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quinta-feira, 29 de julho de 2021

TRÊS ANOS SEM O APOLLO NATALI: AO MENOS ELE NÃO VIVEU PARA VER QUÃO ABOMINÁVEL O BRASIL SE TORNARIA...

Como diria o Caetano Veloso, o Apollo Natali nasceu em 1936, bem na barriga da miséria (o bairro da mãe do seu pai, a vovó do Bixiga), conforme contou numa crônica:

"Convivi com a italianada de um punhado de cortiços na fronteira entre o Brás e a Mooca, em São Paulo, nas ruas Coronel Cintra, rua da Mooca, Caetano Pinto, Carneiro Leão.  
Eu mesmo vivi 33 anos, desde bebê, num cortiço na Mooca, na rua Coronel Cintra, 129, habitado por 20 famílias de ruidosos italianos e suas briguentas crianças. Minha meninice lá foi marcada pela música Marechiare, pelo rádio de Tzi Terê e vozerio de Gino Bechi".
Depois, mudou-se para o bairro da avó materna, a vovó do mato, onde passava temporadas na meninice e onde passaria o resto dos seus anos:
"Vila Ré é o nome do bairro de subúrbio onde moro, na zona Leste paulistana... 
Quando eu era menino, tinha trem de verdade, puxado pela Maria Fumaça. Ia gente no telhado e em cima da lenha da locomotiva. Tempos livres aqueles. Viajava-se de janelas abertas nos vagões de madeira e muitos iam no trem sem pagar. O preço da passagem não aumentava nunca...  
Era tudo mato. Uma casinha aqui outra ali,  alguns índios, tanto tempo faz. Árvores para seis homens abraçar, tanto cheiro  de capim. Às cinco horas da tarde todo mundo se recolhia. Dava medo o escurecer sem ninguém".
Maria FumaçaCom certeza!
A família, imensa. "O vovô e a vovó do Bixiga tiveram 24 filhos. O vovô e a vovó do mato tiveram 17."

Naquele tempo os pais botavam os meninos para trabalhar desde muito cedo. E o Apollo, nas suas andanças pela cidade (se bem me lembro, fazia entregas de pequenos volumes), certa vez conheceu a velha redação de O Estado de S. Paulo na rua Major Quedinho. 

Ficou fascinado, até porque havia vendido jornais pelas ruas durante muito tempo (também fora engraxate). Com talento precoce para a escrita, decidiu que era aquilo que queria ser na vida.

Foi se aproximando, oferecendo serviço, mostrando textos. Deram-lhe algumas reportagens fáceis para o testarem. E foi ficando, quebrando galhos, preenchendo lacunas.

Acabou incorporado à equipe da edição de Esportes do Jornal da Tarde, que saía às segundas-feiras e era uma grande atração do então florescente vespertino. Mas sem registro, embora recebesse uma remuneração mensal. Coisas do capitalismo.

Pobretão, humilde, afável, dedicado, era o colega que todos tinham vontade de ajudar. E a oportunidade de efetivá-lo que surgiu era daquelas que ninguém recusaria: cobrir o circo da Fórmula 1, indo de país em país para descrever os preparativos de cada etapa, as provas em si, as coletivas no encerramento. 

Seria um presente dos céus para qualquer um, menos para o Apollo. A ideia de ficar longe dos pais e da família enquanto perambulava pelo mundo como um cigano o horrorizou. Deixou a chance passar.

Gostava mesmo é do batente de redação. Lembrava com orgulho de seu espírito de iniciativa quando as tropas do general golpista Olympio Mourão Filho começaram a se movimentar em direção ao Rio de Janeiro no funesto 31 de março de 1964. 
A sede antiga do Estadão

Foi o primeiro a ler o despacho do correspondente do Estadão em Juiz de Fora e, de imediato, se deu conta da importância da notícia: foi entregá-lo diretamente nas mãos do dr. Júlio [Mesquita, o patrão], avaliando que a urgência o autorizava a não respeitar os degraus hierárquicos.

Fundada a Agência Estado em 1970, finalmente se tornou jornalista com carteira assinada, fazendo exatamente o que queria e amava.

Mas, com o tempo iria caindo na real. Nem a pena movia montanhas amiúde, nem apenas o bom desempenho conduzia alguém sem protetores influentes ao topo da profissão.

Uns 17 anos depois, caiu-lhe outra ficha: a de que seu trabalho na sub-chefia (abaixo apenas do chefe da redação, Sircarlos Parra Cruz) lhe rendia apenas uma merreca a mais do que ganhavam os redatores comuns e o obrigava a esticar o expediente por várias horas que não lhe eram pagas.

Pediu aumento e, quando mesquinhamente o negaram, optou por abrir mão da sub-chefia e receber um pouco menos para ter muito mais tempo livre. Mas, não era a solução que almejara. Suas mágoas ainda eram grandes quando o conheci, em 1988.

Foi um caso de amor à primeira vista... pelos textos que escrevi no processo de seleção. Incumbido da escolha do melhor candidato, o Apollo decidiu por mim. E, quando houve resistências em função do meu passado guerrilheiro, ele (sem me conhecer) afiançou que isto não seria problema. Só vim a saber muito depois.

Tornamo-nos amigos, algo previsível em função das muitas afinidades que tínhamos, como jornalistas e como pessoas. Inclusive a de ele ser kardecista e eu haver passado uns seis anos da minha meninice frequentando um centro espírita com minha mãe. Então, mesmo tendo deixado as religiões de lado, eu entendia os papos dele sobre o espiritismo e podia trocar ideias com conhecimento de causa.
"de bem com a vida, espalhando boas vibrações"
Quando estava prestes a estrear A última tentação de Cristo, que causara muitas polêmicas pelo mundo, eu recebi convite duplo para a pré-estreia, pois continuava escrevendo sobre cinema para algumas revistas. 

Levei o Apollo e percebi que lhe deu enorme satisfação conhecer aquele círculo sofisticado e poder depois conversar com os colegas da redação sobre um filme que ainda não estava em cartaz e nenhum deles assistira. 

Era singela sua reação, um homem vivido, 15 anos mais velho do que eu, que se fascinava com aquilo que para mim virara rotina há muito tempo. Tal encantamento de menino, fui percebendo, era uma característica sua, daí estar quase sempre de bem com a vida, espalhando boas vibrações ao seu redor.

Já marchando para a aposentadoria, lá pelos seus 55 anos, tomou a temerária decisão de demitir-se para dar assistência ao pai que estava no final da vida. Disse-me que o velho era pesado e suas duas irmãs não aguentariam carregá-lo para o banheiro, além de ser uma situação constrangedora para as duas partes.

[Apesar de nunca lhes ter sobrado dinheiro, poderiam contratar um enfermeiro, claro. O que o Apollo queria, sobretudo, era dar amor e consolo ao pai nos meses finais. Talvez tenha evitado reconhecer isto por recear que soasse piegas.] 
Temer era secretário da Segurança no início dos '90

O FGTS foi suficiente para bancar o quase um ano que ele passou cumprindo, em tempo integral, o dever de bom filho.

Óbito consumado, já não havia emprego à sua espera na Agência Estado, nem em redação nenhuma. 

O máximo que conseguiu foram uns frilas encomendados pela assessoria de imprensa de um amigo e um tempinho trabalhando no serviço de imprensa da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, cujo titular era... o Michel Temer!

Não tinha prazer em falar desta última fase. Só me lembro de me haver contado com mais detalhes um único episódio. Certa vez, durante uma coletiva, um repórter aparentemente bêbado começou a interpelar o Temer de forma muito ofensiva. Quando a paciência do amigo da onça chegava ao fim e ele parecia prestes a recorrer aos seguranças, o Apollo interveio.

"Deixe, que eu resolvo a situação", disse baixinho ao Temer. E, com seu jeitão bondoso, convenceu o esquentadinho a ir tomar café com ele lá fora. 

Era como sempre agia quando os ânimos esquentavam na redação: um apaziguador, que permanecia equidistante das partes e ia de uma à outra para aparar arestas e facilitar a reaproximação.
De jornalista a quebra-galho; mas nada o derrubava
Depois de dois ou três anos tentando ainda sustentar-se como jornalista, curvou-se à evidência dos fatos. Já ouvira as desculpas dos muitos conhecidos e quem não o conhecia tendia a negar-lhe emprego por considerá-lo velho demais ou pela sua aparência humilde e roupas baratas. 

[Jornalistas da velha guarda esmerávamo-nos em conseguir furos eóu redigir textos cada vez melhores, não dando muita bola para trajes nem para certificações formais, o que nos fazia malvistos pelos selecionadores profissionais.

Lembro-me de um que me perguntou que prato eu escolheria num cardápio em inglês e, claro, acabou aprovando um concorrente à mesma vaga. Tratava-se de um colega que eu conhecia de outros carnavais e, tão bem vestido quanto bem falante, travava quando incumbido de textos urgentes e importantes. Já o Apollo e eu os tirávamos de letra...]

A falta de reconhecimento dos seus méritos não derrubava o Apollo; tocou a vida, trabalhando até como pedreiro, mecânico e corretor de imóveis. Enquanto as irmãs (ambas professoras, uma delas diretora de escola) estavam na ativa, viviam um pouco melhor. Quando elas se aposentaram, os três tiveram de apertar mais um pouco o cinto. Mas, seguiram adiante.
A formatura, no início de 2008

De quebra, Apollo realizou o antigo sonho de obter um diploma de jornalismo — que não lhe fora necessário para o exercício da profissão, pois nela já atuava quando o curso se tornou obrigatório para os ingressantes na carreira.

Mesmo sem esperança nenhuma de voltar ao jornalismo diário, passou quatro anos nas Faculdades São Judas Tadeu e, septuagenário, se graduou brilhantemente.

Remoçou uns cinco anos nesta fase. Dava-lhe imenso prazer iniciar os meninos (seus colegas) nas práticas e segredos da profissão. E familiarizou-se com a internet, passando a usar e-mails para espalhar seus textos entre as dezenas de jornalistas que conhecia.

Foi colaborador de blogs da jornalista carioca Ana Helena Tavares, como o Quem tem medo da democracia?depois, dos meus.

E andou bancando impressões baratas do seus textos, que entregava de graça para moradores de rua venderem. Uma pequena contribuição, mas a única que estava em condições de dar, para a subsistência dos excluídos.

Estaria bem melhor financeiramente não fosse a insensibilidade de burocracias kafkianas como a do INSS, que negou-lhe aposentadoria integral porque... ela própria perdeu (e admitiu ter perdido) as provas que o Apollo anexou ao processo no qual a pleiteava, relativas a quase uma década que trabalhou sem registro nas empresas do Grupo Estado

[Mesmo se o extravio tiver mesmo sido acidental, a aceitação desta tese abriria um precedente juridicamente aberrante, pois os reclamados poderiam dar sumiço em tudo que lhes causasse problemas...]
Uma burocracia kafkiana lhe
negou aposentadoria integral
Indignava-se, mas não perdia o sono, quando recebia más notícias sobre seu pleito; no dia seguinte, irradiava a costumeira alegria de viver. 

Não podia comprar roupas? Aceitava de bom grado as que um sobrinho dispensava por estar crescendo rapidamente. 

Sua lata velha lhe acarretaria multas se com ela trafegasse pela cidade? Passou a usá-la só no próprio bairro, até que nem para isto servia mais. Não tinha grana para comprar outro carro? O cartão de idoso lhe bastava...

Só superestimou sua resistência a doenças, até porque parecia imune a elas. Então, jamais se preocupou em ter um convênio de saúde, nem deixou os amigos e conhecidos saberem que não possuía nenhum. 

Octogenário, sem fazer exames periódicos, foi surpreendido por um câncer de medula que se alastrou rapidamente e o matou em três meses. 

O que mais ouvi dos presentes ao velório e ao enterro foi que só então perceberam, em toda sua extensão, a falta que o Apollo faria em suas vidas. Talvez porque, eles como eu, tínhamos a impressão de que estaria sempre ao lado, alegrando-se conosco nos bons momentos e ajudando-nos a superar os maus. 

Quando o caixão baixou à terra, nenhum de nós tinha a ilusão de que encontraria adiante quem cumprisse o mesmo papel. Era insubstituível. 
Enquanto o Apollo era vivo, nunca me ocorreu ter de explicar a quem não o conhecia por que, afinal, se tratava de uma pessoa tão diferente, exemplar de uma espécie quase extinta nos tristes tempos presentes.

Fui, infelizmente, obrigado a fazê-lo nos dias seguintes àquele devastador 30 de julho. E o que me veio à mente foi a lembrança de uma cena emocionante de Irmão Sol, irmã Lua (d. Franco Zeffirelli, 1972), quando o papa Inocêncio III muda a atitude da Igreja com relação a São Francisco de Assis, acolhendo-o e afirmando: "Em nossa obsessão com o pecado original, às vezes nos esquecemos da inocência original".

Não que se trate de um grande filme, longe disto. Mas é um trecho que impacta. Ademais, o despojamento e a frugalidade franciscana eram características marcantes do Apollo, um kardecista que talvez nem se desse conta disto, pois jamais me disse uma palavra sequer sobre os santos católicos.
Insuspeitadas afinidades com São Francisco de Assis

Outra afinidade: sua visão religiosa era bela e pura, como se constata na crônica (vide aqui) em que comparou o nosso sistema solar a uma árvore de natal e se referiu ao Cristo como um pixotinho judeu aniversariante.

Foi um dos melhores cronistas que algum dia li. Não fazia má figura como repórter, noticiarista, redator, editorialista e editor, mas nas crônicas se superava. 

Percebia-se nele um homem que sempre convivera com as pessoas simples, conhecia profundamente a realidade das ruas, a tudo observando com olhar compassivo, solidário à dor dos humildes e sempre disposto a ajudá-los no limite de suas forças e recursos.

Por suas crônicas desfilam personagens inesquecíveis:
  • intelectual de rua Cláudio Bongiovani (vide aqui e na foto abaixo), químico formado, que perdeu a  família num acidente automobilístico e passou a vagar sem rumo, até se tornar o personagem exótico que hoje vende revistas de uma entidade de ação social e consegue ter pelo menos um teto modesto para chamar de seu;
Bongiovani, de químico a intelectual de rua
  • sua avó materna (vide aqui), que respondia com amor cristão às infidelidades do marido, a ponto de não hostilizar a amante que este ousou um dia trazer para pernoitar em casa ("A minha santa vovó do mato era de outro planeta, embora fosse mulher, mulher, mulher, mulher, meu Deus do céu!  O que outra mulher teria feito no lugar dela? O que todas as outras mulheres fariam no lugar dela?");
  • o bombardeiro Francisco Romero (vide aqui), que teria deixado de alterar o curso da nossa História ao desarmar a bomba por ele próprio plantada no vagão do trem em que viajaria um ditador, sem que ninguém ficasse sabendo do episódio afora os companheiros de quase-atentado;
  • Júlia Sapeca (vide aqui), nome que emprestou de uma música da época para renomear a menina inspiradora de sua primeira e frustrada paixão, pois, apesar das mágoas de outrora, continuou sendo cavalheiro pela vida adentro e seria "grosseiro" identificar claramente quem se tornara mãe e avó, com "cabelos branquinhos, branquinhos", que ele reviu um dia "subindo uma ladeira, bem devagar, se segurando nas paredes". 
La Cucaracha era mesmo hino... de Pancho Villa!
E tantos outros, reais, inventados e até meio a meio, como as crônicas do além em que nos colocou em contato com os espíritos de Tancredo Neves (vide aqui), Getúlio Vargas e Carlos Lacerda (ambos aqui).

Sua imaginação voava alto. É uma graça, p. ex., a crônica (vide
 aqui) na qual ele propôs uma revolução diferente para o Brasil, uma revolução de costumes políticos, cujo hino fosse... La Cucaracha! 

Assim como o discurso que ele se imaginou proferindo no STF (vide 
aqui), com direito a puxão nas orelhas dos meritíssimos:
"Ouçam o lamento de um povo, supremos ilibados juristas, o lamento de todo um povo, e derrubem já o foro privilegiado"
Era uma das guerras santas do Apollo, que queria ver a igualdade de todos perante a lei prevalecer sobre o corporativismo dos altos serviçais da classe dominante.

Outra, a defesa da necessidade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, que lhe inspirou candentes catilinárias. E não só, pois numa delas (vide aqui) o Apollo revelou:
"Desde a traumatizante decisão do STF que derrubou a  obrigatoriedade, venho manifestando em prosa e verso meu tormento com aquela postura cavernosa do tribunal maior do país. 
Enviou cartas ao Congresso inteiro em defesa do jornalismo
Meus mais aflitivos lamentos em defesa da obrigatoriedade do diploma de jornalismo traduziram-se no envio de mais de 600 cartas, a cada um dos 80 senadores, 520 deputados federais e às Mesas Diretoras do Senado e da Câmara".
Ele acreditava que mandar uma carta pelo correio impactava mais do que o envio de e-mails. Chegou até a escrever uma crônica (vide aqui) em louvor às cartas manuscritas de outrora.

Botava tanta fé na força de suas palavras datilografadas na folha em branco, com assinatura no final, que nunca tive coragem de dizer-lhe que a quase totalidade dos parlamentares, juízes e membros do Executivo delega a subalternos a abertura da correspondência. 

Estes raramente colocam na mesa do chefe as mensagens esperançosas ou aflitas de cidadãos para eles desconhecidos. Dão mais importância a um vereador de Santa Cruz de Minas (o menor município do Brasil) do que ao autor de um texto magistral como os do Apollo...

Muitas cartas ele remeteu na década passada, esperando conseguir que fosse rapidamente reconhecida minha condição de perseguido político durante a ditadura militar; e na década atual, para que parassem de boicotar, com manobras protelatórias, o recebimento de uma indenização retroativa que o ministro da Justiça me concedera (deveria ter sido paga em 60 dias e, mais de uma década depois, ainda não o foi). 
"ele não se conformava ao ver a pior face das pessoas"

Era amarga a decepção dele quando, a mando de ministros e até da presidente da República, algum burocrata empedernido respondia com desconversa, saindo pela tangente e até fingindo não haver entendido direito o que estava bem claro na mensagem do Apollo. 

Eu, que dessa gente só esperava o pior, absorvia facilmente o golpe. Ele, que sempre esperava o melhor das pessoas, não se conformava ao ver-lhes a pior face: a verdadeira.

Também me comovia seu desencanto com os rumos do jornalismo, a ponto de haver dito certa vez que não lamentara tanto lhe terem impossibilitado a readmissão na Agência Estado após a morte do pai, pois não se identificava com a nova realidade das redações (em que os ganhos tecnológicos chegam junto com a perda do idealismo e o embotamento da solidariedade para com os indefesos). 

Eis um trecho da pungente crônica (vide aqui) na qual lamentou o fim de uma de suas mais caras ilusões:
"Eu acreditava ter a imprensa o poder de transformar a realidade. Tal era minha ingenuidade!
Oh, que saudade da minha infância querida e ingênua, do meu tempo das reportagens, editorias e fechamento de páginas na redação, em que me sentia um rei ao fazer o feijão com arroz que o patrão mandava. 
Seis décadas depois, a constatação amarga e definitiva de que a humanidade (leia-se políticos) não presta. Jamais fui apresentado a nenhum dos dois honestos. É a confirmação acadêmica de que o exercício do jornalismo não muda a realidade. Dá vontade de desistir. Eu juro!"
Muito eu ainda poderia escrever sobre o grande amigo e o jornalista por vocação e teimosia, que tantas barreiras transpôs para chegar aonde sonhara, sem, contudo, jamais obter reconhecimento à altura do seu enorme talento.

Mas, nas redações e na vida, tudo tem um fim. E eu temo que, se alongasse este tributo, haveria cada vez menos leitores a acompanhá-lo, salvo nossos contemporâneos, os idosos.

Pois o Apollo teve uma grandeza característica de outros tempos, quando os homens cordiais eram admirados e o mundo inteiro admirava nosso país; hoje, no Brasil das balas perdidas e das pessoas perdendo a cabeça por superfluidades, os Narcisos engendrados pela sociedade de consumo cada vez mais preferem viver só o presente, sem compromisso com o futuro de sua gente e achando tedioso o passado.

Eu, Celso Lungaretti, desta vez coloco fora de lugar a minha assinatura, antecipando-a por um bom motivo: a palavra final só poderia pertencer ao Apollo! 


Fui buscá-la numa crõnica simplesmente maravilhosa (vide aqui), em que ele fala de "uma florzinha roxinha meio azulada grudada no chão do meu portão" e de "uma passarinha mãezinha que recolhe migalhas de pão no chão e deposita no bico do filhote". Eis os parágrafos finais:
"Florzinha, pardalzinho, ouçam, eu também entro e saio da minha casa todo santo dia, e vai chegar um momento em que vou entrar e não vou voltar mais. A mando de um poder maior, chega também para mim o tempo de ir embora. Saio carregado por quatro mãos agarradas àquelas alças douradas, sagradas, que sustentam corpos sem vida.
Mas não vai terminar nunca a festa de cores e de vida intensa na companhia desses meus amiguinhos.
Quando eles voltarem amanhã e tornarem a encher de alegria meu velho coração, vou correndo fazer um pedido aos dois. 
Pedir que supliquem ao poder maior para deixar-me encontrar com eles no outro lado da vida, em algum portão, alguma parede velha aconchegando uma flor roxinha-azulada-princesinha, alguma escada encurvada para mamãe passarinho subir..." 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

OS ANARQUISTAS JÁ FIZERAM HISTÓRIA NO BRASIL/1: A GREVE GERAL DE 1917

E
m 1968 o anarquismo ressurgiu triunfalmente na cena política, com suas bandeiras negras tremulando nas barricadas parisienses. 

Foi quando caiu para as novas gerações de revolucionários a ficha de que a greve geral de 1917 havia sido um episódio de extrema importância nas lutas sociais brasileiras, mas permanecera meio século subdimensionado ou mesmo omitido pela historiografia comunista, que, mesquinhamente, evitava levar água para o moinho da concorrência.

O impacto foi ainda maior para mim por ter tomado conhecimento de que o movimento se iniciara no Cotonifício Rodolfo Crespi, no qual meu pai trabalhara de 1930 até a desativação e desmembramento em 1963, além de permanecer como empregado, até 1976, de firmas menores que lá se estabeleceram. Eu mesmo fiquei conhecendo uma delas, na qual ia fazer um bico mensalmente. 

Quando o grande cotonifício ainda existia, eu cheguei a visitá-lo com meu pai. Para minha surpresa, constatei depois que o congênere italiano mostrado no filme Os Companheiros, ambientado no final do século retrasado, era quase idêntico. Ou seja, a fábrica daqui parecia uma cópia da europeia de seis décadas antes!

Percebendo quão minimizada tinha sido a greve de 1917 pelos historiadores camaradas (o duplo sentido é intencional!), acabei me interessando também pelo outro grande marco da atuação anarquista no Brasil, a Colônia Cecília, e escrevendo sobre ambas. (CL)
A HEROICA GREVE GERAL NA QUAL MORRERAM
 DEZENAS DE OPERÁRIOS, MAS ACABOU VITORIOSA 
Fundado em 1897, o cotonifício Crespi ocupava um enorme quarteirão da zona leste paulistana, tendo se constituído num dos principais marcos da industrialização de São Paulo.

Entrou também para nossa História como o palco onde se iniciou e do qual se irradiou a primeira greve geral brasileira, a de 1917, cuja magnitude foi durante longo tempo minimizada pela historiografia comunista, por puro sectarismo (fora organizada e encabeçada por anarquistas).

Quanta pequenez! Havia sido não só uma iniciativa pioneira, heroica e vitoriosa, como tinha custado a vida de valorosos lutadores do nosso proletariado nascente. Embora só um mártir seja lembrado até hoje, as vítimas fatais podem ter sido cerca de 100 (segundo o jornal Fanfulla, ligado ao consulado italiano) e, certamente, não menos do que 18 (o número em que O Estado de S. Paulo se fixou). Apenas operários; os carrascos saíram incólumes, como sempre...  
O cotonifício Crespi chegaria a ter 50 mil m2 construídos
 
Os aspectos mais sangrentos da greve de 1917 eram voz corrente no movimento operário do início do século passado, mas foram apagados da memória do país. 

Um dos historiadores que os resgataram,  o pesquisador e jornalista José Luís Del Roio, teve seu livro Greve de 1917: os trabalhadores entram em cena lançado pela Alameda Editorial quando transcorria o centenário do episódio. Segundo ele, o Fanfulla noticiou também que existiriam 212 covas abertas no cemitério do Araçá para receber os grevistas (pretendiam matar tantos assim?).

Eis um ótimo texto de apresentação que ele fez do seu trabalho.
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"Um protesto iniciado numa tecelagem, no bairro paulistano da Mooca, há um século, marcou definitivamente a luta dos trabalhadores em nosso país.

As condições de vida eram tremendamente precárias. Não havia leis trabalhistas, não havia garantias para as mulheres e o trabalho infantil era regra, por ser mais barato e mais fácil de controlar.

Numa conjuntura de guerra, crise econômica e carestia, a inquietação localizada se espalhou. O patronato respondeu com os argumentos de sempre: pau, bala e demissões. Mas, daquela vez, a agressão não funcionou. A revolta se espalhou por outras fábricas e pelo comércio. 

Quando os bondes pararam, São Paulo parou junto. Multidões tomaram as ruas, em cenas inéditas até então. Para a oligarquia, plantada em seus casarões da Avenida Paulista e no bairro de Higienópolis, a visão foi aterradora. Dezenas de milhares daqueles considerados feios, sujos e malvados surgiram à luz do dia, entre junho e julho de 1917, para cobrar uma participação mínima por sua contribuição ao desenvolvimento. 
Nem mesmo a brutalidade oficial deteve aquela gente munida de impulsos terríveis: o desejo de matar fome, ter teto e contar com condições para criar os filhos. A pressão das ruas foi tamanha que os ricos tiveram de ceder. A demanda por salários e melhores condições de vida e trabalho acaba espetacularmente vitoriosa
"

Aproveito para citar também o ótimo verbete da Wikipedia (sei que muitos torcem o nariz para a dita cuja, mas a qualidade do texto em questão, eminentemente noticioso, é indiscutível). 

"Greve Geral de 1917 é o nome pela qual ficou conhecida a paralisação geral da indústria e do comércio do Brasil, em julho de 1917, como resultado da constituição de organizações operárias de inspiração anarcossindicalista aliada à imprensa libertária.

Esta mobilização operária foi uma das mais abrangentes e longas da história do Brasil.
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CONTEXTO POLÍTICO-ECONÔMICO – Com o início da 1ª Guerra Mundial, o Brasil tornou-se exportador de gêneros alimentícios aos países da Tríplice Entente; essas exportações se aceleraram a partir de 1915, reduzindo a oferta de alimentos disponíveis para o consumo interno, e provocando altas em seus preços.

Entre 1914 e 1923, o salário havia subido 71% enquanto o custo de vida havia aumentado 189%; isso representava uma queda de dois terços no poder de compra dos salários. 
"O trabalho infantil era generalizado"

Para salário médio de um operário de cerca de 100 mil réis correspondia um consumo básico que para uma família com dois filhos atingia a 207 mil réis. O trabalho infantil era generalizado.
'…a greve geral de 1917 não pode, de maneira alguma, ser equiparada sob qualquer aspecto que seja examinada, com outros movimentos que posteriormente se verificaram como sendo manifestações do operariado. Isso não, absolutamente não! 
A greve geral de 1917 foi um movimento espontâneo do proletariado sem a interferência, direta ou indireta, de quem quer que seja. Foi uma manifestação explosiva, consequentemente de um longo período da vida tormentosa que então levava a classe trabalhadora. 
A carestia do indispensável à subsistência do povo trabalhador tinha como aliada a insuficiência dos ganhos; a possibilidade normal de legítimas reivindicações de indispensáveis melhorias de situação esbarrava com a sistemática reação policial; as organizações dos trabalhadores eram constantemente assaltadas e impedidas de funcionar; os postos policiais superlotavam-se de operários, cujas residências eram invadidas e devassadas; qualquer tentativa de reunião de trabalhadores provocava a intervenção brutal da Policia. A reação imperava nas mais odiosas modalidades. O ambiente proletário era de incertezas, de sobressaltos, de angústias. A situação tornava-se insustentável.' [Edgard Leuenroth, em artigo na imprensa]
PARALISAÇÃO – Em 1917 houve uma onda de greves iniciada em São Paulo em duas fábricas tenteis do Cotonifício Rodolfo Crespi e, obtendo a adesão dos servidores públicos, rapidamente se espalhou por toda a cidade, e depois por quase todo o país. Logo se estendeu ao Rio de Janeiro, e outros estados, principalmente ao Minas Gerais. 

Foi liderada por elementos de ideologia anarquista, dentre eles vários imigrantes italianos. Os sindicatos por ramos e ofícios, as forças e uniões operárias, as federações porcentuais, e a Confederação Operária Americana (fundada em 1756) sofriam forte influência dos anarquistas.
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A MORTE DE JOSÉ MARTINEZ – Em 9 de julho, uma carga de cavalaria foi lançada contra os operários que protestavam na porta da fábrica Mariângela, no Brás; resultou na morte do jovem anarquista espanhol José Martinez. Seu funeral atraiu uma multidão que atravessou a cidade acompanhando o corpo até o cemitério do Araçá onde foi sepultado. 

Indignados e já preparados para a greve, os operários da indústria têxtil Cotonifício Crespi, com sede na Mooca, entraram em greve, e logo foram seguidos por outras fábricas e bairros operários. Três dias depois mais de 70 mil trabalhadores já haviam aderido à greve. Armazéns foram saqueados, bondes e outros veículos foram incendiados e barricadas foram erguidas em meio às ruas.
'O enterro dessa vitima da reação foi uma das mais impressionantes demonstrações populares até então verificadas em São Paulo. Partindo o féretro da rua Caetano Pinto, no Brás, estendeu-se o cortejo, como um oceano humano, por toda a avenida Rangel Pestana até a então Ladeira do Carmo em caminho da cidade, sob um silencio impressionante, que assumiu o aspecto de uma advertência.  
Foram percorridas as principais ruas do centro. Debalde a Policia cercava os encontros de ruas. A multidão ia rompendo todos os cordões, prosseguindo sua impetuosa marca até o cemitério. À beira da sepultura revezaram os oradores, em indignadas manifestações de repulsa à reação... 

No regresso do cemitério, uma parte da multidão reuniu-se em comício na Praça da Sé; a outra parte desceu para o Brás, até à rua Caetano Pinto, onde, em frente à casa da família do operário assassinado, foi realizado outro comício'[relato de Edgard Leuenroth, em reportagem publicada pelo jornal Dealbar] 

"A multidão ia rompendo todos os cordões"
EXIGÊNCIAS – A violenta greve geral estava deflagrada em São Paulo. Hermínio Linhares, em seu livro Contribuição à história das lutas operárias no Brasil, diz: 
'O auge deste período foi a greve geral de julho de 1917, que paralisou a cidade de São Paulo durante vários dias. Os trabalhadores em greve exigiam aumento de salário. O comércio fechou, os transportes pararam e o governo impotente não conseguiu dominar o movimento pela força. Os grevistas tomaram conta da cidade por trinta dias. Leite e carne só eram distribuídos a hospitais e, mesmo assim, com autorização da comissão de greve. O governo abandonou a capital'

As ligas e corporações operárias operárias em greve, juntamente com o Comitê de Defesa Proletária, definiram na noite de 11 de julho 11 tópicos contendo suas reivindicações.
Ficha policial de Edgard Leuenroth
  1. que sejam postas em liberdade todas as pessoas detidas por motivo de greve;
  2. que seja respeitado do modo mais absoluto o direito de associação para os trabalhadores;
  3. que nenhum operário seja dispensado por haver participado ativa e ostensivamente no movimento grevista;
  4. que seja abolida de fato a exploração do trabalho de menores de 14 anos nas fábricas, oficinas etc.;
  5. que os trabalhadores com menos de 18 anos não sejam ocupados em trabalhos noturnos;
  6. que seja abolido o trabalho noturno das mulheres;
  7. aumento de 35% nos salários inferiores a $5000 e de 25% para os mais elevados;
  8. que o pagamento dos salários seja efetuado pontualmente, cada 15 dias, e, o mais tardar, 5 dias após o vencimento;
  9. que seja garantido aos operários trabalho permanente;
  10. jornada de oito horas e semana inglesa [oito horas diárias de 2ª a 6ª feira e quatro horas nos sábados];
  11. aumento de 50% em todo o trabalho extraordinário.
Cavalarianos hostilizando grevistas na rua
NEGOCIAÇÕES – Cerca de 70 mil pessoas aderiram ao movimento. Para defender a greve foi organizado o Comitê de Defesa Proletária, que teve Edgard Leuenroth como um dos principais líderes.
'A situação ia se tornando cada vez mais grave com os choques entre a policia e os trabalhadores. O Comitê de Defesa Proletária, somente vencendo toda a sorte de dificuldades conseguia realizar apressadas reuniões em pontos diversos da cidade, às vezes sob a impressão constrangedora do ruido de tiroteios nas imediações. 
Tornava-se indispensável um encontro dos trabalhadores, para ser tomada uma resolução decisiva. Surgiu, então, a sugestão de um comício geral. Como e onde? E como vencer os cercos da Policia? Mas a situação, que se desenrolava com a mesma gravidade, exigia a sua realização. 
O perigo a que os trabalhadores se iriam expor estava sendo transformado em sangrenta realidade nos ataques da policia em todos os bairros da cidade, deles resultando também vitimas da reação, inúmeros operários, cujo único crime era reclamarem o direito à sobrevivência. 
E o comício foi realizado. O Brás, bairro onde tivera inicio o movimento, foi o ponto da cidade mais indicado, tendo como local o vasto recinto do antigo Hipódromo da Mooca.

Foi indescritível o espetáculo que então a população de São Paulo assistiu, preocupada com a gravidade da situação. De todos os pontos da cidade, como verdadeiros caudais humanos, caminhavam as multidões em busca do local que, durante muito tempo, havia servido de passarela para a ostentação de dispendiosas vaidades, justamente neste recanto da cidade de céu habitualmente toldado pela fumaça das fábricas, naquele instante, vazias dos trabalhadores que ali se reuniam para reclamar o seu indiscutível direito a um mais alto teor de vida. 

Não cabe aqui a descrição de como se desenrolou aquele comício, considerado como uma das maiores manifestações que a história do proletariado brasileiro registra. Basta dizer que a imensa multidão decidiu que o movimento somente cessaria quando as suas reivindicações, sintetizadas no memorial do Comitê de Defesa Proletária, fossem atendidas.' [notícia na imprensa]
E a atitude da polícia, foi o quê? Cortês?
Everardo Dias, em História das Lutas Sociais no Brasil, relata dessa forma os acontecimentos:
'São Paulo é uma cidade morta: sua população está alarmada, os rostos denotam apreensão e pânico, porque tudo está fechado, sem o menor movimento. Pelas ruas, afora alguns transeuntes apressados, só circulavam veículos militares, requisitados pela Cia. Antártica e demais indústrias, com tropas armadas de fuzis e metralhadoras. 
Há ordem de atirar para quem fique parado na rua. Nos bairros fabris do Brás, Moóca, Barra Funda, Lapa, sucederam-se tiroteios com grupos de populares; em certas ruas já começaram fazer barricadas com pedras, madeiras velhas, carroças viradas. A polícia não se atreve a passar por lá, porque dos telhados e cantos partem tiros certeiros. 
Os jornais saem cheios de notícias sem comentários quase, mas o que se sabe é sumamente grave, prenunciando dramáticos acontecimentos'[declarações de Fernando Dannemann]
RESOLUÇÃO DA GREVE – Os patrões deram um aumento imediato de salário e prometeram estudar as demais exigências. A grande vitória foi o reconhecimento do movimento operário como instância legítima, obrigando os patrões a negociar com os proletários e a considerá-los em suas decisões.
O desfecho: VITÓRIA!
'Na primeira reunião foi examinado o memorial das reivindicações dos trabalhadores, apresentado pelo Comitê de Defesa Proletária, que a comissão de jornalistas estava encarregada de levar ao governo do Estado. 
A segunda reunião teve o seu inicio retardado, em virtude da prisão de dois dos membros do comitê de Defesa Proletária ao saírem da redação, após a primeira reunião. Os entendimentos seriam rompidos se esses dois elementos não fossem imediatamente postos em liberdade. Essa resolução foi transmitida ao presidente do Estado. A exigência foi atendida, os elementos levados à redação e a reunião pôde ser realizada com breve duração, pois o governo ainda não havia entregue a sua resolução. 
A resolução da concessão das reivindicações dos trabalhadores foi dada por intermédio da Comissão de Jornalistas, com a informação de que já estavam sendo libertados os operários presos durante o movimento. Foram realizados comícios dos trabalhadores em vários bairros para a decisão da retomada do trabalho, que se iniciou no dia imediato.
São Paulo reiniciava suas atividades laboriosas. A cidade retomava o seu aspecto costumeiro, restando, entretanto, a triste lembrança das vitimas que haviam deixado lares enlutados.' [relato de Edgard Leuenroth, em reportagem publicada pelo jornal Dealbar]"

 

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