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terça-feira, 31 de julho de 2018

A CANDIDATURA FASCISTA JÁ DERRETE, AGORA PRECISAMOS DETER O AVANÇO DO AUTORITARISMO NA SOCIEDADE

nabil bonduki
COM DENÚNCIAS ANÔNIMAS E AÇÕES
 INTIMIDATÓRIAS, AUTORITARISMO AVANÇA
A reflexão acima é de Martin Niemöller (1892-1984), pastor da Igreja Protestante que lutou contra os nazistas. Deve servir de alerta para os brasileiros que acreditam na democracia, mas que estão indiferentes ao avanço do autoritarismo.

Na semana passada, três professores da Universidade Federal do ABC foram intimados por uma comissão de sindicância investigativa, criada pela corregedoria da universidade com base numa denúncia anônima, por terem participado de um debate no lançamento de um livro.

Uma das perguntas da comissão foi se “ocorreram manifestações de desapreço contra Temer e integrantes do Judiciário e Promotoria”. Para Gilberto Maringoni, um dos intimados, “trata-se de evidente tentativa de censura, algo que se julgava encerrado desde (...) a ditadura”.  
Velório de Cancellier, vítima da escalada fascista

Não é um fato isolado, mas um processo crescente de ameaça à liberdade de expressão. Na Universidade Federal de Santa Catarina, a Polícia Federal  agiu contra docentes que participaram de um evento que condenou o abuso de poder cometido por uma delegada e uma juíza contra o ex-reitor Luiz Carlos Cancellier [tal perseguição o levou ao suicídio].

Como afirmou a Folha de S. Paulo em editorial [leia-o na íntegra aqui], “esse gênero de protesto, legítimo em qualquer democracia, e ainda mais num ambiente de liberdade como é o de uma instituição acadêmica, motivou iniciativas de claro conteúdo intimidatório”.

Os arroubos autoritários seguem um perigoso roteiro: um grupo denuncia um evento, uma manifestação artística ou uma opinião. Em seguida, alguma autoridade —o Judiciário, a polícia ou um órgão de controle— proíbe, censura ou intimida os participantes. 

É um método típico dos regimes totalitários, de qualquer vertente. Denúncias anônimas ou ações violentas integram um modus operandi promovido por grupos paralelos à estrutura institucional que atuam de modo complementar a governos autoritários. 
Esta obra da Queermuseu amalgama Jesus Cristo e a deusa Shiva 

Não faltam exemplos, como o fechamento da exposição Queermuseu em Porto Alegre, após pressão de ativistas. Débora Diniz, professora da Universidade de Brasília, vem recebendo ameaças de violência de grupos contrários à sua defesa do direito reprodutivo das mulheres.

O Brasil vive momentos de obscurantismo. Por isso, o compromisso com a democracia precisa estar no centro do debate eleitoral. Uma frente democrática e progressista, que reafirme os princípios da liberdade e dos direitos individuais e sociais e coloque um dique aos retrocessos, é essencial. (por Nabil Bonduki)
Lluís Llach e sua canção-símbolo da resistência ao fascismo na Espanha

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O "MANIFESTO PARA RECONSTRUIR O BRASIL" E A FALTA QUE FAZ UMA OPÇÃO VERDADEIRAMENTE DE ESQUERDA

Por David Emanuel Coelho
A decadência do lulopetismo é um fato amplamente observado e analisado. Porém, pouco se tem falado sobre tal decadência não estar apenas circunscrita ao Partido dos Trabalhadores. Na verdade, toda a esquerda pós-ditadura, moldada em padrões similares ao lulopetismo, está em decadência. 

Não poderia ser diferente, se atentarmos para o fato de praticamente toda esta esquerda ter se originado no PT. Exceção feita aos agrupamentos surgidos a partir da desagregação do antigo PCB e alguns herdeiros do velho trabalhismo. 

As crias do PCB e do trabalhismo já passaram desta pra melhor há tempos. Hoje não possuem a menor pretensão de lutar por nada que não sejam cargos, à medida que trazem na bagagem punhado a mais de votos para a formação das bancadas. 

Porém, os filhotes do petismo ainda buscavam expressar ideais ideológicos, posicionando-se enquanto oposição à esquerda do governo petista. 

Esta oposição, no entanto, comportava-se como uma espécie de duplo do lulpetismo. Embora denunciasse o desengano do PT e clamasse por outro caminho, o fazia a partir de uma perspectiva lulopetista. Isto é, a oposição destes partidos era uma oposição lulopetista ao lulopetismo. Uma oposição de esquerda, bem entendido, mas a qual, em momento algum, rompia com a lógica fundamental do lulopetismo. 

Qual era o principal elemento de crítica destes agrupamentos ao petismo? Era de que o petismo teria perdido sua pureza ideológica, vendendo-se à burguesia e à direita política. A lógica, portanto, seria de se contraporem a um desvio histórico do Partido dos Trabalhadores. O projeto petista originário, contudo, seria factível de realização.

No momento, porém, de esgotamento histórico do PT, tais agrupamentos estariam se movendo para, ao mesmo tempo que enterram o partido, salvar o projeto lulopetista, o qual agora trocaria de mãos. 

Isto explicaria porque tais agrupamentos passaram a defender tão ostensivamente Lula e o governo derrocado de Dilma. Na verdade, mais do que defender Lula e Dilma enquanto figuras de carne e osso, a meta seria defendê-los enquanto figuras politicamente simbólicas. 

Certamente, o partido vetor deste movimento é o PSOL. Último a se descolar do PT, o PSOL possui em seu interior uma direção fortemente lulopetista, propensa a tentar repetir o projeto petista em um novo patamar. 

O primeiro sinal disto foi a saída do PSTU do agrupamento autodenominado Mais, o qual rapidamente buscou abrigo no Psol, indo ali reforçar os interesses da direção psolista e ajudar no isolamento dos agrupamentos radicais do MES. 

O segundo sinal é a recente imposição (sem debate interno) do nome de Guilherme Boulos como candidato à presidência pelo partido. Com Boulos será possível acessar a máquina de militância do MTST e, assim, ter um agrupamento popular de massas análogo ao MST. Para a direção do PSOL, isto significa retirar o partido da condição de um agrupamento de classe média, tornando-o um partido com inserção em parte da classe trabalhadora, de forma a alavancar a capacidade eleitoral psolista. 
Em 2012, na eleição municipal de Belém, o Psol já começava a tentar ocupar o espaço eleitoral do PT
Em paralelo, o PSOL incorpora o discurso lulopetista sobre o golpe e contra a Operação Lava-Jato, o que lhe permite herdar a militância e o eleitorado mais fiel ao petismo. 

Qual seria o projeto? Basicamente, o mesmo que o do PT, talvez com uma coloração ideologicamente mais verborrágica. O tal Manifesto para reconstruir o Brasil é praticamente um raio X das ideias da direção psolista, defensora entusiasmada do desenvolvimentismo ali expresso. 

Gilberto Maringoni, um dos principais expoentes ideológicos da direção psolista, já deixou claro tempos atrás que sua única diferença frente ao PT seria a política econômica, considerada por ele neoliberal e não nacionalista

Porém, o complicador deste projeto é o fato da história dificilmente se repetir. Quando ela se repete, já ensinava Marx, é sempre como farsa.
Boulos quer herdar a militância e o eleitorado do petismo
Neste momento, é pouco provável que projetos como este vinguem, justamente pelo fato de estarmos em um momento de radicalização da luta de classes, no qual a burguesia claramente desdenha de um governo de coalização com a classe trabalhadora. 

E a própria classe trabalhadora também não busca mais uma política de acomodação, mostrando isto seja em seu rechaço completo ao regime político, seja embarcando em posições nitidamente de extrema-direita. 

A tentativa de reeditar a experiência esgotada do lulopetismo apenas mostra a própria decadência destes agrupamentos, os quais não possuem qualquer alternativa viável para constituir-se enquanto opção verdadeiramente de esquerda. 

Analisam o mundo social a partir dos pressupostos lulopetistas e não conseguem entender a dinâmica atual e formular respostas à altura do momento histórico. 

Impossibilitados de mudar, pois presos ao velho, apenas conseguem propor uma retomada do que já se foi. É a expressão cabal de sua falência política.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

GILBERTO MARINGONI PÕE O DEDO NA FERIDA: "POR QUE O ISOLAMENTO DA GRÉCIA FOI TÃO GRANDE?"

ALEXIS TSIPRAS É UM TRAIDOR?

Gilberto Maringoni (*)
Posso estar enganado, mas sigo achando profundamente errado se falar em traição por parte de Alexis Tsipras e do Syriza, mesmo diante da aprovação parlamentar – por larga maioria e com apoio da direita – do acordo firmado no final de semana entre a Grécia e a Comissão Europeia.

Não tenho todos os dados à disposição, mas me parece que Tsipras fez uma aposta e perdeu. A aposta é que haveria algum tipo de solidariedade internacional, após o referendo, o que lhe daria condições de enfrentar a maré montante que se armava contra o país.

Não houve.

A solidariedade internacional implica – neste caso – enfrentar o sistema financeiro internacional todo. No atacado.

Significa enfrentar o fato de os EUA terem uma enorme base aeronaval em Creta, na beira do Oriente Médio. É um complexo estratégico, através do qual se pode atingir em vinte minutos a Líbia, o Egito, a Síria e o Iraque.

Nem mesmo a Rússia ou a China aventuraram-se a tocar nesse vespeiro. Uma coisa é intervir na Ucrânia. Outra, bem diversa, é intervir na geopolítica europeia.

Alexis Tsipras ficou só, o Syriza viu-se só e a Grécia colheu um isolamento assustador.

Frente à possibilidade de uma formidável fuga de capitais – diante da qual o governo grego nada pode fazer – da carência de papel moeda para fazer pagamentos e da quebradeira do sistema bancário nacional em três dias, o primeiro-ministro se viu sem cartas na manga. Não havia sequer como trucar.

É boa a situação?

Nada. É péssima. Péssima é a humilhação a que o país está sendo submetido.

A sessão do Parlamento grego foi deplorável, na noite de quarta (15). A direita, em bloco, votou pelo acordo.

A pergunta não é se o Tsipras traiu ou não. A pergunta é por que o isolamento foi tão grande.

Essa é a resposta a ser buscada.

Para que os arautos do bom-senso não venham com a velha história de que “There is no alternative” e que o ajuste é inescapável.

No prefácio de “Crítica da economia política”, há quase 160 anos, Marx escreveu uma de suas frases memoráveis: “A humanidade só se coloca problemas que ela pode resolver”.

Nenhum messianismo nisso.

O problema da Grécia pode ser resolvido.

Depende de luta política e força. Coisas muito, muito humanas.

* é professor de Relações internacionais e foi candidato do PSOL ao governo paulista em 2014.

sábado, 4 de outubro de 2014

MINHAS APOSTAS NA LOTECA PRESIDENCIAL

Minha resposta até rima, mas pode me incriminar...
Muitos companheiros de esquerda gostam de fazer declarações de voto; devem ter motivos para crerem que suas escolhas vão inspirar muitos admiradores.

Não compartilho tal pretensão, até porque jamais me vi como guru seja lá do que for. Sou marxista da linha Karl, e também da linha Groucho: "Inclua-me fora disso".

Mas, até por falta de condições atléticas, não me acomodo bem em cima do muro. Então, apenas e tão-somente no modesto espaço deste blogue, vou deixar registradas minhas preferências, valham quanto valerem.

Presidenta da República: 
LUCIANA GENRO, do PSOL (50)

Se acredito que o capitalismo é, atualmente, o maior obstáculo à felicidade dos homens e a principal ameaça à sobrevivência de nossa espécie, tenho ser coerente com minha avaliação. Então, não havendo no pleito presidencial a mais remota possibilidade de a direita (Aécio Neves) liquidar a fatura no 1º turno, é forçação de barra estimular voto útil desde já.

Quem está firmemente contra o capitalismo, vota em candidatos e partidos que se proponham a dar um fim ao pesadelo capitalista, não aos que querem apenas atenuar seus malefícios (os reformistas, como Marina Silva e Dilma Rousseff). Simples assim.

Respeito igualmente os companheiros Mauro Iasi (PCB), Rui Pimenta (PCO) e Zé Maria (PSTU), mas tenho uma dívida de gratidão para com a Luciana, pelo papel por ela desempenhado no Caso Battisti, que considero a principal vitória conquistada pela esquerda brasileira de algumas décadas para cá.

E não posso deixar de reconhecer sua brilhante performance nos debates eleitorais, culminando com o xeque-mate dado em Dilma Rousseff, ao propor-lhe o aumento da tributação das grandes fortunas que passam de parasita pai para parasita filho, bem como dos lucros imorais e estratosféricos dos bancos. Deixando de responder duas vezes a esta interpelação claríssima, Dilma escancarou os limites do reformismo petista: late, mas não morde os verdadeiramente poderosos.

Governador de SP: GILBERTO MARINGONI
da frente PSOL/PSTU (50)

Mesmo caso: os companheiros não errarão se votarem no Raimundo Sena (PCO) ou no Wagner Farias (PCB), mas tenho afinidade maior com o professor, escritor, jornalista e cartunista Maringoni, por força de sua participação na luta pela liberdade de Cesare Battisti. E pertencemos à mesma leva de candidatos à vereança derrotados em 2012.

Como todos que saíram do PT quando o partido mais tinha a oferecer em vantagens materiais e menos em ímpeto para transformar a sociedade brasileira, merece respeito. Os piores (oportunistas e carreiristas) chegavam aos montes, os melhores debandaram. Não se vendeu por um prato de lentilhas.

Senador por SP: 
EDUARDO SUPLICY, do PT (131)

É o político mais influente que prioriza a defesa dos direitos humanos e também teve participação destacada no Caso Battisti, Como só ele está em condições de barrar a direita, aqui cabe, sim, o voto útil.

Seria péssimo perdermos um personagem tão simbólico, ainda mais se for substituído por seu antípoda: José Serra, o ex-presidente da UNE que se tornou cristão novo do autoritarismo, a ponto de ordenar a invasão da USP por brutamontes fardados.

Suplicy não estaria com sua reeleição ameaçada se houvesse saído do PT na hora certa, ao lado dos companheiros que lhe eram mais afins, como Chico Alencar, Heloísa Helena, Ivan Valente e Plínio de Arruda Sampaio. Torço para que, apesar da acentuada rejeição ao petismo em SP, continue cantando "Disparada" no Senado por mais oito anos --e, de quebra, defendendo alguns injustiçados (não tantos quanto deveria, mas ninguém é perfeito...). 

Deputado federal por SP: 
IVAN VALENTE, do PSOL (5050)

Outro velho guerreiro, que conheço desde os idos de 1976, quando fui pedir-lhe que convencesse o PT a não abandonar à própria sorte os quatro de Salvador (saiba mais sobre tal episódio aqui). 

Nem sempre estivemos do mesmo lado ´nas querelas partidárias, mas nunca deixou de existir respeito entre nós. 

Lembro com carinho de sua humildade ao servir de motorista para Plínio de Arruda Sampaio na última campanha presidencial, um idoso conduzindo outro, os dois acreditando que compensasse este outonal esforço para plantar sementes e legar um exemplo de luta aos pósteros, embora estivessem carecas de saber que o tostão não venceria o milhão. 

Ao reencontrá-lo no enterro do grande Plínio, dei-me conta de que foi, à sua maneira, um titã; e de que ainda não surgiram substitutos à altura dos titãs que se vão, daí devermos olhá-los "com um pouco de compreensão", como sugeria Brecht. 

Deputado estadual por SP: 
CARLOS GIANNAZI, do PSOL (50789)

Embora tenha havido um certo --e mútuo-- desencanto na campanha municipal, continuo admirando a tenacidade com que defende as bandeiras do magistério paulista; e considerando muito meritória a sua iniciativa de haver proposto e encaminhado a instituição do Dia Estadual em Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos, o primeiro a ser criado por lei em nosso país. É celebrado, desde 2011, em 4 de setembro, dia da descoberta das ossadas de Perus (um dos locais em que os agentes da repressão enterravam clandestinamente os resistentes executados).
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