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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

POUPADO DO CUMPRIMENTO DE SUA PENA INTEGRAL, HITLER INCENDIOU O MUNDO. REPETIREMOS O ERRO COM O BOLSONARO?

Hitler no tempo do putsch da cervejaria

Jair Bolsonaro gosta de projetar uma imagem truculenta, pregando o fuzilamento de um ex-presidente, agredindo um senador franzino, falando em estuprar deputada, confraternizando com motoqueiros. distribuindo medalhas de imbrochável, imorrível e incomível, etc.

Se as coisas correm mal para ele, contudo, passa a funcionar no modo Tartaruga Touche (personagem dos desenhos de Hanna-Barbera que o tempo todo se lamuriava com a frase "Oh céus! Oh tempo! Oh azar!"), apelando para a mais repulsiva vitimização.

É o caso de agora, quando exibe sua tornozeleira aos jornalistas fazendo cara de coitadinho, enquanto o filho 01 engata um chororô patético porque o pobre papai está proibido de receber a visita de outros delinquentes.

O deprimente espetáculo tem o objetivo de abrir caminho para uma nova tentativa de virada de mesa institucional ou, ao menos, o de garantir ao Bolsonaro a continuação como chefão da extrema-direita (tal posição encontra-se fortemente ameaçada pelos concorrentes que não estão proibidos de disputar a eleição de 2026).

Difícil mesmo é encontrarmos justificativa para a pressão desvairada dos ratos de esgoto bolsonaristas, desde que passaram a apoiar-se nos músculos postiços que Donald Trump lhes forneceu, a favor de uma anistia ou indulto para o Hitler em miniatura que veneram.

Primeiramente porque Bolsonaro está soterrado sob uma montanha de provas e depoimentos que não deixam qualquer dúvida quanto ao fato de que ele comandou uma tentativa de autogolpe para manter-se na presidência da República após a derrota nas urnas em 2022. 
Bolsonaro na motociata, certo de estar agradando.
Parecia membro do conjunto Velhinhos Transviados
Depois porque nosso Poder Executivo, que Trump quer porque quer forçar a uma rendição ultrajante, não tem brecha legal nenhuma para libertar Bolsonaro enquanto ele continuar réu primário apesar do rosário de crimes que cometeu. Anistia ou indulto só poderão ser utilizados para interromper o cumprimento da sua pena quando ele já tiver sido condenado.

Então, o demencial tarifaço do Bolsonaro dos EUA, além de flagrantemente ilegal, é gratuito, porque o chantageado não tem como pagar o resgate cobrado pela bandidagem, qual seja a libertação do Trump do Brasil.

E, se houvesse como Lula atender aos chantagistas, seria justificável ceder a eles para evitar retaliações econômicas?

Muito politico sem noção e comentarista de internet sem caráter prega que se passe pano para Bolsonaro. Foi o que fez a Justiça de Munique com Hitler, preso como um dos líderes do putsch da cervejaria em novembro de 1923 e condenado a cinco anos de prisão. 

Libertou-o, contudo, em dezembro de 1924, aparentemente por considerar que cerca de 2 mil fanáticos, tentando controlar uma única cidade pela força, estavam muito longe de poderem conquistar o poder em toda a Alemanha. 

Da mesma forma, a defesa dos golpistas do 08.01 alega que a vandalização dos prédios dos Poderes num domingo não significaria o sucesso do autogolpe. 

Ora, em ambos os casos havia um plano meticulosamente elaborado e executado, incluindo forte pressão sobre autoridades, expostas até a humilhações, na tentativa de fazer com que traíssem seus deveres e passassem a apoiar a intentona.

Em Munique, inclusive, travaram-se tiroteios, com a morte de 16 nazistas e 4 policiais.
Quantos milhares de brasileiros terão morrido por
crerem que qualquer pajelança substituía vacina?
 

O xis da questão, contudo, é que a generosidade da corte de Munique concedeu a Hitler quase quatro anos para ele liderar a mudança de estratégia dos nazistas, que desistiram de tomar o poder por levantes armados e passaram a nele infiltrar-se mediante mandatos conquistados nas urnas, distorcendo-o por dentro até subjugá-lo totalmente.

Nos 13 meses em que permaneceu preso sem muito rigor, Hitler criou o livro que norteou a mudança de estratégia, Mein Kampf.

E pôde em seguida, nos quase quatro anos em que deveria ter permanecido preso, adequar o Partido Nazista para o novo papel que desempenharia na década de 1930, quando não só se tornaria o führer da Alemanha, como conquistaria total ou parcialmente várias pequenas nações mediante blefes, intimidações e demonstrações de força, para depois, com a segunda guerra mundial já declarada, estender seu domínio até à França.

Tivesse ele cumprido pena integral, haveria outro líder que concebesse e concluísse com tamanho êxito tal metamorfose do Partido Nazista? Jamais saberemos.

Como não sabemos que consequências trará uma eventual magnanimidade com relação a Jair Bolsonaro, cujos crimes são mais do que suficientes para garantir sua condenação ao máximo que a lei brasileira permite: 30 anos de prisão. 
A conquista da França teria sido tão fácil se Hitler
não fosse libertado após cumprir 1/5 de sua pena?

Mesmo levando-se em conta algumas reduções de pena possíveis, dará para termos certeza de que, mesmo que venha a ser longevo, voltará às ruas como um idoso inofensivo.

Já Hitler voltou às ruas como um personagem crucial para que a humanidade sofresse os horrores da segunda guerra, na qual morreram entre 70 e 85 milhões de pessoas. (por Celso Lungaretti)

sábado, 19 de agosto de 2023

É BOM ELE JÁ IR BOTANDO ESCOVA DE DENTES E MAÇOS DE CIGARRO NA SUA MALA

Dezembro de 2022: deixando o Palácio da
Alvorada, rumo à Disneylândia...
Sob o aspecto moral, é até chocante que, dentre o rosário de crimes cometidos pelo palhaço sinistro antes, durante e depois da temporada de quatro anos do circo dos horrores no Palácio do Planalto, ele vá começar a ver o sol nascer quadrado como consequência de um dos mais insignificantes: a venda de joias das quais se apropriou ilegalmente.

Inclusive, isto acaba sendo uma meia vitória para ele, que tanto fez para normalizar o extermínio de idosos, pobres e indígenas: os podres Poderes parecem dar-lhe razão, pois, ao invés de o submeterem a um julgamento exemplar como o da quadrilha de Hitler pelo tribunal de Nuremberg, vão puni-lo primeiramente como um camelô de muamba.

Isto diz muito sobre o analfabetismo político (grande Brecht!) e ético de considerável parcela do nosso povo. Os, repito, podres Poderes decidiram que seria mais palatável e imune a badernaços uma sentença por transgressão bem conhecida e muito repudiada pela parva gente brasileira do que uma pelo maior dos crimes que se pode cometer contra os seres humanos: tirar-lhes a vida. 
...e a nova delinquência, que deverá dar 
um fim à sua carreira criminosa... 

É óbvio que, depois do abre-alas, virá o resto do desfile: outras condenações estão a caminho. Afinal, nem mesmo num país que não é sério pode passar batido o abate como gado de centenas de milhares de pessoas indefesas que, noutras circunstâncias, teriam sobrevivido à pandemia de covid. 

Seria passar recibo de que o Brasil é um país sem lei, sem princípios, sem humanidade, sem nada que o diferencie da horda primitiva.

Como único consolo para os brasileiros realmente civilizados, está o fato de que o psicopata da necropolítica é e sempre foi um ladrão de galinhas, enfileirando três décadas de mandatos legislativos nos quais, pela sua própria mediocridade e irrelevância, conseguiu passar despercebido para os que tinham a obrigação de puni-lo, enquanto nada, absolutamente nada, fazia de útil para o país e para o povo brasileiro. 

Se não, vejamos sua folha de serviços:
...antes tarde do que nunca!
— desviou tanta grana quanto pôde para si e para seu clã;
— acumpliciou-se com a modalidade de crime organizado conhecida como milícias do Rio de Janeiro;
— esmurrou em público o então deputado federal Randolfe Rodrigues;
— proveu medalhas e homenagens a assassinos bestiais, e, 
— enfim, foi sempre um defensor e propagador dos comportamentos mais ilegais, espúrios, abjetos e degradantes

Então, faz sentido que vá ser finalmente oficializada esta característica que marcou toda a trajetória do Bozo: a de ladrão de galinhas.

E a pergunta que não quer calar é: como todos nós permitimos que um tão escrachado ladrão de galinhas passasse três décadas parasitando impunemente o Legislativo e acabasse se tornando o pior presidente brasileiro de todos os tempos (inclusive minando as instituições e avacalhando a imagem das Forças Armadas como nem o pior dos inimigos até então o fizera)?

Torquato Neto estava certíssimo: aqui é o fim do mundo. (por Celso Lungaretti 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

LEI ANTITERRORISMO: LULA PODE TERMINAR O QUE DILMA COMEÇOU

 


Vejo na Globonews o serelepe senador Randolfe Rodrigues falando de um possível endurecimento da lei antiterrorismo, entulho autoritário aprovado por dona Dilma após anos de pressão do Tio Sam. 

Seria uma resposta legislativa aos atos denominados pela Rede Globo de terroristas do último dia 08 de janeiro. Segundo o notório político, a intenção seria alterar a cláusula da lei que excluí de punição atos relacionados a protestos por motivação política

Curiosamente, tal mudança era desejo antigo de Jair Bolsonaro, certamente acalentando em seus sonhos a ambição nada secreta de enquadrar movimentos sociais e trabalhistas como sendo puro terror. Não tendo avançado antes, pode agora avançar sobre o patrocínio dos defensores da democracia. 


O governo Lula, incapaz de combater efetivamente o bolsonarismo em sua base econômica, social e institucional, prefere ampliar a repressão reforçando o poder policial e judicial. Com isso, paradoxalmente, contribui para reforçar  o poder da própria extrema-direita que tem no punitivismo estatal uma de suas maiores fontes de energia. 

Nem de longe as invasões e depredações ocorridas em Brasília são atos de terrorismo. No Brasil, não há terrorismo organizado, ao não ser o do próprio Estado, pois como poderíamos denominar a ação, por exemplo, da PMRJ senão de terrorista, ao invadir comunidades do Rio e sair matando a esmo dezenas de indivíduos?

Por mais lamentáveis que sejam, atos de depredação não são terrorismo

A Globo possui seus interesses em denominar os militantes bolsonaristas de terroristas porque ela vê mais longe. Para ela, bolsonaristas, black blocs, MST, grevistas, todos são essencialmente iguais, pois todos significam a desestabilização da ordem burguesa, não importando se tal vem da esquerda ou da direita. O discurso criminalizador é igual e todos são igualmente terroristas. O terror, no caso, é contra o regime capitalista. 

O lulopetismo segue pela mesma lógica. Para ele, só contam os movimentos sociais domesticados, capazes de serem usados como correia de transmissão e de serem metamorfoseados em votos. Tudo o que saía disso, quebrando a ordem política, é também visto como ameaça. Tanto que a primeira vez que se falou seriamente na aprovação da lei antiterrorismo foi pela boca do senador Paulo Paim, após o trágico incidente que vitimou o cinegrafista da Band. O motivo parecia nobre, mas a intenção era outra: justamente no auge das manifestações de 2013-14, criminalizar os rebeldes sem causa que incendiavam o Brasil à época. 

Até o momento, o governo Lula nada fez contra as altas lideranças militares e civis que retroalimentam o bolsonarismo, mesmo após a divulgação do grave fato de uma possível proteção do chefe do Exército aos manifestantes acampados em Brasília. Mas sempre é mais fácil capturar os peixes pequeno, ao invés de se digladiar com os tubarões. 

O Brasil dispõe de um arsenal de leis punitivas e não é difícil enquadrar os eventuais crimes cometidos pelos bolsonaristas no estouro da boiada do dia oito em qualquer uma delas. Lei antiterrorismo e seu endurecimento servem apenas a cassar o restante de democracia neste país, já de resto subdemocrático. Deve-se combater a extrema direita com política e mobilização popular e não reforçando a repressão do Estado burguês. 

Caso se concretizem tais mudanças, Lula terminará o que Dilma começou e, mais uma vez, a repressão brasileira ampliará seus instrumentos pelas mãos da dita esquerda. (por David Emanuel Coelho)

quinta-feira, 14 de julho de 2022

BOZO, VOCÊ SABE O QUE É INCITAÇÃO À VIOLÊNCIA? NÃO APRENDEU NA AMAN?

eugênio bucci
SENTIDO DESFIGURADO
"Você sabe o que é sentido figurado? Você sabe o que é?
Você estudou Português na faculdade ou não?" 
Assim ralhou o presidente da República, no Palácio do Planalto, ao ouvir uma pergunta de que não gostou. Entendamos o contexto.

O bate-boca se deu nesta 2ª feira (11), dois dias depois de o guarda municipal Marcelo Arruda ter sido morto a tiros, durante sua festa de aniversário, na cidade de Foz do Iguaçu (PR). Gravado pelas câmeras de segurança do local da comemoração, o crime ganhou as telas eletrônicas, desde os telejornais do horário nobre até os grupos de família no WhatsApp. 

O assassino invadiu o salão atirando, enquanto gritava: "Aqui é Bolsonaro!". A vítima, militante do Partido dos Trabalhadores, tinha escolhido o ex-presidente Lula como tema do seu aniversário.

Com tamanha carga partidária, a tragédia adquiriu um significado político eloquente – um bolsonarista mata a tiros um petista, às vésperas das eleições. 
Daí vem a pergunta: o que é que os pronunciamentos odientos do presidente têm que ver com esse homicídio? Pois era isso que os repórteres queriam ouvir do próprio. 

Durante a rápida entrevista, alguém lembrou uma fala de Bolsonaro em 2018, durante um comício no Acre. 

Na ocasião, o então candidato tomou emprestado um destes tripés usados por fotógrafos e cinegrafistas e o segurou como se fosse uma metralhadora, fazendo tremer os braços, como se distribuísse rajadas nos ares do Norte. Depois, pegando de volta o microfone, bradou, quase gargalhando: "Vâmu fuzilá a petralhada aqui do Acrê".

Quando ouviu menções à sua incitação ao fuzilamento de petistas, proferida há quatro anos, o hoje chefe do Executivo se agastou. Foi aí que usou como escudo as figuras de linguagem: "Você sabe o que é sentido figurado? Você sabe o que é? Você estudou Português na faculdade ou não?".

Não é comum o oferecimento de disciplinas de Português em faculdades que ensinam o jornalismo. Os profissionais desse campo tentam estudar o idioma durante a vida inteira, mas dificilmente encontrarão aulas de gramática ou de formas narrativas no seu currículo de graduação. O presidente da República não sabe disso, lógico, assim como não sabe o que significa sentido figurado

Se invoca a expressão, só o faz para escapulir de uma responsabilidade que tem. Ele não é culpado imediato pelos disparos de Foz do Iguaçu, mas é, sim, o maior estimulador da tensão que se alastra e que tende a desaguar em atos de agressão física.

Por certo, Bolsonaro não faz ideia do que seja o tal 
sentido figurado; sua prosódia de exacerbações, avessa a qualquer forma de elevação estética, apenas desfigura o sentido das representações simbólicas. 

Onde a linguagem triunfa sobre a carnificina, os seus urros trazem de volta a pedra bruta que tritura o espírito de cada palavra. As coisas que ele diz, e as diz muito mal, as coisas malditas que saem dos seus resmungos ou de suas infâmias produzem, sem rodeios nem mediações, a generalização da violência. A responsabilidade é direta, crua, não há como disfarçá-la ou maquiá-la.

Chega a ser estranho, desconcertante mesmo, que tanta gente fique por aí falando em polarização. A polarização já era; eclodiu antes de 2018 e depois virou outro bicho. Embora seus resíduos subsistam, o que está hoje na nossa cara não resulta mais de um debate polarizado, mas de uma fascistização unilateral e desembestada. É com isso que estamos lidando agora.
(Um parêntese aqui. Os cientistas políticos evitam usar o termo fascismo para descrever o quadro presente; as circunstâncias históricas da Itália dos anos 1920 não coincidem com o que se passa agora no nosso triste país – além do quê, Mussolini, em seu início, defendia os direitos trabalhistas, enquanto o bolsonarismo os mastiga feito hiena. 

Mas o que está aí carcomendo por dentro o Estado Democrático de Direito e degradando por fora dele toda a cultura política é, sim, um fascismo anacrônico, ele mesmo desfigurado, oco, um fascismo ajoelhado diante dos financistas e dos políticos de aluguel.)
O desastre fascista, como costumávamos saber, mora no
guarda da esquina. Era assim na Itália de cem anos atrás e é assim agora no Brasil. 

São estes anônimos, armados pelas políticas públicas do governo, os colecionadores de trabucos e de mortes, que se sentem cada vez mais convocados a tomar a iniciativa de abater os dissidentes. Hoje, como antes, o fascismo é o império dos matadores medíocres, insignificantes e obscuros que se veem autorizados a dar cabo da vida de gente luminosa.

Este é o golpe que está vindo aí, que já começou e que vai ainda nos custar mais sangue. O fascismo insepulto dos seres menores, não nos enganemos mais, foi produzido pelo discurso desfigurado que a nossa gente elegeu há quatro anos. 

É chocante constatar que tantos ainda se dobrem a essa moléstia política. Dói na espinha ver como tantos eleitores endinheirados prometem dobrar a aposta. Os reprimidos clamam por mais repressão. Os devotos obtusos, há cem anos, como agora, se aconchegam no nervo frio do mal. (por Eugênio Bucci, professor da ECA/USP e colunista d'O Estado de S. Paulo)

quarta-feira, 18 de maio de 2022

MAMÃE, FALEI DEMAIS E VIREI BODE EXPIATÓRIO!

Que o deputado Arthur Do Val merecia tanto a cassação do seu mandato quanto a inelegibilidade, e que a Assembleia Legislativa de São Paulo ficará muito melhor sem ele, é o óbvio ululante.

Mas, igualmente óbvio é que muitos casos piores já deixaram de ser punidos pelos legislativos federal, estaduais e municipais, daí o presente episódio não passar de uma exceção que confirma a regra. 

Tendo outrora se popularizado como youtuber, o dito Mamãe, Falei foi à Ucrânia atrás dos holofotes da guerra e se deu mal: suas falas de que as mulheres ucranianas "são fáceis porque são pobres" e de que a fila de refugiadas lembrava "as melhores baladas de São Paulo", repercutidas intensamente pela imprensa e pelas redes sociais, causaram asco e indignação.

Não que estivesse de todo errado na primeira afirmação, pois o cinema não cansa de nos lembrar que, nos países libertados do jugo nazista em 1945, os movimentos de resistência raspavam o cabelo de mulheres e expunham-nas à humilhação pública porque haviam se prostituído ao inimigo. 

[Os motivos para tal comportamento certamente diferiam caso a caso, mas eu nunca execraria mães que tivessem comprado com seu corpo barras de chocolate e outros alimentos para seus filhos famintos... afinal, com quem mais poderiam obtê-los naquela situação crítica, se não oferecendo-se às tropas de ocupação?]  

Contudo, pesou contra o Mamãe, Falei a desumanidade e cinismo do que ele deve ter imaginado que soariam como belas frases de efeito...   

A cassação do mandato, vale dizer, demorou tanto que acabou sendo redundante, pois ele já havia renunciado. A verdadeira novidade foi o terem tornado inelegível por oito anos. 

Mas, que ninguém se iluda. Lembrando o grande Stanislaw Ponte Preta, a moralidade nem de longe foi restaurada. 

É que, para todos continuarem se locupletando, eles precisam sacrificar de vez em quando um bode expiatório e, assim, aplacarem a ira dos justos. Ainda mais quando as eleições estão marcadas para menos de cinco meses à frente. 

E as quebras de decoro parlamentar ou governamental, parafraseando desta vez a Bíblia, são verdadeira legião no Brasil. No mesmo legislativo paulista, p. ex., o deputado Fernando Cury teve o seu mandato tão somente suspenso (por seis meses) após haver sido filmado apalpando os seios de sua colega Isa Penna no plenário. 

E o deputado Delegado Olim, solidário a Cury, teve seu pedido de cassação arquivado pelo Conselho de Ética, mesmo tendo proferido a barbaridade de que a deputada Isa "teve sorte" (!), pois "irá se reeleger por causa disso" (!). 

Last but not least, ninguém no Brasil já acumulou tantas quebras de decoro parlamentar e governamental como o Bozo. Não estaria desgraçando o Brasil, como o pior presidente de todos os tempos, se a Câmara Federal houvesse cumprido o seu dever quando, p. ex.:
— disse que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque "ela não merece";
— afirmou que preferia a morte de um filho seu a vê-lo como amante "de um bigodudo";
— quantificou em arrobas o peso dos quilombolas, que, de tão gordos, "nem para procriadores servem mais";
— 
esmurrou em público o franzino senador Randolfe Rodrigues; 
— admoestou a ditadura militar por não ter "matado uns 30 mil opositores", começando pelo ex-presidente FHC;
— comparou os restos mortais dos guerrilheiros executados pela repressão ditatorial no Araguaia a ossos para cachorros; ou
— fez os mais rasgados elogios a um assassino do crime organizado (integrante das milícias do Rio de Janeiro) e a vis torturadores como Brilhante Ustra. 

E, para encurtar a história, no cargo atual ele continuou, por palavras e atos, dando motivos de sobra para ser impichado, processado e preso, com sua impunidade simplesmente avacalhando as instituições deste país. 

Caso da recente concessão de uma graça presidencial totalmente irregular e descabida a um deputado ferrabrás condenado pela mais alta corte do país por pregar o golpismo e incitar hordas de celerados contra os juízes de processos em que ele próprio figura como acusado.

Comparado ao perdoado Daniel Silveira,  o cassado Arthur Do Val é um gentleman inglês. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

A ESTRELA DECADENTE APAGOU DE VEZ O BRILHO DO PSOL

david emanuel coelho
O FRACASSO DO PSOL E OS LIMITES
DA ATUAÇÃO PARTIDÁRIA
O futuro parecia muito risonho para o Psol...
S
urgido a partir de uma dissidência parlamentar, nas esteira do inconformismo com a imposição de uma reforma da Previdência pelo então presidente Lula, o Psol se propunha a ser um partido do socialismo democrático, que lutasse pelas causas dos trabalhadores e dos explorados pelo capitalismo. 

Embora nunca tenha conseguido ganhar tração popular, permanecendo uma força circunscrita aos parlamentos, a alguns sindicatos e alguns movimentos sociais, o partido teve papel de destaque na sua primeira década de existência, sendo uma pedra no sapato do lulopetismo e chegando a atingir níveis relevantes de votação em nível presidencial. 

Lula nunca escondeu seu ódio ao partido, formado majoritariamente por ex-petistas expulsos ou forçados a deixar o partido. Daí talvez certa ironia da história ao vermos o outrora opositor combativo prostrar-se diante do ex-presidente. 

A grande virada no Psol, de oposição ao lulopetismo para serviçal do dito cujo, ocorreu entre  2014 e 2018, tendo como horizonte as jornadas de protesto de junho de 2013.

Assim como outros grupos dirigentes da esquerda institucional, uma parte importante da direção psolista ficou horrorizada com aquele repúdio eloquente ao status quo, a ponto de fazer eco às paranoias petistas de que nele haveria o dedo da CIA. 

Escandalizava-os ainda mais o fato de a mídia burguesa ter associado o Psol aos manifestantes mais radicais, os chamados black blocs, pois receavam os possíveis custos eleitorais desta propaganda adversa para a esquerda como um todo. 
...mas ele acabou seguindo os passos do pai.

Indicativo de tal desconforto e do movimento de direitização que tomou conta do Psol foi ter Marcelo Freixo, no RJ, voltado as costas aos manifestantes criminalizados pela
Globo, pelo governo Cabral e pela presidente Dilma, sobretudo após o trágico episódio do cinegrafista atingido por um rojão dos manifestantes (após dezenas de profissionais de imprensa terem sofrido com as balas de borracha disparadas pelas forças repressivas!!!).
 
Pouco a pouco, a direção conservadora do Psol  executou um plano para isolar internamente os adepto de uma postura mais consequente e combativa.

Seguindo os mesmos métodos stalinistas adotados pela ala de Lula e Zé Dirceu no PT durante as décadas de 1980 e 1990, tais dirigentes psolistas conservadores passaram a incentivar a entrada em massa de meros carreiristas interessados em subir na vida, sem afinidade real com a causa e o programa do partido. Assim, em pouco tempo adquiririam maioria, iniciando então a reaproximação com o petismo.  

O primeiro momento de claro flerte desta ala conservadora com o lulopetismo foi no 2º turno das eleições presidenciais de 2014, quando dirigentes de destaque hipotecaram apoio a Dilma sem sequer discutirem um posicionamento coletivo do Psol. 

Foi mais um lance de uma disputa interna que já vinha sendo travada ao longo da campanha, tendo o conservador Randolfe Rodrigues, p. ex., sido forçado a abrir mão de sua candidatura (muito simpática ao lulismo) em prol de Luciana Genro, a qual tentava equilibrar-se entre os dois polos, muitas vezes servindo de linha auxiliar da campanha de Dilma contra Aécio Neves, conforme profeticamente constataria o candidato tucano num dos debates.  
Agora já são 42 anos, mas dá no mesmo: de 2010
para cá, o PT se deslocou ainda mais para a direita...

A consolidação da maioria conservadora se daria nos anos seguintes com a entrada no partido de ex-militantes do PSTU e o lobby em favor da candidatura de Guilherme Boulos, o qual nunca tivera relações com o Psol.

Boulos, inclusive, nele só ingressou às vésperas da campanha presidencial de 2018 e quando já tinha absoluta certeza de que seu nome seria confirmado. 

Inesquecível sua atestado de submissão ao lulismo ao dar um boa noite, presidente Lula no começo de um debate dos pré-candidatos do partido. 

O dirigente dos sem-teto acabou tendo uma votação pífia, a pior da história do Psol em campanhas presidenciais, só deixando de memorável  a saia justa na qual colocou Bolsonaro ao atirar-lhe na cara o caso da Val do açaí

Mas estava concretizada a descaracterização do partido como força anticapitalista. Dali até os dias de hoje, o Psol tem sido sombra do que era, metamorfoseando-se definitivamente numa agremiação subordinada aos interesses lulopetistas. 

A ânsia por vencer nas eleições legislativas fez o partido até mesmo discutir o abandono da sua candidatura própria em prol de apoio a Lula já no 1º turno, bem como a possibilidade de fechar uma federação partidária com o PT e, assim, escapar da cláusula de barreira e manter o fundo eleitoral intacto. 

A degeneração do Partido dos Trabalhadores levou pelo menos 20 anos para se completar. Foi apenas na Carta aos Brasileiros de 2002 que o PT deixou por completo de ser um partido de esquerda. Já a dissolução psolista foi mais rápida, talvez porque sua direção já tivesse queimado etapas em sua época no petismo. 
...a ponto de associar-se a quem ontem o horrorizava

Mas isso coloca uma questão a nós, revolucionários. Olhando o sistema partidário brasileiro, não conseguimos vislumbrar qualquer partido minimamente aberto aos ideias revolucionários, exceção feita ao PSTU e ao PCB, os quais, contudo, ainda sofrem dos males do stalinismo e do centralismo doutrinário excessivo. Seria o sistema partidário intrinsecamente refratário à autêntica luta revolucionária? 

Lênin, que em grande parte foi o principal inventor dos partidos revolucionários modernos, já advertia que o Partido Bolchevique atendia às necessidades particulares da sociedade russa, não podendo ser simplesmente copiado mundo afora. 

O stalinismo ignorou tal ressalva e exportou para os quatro cantos do planeta uma forma alienada de organização política, na qual a direção sempre se descola da base e acaba por viver em função de si mesma, acumulando benesses, fundos eleitorais e/ou cargos públicos. 

Resta então nos indagarmos sobre se haverá outra forma de organização política capaz de melhor cumprir os desígnios da tarefa revolucionária, não se desvirtuando até tornar-se mero cabedal para dirigentes parasitários. (por David Emanuel Coelho)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

FALTA UM CANDIDATO QUE NÃO TENHA A INSANIDADE MENTAL DO BOZO E A TIBIEZA DO LULA FACE À DOMINAÇÃO BURGUESA

william waack
UMA MÃOZINHA
Enquanto o Brasil derrete, eles espairecem.
A
última vez em que um candidato apostou com sucesso que as várias circunstâncias o ajudariam foi Bolsonaro em 2018. 

Assim mesmo, ele se empenhou em empurrar as circunstâncias a seu favor (via uso das redes sociais) e teve a facada como um imponderável decisivo (a política é o campo do imponderável). Só que 2018 não se repete, é o consenso geral entre analistas e agentes políticos.

Por isso é que jogar parado como Lula faz é uma tática arriscada sobretudo contra o tempo. Aparentemente o calejado estado-maior petista acha que tudo converge para uma vitória até em primeiro turno. 

Os empurrões (a mãozinha ajudando os fatos) são absolutamente previsíveis: acenos ao difuso centro (via Alckmin) e o apelo à memória de tempos melhores (como se sabe, nada muda mais do que o passado).

O problema para o cálculo político dos adversários de Lula e Bolsonaro é, em primeiro lugar, estabelecer se as circunstâncias estão atrapalhando ou ajudando as diversas candidaturas. 
Eleito, o Nhô Ruim continuará deixando os bancos
obterem lucros escandalosos e se orgulhando disto
 

Bolsonaro se esmera em reiterar o que tem de pior em termos de imagem e Lula, o que se espera de pior em termos de falta de ideias para tirar o País da estagnação (como demonstra sua opção de porta-voz para assuntos econômicos). 

Mas é essa a percepção geral do eleitorado? Ou só da minúscula parcela dos que se dedicam profissionalmente à política?

Não, a eleição não está ainda no horizonte do grande público. Razoável consenso entre profissionais de pesquisas indica uma demanda do eleitorado rumo ao que se chamaria (com todas as dificuldades apresentadas pela maçaroca ideológica brasileira) para a centro-direita

Mas, isto dentro de um ambiente emocional, importantíssimo para a política, de considerável medo (inflação e corrosão da renda), cautela (pandemia) e resignação (decepção com os incumbentes nos cargos políticos).

Surge daí para os adversários de Lula e Bolsonaro uma conclusão preocupante: as circunstâncias criam a mistura combustível necessária para incendiar uma eleição, mas isso dependerá da capacidade política de criar a faísca. 
Reeleito, o Nhô Pior continuará destruindo o país
com sua ignorância 
crassa e sua fúria desvairada
Que é função, neste momento, de organização e mobilização políticas que rompam medo e resignação antepondo-lhes um
sonho, um horizonte para além das corretas propostas de saúde, equilíbrio fiscal, educação de qualidade ou transparência democrática (tudo elogiável, sem dúvida).

De fato o País desaprendeu a sonhar consigo mesmo e hoje titubeia entre qual o pesadelo menos pior. Se não houver a mãozinha empurrando as circunstâncias, o sonho dependerá do imponderável. 

É muito alto o risco. (por William Waack)

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

TÃO DESASTRADO QUANTO CRIMINOSO, O BOZO LEVANTOU A BOLA PARA CPI DA COVID MARCAR UM ÚLTIMO PONTO DEVASTADOR

eliane cantanhêde
AFIRMAÇÃO  DE BOLSONARO SOBRE 
VACINA E AIDS DEU ÚLTIMO GÁS À CPI
O presidente Jair Bolsonaro deu um presentão para o gran finale da CPI da Covid: a mentira absurda, chocante e irresponsável de que duas doses de vacinas provocam aids na Inglaterra foi a derradeira prova cabal do negacionismo patológico e da ação criminosa do presidente na pandemia.

Bolsonaro deu um tiro no próprio peito e a CPI afirma-se como a mais bem-sucedida da história contemporânea, com um trabalho incansável, um relatório final sólido e já com uma vitória concreta: foi graças a ela que o Brasil se livrou do contrato da Precisa e das negociatas da Davati com o governo.

Se entrou na pandemia com a tese da gripezinha, resfriadozinho, histeria da mídia, Bolsonaro chega ao fim da CPI como quem usou o cargo e os meios públicos para atacar a medicina e a ciência, promover aglomerações, remédios ineficazes para a covid e a tese da imunidade de rebanho que, no caso, significa: Deixa morrer!.

Se fez o que jamais poderia, não fez o que tinha obrigação de fazer: liderar os brasileiros a usarem máscaras e álcool em gel, fazerem isolamento social e se vacinarem. Não. Foi o oposto: Bolsonaro desdenhou da Pfizer e da Janssen, atacou a Coronavac do Butantã e dedicou-se a fake news.

Dizer que vacina causa aids pode ter sido a mais grotesca, mas está longe de ser a única. 
Sua
live foi desmentida pela Inglaterra e por todas as entidades científicas e médicas sérias, além de retirada do Facebook, do Instagram e do YouTube, que bloqueou a conta do presidente do Brasil por sete dias. Outro vexame no mundo.

Mais nada, porém, é inacreditável quando se trata de Jair Bolsonaro, que já retirou máscara de criança em público, promoveu aglomerações golpistas e sem máscara diante do Planalto e até do QG do Exército, atribuiu mentirosamente ao TCU um estudo negando o número de mortos, empurrou generais a se vacinarem escondidos, fingiu que não viu e não sabia da roubalheira na Saúde.

Por inspiração dele, bolsonaristas tumultuam voos sem máscara, açoitam e jogam carros contra cruzes pelos mortos e batem no peito para dizer que não tomam vacina e concordam com e daí?, não sou coveiro, vamos parar de mimimi e este não é um país de maricas.
.
I
NTEGRANTES
. A CPI consolidou a imagem do seu presidente, Omar Aziz; jogou luzes sobre a garra do vice, Randolfe Rodrigues; revelou uma bancada feminina indispensável, com Simone Tebet, Eliziane Gama, Soraya Thronicke, Leila do Vôlei e Zenaide Maia, colega médica de Otto Alencar, Humberto Costa e Rogério Carvalho; e lucrou muito com a experiência política do senador Tasso Jereissati e profissional dos delegados Alessandro Vieira e Fabiano Contarato.

Renan Calheiros, o relator, foi a escolha mais surpreendente e continua sendo a mais polêmica, mas sua capacidade política foi decisiva. Soube ouvir, avançar, recuar, buscar o consenso. E, fosse o relator João, Pedro ou Simone, o que realmente interessava era a investigação e o que realmente interessa é o resultado. Ambos impecáveis.

A CPI pede o indiciamento de 78 pessoas, entre filhos do presidente, ministros, ex-ministros, militares, líder do governo na Câmara, funcionários do Ministério da Saúde, reverendo e quadrilhas que vendiam vacinas inexistentes, bem como o governador e o ex-secretário de Saúde do Amazonas, onde pessoas morreram sem oxigênio. Mas o grande réu é o presidente da República.

A bola está com a PGR, para os que têm foro privilegiado, como Bolsonaro, e a Câmara, para os crimes de responsabilidade. Cada um que olhe o relatório final, a Constituição, as leis e as próprias consciências. 
As famílias, amigos e amores dos 606 mil mortos estarão observando e aguardando, junto com toda a Nação brasileira.
(por Eliane Cantanhêde)

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

APRESENTAÇÃO DO RELATÓRIO FINAL DA CPI: POR QUE PAROU? PAROU POR QUÊ?

amanda pupo
CPI ADIA LEITURA DE RELATÓRIO APÓS DIVERGÊNCIA
EM INDICIAR BOLSONARO POR HOMICÍDIO QUALIFICADO
Após o Estadão revelar a íntegra do relatório final da CPI da Covid (vide aqui), o presidente da comissão, senador Omar Aziz, decidiu adiar a leitura do parecer. 

Inicialmente, a reunião estava marcada para esta 3ª-feira, 19, com votação no dia seguinte. Agora, a nova data será na quarta-feira, 20, e a votação, na próxima terça-feira, 26.

Um dos pontos que levaram ao adiamento, de acordo com fontes ouvidas pela reportagem, é a decisão do relator, senador Renan Calheiros, de indiciar Bolsonaro por homicídio qualificado, revelada pela reportagem do Estadão

Estadão apurou que o presidente teria reclamado com Aziz dessa intenção de Renan. Interlocutores de Bolsonaro afirmaram que homicídio é algo que todas as pessoas entendem o que é e, se isso for adiante, Bolsonaro ficará marcado como assassino, o que seria muito difícil de ser revertido na opinião pública. 

O senador Aziz, no entanto, negou enfaticamente ao Estadão a existência de qualquer conversa com Bolsonaro sobre o relatório. Aziz disse que essa informação "vem de uma fonte mentirosa" e reforçou que ele não conversa com o governo sobre assuntos de interesse do Planalto. 

O senador também esclareceu que a decisão pelo adiamento foi tomada em conjunto entre ele e o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues. Os dois avaliaram que o prazo para a votação do relatório, marcada inicialmente para apenas um dia após a leitura, poderia gerar questionamentos por parte de senadores e prejudicar o resultado final da comissão.

Conforme o Estadão publicou com exclusividade neste domingo, o relatório final da CPI conclui que o governo de Jair Bolsonaro agiu de forma dolosa, ou seja, intencional, na condução da pandemia e, por isso, é responsável pela morte de milhares de pessoas. 

“O governo federal criou uma situação de risco não permitido, reprovável por qualquer cálculo de custo-benefício, expôs vidas a perigo concreto e não tomou medidas eficazes para minimizar o resultado, podendo fazê-lo. Aos olhos do Direito, legitima-se a imputação do dolo”, diz trecho da peça, que tem 1.052 páginas e ainda pode ser alterada até a sua apresentação formal na CPI.

Numa mudança de entendimento, o texto passou a imputar a Bolsonaro e ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello o crime de homicídio qualificado. Até então, o relatório atribuía aos dois o crime de homicídio comissivo – praticado por omissão. O argumento da CPI é de que Bolsonaro sabia dos riscos que oferecia à população e os assumiu. 

Estadão apurou, contudo, que Renan pretende manter essa definição, a não ser que isto prejudique a aprovação de seu relatório. O senador disse que jornal que da sua parte “está tudo definido” no texto e que agora é avaliar o que seus companheiros pensam a respeito. 

Outro ponto de impasse no colegiado é o indiciamento do ministro da Defesa, Walter Braga Netto. Nesse caso, é o próprio relator que resiste à essa conclusão, por considerar que na CPI não houve apoio nem mesmo para ele prestar depoimento, quanto mais para o indiciamento. 

Braga Netto, então chefe da Casa Civil no início da pandemia, era o coordenador do grupo interministerial criado pelo Palácio do Planalto para cuidar da gestão da pandemia. 

O presidente da CPI afirmou ao Estadão/Broadcast que o adiamento não está relacionado a eventuais discordâncias sobre pontos do relatório. “Não é discordância. É porque o que vazaram, vazaram pontualmente, e só as tipificações, a gente não tem o embasamento”, disse ele, que afirma não haver tido acesso ao relatório até o momento. “Nenhum senador viu o documento ainda”, afirmou...  (por Amanda Pupo, repórter d'O Estado de S. Paulo em Brasília) 
TOQUE DO EDITOR Depois de manchetear em sua edição dominical a conclusão do relator da CPI da Covid, Renan Calheiros de que o principal responsável pela morte evitável de pelo menos 120 mil brasileiros (tudo indica que o número real seja algo entre o dobro e o quádruplo disto) cometeu homicídio qualificado, pois tinha mesmo a intenção de matar, o jornalão serviu-se de sua página digital para, às 15h51 do próprio domingo, informar,  que:
— o desgoverno federal passara imediatamente a pressionar a CPI, para que não o homicida não fosse apresentado como tal, embora Deus e o mundo saibam que ele o é mesmo, seguramente o pior em todos os tempos no Brasil; e
— a apresentação do relatório foi adiada para os membros da comissão decidirem que tipo de concessão vão fazer, aliás desnecessariamente, pois o poder de pressão dos que pressionam blefando (ou blefam pressionando) derreteu definitivamente no último Dia da Pátria, quando o até então presidente trocou a faixa presidencial pela coroa de rainha da Inglaterra, enquanto, em cerimônia reservada, a corja empoderada bradava: O rei Bozo está morto, longa vida ao Rei Centrão!.

Fica assim comprovado que a reportagem estava correta e que o jornalão tivera mesmo acesso ao relatório tal como ele se apresentava na véspera. Sabe-se lá como ficará depois da sessão de maquilagem a que será submetido.
"Na praça não cabe disputa/ Se toca quem sabe tocar"
E, como a notícia vespertina foi publicada com a assinatura de uma simples repórter, evidencia-se o constrangimento do Estadão, pois pode ter alertado o inimigo nº 1 de todos os brasileiros civilizados de que Renan ousara mesmo dar nome aos bois.

Esperei até hoje, pois se tratava, evidentemente, de um tema obrigatório para o editorial da edição seguinte... e nada! Como o ditador Figueiredo, o vetusto jornalão parece querer que esqueçamos o que ele mancheteou.

Fica a pergunta: quem, afinal, vazou o relatório? A primeira impressão é de que o autor da proeza foi alguém a quem interessava que a reação bolsonarista se iniciasse no próprio domingo, e não dias depois.

E, neste caso, o Estadão terá sido usado pelo vazador, agarrando o furo com tamanha ansiedade que esqueceu de indagar: a quem beneficia?

Erro que, como humilde repórter, jamais cometi quando lá trabalhava, por considerar uma humilhação suprema ser feito de correia de transmissão pelos personagens sórdidos que tentavam plantar notícias, verdadeiras ou falsas, por meu intermédio. (por Celso Lungaretti)
"Não guardo mágoa/ Não blasfemo, não pondero/
Não tolero lero-lero/ Devo nada pra ninguém"
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