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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

LULOPETISMO NO PAÍS DAS MARAVILHAS

 

Ao terminar o primeiro ano do terceiro mandato de Lula, retorna o ufanismo barato e o oba-oba iludido dos lulopetistas. O filme é repetido, já tendo estado em cartaz nos primeiros dois mandatos do presidente e mesmo no primeiro mandato da banqueira postiça Dilma. 

O entusiasmo está pautado em análise superficial de dados econômicos, tapinhas nas costas dos jornalões burgueses e aprovações de projetos que em nada mudam a vida do povo brasileiro. Assim, celebram a aprovação de uma Reforma Tributária absolutamente reacionária, que em nada modifica a espoliação generalizada dos trabalhadores enquanto os capitalistas seguem com inúmeras benesses. 

O nível da desfaçatez é tamanho que a equipe de comunicação do governo chegou a celebrar nas redes sociais o recorde de pontuação do Ibovespa, como se o sucesso da Bolsa de Valores tivesse algum impacto na melhoria da qualidade de vida da população brasileira. Mas a alienação não parou por aí, pois um dos piores ministros do governo, Fernando Haddad, teve a ousadia de celebrar a aprovação do seu Teto de Gastos, versão piorada do arrocho fiscal imposto desde Michel Temer. 

Na realidade, quase nada mudou após quase um ano de governo Lula 3. A pobreza continua se alastrando país afora, a violência urbana explode, o desemprego e o subempregos dominam, o custo de vida segue penalizando o povo e nenhuma saída é proposta pelo governo atual. Ao contrário, a rendição lulopetista ao centrão e à bandidagem da plutocracia foi rápida e incondicional. Até o momento, Lula gastou cerca de 20 bilhões de reais com emendas parlamentares, um valor descomunal quando comparado com o orçamento, por exemplo, da Educação, que foi de 100 bilhões. Ou seja, o governo petista desembolsou 20% do gasto com educação para comprar parlamentares neste ano de 2023, prenunciando um desembolso ainda maior em 2024!

Isso deve ser celebrado? Só se for ao estilo Fernando Diniz que, goleado, comemorou ter envolvido o Manchester City na final do mundial de clubes! Siderado, viu algo irreal na humilhação imposta ao Fluminense e ao futebol brasileiro e, de igual forma, apenas o lulopetismo vê algum triunfo em um ano de atoleiro e aprofundamento da crise social. 

Será que Lula terá o mesmo destino de Fernandez, Biden e Macron e também se verá cozido pelo fogo brando da crise capitalista? O próximo ano indicará, mas os prenúncios de agora são apenas de que o lulismo continua sem ter aprendido nada, vivendo em seu mundo da fantasia. (por David Emanuel Coelho) 

Antes da Disney, essa adaptação fez mais jus ao livro de Lewis Carroll


quarta-feira, 14 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 5: A TÁTICA BLACK BLOC

 

 A TÁTICA BLACK BLOC

Um grupo que chamou a atenção nas manifestações de Junho de 2013 foi o Black Bloc. Sua forma distintiva de se vestir - sempre de preto e encapuzados -, além da disposição de enfrentar a repressão policial logo os transformaram em um dos principais grupos das manifestações.

Não tardou para o lulopetismo e a mídia identificarem no grupo os principais vilões das manifestações. A última começou a estabelecer uma separação entre manifestantes do bem, ordeiros e pacíficos, e manifestantes do mal, vândalos e baderneiros. O black bloc era justamente o manifestante malvado, pronto a praticar depredações e semear o caos. Ambos enxergaram no movimento a explicitação ideológica daquelas aspirações radicais que os manifestantes possuíam apenas latentemente. Ou seja, os black blocs externalizavam, de certa forma, o ímpeto anticapitalista das manifestações e por isso foram eleitos os inimigos número tanto pela exquerda reacionária, quanto pela mídia burguesa. 

Para o lulopetismo, ele representava a rebeldia das manifestações que rapidamente haviam se focado na oposição ao governo Dilma e na repulsa ao PT. Desligados do aparelho burocrático, sem pretensões eleitoreiras ou pautas que pudessem ensejar uma cooptação, os black blocs foram encarados como pura negatividade, diferente de tudo o que viera anteriormente nas lutas sociais, sempre marcadas pelo assistencialismo e o ímpeto reivindicativo dos movimentos.  

Por fim, os black blocs também sofreram ríspida oposição da esquerda não alinhada ao PT, particularmente do PSTU. Nesse caso, o principal motivo foi uma disputa pela vanguarda das manifestações, pois o partido trotskista acabou também sendo rechaçado em suas idas às ruas, por estar identificado aos partidos no geral e mesmo ao lulopetismo, mesmo não sendo parte do campo lulista. Já os black blocs não eram rechaçados, ao contrário, eram bem-vindos pelos manifestantes e sua resistência aguerrida à repressão acabava servindo de inspiração para outros. 

Mas, o que eram os black blocs? Para começar não são exatamente um agrupamento, mas uma tática. Não existe uma liderança black bloc, um coletivo black bloc ou mesmo manifestos black bloc. Qualquer um pode ser um black bloc, bastando para isso estar disposto a seguir os princípios gerais da tática.

Os black blocs surgiram na Alemanha nos anos de 1980 como meio para autodefesa dos manifestantes contra a polícia e forças neonazistas. Em 1999 ganharam projeção midiática graças à sua presença nas manifestações em Seattle, nos EUA,  contra a OMC - Organização Mundial do Comércio. A partir dali o ideário do movimento se alastrou ao redor do mundo, já existindo no Brasil antes de 2013, mas com pouca atenção. 

De inspiração anarquista, os black blocs não possuem uma linha de comando hierarquizada, ficando a organização restrita à espontaneidade de cada manifestação ou momento. Em geral, o grupo age em um processo de autodefesa e mesmo os vandalismos praticados são feitos como estratégia para retardar ou dificultar a ação policial. Assim, por exemplo, lixeiras são queimadas e barricadas montadas para impedir o avanço da tropa de choque. 

Mas existe também um momento ofensivo na tática black bloc quando ocorre o vandalismo performático que se trata da destruição de objetos símbolos do capital e de instituições do Estado. Assim, delegacias podem ser atacadas, guaritas e carros de polícia destruídos, agências bancárias podem ser invadidas e vandalizadas, etc. Nesse caso, o objetivo é aniquilar simbolicamente representações do capitalismo e de seu Estado, tornando sem valor aquilo que é valorado pelo capital e provocando na consciência popular a desacralização da sociedade capitalista. 

Essa ação, inclusive, sempre foi a que mais gerou polêmica, sobretudo com o PSTU. O centro da crítica se resumia justamente ao caráter performático, não efetivo, das ações contra os símbolos do capital, pois a destruição dos objetos e lugares não implicava na destruição efetiva da propriedade privada. Também se argumentava o quanto o vandalismo seria contraproducente para o movimento no geral, pois serviria de munição para as forças repressivas e para o ataque da mídia. 

No entanto, é importante ressaltar que a maior parte dos atos de vandalismo ocorridos em 2013 não vieram dos adeptos da tática black bloc, a qual, inclusive, nem era tão generalizada. Na realidade, o vandalismo era praticado em grande medida por indivíduos comuns, participantes dos atos e que muitas vezes invadiam e depredavam concessionárias de carros, agências bancárias, lojas e mercados no geral. Na maioria das vezes, as pessoas sequer cobriam seus rostos. Vale também considerar que o pequeno comércio era raramente atacado, não sendo incomum encontrar pequenos comércios, bancas de jornal e bares intactos em meio a um rastro de destruição. 

De fato, o impacto dos black blocs dentro das manifestações foi muito menor do que se acredita, pois em manifestações de milhões, eles costumavam ser algumas centenas e sua participação foi mais concentrada às grandes metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Em resumo, ficaram muito mais no imaginário, devido à disposição da ação direta e também à amplificação de sua imagem por parte do lulopetismo e da mídia. 

Seja como for, a tática ficou associada como um dos acontecimentos mais marcantes das Jornadas de Junho de 2013. (por David Emanuel Coelho)

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

quinta-feira, 1 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. O BLOG COMEÇA UMA SÉRIE DE ARTIGOS DO EVENTO MAIS IMPORTANTE DA HISTÓRIA RECENTE DO BRASIL

 


Há dez anos um dos maiores eventos da história brasileira tomava vulto nas ruas do país, eram as Jornadas de Junho de 2013, evento responsável por mudar de forma profunda nossos rumos políticos, sociais e culturais. 

Expressão do colapso do sistema político nacional, da degradação da vida urbana e do desencanto com a trajetória lulopetista no poder, Junho de 2013 mobilizou milhões de pessoas como jamais se havia mobilizado antes ou como jamais voltariam a se mobilizar posteriormente. Sobre a aparência de uma contestação genérica pelos péssimos serviços públicos e contra os gastos faraônicos para a Copa do Mundo, na realidade havia uma ruptura profunda com a estrutura econômica e política cristalizada após o fim da ditadura militar e levada a cabo pelos governos da dita esquerda. 

A emergência do movimento significou o naufrágio definitivo do lulopetismo que não titubeou em assumir seu lado contra os manifestantes, articulando nacionalmente uma contra ofensiva ao levante por meio da repressão jurídico-policial e da desmoralização discursiva. Hoje o lulopetismo é apenas um zumbi vagueando pelo mundo apoiado nas lembranças da era de ouro dos dois primeiros governos Lula. 

Por cerca de um mês, o povaréu tomou conta dos espaços públicos, com ocupações não apenas das vias de trânsito mas também de assembleias, câmaras municipais e sedes do poder executivo.  Após o auge do processo, as massas refluíram em quase todo país, exceto no Rio de Janeiro, onde barricadas continuaram ardendo por mais um ano. 

Por fim, o movimento Não Vai Ter Copa - inspirado nos gritos dos manifestantes - foi o epílogo das jornadas, com mobilizações menores mas ainda de intensa radicalidade, tendo sido violentamente esmagado pela repressão comandada pelo governo de Dilma. 

Essa sempre se colocou contra as mobilizações, liderando a repressão seja diretamente com o uso da Força Nacional e do Exército, seja indiretamente através de apoio aos governos estaduais. No auge do processo repressivo, a ex-Gerenta chegou a criar comitê de inteligência militar para espionar os manifestantes, se associando a Sérgio Cabral na formulação de um grupo policial para perseguir e enquadrar suspeitos

Dilma viria a ter um destino trágico, mas nada que não tenha sido consequência de suas próprias escolhas. Ao optar por uma aliança com as forças mais reacionárias do país, alienando-se do povo, empenhou seu futuro nas mãos de uma turba de bandidos. Na primeira situação de enfraquecimento, eles deram o bote. 

Nada poderia ser diferente, pois ao reprimir e aniquilar o movimento de esquerda das Jornadas, o lulopetismo deu grande ajuda à direita que, com suas manifestações ordeiras, muito dinheiro, apoio da mídia e da oposição conservadora, conseguiu tomar as ruas agora vazias e assumir a bandeira da indignação popular, agora com pautas reacionárias. Bolsonaro nasceu aí. 

Para analisar com mais completude e detalhes todo o movimento de Junho de 2013, com seus antecedentes e suas consequências, o blog publicará dois artigos por semana durante este mês de Junho. Será uma forma de passar a limpo um dos períodos mais turbulentos da história nacional e que está longe de ter acabado. (por David Emanuel Coelho)

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