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terça-feira, 9 de janeiro de 2024

OS EXCLUÍDOS QUE A NECROPOLÍTICA DO BOLSONARO MATOU NÃO FESTEJARAM A SALVAÇÃO DA DEMOCRACIA INACABADA

Para manter clima farsesco, um slogan tipo piada pronta  
Mantenho as avaliações que fiz no momento dos acontecimentos: imensamente mais grave do que o putsch flopado de 08.01 foi a sabotagem à vacinação durante a pior epidemia que o Brasil enfrentou desde a gripe espanhola em 1918.

Como enorme parcela dos dados sobre contaminação e óbitos era manipulada nos estados e municípios, jamais teremos os números exatos da devastação que a covid causou, mas os modelos matemáticos de grandes universidades e centros de pesquisa estrangeiros nos permitem afirmar que as mortes superaram a casa de 1 milhão e as vítimas fatais que poderiam ter sido salvas não fosse a necropolítica do Bolsonaro ficaram entre 350 mil e 400 mil.

Então, concordo totalmente com o companheiro David Emanuel Coelho quanto ao caráter farsesco do evento propagandístico que o PT acaba de promover. 

Mais do que as sedes dos Poderes vandalizadas, temos é de lamentar as vidas sacrificadas pelo pior presidente brasileiro de todos os tempos. Mesmo sendo principalmente de idosos, negros, indígenas e outros coitadezas, ou seja, aqueles que sempre foram menos chorados pelos sinhôzinhos desta Casa Grande. 

Comemorar de forma tão cínica a sobrevivência da injusta e desigual democracia inacabada chega a ser um insulto aos brasileiros que não sobreviveram aos horrores do quadriênio 2019/2022. Ainda mais quando os culpados vips pelo 08.01 ainda nem começaram a ser processados, inclusive o pai do golpe.
"O putsch flopado foi mais uma sequência de trapalhadas" 
De resto, o que mais me chamou a atenção na enxurrada de textos sobre o 08.01 é que, pelo menos nos que passaram pelas minhas mãos, faltou ser levado em conta em fator importantíssimo: tratou-se de uma
comédia de erros, uma sequência de trapalhadas. Se não, vejamos:
1. Bolsonaro passou o mandato presidencial inteiro preparando o golpe, mas sua incompetência e mediocridade o fizeram desperdiçar os três melhores momentos para  obter sucesso: logo no primeiro ano de governo, entrando de sola com um pacote de medidas radicais como as do Milei, e nos Dias da Pátria de 2021 e 2022, quando convocou seus bovinizados seguidores para o grande momento, mas foi ele próprio quem amarelou na hora H;
2. Alertou o inimigo de tudo que foi jeito, culminando no bloqueio das rodovias no 2º turno, que equivaleu a uma atestado de (más) intenções assinado e com firma reconhecida;
3. Optou pelo ou vai ou racha tarde demais, quando já não escapava a ninguém tratar-se apenas de uma virada de mesa por ter perdido a eleição;
4. Mesmo percebendo que o Exército dificilmente faria o serviço sujo para ele, jamais pensou noutra coisa além de criar situações que talvez levassem os fardados a intervir. Não tinha plano B e seu plano A se chocava com a péssima imagem de sua passagem pela caserna e com a tradição de que os militares brasileiros só dão golpes de estado para empoderarem generais e marechais, não oficiais subalternos;
5. Já do lado do Lula, fica a forte suspeita de que brincou com fogo e quase se queimou;
"Não é mais possível esta festa de medalhas, este feliz
aparato de glórias, esta esperança dourada nos planaltos"
6
. Em 05/02/2023 eu já lembrava que a espionagem aliada várias vezes havia alertado os EUA contra um ataque de surpresa dos japoneses, mas o governo Roosevelt  deixara Pearl Harbor  acontecer pois precisava de um acontecimento de forte apelo emocional para convencer seu povo a aprovar a entrada na 2ª Guerra Mundial. Da mesma forma, escrevi, "é impossível que Lula e seus ministros ignorassem o que se tramava"; 
7. Ainda assim, parece que só os alertas da Janja impediram que ele facilitasse a vida dos golpistas decretando uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem), conforme militares traíras aconselhavam.

O plano golpista era aparentemente idiota, começando pelo fato de que o ataque a prédios às moscas num domingo não só foi inócuo como contraproducente, pois forneceu imagens que causaram péssima impressão no Brasil e no mundo. 

Contudo, como o objetivo do Bolsonaro era criar uma provocação para, mais uma vez, chantagear emocionalmente o Exército, tinha alguma lógica, do tipo tentativa desesperada para evitar a derrota no minuto final. Mas, como os tropicalistas cantavam, aqui é o fim do mundo, onde tudo pode acontecer. 

Lembremo-nos na chanchada que foi o golpe de 1964. Os conspiradores o tramavam havia anos, quase conseguiram o objetivo em agosto de 1961 com a renúncia do Jânio Quadros, mas quando estavam prestes a deflagrá-lo, um general fascista com carteirinha assinada, que fora deixado fora do plano, furou a fila e colocou suas tropas na via Dutra.
O golpe de 1964 começou com este passeio de recrutas
imberbes pela Dutra enlameada. Aqui é o fim do mundo
.
E, para surpresa do Castello Branco e sua turma, a maluquice funcionou. Ninguém deteve Olympio Mourão Filho, embora bastasse um avião da FAB disparando rajadas de metralhadora por cima da cabeça deles para aqueles
recrutas zero debandarem em pânico.

Se não fosse a Janja, talvez algo semelhante tivesse ocorrido no 08.01.

E não pode ser levada na galhofa a bomba que deu chabu no aeroporto de Brasília, em dezembro de 2023. Morreria muita gente se a extrema-direita não continuasse tão trapalhona nessa modalidade quanto o era quando do atentado terrorista igualmente fracassado ao Riocentro, em abril de 1981.

Quanto à tomada do poder por dentro, não devemos superestimar as antas do bolsonarismo: isso seria coisa para um Hitler ou Mussolini, não para o patético ex-tenente expulso do Exército por ser mau militar e planejar maluquices.  A ideia fixa dele era mesmo um golpe militar à antiga.

No entanto, o fortalecimento eleitoral da extrema-direita e a tendência a obter cada vez mais o apoio dos fisiológicos (ou seja, a maioria) do Congresso são perigos reais. 

Dependendo da performance da base aliada nos pleitos  municipais deste ano, a opção pelo reformismo e pelo eleitoralismo poderá adiante se revelar desastrosa para nós, da esquerda. 

por Celso Lungaretti
Só recuperaremos o respeito dos brasileiros resgatando a combatividade perdida, mas o Lula.3 vai exatamente na direção contrária, a de uma direitização cada vez mais acentuada e de uma rendição incondicional às chantagens do
centrão .

Com a agravante de que a direita poderá voltar em 2027 ao poder com um líder bem mais eficiente do que Bolsonaro. Aliás, é difícil imaginarmos alguém capaz de dar tantos tiros no pé quanto ele...   

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

INDICAÇÃO DO NOVO PROCURADOR GERAL: E SE, EM VEZ DE COELHO, O LULA RETIRAR MAIS UM GAMBÁ DA CARTOLA?

A
manhã (26) termina o mandato do procurador Geral da República Augusto Aras, que foi o principal responsável por Jair Bolsonaro haver terminado o seu hediondo mandato presidencial, embora tivesse cometido crimes de responsabilidade às dúzias e houvesse causado (ao sabotar o combate científico à recente pandemia) a morte de cerca de 400 mil brasileiros que deveriam estar vivos até hoje.

Com um novo PGR, a ser ainda indicado por Lula, poderão seguir em frente todos os processos pendentes contra o psicopata alucinado, principalmente os referentes à tentativa de golpe de estado, à apropriação indébita de presentes estrangeiros e à necropolítica adotada durante a emergência sanitária da covid-19.

Mas, o fará? Os crédulos dão como favas contadas que Lula não frustrará as esperanças dos melhores brasileiros. No entanto, como suas escolhas passadas o condenam, estou lançando este alerta: ao invés de coelho, ele é bem capaz de tirar mais um gambá da cartola.

Devemos lembrar, p. ex., que em 2008 ele proibiu seus dois ministros mais combativos, Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) e Tarso Genro (Justiça), de continuarem defendendo a revisão da anistia de 1979. Determinou a ambos que, aos apelos e súplicas recebidos tanto dos sobreviventes das torturas quanto dos entes queridos daqueles que haviam sido barbaramente assassinados, respondesse apontando-lhes o caminho dos tribunais. 
Supostos inimigos ideológicos, eles estão sempre
unidos quando se trata de saquear os cofres públicos

Com isto, sacramentou de vez a impunidade dos torturadores, pois o Supremo Tribunal Federal, de mãos atadas pela Lei de Anistia, era obrigado a fulminar as tentativas de imporem-se as merecidas punições àqueles homicidas, torcionários, estupradores e ocultadores de cadáveres.

Mais recentemente, indicou para vaga no STF seu advogado Cristiano Zanin, um fanático religioso que, em termos de costumes, reza pela mesmíssima cartilha de guerra cultural dos bolsonaristas.

E, após tanto haver se vangloriado por, empossando a lenda viva Ana Moser, ter retirado o Ministério dos Esportes da condição de moeda de troca de barganhas da politicalha imunda, foi obrigado a um humilhante recuo. Isto porque o centrão exigiu a liberação de tal pasta para o inacreditável André Fufuca, o gestor no qual confia para zelar pela dinheirama que deverá advir da liberação dos cassinos on-line.

Por último, é obrigatório citarmos a nauseabunda promiscuidade entre PT e PL nos esforços para, por meio da PEC da Anistia, anularem as multas aplicadas aos diversos partidos por infringirem regras eleitorais favoráveis às mulheres, aos negros e a minorias.  Ou seja, o partido de Lula não só se alinhou com a ralé fisiológica, como deu uma solene banana para seus eleitores naturais.
Fufuquinha e Fufucão atuam pelo Centrão F.C.

Ademais, mostrou preferir Brilhante Ustra a Vladimir Herzog; Cristiano Zanin a todos os juízes que não são "estupidamente evangélicos"; e André Fufuca à Ana Moser. 

Não deverá, portanto, causar surpresa se a escolha de Lula para novo PGR recair sobre outro arquivador geral da República, que passe pano para Bolsonaro ou deixe seus crimes prescreverem. 

Até porque será muito útil para Lula continuar tendo o golpista, cleptomaníaco e genocida como seu principal adversário. Tal abominação eventualmente lhe poderá servir de novo para assustar o eleitorado mais consciente: agora que não consegue mais ser crível como bem maior, só resta a Lula ir-se reelegendo como mal menor. 

É o único cenário que tende a favorecê-lo. Depois de Lula avassalar-se repulsivamente ao centrão como ora vem fazendo, se tiver como principal antagonista em 2026 um candidato à esquerda, será melhor não disputar a eleição presidencial. Nem mesmo ele consegue enganar a todos durante todo o tempo, (por Celso Lungaretti)

sábado, 19 de agosto de 2023

É BOM ELE JÁ IR BOTANDO ESCOVA DE DENTES E MAÇOS DE CIGARRO NA SUA MALA

Dezembro de 2022: deixando o Palácio da
Alvorada, rumo à Disneylândia...
Sob o aspecto moral, é até chocante que, dentre o rosário de crimes cometidos pelo palhaço sinistro antes, durante e depois da temporada de quatro anos do circo dos horrores no Palácio do Planalto, ele vá começar a ver o sol nascer quadrado como consequência de um dos mais insignificantes: a venda de joias das quais se apropriou ilegalmente.

Inclusive, isto acaba sendo uma meia vitória para ele, que tanto fez para normalizar o extermínio de idosos, pobres e indígenas: os podres Poderes parecem dar-lhe razão, pois, ao invés de o submeterem a um julgamento exemplar como o da quadrilha de Hitler pelo tribunal de Nuremberg, vão puni-lo primeiramente como um camelô de muamba.

Isto diz muito sobre o analfabetismo político (grande Brecht!) e ético de considerável parcela do nosso povo. Os, repito, podres Poderes decidiram que seria mais palatável e imune a badernaços uma sentença por transgressão bem conhecida e muito repudiada pela parva gente brasileira do que uma pelo maior dos crimes que se pode cometer contra os seres humanos: tirar-lhes a vida. 
...e a nova delinquência, que deverá dar 
um fim à sua carreira criminosa... 

É óbvio que, depois do abre-alas, virá o resto do desfile: outras condenações estão a caminho. Afinal, nem mesmo num país que não é sério pode passar batido o abate como gado de centenas de milhares de pessoas indefesas que, noutras circunstâncias, teriam sobrevivido à pandemia de covid. 

Seria passar recibo de que o Brasil é um país sem lei, sem princípios, sem humanidade, sem nada que o diferencie da horda primitiva.

Como único consolo para os brasileiros realmente civilizados, está o fato de que o psicopata da necropolítica é e sempre foi um ladrão de galinhas, enfileirando três décadas de mandatos legislativos nos quais, pela sua própria mediocridade e irrelevância, conseguiu passar despercebido para os que tinham a obrigação de puni-lo, enquanto nada, absolutamente nada, fazia de útil para o país e para o povo brasileiro. 

Se não, vejamos sua folha de serviços:
...antes tarde do que nunca!
— desviou tanta grana quanto pôde para si e para seu clã;
— acumpliciou-se com a modalidade de crime organizado conhecida como milícias do Rio de Janeiro;
— esmurrou em público o então deputado federal Randolfe Rodrigues;
— proveu medalhas e homenagens a assassinos bestiais, e, 
— enfim, foi sempre um defensor e propagador dos comportamentos mais ilegais, espúrios, abjetos e degradantes

Então, faz sentido que vá ser finalmente oficializada esta característica que marcou toda a trajetória do Bozo: a de ladrão de galinhas.

E a pergunta que não quer calar é: como todos nós permitimos que um tão escrachado ladrão de galinhas passasse três décadas parasitando impunemente o Legislativo e acabasse se tornando o pior presidente brasileiro de todos os tempos (inclusive minando as instituições e avacalhando a imagem das Forças Armadas como nem o pior dos inimigos até então o fizera)?

Torquato Neto estava certíssimo: aqui é o fim do mundo. (por Celso Lungaretti)  

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

BRASIL DA NECROPOLÍTICA VAI SE TORNANDO UMA APOTEÓSE DO HORROR

josias de souza
NO PAÍS DA INTOLERÂNCIA, MORTES CHEGAM
PONTUALMENTE NAS HORAS MAIS INCERTAS
Há ódio demais no noticiário. A campanha eleitoral cheira a enxofre. 

O Brasil passou a conviver com uma expectativa fúnebre: quem será o próximo cadáver? Não se sabe qual será a sua aparência, seu gênero, sua idade, sua raça ou quem o matará. Ele está andando por aí neste instante sem suspeitar que corre o risco de virar defunto e coadjuvante do noticiário político. 

É um fantasma esperando na fila para acontecer. Se tiver sorte, o próximo morto pode não morrer. Mas tudo parece conspirar a favor da sua condenação. 

Nas pegadas de um 7 de setembro em que Bolsonaro chamou seu principal rival de quadrilheiro de nove dedos, exortando a multidão a extirpar da conjuntura esse tipo de gente, um eleitor de Lula foi morto a facadas no Mato Grosso por um colega de trabalho devoto do bolsonarismo. Após esfaquear, o assassino confesso tentou decapitar a vítima a golpes de machado. 
Um delegado de polícia resumiu a tragédia: 
O que levou ao crime foi a opinião política divergente. A vítima estava defendendo o Lula, e o autor, defendendo o Bolsonaro.
No tempo em que ocupou o trono, Lula cultivou a política do nós contra eles. Bolsonaro deu concretude à metafórica guerra do bem contra o mal. Adicionou à retórica pólvora e gatilhos. O povo armado jamais será escravizado, costuma dizer, para justificar os decretos e portarias que editou para distribuir fuzis, pistolas e munição. 

O morto anterior, um tesoureiro petista de Foz do Iguaçu, foi passado nas armas por um bolsonarista que se abespinhou com a decoração petista de uma festa de aniversário. Antes de morrer, o cadáver do Paraná atirou contra o seu assassino, chutado e pisoteado pelos convidados da festa. 

Concebida como alternativa civilizatória às guerras, a política é subvertida ao redor do mundo. No Brasil, a atividade sempre teve suas facções, organizadas em partidos. O conflito era parte do jogo. Mas nenhuma facção tinha a pretensão de silenciar –ou extirpar– adversários. Mesmo os políticos que não se respeitam sabiam que deveriam se enfrentar com respeito. 

Havia exceções desonrosas. Bolsonaro era uma delas. O capitão se fez na política cultivando o ódio. Na Câmara, defendeu o fuzilamento de FHC, lamentou que os índios brasileiros não tivessem sido massacrados como os estadunidenses, enalteceu torturadores, homenageou milicianos, disse que não estupraria uma deputada por falta de merecimento... 

O diabo é que a exceção ganhou musculatura política. Migrou do baixíssimo clero da Câmara para o Planalto. Prevaleceu numa campanha em que falou em fuzilar a petralhada e enviar opositores para a ponta da praia, onde a ditadura desovava os seus cadáveres. 

A emanação da morte vem do apodrecimento da atividade política. Nem o sórdido atentado que Bolsonaro sofreu em Juiz de Fora o fez retirar o ódio do seu pudim. 

Paradoxalmente, a facada de 2018 vem servindo de capital de giro para manter em funcionamento o empreendimento político que industrializa o ódio a partir da Presidência da República. 

Até outro dia, esse ódio vadiava pelas redes sociais. Agora, circula pelas ruas à procura de encrenca. Tratada como instrumento político banal, a raiva contamina a sociedade. 

Pesquisa nacional feita pela Quaest por encomenda de um grupo de estudiosos da Universidade de São Paulo indica que já não se pode criticar os líderes políticos e continuar tratando o eleitorado com punhos de renda. 

Descobriu-se que um em cada cinco eleitores considera muito justificado ou um pouco justificado o uso de violência se o adversário sair vitorioso nas urnas. Vale para os eleitores do capitão da direita e do coronel da esquerda. 

Quer dizer: a intolerância política deixou de ser mero discurso de político aloprado para se tornar um dado da realidade brasileira. Uma realidade que leva ao noticiário um novo cadáver num instante em que o defunto anterior ainda nem esfriou nas manchetes. 

A conjuntura parece sinalizar que o próximo morto está a caminho. Em Goiânia, dias atrás, um policial militar atirou na perna de um homem, dentro de uma congregação cristã. Alegou estar revoltado com a pregação do pastor, que desaconselhava o voto em vermelhos. 

Em São Gonçalo, no Rio, um apoiador de Lula esmurrou simpatizante de Bolsonaro que procurava confusão num comício petista. 

No momento, quem procura uma clareira de sensatez na campanha eleitoral tem dificuldades para encontrar. Ao comentar o sequestro do bicentenário da Independência pela campanha do seu rival, Lula achou que seria uma boa ideia desmerecer as multidões que Bolsonaro arrastou para seus comícios. 
O presidenciável petista soou assim: 
Foi uma coisa muito engraçada que o ato de Bolsonaro parecia uma reunião da Ku Klux Klan, Só faltou o capuz. Porque não tinha negro, não tinha pardo, não tinha pobre, não tinha trabalhador.
Posteriormente, um repórter ofereceu a Lula a oportunidade de se reposicionar em cena. Ele alegou que se referia ao palanque de Bolsonaro, não à plateia.
Em Copacabana, pela fotografia que eu vi, e eu só vi na televisão, era supremacia branca no palanque. Eu até comparei que parecia um pouco a Ku Klux Klan. 
Só faltou o capuz, só faltou a máscara. Porque era isso o palanque. É o palanque de uma elite, que tinha um cidadão vestido de Louro José, que era o artista principal da festa, ele pulava, ele gritava, ele animava, ele aplaudia. 
Lula parecia empenhado em piorar o soneto com sua emenda: 
Eu apenas comparei. Todo filme americano eu vejo isso... Eu vejo muita coisa que aconteceu na guerra racial, e eu vi aquele palanque e eu fiquei assustado. Não tinha povo. Tinha uma elite muito violenta no seu discurso. A começar pelo presidente da República.
Evocar um movimento supremacista surgido na Guerra Civil estadunidense contra um adversário que confunde eleição com conflito armado não parece uma boa ideia. Quem ouve à distância pode ter dificuldades para saber quem é quem. 

O Brasil ajusta-se à sua desgraça. Mas 2022 vai se transformando numa apoteose de horror. No país da intolerância, as mortes chegam pontualmente nas horas mais incertas. As pesquisas sinalizam um 2º turno convertido em gincana de rejeições. 

A fratura política tende a sobreviver às urnas. O brasileiro elegerá um vencedor, não um presidente capaz de reunificar a nação. (por Josias de Souza, no seu melhor artigo de muito tempo para cá)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

KOTSCHO TRATA O BOZO E QUEIROGA COMO UMA "DUPLA DE MALFEITORES" E QUER O MINISTRO URGENTEMENTE INTERNADO

O
médico Marcelo Queiroga deveria ser urgentemente interditado, a bem das crianças brasileiras e da saúde pública.

Trata-se de um médico ou um monstro, esse ministro disposto a tumultuar tudo, só para agradar ao presidente Bolsonaro, que é contra as vacinas e já avisou que sua filha não vai correr esse risco?

Alheio à vida real, agindo como um autômato que repete sempre as mesmas coisas, Queiroga emposta a voz para justificar o injustificável: o seu boicote à vacinação infantil, que já deveria ter começado, apenas para obedecer a uma ordem do presidente.

Se não estivessem em jogo a vida de nossas crianças e a saúde da população, Queiroga & Bolsonaro poderiam parecer apenas dois trapalhões em férias, brincando de governar um país de fantasia, em meio à mais grave crise sanitária deste século. 

Mais dia, menos dia, as crianças serão vacinadas, mas o tempo que se perdeu, este não tem volta. 

Muitos [que morrerão nesse intervalo de tempo] poderiam estar vivos, não fosse a irresponsabilidade e o negacionismo doentio desta dupla de malfeitores. 
.
(trechos desta coluna do Ricardo Kotscho)

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

APÓS 3 ANOS DESTRUINDO O PAÍS, O BOZO EXULTA: OS BRASILEIROS DEIXARAM DE SER VERMELHOS! AGORA ESTÃO ROXOS DE FOME

leonardo sakamoto
BOLSONARO QUERIA O BRASIL COMO ERA
50 ANOS ATRÁS. COM A FOME, CONSEGUIU
"O pão de cada dia quem me dá é o lixo. Todo dia, meus filhos e eu vamos para o lixo para comer. Quando o caminhão chega, a gente tem que ser muito ligeira para pegar." 

A declaração é de uma mulher que disputava restos de alimentos em um caminhão de lixo em Fortaleza – cena que viralizou pelas redes, tornando-se representativa deste momento do país. 

Não foi a única. Noutro caso, um caminhão que transportava restos de carne e ossos era disputado por famílias no Rio de Janeiro. O motorista afirmou ao jornal Extra que, antes, as pessoas buscavam os ossos para os cachorros, mas hoje pedem para si. 

Na mesma época em que essas imagens provocavam indignação, no início de outubro, a Companhia Nacional de Abastecimento soltava a previsão de que o Brasil deve ter uma safra recorde de grãos no período 2021/2022, com 288,61 milhões de toneladas – um aumento de 14,2% em relação ao ciclo anterior. 
A economia brasileira, uma plataforma de exportação de
commodities, é pensada para abastecer o mundo, mas não a nossa própria despensa. Vale lembrar isto, quando tentarem te convencer de que o problema não é a desigualdade social, mas apenas a pobreza. 

De acordo com pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, 19,1 milhões passaram fome num universo de 116,8 milhões que não tiveram acesso pleno e permanente à comida no final de 2020. Os famintos eram 9% da população, a maior taxa desde 2004. 

Os números, claro, já estão desatualizados e a fome cresceu por conta da política adotada pelo presidente Jair Bolsonaro na pandemia – apesar de seus seguidores mais fiéis culparem pelo caos as medidas que salvaram vidas da covid-19. 

Caso ele não tivesse sabotado as medidas de isolamento social, nem combatido o uso de máscaras, muito menos promovido remédios inúteis para a covid-19, como a cloroquina, a pandemia teria sido mais curta e a economia voltado ao normal antes, com menos mortos e menos fome. O Brasil registrou mais de 614 mil óbitos pela doença até agora. 

Para piorar, no momento em que a crise apertou, Bolsonaro suspendeu o auxílio emergencial que estava sendo pago a pobres sem emprego no começo deste ano durante 96 dias. E só o retomou após grande pressão social, com valores insuficientes para comprar 25% da cesta básica de alimentos em grandes cidades do país. 

Enquanto isso, o dólar disparava frente à moeda brasileira devido à instabilidade criada pelo próprio presidente, que ameaçava um golpe de Estado, e pela falta de projeto de seu governo para a economia. O dólar mais alto impactou no preço do petróleo e, portanto, do gás de cozinha e dos combustíveis e, por conseguinte, na inflação no preço dos alimentos. 

Durante a campanha eleitoral, em outubro de 2018, Jair Bolsonaro afirmou, em entrevista à Rádio Jornal de Barretos que o objetivo de seu governo era fazer "o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás". 

Em termos da fome, ele conseguiu. É novembro de 2021, mas parece a luta contra a carestia do início dos anos 1970, escondida pela ditadura militar. 

Em muitos lugares, tudo isso geraria uma convulsão social. No Brasil, contudo, o sistema é desenhado para a contenção. 

Após ter sido presa por furtar dois pacotes de macarrão instantâneo, dois refrigerantes e um suco em pó, no dia 29 de setembro num supermercado de São Paulo, uma mulher teve seu pedido de liberdade negado duas vezes pela Justiça. Mãe de cinco filhos, desempregada, morando com a família na rua, ela disse que roubou por fome. 

Mas como não era o primeiro crime que havia cometido, os juízes não queriam soltá-la. Foi necessária uma comoção nacional e uma decisão de uma alta corte para que fosse liberada. Seu roubo havia custado R$ 21,69. Parte do Brasil convive bem com a fome dos outros, desde que ela não faça barulho.
 
Em tempo: Nessas horas, lembro-me de uma citação atribuída ao já falecido Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: 
"Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista". 
Denunciar a fome que brota da incompetência do governo voltou a ser coisa de comunista na boca dos fãs do presidente. (por Leonardo Sakamoto)
TOQUE DO EDITOR – Neste exato instante, a manchete do UOL é sobre coitadezas que desmaiam de fome nas filas de postos de saúde de São Paulo, a cidade brasileira que ocupa o 10º lugar dentre as mais ricas do mundo inteiro. 

Já no primeiro semestre eu alertava a esquerda institucional de que seu desinteresse (para não dizer ojeriza) pelo impeachment do genocida, baseado no cálculo mesquinho de que será o candidato mais fácil de derrotar no 2º turno da eleição presidencial de 2022, poderá vir a ser um tiro pela culatra: o Brasil caminha a passos largos para uma convulsão social de consequências imprevisíveis.

Convulsão que, tudo leva a crer, vai chegar antes do pleito e poderá mandar o calendário eleitoral pelos ares. A contagem regressiva está em curso. (CL)

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

IMPORTANTE: PRÊMIO NOBEL EXPLICA POR QUE A ULTRADIREITA PROMOVE TANTO ALARMISMO CONTRA A VACINAÇÃO

paul krugman
VACINA OBRIGATÓRIA NÃO É UM
 ATAQUE À LIBERDADE DE ESCOLHA
O
surto da variante delta da Covid-19 parece estar recuando. 

Esta é uma boa notícia, e não só porque menos pessoas estão morrendo. O medo da infecção foi um dos motivos pelos quais a recuperação econômica atingiu um bolsão de ar no terceiro trimestre. Retomar a vida normal será um enorme alívio.

Mas a direita dos Estados Unidos está, na verdade, tentando manter a pandemia em curso. Falamos muito sobre desinformação nas redes sociais, parte da qual –surpresa!– parece ser o produto de desinformação russa.

No entanto, o papel dos conservadores de direita certamente foi muito mais importante. A rede de TV Fox News apresenta mensagens antivacina quase todos os dias. Governadores republicanos tentaram proibir a obrigatoriedade de vacinação não só por parte de governos municipais e distritos escolares, mas também por empresas privadas. Vários secretários de justiça republicanos moveram processos para deter as ordens federais de vacinação.

A razão dada para toda essa atividade é que se trata de proteger a liberdade. Na realidade, embora haja vários motivos para a resistência à vacina, a política é um motor importante da agitação. 

Uma campanha de vacinação bem sucedida poderia significar um governo Biden de sucesso, e a direita está determinada a evitar isto, não importa quantas mortes evitáveis resultem da sabotagem à vacina (o grifo é meu, CL). Vale notar que a Fox tem uma política de vacinação muito rígida para seus funcionários.

No entanto, a tese contra a vacinação obrigatória, por mais hipócrita que seja, precisa ser respondida por seus méritos. 

Eu, pelo menos, raramente tenho visto a tese sobre o direito de recusar a vacinação totalmente explicada, embora dificilmente se pudesse encontrar melhor exemplo do que a vacinação contra Covid-19, se alguém quisesse descrever uma situação hipotética em que os argumentos pela liberdade de opção não se aplicam. E acho que vale a pena explicar exatamente por quê.

Primeiro, a opção pessoal é válida, desde que não prejudique outras pessoas. Eu posso criticar a qualidade da sua manutenção doméstica, mas o problema é seu; por outro lado, a liberdade não inclui o direito de jogar lixo na rua.

E ficar sem vacina durante uma pandemia realmente prejudica outras pessoas, e é por isso que as escolas, em especial, exigem a vacinação contra muitas doenças há várias gerações. As pessoas não vacinadas têm propensão muito maior a contrair o coronavírus e, portanto, potencialmente infectar outras, do que as que foram vacinadas; também há certa evidência de que, quando indivíduos vacinados são infectados, eles têm menor propensão (do que os não vacinados) a infectar outros.

Incidentalmente, o fato de haver infecções invasoras em algumas pessoas que já foram vacinadas reforça, na verdade, a tese da obrigatoriedade, porque significa que mesmo as que já receberam o imunizante enfrentam certo risco por parte daquelas que se recusam a tomá-lo.

E o dano causado aos outros ao recusar a vacina vai além de um risco maior de contrair a doença. Os não vacinados são muito mais propensos a precisar de internação hospitalar que os vacinados, o que significa que sobrecarregam o sistema de saúde. 

Eles também impõem custos financeiros ao público em geral, porque, diante da prevalência de seguros de saúde públicos e privados, suas contas hospitalares acabam sendo amplamente pagas pela população como um todo.

A vacinação, portanto, deve ser considerada um dever público, e não uma opção pessoal. 

Mas haveria um forte argumento a favor da promoção pública de vacinas mesmo que quiséssemos ignorar o dano que os não vacinados impõem aos outros e olhar apenas o aspecto da escolha pessoal. Pois essa não é uma área em que se pode confiar que as pessoas façam boas escolhas.

A medicina, caso você não tenha percebido, é um assunto complexo e difícil. Como consequência, é uma área onde é má ideia deixar as pessoas totalmente à vontade. 

O clamor por tratamentos não comprovados, como hidroxicloroquina ou ivermectina, nos lembra por que precisamos que os médicos sejam licenciados e os medicamentos aprovados, em vez de deixar que o público decida quem é qualificado e qual medicação é segura e eficaz.

Por isso você deve se perguntar por que alguém consideraria uma boa ideia quando o secretário de saúde da Flórida aconselhou as pessoas a não dar muita importância aos conselhos médicos sobre vacinas e, em vez disto, confiarem em sua intuição e sensibilidade.

Finalmente, a área mais polêmica em toda essa discussão envolve a exigência de vacina e máscara nas escolas. E nessa área os adversários da obrigatoriedade não estão tomando decisões para si mesmos, e sim para seus filhos, que têm direitos próprios e não são simplesmente propriedade dos pais.
Hoje, a lei e a tradição nos Estados Unidos dão aos pais grande margem de decisão, especialmente quando estão envolvidas crenças religiosas, mas não o poder absoluto sobre a vida de seus filhos. 

Os adultos não podem escolher não dar a seus filhos a educação básica; não podem recusar tratamento médico para salvar suas vidas. É por isso que temos há muito tempo obrigatoriedade de vacinação para várias doenças infantis. E a mesma lógica se aplica à Covid-19.

Mais uma vez, não sei quantas pessoas realmente acreditam que a exigência de vacina é um ataque à liberdade. Mas, em todo caso, é importante compreender que a liberdade não é motivo para impedir um potencial milagre médico. (por Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia)

terça-feira, 28 de setembro de 2021

A MIL DIAS SOBREVIVEMOS, SABE-SE LÁ COMO; MAIS 457 NÃO SUPORTAREMOS!

Meu caro Kotscho, estou plenamente de acordo com as suas contundentes críticas (vide aqui) ao pior presidente do Brasil em todos os tempos, só tendo a ressalvar que houve algum comedimento de sua parte ao ater-se aos falseados dados oficiais referentes às mortes por covid-19, quando já está mais do que provado que, aos quase 600 mil óbitos oficializados, existe algo entre 200 mil e 300 mil que foram escamoteados de diversas maneiras.

E é um exagero pintar um cenário paradisíaco do Brasil pré-Bozo, pois já se tratava de um país com desigualdade econômica extrema e uma qualidade de vida imensamente inferior à que seria obrigatória para aquela "que já foi a sexta economia mundial".

Da mesma forma, a destruição do país começou muito antes do genocida, tendo desembestado quando Dilma Rousseff tentou fazer o desenvolvimento econômico pegar no tranco à custa de investimentos estatais, numa volta ao passado arcaico  nacional-desenvolvimentista que foi um completo fiasco e incubou a recessão que acabaria levando de roldão o seu segundo mandato e pavimentando o terreno para a volta da extrema-direita ao poder.
Concordo com e, inclusive, acho pouco o que você aponta como desastroso nos mil dias do 
Capitão Pinel. 

Mas, se não tivermos clareza quanto a tudo de errado que aconteceu antes, jamais conseguiremos compreender por que as grandes massas assistiram indiferentes à derrubada da Dilma e à prisão do Lula. 

Isso quem explica sou eu: foi porque, mesmo tendo nascido com a promessa de contribuir para o fim da exploração do homem pelo homem, já na sua primeira década de existência o PT partiu para a desideologização e caça às bruxas (quer dizer, às tendências de esquerda...), arquivando a luta de classes e colocando todas as suas fichas nas ilusões democratico-burguesas, na conciliação de classe e numa impossível
 
humanização do capitalismo.

Sua parceria com os grandes capitalistas foi totalmente desequilibrada, pois o PT exerceu um poder político subalterno, recebendo apenas algumas migalhas a mais da mesa dos ricaços para distribuir às massas e, em troca, levou a culpa pelos males infligidos aos explorados, que acentuam-se cada vez mais nesta etapa agônica do capitalismo.  
Temos mesmo de cerrar fileiras pelos rápido afastamento do Bozo (independentemente de suas promessas de que desistirá de botar fogo no circo, as quais nada mais são do que a admissão de sua impotência, jamais significando uma implausível regeneração...) e instauração dos processos a que ele, seus filhos e seus cúmplices têm de responder, pelo morticínio, destruição e corrupção sem precedentes que causaram.

Mas, nada de voltarmos ao que já era muito insatisfatório antes e o seria mais ainda agora! 

É, claro, verdadeiramente impossível outro governo vir a ser tão ruim a ponto igualar os mil dias do palhaço assassino. 

Mas, não podemos esquecer: tudo que o Lula e a Dilma deixaram de fazer ao abandonarem nossas bandeiras combativas foi o que, levando o povo a descrer daquela esquerda domesticada que estava no poder, possibilitou ao serial killer fazer tudo que fez na tentativa de instalar uma miniatura de 4º Reich no Brasil. (por Celso Lungaretti)

E ELES AINDA TÊM CORAGEM DE COMEMORAR ESTES MIL DIAS DE HORROR, DOR E MORTE!

Esta semana, lamento registrar, o governo de Jair Bolsonaro completa mil dias de destruição do país, das instituições e da nossa imagem no mundo. 

O pior é que ainda faltam 457 dias para este pesadelo acabar.  

Para onde se olha, só encontramos escombros daquela que já foi a sexta economia mundial, com pleno emprego aqui dentro e respeitada lá fora, em todos os fóruns internacionais, um país que saiu do Mapa da Fome e foi pioneiro na defesa do Meio Ambiente, reduzindo as queimadas e o desmatamento. 

Hoje, o Brasil está pegando fogo e passando fome, como mostraram as reportagens publicadas no UOL neste final de semana sobre as famílias que recolhem restos de comida no lixo e ossos nos açougues. 

Falta água nas torneiras e comida nos pratos, enquanto a Amazônia é ocupada, com apoio do governo, por pecuaristas passando a boiada, sojicultores, garimpeiros e outros trogloditas invadindo reservas indígenas. 

Foram mil dias de horror, ira e morte, os piores dias da vida da imensa maioria dos brasileiros, inclusive dos devotos da seita bolsonarista que ainda apoiam o mito e morrerão abraçados com ele. 

Duvido que exista um único brasileiro capaz de apontar algo de positivo, um só projeto criado pelo governo federal neste período (o Bolsa Família, agora com outro nome, já existia antes), para nos dar a esperança de uma vida melhor. 

Só os militares e o mercado financeiro não podem reclamar, com seus privilégios mantidos e ampliados em todas as reformas. 

Ainda não viramos a Venezuela, a nossa bandeira não é vermelha (só na conta de luz), mas é muito pior. Estamos cada vez mais parecidos com o Afeganistão dos talibãs, com as milícias soltas nas ruas, cada vez mais armadas. 
Nestes malditos mil dias, nos tornamos um país pária, temido pelo mundo civilizado e ridicularizado na imprensa mundial. 

É nesse cenário de desolação, tristeza e dor das quase 600 mil famílias que choram seus mortos na pandemia, que este governo da necropolítica tem a coragem de programar uma semana de comemorações para os mil dias de governo. E a lista de inaugurações de obras para festejar a data é a maior prova da inércia e desmazelo da administração federal, da falta de políticas públicas e de um programa de governo. 

Só para se ter uma ideia das ações coordenadas por todo o país esta semana, para recuperar a popularidade do presidente, a festa começa nesta terça-feira (28) com a entrega de 200 unidades habitacionais em Maceió, nas Alagoas. Repito: duzentas!

De lá, a comitiva presidencial segue no mesmo dia para Teixeira de Freitas, na Bahia, onde Bolsonaro e ministros vão entregar 5,4 km de duplicação da BR-116 e mais 5 km da BR-101. Dá para acreditar que baterão bumbo para inaugurar 10 km de asfalto num país onde as estradas estão apodrecendo por falta de manutenção? 

Na quarta-feira, eles vão até Boa Vista, em Roraima, para inaugurar a Usina Termelétrica de Jaguatirica, no momento em que o país corre o risco de um apagão federal de energia, por falta de planejamento e incúria dos setores responsáveis. 

E assim segue a procissão até sexta-feira, quando a comitiva presidencial chega a Maringá, no Paraná, para inaugurar a reforma do aeroporto da cidade, reduto do líder do governo, Ricardo Barros, e do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, bolsonarista de primeira hora que ficou pelo caminho e hoje ganha a vida nos Estados Unidos. 

Reforma de aeroporto? E isso é coisa para presidente ir lá inaugurar? Não poderia ser o prefeito? 

Com certeza, vão gastar mais dinheiro nessas viagens do que nas obras, em plena campanha pela reeleição, paga com verbas públicas. 

Para quem já viajou até São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, só para inaugurar uma ponte de madeira de 20 metros de comprimento, construída pelo Exército, tudo é motivo de festa. 

Mas é isso tudo que o governo tem para apresentar, depois de mil dias de mandato, num país de 212 milhões de habitantes, assolados pelo desemprego e pela fome, sem nenhum plano de recuperação econômica para o pós-pandemia? Por falar nisso, que fim levou o super ministro Paulo Guedes com seu Posto Ipiranga? 

Recolhido a um silêncio obsequioso, depois da Declaração à Nação escrita por Michel Temer, Bolsonaro não ataca mais diariamente o Supremo, o Congresso e a imprensa, desistiu do voto impresso (até rimou!) e até da cloroquina, e agora quer mimetizar Juscelino Kubitschek, inaugurando obras. 

Se não fosse tudo tão trágico, seria apenas patético, ridículo. Mais de seis décadas atrás, Juscelino rasgou milhares de quilômetros de estradas de norte a sul, industrializou o país, fez o Brasil sentir orgulho do Brasil e, ainda por cima, inaugurou Brasília, dançando uma valsa. 

Vão comemorar o quê, agora?, ainda que mal me pergunte, ao ver tantas famílias vivendo nas calçadas e sob os viadutos, sem esperanças de melhorar de vida, a indústria nacional em coma, tantas lojas fechadas, a educação e a saúde entregues a sacripantas e o Ministério da Defesa (de quem?) nas mãos de um general terrivelmente bolsonarista. 

Nem o mais criativo roteirista da 
Globo seria capaz de escrever este enredo para uma série de ficção de horror sobre a destruição de um grande país, em tão pouco tempo. Que me perdoem minha filha e meu genro. 

Bolsonaro conseguiu tornar isso real. 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)
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