, levando para o campo institucional a insatisfação popular. Aceitou cada etapa do processo e agiu meticulosamente para cindir o processo de seu enraízamento na luta de classes expressa nas manifestações de 2019.

Feito o texto, agiu para desacreditá-lo e agora, com sua derrota, pode negociar uma carta mais conservadora, em que nada mudará. O início do erro foi justamente não ter modificado as bases estruturais do poder econômico da classe dominante chilena. 

Como na década de 1970, a esquerda chilena confundiu a conquista do Estado com a conquista do poder de fato. Allende agiu erraticamente durante anos, desmobilizando sua base social, até que, quando decidiu radicalizar, era tarde: a burguesia já tinha feito seu trabalho e se fortalecido, impondo o golpe de estado. 

Que Boric siga o mesmo caminho é um sinal nefasto. Só esperemos que o desenrolar não seja tão trágico quanto foi em 1976. 

Ainda há tempo para a esquerda chilena corrigir seus rumos, mas isto passa diretamente por entender que, numa revolução, não se pode contemporanizar com o inimigo. (por David Emanuel Coelho)

domingo, 19 de junho de 2022

PODEREMOS SOBREVIVER ÀS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, MAS A UM PREÇO ALTÍSSIMO

Lamento ter demorado mais tempo do que deveria para chegar à conclusão de que a humanidade poderá sobreviver às alterações climáticas mesmo sob o capitalismo, embora à custa de muita devastação e de um número assustador de óbitos 

As estimativas atuais admitem a possibilidade de um aumento de 2,5°C ou menos na temperatura global em 2100, em comparação com os níveis pré-industriais. 

Bem menos, portanto, do que os 4,5°C a 5°C antes previstos. A substituição dos combustíveis fósseis pela energia limpa está marchando mais rapidamente do que o esperado (alvíssaras!).

Mas, atenção para esta advertência de Ezra Klein, colunista do New York Times, no artigo Seus Filhos Não Estão Condenados Por Causa da Crise Climática:
"Ninguém deve confundir 2,5°C de aquecimento (ou mesmo 2°C) com sucesso. Causaremos danos incalculáveis a ecossistemas, haverá secas agravadas, inundações, fomes, ondas de calor. Teremos branqueado recifes de coral, acidificado o oceano, levado à extinção de inúmeras espécies.

Milhões, talvez dezenas de milhões, de pessoas morrerão com o aumento do calor e mais serão mortas por consequências indiretas da crise. Muitas mais ainda serão forçadas a fugir de casa ou viver uma vida de profunda pobreza ou sofrimento"
Isto sem levarmos em conta a simultaneidade e possível sinergia entre as crises econômica e climática, que tornaria o preço a pagarmos ainda mais elevado. 

Mas, tenho a esperança de que os esforços para a sobrevivência, de tão árduos que eles se prenunciam, talvez habituem os seres humanos a agir exatamente como tais, passando a colocar a promoção do bem comum como prioridade máxima de suas existências e sepultando a escravização ao lucro. 

Ou seja, poderão abrir-se janelas revolucionárias. Depois de chegar tão perto da abismo, a humanidade talvez se convença de que precisa deixar de viver perigosamente. 

Afinal, p. ex., a crise dos mísseis cubanos fez EUA e URSS adotarem medidas para que nunca mais a guerra fria esquentasse tanto. 

E o susto de 1962 teve papel fundamental para dali em diante, até o final dos anos 60, o mundo assistir à mais profunda revolução de costumes de todos os tempos, além de quase chegar à revolução política propriamente dita na França e em alguns outros países.  

Por último, mantenho a advertência que sempre fiz: em circunstâncias extremas, as nações ricas priorizarão a salvação de sua gente, deixando as populações das nações periféricas entregues à própria sorte.

Mais um motivo para sacudirmos nossa tradicional letargia e começarmos a fazer a parte que nos cabe, pois a superação do capitalismo, cada vez mais necessária para a humanidade ter uma esperança de futuro, não nos virá por dádiva de ninguém, mas sim como consequência das difíceis lutas que travarmos.   (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

BOLSONARO E LULA NÃO PASSAM DAS DUAS FACES DA MOEDA CAPITALISTA

O
primeiro texto político mais ambicioso que escrevi na vida foi um esboço de programa da Frente Estudantil Secundarista para o congresso da União Paulista de Estudantes Secundaristas, no final de 1968. E derivei minha linha de argumentação, exatamente, do ensaio clássico de Rosa Luxemburgo, Reforma ou revolução?

Ou seja, mal acabara de completar 18 anos e já me definia incisivamente pela superação do capitalismo, repudiando o reformismo (pois a lógica do capitalismo, já em  fase decadente, não apontava para uma humanização do sistema de exploração do homem pelo homem, mas sim para uma escalada desembestada da desigualdade econômica, gerando desequilíbrios sociais cada vez mais devastadores).

Nunca mudei. E é este o meu grande motivo para combater o Lula, que jamais teve a revolução como objetivo.

Quando ele era dirigente sindical, seu grupo mantinha (inclusive na base da porrada) a esquerda combativa fora das assembleias no ABC paulista.
Almejava tão somente obter melhoras salariais e profissionais para os metalúrgicos, inclusive ajudando as montadoras a esvaziarem o congelamento de preços impostos pela área econômica da ditadura: Lula puxava greves, as montadoras concediam aumentos e depois usavam suas planilhas de custos para arrancarem do governo a permissão para majorarem o preço de seus veículos.

Quando a anistia de 1979 permitiu a volta dos asilados, Lula e seu grupo perceberam que Leonel Brizola, criando um partido político, acabaria dominando o sindicalismo também. E foi por isto que eles resolveram fundar um partido alternativo ao do Brizola, empreitada sutilmente favorecida pelo general Golbery do Couto e Silva, principal estrategista da ditadura militar.

Para ter representação nas principais cidades paulistas e no resto do país, o grupo do Lula precisou negociar com a esquerda, pois só ela poderia viabilizar nacionalmente o PT. Tal acordo foi fechado com forças de esquerda que não tinham aderido à luta armada, com algumas remanescentes do combate nas trevas e com a esquerda católica que adotava a linha da Teologia da Libertação.

Do programa de fundação do PT consta seu compromisso com a superação do capitalismo no Brasil e no mundo ("O PT buscará conquistar a liberdade para que o povo possa construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores. O PT manifesta sua solidariedade à luta de todas as massas oprimidas do mundo"). Isto logo virou letra morta.

Ao longo da década de 1980 os lulistas promoveram o expurgo de várias tendências de esquerda existentes no seio do PT, inclusive escancarando as portas do partido para o ingresso indiscriminado de meros carreiristas (gente interessada apenas em subir na vida dentro da sociedade de classes), pois estes eram seus aliados naturais na luta interna contra os militantes ideológicos.

Então, meu problema com o Lula jamais foi pessoal, mas sim político: ele sempre fez tudo que pôde para domesticar o PT, tornando-o um partido estrategicamente voltado para a tomada do governo pela via eleitoral, no sentido de obter algumas migalhas a mais para os explorados, fidelizá-los e eternizar-se no Executivo, sempre satelizado pelo verdadeiro poder dominante (o econômico) e nunca contribuindo para a transformação em profundidade que a sociedade brasileira requer desesperadamente.

E o pior é que, após ter-se omitido repulsivamente quando governadores reacionários sufocavam a ferro e fogo as manifestações de protesto de junho de 2013 (quase um levante social!), o PT foi guinando cada vez mais à direita, sendo hoje, tão somente, uma força auxiliar da burguesia.

Após contribuir, com seus erros crassos e práticas incompatíveis com a moral revolucionária, para a devolução do poder à direita em 2016, o PT foi, a partir de 2019, fundamental para esvaziar as manifestações #ForaBolsonaro, tendo o Lula se ausentado de cada uma delas, enquanto as desestimulava em suas falas, deixando secundaristas e torcidas organizadas de futebol irem enfrentar os bolsonaristas em seu lugar. Foi uma das posturas mais covardes e vergonhosas da esquerda brasileira em todos os tempos.
E, por esvaziarem a luta pelo impeachment do Bolsonaro com idêntica obstinação àquela mostrada pelo Bozo na sabotagem à vacina, o PT e Lula devem ser considerados
coadjuvantes de extermínio: ajudaram o governo genocida a durar o suficiente para, com seu negacionismo demente, causar a morte de algumas centenas de milhares de brasileiros a mais, além dos que a covid teria matado de qualquer jeito.

E só simplórios não percebem que, no momento, o alvo principal da máquina de desqualificação petista é a chamada 3ª via e Sergio Moro. Lula mal consegue dissimular que almeja ter o desmoralizado genocida como seu principal adversário em outubro, daí não querer vê-lo afastado da presidência antes disso, faça quantas loucuras fizer e desgrace quantos brasileiros desgraçar. 

Ele chegou ao cúmulo de, no final de janeiro, praticamente ecoar as falácias negacionistas, ao afirmar que as pessoas têm o direito de não aceitarem vacinas, desde que não saiam às ruas! Algo assim só deixaria de representar perigo para a coletividade no caso de ermitãos que vivessem isolados, cada um sua própria cabana...
Portanto,
continuarei opondo-me ao político profissional Lula enquanto houver uma chance de sacudir a esquerda brasileira de sua letargia, despertando-a para a realidade de que a diferença entre o Bolsonaro e Lula é apenas a diferença entre o estupro a seco do capitalismo selvagem e o estupro com lubrificante do capitalismo do século 21 (que substitui o chicote pelas miragens consumistas).

Enquanto permitirmos que uma e outra face da moeda capitalista alternem-se na dominação e exploração dos brasileiros, nosso povo continuará sendo joguete dos poderosos e não sujeito da própria História.

E foi exatamente para libertá-lo de seus grilhões que fiz a opção revolucionária na virada de 1967 para 1968 e permaneço fiel a ela até hoje, deixando de lado quaisquer considerações de ordem pessoal e priorizando sempre os ideais que nortearam toda a minha vida adulta.

Presto estes esclarecimentos porque é comum minimizarem minhas justificadas críticas políticas ao reformismo do PT, atribuindo-as a um ódio cego que jamais tive ao Lula. 

Na verdade, sempre considerei-o o homem errado no lugar errado, pois os cérebros do partido em gestação, mesmo sabendo que ele não tinha consciência ideológica de esquerda, optaram por utilizá-lo como chamariz de votos e cartão de visitas da nova agremiação, acreditando que poderiam tutelá-lo indefinidamente. Durante a crise do mensalão, contudo, muitos desses personagens caíram em desgraça, permitindo que Lula finalmente passasse a conduzir o partido como lhe desse na telha.
 O resultado foi a descaracterização acelerada do PT, até se tornar o que hoje é: apenas outro partido da ordem, incapaz de formular qualquer política alternativa aos ditames da dominação burguesa.

De nada valerá havermos suportado tamanha barbárie sob Bolsonaro, se em seguida tivermos de aguentar Lula novamente repetindo a cada instante, com incompreensível orgulho (!!!), que nunca os banqueiros lucraram tanto quanto na época em que ele era presidente...

A esquerda hoje não representa uma alternativa de poder no Brasil, mas apenas uma variante menos agressiva do vírus da dominação burguesa. E, com isto, deixou até mesmo de ter uma razão para existir. 

Precisamos virar esse jogo, no qual o papel reservado para nós é o de eternos perdedores! (por Celso Lungaretti, jornalista, escritor e ex-preso político) 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

LULA NÃO VENCEU O CAÇADOR DE MARAJÁS, NEM VENCERÁ O INQUISIDOR DA LAVA-JATO; ESQUERDA PRECISA DE CANDIDATO MELHOR

Bolsonaro participando de badernaço a favor da intervenção militar e do AI-5: as tentativas
de autogolpe fracassaram, a penúria e a sabotagem da vacinação pulverizaram seu prestígio.
O
Brasil sofre com o capitalismo, um sistema político e econômico cuja vida útil está esgotada há mais de um século.

Sua vitalidade dependia de um crescimento contínuo da produção de mercadorias, mas, como não remunerava os produtores dessas mercadorias com o quinhão equivalente à sua participação nos esforços coletivos, gerou-se um crescente descompasso entre a oferta e a procura, do qual decorreram distorções cada vez maiores. 

Consequências: queimas de estoques por falta de compradores, guerras localizadas e dois terríveis conflitos mundiais (pois os produtos destinados à matança têm consumidores compulsórios), uma desigualdade social aberrante entre as classes sociais de cada país e entre as nações ricas e pobres, além de uma utilização predatória dos recursos essenciais à sobrevivência humana que, se não revertida, acabará causando a extinção de nossa espécie.

Em algum momento entre o século 19 e o século 20, contudo, a barreira da necessidade foi transposta. 
Lula foi o grande ausente de todas as manifestações que exigiram o impeachment de
 Bolsonaro, enquanto estudantes secundários e torcedores de futebol assumiam os riscos. 
 
Ou seja, depois de milênios de competição encarniçada entre os seres humanos porque ainda não havia como disponibilizar-se o suficiente para atender às necessidades de todos, impelindo os mais fortes e/ou mais hábeis a tentarem obter uma parte maior para si e para os seus, eis que as descobertas da ciências e o desenvolvimento tecnológico criaram condições para que cada habitante do planeta finalmente levasse uma existência digna, sem carências materiais nem embotamento dos espíritos. 

Desde que os frutos do trabalho fossem distribuídos igualitaria e racionalmente, havia capacidade produtiva suficiente para todos receberem o bastante para construírem sua felicidade. 

No entanto, a desigualdade que estimulara os homens a superarem-se para a conquista de um status superior ao de seus semelhantes, provocando en passant todos os avanços e conquistas da humanidade, não se desfaria num passe de mágica quando deixou de ter uma utilidade social. Os beneficiários dessa desigualdade obviamente não o permitiram, utilizando o imenso poder de fogo que a riqueza lhes proporcionava para sufocar todas as iniciativas igualitárias (e libertárias, à medida que a truculência da classe dominante se tornava insuportável).

Até que a humanidade foi deixando de avançar para estágios superiores de civilização porque tolhida por seu impasse fundamental (o crescimento econômico, submetido ao imperativo do lucro, não pode durar indefinidamente e, à medida que emperra, vai cada vez mais disseminando tragédias, barbárie e morte, com a economia girando em falso como um pião que rodopia sem sair do lugar, enquanto a sociedade, sem rumo, vai se esfacelando).
Enquanto os brasileiros comiam o pão que o diabo amassou sob o governo do qual ele foi ministro, Moro ficava na moita, para reaparecer só na hora de entrar na corrida eleitoral.
Daí a alternância no Brasil, desde o fim da ditadura getulista em 1945, de governos capitalistas
malvados que submetem os trabalhadores a seus desígnios pela força e governos capitalistas bonzinhos que lhes dão uma folga para recuperarem o fôlego, pois miserê e chicote o tempo todo ninguém aguenta.

Estamos chegando ao final de uma etapa de estupro capitalista imposto (sob Jair Bolsonaro) para passarmos ao que normalmente seria uma fase de estupro capitalista consentido, com lubrificante para facilitar a penetração e farta distribuição de migalhas para os deslumbrados estuprados não se darem conta de que poderiam ter tudo e não têm quase nada. 

Lula, que em momento nenhum de sua trajetória política cogitou uma ruptura com o capitalismo, seria forte candidato a desempenhar bem o segundo papel: o de dourar a pílula da dominação capitalista.

Mas, o reformismo que Lula encarna só funciona a contento se houver algum alívio econômico que o governante possa proporcionar aos explorados. Caso isto seja impossível, só papo furado e o velho manual populista (chapéus de couro inclusos...) não bastam.
Tendo nossa gente sido conduzida a tal miséria, a reconstrução do Brasil exigirá do novo
governo muita firmeza com a minoria exploradora. Lula ousaria  peitar o grande capital?
Bolsonaro também já esgotou a quota de paciência dos brasileiros, pois:
— seu negacionismo na pandemia jamais convenceu um povo que já se acostumara a considerar as vacinas como altamente necessárias; e
— a devastação econômica que ele maximizou salta aos olhos de todos, tanto aqueles que roem ossos por falta de comida quanto os que presenciam esse chocante espetáculo de compatriotas roendo ossos.

Tudo leva a crer que, sendo impossível para o sistema, com a economia no fundo do poço, oferecer alguma bonança em 2022, acenará com a retomada da luta contra a corrupção e com o restabelecimento de alguns fundamentos da vida civilizada após os estragos deixados pela passagem da nuvem de gafanhotos ultradireitistas.

Ou seja, irá de Sergio Moro, que já conta com o apoio da alta oficialidade militar e do poder econômico propriamente dito (Bolsonaro representa os vira-latas do capitalismo e não a elite empresarial que possui visão estratégica e é aconselhada pelos sofisticados faria limers).
Para reconquistar o respeito do povo brasileiro, a esquerda precisará de quadros com o
destemor de Brizola, cuja rede da legalidade abortou em 1961 o golpe fascista em curso.
O que se esboça é uma campanha eleitoral muito parecida com a de 1989 (Marco Antônio Villa, por sinal, prevê que será a mais violenta do Brasil desde aquela ocasião), que o sistema fazia questão de ganhar de qualquer jeito... e conseguiu.

Daí o alerta que eu faço, por dever de consciência e mesmo sabendo que poucos me escutarão agora, porque iludidos por aparências enganosas e pesquisas eleitorais prematuras demais para permitirem certezas): Lula, com suas enormes vulnerabilidades que certamente serão exploradas pela indústria cultural a serviço do poder econômico na reta de chegada, NÃO é o candidato ideal para vencer a eleição presidencial de 2022. 

[Isto, claro, se o calendário eleitoral não for levado de roldão pela explosão social que está sendo incubada, pois as condições de (morte em) vida dos coitadezas deste país se tornam cada vez mais insustentáveis.  Sucedendo aqui algo como as jornadas chilenas do final de 2019, todos os prognósticos, pesquisas e projeções tenderão a virar pó.]  
Se a explosão social chegar antes das eleições de
2022, as perspectivas poderão mudar por completo.
 
Mais: nem sequer passa pela cabeça do Lula o enfrentamento dos problemas maiores do Brasil, o que implicaria, pelo menos, a redução dos obscenos privilégios dos capitalistas, exageradíssimos inclusive se comparados aos que desfrutam seus congêneres nas nações mais ricas do planeta.

Bolsonaro não quer acreditar, mas já é carta fora do baralho. 

E, entre Lula e Moro, dará Moro, até porque, em situações desesperadoras como a atual, as pessoas comuns tendem a acreditar que as soluções provirão antes da vitalidade de um homem com 50 anos e que não pareça comprometido com a podridão política do passado recente, que do legado polêmico de um idoso prestes a completar 77 anos, cujos mandatos foram exaltados de forma tão extremada por uns quanto rejeitados com a mesma intensidade por outros. 

Então, ou a esquerda se une em torno de outro candidato, que não possa ser desqualificado como mais do mesmo, prometa resgatar a combatividade exaurida em quem não teve ânimo ou garra sequer para ir às ruas clamar pelo impeachment do genocida e seja, ademais, muito menos rejeitado, ou teremos todos de amargar um novo Collor. 

O que seria um verdadeiro pesadelo, depois de tudo que tivemos de suportar sob o Médici de hospício que há três anos desconstrói o Brasil. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 15 de julho de 2021

HÁ ALGO QUE JAMAIS PODE SER ESQUECIDO AO ANALISARMOS OS PROTESTOS EM CUBA: A REVOLUÇÃO, OU É MUNDIAL, OU NADA É – 1

dalton rosado
SOBRE O PRAGMATISMO POLÍTICO
A melhor definição para o pragmatismo político, numa só palavra, é oportunismo

Pragmatismo se traduz na ação de se fingir que se aceita alguma situação objetivando-se alcançar outra situação; é uma ação tática dentro de uma estratégia definida. 

Como todo oportunismo, cessada a oportunidade, surge a verdade que se esconde por trás da ação pragmática. 

Há quem defenda o pragmatismo como o meio justificando o fim. O problema é que, de tanto agir mentirosamente, o pragmático se acostuma com a mentira; e alcançado o objetivo-mor. ele continua contaminado com o vírus da dita cuja, que o vai destruindo aos poucos. 

Era pragmática a Nova Política Econômica de Lenin, por ele lançada quando ainda estava vivo e no poder, apesar do crescente agravamento da enfermidade que o levou à morte precoce aos 54 anos de idade (sete anos após a revolução bolchevique).

Ao adotar uma política de flexibilização das relações de produções capitalistas, aceitando-as sob pretensa fiscalização estatal proletária, o grande revolucionário russo estava respondendo a situações concretas:
— a contrarrevolução renitente sustentada pelos guardas brancos, com financiamento de agentes internacionais e nacionais capitalistas ou monárquicos feudais, que poderia tornar-se uma alternativa de poder caso o novo governo frustrasse as esperanças que despertara;
— a queda da produção intencionalmente patrocinada pelos antigos empresários capitalistas e latifundiários russos que detinham o saber empresarial e aristocrático; e 
— a fome do povo russo, causadora de insatisfação popular que minava a revolução.
Esta foto dá o que pensar: por que condenarmos a priori o inconformismo dos 
cubanos, semelhante até no visual àquele que saudamos entusiasticamente em 2019...
Com a NEP, Lênin teve êxito em amenizar a crise econômica. Se, 
com sua reconhecida habilidade e jogo de cintura, ele conseguiria solucionar o problema e retomar a linha inicialmente traçada em direção ao comunismo, jamais saberemos, de vez que morreu ainda durante o início do processo de construção do chamado socialismo real.
 
Com sua morte veio a ascensão de Josef Stalin que, assumindo o controle de tudo (do Comitê Central, do partido único e do governo), passou a destituir e a afastar (inclusive com a eliminação física) a velha guarda bolchevique, inclusive Leon Trotsky, o comandante da tomada de poder em 1917 e criador do Exército Vermelho, além de intensificar o processo de estatização empresarial sob critérios capitalistas de produção social.

Houve, sim, avanço social na Rússia, que não passava de um país camponês sob os czares, com incipiente desenvolvimento industrial (concentrado em São Petersburgo) e que se mantinha à margem dos avanços do capitalismo mundial: no pós-revolução desenvolveu-se industrialmente, alfabetizou e educou seu povo (a Rússia dos czares era um país de analfabetos), a ponto de conseguir fazer frente à Alemanha na 2ª Guerra Mundial.
...quando dos grandes protestos chilenos contra a política econômica neoliberal? Aliás, a repressão desembestada em ambos os países também foi das mais semelhantes.
Mas, passado este primeiro momento em que o pragmatismo revolucionário russo teve alguns efeitos positivos, o uso do cachimbo entortou a boca, com o desenvolvimento inicial sendo gradualmente minado pelas regras capitalistas totalitárias de produção social. Assim, a Rússia foi voltando a estar tecnologicamente defasada em relação ao mundo e acabou aderindo ao capitalismo internacional de mercado, tornando-se um país capitalista. 

A conclusão óbvia é que o pragmatismo russo sucumbiu ao totalitarismo das relações capitalistas de Estado, e terminou por abrir suas fronteiras ao mercado internacional. A contrarrevolução burguesa triunfou sorrateiramente graças ao pragmatismo. 

A história se repetiu com a China, e paramos por aqui na citação desses dois exemplos históricos fundamentais. 

Cuba é capitalista de Estado. Os trabalhadores que enrolam as folhas de tabaco e produzem a apreciado charuto de Havana, são explorados pela extração de mais-valia tanto quanto um trabalhador de uma fábrica de cigarros em qualquer país capitalista do mundo. 
O que ainda resta em Cuba do Guevara que foi ao Congo
e à Bolívia lutar pela revolução anticapitalista mundial?

A sensibilidade humanista (mesmo que se considere parcial, pois os opositores do regime são calados e tratados como traidores) de fato existe em Cuba: os negros cubanos de longe diferem das trágicas condições sociais dos negros da América Central e do Caribe, 

Mas, não pode sobreviver com a cabeça dos seus dirigentes focada num plano ao mesmo tempo anticapitalista e que mantém práticas capitalistas, cercada por um mundo totalmente capitalista.
 
Em que pesem os embargos econômicos estadunidenses, que de fato causam grandes carências ao povo, a insatisfação em Cuba é cada vez mais volumosa e reflete a necessidade de adotarmos mundialmente uma relação de produção fora da disfuncional lógica capitalista lá remanescente sob uma forma política estatizante, ora flexibilizada pelas circunstancias pragmáticas

A revolução, ou é mundial ou nada é! (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

quinta-feira, 20 de maio de 2021

PARA LER E REFLETIR: "UMA REVOLUÇÃO MOLECULAR ASSOMBRA A AMÉRICA LATINA"

Se os brasileiros reagissem às reformas neoliberais como os colombianos, elas teriam passado?
O
termo veio pelas mãos de Álvaro Uribe, ex-presidente da Colômbia e líder efetivo da direita linha-dura que hoje governa aquele país. 

Diante das inéditas manifestações que tomaram as ruas colombianas, fazendo o governo abandonar um projeto de reforma tributária que, como sempre, passava para os mais pobres os custos da pandemia, não lhe ocorreu ideia melhor do que conclamar os seus à luta contra uma revolução molecular dissipada que estava a tomar conta do país. No que, há de se reconhecer, Uribe tinha razão. Normalmente, são os políticos de direita que entendem primeiro o que se passa.

A América Latina, ou ao menos uma parte substantiva do continente, está a passar por um conjunto de levante populares cuja força vem de articulações inéditas entre recusa radical da ordem econômica neoliberal; sublevações que tensionam, ao mesmo tempo, todos os níveis de violência que compõem nosso tecido social; e modelos de organização insurrecional de larga extensão.  
Protestos chilenos de 2019 desembocaram...
As imagens de lutas contra a reforma tributária, que têm à frente sujeitos trans em afirmação de sua dignidade social ao lado de desempregados a fazer barricadas juntamente com feministas, etc., explicam bem o que revolução molecular significa nesse contexto.

Significa que estamos diante de insurreições não centralizadas numa linha de comando e que criam situações que podem reverberar, num só movimento, tanto a luta contra disciplinas naturalizadas na colonização dos corpos e na definição de seus pretensos lugares quanto contra macroestruturas de espoliação do trabalho. 

São sublevações que operam transversalmente, colocando em questão, de forma não hierárquica, todos os níveis das estruturas de reprodução da vida social.

De fato, o século 21 começou assim. Engana-se quem acredita que o século 21 começou em 11 de setembro de 2001, com o atentado contra o World Trade Center. Essa é a maneira como alguns gostariam de contá-lo. 

Pois seria a forma de colocar o século sob o signo do medo, da ameaça terrorista que nunca passa, que se torna uma forma normal de governo. Colocar nosso século sob o signo paranoico da fronteira ameaçada, da identidade invadida. Como se nossa demanda política fundamental fosse, numa retração de horizontes, segurança e proteção policial.

Na verdade, o século 21 começou numa pequena cidade da Tunísia chamada Sidi Bouzid, no dia 17 de dezembro de 2010. Ou seja, começou longe dos holofotes, longe dos centros do capitalismo global. Ele começou na periferia. 
...na eleição de uma nova constituinte, domingo passado.

Nesse dia, um vendedor ambulante, Mohamed Bouazizi decidiu ir reclamar com o governador regional e exigir a devolução de seu carrinho de venda de frutas, que fora confiscado pela polícia. 

Vítima constante de extorsões policiais, Bouazizi foi à sede do governo com uma cópia da lei em punho. No que ele foi recebido por uma policial que rasgou a cópia na sua frente e lhe deu um tapa na cara. Bouazizi então tacou fogo em seu próprio corpo. 

Depois disso, a Tunísia entrou em convulsão, o governo de Ben Ali caiu, levando insurreições em quase todos os país árabes. Começava assim o século 21: com um corpo imolado por não aceitar submeter-se ao poder. 

Começava assim a primavera árabe. Com um ato que dizia: melhor a morte do que a sujeição, com uma conjunção toda particular entre uma ação restrita (reclamar por ter seu carrinho de venda de frutas apreendido) e uma reação agonística (imolar-se) que reverbera por todos os poros do tecido social.

Desde então o mundo verá uma sequência de insurreições durante 10 anos. occupy, Plaza del Sol, Istambul, Brasil, gillets jaunes [coletes amarelos/França], Tel-Aviv, Santiago: são apenas alguns lugares por onde esse processo passou. 

E na Tunísia já se via o que o mundo conheceria nos próximos 10 anos: sublevações múltiplas, que ocorrem ao mesmo tempo, que recusam centralismo e que articulavam, na mesma série, mulheres egípcias que se afirmavam com seios a mostra nas redes sociais e greves gerais. 
 Indignação de um injustiçado foi o estopim da primavera árabe 

A maioria dessas insurreições irá se debater com as dificuldades de movimentos que levantam contra si as reações mais brutais, que se deparam com a organização dos setores mais arcaicos da sociedade na tentativa de preservar o poder tal como sempre foi. 

Mas há um momento em que a repetição acaba por gerar uma mudança qualitativa. Dez anos depois, ela ocorreu e foi possível de ser vista no último domingo, no Chile.

No último domingo, o Chile elegeu uma nova Assembleia Constituinte. Depois de manifestações massivas em outubro de 2019 que fizeram as ruas chilenas queimarem até o governo parar de matar sua própria população e aceitar convocar um processo constitucional, o Chile elegeu 155 deputados constituintes, dos quais 65 são independentes, ou seja, não vinculados a estrutura partidária alguma.

Mas unidos, como os 24 constituintes da lista del pueblo por um Estado ambiental, igualitário e participativo; 79 constituintes são mulheres, sendo a única Assembleia Constituinte da história mundial a ter maioria feminina; 18 são povos originários, sendo que todos estão presentes (desde os rapanui da ilha da Páscoa até os mapuches). 

A direita, que ansiava alcançar ao menos um terço para poder barrar as modificações constitucionais, terá apenas 37 deputados.
Em 2013 já houve aqui um ensaio de revolução molecular; o segundo ato será sua consumação.
O caráter absolutamente único do processo chileno encontra-se no fato de ele se produzir como institucionalização insurrecional. Ele foi resultado de uma insurreição que exigiu imediatamente uma nova institucionalidade. 

Os islandeses tentaram isso, quando a crise econômica produziu profundas mobilizações populares que terminaram por produzir uma nova constituição. No entanto, o Parlamento não reconheceu a nova carta, abortando o processo.

Tal excepcionalidade andina deve ser compreendida à luz do que foi a via chilena para o socialismo. O governo de Salvador Allende (1970-1973) procurou realizar um programa marxista por meio de uma mutação progressiva da vida social que preservava largas partes da estrutura da democracia liberal. 

Muitos criticaram tal estratégia depois do golpe, mas há de se lembrar de suas razões. Era a maneira dos chilenos e chilenas impedirem a militarização da vida social, como normalmente ocorreu em todos os processos revolucionários até agora. Havia uma questão real que o Chile procurou resolver inovando.
"O cenário tendencial entre nós é o de uma insurreição contra outra insurreição"
De certa forma, esse processo interrompido retoma agora 47 anos depois. Desde as revoltas estudantis no Governo Bachelet, o Chile viu lideranças estudantis se tornarem deputados e deputadas para arrancar do Congresso uma reforma que tornava gratuito o sistema público de ensino. Agora, eles fizeram o movimento inédito de só saírem das ruas com uma constituinte nas mãos, o que os tunisianos só conseguiram anos depois da formação do primeiro governo pós-ditadura. 

Ao acoplar os dois processos, o Chile permitiu que o entusiasmo insurrecional comandasse o processo constitucional, institucionalizando sua revolução molecular.

O espectador que vê tudo isso do Brasil pergunta-se o que ocorre conosco. No entanto, erram aqueles que pensam que tal dinâmica não chegará no Brasil. Ocorre que ela encontrará uma situação muito mais dramática. Pois o Brasil é o país no qual as forças da reação organizaram-se de forma insurrecional. São setores expressivos da população que foram e irão às ruas pedir golpe militar e defender o fascismo de quem nos governa. 

Dentro da lógica da contrarrevolução preventiva, o Brasil, à diferença de outros países latino-americanos, foi capaz de mobilizar as dinâmicas de um fascismo popular. Por isso, o cenário tendencial entre nós é o de uma insurreição contra outra insurreição. Uma revolução fascista contra uma revolução molecular dissipada. 

Melhor seria estarmos preparados para tanto. (por Vladimir Safatle, na edição brasileira do jornal global El Pais) 
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