domingo, 31 de janeiro de 2016

APOLLO NATALI: "JORNALISTA, PROFISSÃO PROIBIDA"

Congratulações ao Congresso Nacional pela seriedade com que tratou e aprovou, em 2009, próximo da unanimidade, a volta da obrigatoriedade do diploma de jornalismo! Foram 68 votos a 7 no primeiro turno e 60 a 4 no segundo. Quando a Câmara dos Deputados der sua aprovação, dizíamos, seremos jornalistas! 

Nunca vamos dizer isso. A Câmara não aprovou. Deixou esse assunto quieto para sempre. Jamais receberemos a graça de exercer com reconhecimento nossa profissão apaixonante, a certeza de um país melhor e de lambujem reconquistarmos nossos direitos trabalhistas, porque não voltaremos a ter a profissão regulamentada.

Desde a traumatizante decisão do Supremo Tribunal Federal que derrubou a  obrigatoriedade, venho manifestando em prosa e verso meu tormento com aquela postura cavernosa do tribunal maior do país. Meus mais aflitivos lamentos em defesa da obrigatoriedade do diploma de jornalismo traduziram-se no envio do total de 600 cartas abertas, a cada um dos 80 senadores, 520 deputados federais e às Mesas Diretoras do Senado e da Câmara.

O momento de respirar fundo chegou com a correspondência da secretária-chefe da Mesa do Senado Federal, Cláudia Lyra Nascimento, informando que minha manifestação (Carta aberta ao Senado Federal) havia sido juntada ao processado da proposta de Emenda à Constituição nº 33, de 2009, que acrescenta o artigo 220 à Constituição Federal para dispor sobre a exigência do diploma de curso superior de comunicação social, habilitação jornalismo, para o exercício da profissão de jornalista. A matéria, encaminhada à Casa Revisora da Câmara dos Deputados, voltaria a tramitar no Senado Federal caso fosse aprovada alguma modificação de mérito. A Câmara emudeceu.

É chocante o descaso com que o profissional jornalista vem sendo tratado pelos  defensores da não obrigatoriedade, à frente a Folha de S. Paulo --principalmente ela, que transformou em folclore a profissão de jornalista e em  crendice popular a sua pregação de que, para ser jornalista, basta o cidadão ser minimamente alfabetizado.

Dois pontos de vista venho ressaltando nas minhas defesas da obrigatoriedade. Um, é que os patrões acabaram por restaurar impunemente o regime de escravidão no trabalho do jornalista. Dois, a não obrigatoriedade torna perpétua a escuridão cultural e política de 389 anos de exploração e de escravidão no país.

Quando deixei o Grupo Estado, faz 24 anos, o jornalista já não era registrado em carteira em mídia nenhuma.  Em qualquer redação, 16 horas de trabalho por dia. Para ter emprego o profissional tinha de abrir firma própria, pagar impostos devidos a uma empresa comum, sem direito a férias, 13º, nem descanso semanal. Melhoria salarial, um pesadelo. Os dias de descanso eram determinados pelo patrão. Podiam ser no meio ou no fim da semana, e eram computados como férias. Trabalho de escravos, direitos de escravos.

De cambulhada, os patrões e seus cúmplices da empreitada arrasadora de dar sumiço a uma categoria profissional inteira, acabaram com a lei de imprensa, o que significa que se arrogam a tirania de injuriar, caluniar, ofender, impunemente. O auge da sufocação foi os opressores terem sepultado a regulamentação de uma profissão vital para a nação, exercida em cada quarteirão do país. A isso, regulamentação, seus comparsas chamam de corporativismo.

Para não dizer que não falou de flores, a Folha editou numa mesma página duas opiniões sobre o diploma de jornalismo. Uma, de seu dependente Clóvis Rossi, que garantiu um não, evidentemente. A outra, de um consagrado jornalista que equilibraria a balança dizendo sim, Jose Hamilton Ribeiro, 70 de profissão. O maior prejuízo da não obrigatoriedade recai sobre a Nação, disse José Hamilton Ribeiro.

O não de Clóvis Rossi é fundamentado em sua pregação de que o exercício do jornalismo depende apenas da conjugação de quatro verbos: ler, ouvir, ver e contar. Esse é a espécie do jornalista de cabresto ao gosto da Folha e seus assemelhados, sobressaltados com o diploma obrigatório e suas conseqüências para os seus encargos sociais, a principal delas é terem de respeitar as leis trabalhistas. 

Que reinado feliz o deles, cercados de jornalistas arregimentados como seus escravos, inaptos para enxergar com nitidez a nação e o mundo, exercer e defender direitos. Horizontes esses discutidos e descortinados numa boa faculdade, sim senhores! Jornalistas a contento de um Frias Filho? Não, ponto e basta. Frias Filho, o próprio, que já havia balbuciado irresponsavelmente: em 15 dias eu faço um jornalista. Até parece!

A jornalista gaúcha Bianca Legasse coletou há alguns anos um punhado de mostrengos de expressão em jornais cariocas como O Globo, O Dia, Jornal do Brasil, Extra. Mostrou assim o quanto é rasteiro e ridículo o jornalismo sem escola:
  • Apesar da meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem intensamente. 
  • A nova terapia traz esperanças a todos os que morrem de câncer a cada ano. 
  • Os sete artistas compõem um trio de talento. 
  • A vítima foi estrangulada a golpes de facão.
  • Os nossos leitores nos desculparão por esse erro indesculpável. 
  • No corredor do hospital psiquiátrico os doentes corriam como loucos. 
  • Ela contraiu a doença na época que ainda estava viva. 
  • Parece que ela foi morta pelo seu assassino.
  • O acidente foi no triste e célebre Retângulo das Bermudas. 
  • O velho reformado, antes de apertar o pescoço da mulher até a morte, se suicidou. 
  • A polícia e a justiça são as duas mãos de um mesmo braço. 
  • Depois de algum tempo, a água corrente foi instalada no cemitério, para satisfação dos habitantes. 
  • O aumento do desemprego foi de 0% em novembro.
  • O presidente de honra é um jovem septuagenário de 81 anos. 
  • Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio trata-se de um incêndio. 
  • Na chegada da polícia, o cadáver se encontrava rigorosamente imóvel.
  • O cadáver foi encontrado morto dentro do carro.
  • Prefeito de interior vai dormir bem e acorda morto.
Por Apollo Natali, que ingressara na imprensa antes do diploma de jornalista se tornar obrigatório e foi automaticamente isentado da nova exigência, à qual ficaram sujeitos apenas os iniciantes na profissão. Mesmo assim, depois de quase quatro décadas atuando nas redações, sentiu que havia uma lacuna em sua brilhante carreira e foi, sexagenário, fazer o curso de jornalismo, graduando-se com louvor aos 71 anos de idade.

sábado, 30 de janeiro de 2016

GUERRILHEIRO, PRESO POLÍTICO, COMPANHEIRO PRESIDENTE: ELE NÃO VENDEU SUA ALMA. E LAVOU A NOSSA!

"Tive de aguentar 14 anos em cana (…). Nas noites que me davam um 
colchão eu me sentia confortável. Aprendi que se você não 
pode ser feliz com poucas coisas, você não vai 
ser feliz com muitas coisas."
.
"Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade."

"O que é que chama a atenção mundial? Que vivo com pouco, numa casa simples, que ando num carrinho velho, essas são as notícias? Então este mundo está louco, porque o normal surpreende."
.
(frases do companheiro uruguaio José Mujica, que integrou o 
Movimento de Libertação Nacional - Tupamaros e nunca 
abdicou dos valores morais de um revolucionário, 
daí ter ficado conhecido como "o presidente 
mais pobre do mundo")

RUI MARTINS MATA A COBRA E MOSTRA O PAU: "DILMA SANCIONA LEI INCONSTITUCIONAL".

Dilma pecou e não tem perdão, por ter jogado às urtigas a laicidade do Estado brasileiro, que assegura a separação entre o Estado e as 
igrejas, herdada dos positivistas e maçons da República. E 
assim agiu para ganhar votos dos deputados
 evangélicos contra seu impeachment. 
O Brasil tem uma tradição republicana laica, vinda dos franceses positivistas e dos maçons, assegurando a separação entre a Igreja e o Estado, integrada na Constituição de 1891. Não há uma declaração expressa afirmando essa separação, mas na Declaração dos Direitos dos Cidadãos, a Constituição deixava explícito no artigo 72, que, modificado em 1926 passou a ser :
§ 7º Nenhum culto ou igreja gosará de subvenção official, nem terá relações de dependencia ou alliança com o Governo da União, ou o dos Estados. A representação diplomatica do Brasil junto à Santa Sé não implica violação deste principio.
A Constituição reconhecia direito igual para todas as religiões, que as pessoas seriam livres para seguir qualquer religião ou não ter religião, que o ensino público seria laico nas escolas públicas e que só seria reconhecido o casamento feito em cartório.

Entretanto, a Igreja Católica, na época dominante e sem  a concorrência atual dos evangélicos, considerou-se prejudicada inclusive na questão do casamento, que só teria valor quando celebrado em cartório civil. Por isso, se mobilizou quando da elaboração da reforma das Constituições de 1934 e 1937, através da Liga Eleitoral Católica que pleiteava não só a validade civil dos casamentos feitos diante dos padres, chamados casamentos religiosos, como a inscrição na lei da indissolubilidade do casamento, para assegurar sua posição contra o divórcio.

Assim, embora se tivesse mantido a separação da Igreja e do Estado, o clero católico obteve também o retorno do ensino religioso e a administração dos cemitérios também por associações religiosas. Isso implicou igualmente a introdução da palavra Deus no preâmbulo da Constituição, mas, como argumentou o STF, sem poder normativo, isto é, sem que o Estado teísta implicasse uma união com a Igreja, como ocorre em muitos países, inclusive Israel, e no Oriente Médio, que são Estados teocráticos.

A separação do Estado da Igreja é uma conquista da evolução da sociedade moderna, do fim dos regimes religiosos da Idade Média na Europa, nos quais os próprios reis dependiam para serem coroados e governar do reconhecimento e bençao do Vaticano, considerado representante do poder divino.

A Renascença, o Iluminismo e a ruptura da unidade dos cristãos com a Reforma provocando um pluralismo religioso cristão, as interpretações não religiosas, seculares ou laicas da vida e da sociedade levaram à necessidade de se separar o Estado, ao qual pertencem todos os cidadãos, da Igreja com seus diferentes tipos de fé, seus dogmas, credos, crenças convivendo com o mundo real mas a ele não pertencendo.

Se durante um século, desde a introdução por missionários, as denominações protestantes foram minoritárias, contentando-se em ter apenas alguns deputados estaduais em alguns Estados e não se interessando, por tradição calvinista ou luterana, em intervir na legislação do Estado (como tinham aconselhado Cristo e o apóstolo Paulo), esse quadro mudou nas últimas décadas.

O surto do evangelismo começou na América Central nos anos 60, onde a promessa bíblica de uma vida futura melhor, num céu ou paraíso e com vida eterna, fizeram as populações mais carentes darem mais crédito ao discurso de pregadores que aos dos políticos ou revolucionários. Mas, tão logo os pregadores perceberam o número de fiéis, obtido com suas promessas de autênticos vendedores de loteamentos no céu e promessas abstratas, decidiram ter uma parcela do poder temporal, numa espécie de ter o certo possível que o duvidoso.

O centenário da Guerra dos Canudos nos leva a estabelecer uma certa relação do evangelismo populista, diferente do protestantismo clássico mais intelectualizado, com os seguidores ingênuos e beatos de Antonio Conselheiro, que sem exclusão e perseguição, se tornaram pacíficos, passivos e de grande abnegação.

Ao mesmo tempo não se pode esquecer ser a religião um lenitivo contra as dores da pobreza, das injustiças e das depressões, funcionando o pregador como um psiquiatra dos pobres, ajudado pela magia dos cantos, das orações e da fé exercida em coletivo geradora de maior confiança.

Ao contrário das denominações protestantes, cujos pastores têm uma formação universitária teológica,os pregadores evangélicos se improvisam ao se sentirem chamados para levarem a palavra ao povo. Uma parte são aproveitadores da fé dos incautos e simples, mas outra parte age como tendo sido escolhida pelo deus com os quais imaginam ter uma relação mais próxima. E utilizando a sabedoria popular, mesmo sem formação escolar, conseguem encantar seus seguidores. As igrejas evangélicas garantem ser um canal direto de contato com deus.

Enquanto o protestantismo de origem européia e mesmo americana, como os presbiterianos, conseguem ser liberais e sempre foram pelo divórcio, aceitam o aborto e começam a aceitar o casamento homossexual e o exercício do pastorado por mulheres, o populismo evangélico e sua inspiração direta na Bíblia sem uma formação cultural, levam ao moralismo rígido de certa forma próximo do moralismo muçulmano, quando proíbem as mulheres de cortar o cabelo, de usar saias compridas e o véu na igreja, além de condenarem o homossexualismo  e a relação sexual antes do casamento.

O evangelismo chegou ao Brasil pouco antes do golpe militar e se expandiu com o apoio americano na compra de rádios e canais de televisão. Com uma Igreja Católica distante do povo com uma mensagem antiquada e condenando a teologia da libertação para continuar junto do poder, os evangélicos encontraram um campo fértil para sua mensagem de se poder falar com deus e se ganhar uma vida eterna, com o perdão dos pecados, embora não se saiba muito bem que pecados possam ter os pobres trabalhadores.

Próximos dos 30 % da população, hoje os pregadores evangélicos se enriqueceram e sentiram ter também poder políticos. Alguns se sentem chamados por deus, mas outros utilizam a crendice popular como alavanca para terem cargos públicos e viverem melhor.

Tudo isso poderia ser muito simples, se os líderes evangélicos ficassem só nos cânticos dos salmos e hinos e nas prédicas para seus seguidores serem bons e abnegados. Mas não ficaram e hoje têm parlamentares e políticos decididos a colocar nas nossas leis e práticas o que imaginam ser da vontade de deus. E o Brasil já sente o risco de ter leis reacionárias para punir os homossexuais e as mulheres que abortam.

A Igreja Católica que sempre desfrutou do poder no Brasil, tendo apoiado o golpe dem 1964, namorar a possibilidade de ter uma Concordata com o Vaticano, como ocorre na Argentina (clero igualmente reacionário) com seus bispos sendo dignatários do Estado. Os evangélicos alimentam o projeto de as igrejas poderem fazer propostas ao governo ou parlamento.

E é nesse contexto que a presidente Dilma decide agradar os evangélicos sem desagradar os católicos, usando de seu cargo de dirigente de um país laico para decretar uma data para pregação do Evangelho, se esquecendo de que nem todos os brasileiros são cristãos ou religiosos.

Por ironia, a data escolhida, nesse gesto anti-laico, é o 31 de outubro –data  do primeiro protesto de Martinho Lutero contra as bulas papais e a venda das indulgências mas, ao mesmo tempo, a data da festa céltica  pagã de Halloween levada aos EUA pelos irlandeses, onde ficou muito popular com suas caveiras de abóboras, hoje comercializada, mas considerada pelos evangélicos como festa satânica.

Na sua incrível capacidade de errar, nossa presidente violou nossa tradição laica e querendo agradar aos evangélicos, que a fizeram em 2010 recuar depois de ter se declarado favorável ao aborto, não vetou uma lei levada ao Congresso em 2009 pelo deputado Neucimar Fraga, ex-prefeito de Vila Velha, no Espírito Santo. Depois de aprovada pela Câmara, a lei foi aprovada em 2015 pelo Senado com o apoio dos lobistas evangélicos.

A lei 13.246, que se esperava ser vetada por ser inconstitucional num país laico, foi sancionada na surdina, dia 12 de janeiro, pela presidente Dilma, numa tentativa de escapar do impeachment com o apoio dos deputados evangélicos.

Será que a OAB vai deixar passar esse atentado à laicidade do Estado brasileiro?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

PARA PROTEGER REINALDO AZEVEDO, OMBUDSMAN DA "FOLHA" FALTA COM O DEVER, IGNORA LEITORES QUEIXOSOS E DESRESPEITA CIDADÃOS IDOSOS.

Reinaldo Azevedo: pego na mentira.
Há exatas duas semanas a Folha de S. Paulo publicou uma coluna de Reinaldo Azevedo na qual, para satanizar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (o que ele e a veja fazem dia sim, outro também, há anos), mentiu descaradamente sobre o desfecho do Caso Battisti.

Após sustentar que Lula se consideraria "o inimputável da República", Azevedo foi mais além em suas invencionices manipulatórias: 
"Vai ver isso decorre daquela maioria excêntrica formada no STF, em 2009, que decidiu que o refúgio concedido a Cesare Battisti era ilegal, mas que cabia a Lula decidir se o terrorista ficaria ou não no Brasil. Ficou. Assim, os excêntricos de toga lhe concederam a licença única para decidir contra a lei".
No mesmo dia (15/01/2016), os três principais defensores de Battisti na batalha de opinião publica outrora travada escrevemos à ombudsman da Folha, Vera Guimarães Martins, pedindo um posicionamento do jornal com relação a quem utiliza suas páginas para falsear a História e insuflar campanhas de ódio.

Eu pedi à ombudsman que cumprisse a sua missão de defender as boas práticas jornalísticas, evitando que fosse estigmatizado um escritor já sexagenário, que está aqui em situação perfeitamente legal e leva vida produtiva e pacata em nosso país, tendo esposa e filho brasileiros. 
Cesare Battisti, hoje: um sexagenário pacato e produtivo.

E expliquei o que o Supremo Tribunal Federal realmente decidira, ao cabo de três longas e dramáticas sessões de julgamento, cujas três votações tiveram o mesmo placar de 5x4, atestando a complexidade do assunto que Azevedo pretendeu esgotar de forma tão leviana e superficial:
"1. anular a decisão do então ministro da Justiça Tarso Genro de conceder refúgio humanitário a Battisti, por considerar que os motivos alegados eram insuficientes para tanto;
2.     autorizar a extradição de Battisti, solicitada pela Itália;
3.   reafirmar a jurisprudência de que cabe ao presidente da República, como condutor das relações internacionais do País, a palavra final sobre pedidos de extradição. 
Foi, portanto, uma mentira cabeluda do Azevedo: Lula não decidiu 'contra a lei', apenas exerceu uma prerrogativa presidencial que sempre existiu em nossa tradição republicana. 
Azevedo também tenta vincular demagogicamente a terceira decisão à primeira, o que é uma ofensa à inteligência dos leitores da Folha. O refúgio humanitário foi anulado, mas isto apenas impedia Lula de o restabelecer. A decisão presidencial foi outra, a de não autorizar a extradição".
Para Dalmo Dallari, negar extradição foi "ato de soberania".
O valoroso jornalista Rui Martins solicitou que se publicasse algo "para retificar erro do colunista Reinaldo Azevedo, em nome da equidade e veracidade  na imprensa". E deu dois links para a ombudsman informar-se melhor sobre o assunto, em termos legais: um do respeitadíssimo site Consultor Jurídico e outro do maior jurista brasileiro vivo, Dalmo de Abreu Dallari. 

E Carlos Lungarzo, professor universitário, escritor e defensor histórico dos direitos humanos, depois de esmiuçar os aspectos jurídicos do caso, desabafou:
"A posição da Folha no caso Battisti é conhecida não apenas no Brasil, mas também no exterior, bem como suas interpretações do caso e suas fontes, nem sempre isentas. 
Entretanto, a matéria do colunista Reinaldo Azevedo excedeu tudo o que já lemos na Folha e mesmo em outros veículos..."
O que fez a ombudsman, diante de tais queixas consistentes, apresentadas por leitores e cidadãos respeitáveis, os três idosos, os três com um currículo inatacável como paladinos dos direitos humanos?
O passado condena: ajudando Médici a soprar as velinhas...

Nada, absolutamente nada. Nem publicou a retificação que se impunha, nem mesmo respondeu aos três e-mails. Foi uma ofensa inédita: todos os ombudsman anteriores achavam algo para dizer em tais situações, ainda que não passassem de platitudes ou desculpas esfarrapadas.

Ou seja, Vera Martins não cumpriu sua obrigação profissional, não se comportou com um mínimo de civilidade e nem mesmo levou em consideração a condição de idosos dos seus interlocutores. 

Ficou muito aquém de sua digna antecessora, Suzana Singer, que teve coragem de discordar da outorga de um espaço semanal para Reinaldo Azevedo fazer sua panfletagem ultradireitista, argumentando que no jornalismo impresso "espera-se mais argumento e menos estridência; mais substância, menos espuma; do contrário, a Folha estará apenas fazendo barulho e importando a selvageria que impera no ambiente conflagrado da internet".

Mas, só pessoas muito especiais ousam remar contra a corrente. E Reinaldo Azevedo parece ser exatamente o tipo de colunista que a Folha gosta de ter, tanto que acaba de admitir um filhote do dito cujo como colunista júnior no seu site.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

2015 FOI UM ANO TERRÍVEL PARA OS BRASILEIROS E ÓTIMO PARA O BRADESCO

Um ano de recessão, desemprego, perdas salariais, redução do poder aquisitivo, aflições e desespero: é como a grande maioria dos brasileiros lembrará de 2015.

O Bradesco, pelo contrário, terá recordações bem mais agradáveis: tratou-se do ano em que seu lucro líquido foi o segundo maior da história já registrado por um banco brasileiro com ações negociadas na Bolsa: R$ 17,1 bilhões.

Atrás apenas do Itaú Unibanco, que cravou R$ 20,2 bilhões em 2014. 

Acaba de trombetear sua proeza, indiferente ao efeito que causará nos que estão perdendo tudo, em meio à pior recessão das últimas décadas.

O que é o roubo de um banco comparado com fundar um? --indagou Bertold Brecht.

LULA SAIU DO ARMÁRIO: "EU SOU UM LIBERAL". NÃO DAVA PRA PERCEBER?

Estamos conversados: Adam Smith é o guru do Lula...
Antigamente o Lula se esquivava de revelar seu posicionamento ideológico, saindo pela tangente quando lhe perguntavam se era de esquerda ou direita: "Sou torneiro-mecânico", ele respondia. Sob aplausos entusiásticos da claque, como se enrolação fosse algo meritório e elogiável. 

Agora, tanta certeza tem de que a esquerda chapa-branca em circunstância nenhuma o recriminará, que se deu ao luxo de abrir o jogo, ao participar de um encontro com blogueiros afins na semana passada:
"A Dilma é muito mais à esquerda que eu. Ela tem uma formação ideológica mais consolidada. Eu sou um liberal… Veja, eu, na verdade, eu sou um cidadão muito pragmático e muito realista entre aquilo que eu sonho e aquilo que é a política real".
...e Milton Friedman o da Dilma.
O que os perspicazes já estávamos carecas de saber foi por ele expresso de forma tão cristalina que até os eternos auto-iludidos não têm mais desculpas para tergiversarem.

Trocando em miúdos, Lula acredita que a riqueza da nação deva continuar sendo gerada nos moldes atuais, mantendo-se a dominação burguesa, pois esta é a política real, enquanto o socialismo e a anarquia não passariam de sonhos.

Só me causou estranheza sua afirmação de que a Dilma está à esquerda dele, Lula.

Taí algo difícil de engolirmos. Será possível que ela ainda esteja à esquerda de alguém, se há um ano se tornou cristã nova do neoliberalismo, adepta da mesma política econômica adotada por Reagan, Thatcher e Pinochet?

Lula em pleno exercício da "política real"
Se, em vários episódios, ficou cabalmente demonstrado que o mais influente dos seus conselheiros atuais é Luís Carlos Trabuco, o presidente do Bradesco?

Se tornou-se amiga desde criancinha e só por problemas de segurança desistiu de ser madrinha de casamento da ruralista Kátia Abreu, figurinha carimbada do agronegócio?

Enfim, como desconheço e não me interesso pelas divisões no seio do liberalismo, deixo esta discussão para os liberais.

AS LIÇÕES MINISTRADAS À DILMA NA ESCOLINHA DO PROFESSOR ROTUNDO

Bajulado repulsivamente pela esquerda chapa branca quando dá declarações favoráveis à continuidade de Dilma Rousseff na Presidência, o ex mandachuva da economia na ditadura militar e signatário impune do AI-5 nem sempre se alinha com a retórica governista.

Em entrevista publicada n'O Globo desta 5ª feira (28), Delfim Netto disse inexistir "a menor dúvida" de que houve mesmo estelionato eleitoral na eleição de 2014. Além disto, deu alguns conselhos de amigo urso à presidente, pois, argumentou, com o impeachment "fora do radar", "temos que usar (sic!) a Dilma". [Fez-me lembrar o velho slogan do chá Matte Leão, use e abuse...]

E o que ele sugere? Simplesmente que Dilma confronte o PT para continuar impondo aos brasileiros medidas recessivas e antipopulares, coerentes com a opção neoliberal que fez em 2015. Leiam e constatem:
O que ela precisa fazer?
Todo mundo sabe que o sistema de aposentadoria viola as regras da aritmética. É um problema que vai ter que ser enfrentado. Em segundo, as vinculações são absurdas, incompreensíveis. Vinculação é estar num avião, ligar o piloto automático e esperar acabar a gasolina. Também não se pode manter tudo indexado ao salário mínimo. O quarto ponto é: nenhum empresa hoje sabe qual o seu passivo trabalhista. Porque a Justiça do Trabalho parte da hipótese de que todo trabalhador é hipossuficiente e todo empresário é ladrão. 
Mas o PT historicamente é contra essas medidas...             O PT pode ser contra. O PT não sabe regra de três. Se for necessário, [ela deve] dizer: “Nós vamos ensinar regra de três ao PT”. 
Ela teria que se colocar contra o PT?
Ela não vai se colocar contra o PT coisa nenhuma. Ela tem que se colocar a favor do Brasil. Se o PT for contra, ele que está contra o Brasil. Ou [Dilma] faz isso, ou morre.

'PEGA, MATA E COME!'

Lembrança inesquecível dos meus verdes anos é ter visto Maria Bethânia cantando "Carcará", com toda a contundência que a canção pedia. Aquele gritado "pega, mata e come!" impactava no âmago da nossa alma.

Era uma celebração da capacidade de resistência dos nordestinos, que aos trancos e barrancos iam sobrevivendo à miséria, à seca, à fome e à retirada forçada de sua terra natal para buscar esperança alhures.

Daí a citação que ela declamava no final da música:
"Em 1950 mais de dois milhões de nordestinos viviam fora dos seus estados natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí! 15% da Bahia!! 17% de Alagoas!!!"
Hoje são outros os retirantes: os que deixam países periféricos, devastados pela penúria e pelas guerras, indo bater na porta de prósperas nações europeias, que cada vez mais as fecham na cara desses coitados.

Eis dados chocantes alinhavados pela Folha de S. Paulo:
  • o fluxo de refugiados e imigrantes na Europa é o maior desde a 2ª Guerra Mundial;
  • 1.005.504 pessoas chegaram ilegalmente à Europa entre 1º de janeiro e 21 de dezembro de 2015;
  • o crescimento em relação ao mesmo período de 2014 foi de 365%;
  • 3.692 pessoas morreram ou desapareceram no caminho até o continente europeu. 
Pega, mata e come! 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O RENASCER DAS CINZAS E O HOMEM NOVO

A revolução, como a fênix, poderá renascer das cinzas.
“O anseio meu nunca mais vai ser só
Procura ser da forma mais precisa
O que preciso for
Pra convencer a toda gente
Que no amor e só no amor
Há de nascer o homem de amanhã”
(
Geraldo Vandré, Bonita
)

O ideário político dos contestadores de 1968 é pouco lembrado e menos ainda reverenciado, já que não convém aos que hoje confrontam, a partir de posições ortodoxas, o capitalismo e suas inúmeras mazelas (desigualdade social, ganância e competição exacerbadas, parasitismo, mau aproveitamento do potencial produtivo que hoje seria suficiente para proporcionar-se uma existência digna a cada habitante do planeta, danos ecológicos, etc.).

Nas barricadas parisienses, gritando slogans como “a imaginação no poder” e “é proibido proibir”, muitos estudantes erguiam as bandeiras negras do anarquismo, que marcara forte presença nos movimentos revolucionários do século 19, mas havia perdido terreno desde a vitória do bolchevismo em 1917.

A tentativa de construção do socialismo em países isolados e economicamente atrasados já se evidenciava desastrosa, por degenerar em totalitarismo. A URSS e seus satélites, bem como a China e Cuba, sacrificavam uma das principais bandeiras históricas das esquerdas, a liberdade, para priorizarem a outra, a igualdade.
 Revolução traída: o poder usurpado por uma nomenklatura.

E nem a esta última conseguiam ser totalmente fiéis. Propiciavam, sim, melhoras materiais significativas para os trabalhadores, mas nem de longe extinguiram os privilégios, tornando-os até mais afrontosos ao substituírem as antigas classes dominantes por odiosas nomenklaturas (as camadas dirigentes do partido único e as burocracias governamentais, que se interpenetravam e coincidiam na justificativa/imposição de seu status de mais iguais).

O desencanto dos jovens europeus com o socialismo real  se somou à constatação de que o proletariado industrial das nações prósperas se tornara baluarte, e não inimigo, do capitalismo. Seduzido pelos avanços econômicos que vinha obtendo, preferia tentar ampliá-los do que apostar suas fichas numa transformação radical da sociedade. Ou seja, face à célebre alternativa de Rosa Luxemburgo –reforma ou revolução?– os aristocratizados operários do 1º mundo optaram pela primeira, como Edouard Bernstein previra.

Em termos teóricos, o filósofo Herbert Marcuse já dissecara tanto o desvirtuamento do marxismo soviético quanto a transformação do capitalismo avançado num sistema impermeável à mudança, a partir da sedução do consumo, da eficiência tecnológica e da influência atordoante da indústria cultural, que estava engendrando um homem unidimensional (incapaz de exercer o pensamento crítico).
68 francês: primeiro ensaio de uma revolução de novo tipo.

Foi ele a grande inspiração dos jovens contestadores de 1968, mesmo porque praticamente augurara sua entrada em cena, assumindo o papel de vanguarda que o proletariado deixara vago.

Para Marcuse, somente os descontentes com a sociedade (pós) industrial –intelectuais, estudantes, boêmios, poetas, beatniks e demais outsiders– perceberiam seu totalitarismo intrínseco e seriam capazes de revoltar-se contra ela. Os demais, partícipes do sistema como produtores e consumidores, seguiriam mesmerizados por sua racionalidade perversa.

O diagnóstico de Marcuse acabaria sendo melancolicamente confirmado quando esses descontentes colocaram a revolução nas ruas de Paris e o proletariado lhes voltou as costas, preferindo arrancar pequenas concessões de De Gaulle do que apeá-lo do poder. O Partido Comunista Francês, quem diria, desempenhou papel decisivo na manutenção do status quo, ajudando a salvar o capitalismo na França.

Mas, o esmagamento das primaveras de Paris e de Praga não conteve o impulso dessa nova maré revolucionária, que continuou pipocando nos vários continentes, com especial destaque para a contracultura e o repúdio à Guerra do Vietnã por parte da juventude estadunidense.

Contestando a Guerra do Vietnã: as flores venceram o canhão.
Foi, principalmente, nos EUA que os novos anarquistas se lançaram à criação de comunidades urbanas e rurais para praticarem um novo estilo de vida, solidário e livre. Substituíam os antigos laços familiares pela comunhão grupal – ou, como diziam, tribal – e dividiam fraternalmente as tarefas relativas à sua sobrevivência, tal como sucedia nas colônias cecílias de outrora.

A ideia era a de irem expandindo a rede de territórios livres até que engolfassem toda a sociedade. Então, em vez de colocarem a tomada do poder como ponto-de-partida para as transformações sociais, deflagradas de cima para baixo, eles pretendiam expandir horizontalmente seu modelo, pelo exemplo e adesão voluntária (nunca pela coerção!), até que se tornasse dominante.

Acreditavam que, descaracterizando seus ideais para conquistarem os podres poderes, os revolucionários acabavam sendo mudados pelo mundo antes de conseguirem mudar o mundo. Então, era preciso que ambos os processos ocorressem simultaneamente: deveriam construir-se como homens novos à medida que fossem construindo a sociedade nova.
Veremos concretizada a profecia do filme Jonas?

Esse anarquismo renascido das cinzas e atualizado foi o último grande referencial revolucionário do nosso tempo, daí despertar até hoje a simpatia dos jovens que buscam a saída do inferno pamonha do capitalismo (uma definição antológica do Paulo Francis!) e a ojeriza daquela esquerda que ainda se restringe aos projetos de conquista do poder político.

A questão é se, como em outras circunstâncias históricas, a maré revolucionária será novamente retomada a partir do último ápice atingido (mesmo que com intervalo de décadas entre os dois ascensos).

Os artistas, antenas da raça, creem que sim. Desde o genial cineasta suíço Alain Tanner (Jonas, Que Terá 25 Anos no Ano 2000), para quem as vertentes e tendências de 1968 voltarão a confluir, reatando-se os fios da História; até nosso saudoso Raul Seixas, que nos aconselhava a tentarmos outra vez e tantas vezes quantas fossem necessárias, não dando ouvidos às pregações tendenciosas da mídia contra a geração das flores e das barricadas.

Esta digressão, que começou citando uma pungente canção de Vandré, merece ser encerrada com um desabafo, que talvez venha a se revelar profético, do bravo guerreiro Raulzito: “Todo jornal que eu leio/ Me diz que a gente já era/ Que já não é mais primavera/ Oh baby, oh baby,/ A gente ainda nem começou”.

O CANTOR QUE TERIA SIDO PUNIDO POR REVELAR OS MISTÉRIO DO ALÉM

Um relato que me impressionou na meninice: o do intérprete de uma composição sobre o pós-morte que realmente faleceu em seguida, vítima de um acidente improvável.

O povo dizia que o coitado teria sido punido por revelar os mistérios do além, recebendo o castigo de conhecer prematuramente a situação descrita na música.

Garimpando no Google, localizei o episódio.

O cantor se chamava Almir Ribeiro e morreu afogado aos 22 anos, quando já fazia considerável sucesso.

A música é o samba-canção "Onde estou?", de Hervê Cordovil e Vicente Leporace. Visivelmente inspirado no kardecismo, mostra um espírito desorientado, ainda ignorando o que lhe aconteceu mas já suspeitando da verdade (o verso final é "será que a morte abreviou os dias meus?"). O compacto simples que a incluía foi lançado cerca de dois anos antes de ele morrer.

Pelo sim, pelo não, dali em diante nenhum(a) outro(a) cantor(a) gravou ou interpretou esta música. Tornou-se tabu.

Encontrei no Youtube um trecho do filme Absolutamente certo (d. Anselmo Duarte, 1957) em que Almir Ribeiro canta a mórbida "Onde estou?". Vejam embaixo; sabendo o que depois lhe sucedeu, dá arrepios.   

Resolvi lembrar aqui este aspecto, digamos, premonitório,  porque não o encontrei em nenhum outro lugar. Qualquer dia virará filme.

POR QUE SUAMOS TANTO PARA LEVAR O PT À PRESIDÊNCIA? PARA A SAÚDE NÃO SER ENCARADA COM TAMANHO DESCASO.

Um artigo de Elio Gaspari
O PRESÉPIO DA
DOUTORA DILMA
O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social foi criado em 2003 e é composto por 90 membros. Para a reunião de amanhã (28/01), dois titulares tiveram que ser substituídos, pois Marcelo Odebrecht e José Carlos Bumlai estão na cadeia. Também estão trancados o ex-conselheiro João Vaccari Neto e José Dirceu, que assinou o ato de criação do organismo. 

É difícil imaginar outro grupo de noventa pessoas com semelhante desempenho. Para se ter uma ideia do que significa uma porcentagem de 2% de presos, vale lembrar que a taxa de brasileiros encarcerados para cada 100 habitantes é de 0,3%.

O Conselhão pretendia ser um foro de debates. Tornou-se um pastel de vento a serviço da propaganda de um governo cuja titular diz que "o Brasil não parou, nem vai parar". Os pibinhos e a recessão aconteceram no Burundi. 

É uma marquetagem tão inútil que, desde julho de 2014, a doutora Dilma não o convocava. Uma reunião de 88 pessoas serve para apenas fotografias de um consenso inexistente. A menos que se considere consenso o fato de estarem todas sentadas.

Quando o Conselho foi criado, nele estava a atriz Lucélia Santos. Foi substituída por Wagner Moura. Pelo lado dos empresários, lá estará Jorge Paulo Lemann. Certamente ele tem algo a dizer, mas da última vez que foi ao Planalto a doutora deu-lhe um chá de cadeira de mais de uma hora. 

Até aí pode-se pensar que tenha surgido algum imprevisto. O problema muda de figura quando se sabe que mandaram uma funcionária fazer-lhe sala e ela dirigiu-se a Lemann em inglês. Coube a ele explicar que foi criado nas ondas de Ipanema. O surfista do século passado tornou-se o homem mais rico do Brasil porque a AB InBev produz e exporta gestão, exatamente o que falta ao governo da doutora.

Ele acaba de anunciar que adiou o cumprimento da meta anunciada em novembro de visitar todos os domicílios do país até o fim deste mês para combater o mosquito do zika. Lorota. O que houve foi o colapso de uma promessa impossível de ser atingida. Na melhor das hipóteses foram a 15% das casas. 

Houve burocrata sugerindo que, para evitar o risco da microcefalia, as mulheres não engravidem. Como o mosquito está no Brasil há mais de um século, a providência extinguiria a população de Pindorama. Depois veio o ministro da Saúde, torcendo para que as jovens sejam infectadas pelo vírus antes da idade fértil, pois assim adquiririam imunidade.

Como Brasília comanda espetáculos, em dezembro a doutora assinou o Decreto 8.612, criando uma Sala Nacional de Coordenação e Controle para cuidar do mosquito. Ela funcionaria no Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres da Secretaria Nacional de Defesa Civil do Ministério da Integração Nacional. A sala mágica seria habitada por representantes de seis ministérios, dentro do Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia que por sua vez tem três eixos: "Mobilização e Combate ao Mosquito, Atendimento às Pessoas e Desenvolvimento Tecnológico".

Aí está a essência da gestão da doutora: havendo um problema (o mosquito), lança-se um plano de enfrentamento, cria-se uma sala de controle anexa a um centro de gerenciamento e daí em diante o assunto é dos outros. Se nada der certo, convoca-se uma reunião do Conselhão para mudar de assunto em busca do que o Planalto chama de "agenda positiva".

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

APOLLO NATALI: "QUEM É ESSE PADRE?".

No Brasil tudo é grande, menos os homens, disse o suiço Jean Louis Rodolphe Agassiz, naturalista do século 19, em tom de queixa pelo esquecimento e pouca atenção que os compatriotas brasileiros prestavam aos prodigiosos inventos do padre gaúcho Roberto Landell de Moura. 

Esquecimento e pouca atenção que perduram até hoje. Landell nasceu em Porto Alegre em 1861 e morreu aos 67 anos, em 1928. Chegou a monsenhor.

De parcos recursos, sem ajuda nem da Igreja, nem do Estado e muito menos de empresários, espremido em precários laboratórios ambulantes nas suas transferências de paróquias, o padre Landell de Moura inventou o rádio e o telégrafo sem fio antes de Marconi, o telefone com fio, o telefone sem fio. Foi precursor do telex , da TV, da fibra ótica.  Descobriu e fotografou a aura que envolve o corpo humano, 32 anos depois batizada pelos russos de efeito Kirlian. Vislumbrou as comunicações interplanetárias.

Desvendava a Criação com sua teoria sobre um fluído universal, “elemento sobre o qual atuam os agentes físicos, químicos ou biológicos, dando, sob sua ação, origem ao mineral, ao vegetal e ao animal”.

Ele registrou suas patentes nos Estados Unidos, mas delas nada auferiu. Suas invenções foram lá surrupiadas. Disse Landell: “Os americanos, decorridos 17 anos de prazo que marca a lei das patentes, puseram em execução prática as minhas teorias”.

Sempre reconhecida no mundo científico, foi dele a primeira transmissão de rádio a longa distância. A operação foi feita de um ponto no bairro de Santana até a Avenida Paulista, em São Paulo. Landell de Moura ficou com o mérito de ter inventado o rádio, Marconi ficou com a glória, diziam os amigos. No fim da vida relutava em falar de suas invenções,”coisas do passado” e “sobre as quais toda a gente mantém a mais absoluta ignorância”.

A história do monsenhor Roberto Landell de Moura, contada pelo jornalista Hamilton Almeida, é a saga do padre gaúcho, herói entre os inventores, que não usufruiu da glória e dos ganhos de que sempre foi merecedor (Padre Landell de Moura, um herói sem glória, 2006, 320 p., Record).

Landell tinha pouco mais de 30 anos quando, entre 1893 e 1894 (antes de Marconi, portanto!), começou suas experiências pioneiras de transmissão de voz a distância sem fios condutores. As numerosas invenções de sua autoria e a solitária batalha que travou para brindar a humanidade com passos gigantescos rumo ao progresso, nos fazem concluir que não é ele um inventor sem glória, e sim o Brasil que é um país sem glória. 
Uma petição corre por iniciativa de jornalistas paulistas para incluir a vida e a obra do padre gaúcho na grade curricular das escolas.Verdadeiramente sem glória são os governantes do Brasil chamado varonil,  necessitados de uma petição para despertarem dessa secular e desalentadora omissão.

Não recebeu apoio nenhum do governo brasileiro. O presidente Rodrigues Alves não levou a sério sua solicitação de 1904 para uma experiência de transmissão de voz entre dois navios da Marinha, distantes um do outro a partir da Baia de Guanabara.  O presidente não deu ouvidos aos sons e vozes que Landell de Moura há muito transmitia pelos ares. Preferiu importar tecnologia estrangeira, caríssima e prejudicada por falhas.

Acusado de bruxaria, foi ameaçado de excomunhão pela Igreja. Alguns consideravam seus feitos coisas do diabo. Nesse clima, uma multidão destruiu seu laboratório e seus aparelhos em Campinas, onde foi pároco. Nos Estados Unidos proibiram-no de rezar missa. Declaração de Landell ao New York Herald, em 1902: “Todos os meus amigos de educação e inteligência, dentro ou fora das ordens santas, olhavam as minhas teorias como contrarias à ciência”.   

Em meio a um universo de descrições técnicas sobre inventos, compreensíveis aos homens de ciência, Hamilton Almeida faz correr um rio de curiosidades que podem interessar ao público em geral.  

Bomba, bomba!!! Marconi não acendeu as luzes do Cristo Redentor, em 1931. Seu gênio falhou por azares meteorológicos. Técnicos improvisaram e salvaram a festa. Página 180 do livro.

O Imperador D.Pedro II tinha telefone no seu palácio. No Brasil ainda escravagista já prosperava a telefonia!

Antes de Marconi, o padre Landell de Moura apresentou em São Paulo seus inventos ao cônsul inglês Percy Lupton. Este era o tio de Charles Miller, introdutor do futebol no Brasil em 1895 e um dos fundadores do São Paulo Athletic Club, hoje Clube Atlético São Paulo (que nada tem a ver com o São Paulo Futebol Clube, um dos grandes paulistas).  

Landell sempre foi devoto de Nossa Senhora Aparecida, mesmo antes de ter sido proclamada a Padroeira do Brasil em 1928. Vidente, pesquisou o espiritismo, a telepatia, a visão à distância. Hipnólogo, fazia as pessoas dormir e realizava curas por meio da sugestão. Realizou longas seções de exorcismo em Mogi das Cruzes. Foi forçado a largar a paróquia porque suas ações davam credibilidade ao espiritismo.

Com pneumonia, tempo gelado, deu seu agasalho a um indigente. Também cedeu a um mendigo seus sapatos novos e voltou a calçar os velhos. Na área ao redor da igreja do Rosário, em Porto Alegre, reunia as prostituas para catequizá-las. Uma ocasião se desvencilhou da batina e saiu no soco com dois indivíduos. Dormia numa taboa tosca.      
Fazia as mulheres ficarem mais em casa do que na igreja para cuidarem melhor de seus maridos e filhos. Dizia que a Igreja tem muita coisa errada. Achava que os padres deveriam se casar, “pois são homens como os outros”. Publicou mil exemplares de uma carta de sábios antigos que falava da neurose dos dirigentes, das paixões, dos estigmas e taras da família.

A respeito da mulher, poetou:  “Mulher, quem és tu? És porventura, espírito ou matéria? És um anjo exaltado ou decaido? Mulher, quem tu és? És uma realidade tangível ou uma visão etérea? És a luz a quem eu busco ou as trevas das quais eu fujo? És a vida ou a morte? És a nossa consolação ou a nossa ruína e perdição no tempo e na eternidade?”.

Levava sempre consigo uma caixinha falante. A caixinha falava em italiano. Diziam que se comunicava com Marconi. Interrompeu uma missa para atender a um chamado de sua caixinha e anunciou o fato que os jornais confirmariam três dias depois: “ontem, à meia noite, estourou uma revolução na Itália de empregados que querem aumento de salários”.  Os coroinhas em Mogi das Cruzes mexiam na caixinha em seu quarto e Landell explodiu: "O que vocês estão reinando aí? Vocês estão falando com Marconi!"  

Alguns inventos de Landell de Moura, relatados por Hamilton Almeida:
  • Telauxiofono, a última palavra sobre telefonia com fio. Transmite a palavra com clareza e resolve o problema da telefonia ilimitada.  
  • Caleofono, em vez de tocar a campainha para chamar, faz ouvir som instrumental. 
  • Anematofono, telefone sem fio que tornava a telefonia nítida e segura, mesmo com intempéries. 
  • Teletiton, espécie de telegrafia fonética sem fio em que os interlocutores se comunicam sem serem ouvidos por outros. 
  • Edifono, depura o som, aparelho inseparável dos músicos, compositores e oradores.
  • Gouradphone, transmissão de voz sem fio, sem intervenção de microfone, sem aparelho de recepção, num raio em que os ouvintes são capazes de escutar a mensagem simplesmente com os seus órgãos naturais.
“Qual a distância que se pode alcançar com o Gouradphone?" – perguntaram-lhe certa vez.

"Praticamente o infinito!" 

Por Apollo Natali, jornalista e cronista. 

A SÃO PAULO QUE EU AMEI TINHA UM CINE ALIANÇA PERTINHO DE CASA

“Eu quero pulgas mil na geral, 
eu quero a geral.
Eu quero ouvir gargalhada geral
Quero um lugar para mim, pra você
Na matinê do cinema Olympia, 
do cinema Olympia”
(Cinema Olympia, Caetano Veloso)

Ao derrotarem Cartago na 3ª Guerra Púnica, os romanos fizeram a imponente rival sumir do mapa, literalmente: não só incendiaram e destruíram a cidade, como araram as terras com sal, para que nelas nada mais florescesse, nem se soubesse ao certo sua localização.

Quais seriam os sentimentos de um cartaginês sobrevivente, ao percorrer os sítios familiares e nada encontrar além do deserto?

Provavelmente, não muito diferentes dos meus. A São Paulo que ontem comemorou 462 anos não é mais a cidade que conheci e amei, tanto que, na esquina da rua Visconde de Inhomerim com a Madre de Deus, nem mesmo os escombros do Cine Aliança existem mais; o velho cortiço foi derrubado e substituído por um feio prédio comercial.

Não foi só um cinema que apagaram do mapa. São as melhores recordações da minha infância que deixaram de ancorar-se na realidade visível.

Logo, logo, nada mais restará das casas em que morei, das escolas nas quais estudei, dos cinemas, teatros, livrarias, campos de futebol, botecos e outros palcos de acontecimentos marcantes da minha existência.
Anúncio típico nos jornais de antigamente

Uma cidade diferente terá sido erguida sobre eles, como a alertar-me de que doravante me tornarei, cada vez mais, um estranho numa terra estranha.

É o destino dos que chegam a uma idade avançada: irem perdendo todas as referências do seu passado, até nada mais os prender à vida.

No meu caso, entretanto, a Morte não terá sua tarefa facilitada. Escrevo, logo existo. Se passarem rolos compressores sobre minhas lembranças, ainda assim as farei existirem no espaço virtual.

Então, enquanto o teclado continuar obediente ao meu comando, poderei relatar às novas gerações que existiu, p. ex., um cinema chamado Aliança, numa Mooca que era um bairro fabril de São Paulo, reduto da baixa classe média e de imigrantes italianos.

Tinha umas 400 poltronas na platéia, mais algumas dezenas no balcão e oito no topo, ao lado da sala de projeção, para convidados especiais.

Um detalhe pitoresco era a cortina, totalmente preenchida pela pequena publicidade dos comerciantes do bairro, dezenas de anúncios de diferentes tamanhos. Alguns podiam ser lidos com facilidade até da última fileira, outros nos obrigavam a forçar a vista.
O prédio do cine Aliança se tornou um feio cortiço...

Os anunciantes também bancavam um folhetinho entregue gratuitamente na bilheteria –e que logo sucumbiria à progressiva queda de receita dos cinemas.

Na década de 1950, quando eu era menino, o Aliança já enfrentava a concorrência da televisão. Mas, não eram muitas as famílias em condições de adquirirem aparelhos de TV; meu pai, contramestre de tecelagem, só conseguiu comprar o primeiro em 1963.

Enfim, o simpático pulgueiro ia  perdendo seu público a conta-gotas, mas implacavelmente.

Só lotava nas matinês de domingo, quando assistíamos aos filmes que nos inspiravam sonhos e brincadeiras pelo resto da semana. Eram dois, quase sempre bangue-bangues, comédias, fitas de ação e de monstros.

Entre um e outro, o filme-em-série, dividido num sem-número de episódios e sempre interrompido em momento culminante (canhestra tentativa de fidelizar o público infanto-juvenil), os trailers e as abomináveis resenhas noticiosas do Primo Carbonari, sempre recebidas com estrepitosas vaias.

Torcíamos pelos mocinhos, gritávamos, fazíamos bagunça, comíamos os doces que um funcionário vinha vender no intervalo, distribuídos num tabuleiro que ele carregava à altura da barriga.
...e hoje, reformado, está assim.

Além das ruas, que pertenciam a nós e não aos carros, os cinemas dominicais eram o espaço que tínhamos para ser crianças num mundo moldado para os adultos.

O Juizado de Menores fazia as vezes de bicho-papão para nós. Em todas as sessões, havia quem não atingira a idade obrigatória: 5 ou 10 anos. Cinemas de bairro permitiam o acesso, pois cada centavo era importante para assegurar sua sobrevivência. E mantinham uma troca de informações entre si, de forma que o primeiro visitado pela blitz do Juizado alertava os demais, evitando que fossem surpreendidos.

Meus pais gostavam de cinema e não tinham com quem me deixar, então negociavam com o gerente minha presença nas sessões noturnas do Aliança, mesmo quando os filmes eram proibidos até 14 ou 18 anos.

Na maioria das vezes, ficávamos na platéia. Quando o Juizado andava rigoroso, éramos encaminhados para o balcão ou mesmo para as tais poltronas ao lado da sala de projeção, que acabavam servindo também para burlar a fiscalização. Houve uma vez em que tivemos de sair antes do filme terminar, bem a tempo de não sermos surpreendidos pela chegada da viatura.

Não penso ter sofrido nenhum efeito nocivo ao assistir a filmes proibidos. Encarava tudo com a maior naturalidade. Só uma vez fiquei apavorado, com uma fita sobre maldição de faraó. Os arqueólogos começaram a retirar os trapos que envolviam a múmia e, sei lá por quê, não aguentei olhar para a tela.
Cine Belas Artes: o único que salvaram da extinção em Sampa. 

Meu mocinho predileto era o Randolph Scott. Fazia questão de ver todos os filmes dele. Muito tempo depois, fiquei sabendo que aquele machão de olhar de pedra das telas formava um casal com o Clark Gable na vida real.

Filmes como Cinema Paradiso e Splendor, ao reconstituírem esse passado, flagram o fascínio cinematográfico em pequenas cidades italianas, que tinham um único cinema, quase sempre na praça principal.

Já na Mooca de meio século atrás havia mais cinco (o Icaraí --depois Ouro Verde--, o Patriarca, o Moderno, o Safira e o Imperial) e outros tantos nos bairros próximos. Mesmo assim, um era sempre o especial, aquele com o qual mais nos identificávamos. O Aliança foi o meu Cinema Olympia.

Daí a tristeza com que acompanhei sua decadência. Certa vez, já na década de 1960, fiquei surpreso ao constatar que era o único espectador de uma sessão de sábado!

Depois, veio uma fase de filmes de nudismo, que despertaram algum interesse inicial, mas logo deixaram de dar boa bilheteria.

Aliança virou boliche para aproveitar a onda (passageira), depois voltou a ser cinema. Em vão. Já não tinha propriamente espectadores, só poucas e desinteressadas testemunhas.

A agonia terminou na década de 1970, quando o projetor foi apagado para sempre.

E a pá de cal veio no final da década passada, com a derrubada do pardieiro em que se amontoavam as famílias pobres de um bairro agora próspero... mas inóspito! [Uma Mooca esnobe, que briga com seu passad, a ponto de não querer lembrar que foi o bairro onde começou a primeira --e vitoriosa!-- grande greve brasileira, organizada por anarquistas em 1917!]

No entanto, o amor pelo cinema, despertado nas matinês do Aliança, me ficou para sempre. Bem como essa teimosia de querer que os sonhos e fantasias sejam inspirações para a vida, ajudando-nos a reencontrar a humanidade perdida.

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