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domingo, 11 de setembro de 2022

COM SUAS TESES DE 1969, JAMIL RECRIOU A VPR. VEJA AS TESES DE 2022.

Foto do professor Ladislau Dowbor. Do guerrilheiro
Jamil não havia imagens na busca virtual, exceto...
Em meados de 1969, a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) se fundiu ao Colina (Comando de Libertação Nacional), dando origem à VAR-P (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares).

No Comando Nacional então criado, eram quatro os integrantes envolvidos com a montagem da coluna móvel estratégica, o objetivo fundamental da organização.
  
Dois outros (o Max/Carlos Franklin da Paixão Araújo) e o Bento/Antônio Roberto Espinosa faziam a ponte entre o trabalho principal e os comandos estaduais, dos quais o principal era o de São Paulo.  

Várias divergências surgiram entre esses comandantes nacionais e nós outros, os três membros do Comando paulista (o quarto, Elias/João Domingues da Silva, acabara de ser assassinado pela Oban, que o torturou antes de restabelecido de um ferimento a bala, causando-lhe hemorragia).

Foi quando nos pareceu que o Bento e o Max estariam, na contramão das nossas definições estratégicas, favorecendo o inchaço da VAR-P nas cidades, em detrimento do crescimento no campo, cujo trabalho não deslanchava. 

Enquanto o Moraes/Samuel Iavelberg evitava ir tão longe, o Moisés/José Raimundo da Costa e eu (Douglas) interpretamos o que estava ocorrendo como uma nova investida da tendência que acreditava ser fundamental uma ligação orgânica com os movimentos de massas e fora derrotada na luta interna da VPR do final de 1968. 
...as dele com os demais companheiros libertados quando do sequestro do embaixador alemão.
Nossa visão era a de que tal tendência se fortalecera com a chegada dos militantes do Colina, daí termos decidido levar ao congresso nacional da VAR-P, marcado para outubro, uma proposta de volta ao status quo ante, desfazendo a fusão e reassumindo-nos como VPR. 

Foi quando li um documento de circulação interna intitulado Teses do Jamil, que percebi imediatamente tratar-se do embasamento teórico ideal para nossa propsta de recriação da VPR. Ele simplesmente cortava o nó górdio da discussão sobre se a revolução brasileira deveria ter uma etapa nacional-democrática (no sentido de erradicar os traços coloniais e as reminiscências feudais ainda existentes) ou seria, de imediato, socialista.

Não era uma questão meramente retórica, pois, no primeiro caso, deveríamos aliar-nos à burguesia nacional e ao campesinato; no segundo, o sujeito revolucionário seria o proletariado do campo e das cidades.

O Jamil contrapôs que, como a revolução inexoravelmente seria socialista, isso pouco nos deveria importar. Caberia a nós iniciá-la e, no próprio processo, as forças de esquerda de nós discordantes acabariam incorporando-se à luta como consequência da dinâmica dos acontecimentos.  
Ferimentos do Elias
reabriram; ele morreu

Parece simples, mas foi uma espécie de ovo de Colombo que o Jamil colocou em pé, baseado em seu conhecimento de proposições teóricas da esquerda européia, pois passara alguns anos estudando na Suíça (é francês de nascimento, embora criado no Brasi), antes de voltar para cá e ingressar na luta armada. Em especial, influenciara-o o livro do Andre Gunder Frank então muito influente, O desenvolvimento do subdesenvolvimento

Como eu vinha do movimento estudantil, soube aquilatar a importância das Teses do Jamil, que estavam passando despercebidas na organização. Lancei imediatamente um artigo de circulação interna apoiando-as entusiasticamente (*). E elas acabaram sendo mesmo a proposta teórica da VPR quando esta voltou a ter identidade própria a partir do racha dos 7 no congresso da VAR-P de outubro de 1969.

Jamil, que passou a ser comandante nacional, foi arrastado nas quedas em cascata da VPR em abril de 1970 e, dois meses depois, incluído na lista dos 40 presos políticos cuja libertação foi exigida em troca do embaixador alemão von Holleben (leia mais sobre o Jamil e tal período da trajetória da VPR aqui).

Desde então o guerrilheiro Jamil desapareceu de cena, enquanto seu alter ego, o economista Ladislau Dowbor, lecionava na Universidade de Coimbra, assessorando depois, como consultor, os governos da Guiné Bissau, Nicaragua, Costa Rica, África do Sul e Equador.

Regressou ao Brasil com a anistia de 1979, foi secretário de Negócios Extraordinários na gestão da prefeita Luíza Erundina em São Paulo, professor de pós-graduação na PUC e consultar de diversas agências da ONU.

Graças a um comentarista cá do blog, fiquei sabendo que Jamil/Ladislau Dowbor lançou novo livro neste ano, Resgatar a função social da economia – uma questão de dignidade humana (Editora Elefante, 178 pag.); o download gratuito pode ser feito clicando aqui.

Eis como ele sintetiza sua proposta:
"A atividade industrial permanece, sem dúvida, como permaneceu a atividade agrícola diante da Revolução Industrial; mas o eixo de dominação e controle já não está nas mãos dos capitães da indústria, e sim nas de gigantes financeiros como BlackRock, de plataformas de comunicação como Alphabet (Google), de ferramentas de manipulação como Meta (Facebook), de intermediários comerciais como Amazon.

O mecanismo de apropriação do excedente social mudou, e com isso mudou a própria natureza do sistema. Estamos no meio de uma transformação profunda da sociedade, nas suas dimensões econômica, social, política e cultural, gerando o que tem sido chamado de crise civilizatória. Transitamos para outro modo de produção, e o presente estudo sistematiza os novos mecanismos presentes nesse cenário. Na última parte, propomos caminhos".
Voltarei a escrever sobre ele assim que o tiver lido. Mas, antecipo que consegue mesmo atualizar a visão que temos da dominação capitalista, sem, contudo, oferecer resposta à grande dúvida destes tempos: o que fazer?. Ou seja, como organizarmos nossas fileiras para uma luta realmente efetiva contra o capitalismo atual. 

A impressão que dá, e que tenho sustentado nas últimas décadas, é a seguinte: a manipulação das consciências a partir dos mimos do consumismo e da lavagem cerebral efetuada pelos meios de comunicação de massa atingiu tal perfeição que as chances de ruptura se limitam, por enquanto, aos imprevisíveis protestos que têm eclodido quando a exploração se torna extremada e afrontosa demais, como sucedeu em 2013 no Brasil e pipocou ao longo de 2019 em vários países. 
Elisa Quadros, musa dos protestos de 2013 no RJ

Se nossa única esperança for mesmo o espontaneísmo, só nos restará tentar capacitar uma vanguarda para aproveitar melhor as chances que surgem, não as deixando entregues às lideranças de ocasião, como a pobre
Sininho (despreparada ou não, a omissão da esquerda face à desmedida perseguição judicial que ela sofreu foi vergonhosa!!!).  

O desafio é tentarmos ir além disto, de nada adiantando ficarmos patinando sem sair do lugar com o obreirismo e/ou a ilusão, já detonada faz mais de um século pela Rosa Luxemburgo, de que o reformismo possa um dia vir a humanizar e exploração do homem pelo homem...  (por Celso Lungaretti)
* Longe de mim a pretensão de que seria o único na organização capaz de decifrar o artigo do Jamil. 

Mas, os que o compreenderam devem ter sido exatamente os que dele discordavam: embora derrotados na luta interna, havia muitos companheiros que continuavam acreditando que, sem termos contato mais direto e frequente com as massas, nos tornaríamos militaristas insensíveis e sanguinários... 

O Jamil ia na direção contrária, propondo que cumpríssemos as tarefas arnadas da revolução por sermos a organização mais apta para tanto, e deixássemos a conscientização do povo (e os enormes riscos de segurança nela envolvidos) por conta de outras forças da esquerda. 

Então, meu verdadeiro papel foi o de ter tornado as proposições do Jamil compreensíveis para aqueles que naturalmente deveriam sentir-se por elas representados, mas não o estavam fazendo, talvez por não as terem entendido direito.
(CL)

quarta-feira, 1 de junho de 2022

A LUTA CONTINUA (AGORA NO PSTU)

N
ão foi apenas a minha  certeza de que os trabalhadores jamais irão para o paraíso (nem sequer terão uma existência compatível com sua dignidade de seres humanos) enquanto estiverem submetidos à exploração do homem pelo homem, convicção norteadora de toda a minha trajetória política neste mais de meio século de tentativas, acertos e erros nas lutas tão desiguais quanto sofridas que optei por travar, o motivo da decisão de desfiliar-me do Partido Sol e Liberdade, concretizada no mês passado.

Houve quem imaginasse que, aos 71 anos, eu estaria sentindo o peso da idade e me conformando com a ideia de deixar o campo de batalha. Nada é mais equivocado! 

Em 2012, depois de uma decepcionante candidatura a vereador de São Paulo, concluí que era inútil a minha insistência em plantar sementes da revolução em partidos obcecados com a conquista de poder dentro da sociedade capitalista, então passei a apenas transmitir minhas análises e as lições de minha militância por meio dos posts no blog Náufrago da Utopia e dos artigos que espalhava nas redes sociais. 

Não chegava a ser propriamente um repouso do guerreiro, mas, digamos, uma semi-aposentadoria. Morri de vontade de participar dos protestos de junho de 2013 mas, confesso, temi passar vergonha caso a dificuldade de movimentação que estava tendo me tornasse uma preocupação para os companheiros, atrapalhando-os quando tinham mais é de ocupar-se do confronto com a repressão democrática dos governadores e Judiciário de vários estados, inclusive de São Paulo.

Mas, aquele momento foi um divisor de água entre um Partido dos Trabalhadores que, apesar da carta de capitulação do Lula ao grande capital em 2002, ainda não se assumira totalmente como mais um agrupamento comprometido com a manutenção da ordem sob o capitalismo, mera força auxiliar da dominação burguesa. 
A partir daquelas jornadas, até uma fascistoide Lei Antiterrorismo o PT passou a endossar e, pelas mãos da gerentona trapalhona, sancionar.

Nos anos seguintes, amarguei a minha impotência em mudar o rumo dos acontecimentos apenas com meus textos, embora tenha previsto com grande antecedência cada etapa do percurso do PT rumo ao abismo, arrastando a esquerda brasileira consigo e criando as condições ideais para a volta da direita ao poder. Senti-me como a Cassandra troiana, cujas advertências não eram levadas a sério embora fossem antevisões perfeitas dos desastres anunciados.

Então, neste ano de 2022 em que se decide o futuro do Brasil em curto e médio prazos, resolvi sair da minha zona de conforto e somar forças com os militantes da legenda mais afim de minha visão política que identifiquei no espectro da esquerda brasileira: o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado

Encontrei no programa do PSTU posições que defendo há décadas, como:
— a impossibilidade de superarmos o capitalismo "através de acordos com a burguesia ou através das instituições deste sistema, deste Estado, desta democracia dos ricos e muito menos de uma ditadura militar";
— a inevitabilidade do desvirtuamento dos propósitos marxistas quando se tenta construir o socialismo em países isolados, motivo pelo qual tais regimes acabam sempre encaminhando-se para uma volta ao capitalismo ou para o autoritarismo  das nomenklaturas, às vezes até para o pior dos mundos possíveis (a retomada capitalista sob ditadura do partido único, como na China);
— o imperativo, portanto, do internacionalismo revolucionário ("Para nós o socialismo será mundial ou não será. Por isso, o PSTU é parte de uma organização revolucionária mundial, a Liga Internacional dos Trabalhadores"); e
— o fato de que a barreira da necessidade já foi transposta e as forças produtivas estão suficientemente desenvolvidas, em escala mundial, para que se possa proporcionar tudo de que cada habitante de cada nação carece para uma existência gratificante e plena, o que só não ocorre porque a prioridade máxima sob o capitalismo é o lucro e não o bem comum ("...nunca se produziu tanta riqueza, conhecimento cientifico, inovação tecnológica como vemos nos dias atuais. No entanto, no capitalismo, nada disso está a serviço de melhorar a vida da população. Tudo está a serviço do lucro cada vez maior, de um pequeno grupo cada vez menor de banqueiros e grandes empresários que controlam a economia em todo o planeta").

Há algumas diversidades de ênfase, mas elas são até complementares. Como, p. ex., a visão que eu e o companheiro Dalton Rosado temos de que as contradições econômicas sob o capitalismo estão chegando ao ponto de ruptura, o que tende a provocar instabilidade e turbulências de país a país, propiciando oportunidades para os que forem capazes de apontar rumos ao povo em meio ao caos (a abertura de janelas revolucionárias).

Mas, como venho enfatizando desde 2013, é preciso existirem militantes capazes de interpretarem corretamente tais acontecimentos e discernirem quais os passos adiante que devem ser propostos aos manifestantes.  

Vejo o PSTU como o partido mais consciente da necessidade de formarmos quadros à altura dos grandes momentos, evitando que eles se esgotem sob a liderança bem intencionada mas inexperiente de qualquer Sininho (a Elisa Quadros, contudo, foi abandonada à sanha policial e jurídica do inimigo, o que deve ser lembrado como um  motivo de enorme vergonha para todos nós!).

Daí o papel destacado do PSTU nos esforços para a construção, de baixo para cima, do
Polo Socialista Revolucionário, um ponto de convergência dos militantes de várias origens que se desiludiram com o reformismo ora predominante na esquerda brasileira e veem a necessidade de voltarmos a encarar as eleições de cartas marcadas da democracia burguesa como uma ferramenta tática para a divulgação de nossas bandeiras e acumulação de forças, mas não –jamais!– como objetivo estratégico.  

Tal união em torno de nossos objetivos maiores é algo com que sonho desde o ano terrível de 1969, quando o terrorismo de estado impunha severas perdas aos grupos que travávamos a luta armada e, a cada dia, tínhamos conhecimento de novas quedas ou assassinatos de companheiros queridos. 

Para reagir às investidas de um inimigo extremamente superior a nós em efetivos e recursos, começamos a juntar quadros de várias organizações para viabilizarmos aquelas ações mais ousadas que nenhuma delas conseguia mais executar isoladamente. E eu ficava matutando de como teria sido bom se houvéssemos colaborado com tal desprendimento, sem mesquinhez, antes de chegarmos às portas da derrota. 

Fico comovido ao ver que, desta vez, espírito semelhante está surgindo numa situação bem menos trágica. Algo aprendemos, afinal, e isto me enche de esperanças! 

A luta continua (Celso Lungaretti 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

ENTRE JAIR MESSIAS LULA DA SILVA E LUIZ INÁCIO BOLSONARO, ESCOLHO... NENHUM!

ruy castro
ESQUERDIREITA
É uma sensação inédita, a de acordar em 2020 e descobrir que, por uma insólita química, esquerda e direita se tornaram uma coisa só. 

O símbolo dessa simbiose é Eduardo Fauzi Richard Cerquise, ativista integralista, correligionário de Jair Bolsonaro no PSL e terrorista que, há duas semanas, atirou a bomba na produtora do grupo Porta dos Fundos

Na ficha de Cerquise, consta ter sido preso como black bloc nas manifestações de 2013 e defendido pela infame Sininho, militante próxima do deputado Marcelo Freixo, do PSOL. E que, para escapar à nova prisão, fugiu para onde? Para a Rússia. 

Mudou o Natal ou mudaram Cerquise, Sininho, Freixo e a Rússia?

Essa redução ideológica tem raízes. Começou quando Lula conseguiu empurrar toda a esquerda brasileira que não ele para a direita, fazendo de si próprio um dogma político-religioso e eliminando até possíveis sucessores —ou alguém os enxerga nos boulos, dilmas e haddads?

Bolsonaro faz agora o mesmo com a direita —empurra-a para a esquerda, de modo que só reste ele como opção em 2022. Para não haver dúvida, dedica-se, desde que se sentou na cadeira, a desmoralizar seu único aliado ainda ameaçador, o ex-sergiomoro Sergio Moro.

Lula e Bolsonaro temem os meios tons. A hipótese de matizes intermediários —socialistas, trabalhistas, social-democratas, conservadores esclarecidos e liberais em geral—, capazes de gerir o Brasil, é veneno para as aspirações deles. 

Para permanecer no jogo, precisam polarizar o país e reduzi-lo à mesquinhez dos personalismos que representam.

A ideia de que Lula e Bolsonaro se tornaram a mesma pessoa, só que com sinal trocado, ofende os partidários de um e de outro. Para os bolsonaristas, Lula fu com o país. Para os lulistas, é o que Bolsonaro está fazendo na sua vez.

Para os que não se enquadram em nenhuma das categorias, e que talvez sejam 60% da população, os dois lados têm razão. (por Ruy Castro)

sábado, 21 de julho de 2018

CONDENAÇÃO DE 23 MANIFESTANTES DE 2013 E 2014 REVELA QUE O PODER ESTÁ CADA VEZ MAIS BRUTAL CONTRA QUEM O QUESTIONA

vladimir safatle
UMA PERSONALIDADE DISTORCIDA
Sininho está entre os 23 condenados
"A ré tem uma personalidade distorcida, voltada ao desrespeito aos Poderes constituídos, o que pode ser constatado, no tocante ao Judiciário, por ter descumprido uma das medidas cautelares impostas pela 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (proibição de frequentar manifestações e protestos), o que acarretou a decretação de sua prisão preventiva... 
.
"Já o desrespeito ao Poder Executivo pode ser evidenciado, p. ex., pelo enfrentamento aos policiais militares nas passeatas e ao Ocupa Cabral (é inacreditável o então governador deste estado e sua família terem ficado com o direito de ir e vir restringido). O desrespeito ao Poder Legislativo, por sua vez, pode ser verificado, p. ex., pelo Ocupa Câmara."

Estes são trechos da sentença do juiz Flavio Itabaiana contra 23 manifestantes que participaram das manifestações de 2013 e 2014, condenando-os a penas de cinco e sete anos de prisão em regime fechado por formação de quadrilha, corrupção de menores, dano qualificado e lesão corporal.

Nenhum policial foi condenado por incitação à violência, por infiltração em grupos de manifestantes com o intuito claro de iniciar confrontos, por lesão corporal contra manifestantes que ficaram cegos ou tiveram ferimentos graves.

Mas há uma condenação de manifestantes que lutavam contra aumentos abusivos de tarifas de transportes, contra o esvaziamento da democracia parlamentar, contra os gastos com a Copa do Mundo e a corrupção.
"Psicologismo mais rasteiro a serviço da servidão"

De toda forma, a pérola escrita pelo referido juiz expõe, de forma didática, a matriz do pensamento autoritário nacional, assim como o caráter meramente formal da democracia que impera em nossas terras.

Ao que se vê, na sociedade que o senhor Itabaiana defende, alguém que desrespeita "Poderes constituídos", que se manifesta em frente à casa de um governador corrupto, que não admite ser limitado em seu direito de se manifestar e protestar só pode ter uma "personalidade distorcida".

Nesse caso, podemos nos perguntar o que seria uma personalidade não distorcida. Alguém para quem os ditos Poderes nunca devem ser criticados de forma aberta e através de manifestações populares? Alguém que faz deferência quando um governador passa na rua?

No entanto, a "personalidade distorcida" em questão é exatamente aquela que a democracia produz, ou deveria produzir. Como dizia Condorcet na aurora da Revolução Francesa: "A função da educação pública é tornar o povo indócil e difícil de governar".

Um povo indócil faz barricada, impede o direito de ir e vir dos governantes, quebra vidraças de banco quando precisa se fazer ouvir, pois sabe que para um poder surdo essa é a única linguagem compreensível.

Esse poder só ouve àquilo que não o coloca em questão, a quem, no fundo, procura reforçá-lo. Ou seja, a capacidade de se colocar contra o poder, de não se submeter à violência estatal e ao seu braço armado, é algo que só existe naqueles que entenderam o que afinal está em jogo quando se fala em emancipação e liberdade social.
"Esses 23 manifestantes são claramente presos políticos"
A democracia nunca viu problemas em aceitar essa indocilidade do povo, pois ela sabe que o poder deve temer o povo que ele julga representar, e não o inverso.

Mas, no Brasil, uma das funções principais do Poder Judiciário é procurar, de todas as formas, criminalizar a revolta, nem que seja utilizando um vocabulário digno do psicologismo mais rasteiro à serviço da servidão.

Esses 23 manifestantes que correm o risco de prisão a partir de agora são claramente presos políticos.

À parte a morte acidental de um cinegrafista por um rojão disparado por manifestantes —fato que merece uma análise isolada—, o único crime em questão é a existência política insubmissa.

Algo que em nossas terras parece ser cada vez mais imperdoável. Mas faz parte de um poder cada vez mais ilegítimo ser cada vez mais brutal contra todos aqueles que efetivamente o questionam. (por Vladimir Safatle)
"Si acaso esto es un motivo/ presa también voy, sargento" (Violeta Parra)
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