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quarta-feira, 17 de julho de 2024

GREVE DA EDUCAÇÃO FEDERAL: GOVERNO E DIREÇÕES PELEGAS AGIRAM PELA DERROTA

A greve da Educação Federal, encerrada em junho, foi o enfrentamento mais importante que a classe trabalhadora teve com o atual governo Lula. O final da greve foi marcado por algumas vitórias políticas importantes e um acordo econômico ruim. 

A greve, assim como a mobilização de outras categorias de servidores federais, não conseguiu derrotar o governo e o seu reajuste zero em 2024. Não conseguiu uma reestruturação efetiva das carreiras da Educação Federal, não garantiu a reposição das perdas salariais e arrancou uma reposição muito tímida das verbas das universidades e institutos federais. 

A proposta fechada com o governo basicamente impede a perda inflacionária durante os próximos quatro anos. Mas, esse acordo ficará sob o risco de não ser cumprido pelo governo, diante da pressão do setor financeiro para garantir o Arcabouço Fiscal. 

Embora muito aquém do que se pedia, o acordo é maior do que o governo gostaria de ter concedido, algo que só foi possível pela enorme força demonstrada pela greve, uma das maiores dos últimos tempos. Além disso, a greve impulsionou a organização e a confiança da categoria em suas próprias forças e revelou o papel traidor das direções sindicais governistas, que saíram desgastadas e desmoralizadas. 

Grande parte dos trabalhadores e trabalhadoras da Educação Federal tinham grandes expectativas de que, com Lula, haveria mudanças na situação de precariedade no ensino superior federal. Mas, o presidente ignorou suas promessas de campanha e, no seu primeiro ano de governo, aprovou o Arcabouço Fiscal para garantir o teto de gastos exigido pelos banqueiros e grandes empresários. 

Com isso, em 2024, no primeiro orçamento elaborado pelo novo governo, os servidores foram presenteados com reajuste zero e, para as universidades e institutos federais, com um corte de mais de R$ 300 milhões nas verbas de custeio. 

A expectativa em Lula começou a virar decepção e revolta. Foi esse sentimento de traição que alimentou a mobilização dos técnicos-administrativos das universidades e institutos federais e que depois contagiou os docentes e levou o movimento à greve nacional. 

Nesse momento, esse mesmo sentimento impulsiona a greve da área ambiental, que foi judicializada por Lula, visando que a greve seja decretada ilegal, e a greve dos servidores do INSS, marcada para o dia 16.

Durante a greve, a indignação com Lula aumentou muito. Em primeiro lugar, pela postura intransigente do governo, que lutou todo o tempo para não fazer qualquer tipo de concessão ao movimento e, até o fim, manteve sua decisão de conceder zero de reajuste em 2024.

Em segundo lugar, o movimento foi marcado pela prática antissindical adotada na negociação, com ultimatos, manobras, tabelas erradas e a construção da farsa do acordo com a PROIFES-Federação, uma entidade fantasma, controlada pelo PT e pela CUT, que assinou um acordo contra a decisão das suas assembleias de base. 

Em terceiro lugar, a postura do governo foi caracterizada por suas declarações públicas, atacando a greve e dizendo que os servidores deveriam agradecer ao governo, ao invés de criticá-lo.  

“Tem dinheiro para banqueiro, mas não tem para Educação!”

A indignação com o governo cresceu também em função do cinismo de Lula, afirmando que estava fazendo tudo ao seu alcance pela Educação. Uma grande mentira, que ficou evidente para os grevistas. 

O governo se nega a conceder um reajuste salarial em 2024 e a recomposição das verbas dos institutos e universidades federais, que teriam um custo anual de menos de R$ 10 bilhões. Contudo, continua cedendo uma enorme fatia das verbas públicas ao agronegócio, às grandes indústrias e ao setor financeiro. 

Com aquilo que a União gasta em apenas dois dias com a dívida pública - R$ 10,5 bilhões -, seria possível garantir mais de 7% para recomposição salarial, em 2024, e os R$ 4 bilhões que pedem os reitores para as verbas de custeio das universidades e institutos federais. 

Com 2% dos R$ 519 bilhões concedidos em isenções fiscais aos grandes empresários, somente em 2023, seria possível quase triplicar a proposta de reajuste salarial fechada com o governo, que custará R$ R$ 6,2 bilhões, em dois anos. 

É preciso também lembrar do papel das direções pelegas dos sindicatos, nas quais Lula se apoiou para tentar derrotar o movimento.

Para impor sua proposta salarial, Lula se apoiou nas direções governistas das entidades sindicais - PT, PSOL, PCdoB, PCB e UP -, que buscaram impedir e, depois, controlar a greve, para não afetar a popularidade do governo. 

A primeira traição foi abandonar a campanha salarial unificada e semear ilusões nas mesas específicas, que têm se mostrado desastrosas. Com essa postura, as entidades de servidores federais dividiram o movimento e isolaram a greve da Educação Federal. Entidades importantes, como a Confederação dos Trabalhadores Serviço Público Federal (Condsef), sequer entraram na greve. 

A segunda traição foi tentar impedir a greve na Educação Federal, mas, nesse caso, foram atropelados pela base. Durante a greve, passaram semanas preparando o desmonte da paralisação e não se cansaram em repetir argumentos para defender o governo: “A greve não pode se prolongar, para não fortalecer o fascismo”, “Lula, assuma as negociações”, etc. 

Foram inúmeras manobras, práticas burocráticas e antidemocráticas nos comandos de greve nacional e locais, para tentar impedir que a vontade das bases prevalecesse na condução da greve. Mesmo assim, o movimento conseguiu impor ações radicalizadas e mobilizações nacionais. 

A greve deixou algumas lições importantes. Está claro que Lula não vai resolver os problemas da Educação pública. Seu compromisso é governar com e para os grandes empresários, lhes garantindo todo tipo de privilégio fiscal e grandes fatias do orçamento. Contudo, não é possível governar para a burguesia e para os trabalhadores ao mesmo tempo.

Para garantir os investimentos nas universidades e institutos federais, a valorização salarial e o fim do processo de privatização, é preciso derrotar o Arcabouço Fiscal de Lula. E isso só será possível construindo um poderoso processo de mobilização, que envolva não apenas o setor da Educação, mas todos os setores da nossa classe.

Para isso, é necessário construir uma nova direção para as entidades sindicais. Uma direção sindical que se paute pela independência de classe e assegure a democracia operária como método de condução do movimento. Que organize e impulsione a luta da classe trabalhadora por suas demandas e, consequentemente, para enfrentar e derrotar o governo.

Isso não implica descuidar da luta contra a ultradireita, que segue como uma ameaça concreta contra a classe trabalhadora. Mas, é falacioso o argumento de que combater Lula ajuda a ultradireita, pois Lula não a está combatendo. 

Pelo contrário, quando aplica as diretrizes do Arcabouço Fiscal, atua para derrotar e desmoralizar as lutas dos trabalhadores; quando passa a mão na cabeça dos chefes da tentativa de golpe do ano passado, está justamente pavimentando o caminho para a volta desse setor ao poder.

Nosso desafio é a construção de uma forte oposição pela esquerda ao governo Lula, sem descuidar do combate à ultradireita. Uma oposição que se apoie na organização e na mobilização da nossa classe, em defesa das demandas do povo trabalhador e dos interesses do país, e que tenha como perspectiva colocar os trabalhadores e trabalhadoras para governar o Brasil, através das suas organizações e de conselhos populares.

Só assim abriremos caminho para a superação do capitalismo, um sistema em que a riqueza está a serviço do lucro e do enriquecimento de poucos. Assim, poderemos dar curso à construção do socialismo, garantindo não apenas uma educação pública, de qualidade e a serviço do desenvolvimento cultural, científico e tecnológico do país, como também uma vida digna e humana para todos e a todas. (Eduardo Zanata, do jornal Opinião Socialista)

domingo, 18 de outubro de 2015

PRESIDENTE DO PT APONTA A PORTA DA RUA PARA O JOAQUIM LEVY

Declarações do presidente do PT, Rui Falcão, ao Brasil 247, detonando o arrocho fiscal do ministro da Fazenda, Joaquim Levy:
"É importante mudar a política econômica. É preciso que se libere crédito para investimento, para consumo. É uma forma de fazer a economia rodar. Da mesma forma, é insustentável manter a atual taxa de juros. Está errada a política de contenção exagerada do crédito. Precisamos devolver esperança à população".
Segundo Falcão, a presidente Dilma Rousseff também defenderá a criação de mecanismos de ampliação do crédito. "Se Levy não quiser seguir a orientação da presidente, deve ser substituído", fulminou.

Parece que não adiantou nada o Levy ter ido chorar as mágoas no colo da Dilma (vide aqui).

A resposta ao seu "ninguém me ama, ninguém me quer" veio pelo bico do Falcão, e foi bem dura:
"Si manda,
vai s'imbora!
Si manda,
vai s'imbora!

Eu não quero mais você,

eu não quero mais chorar,
eu não quero mais sofrer!

...Vai s'imbora,

tudo acabou,
Ficou só o espinho, 
pois a flor murchou!"
O coro de "já vai tarde!" será, certamente, um dos maiores de todos os tempos no Brasil. Que vá para o Bradesco que o pariu e fique por lá!

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

DILMA DEVERIA RENUNCIAR IMEDIATAMENTE!

O governo Dilma sofreu derrota acachapante no Tribunal de Contas da União, por irresponsabilidade fiscal.

Certamente sofrerá outra no Tribunal Superior Eleitoral, por financiamento ilícito da campanha presidencial de 2014.

A probabilidade de impedir que o processo de impeachment seja aberto na Câmara Federal é remotíssima.

E a economia brasileira continuará indo de mal a pior enquanto os parlamentares estiverem decidindo o impedimento ou não da presidenta. Quantos deles se manterão fiéis a um governo moribundo, arriscando-se a receberem o troco do eleitorado na eleição seguinte? Há alguma dúvida quanto ao desfecho da chanchada?

Se Dilma insistir em remar contra a corrente, apenas aumentará sua quota de desastres e vexames, dando aos adversários a oportunidade de comemorarem outros triunfos marcantes até a apoteose final. 

Deveria renunciar. Imediatamente. Pois, quanto mais tempo refugar, mais reforçará a impressão de haver sido chutada.

E a esquerda tem é de curvar-se à evidência do fato de que, depois de tantas lambanças cometidas, Dilma não tem mais salvação. Ela mesma pavimentou o caminho para seu defenestramento, principalmente ao evitar confrontos efetivos com o capitalismo mas pretender corrigi-lo em alguns detalhes, com pulos do gato que deram errado, acabando por colocar a economia em parafuso.

Depois, reelegendo-se quando a situação já era gravíssima, cometeu um erro pior ainda: acreditou que a volta à ortodoxia bastasse para fazer tudo entrar de novo nos eixos.

Mas, como já acontecera no Governo João Goulart, a guinada à direita não funcionou porque os endinheirados jamais confiariam nela plenamente e a esquerda passou a desconfiar dela por estar-se mancomunando com o grande capital. 

Perdeu o apoio dos únicos que poderiam dar-lhe uma mão forte nesta hora e não ganhou nada em troca. Como eu cansei de alertar, se não demitisse o Joaquim Levy, acabaria morrendo abraçada com ele. Podem encomendar dois caixões.

O impeachment, no entanto, não é nenhum fim do mundo. Caberá à esquerda fazer um profundo processo de autocrítica, reagrupar suas forças e travar novas batalhas, como estas:
  • favorecer a impugnação da chapa de 2014 como um todo, para que seja convocada nova eleição presidencial ao invés de a transição ser decidida num conchavão entre PMDB, PSDB e forças subalternas; 
  • posicionar-se frontalmente contra todas as iniciativas que visem equilibrar as contas públicas sangrando os trabalhadores, os pobres e os indefesos.
Pois, após o tsunami Dilma.2, a tendência óbvia é a de que o novo governo seja articulado pela direita. E dela só podemos esperar mais do mesmo neoliberalismo que Joaquim Levy tentou socar-nos goela adentro, com a única diferença de que provavelmente será vendido de forma mais hábil, por um economista de primeiro time, ao invés do pobre coitado que o Luís Carlos Trabuco induziu a Dilma a empossar.

Em suma, a luta continuará. Com a vantagem de que a esquerda vai poder reassumir sua verdadeira identidade, livrando-se do mico de defender o mandato de uma presidente com cuja política econômica jamais poderia compactuar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

NÃO ACREDITAM EM MIM? LEIAM OS ECONOMISTAS LIGADOS AO PT! DÁ NO MESMO...

Numa entrevista da edição dominical da Folha de S. Paulo, vocês encontrarão, com outras palavras, o que venho escrevendo há vários meses sobre o arrocho fiscal da dupla Dilma/Levy:
  • é eminentemente recessivo, perverso e socialmente injusto (pois, ao invés de os coitadezas serem sangrados, bastaria cancelarem-se privilégios dos ricos para se obter o equilíbrio das finanças públicas);
  • estupra direitos e conquistas dos trabalhadores; e
  • não pode ser imposto a um país pobre como o Brasil sem causar, em médio prazo, um tsunami social.
Ou seja, Marcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo, repetiu as principais acusações que eu tenho feito desde o início ao austericídio no qual o governo do PT embarcou, seguindo o receituário neoliberal.

Como os petistas costumam fechar os ouvidos aos questionamentos de quem está à esquerda deles, talvez agora, quando vários dos seus falam as mesmíssimas coisas, passem a reconhecer que a política econômica de Dilma.2 é uma verdadeira abominação, um crime que está sendo cometido contra o povo brasileiro!

Leiam alguns trechos da entrevista do Pochmann e constatem (os grifos são meus):

"A nova equipe econômica convenceu a presidente de que era mais importante adotar uma terapia de choque que, diziam, teria efeitos negativos, mas de curto prazo. Fizeram choques fiscal, monetário, cambial e de preços. Tudo no mesmo momento. Isso alterou dramaticamente as expectativas e jogou a economia numa recessão... 
"...A lógica do ajuste é um fim em si mesmo. Não fixa pontes para o futuro. Está queimando pontes com o presente e o passado. As sugestões que ganham força são de cortes em despesas obrigatórias, estabelecidas como direitos e conquistas...  
"...É insustentável para o país uma recessão prolongada. A se manter um quadro desses, as manifestações contra a recessão vão crescer, como cresceram nos anos 1980, quando um protesto de trabalhadores derrubou as grades do Palácio dos Bandeirantes. Temos um agravamento porque as pessoas estão percebendo a piora, o rebaixamento do padrão de vida. Por quanto tempo a população vai suportar medidas que apontam para o rebaixamento do seu padrão de vida? 
"...Se houvesse um esforço concentrado só na questão da sonegação, não precisaria do ajuste. Sonegação, subsídios, desonerações: o Estado brasileiro é muito corajoso para cobrar imposto de pobre e paternalista para cobrar imposto de rico. Quem mais paga imposto não reclama e quem menos paga, reclama".

domingo, 4 de outubro de 2015

PORTUGAL ESTÁ VIRANDO A ÁFRICA DA EUROPA. E O BRASIL ESTÁ SENDO VIRADO DO AVESSO.

Se queres um monumento às políticas de austeridade econômica impostas pelos tubarões do capitalismo, vê Portugal, outro dos incautos que regime 
de  emagrecimento forçado levou à inanição e à decadência. 
Ele nos diz: "eu sou você amanhã"! 

Parece que a profecia de Chico Buarque ("Ai, esta  terra ainda vai cumprir seu 
ideal/ Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!"se concretizará 
da pior forma possível,  pois não copiamos a Revolução 
dos Cravos, mas estamos copiando o receituário 
neoliberal que destrói nações.

Eis algumas informações relevantes que o comentarista internacional Clóvis Rossi alinhavou sobre o país que nosso vice-presidente Michel Temer apontou 
recentemente como um "modelo" para o Brasil:

"... pesquisa publicada sexta-feira (2) pelo jornal 'Público' mostra que quase 60% dos portugueses acham que o país está 'pior' (18%) ou 'muito pior' (39,8%) do que há quatro anos, quando se iniciou o programa de ajuste que o vice-presidente brasileiro considera modelar.

...O desânimo é tal que 485 mil pessoas deixaram o país desde o início do ajuste -o que representa cerca de 4% da população.

Pior: trata-se de gente em geral qualificada, a ponto de José Manuel Silva, da Ordem dos Médicos de Portugal, ter dito o seguinte ao semanário 'Expresso', a melhor publicação portuguesa: 'Estamos a tornar-nos a África da Europa ao exportar cérebros de alta qualidade para países desenvolvidos, a custo zero'.

Uma segunda avaliação, igualmente assustadora, aparece em texto editorial do 'Expresso': 'Não estamos nem sequer perto de um equilíbrio orçamental, de uma economia que cresça de forma continuada ou de um país com uma demografia equilibrada', diz.

Completa: 'Ainda temos um desemprego inaceitável, níveis de pobreza muito elevados, natalidade perigosamente baixa e demasiados desafios nas políticas públicas, da saúde à educação, passando pela mais discutida segurança social'.

Mais um dado assustador: a economia sofreu um retrocesso de imponentes 6,5% de 2010 a 2014, quando se iniciou uma ainda tímida recuperação.

Pior: nem os indicadores econômicos que se pretendia sanear mostram-se saudáveis. O deficit público era de 4,7%, ao terminar o primeiro semestre, 50% acima do nível tolerado pelas regras europeias (3%). E a dívida subiu de 111% do PIB em 2011 para 129% em 2014".

sábado, 3 de outubro de 2015

PARA QUE, AFINAL, DILMA QUER CONTINUAR NO PODER?

EHelena de Tróia (d. John Kent Harrison, 2003), um interessante telefilme inspirado na saga de Homero, foi muito bem bolado o diálogo que o cornudo Menelau e o astucioso Ulisses travam com o digno rei Priamo, tentando convencê-lo a entregar Helena para evitar a guerra iminente.

Priamo só faz uma pergunta a Menelau: "Mas, para que você quer Helena?".

Este não consegue responder de forma positiva, diz apenas que ela lhe pertence, é dele por direito e, se não for devolvida, não sobrará pedra sobre pedra em Troia.

Ulisses ainda tenta consertar, dizendo que o único e verdadeiro motivo é o amor, mas o estrago já está feito. A resposta irada do marido traído, mais o fato de que este no passado a obrigara a exibir sua nudez a vários outros soberanos numa festa, convencem Priamo de que Menelau encara Helena como um objeto e não a merece.

Esta lembrança me ocorreu ao ler a propaganda contra o impeachment presidencial nos portais, sites e blogues petistas. Pois, o enfoque é o mesmíssimo que um jornal do Corinthians daria a um lance polêmico do clássico contra o Palmeiras: parcialidade extremada, tendenciosidade gritante, fanatismo à flor da pele.

Na enxurrada de textos de torcedores organizados contra o impeachment, falta sempre esclarecerem: "Mas, para que, afinal, Dilma quer continuar presidenta?".

Pois ela se elegeu praticamente sem programa de governo, apenas satanizando os adversários e difundindo falácias sobre eles, chegando ao cúmulo de atribuir-lhes intenções que, verdadeiramente, eram idênticas às suas. E, agora, é incapaz de apresentar um único motivo positivo que justificasse sua permanência no poder.

O mandato lhe pertence, é dela por direito (apesar do estelionato eleitoral) e, se o tentarem tirar, não sobrará pedra sobre pedra. Eis o que ela nos atira na cara, como uma criança que quer porque quer, e não como uma adulta apresentando argumentos capazes de nos convencer.

Tal  desempenho até agora fez sua popularidade despencar para incríveis 69% de ruim/péssimo contra 10% de bom/ótimo e não há prenúncio nenhum de mudança de prioridades e métodos, nem sequer do neoliberalismo ela abre mão!!!

E os brasileiros que nos conformemos com a recessão a que seus rompantes de gerentona nos conduziram, com as decisões erradas que ela continua tomando e acabarão por gerar uma terrível depressão, com a degradação extrema da democracia como consequência de sua batalha inglória para, recorrendo às práticas mais imundas da política convencional, salvar no Legislativo e no Judiciário um mandato que já não tem o respaldo das ruas.

Até quando e quanto ainda o povo terá de sofrer porque os podres poderes não o expressam, sendo incapazes, por amarras burocráticas ou por patifarias de bastidores, de encontrar uma saída plausível para uma situação insustentável?!

Pelos mesmíssimos motivos que Collor caiu, Dilma tem de sair.

O principal deles: porque não há possibilidade nenhuma de melhora enquanto ela estiver lá.

O povo brasileiro já sofreu demais, não por algo que valha a pena sofrer (a conquista da igualdade social, p. ex.), mas apenas para dispor de uma democracia burguesa que é muito mais burguesa do que democracia e um capitalismo que mantém todas as mazelas da exploração do homem pelo homem e consegue ser pior ainda do que o habitual por causa da gestão incompetente e da corrupção desenfreada.

Aqui você pode ver o filme. E aqui, saber mais sobre ele.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

AJUSTE DO LEVY DEFENDE GRANDES BANCOS E FUNDOS DE INVESTIMENTO. PALAVRA DO PT.

Centro de estudos criado e mantido pelo PT, a Fundação Perseu abramo lança hoje (2ª feira, 28) uma verdadeira catilinária contra a política econômica do governo de Dilma Rousseff.

Trata-se do volume inicial do estudo "Por Um Brasil Justo e Democrático", que é assinado também por outras cinco entidades e expressa de forma contundente o repúdio da cúpula dirigente do PT à opção neoliberal de Dilma, como se constata nestes trechos:
"A lógica que preside a condução do ajuste [ou seja, o arrocho fiscal do Joaquim Levy] é a defesa dos interesses dos grandes bancos e fundos de investimento. Eles querem capturar o Estado e submetê-lo a seu estrito controle, privatizar bens públicos, apropriar-se da receita pública, baratear o custo da força de trabalho e fazer regredir o sistema de proteção social"
"O ajuste fiscal em curso está jogando o país numa recessão, promove a deterioração das contas públicas e a redução da capacidade de atuação do Estado em prol do desenvolvimento. Mais grave é a regressão no emprego, salários, no poder aquisitivos e nas políticas sociais".
O documento também acusa o pacote fiscal de deteriorar o ambiente econômico social, enfraquecendo o governo e amplificando "a crise política e as ações antidemocráticas e golpistas em curso", daí a premência de se "retirar o país da desastrada austeridade econômica".

É evidente que o fogo amigo não ajudará a salvar o agonizante governo de Dilma. Então, presumo que o partido esteja fazendo uma opção por sua sobrevivência, independentemente da sobrevivência ou não de Dilma.2.

Pegaria mal mandá-la às urtigas, mas o PT deixa claro que não avaliza o abandono de suas bandeiras históricas e conversão oportunista à ortodoxia econômica do capitalismo. 

Pois, pior do que a destituição de Dilma será seu defenestramento como uma reles neoliberal. Aí o prejuízo será total e enorme a dificuldade para o PT juntar os cacos no day after.

Portanto, o partido --com visível anuência, ou até instigação, por parte do Lula-- está definindo os limites do seu apoio à Dilma.

O recado nas entrelinhas é: se quer nosso apoio incondicional, livre-se do Levy e mude a política econômica; caso contrário, só vai ter apoio parcial e caberá a nossos seguidores a avaliação de se compensa suarem sangue para salvar um governo que prioriza "a defesa dos grandes bancos e fundos de investimento".

Para quem já está com a popularidade na casa de um dígito, é mais um empurrão ladeira abaixo.

Merecido: a teimosia de Dilma é tão exacerbada quanto sua incompetência. Empacou na ingênua presunção de que os Setúbals & Trabucos da vida evitarão sua degola e vai manter tal aposta desastrosa contra todas as evidências, até o mais amargo fim.

domingo, 20 de setembro de 2015

O DESABAFO DE OUTRO VELHO COMPANHEIRO DO LULA

Antônio Tito Costa é outro nonagenário inconformado com a trajetória negativa cumprida por Lula e o PT, que começaram desafiando o patronato e hoje dão seu aval a pacotes econômicos antipopulares, fazendo uma opção preferencial pelos banqueiros em detrimento dos trabalhadores e do povo brasileiro. 

Sua carta aberta resume o que muitos petistas de outrora sentimos. Compartilhamos o mesmo sonho e amargamos a mesma decepção, amarga como fel.

"Quem te viu, quem te vê/ Quem não o conhece, não pode mais ver pra crer/ Quem jamais o 
esquece, não pode reconhecer..."

Hoje, quando Lula se dispõe a percorrer o Brasil defendendo o neoliberalismo, é dos mais 
oportunos o desabafo do Tito Costa, 
daí eu publicá-lo na íntegra.

CARTA ABERTA A LULA
Tito Costa (*)
Meu caro Lula, permito-me escrever-lhe publicamente diante da impossibilidade de nos falarmos em pessoa, com a franqueza dos tempos de nossos seguidos contatos –você na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos e eu prefeito de São Bernardo do Campo.

Não vou falar das greves que ocorreram de 1979 a 1981, que projetaram seu nome no Brasil e no exterior. Não quero lembrar os dias angustiantes da intervenção no sindicato pelo ministro do Trabalho, em março de 1979, e da violência que se seguiu com prisões, processos e a sua detenção pelo Dops.

Todos esses fatos sempre foram acompanhados por mim juntamente ao senador Teotônio Vilela, a Ulysses Guimarães e a numerosos políticos do então MDB.

Na véspera da intervenção no sindicato, você ligou no meu gabinete me pedindo ajuda para retirar estoques de alimentos ali guardados. Enviei caminhões da prefeitura para retirá-los e o material foi depositado na igreja matriz da cidade.

Não falo das reuniões, madrugadas adentro, em meu apartamento em São Bernardo, com figuras expressivas do mundo político e também de outras esferas, como dom Cláudio Hummes, nosso amigo, então bispo de Santo André, hoje pessoa de confiança do papa Francisco, em Roma. Éramos todos preocupados com a sua sorte, a do sindicato e também a das nossas instituições em pleno regime militar.

Prefiro não falar dos dias em que o acolhi em minha chácara na pequena cidade de Torrinha, no interior de São Paulo, acobertando-o de perseguições do poder militar da época: você, Marisa, os filhos pequenos, vivendo horas de aflição e preocupantes expectativas.

Nem quero me lembrar das assembleias do sindicato, depois da intervenção no estádio de Vila Euclides, cedido pela Prefeitura de São Bernardo, fornecendo os aparatos possíveis de segurança.

Eram os primórdios de uma carreira vitoriosa como líder operário que chegou à Presidência da República por um partido político que prometia seriedade no manejo da coisa pública e logo decepcionou a todos pelos desvios de comportamento e de abusos na condução da máquina administrativa do Estado.

E aqui começa o seu desvio de uma carreira política que poderia tê-lo consagrado como autêntico líder para um país ainda em busca de desenvolvimento. Você deixou escapar-lhe das mãos a oportunidade histórica de liderar a implantação de urgentes mudanças estruturais na máquina do poder público.

Como bem lembrou Frei Betto, seu amigo e colaborador, você, liderando o Partido dos Trabalhadores, abandonou um projeto de Brasil para dedicar-se tão somente a um ambicioso e impatriótico projeto de poder, acomodando-se aos vícios da política tradicional.

Assim, seu partido, em seus alargados anos de governo, com indissimulada arrogância, optou por embrenhar-se na busca incessante, impatriótica e irresponsável do aparelhamento do Estado em favor de sua causa que não é a do país.

Enganou-se você com a pretensão equivocada de implantar uma era de bonança artificial pela via perversa do paternalismo e do consumismo em favor das classes menos favorecidas, levando-as ao engano do qual agora se apercebem com natural desapontamento.

Por isso, meu caro Lula, segundo penso, você perdeu a oportunidade histórica de se tornar o verdadeiro líder de um país que ainda busca um caminho de prosperidade, igualdade e solidariedade para todos. Alguma coisa que poderia beirar a utopia, mas perfeitamente factível pelo poder político que você e seu partido detiveram por largo tempo.

Agora, perdido o ensejo de sua consagração como grande liderança de nossa história republicana recente, o operário-estadista, resta à população brasileira o desconsolo de esperar por uma era de dificuldades e incertezas.

Seu amigo, Tito Costa.

* Antonio Tito Costa, 92 anos, era prefeito de São Bernardo do Campo quando das célebres greves de metalúrgicos lideradas por Lula. Foi também deputado federal constituinte.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

PT ADMITE QUE O NOVO PACOTE DE ARROCHO FISCAL É "ANTIPOPULAR", MAS MESMO ASSIM LHE DECLARA APOIO!!!

"O PT está convicto de que, com a continuidade do nosso projeto –e não por meio de concessões às políticas de austeridade antipopulares– será possível suplantar os obstáculos atuais."

Este é, ipsis litteris, um trecho da nota divulgada pela cúpula do Partido dos Trabalhadores nesta 5ª feira, 17. Reparem que o pacote do Levy foi qualificado de antipopular (contrário aos interesses do povo) e não apenas impopular (malquisto pelo povo).

Está corretíssimo, falta apenas acrescentar outros atributos: as políticas de austeridade são, ademais, natimortas (porque jamais sairão do papel, levados de roldão que vão ser pelo desfecho da crise de governabilidade), covardes/perversas (porque sacrificam os coitadezas e aliviam para os poderosos, principalmente os Setúbals e Trabucos da alta agiotagem) e suicidas (porque estão levando as nações à destruição, ao invés de as salvar).

O que deveria decidir o PT, se está convicto de que as medidas antipopulares são desnecessárias para suplantar os obstáculo atuais? Repudiá-las, claro!!!

Inexplicavelmente as resolveu apoiar, por 11 votos contra 4. Pior do que o 7x1 que a Alemanha sapecou no Brasil.

Não consigo sequer encontrar algum nexo nesta novo tiro no pé. Afinal, o que pretendiam os dirigentes petistas, com este inesperado rasgo de sinceridade antes de comunicarem que novamente colocaram as conveniências à frente dos princípios? Que benefício esperavam colher alegando a própria torpeza sem que isto nem de longe sirva como atenuante para a catastrófica decisão que tomaram?

Vão salvar o governo da Dilma? Não. Apenas associaram-se ao seu definitivo colapso. 

Pois quem deveria representar os trabalhadores, mas se acumplicia conscientemente com políticas antipopulares, condena-se à derrocada, ao ostracismo e à irrelevância.

Que morram, pois, abraçados, antipopulares até a medula!

BOULOS E O NOVO PACOTE: "APLAUSOS DA FEBRABAN, REPÚDIO DAS RUAS".

Por Guilherme Boulos, do MTST.
QUEM PAGA A CONTA?

O anúncio dos cortes de R$ 26 bilhões no orçamento pela equipe de Dilma revela mais uma vez a saída que o governo oferece para a crise. Refém das chantagens de agências de risco e de ultimatos editoriais como o desta Folha no último domingo, a conta veio novamente para o andar de baixo. Cortes na moradia, na saúde e congelamento salarial para os servidores.

Para aumentar a arrecadação, a principal medida proposta foi a recriação da CPMF, sem qualquer alíquota progressiva. Taxação de fortunas, lucros de bancos, dividendos? Nem uma palavra. Ao contrário, o governo apontou para a redução do IOF, que incide sobre o capital financeiro. A Febraban aplaudiu e pediu bis.

Tal como a covardia do governo, impressiona a hipocrisia tributária dos ricos no Brasil. Reclamam sem parar da carga de impostos, obtiveram isenções bilionárias nos últimos anos e ganharam horrores no período de bonança. Agora não aceitam pagar a conta. Brasileiro já paga muito imposto, dizem. Permitam a pergunta: quais brasileiros?

Se estão falando dos mais pobres e dos setores médios têm razão. Segundo o IPEA, os trabalhadores com renda mensal até dois salários mínimos deixam 54% dos seus gastos em impostos. Já aqueles com renda superior a trinta salários mínimos deixam para a Receita 29% dos seus gastos, quase a metade dos mais pobres.

Esta distorção ocorre porque a maior parte da carga tributária brasileira (51,3%) incide sobre o consumo de bens e serviços. Neste quesito, os diferentes são tratadas convenientemente como iguais. Outros 25% da carga são sobre os salários. Apenas 18% sobre a renda e –pasmem– menos de 4% sobre a propriedade.

As faixas do IR são uma aberração. A última faixa pega os que ganham acima de R$ 4.400 mensais e tem alíquota de 27,5%. Isso quer dizer que um trabalhador que ganhe R$ 5.000 por mês paga proporcionalmente o mesmo imposto do alto executivo que ganha R$ 100 mil. E a alíquota é baixíssima para os padrões internacionais. Na Argentina, a alíquota máxima é de 35%, no Chile 40% e em Portugal 46%.

No caso do imposto sobre a propriedade imobiliária a situação é ainda mais gritante. O ITR (Imposto Territorial Rural) é calculado a partir da autodeclaração dos proprietários sobre o valor de sua terra. A arrecadação anual do ITR em todo o Brasil –país conhecido pelos imensos latifúndios improdutivos– é menor que dois meses de arrecadação de IPTU da cidade de São Paulo. Em 2012, a União angariou ridículos R$ 677 milhões com ITR, enquanto a arrecadação do IPTU paulistano foi de R$ 5 bilhões. A Katia Abreu paga menos impostos por suas fazendas do que você pelo seu apartamento.

Portanto é verdade que brasileiro paga muito imposto, desde que estejamos falando da maioria trabalhadora do país. Quanto aos ricos, banqueiros e grandes empresários, sua tributação é uma mamata. Choram de barriga cheia.

São eles que devem pagar a conta da crise. E as propostas para isso são bastante concretas. E, diga-se, bem mais eficazes para solucionar a crise fiscal do que cortar R$26 bilhões em áreas sociais.

O auditor fiscal Fabio Avila de Castro apresentou em um trabalho acadêmico no ano passado apontando algumas alternativas.

Primeiro, a taxação sobre a repartição de lucros e dividendos. O Brasil é um dos poucos países que não faz esta tributação. Segundo os cálculos do auditor, uma alíquota de 15% sobre a repartição de lucros geraria arrecadação anual de R$ 36,5 bilhões. E uma alíquota de 20% sobre os dividendos poderia gerar R$ 48,9 bilhões.

Outra medida seria igualar o modo de tributação dos lucros ao já aplicado sobre os salários, com suas faixas de isenção e progressividade. Isso renderia, segundo ele, R$ 59 bilhões de receita anual.

O economista Odilon Guedes e o Sindicato dos Economistas de São Paulo também construíram uma proposta tributária no mesmo sentido.

Acrescentam temas como a federalização e aumento do imposto sobre heranças (que hoje tem teto de 8%), a regulamentação da taxação de grandes fortunas a partir de R$ 5 milhões (previsto no Artigo 153 da Constituição) e até mesmo a isenção de IR para trabalhadores de menor renda, mediante o aumento de sua alíquota para os mais ricos e a criação de novas faixas.

Ou seja, soluções para que o andar de cima pague a conta da crise não faltam. Inclusive reduzindo impostos sobre os mais pobres e setores médios, através de uma orientação por taxar muito mais a renda do que o consumo.

Soluções populares não faltam. Falta, isso sim, coragem para enfrentar os grandes interesses econômicos. Aplausos da Febraban, repúdio das ruas. 

domingo, 13 de setembro de 2015

ULTIMATO DA 'FOLHA' À DILMA: ARROCHE OS BRASILEIROS OU RENUNCIE!

Octávio Frias Filho só dá duas opções a Dilma: ou aproveita a "última chance" ou deve renunciar.
Quem acompanha meu  trabalho não se surpreenderá com os vários indícios de que a contagem regressiva para o defenestramento da presidenta Dilma Rousseff está chegando ao final.  Era, como sempre afirmei, a consequência óbvia dos enormes erros cometidos; e o governo, aparvalhado e impotente, não conseguiu reverter o movimento inercial que o conduzia para o mais amargo fim.

No último domingo, 13, a Folha de S. Paulo não só assumiu em editorial que tal desfecho já entrou na ordem do dia, como o fez num editorial excepcionalmente publicado na capa, com o título alarmista de Última chance :
"Às voltas com uma gravíssima crise político-econômica, que ajudou a criar e a que tem respondido de forma errática e descoordenada; vivendo a corrosão vertiginosa de seu apoio popular e parlamentar, a que se soma o desmantelamento ético do PT e dos partidos que lhe prestaram apoio, a administração Dilma Rousseff está por um fio. 
A presidente abusou do direito de errar. Em menos de dez meses de segundo mandato, perdeu a credibilidade e esgotou as reservas de paciência que a sociedade lhe tinha a conferir. Precisa, agora, demonstrar que ainda tem capacidade política de apresentar rumos para o país no tempo que lhe resta de governo".
Previsivelmente, o jornal pede que se reequilibrem as finanças públicas com medidas ainda mais draconianas do que as propostas por Joaquim Levy e propõe que exploradores e explorados dividam entre si o sacrifício.

Omite que os primeiros (mesmo numa perspectiva capitalista) sempre foram beneficiados demais e os segundos, prejudicados demais. Seria hora, isto sim, de reequilibrarem-se os pesos da balança, entregando a conta para os que, mesmo perdendo os anéis, ainda conservarão gordos os dedos.

E se Dilma não fizer o que a Folha exige, ou seja, a radicalização do chamado austericídio? Aí o jornal comprova mais uma vez que não ter sido casual seu apoio à dita(nada)branda:
"Serão imensas, escusado dizer, as resistências da sociedade a iniciativas desse tipo. O país, contudo, não tem escolha. A presidente Dilma Rousseff tampouco: não lhe restará, caso se dobre sob o peso da crise, senão abandonar suas responsabilidades presidenciais e, eventualmente, o cargo que ocupa(o grifo é meu).
Pronto, o gênio saiu da garrafa: o jornal mais influente do País já se arroga o direito de sugerir o impeachment, ao mesmo tempo que dá um ultimato velado à presidenta!

E por que o faz neste instante? A resposta está em três notícias da mesma edição dominical da Folha:
"Empresários fizeram chegar ao governo a avaliação de que, com a perda do grau de investimento do país, a presidente Dilma Rousseff precisa agir rapidamente e mostrar resultados até outubro. Caso contrário, afirmaram, ficará difícil manter o apoio do setor empresarial, um dos últimos lastros do governo petista. 
A conjectura foi transmitida a interlocutores da presidente como um alerta para a necessidade da petista ser firme na definição de medidas para reequilibrar as contas públicas, a despeito de críticas ao ajuste de setores do PT e do ex-presidente Lula". [Ou seja, os tais empresários são o sujeito oculto do editorial da Folha. O ou dá ou nós descemos foi inspirado por eles, que exigem rendição incondicional. Eu avisei que as coisas chegariam a este ponto; Dilma teria saído bem melhor na foto caso houvesse reagido antes de lhe colocarem a corda no pescoço. Demorou demais para escolher o lado certo e, agora, só salvará seu mandato se aceitar tornar-se uma fantoche explícita dos ricaços.]
"A Câmara deve começar a tratar formalmente do processo de impeachment de Dilma Rousseff nesta semana, quando deputados de oposição apresentarão requerimentos ao presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para que ele se posicione sobre os 13 pedidos de deposição. 
Cunha já avisou que pretende negar, se não todas, boa parte das ações exigindo o impeachment. Com os demais, ele continuaria protelando. 
Jornal que fez editoriais similares... faliu!
O roteiro dos defensores do afastamento é então apresentar recursos questionando uma das recusas de Cunha. Assim, o caso precisaria ser submetido ao plenário. Se for aprovado por maioria simples, o processo é deflagrado". [Ou seja, está prontinho o roteiro caso Dilma não se submeta à tutela proposta, vendendo a alma definitivamente ao diabo: deputados partidários do impeachment pedirão uma definição ao Cunha, este negará alguns pedidos e os ditos cujos colocarão tal recusa para discussão no plenário. Aí, com a popularidade da Dilma na casa de um dígito, não é difícil adivinhar qual será a decisão dos parlamentares, sabendo que marcharem contra a corrente poderá ser-lhes fatal nas eleições futuras]
"Diante do avanço do movimento pró-impeachment no Congresso, Dilma Rousseff montou nos últimos dias uma 'força-tarefa' integrada por ministros de sua confiança para mapear os apoios de que o governo dispõe". [Ou seja, o próprio Palácio do Planalto, por via oblíqua, confirma que a batalha derradeira se aproxima. E, face aos resultados obtidos até agora, o que podemos esperar dos ministros de confiança da Dilma, se não novos desastres?]
De resto, não me traz satisfação nenhuma vir há bom tempo acertando todas as minhas previsões. Mas, tenho a sensação de dever cumprido. Como jornalista, informei muito bem meu público, ao contrário dos que passaram o tempo todo teclando wishful thinking.
Posse de Levy foi o começo do fim para Dilma

E como homem de ideais, há cerca de um ano venho apontando às forças de esquerda os erros que cometiam e sugerindo opções:
  • durante a campanha eleitoral de 2014, não desconstruírem Marina Silva, deixando para ela o mico de impor o arrocho fiscal, ou
  • alterarem a composição da chapa no sentido do volta, Lula!, pois Dilma claramente não estava à altura do quadro dramático que se delineava para 2015;
  • no primeiro trimestre de 2015, quando a economia começou a desandar, a articulação de um governo de união nacional ou a montagem de um gabinete de crise, pois assim o governo dividiria com a oposição a responsabilidade pela busca de uma saída da degringola econômica e pela adoção dos remédios amargos;
  • mais recentemente, quando a derrubada de Dilma passou a evidenciar-se como inevitável, a convocação um plebiscito sobre o ajuste fiscal, prevendo a renúncia dela caso o povo dissesse não! (seria uma saída mais altaneira e digna, à maneira do De Gaulle), ou
  • Dilma reassumir as bandeiras de esquerda, para ao menos cair pelas razões certas, não por ter pretendido governar com a direita e fracassado até nisto, ou, pelo menos,
  • ela renunciar antes de ser impedida, para a vitória da direita não se tornar mais triunfal ainda.
E, claro, passei o tempo todo pedindo a cabeça do Joaquim Levy, o cavalo de Troia que o Ulisses do Bradesco (Luís Carlos Trabuco) conseguiu infiltrar no reduto governista, a fim de que criasse as condições para a pior derrota da esquerda brasileira desde 1964.

Moral da História: nem sempre os que dizem verdades desagradáveis querem o mal de alguém; nem sempre os que só afagam e bajulam lhe fazem algum bem.

"Metida tenho a mão na consciência / e só falo verdades puras / que me foram ditadas pela viva experiência" --disse Camões. E digo eu.
Este post foi atualizado às 8h00 do dia 14/09/2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

DIZE-ME COM QUEM ANDAS...

Mais simbólico, impossível! No mesmo dia em que a esquerda protestará em várias cidades contra a direitização do Governo Dilma, cada vez mais longe do socialismo e mais perto do neoliberalismo, a presidenta estará recepcionando em Brasília a chanceler linha dura da Alemanha, Angela Merkel.

Como todos sabem, trata-se de uma megera pior ainda do que Margaret Thatcher na defesa intransigente da ortodoxia capitalista.

O Joaquim Levy tem orgasmos múltiplos só de vê-la na TV. Precisa tomar cuidado para que a emoção de respirar o mesmo ar que sua musa não lhe cause um piripaque...

Quanto à nossa Dilma, tão desnorteada ultimamente, faz-me lembrar aquela frase célebre de Porfírio Diaz: "Pobre México! Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos".

PINGOS NOS II

"Não podemos ter uma visão simplista de que dia 16 foi fora Dilma! e de que dia 20 é viva Dilma!, porque não é.

o ato é contra o golpismo que pretende a derrubada da presidente Dilma Rousseff para substituí-la por alternativas à direita, mas não está defendendo um governo que é indefensável do ponto de vista da política econômica e do ajuste fiscal que vem conduzindo."
(Guilherme Boulos, líder dos sem-teto, desmentindo a propaganda governista)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

JOAQUIM LEVY DEFENDE DILMA. AZAR DELA.

“O governo e a presidenta assumiram a responsabilidade e o custo da popularidade de fazer o que é necessário para o Brasil retomar o crescimento.”

"Não vejo razão e nem benefício para o impeachment."
.
(declarações do ministro Joaquim Levy, arrastando a presidenta Dilma Rousseff para o inferno, pois a última coisa de que ela hoje precisa é ser defendida por quem lhe granjeia a antipatia de boa parte da esquerda e do povão levado ao desemprego, à penúria e ao desespero pelo arrocho fiscal, obrigando-a a mendigar o apoio de governadores e grandes capitalistas para tentar salvar seu mandato)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

BOULOS: "O MÍNIMO A SE ESPERAR DE UM GOVERNO SOBERANO SERIA MANDAR A S&P À M...".

Entre pasmo e enojado, venho acompanhando o direita, volver! da ala governista do PT, cada vez mais prostrada à ortodoxia capitalista. 

A presidenta Dilma Rousseff, p. ex., é uma ex-pedetista que, com sua rendição incondicional aos exploradores, faz o Leonel Brizola revirar no túmulo. Ela se referiu ao acerto das contas com a banca internacional como uma grande realização do PT, aderiu ao neoliberalismo, é a responsável última pela implementação de uma política econômica infame e agora, pateticamente, está obcecada em evitar que a nota do Brasil seja rebaixada por uma agenciazinha de risco com credibilidade zero.

Como o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Guilherme Boulos, acaba de dizer tudo que havia para se dizer a respeito da tal Standard & Poor's, vai me poupar dessa tarefa típica de laboratório de análises clínicas. A escatologia é necessária mas, se um já dá conta de lidar com os excrementos, não precisam ser dois os nauseados.    

CHANTAGEM FINANCEIRA

                            Guilherme Boulos

Nesta terça (28), a agência de risco S&P rebaixou a nota do Brasil e apontou a perspectiva de perda do grau de investimento para o país.

O governo Dilma reagiu docilmente, dizendo que o Congresso deveria entender o sinal da agência e agilizar a aprovação do ajuste fiscal. O medo do governo de um ataque especulativo tornou o país refém das piores chantagens financeiras.

Os bancos, fundos de investimento e outros agentes do mercado impõem uma política recessiva onde só eles ganham. Juros selvagens, cortes sem fim no orçamento e ataques a direitos sociais. O governo aplica como bom aluno, para dar sinal ao mercado de que o país cumprirá seus compromissos com o 1% de mandachuvas do planeta e, assim, manter o grau de investimento.

Nem isso adiantou. A voracidade do mercado não tem limites. E as agências de risco - a começar pela S&P - estão longe de uma análise técnica e imparcial das condições econômicas. São na verdade agentes políticos, com interesses próprios e sem credibilidade alguma, ao menos após 2008.

Antes dos jornais repercutirem em letras garrafais e acriticamente as previsões da S&P, não caberia lembrar que até a manhã de 15 de setembro de 2008, dia de sua falência, o banco Lehman Brothers contava com nota A (grau de investimento seguro) pela mesma agência?

Ou que, em 2012, a S&P foi condenada a pagar mais de US$ 16 milhões a prefeituras australianas que confiaram em sua análise de risco dos Fundos Rembrandt, que geraram prejuízos milionários a seus investidores?

Ou ainda que, em 2013, o governo dos Estados Unidos entrou com uma ação judicial contra a S&P pedindo indenização de US$ 1 bilhão por  sua responsabilidade no desencadeamento da crise de 2008?

Os créditos subprime, vetores da crise, receberam nota máxima da agência AAA, incentivando investimentos bilionários, que precipitaram o estouro da bolha. Segundo o Departamento de Justiça norte-americano, a agência atuou "conscientemente e com a intenção de fraudar, participou e executou um esquema para fraudar os investidores".

Paul Krugman, prêmio Nobel de economia, escreveu o seguinte após o rebaixamento da nota dos EUA pela S&P: "as agências de classificação de risco jamais nos proporcionaram qualquer motivo para que nós levássemos a sério as suas avaliações sobre solvência nacional. É verdade que nações que declararam moratória geralmente foram rebaixadas antes que isso acontecesse. Mas em tais casos as agências de classificação de risco estavam simplesmente seguindo os mercados, que já haviam repudiado esses devedores problemáticos".

Ou seja, suas previsões não merecem credibilidade. Vale aqui o ditado de que "quem paga a banda, escolhe a música". Essas agências são financiadas pelas próprias corporações que devem avaliar, tem seus patrões como clientes. Não há como falar em independência. Avaliam as empresas e os países obedecendo os interesses de quem as financia. E jogam com a ameaça de rebaixamento para favorecer esses mesmos interesses.

O nome disso é chantagem.

O governo Dilma, com sua política econômica covarde e recuos sem fim, está deixando o país refém de agiotas desmoralizados. Vale mais uma vez a advertência: buscando a governabilidade na banca - mesmo assim frustrada - está perdendo aceleradamente a governabilidade nas ruas. A cada dia diminui sua margem de manobra.

O mínimo a se esperar de um governo soberano, diante desta situação, seria mandar a Standard e Poor's à m... sem meias-palavras.
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