Os versos acima são da canção tropicalista Domingo, mas caem muito bem para o momento atual.
Quase seis décadas se passaram e as notícias, inclusive as de horrores dantescos, continuam se repetindo sem cessar. Estamos condenados ao eterno retorno? Ao trem fantasma?
Agora assistimos à nova temporada de extermínio perpetrado pelos Estados Unidos e Israel, que continuam seguindo fielmente os passos de Hitler.
Dos EUA eu não esperava algo diferente, mas os israelitas traem sua própria história (vide aqui): sofreram o Holocausto no século passado e agora o impõem aos países árabes.
Israel é o quarto Reich e os Estados Unidos em nada mudaram desde que despejaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, talvez o pior crime de guerra da história da humanidade.
A única novidade que talvez vejamos será a extinção da Organização das Nações Unidas, por haver se tornado uma despesa inútil: existe para evitar genocídios, mas nunca consegue impor o respeito às práticas civilizadas por parte dos arrogantes estadunidenses e israelitas.
Não comentarei as novas agressões covardes e sanguinárias a nações muito mais fracas. São iguais a todas que as antecederam, também impunes. De que adianta as deplorarmos se nada de concreto resulta?!
Fazem enorme falta as brigadas de voluntários estrangeiros que foram combater os fascistas na guerra civil espanhola. Os novos assírios (o povo mais cruel de todos os tempos) mataram inclusive nossas esperanças e nossa disposição de lutar por causas justas. (por Celso Lungaretti)
O que se depreende do trágico apoio de 57% dos moradores da capital e da região metropolitana do Rio de Janeiro à carnificina promovida pelo governador Cláudio Castro?
Simplesmente que o PT falhou por completo naquela que deveria agora estar sendo a sua principal tarefa: conscientizar a população de que a civilização é melhor do que a barbárie.
Não, o PT abandonou o povaréu ao proselitismo desumano de evangélicos, defensores do empreendedorismo e da meritocracia, saudosos da ditadura militar, etc.
Não se ocupou mais de propor soluções igualitárias e compassivas para as aflições dos excluídos, dos humilhados e dos ofendidos.
Tornou-se um partido que só existe para disputar eleições e depois governar com um tiquinho maior de benefícios para os coitadezas, umas migalhas a mais caídas da mesa dos opulentos sendo distribuídas para os famintos.
Então, como não vai mais onde o povo está para lutar ao lado dele contra as injustiças sociais, deixou que o fascismo passasse a fazer a cabeça dos proletários e dos lúmpens. O resultado é o péssimo Congresso que está aí, forçando o Lula a comprar a aprovação legislativa de cada uma de suas medidas mais importantes; ele finge que governa enquanto mal consegue disfarçar a sua impotência.
E que ninguém se surpreenda se a direita retomar a presidência no ano que vem; ela é a favorita disparada.
Até mesmo se massacres cada vez mais chocantes se tornarem a única forma de combate ao crime organizado: enquanto o povo aplaudir, sempre haverá Cláudios Castros fornecendo-lhe o sangue pelo qual anseia.
E enquanto puder tirar proveito disto, a direita continuará defendendo o governador matador, inclusive os ditos católicos e ditos evangélicos, que mandam às favas o quinto mandamento cristão: "Não matarás". (por Celso Lungaretti)
Obalanço do tarifaço com que Donald Trump tentou coagir a Justiça brasileira a indultar o genocida e golpista Jair Bolsonaro é inequívoco: foi um formidável tiro no pé, concebido às pressas e executado de forma grotesca..
Comprometeu até a mais remota possibilidade de ressurreição política do agonizante bolsonarismo e ofereceu numa bandeja a oportunidade de ouro para o Lula sair das cordas e recuperar pelo menos parte do prestígio perdido.
Tantos comentaristas da internet estão batendo na tecla acima que não vejo necessidade de alongar-me no inventário das cinzas. Os farsantes simplesmente escancararam para os brasileiros que de patriotas não têm nada, pois exortaram seus seguidores a prejudicarem de diversas formas o Brasil e o povo brasileiro, maximizando os danos daúltima loucura do Donald Trump (a do Mel Brooks pelo menos era engraçada, mas esta agora do aprendiz de barbárie não passa de desgraçada...).
Tive a intuição do que iria acontecer e cantei a bola com um mês de antecedência no post A ultradireita produz muito estrago quando chega ao poder, mas nele não se eterniza por ser autofágica (cliqueaquipara abrir).
Nele recordei alguns episódios nas quais os erros crassos dos ultradireitistas botaram a perder situações que lhes eram muito favoráveis, como:
--a decisão do Hitler de, na última guerra mundial, abrir a segunda frente na Europa, quando vinha acumulando vitórias e conquistas numa sucessão impressionante. Se consolidasse o que conquistara ao invés de arriscar-se a uma reviravolta no enorme território e no inverno glacial da União Soviética, a História do mundo teria sido outra;
--a decisão temerária do Mussolini de aliar-se a Hitler no conflito mundial que já se desenhava, quando seu fascismo, sem os excessos chocantes do nazismo alemão, não despertava repúdio equiparável;
--a adoção da sabotagem vacinal por parte de Jair Bolsonaro durante a pandemia, verdadeiro absurdo no atual estágio do conhecimento científico, portanto uma pirraça inconsequente que abriu os olhos para os poderosos do capitalismo sobre o trem fantasma ao qual estavam dando sustentação política mas tendia a lhes causar grandes prejuízos econômicos em função da insegurança que promovia.
Eu poderia também haver citado o caso dos integralistas de Plínio Salgado, que tinham perspectivas as mais favoráveis possíveis depois de ajudarem o governo de Vargas a derrotar a Intentona Comunista, mas foram com muita sede ao pote, tentando assenhorar-se sozinhos do poder e sendo derrotados. pelo ditador de São Borja. Ou seja, desperdiçaram a vitória e colheram uma derrota definitiva, pois dali em diante sua influência foi definhando cada vez mais.
Quanto ao próprio Bolsonaro, as condições ideais para o seu projeto de autogolpe estavam dadas em 2019, quando ainda não sofrera o desgaste do poder, mas ele não ousou tentar.
Depois, encaminhou-se três vezes em tal direção (nos Dias da Pátria de 2021 e de 2022, depois no 08.01.2023), com as chances de êxito sempre diminuindo.
Quando finalmente foi pra cabeça, o fez no pior cenário possível, depois de derrotado na eleição presidencial, o que deixou sua virada de mesa com aspecto repulsivo (o uso das armas para tentar obter o que as urnas lhe haviam negado).
E ainda por cima teve paúra de comandar pessoalmente o putsch, preferindo manter-se a salvo do outro lado do oceano, enquanto seu desnorteado gado barbarizava a Praça dos Três Poderes.
Então, nada existe a estranharmos na forma autofágica como o tio Donald lhe haja tentado dar uma mãozinha, sem perceber que estava é entregando-lhe uma âncora que o arrastava para o fundo do mar.
Tantos atos falhos parecem indicar que há um componente de autopunição na ultradireita, como se percebesse que seus projetos insanos se chocam com tudo que há de mais nobre e digno na existência humana, daí não merecerem dar certo mas sim floparem a um passo da vitória.
Podemos até pensar na crença antiga de que todo homem, mesmo o mais degradado, ainda conservaria resquícios de um senso inato de justiça.
Tal convicção, que era atribuída erradamente a Aristóteles, permeia várias religiões. Quem sabe se os Hitleres, Trumps e Bolsonaros intimamente não suspeitaram de estarem agindo como verdadeiros demônios? (por Celso Lungaretti)
Durante a pandemia de covid 19, quando Jair Bolsonaro tudo fazia para convencer os brasileiros a priorizarem a salvação dos seus empregos assumindo riscos maiores de morrerem sufocados, eu e toda a esquerda consequente nos posicionamos com firmeza a favor da manutenção rigorosa do distanciamento social.
Mesmo os mais extremados devotos do capitalismo tinham dificuldade para justificar que grana valesse mais do que vida.
Então, ciente de que algumas das mais respeitadas instituições científicas mundiais estimavam que a sabotagem vacinal do Bolsonaro, ao retardar a imunização e dispersar esforços e recursos com óbvios placebos, elevaram o número de mortes evitáveis mas não evitadas em uns 400 mil brasileiros, desde sempre sustentei que o maior dos crimes por ele cometidos foi ogenocídio(não há outra palavra para tal aberração) de pobres, excluídos, idosos e outros vulneráveis.
Infelizmente, ospodres Poderesoptaram por, na prática, considerar que símbolos vandalizados em palácios vazios num domingo qualquer constituíam agressão maior à democracia do que o total de assassinatos cometidos pela última ditadura militar brasileira em 21 anos de arbítrio. Então, a primeira prisão do responsável maior pelo genocídio tende a ser decretada por golpismo e não pela matança.
Como os trâmites judiciais se encaminham para o inevitável encarceramento do Bolsonaro ainda em 2025, a ordem dos fatores pode, desta vez, ter alterado o produto: o comentarista político Josias de Souza, em Trump ajeita cenário de fuga para um pedido de asilo de Bolsonaro, interpreta o pontapé verbal dado pelo presidente dos EUA na soberania brasileira como um preparativo para colocá-lo a salvo antes que o coloquemos atrás das grades.
Afinal, foi exatamente a opção adotada por Bolsonaro quando parecia prestes a ser preso e enfurnou-se por dois dias na embaixada da Hungria. E a fuga será muito mais tentadora para ele com a perspectiva de passar os próximos anos em Miami ao invés de Budapeste.
Mais: Josias acrescenta que, em tal hipótese, Lula não poderia negar salvo-conduto para Bolsonaro escafeder-se, pois, tendo enviado um jato da FAB para resgatar a ex-primeira-dama do Peru, "condenada em seu país a 15 anos de cadeia por corrupção", ficaria exposto a uma tempestade de críticas.
Faz sentido. Mas, se tal abominação consumar-se, será como se Hitler tivesse escapado de morrer nas ruínas de Berlim depois de todos os horrores que causou e ficasse dançando sobre os túmulos das estimadas 7,4 milhões de pessoas cujas mortes decorreram de suas decisões. (por Celso Lungaretti)
Trechos selecionados e editados do artigoPensar após Gaza, do Vladimir Safatle
Genocídio ocorre todas as vezes em que o vínculo orgânico de populações ao genos, ao que nos é comum, é negada.
Quando o comandante das forças armadas israelense diz que do outro lado há animais humanos, ele expressa, de forma pedagógica, intenções genocidárias.
[É este também o caso quando, por exemplo]:
— o presidente de Israel diz não haver diferença entre civis e combatentes e depois submete toda a população palestina a punições coletivas;
— ministros [minoritários] do governo de Israel afirmam ser plausível o uso de bombas nucleares contra Gaza e não têm outra punição que o simples afastamento de reuniões ministeriais futuras;
— descobrimos planos de deslocamento em massa dos palestinos para o Egito; ou
— a ministra da Igualdade Social e Empoderamento Feminino afirma ter "orgulho das ruínas de Gaza" e que daqui há 80 anos todos os bebês possam contar a seus netos sobre o que os judeus fizeram lá.
[Em tais situações], estamos não apenas diante de intenções genocidárias, mas de uma das declarações mais sórdidas e intoleráveis de culto a violência que se possa imaginar. Isso é sim uma expressão clara e imperdoável de prática genocidária. Nada disso provocou sequer a pressão de tirar esses indivíduos do governo.
Genocídio não é algo ligado a algum número absoluto de mortes, não há um número que começa a valer por genocídio.
Ele diz respeito a uma forma específica de ação de Estado no apagamento dos corpos, na desumanização da dor de populações, na profanação de sua memória, no silenciamento do luto público que retiram tais populações de seu pertencimento ao genos.
E de nada adianta utilizar a teoria espúria do escudo humano nesse contexto, um clássico do colonialismo contra a violência dos colonizados.
Mesmo aceitando, para efeitos de argumentação, que um grupo de luta armada tomasse uma população como refém e a usasse como escudo, isso não dá a ninguém o direito de ignorar essa mesma população e tratá-la objetivamente como cúmplice ou como alguém cuja morte é um mero efeito colateral.
Até segunda ordem, ainda não inventaram o direito de massacre.
O filósofo Vladimir Safatle é bem intencionado e consegue dissecar corretamente o passado, nem tanto o presente e às vezes tropeça nas elucubrações sobre o futuro.
Eu, que como jornalista sempre me esforcei para tornar acessível ao leitor comum o blablablá empolado e pretensioso que é marca registrada da corporação acadêmica, não canso de me surpreender quando tantos se prostram a obviedades embaladas em papel para presente chique, como as que constam do artigo (aqui reproduzido) que o Safatle escreveu para a Ilustríssima da Folha de S. Paulo, em resposta aos que criticaram seu último livro.
Para não perdermos tempo, antecipo que concordo com as análises abaixo, que eu mesmo já fazia há bom tempo, só que expondo-as em linguagem mais simples:
— a crise do subprime, em 2008, revelou que o capitalismo se aproxima inexoravelmente do fim e perdeu a capacidade de tornar a existência minimamente aceitável para contingentes humanos cada vez maiores (comparação minha: a época atual lembra muito a iminência da queda do Império Romano, pois há um número cada vez maior de bárbaros cercando-nos e as fronteiras dia a dia se tornam mais inseguras);
— face a isto, a ilusão reformista de que o capitalismo ainda se domesticaria ruiu por terra, o centro político sucumbe aos extremismos e as massas desesperadas despejam sua fúria sobre quem representa o stablishment;
— então, a esquerda institucional, que ora se apoia no centro para resistir às investidas da extrema-direita realmente morreu e só falta enterrar, pois, para obter vitórias momentâneas, sacrifica o desfecho da guerra, associando-se sua imagem àquilo que as massas mais desprezam (as fotos do Lula, pequenino e cheio de si, abraçando o imponente Artur Lira, quase me fazem vomitar!).
Quais as conclusões que podemos derivar de tais constatações?
A primeira é que Hebert Marcuse estava certíssimo no longínquo ano de 1964, quando em seu Ideologia da Sociedade Industrial previu que o consumismo e a lavagem cerebral da indústria cultural dariam um golpe de morte na esperança de irmos conscientizando aos poucos as massas para a revolução.
Isto só funciona para quem ainda não foi mesmerizado e engolido pelo sistema. Sessenta anos depois fica claro que nos tornamos minoritários e é a partir daí que precisamos buscar formas de sobrevivermos politicamente, pois verdadeiros revolucionários não se deitam e esperam a morte chegar, lutam até o fim.
[Provavelmente isto não mudaria de forma decisiva o rumo dos acontecimentos, mas a obsessão do Lula em esvaziar a esquerda combativa e apostar todas as fichas petistas na conquista do poder ilusório conferido pelas urnas, desmobilizando a militância no vácuo entre uma eleição e outra, foi o principal erro de uma carreira repleta deles até a borda.]
E eis que, quando finalmente estamos prestes a nos ver livres do arquivilão Bolsonaro, percebemos que o golpe de misericórdia nessa direita que quer restabelecer, piorado, o capitalismo selvagem, continuará longe de ter sido dado.
Alguém logo sucederá o palhaço assassino e, provavelmente não sendo maluco nem amarelão como o antecessor, deverá cumprir seu papel sem tanto estardalhaço mas com eficácia bem maior.
Por que este pessimismo? Porque, desde o último ano em que a evolução do PIB brasileiro foi compatível com as necessidades de nosso país (2010, com 7,53%), enfileiramos desempenhos entre razoáveis e sofríveis, então o crescimento de 2,9% em 2023 ficou muito longe de representar o desafogo que a propaganda petista tenta nos impingir. Estávamos afundando com água até o queixo e agora o nível desceu para o pescoço. É motivo para espocarmos champanhe?
Isto depois da saída de um presidente mentecapto sob quem os investidores não tinham a mais remota segurança para seus negócios e a posse do presidente conservador cuja afirmação mais emblemática sobre política econômica foi a de que os banqueiros nunca lucraram tanto quanto no seu governo.
No início de 2023, eu previa um PIB de pelo menos 6%; não chegou nem à metade. Então, é compreensível o atual desencanto com o Lula3 e permanece a tendência de a agroindústria consolidar-se como o polo dinâmico da economia brasileira, alavancando a escalada política direitista.
Com Bolsonaro varrido definitivamente da cena política (sua pena de prisão tende a ser bem longa, tal o volume de provas e depoimentos acumulados contra ele como golpista, afora o segundo ato que ainda virá, quando for apurada sua responsabilidade no extermínio em massa de brasileiros durante a pandemia!), é bem capaz de a direita se civilizar, passando a exercer uma dominação sem tamanhas maluquices e estridências. Elas não serão mais necessárias.
No entanto, ainda que tocado com luvas de pelica, o projeto dessa gente para o Brasil continuará sendo o mesmo: impor-nos a superexploração, dando um fim às ilusões de conciliação de classes e revivendo o anticomunismo grosseiro dos tempos da guerra fria. [Alô, Malafaia, é contigo que estou falando!]
E é aqui que deixo de estar em sintonia com o Safatle, pois o que ele propõe como resposta da esquerda aos desafios atuais são:
— platitudes retóricas de quem não tem um caminho das pedras para indicar ("Nossa tarefa seria criar o que ainda não existe, usando nossa imaginação política para identificar experiências onde elas estão e trazê-las para a constituição de um modelo");
— ou que equivalem ao uso de estilingues para matar elefantes ("construção de processos de democracia direta, dinâmicas de autogestão e ocupação de fábricas, lutas contra modelos extrativistas", etc.).
Ocorre que, como o próprio Safatle afirma, "nunca as crises do capitalismo se demonstraram tão claramente imbrincadas num sistema de crises conexas: crise ecológica, política, social, econômica, demográfica, psíquica e epistêmica".
É exatamente a simultaneidade entre tais crises e a perspectiva de que, pela via da sinergia, elas se alimentem e alavanquem mutuamente, que torna a situação atual mais ameaçadora do que qualquer outra que a humanidade já enfrentou.
Para ficarmos apenas no que já morde nossos calcanhares:
— tudo indica que uma depressão econômica muito pior que a Grande Depressão do século passado se aproxima a passos largos;
— todas as previsões dos expertos sobre o avanço do aquecimento global e das alterações climáticas têm sido ultrapassadas; e
— abominações como Donald Trump e Vladimir Putin revivem nossos piores temores de guerras nucleares capazes de dizimar a espécie humana.
Já pensaram no que acontecerá com a humanidade enfrentando ameaças tão terríveis ao mesmo tempo?
Concluindo: desde meados do século passado, quando caiu para a esquerda a ficha de que o proletariado industrial não será, de jeito nenhum, o sujeito de uma revolução nos moldes marxistas, várias tentativas de manter em pé as convicções antigas foram tentadas, em vão.
Primeiro foi afirmarem que a aristocracia operária realmente se deixara cooptar pelo capitalismo, mas o peão de fábrica continuava empunhando a bandeira vermelha. Mas, cadê o peão de fábrica que estava aqui? A tecnologia poupadora de mão-de-obra comeu.
Depois, houve quem proclamasse que o papel outrora atribuído aos operários industriais seria cumprido pelos assalariados de forma geral. Sem chance: são dispersos, não têm os mesmos interesses comuns e muitos deles já caíram na arapuca de se tornarem pessoas jurídicas e/ou tentam decolar sozinhos pela via do empreendedorismo, vendo os iguais como competidores a serem superados na luta inglória por um lugar ao sol .
Marcuse sonhou com os marginalizados pelo sistema e os que dele se apartavam por escolha própria personificando, unidos, a esperança que restava. Mas, o exército da contracultura só durou até os EUA retirarem seus cowboys do Sudeste asiático e países próximos.
O saudoso Jacob Gorender colocava suas fichas no pessoal das ONGs, que, entretanto, nunca foi o titã Atlas, que tinha força para carregar o céu nas costas. E por aí vai.
Então, é por não sabermos com quem poderemos contar para comandar a revolução necessária que não conseguimos sequer definir uma estratégia viável para recuperarmos o terreno perdido nas últimas décadas.
E não nos ajuda o estado de espírito das massas, que, embrutecidas, querem mais é catarse, não soluções. Então, as fanfarronices desastrosas da extrema-direita lhes servem de compensação por terem sido conduzidos à insignificância e à impotência, sem sequer saberem identificar os verdadeiros inimigos e sem ânimo nem ousadia para reagir contra eles.
E, como nosso compromisso é conduzirmos a humanidade a um estágio superior de civilização, não a fazermos regredir à Idade das Trevas, não podemos disputar espaço com os bufões ultradireitistas em tal palco dantesco. Dai aos bárbaros o que é dos bárbaros...
Os que tentamos reconstruir a verdadeira esquerda nos deparamos com o que dela resta: voltou a um estágio tão embrionário que os voos mais altos são impensáveis em curto e médio prazos. Mas, algo ainda podemos definir, sim:
— temos de acumular forças com todo tipo de atividades que possamos desenvolver na contramão do sistema sem, contudo, partirmos desde já para os confrontos decisivos, pois não os conseguiremos vencer (o que não implica, contudo, deixarmos de responder às ações inimigas com reações de igual contundência, pois se apanharmos quietos, jamais inflamaremos as novas gerações, deixando-as entregues à insanidade dos motoqueiros fantasmas da ultradireita);
— precisamos formar militantes capazes de aproveitar as janelas revolucionárias que tendem a existir cada vez mais nestes estertores do capitalismo. Pequenos contingentes combativos, disciplinados e cientes do que estão fazendo, podem ter peso decisivo em situações caóticas como as que virão doravante. Quem não é o maior, precisa tornar-se o melhor.
Encerro com um tema para reflexão: podemos dizer que a extrema-direita é revolucionária, se ela apenas conquista o poder para dele ser logo desalojada (já que tudo que propõe é insustentável e desperta imensa rejeição quando colocado em prática, de forma que ela acaba servindo apenas para reforçar a dominação burguesa em determinadas circunstâncias, não para substitui-la)?
No sentido marxista, não! Para o velho barbudo, uma revolução ocorria quando se dava uma ruptura com a velha ordem política, social e econômica, sendo, no seu lugar, estabelecidos novos padrões de relações sociais.
Mas, a ultradireita do século 21 nada estabelece de duradouro, apenas destrói um estágio menos execrável da dominação burguesa, abrindo caminho para outro, de desumanidade extremada. De hora em hora, o capitalismo praticado no Brasil e no mundo piora.
Atribuir dignidade revolucionária aos badernaços histriônicos dos Trumps e Bolsonaros, que têm mais a ver com entropia e niilismo, parece-me só uma provocação de mau gosto.
É a camiseta da seleção principal que dá vexame nas eliminatórias ou da que fracassou no Pré-Olímpico?
A montanha pariu um rato. A manifestação dominical na avenida Paulista convocada por Jair Bolsonaro não passou exatamente, como a batizei tão logo ele a anunciou, de uma Micareta da Paúra do Xilindró.
Laçou algumas centenas de milhares de zumbificados para uma ridícula tentativa de convencer parlamentares e/ou o Supremo Tribunal de Federal de que merece ser anistiado da enxurrada de crimes que cometeu.
Chegou ao cúmulo de simular compaixão pelos inocentes inúteis que estão presos por tentarem dar um golpe de Estado em proveito dele!
Depois de os lançar ao arremedo de putsch de 08.01.2003 enquanto se mantinha a um oceano de distância preservando a pessoa no mundo por quem mais se preocupa (ele mesmo), agora os utiliza no sentido de angariar simpatias para uma anistia a... ele mesmo!
Não percebe que os quatro anos do seu circo dos horrores permitiram aos brasileiros com um mínimo de raciocínio crítico conhecerem exatamente com quem estão lidando. Quanto aos que ainda ilude, não são sequer relevantes. Trata-se da poeira que o vento carrega na direção para a qual sopra, como o lumpemproletariado de que Hitler serviu-se para sua escalada ao poder.
No 7 de setembro de 2021, após ter convocado o golpe e refugado, Bolsonaro foi sentar no colo do Michel Temer
Só que hoje a situação é outra e a chance que Bolsonaro perdeu no início de seu governo, único momento no qual poderia mesmo ter desfechado um autogolpe vitorioso (mas sem condições para sustentar-se em médio prazo), não voltará jamais para os seus braços.
Desmoralizou-se como um golpista amarelão, que três vezes agendou a virada de mesa e nas três vezes pipocou (refugou nos Dias da Pátria de 2021 e 2022, depois foi esconder-se na Dineylândia em 2023), o que é fatal para quem se aventura a liderar hordas de extrema-direita.
Entre aqueles debiloides que idolatram o machismo mais truculento e exibicionista, bundões são descartados.
Mas, apostando sempre na imbecilidade de seus seguidores, ele os convocou para a montagem do cenário de sua súplica pela anistia. Mostrou novamente de que matéria gelatinosa é feito.
Engana os zumbificados, mas a extrema-direita já discute quem o sucederá à frente do movimento, com o Tarcísio de Freitas como o candidato mais provável ao trono.
Anistia? Após deixar tantas digitais nas armas dos crimes?
No exato momento em que as portas da cela se fecharem com ele dentro, Bolsonaro se tornará carta fora do baralho, deixando apenas a lembrança de ter sido nosso pior presidente de todos os tempos e o que mais brasileiros exterminou (com sua sabotagem insana ao combate científico à covid 19).
De todos os envolvidos no putsch flopado, ele é o que menos merece escapar da devida punição.
E, se sua impunidade depender da manifestação deste domingo (25), não a obterá, porque longe de demonstração de força, o que vimos foi uma constrangedora admissão de fraqueza. (por Celso Lungaretti)
"O fascismo é uma forma de crise terrorista da dominação capitalista, uma tentativa de perpetuá-la por meio de métodos bárbaros e de uma ideologia delirante. No entanto, a crise social e ecológica que assola o sistema mundial capitalista tardio é muito mais profunda do que a crise económica global desencadeada em 1929.
Tornou-se impossível resolver as contradições e a crise do capital mediante um novo modelo de acumulação que absorva massas de trabalho lucrativamente. Portanto, só pode haver um prolongamento da crise, não uma solução para ela."(Tomasz Konicz)
Há um evidente e infeliz crescimento da direita que pode ser comprovado pela eleição, aqui e alhures, de candidatos com pautas retrógradas que há alguns anos seria digna de repulsa coletiva. Cabe, portanto, uma análise de por que tais estrovengas conseguirem respaldo popular.
A direita liberal, reacionária às transformações sociais e conservadora nos costumes, quer um estado mínimo que sirva apenas para manter as instituições que sustentam sua dominação, perpetuando uma ordem política que mantém, sufocada pelos impostos, uma população já exaurida por uma relação social subtrativa do tempo-trabalho-valor dos trabalhadores abstratos, assalariados (os quais morrem nas filas do bem intencionado SUS, eternamente desprovidos de recursos para darem às mães grávidas e à sua família a assistência médica de que necessitam).
Considera a homossexualidade como uma doença ou um pecado diante de Deus e nega ou expulsa seus filhos homoafetivos de casa como se fossem possuídos pelo demônio e indignos do convívio familiar.
Mas aplaude e vota em quem hipocritamente diz ser defensor da família mas muda de esposa a cada ciclo de idade como forma de manter o viço da juventude de suas parcerias.
A qual fuhrer será que eles estão saudando? Ao Bozo?
[Enquanto isto, ele próprio, o dito Messias imbrochável, fenece longe das mães envelhecidas dos seus filhos, e sempre como fiel serviçal dos interesses mesquinhos da segregação socio-econômica).
Faz apologia das armas como contributo para a paz e condecora a ralé miliciana que explora o povo empobrecido, subjugando-o pelas armas.
Exalta a honestidade com o dinheiro público, mas não deixa de apropriar-se indebitamente de joias valiosas recebidas de nações estrangeiras como cortesias diplomáticas, além de comprar imóveis caros com dinheiro vivo, aumentando o patrimônio pessoal sem declaração ao imposto de renda.
Acha justo que o seu país pague juros diferenciados e caríssimos aos bancos e rentistas por sua dívida pública, mas quer retirar dos previdenciários e trabalhadores os direitos que a legislação lhes concede, sob o pretexto de manter saudáveis as contas públicas (Milei que o diga).
Considera que o governo de Israel tem o direito de retaliar a agressão do Hamas exterminando a população civil palestina da faixa de Gaza e destruindo prédios residenciais e instalações, ou submetendo-a a um êxodo forçado mundo afora, numa nova diáspora, a exemplo daquelas de que os próprios judeus foram vítimas no passado ancestral e na 2ª Guerra Mundial.
Não se peja de usar a mentira como instrumento de veiculação dos seus propósitos inconfessáveis, seja por fake news robotizadas ou pela deliberada deturpação da verdade, como quando atribuiu à esquerda (?) a frase somos mais populares que Jesus.
Em tal estridência, proferida por John Lennon numa entrevista de 1966, o somosse referia apenas aos Beatles. E agora, numa saída pela tangente para eximir-se de culpa pelo assassinato de Marielle Franco, Bolsonaro acaba de recorrer ao mesmo expediente.
Ele atribuiu ao miliciano Domingos Brazão (denunciado como mandante daquele duplo homicídio) envolvimento com a esquerda petista, porque o dito cujo apoiou Dilma numa eleição na qual tinha interesse eleitoral pessoal específico. E há quem engula a lorota: ouvi de um motorista por aplicativo a certeza de que fora o PT o culpado (!).
Seria infindável a citação das fake news da direita via internet; e, infelizmente, elas calam nas mentes mais ingênuas ou nas dos endinheirados que querem manter a todo custo os seus interesses mesquinhos.
Que os capitalistas e seus representantes políticos ajam assim é compreensível porque todo o edifício sob o qual acumulam privadamente a riqueza socialmente produzida se baseia na mentira segundo a qual é justa tal acumulação a partir da extração de mais-valia, que nada mais é senão a criminosa apropriação indébita do tempo-trabalho mensurado pelo valor (representado pela mercadoria dinheiro).
Mas, quem tenha um mínimo de senso de justiça e compreensão sobre a mecânica da escravização indireta do trabalho abstrato produtor de valor, não pode querer que haja uma forma política capaz de fazer justiça social a partir dos parâmetros da lógica autotélica do capital, dada a impossibilidade cientificamente comprovada de se fazer uma justa distribuição da riqueza abstrata pela subtração cumulativa pelo próprio capital de tudo que ele transforma em valor.
Historicamente a esquerda, que se diz combativa na luta contra a injustiça social e procura defender as categorias capitalistas trabalho e trabalhador, incensando-as como dignas de suas defesas, e não de suas superações, e que o faz a partir de formas políticas aparentemente contrárias aos dogmas e doutrinas da direita, mas conservando os princípios de produção social capitalista, termina sempre por se desgastar perante os mais humildades e oprimidos.
Os segmentos socialmente explorados pelo trabalho abstrato identificam nos políticos de direita e de esquerda como responsáveis pelo provimento de um equilíbrio social que seria representado por uma vida digna do ponto de vista do consumo, e capaz de dar a estes uma habitação confortável ao lado de boas e seguras infraestrutura sanitária e rodoviária, alimentação, saúde, segurança, educação, vestuário e transporte, além do necessário lazer.
Assim, por delegação política, não sabem que a forma política apenas obedece aos comandos de uma relação social capitalista, e que sob tais pressupostos é impossível de existir uma forma política capaz de lhes dar o provimento de suas legítimas aspirações.
Por entenderem (erroneamente) que a solução dos problemas sociais passa pelo bom e honesto gerenciamento político dos impostos que pagam, promovem o movimento pendular eleitoral cíclico entre propostas políticas de candidatos à direita e à esquerda, sem compreenderem que o problema está na preservação daquilo que eles mais almejam: o emprego assalariado que os explora.
Há uma revolta latente entre muitos jovens, principalmente entre os da periferia pobre das cidades socialmente cindidas, por verem seus pais trabalhadores e toda a sua família carentes de todos os confortos sociais de que necessitam.
Tal revolta se transforma numa agressividade e violência catártica, quando não deriva para a criminalidade do lucro fácil e perigoso do consumo e comércio das drogas, ou ainda, para a cantilena conformista religiosa pentecostal da promessa de uma maravilhosa vida celestial futura.
Não há um correto entendimento por parte da esquerda dessa questão, que apenas coloca nos ombros de uma pretensa governabilidade com sensibilidade humanista de seus partidos políticos a solução de problemas sociais que necessariamente passam pela negação de tudo que a própria esquerda politicamente correta tem defendido.
Já passou da hora de a esquerda rever os seus postulados infrutíferos, sob pena de assistirmos impotentes ao crescimento eleitoral da direita, mesmo que esta também se desgaste, mas em menor escala, a cada ciclo de administração política. (por Dalton Rosado)