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terça-feira, 2 de julho de 2019

A GRANDE DIÁSPORA MUNDIAL – 3

(continuação deste post)
Segundo Ramadhani, refugiado burundinês de 26 anos, viver numa dessas tendas de acampamento corresponde a uma luta diária para conseguir comida e água. Tais condições acabam com a vida de qualquer um, diz ele, mas é melhor do que viver com medo e trancado em casa, daí preferir permanecer nesses campos até morrer. 

Segundo relato da psiquiatra Carolyne César, da ONG Médicos Sem fronteiras, é alarmante e o índice de tentativas de suicídios dos imigrantes enviados à ilha de Nauru pelo governo australiano; as crianças, acrescenta, afirmam que é melhor morrer do que ali permanecer.  

Esta é a cruel realidade de um mundo moldado por uma ordem sócio-econômica genocida. 

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados denuncia que 68,5 milhões de pessoas foram expulsas de suas casas à força, como consequência das ações de governos despóticos; da intolerância de grupos fundamentalistas religiosos; do temor inspirado por milicianos que praticam a extorsão, vendendo pretensa proteção; e do crime organizado. 

Mas, o que está na base dessa formação sócio-criminosa é a impossibilidade de produção social dos países da periferia do capitalismo sob um contrato econômico one world que encontrou o seu limite interno absoluto de convivência social harmônica.
Todos esses fenômenos ocorrem sob o primado da barbárie social causada por um modelo de produção social fundado na concorrência de mercado e financiamento da produção a juros extorsivos para os países da periferia capitalista (como ocorre com o Brasil, que aceita tal imposição docilmente, pois, afinal, é mais fácil cortar direitos previdenciários).  

Os países que se beneficiam de tais relações de produção e que rejeitam os originários de suas antigas colônias, agora estão também ameaçados nas suas pujanças econômicas, pois não se pode explorar indefinidamente sem que as consequências dessa lógica demonstre a sua insustentabilidade de longo prazo (e continue impune!). 

A debacle que já se observa na União Europeia, expressa nos altos níveis de desemprego, problemas com a previdência social e dívida pública crescente, denunciam que o barco capitalista, tal como os barcos do mar Mediterrâneo cheios de imigrantes desesperados, está afundando.

Neste contesto, dois segmentos políticos ganham espaço nos países capitalistas dominantes da União Europeia:  
 um é o dos partidos ultraconservadores (foto ao lado), que abrigam os defensores dos privilégios tradicionais, ora ameaçados, e que reforçam os discursos nacionalistas xenófobos, tentando manter o status quo pela força (os arminhas de lá) e impor retrocessos civilizatórios; e
 o outro é o dos partidos ecológicos (os verdes), que, apesar das boas intenções, não tocam na questão fundamental que é a falência e negatividade das relações de produção capitalistas. 

A crise ecológica, vale ressaltar, tem uma abrangência global, não seletiva. Atinge as florestas europeias (e estadunidenses) com incêndios cada vez maiores; prejudica a agricultura; e causa poluição insuportável, tanto quanto a desertificação, as secas e inundações tropicais. 

A hipocrisia mundial é algo que deveria causar indignação nas mentes mais esclarecidas.

Hipócritas são, p. ex., as alegadas preocupações dos EUA e seus subservientes apoiadores sul-americanos com a tragédia humana da Venezuela (independentemente de o governo de Maduro não me inspirar a mais remota simpatia) e a condenação do regime cubano.
Mohammed bin Salman ainda encontrou quem apertasse sua mão ensanguentada
Por que? Entre muitos outros motivos, por tolerarem na reunião do G-20 a participação de um assassino como o príncipe saudita Mohammed bin Salman, responsável pela morte do jornalista Jamal Khashoggi e de outros dissidentes políticos decapitados por regime brutal.  

E o alegado sentimento humanitário da União Europeia e da Turquia se revela uma balela à medida que financiam o governo despótico da Líbia para que, com sua guarda costeira no mar Mediterrâneo, detenha embarcações de imigrantes utilizando os métodos mais cruéis e desumanos.    

Observemos tragédias mundiais como:
 a dos povos da minoria rohingya em Mianmar;
 as perseguições de comunidades inteiras na Nigéria e em Camarões;
 a miséria do Sudão do Sul e do Burundi;
 o êxodo venezuelano (foto ao lado), salvadorenho, guatemalteco, hondurenho, haitiano e boliviano;
 a guerra permanente da Líbia e da Síria;
 as guerras fundamentalistas religiosas do Afeganistão, de Mossul e de tantas outras regiões do oriente médio; e
 a disputa territorial entre palestinos e israelenses. 

Todas têm, um ponto em comum: a falência (e ganância) de um modelo político-econômico que está a clamar por sua superação.

Entretanto, tal superação implica uma autocrítica de nossa servidão voluntária ao sistema que está na base de toda essa tragédia planetária. Devemos honestamente reconhecer nossa condição de cúmplices, ainda que involuntários, com todos esses crimes de lesa-humanidade. 

Seremos capazes de, conscientemente, antes mesmo que a realidade nos empurre para a tomada de medidas de emergência ou de desaparecermos da face da Terra, operarmos a transformação emancipatória necessária e indispensável? 

Somente a nós cabe a resposta. (por Dalton Rosado)

"...quando há uma terra prometida/ o bravo irá e outros o seguirão/ a beleza
do espírito humano/ é a vontade de realizar os próprios sonhos/ e assim,
as massas atravessam o oceano/ em direção a uma terra de paz e
de esperança/ mas ninguém ouviu uma voz ou viu uma luz/
enquanto era jogado na costa/ e ninguém foi recebido
pelo eco da frase Eu levanto minha lâmpada
junto à porta dourada..."  

domingo, 30 de junho de 2019

A GRANDE DIÁSPORA MUNDIAL – 2

(continuação deste post)
Não pode ter futuro sustentável um país que apresenta os seguintes indicadores econômicos:
— dívida superior ao seu PIB anual e que é suportável apenas por sobre ela incidirem juros baixos, em razão da crença equivocada (e convenientemente conivente) do sistema financeiro mundial e respectivos rentistas na sua pujança, solidez e capacidade de solvência;
 balança comercial internacional deficitária e que a cada ano aumenta tal déficit;
 padrão de consumo e de renda per capita sustentado por salários incompatíveis com a média mundial, mas que são viabilizados por fatores como: 
        a) emissão de moeda sem lastro, mas por todos aceita como se fosse válida, e, que, assim, não provoca inflação interna;
      b) geração de lucros (e recebimento das remessas destes) por empresas cujos tentáculos se espalham mundo afora, explorando os baixos salários dos países da periferia capitalista e comercializando mercadorias com preços de alto valor agregado em razão das patentes e segredos industriais (o preço de uma minúscula pílula para carrapatos em cachorro fabricada por um laboratório  estadunidense corresponde a dias de salário de um trabalhador centro-americano ou africano!); e
     c) exploração de juros cobrados aos países pobres por um sistema de crédito bancário internacional extorsivo, em grande parte ali sediado, cujos créditos são de duvidosa capacidade de solvência por parte dos devedores extorquidos;
 orçamento militar exorbitante e, portanto, insuportável para o orçamento público sustentado pelo aumento da dívida pública, mas que o faz de modo a constranger o mundo à obediência aos seus interesses econômicos pouco confessáveis (e que se coloca como justiceiro e palmatória do mundo de modo cínico e contraditório, à base do faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, como no caso da produção das bombas atômicas e seus materiais radioativos.       

Por que os países da América Central (todos); os da América do Sul (aí incluída a outrora rica Argentina, e em menor proporção apenas o Chile e o Uruguai, pouco populosos); e o México, primo pobre da América do Norte, enfrentam depressão econômica, falência estatal, níveis de desempregos insuportáveis, serviços públicos precários ou inexistentes, violência urbana e outros tantos sintomas de decadência social que tão bem conhecemos no Brasil?

Ao respondermos a esta pergunta, não devemos adotar uma postura xenófoba contra o povo estadunidense, posto que, não é ele o promotor de tal miséria mundial, como de resto não são culpados os povos dos países ricos ou pretendentes a sê-lo (os componentes do G-20, que acabam de reunir no Japão).  
A culpa da degradação da vida sobre a face da Terra (a fome, p. ex., aumenta sem parar em âmbito mundial!) não é dos povos, mas de uma lógica social fetichista, coisificada (reificada), patrocinada pelo conteúdo autotélico e vazio de sentido humano do capital e da necessidade de sua reprodução contínua e cumulativamente excludente. 

Uma lógica que submete o Estado a seus desígnios, pois os governos desses países estão totalmente atrelados a ela. 

Assim, os inimigos do povo são, pela ordem: 
 a lógica do capital e suas categorias auxiliares (trabalho abstrato, dinheiro, mercadorias e  mercado);
 o Estado e todas as suas instituições auxiliares (direito, justiça, parlamento, força militar, política, partidos, etc.);
 a servidão voluntária a essa ordem (obediência civil às instituições, à lei e ao modo de produção capitalista), que involuntariamente (por medo ou ignorância) ou voluntariamente (por mero oportunismo individual) se perpetua, com os seres humanos prostrados de joelhos diante da exploração social no altar da iniquidade, ainda que tal ordem sócio-econômica esteja se exaurindo por sua própria ilogia. 
.
CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DO DESESPERO DOS IMIGRANTES – a diáspora mundial é bem maior do que constatamos pelo acompanhamento do noticiário internacional.

No nosso caso, são muitos os brasileiros com nível superior e bom nível de instrução que buscam a meca do capitalismo mundial (os Estados Unidos) ou países como o Canadá, Austrália e Portugal (que serve de porta de entrada para a comparativamente próspera União Europeia). 

Assim, o Brasil perde os cidadãos mais capacitados que forjou para o seu presente e futuro; e os brasileiros menos capacitados (vítimas de uma educação pública ineficiente e da segregação social cada vez mais acentuada) sofrem com o fantasma do desemprego estrutural, uma tragédia sem precedentes na nossa história.

Observamos, hoje, duas grandes rotas migratórias: entre os continentes e no interior destes. Ambas são representadas pela fuga desesperada das populações tangidas por governos tiranos (e pelo crime organizado) que tentam se manter no poder pela força, já que as insatisfações populares com a perda da qualidade de vida e de oportunidades profissionais desgastam ciclicamente os governantes. 
Em geral os déspotas se apoiam nos militares, que cumprem esse nefasto papel de manutenção de uma ordem decrépita nos países atingidos pelos desníveis de produtividade de mercadorias, que dita quem vai sobreviver ou morrer na guerra concorrencial de mercado. Quando você vir uma criança morta numa fronteira terrestre ao afogada num praia, debite tal acontecimento na conta da irracional lógica da autofagia de mercado.   

A completa impossibilidade de vida em seus países de origem é o que empurra milhões de famílias africanas para aventuras marítimas num trajeto de cerca de 350 quilômetros no mar Mediterrâneo, em embarcações precárias e sem a menor segurança, mesmo sabendo da rejeição cada vez maior de socorro por navios mercantes e governos insensíveis ao seu terrível drama humano.

Os imigrantes, quando conseguem escapar da morte por afogamento e chegar às praias europeias, são rejeitados como se fossem portadores de doenças contagiosas e colocados em tendas de acampamentos que chegam a lembrar as instalações daqueles campos de extermínio que nos horrorizam quando vemos filmes sobre o Holocausto. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

"...quando há uma terra prometida/ o bravo irá e outros o seguirão/ a beleza
do espírito humano/ é a vontade de realizar os próprios sonhos/ e assim,
as massas atravessam o oceano/ em direção a uma terra de paz e
de esperança/ mas ninguém ouviu uma voz ou viu uma luz/
enquanto era jogado na costa/ e ninguém foi recebido
pelo eco da frase Eu levanto minha lâmpada
junto à porta dourada..."     

sexta-feira, 28 de junho de 2019

A GRANDE DIÁSPORA MUNDIAL – 1

"Não dá para viver na Líbia. Então, eu decidi fugir de barco. É preciso escolher entre morrer no mar ou morrer por causa de uma bala. Eu preferi o mar (Aída, 41 anos, resgatada em 2018 no Mediterrâneo pela ONG Médicos Sem Fronteiras) 
.
A imagem de uma criança síria morta numa praia da Turquia em 2015, como resultado da imigração forçada por uma guerra cuja crueldade chocou o mundo, é bem mais expressiva do que as frias estatísticas. 

Corresponde, no seu contexto conceitual, às mesmas causas da imagem abaixo, recém-divulgada e que provocou idêntica repulsa, na qual um pai salvadorenho e sua filha de dois anos morrem afogados durante uma temerária tentativa de, exatamente, salvarem suas vidas. 

Já ao presidente destrumpelhado e aos muitos que priorizam acima de tudo a manutenção de suas luxos e privilégios,  tais episódios não chocam: sentindo-se incomodados com a presença dos coitadezas do capitalismo, consideram que os mortos são culpados pela própria morte, pois cometeram invasão não autorizada.

Por outro lado, para quem ainda guarda um pouco de sensibilidade humana e lucidez sobre a tragédia que se abate sobre a humanidade, aquelas mortes correspondem a dois assassinatos político-econômico-governamentais, cujos responsáveis têm nome e sobrenome.
Oscar Martinez Ramirez e filha: mortos na etapa final de sua jornada, quando os EUA estavam tão perto!
Vivemos a maior diáspora já registrada nos anais da história da humanidade e ela ocorre, simultaneamente, nos cinco continentes, não se podendo, portanto, minimizá-la como um fato social pontual, pois a sua abrangência e gravidade atestam o contrário. 

Nem se resume a uma questão de bom ou mau gerenciamento governamental. Trata-se, isto sim, da evidente saturação de um modelo social que não encontra conexão entre forma e conteúdo.

Estamos diante de um fenômeno que exige de nós muito mais do que prestação ou não de solidariedade às vítimas da hora. Trata-se de uma questão de responsabilidade social com nossos semelhantes, inclusive com aqueles que não foram (ainda) atingidos pelas labaredas do fogo que consome a lógica incendiária do capital. 

O fogo metafórico de que falo soma-se ao fogo real que ora consome a culta e ainda relativamente rica Europa, como nunca antes tinha acontecido, ateado pelo ecocídio igualmente em curso e pelas mesmas causas. 

Por que os Estados Unidos são a última ilha de prosperidade num mundo capitalista que desaba?

A resposta a esta pergunta não pode ser outra senão aquela que afirma a existência de vários fatores conjugados que ainda permitem o fausto da economia estadunidense quando comparada com a de outros países. 

Tal situação peculiar é (equivocadamente) utilizada como argumento para a afirmação da pretensa competência e correção de métodos e conceitos de Trump, bem como para erigi-lo em exemplo a ser seguido pelos desavisados.

A prosperidade estadunidense está na inversa proporção da pobreza mundial —não apesar,  mas por causa de tal pobreza—, daí a inconsequência ou amoralidade dos que a apresentam como modelo a ser imitado e buscado. 

Quando se analisa com lente de cuidadosa apreciação crítica os dados da economia estadunidense pode-se facilmente concluir que ela se assenta sobre artifícios que lhe são úteis e passam despercebidos no presente, mas que serão catastróficos no futuro próximo. e

Será quando poderemos comprovar, com a máxima clareza, que o gigante tinha (e tem) pés de barro. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

"...quando há uma terra prometida/ o bravo irá e outros o seguirão/ a beleza
do espírito humano/ é a vontade de realizar os próprios sonhos/ e assim,
as massas atravessam o oceano/ em direção a uma terra de paz e
de esperança/ mas ninguém ouviu uma voz ou viu uma luz/
enquanto era jogado na costa/ e ninguém foi recebido
pelo eco da frase Eu levanto minha lâmpada
junto à porta dourada..."

segunda-feira, 29 de abril de 2019

O MUNDO ESTÁ PRENHE DE REVOLUÇÕES – 5

(continuação deste post) 
Haiti 2019: miséria e convulsão social.
A América Central, com seus 20 Estados independentes e 7 regiões dependentes aos Estados Unidos, França, Reino Unidos e Holanda, tem uma população na casa de 92 milhões de habitantes.

Sua representatividade no cenário econômico mundial é pouca e alguns dos seus países apresentam baixíssimos Índices de Desenvolvimento Humano. 

Caso do Haiti, cujo IDH, calculado em 0,498, o situa na 168º colocação do ranking mundial. Chega a ser chocante o desnível sócio-econômico existente entre nações do continente americano! 

O Haiti é o país mais pobre das Américas, com uma população de 10,4 milhões de habitantes, formada por 90% de negros; seu PIB nominal é de US$ 18,5 bilhões e a renda per capita, de US$ 1,78 mil (lembrando que o cálculo de renda per capita não leva em conta as desigualdades de renda, tratando-se apenas da divisão do PIB pela população, dá para se imaginar a extrema miséria em que sobrevivem os haitianos mais pobres).    

A Guatemala, país onde outrora existiu a exuberante e desenvolvida civilização pré-colombiana dos maias (destruída pelos civilizados europeus), é o país mais populoso da América Central, com 17,2 milhões de habitante; PIB de USS 145,5 bilhões (pelo PPC) e renda per capita de cerca de USS 8,4 mil. O IDH guatemalteco, 0,650, é o 127º do mundo, explicando muito bem o desespero do seu povo.
Hondurenhos acampados em Tijuana: tentam entrar nos EUA.

Não é por menos que observamos hoje as levas de desesperados contingentes humanos da América Central a correrem imensos riscos tentando ingressar nos Estados Unidos, em busca da sobrevivência e esbarrando nas fronteiras da segregação que dividem o reduzido mundo populacional dos ricos do imenso mundo populacional dos pobres. 

Países centro-americanos como Honduras (8,0 milhões de habitantes); El Salvador (6,3 milhões de habitantes); Nicarágua (6,0 milhões de habitantes) e a ilha da Jamaica (3,0 milhões de habitantes) seguem o mesmo padrão de pobreza e de regimes autoritários, corruptos e opressores que caracterizam a periferia do capitalismo.

Nesse contexto, embora sejamos críticos da opção capitalista de Estado do regime cubano (o qual é cada vez mais oprimido por embargos econômicos e pelas regras absolutistas do  capital que lhe impõem subordinação à volta gradual às regras de mercado), devemos afirmar, em contraponto à tendenciosidade reacionária da imprensa tradicional, que os números da sócio-econômicos de Cuba são de fazer inveja aos seus vizinhos centro-americanos, pois detém renda per capita de US$ 10,2 mil, PIB nominal de US$ 68 bilhões e IDH de 0,777, ocupando o 73º lugar no ranking mundial.  

A América do Sul, com sua população de pouco mais de 400 milhões de habitantes distribuídos por 12 países e 7 territórios, tem extensão territorial correspondente a 12% da superfície terrestre do nosso planeta. 
Desmatamento na Amazônia legal cresceu 54% entre jan/18 e jan/19
Sua importância estratégica no cenário geopolítico decorre mais mais da sua potencialidade de riquezas materiais e vasto território do que, propriamente, de suas riquezas abstratas.

A floresta tropical amazônica, por sua exuberância territorial, biodiversidade e riquezas minerais, ainda com baixíssima densidade demográfica, apresenta aspectos relevantes no contexto ecológico mundial. 

Tida como o pulmão do mundo, a região amazônica é detentora das maiores reservas hídricas da Terra, mas vem sendo devastada pela exploração predatória tanto dos seus recursos florestais como da extração mineral. Trata-se de um reflexo tristemente desolador da lógica capitalista, que tudo decompõe em favor da lucro ecocida. 

Com o Brasil agora submetido a um governo com prevenção ideológica contra qualquer questionamento das agressões à natureza, estamos a assistir ao desmonte dos já parcos mecanismos de controle; a impressão é de um liberou geral para tudo o que representa ganância mercantilista de exploração predatória.
"um liberou geral para a ganância mercantilista"
As recentes ações governamentais, no campo da preservação ambiental, vão exatamente na contramão daquilo que a consciência ecológica mundial em formação recomenda como modo de convivência comercial sustentável. 

Isto, ao invés de alavancar nosso desenvolvimento econômico como anseiam o ministro Paulo Guedes, a direita e também a esquerda estatista, pode é nos criar dificuldades ainda maiores (vide, p. ex., a recente ameaça comercial de cientistas integrantes de organismos da União Europeia). 

Dissemos neste artigo recente que tratou da identidade entre Brasil, Argentina e Venezuela, que:
"O Brasil (...) padece sob uma taxa de desemprego renitente, situada em torno de 11% (que corresponde a um total de 12 milhões de trabalhadores aptos ao trabalho, mas submetidos ao desespero de não poderem vender a única coisa que têm, a força de trabalho).  
Pagamos juros altos, que correspondem ao dobro de todos os custos referentes à previdência social (suprimi-los, portanto, tornaria desnecessária a reforma previdenciária!).
"filhos desequilibrados e deslumbrados"
E ainda temos um agravante: elegemos um presidente primário, que parece usar aquelas viseiras laterais que impedem a visão periférica, além de influenciado por filhos desequilibrados e deslumbrados com as perspectivas do poder. O resultado é um governo desconexo"
O quadro político-econômico brasileiro é desolador, uma vez que estamos sendo dirigidos por um desgoverno que se digladia entre correntes internas de pensamentos obtusos. Fizeram uma população desinformada e desesperada crer que bastaria um combate rigoroso à corrupção para as dificuldades brasileiras terem fim, mas agora se apercebe que o buraco é bem mais embaixo. 

Entre agressões verbais feitas tanto por um filho do capitão presidente Boçalnaro, o ignaro quanto pelo guru exotérico presidencial auto-exilado Olavo de Carvalho ao vice-presidente General Mourão e militares, justamente num governo que emprega predominantemente generais da reserva nos seus escalões superiores, podemos compreender bem a dimensão da desconexão governamental. 

Simultaneamente se tenta socar goela dos brasileiros empobrecidos abaixo a fantasia de que a reforma da previdência social é a varinha de condão capaz de promover a retomada do desenvolvimento econômico num mundo em recessão econômica.

Os dirigentes governamentais não esclarecem (embora o devessem fazer por honestidade informativa) que:
— a reforma da previdência nada mais é do que a restrição de direitos constitucionalmente consagrados como cláusula pétrea, em obediência às ordens da ditadura falimentar do capitalismo e seu Estado; e 
"cantilena falaciosa repetida milhares de vezes"
— que, apesar de melhorar as contas públicas com o sacrifício de uma população já exaurida, isto não representará receita nova, mas tão somente a eliminação de gastos numa rubrica que é mais fácil de ser enxugada eliminada sem retaliações mercadológicas e financeiras dos agentes econômicos.

O povo mais uma vez é chamado a se sacrificar com a promessa de dias melhores, ou seja, uma cantilena falaciosa que, repetida milhares de vezes pela mídia de informação sistêmica, tenta nos convencer de que o que é mau é bom, e que o mal é um bem. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

quinta-feira, 11 de abril de 2019

CARTA ABERTA DE DALTON ROSADO A CESARE BATTISTI

Caro companheiro Cesare Battisti,
.Queremos, todos nós que aqui no Brasil lutamos pela sua liberdade e permanência em nosso país, dizer que não nos arrependemos nem um milímetro de tudo que fizemos. 

Ainda que adivinhássemos qual seria o desfecho da perseguição mundial que contra você foi movida, como caça a um troféu de guerra contrarrevolucionária, e mesmo levando em conta a sua confissão (sob as condições que as forças militares fascistas costumam usar), faríamos tudo novamente. 

É que os nossos gestos foram pautados pela solidariedade a um companheiro perseguido, e tal comportamento deve ser referência para todos os que lutam contra o capitalismo, este sim assassino e genocida.

Aliás, como confiar num governo hipócrita que afirma sua comovida solidariedade às vítimas da luta armada italiana nos idos dos anos 70 do século passado, mas, quatro décadas depois, proíbe o desembarque em seu território de pessoas desesperadas, fugitivas ou de governos corruptos, sanguinários, fundamentalistas religiosos, que as massacram indiscriminadamente, ou da fome e da miséria que lhes são impostas pela lógica perversa da concorrência mundial de mercado em fim de feira? 

Não, Battisti, nós sabemos que os fascistas não têm solidariedade humana, mas apenas interesses político-econômicos nacionalistas mesquinhos; assim, jamais iriam lhe dar o tratamento humano que se deve proporcionar a todos e quaisquer prisioneiros.
"proíbe o desembarque de pessoas desesperadas"

Para eles, a insubordinação contra o poder é crime dos mais hediondos; não admitem que você e seus jovens companheiros de luta armada tenham-se rebelado, num momento da vida italiana em que centenas de grupos e grupúsculos lutavam contra o mesmo fascismo arbitrário e totalitário que ora lhe prende. 

Consideram inaceitável tal ousadia, daí a satisfação em exibir uma confissão de assassinatos totalmente estapafúrdia (considerando-se a culpa unilateral confessada), além de extemporânea. Você se transformou num bode expiatório de culpas sistêmicas sacrificado no altar das iniquidades.

Independentemente de ter existido ou não participação sua nos assassinatos que lhe são atribuídos, devemos sempre contextualizar empirica e teoricamente os acontecimentos políticos nos quais você se envolveu. 

Tenho uma visão particular da nossa luta contra o arbítrio, pois entendo que a consciência coletiva sobre a natureza do que nos oprime é o melhor antídoto contra o despotismo e a injustiça social. O ser humano consciente do seu papel na sociedade e da potência do sua capacidade de intervenção é mais forte do que qualquer levante armado. 
"A consciência é revolucionária"
A consciência é revolucionária e, quando coletiva, torna-se insuperável; mas, sei também das dificuldades para alcançá-la de modo majoritário e contributivo. 

Assim entendo porque os exemplos da História são educativos. Erra, contudo, quem criminaliza os que pegaram em armas contra as injustiças sociais. 

Isto porque não acredito no poder, e o poder armado (mesmo quando as armas estão nas mãos de idealistas sinceros) é sempre forte na imposição forçada da insubmissão, mas frágil no convencimento espontâneo do fazer, terminando por resvalar perigosamente para o arbítrio. O uso da força das armas implica a permanência da força das armas, e não a sua dissolução.

Considero que o senso de justiça que todos temos dentro do mais recôndito lugar das nossas consciências seja o atributo mais forte para a realização de sociedade humanamente solidária e socialmente justa. 

Na visão deles, vocês cometeram o crime mais perigoso: travaram a guerra anti-sistêmica que julgavam justa e que consideravam ser a única possível naquele momento, ressalvados os impulsos por vezes ingênuos da juventude. 
S. Pedro pregando nas catacumbas

Os exemplos históricos da persuasão conscienciosa contra o arbítrio são instrutivos. 

Os primeiros cristãos, que se reuniam nas catacumbas fugindo da perseguição do exército romano e usando símbolos distintivos de sua rebelião e de parceria de companheiros vivendo nos subterrâneos da sublevação (o desenho do peixe cristão) e que traziam uma mensagem de fraternidade e solidariedade inaceitáveis para Roma, foram capazes de crescer a ponto de incomodar o poder imperial jurídico-militar-escravista de então.  

A cooptação, 300 anos após a morte de Jesus Cristo, do forte movimento cristão por parte de uma Igreja que já se instituía como poder vertical, é outra história que apenas confirma o aspecto negativo do poder vertical, inclusive religioso. 

Mao Tsé-Tung dividia as guerras em duas categorias: as justas (revolucionárias) e as injustas (de manutenção do poder segregacionista). Não tenho a menor dúvida de que você fazia a guerra que julgava justa, e é este o nosso lado, ainda que possamos discordar entre nós dos métodos para alcançarmos os objetivos comuns.
Mao Tsé-Tung liderando a Grande Marcha... 
Dizia Mao: 
"As revoluções e as guerras revolucionárias são inevitáveis numa sociedade de classes. Sem elas é impossível realizar um salto no desenvolvimento social; é impossível derrubar as classes dominantes reacionárias, ficando o povo impossibilitado de conquistar o poder político".  
A frase de Mao encerra algumas verdades e alguns equívocos. 

Se é verdade que a China sob Mao e os que o substituíram no Partido Comunista Chinês, deixou de ser um país rural monárquico atrasado e miserável, a partir de ganhos como educação coletiva num pais de analfabetos e vertiginoso processo de industrialização urbana, temos de considerar também que a China é hoje um assombro para a ordem sistêmica mundial, não apenas pelo poder bélico que possui, mas por sua imensa dívida pública e privada que depende do desenvolvimento capitalista para sobreviver, e que agora se vê ameaçada.
...para depois de tudo se chegar a isto?!

A revolução armada chinesa, ao invés de convergir para a sociedade sonhada por Marx, sem classes sociais, sem Estado e sem a mercantilização da vida, tornou-se o oposto disso. 

Ou seja, está profundamente dividida em classes sociais (há alguns milhões de milionários, e bilhões de trabalhadores miseráveis); tem um estado centralizador, cada vez mais forte e presente na vida social; e é completamente dependente do capitalismo internacional para continuar viável.

O paradoxo disso é que hoje, ao invés de ameaçar o capitalismo pela revolução armada, o governo chinês está (sem o desejar) colocando em xeque o próprio capitalismo com a dessubstancialização do valor provocada pela produção de mercadorias baratas, fruto de tecnologia aplicada à produção das ditas cujas com salários miseráveis e nenhum direito trabalhista. 

A revolução armada bolchevique degringolou para o que é hoje a Rússia: um país governado por um déspota eleito com a influência do poder econômico e militar, exibindo todos os defeitos do capitalismo ocidental.

Avalio que o problema desses dois exemplos históricos  residiu justamente na não superação, desde o início, das categorias capitalistas, principalmente pela permanência  do Estado forte, militarizado, regido pela lógica capitalista de Estado, o que demonstra que não é a força, mas a consciência sobre a natureza da relação social o que determina a revolução.

Caro Battisti,

o fato de estarmos aqui a defender uma revolução emancipacionista a partir de um novo modo de produção compatível com a realidade atual, que una o saber tecnológico à produção social, e uma racional utilização do potencial humano de produção coletiva, excluindo-se o trabalho abstrato produtor de valor, não invalida todas as tentativas bem intencionadas de lutas armadas que propunham um poder forte de transição, como a do seu grupo e de tantos outros companheiros, bem como as dos heroicos bolcheviques russos e maoístas chineses. 

É da História e dos nossos erros que podemos fazer ilações revolucionárias e procedermos às necessárias correções de rumo. 

Compreendemos o seu cansaço de eterno perseguido mundo afora; compreendemos a sua condição humana de sofrimento e nos solidarizamos com você; repudiamos a covardia de nossos falsos amigos que lhe entregaram aos seus algozes; além de repudiamos, principalmente, os que têm dois pesos e duas medidas nos seus critérios hipócritas de falso humanismo. 
"que suas filhas e filho tenham orgulho do que você representa"

Desejo que daí, do frio cárcere italiano, você possa se sentir orgulhoso de ter travado o bom combate; de ter feito a chamada guerra justa (ainda que isso possa ser considerado um critério de avaliação particular); e que saiba que, ao invés de julgarmos você como um criminoso confesso, o consideramos como um companheiro perseguido e merecedor de respeito e solidariedade.

Desejamos que suas filhas e seu filho brasileiro, ainda menino incapaz de compreender tudo que envolve a vida do seu pai, possam vir a ter, como nós temos hoje, orgulho de tudo que você representa em termos de busca da emancipação social.   

Um abraço fraterno, Dalton Rosado

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

FOI NATAL NO MUNDO INTEIRO, MENOS NOS EUA: COMO PODERIA HAVER NATAL QUANDO UMA CRIANÇA MORRE EM CATIVEIRO?!

Jakelin, a vítima anterior, foi enterrada no dia de Natal
O Natal terminou mal acabava de começar nos Estados Unidos: pouco depois da zero hora, um menino guatemalteco de 8 anos morreu em cativeiro na terra dos livres e lar dos bravos

Aqueles sob cuja guarda ele estava nem sequer revelam seu nome ou por quanto tempo ele permaneceu detido. 

Vergonha? Só se tivessem caráter, mas duvido que o possuam, caso contrário escolheriam profissão mais digna. O mais provável é que queiram apenas diminuir a repercussão de um episódio no qual falharam miseravelmente.

No mesmo dia em que o menor expirou, era enterrada outra criança da Guatemala que encontrou a morte nos campos de concentração estadunidenses (eles os chamam de abrigos para imigrantes): a menina Jakelin Caal Maquín, com 7 anos. 
Crianças das raças inferiores enjauladas: Hitler aplaudiria!

Deveriam demolir a Estátua da Liberdade. Ela se tornou fake.

O homicida é por todos conhecido, mas não será jamais punido pelos podres poderes de lá, tão putrefatos como os daqui. 

Chama-se Donald Trump, um psicopata xenófobo que fecha com muros caiados, arames farpados e policiais odiados as fronteiras do país, no afã de evitar que as vítimas da miséria a ele acorram, tentando desesperadamente salvar suas vidas e suas proles.

Repete o que o Império Romano fez no seu ocaso, e não por acaso encaminha-se para o mesmo destino: o de ser invadido e destruído pelos de fora, quando eles se tornarem tantos que ninguém de dentro os consiga mais deter.

P.S.: depois que este post já estava no ar, chegou a informação de que a agência estadunidense de Alfândega e Proteção de Fronteiras está agora prometendo fazer exames médicos em todas as crianças sob sua custódia.

Não deveria ter tomado tal providência desde o início, ou, pelo menos, assim que morreu a menina Jakelin?  

Os burocratas insensíveis também divulgaram (finalmente!) quem foi sua segunda vítima: Felipe Alonzo Gomez. Vai ver que só ficaram sabendo agora. Sabem como é, que lhes importa o nome daqueles a quem eles e seu presidente tanto desprezam? (por Celso Lungaretti)
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