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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

BOULOS, UMA CANDIDATURA INÚTIL

Lênin falava do cretinismo parlamentar em sua época, a crença da transformação social através da conquista da maioria nos parlamentos para, por dentro do Estado, ir mudando o capitalismo. No Brasil, pela própria fragilidade histórica do poder legislativo, nunca houve propriamente um cretinismo parlamentar, mas um cretinismo passível de ser denominado executivo, a ilusão de ser possível mudar o país assumindo postos nos municípios, nos estados e por fim no governo federal. 

Historicamente, o Partido dos Trabalhadores, com Lula à frente, foi a maior expressão desse cretinismo executivo, mas o fracasso completo do lulismo provou a impossibilidade de transformação social através do estado. Contudo, o fiasco petista não significou o desaparecimento por completo dessa ilusão, permanecendo em forma de paródia através de Boulos e seu PSOL. 

Boulos, um cosplay mal engendrado do Lula, foi estrategicamente colocado dentro do partido para minar sua autonomia e neutralizar uma agremiação que durante muito tempo causava incômodo a Lula e ao PT. Surgido após a reforma da previdência de 2003, o PSOL congregava uma oposição de esquerda com relativa força, capaz mesmo de incomodar o lulopetismo naquilo que mais importa a ele: o voto. Boulos entrou para fazer o papel do cavalo de Tróia, arrastando o partido para o lulismo e isolando, paulatinamente, as forças independentes. O resultado final é visto hoje, com o PSOL sendo apenas um puxadinho do PT. 

Boulos cumpre a função de ser um lulismo repaginado, menos desgastado, mas igualmente reacionário. Sua proposta política é simplesmente uma continuação das concepções rebaixadas do liberalismo de esquerda em que se acredita serem programas sociais, parcerias público-privadas, leis sociais e outras quinquilharias o meio para transformar a sociedade, nunca, contudo, colocando em causa a propriedade privada e o capital. 

Pior, pois uma prefeitura possui limites claros e mesmo São Paulo, o terceiro maior orçamento do país, atrás apenas do próprio Estado homônimo e da União, não detém capacidade para implementar transformações mínimas nas condições de vida da população. Além disso, a condição de limitação financeira imposta pelo ajuste fiscal e a própria crise capitalista transformam a experiência da gestão municipal em apenas desgaste para quem dela se ocupa. Ou seja, Boulos, caso eleito, fatalmente fracassará e sua experiência só servirá para piorar a imagem da esquerda frente ao povo, pois esse não distingue a esquerda autêntica de seus simulacros. 

Assim, não é possível qualificar Boulos e sua candidatura de outra coisa que não seja um grande desserviço! (por David Coelho) 


sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

QUANDO NINGUÉM ESPERAVA NADA DE GRÊMIO x SÃO PAULO, SURGE UMA GRATA SURPRESA: O GOL "JORNADA NAS ESTRELAS"

Acompanho o futebol desde, pelo menos, 1960, então não acreditava que ainda veria novidades como o gol marcado nesta quinta-feira (2) pelo quase desconhecido Jhonata Robert, um pernambucano com pouco mais de 22 anos que atua como ala ou meio-campista no Grêmio.

Simplesmente a bola vinha caindo no círculo central e Jhonata, que chegou correndo, deu um balão para o alto antes que ela quicasse no chão. Foi cair dentro do gol de Volpi, que estava adiantado e não conseguiu voltar em tempo. 

Já nos acréscimos, o Grêmio transformou em goleada a vitória, no estádio Olímpico (RS), contra o apático São Paulo, pelo Brasileirão 2021: 3x0. 

Faltando duas rodadas para o final do campeonato, o tricolor gaúcho tem chances apenas matemáticas de escapar do rebaixamento, enquanto o tricolor paulista parece já estar a salvo. 

Mas, uma difícil combinação de resultados ainda o pode degolar, o que o faria arrepender-se amargamente do desinteresse com que disputou a partida de ontem, deixando-se amassar o tempo todo.  
Tentos que futebolistas marcaram de muito longe deixaram de ser novidade após a célebre tentativa de Pelé no Mundial Fifa de 1970, que, contudo, ficou no quaseMas, em todas conheço, o arremate foi desfechado para a frente e passaria por cima se não tivesse caído aos poucos.

O chute de Jhonata foi para o alto, em ângulo inclinado, e caiu quase na perpendicular. A chance era enorme de, ao atingir o solo, bater no chão e passar por cima da meta. Mas, aterrissou tão próxima da chamada linha fatal que não subiu o suficiente para superar a altura do travessão. 

Foi mais uma incrível sorte do que competência. Ainda assim, exatamente pelo inusitado e pela raridade, merece todos os prêmios de mais belo gol do ano, inclusive o da Fifa.

Fez-me lembrar o saque jornada nas estrelas, com que o brasileiro Bernard Rajzman surpreendeu o mundo do vôlei no Mundialito de 1982, disputado no Maranãzinho (RJ). 

Ele o criou no vôlei de praia, ao perceber que mandando a bola uns 25 metros para o alto, ela caía com trajetórias surpreendentes por causa do vento e os adversários eram ofuscados pelo sol ao tentarem a defesa.
Adaptou a jogada para ginásios cobertos, nos quais os holofotes atrapalhavam tanto quanto o sol ao ar livre. Chegou a marcar, graças a seu saque inovador, quatro pontos seguidos contra a Coréia e um decisivo na vitória por 3x2 contra a União Soviética, levando o público ao delírio. 

Mas logo a jogada foi assimilada pelos adversários, que aprenderam como anulá-la, e o jornada nas estrelas (apelido inspirado na franquia cinematográfica) caiu em desuso.

Para, surpreendentemente, algo semelhante a ela ressurgir no futebol, quase quatro décadas depois. (por Celso Lungaretti)    

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A SÃO PAULO QUE EU AMEI TINHA UM CINE ALIANÇA PERTINHO DE CASA

“Eu quero pulgas mil na geral, 
eu quero a geral.
Eu quero ouvir gargalhada geral
Quero um lugar para mim, pra você
Na matinê do cinema Olympia, 
do cinema Olympia”
(Cinema Olympia, Caetano Veloso)

Ao derrotarem Cartago na 3ª Guerra Púnica, os romanos fizeram a imponente rival sumir do mapa, literalmente: não só incendiaram e destruíram a cidade, como araram as terras com sal, para que nelas nada mais florescesse, nem se soubesse ao certo sua localização.

Quais seriam os sentimentos de um cartaginês sobrevivente, ao percorrer os sítios familiares e nada encontrar além do deserto?

Provavelmente, não muito diferentes dos meus. A São Paulo que ontem comemorou 462 anos não é mais a cidade que conheci e amei, tanto que, na esquina da rua Visconde de Inhomerim com a Madre de Deus, nem mesmo os escombros do Cine Aliança existem mais; o velho cortiço foi derrubado e substituído por um feio prédio comercial.

Não foi só um cinema que apagaram do mapa. São as melhores recordações da minha infância que deixaram de ancorar-se na realidade visível.

Logo, logo, nada mais restará das casas em que morei, das escolas nas quais estudei, dos cinemas, teatros, livrarias, campos de futebol, botecos e outros palcos de acontecimentos marcantes da minha existência.
Anúncio típico nos jornais de antigamente

Uma cidade diferente terá sido erguida sobre eles, como a alertar-me de que doravante me tornarei, cada vez mais, um estranho numa terra estranha.

É o destino dos que chegam a uma idade avançada: irem perdendo todas as referências do seu passado, até nada mais os prender à vida.

No meu caso, entretanto, a Morte não terá sua tarefa facilitada. Escrevo, logo existo. Se passarem rolos compressores sobre minhas lembranças, ainda assim as farei existirem no espaço virtual.

Então, enquanto o teclado continuar obediente ao meu comando, poderei relatar às novas gerações que existiu, p. ex., um cinema chamado Aliança, numa Mooca que era um bairro fabril de São Paulo, reduto da baixa classe média e de imigrantes italianos.

Tinha umas 400 poltronas na platéia, mais algumas dezenas no balcão e oito no topo, ao lado da sala de projeção, para convidados especiais.

Um detalhe pitoresco era a cortina, totalmente preenchida pela pequena publicidade dos comerciantes do bairro, dezenas de anúncios de diferentes tamanhos. Alguns podiam ser lidos com facilidade até da última fileira, outros nos obrigavam a forçar a vista.
O prédio do cine Aliança se tornou um feio cortiço...

Os anunciantes também bancavam um folhetinho entregue gratuitamente na bilheteria –e que logo sucumbiria à progressiva queda de receita dos cinemas.

Na década de 1950, quando eu era menino, o Aliança já enfrentava a concorrência da televisão. Mas, não eram muitas as famílias em condições de adquirirem aparelhos de TV; meu pai, contramestre de tecelagem, só conseguiu comprar o primeiro em 1963.

Enfim, o simpático pulgueiro ia  perdendo seu público a conta-gotas, mas implacavelmente.

Só lotava nas matinês de domingo, quando assistíamos aos filmes que nos inspiravam sonhos e brincadeiras pelo resto da semana. Eram dois, quase sempre bangue-bangues, comédias, fitas de ação e de monstros.

Entre um e outro, o filme-em-série, dividido num sem-número de episódios e sempre interrompido em momento culminante (canhestra tentativa de fidelizar o público infanto-juvenil), os trailers e as abomináveis resenhas noticiosas do Primo Carbonari, sempre recebidas com estrepitosas vaias.

Torcíamos pelos mocinhos, gritávamos, fazíamos bagunça, comíamos os doces que um funcionário vinha vender no intervalo, distribuídos num tabuleiro que ele carregava à altura da barriga.
...e hoje, reformado, está assim.

Além das ruas, que pertenciam a nós e não aos carros, os cinemas dominicais eram o espaço que tínhamos para ser crianças num mundo moldado para os adultos.

O Juizado de Menores fazia as vezes de bicho-papão para nós. Em todas as sessões, havia quem não atingira a idade obrigatória: 5 ou 10 anos. Cinemas de bairro permitiam o acesso, pois cada centavo era importante para assegurar sua sobrevivência. E mantinham uma troca de informações entre si, de forma que o primeiro visitado pela blitz do Juizado alertava os demais, evitando que fossem surpreendidos.

Meus pais gostavam de cinema e não tinham com quem me deixar, então negociavam com o gerente minha presença nas sessões noturnas do Aliança, mesmo quando os filmes eram proibidos até 14 ou 18 anos.

Na maioria das vezes, ficávamos na platéia. Quando o Juizado andava rigoroso, éramos encaminhados para o balcão ou mesmo para as tais poltronas ao lado da sala de projeção, que acabavam servindo também para burlar a fiscalização. Houve uma vez em que tivemos de sair antes do filme terminar, bem a tempo de não sermos surpreendidos pela chegada da viatura.

Não penso ter sofrido nenhum efeito nocivo ao assistir a filmes proibidos. Encarava tudo com a maior naturalidade. Só uma vez fiquei apavorado, com uma fita sobre maldição de faraó. Os arqueólogos começaram a retirar os trapos que envolviam a múmia e, sei lá por quê, não aguentei olhar para a tela.
Cine Belas Artes: o único que salvaram da extinção em Sampa. 

Meu mocinho predileto era o Randolph Scott. Fazia questão de ver todos os filmes dele. Muito tempo depois, fiquei sabendo que aquele machão de olhar de pedra das telas formava um casal com o Clark Gable na vida real.

Filmes como Cinema Paradiso e Splendor, ao reconstituírem esse passado, flagram o fascínio cinematográfico em pequenas cidades italianas, que tinham um único cinema, quase sempre na praça principal.

Já na Mooca de meio século atrás havia mais cinco (o Icaraí --depois Ouro Verde--, o Patriarca, o Moderno, o Safira e o Imperial) e outros tantos nos bairros próximos. Mesmo assim, um era sempre o especial, aquele com o qual mais nos identificávamos. O Aliança foi o meu Cinema Olympia.

Daí a tristeza com que acompanhei sua decadência. Certa vez, já na década de 1960, fiquei surpreso ao constatar que era o único espectador de uma sessão de sábado!

Depois, veio uma fase de filmes de nudismo, que despertaram algum interesse inicial, mas logo deixaram de dar boa bilheteria.

Aliança virou boliche para aproveitar a onda (passageira), depois voltou a ser cinema. Em vão. Já não tinha propriamente espectadores, só poucas e desinteressadas testemunhas.

A agonia terminou na década de 1970, quando o projetor foi apagado para sempre.

E a pá de cal veio no final da década passada, com a derrubada do pardieiro em que se amontoavam as famílias pobres de um bairro agora próspero... mas inóspito! [Uma Mooca esnobe, que briga com seu passad, a ponto de não querer lembrar que foi o bairro onde começou a primeira --e vitoriosa!-- grande greve brasileira, organizada por anarquistas em 1917!]

No entanto, o amor pelo cinema, despertado nas matinês do Aliança, me ficou para sempre. Bem como essa teimosia de querer que os sonhos e fantasias sejam inspirações para a vida, ajudando-nos a reencontrar a humanidade perdida.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

SÃO PAULO APAGA 462 VELINHAS. "PORÉM COM TODO DEFEITO, TE CARREGO NO MEU PEITO..."

Uma das minhas mais remotas lembranças é a de, com três anos e três meses de idade, assistir com meus pais às comemorações do IV centenário de São Paulo, no vale do Anhangabaú.

Era começo da noite e o melhor lugar que encontramos, em meio à enorme multidão, foi no viaduto do Chá.

O que mais me encantou: a chuva de aviõezinhos de papel laminado, que eram atirados do topo de edifícios e lampejavam à luz dos holofotes. Que criança não se deslumbraria?

Mas, o ufanismo paulista nunca me contagiou. Locomotiva do Brasil --e daí? Quando pequeno, não dava muita importância ao que estava além de minhas experiências e conhecimentos. Depois, entendi muito bem o que aquilo significava mas, cabeça feita por Monteiro Lobato, preferia os artistas e pensadores aos ganhadores de dinheiro. Sou assim até hoje.

Minha mãe, coitada, acreditava que ter-se industrializado antes fazia São Paulo melhor do que o resto do Brasil. Em suas tentativas canhestras de lançar-se como compositora, criou um mostrengo que, felizmente, nunca ninguém gravaria: "Este São Paulo é um colosso/ Tem cafezais e algodão/ Sua indústria assombra/ É a maior da nação/// Venha assistir a sua luta incessante/ para ver que tem o paulista/ fibra de herói e de bom bandeirante..."


Na Mooca dos anos 60, os jovens projetavam para si carreiras de engenheiros, médicos, advogados e que tais --pois os pais incutiam-lhes desde cedo o sentimento de dívida: tendo a oportunidade de estudar que a eles próprios não fora dada, deveriam chegar aonde gostariam de ter chegado. Para quê? Para terem bons empregos, casas, carros, quinquilharias. 

[Eu percebia claramente no meu pai --que começou a trabalhar aos 11 anos de idade no Crespi e passaria os 45 anos seguintes no mesmo prédio, embora com patrões diferentes-- o sonho inconfessado de me ver na pele do imponente ingegnere daquele gigantesco cotonifício. Mas, deu-me a liberdade de escolha e aquele papel eu não me sentia talhado para desempenhar.]

Até pensei em me tornar engenheiro químico, mas fascinado pelos cientistas loucos dos filmes de terror e não por ambições materiais. Aliás, nunca as teria.

Estudar no Ginásio Estadual (depois Colégio) MMDC não me fez entusiasta da Revolução Constitucionalista de 1932, embora a escola tentasse nos incutir os valores correspondentes. Veteranos vieram algumas vezes fazer palestra para nós, medalhas balançando nos peitos. Mas, caindo aos pedaços, pareciam mais caricatos do que heroicos. 


Uma jovem e desejável professora de música chegou a criar um hino que começava assim: "Nós somos os estudantes/ Que só chegaram depois/ Dos gloriosos instantes/ De julho de 32/// Herdamos seu heroísmo/ A sua tenacidade/ O seu gesto de civismo/ Defendendo a liberdade". Ela e minha mãe formariam uma boa dupla.

Ao me tornar revolucionário, engoli sem pestanejar a versão que os historiadores ligados ao PCB difundiram e prevalece até hoje na esquerda, de que a Revolução Constitucionalista não passara de um movimento orquestrado pela oligarquia industrial-cafeeira de São Paulo. 

Mas, depois da passagem pelos porões da ditadura militar, passei a ver com outros olhos os regimes que detêm poder de vida e morte sobre os governados, concluindo que nada, absolutamente nada, justifica que seres humanos sejam submetidos àqueles horrores que eu sofrera e presenciara.

E, lendo historiadores mais isentos (o stalinizado Partidão precisava provar que estava e sempre estivera certo, até ao apoiar ditaduras fascistoides como a de Vargas), percebi que a revolta contra o governo ilegítimo era generalizada entre a classe média paulista. 


Os quatro do MMDC, mais o que morreu logo depois (Orlando de Oliveira Alvarenga) e não foi celebrado como Marins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, eram simples estudantes, nem de longe pertencentes à aristocracia reacionária. Há de tudo numa luta dessas, mas eu diria que o anseio por liberdade pesou mais do que a defesa de privilégios. E é inconcebível a esquerda, sob quaisquer subterfúgios, alinhar-se com despotismos.

Não que inexista conservadorismo e reacionarismo em São Paulo. Evidentemente, há. Percebe-se isto até no esquecimento a que são relegados episódios tão marcantes como a grande greve de 1917, varrida da memória paulista e paulistana. E são duros de engolir os cinco mandatos consecutivos do PSDB no governo estadual, marcados por episódios chocantes como o da barbárie no Pinheirinho. Mas, exageram os que maximizam a importância daqueles gatos pingados que, nas manifestações pró-impeachment na avenida Paulista, pedem a volta da ditadura; os nostálgicos do arbítrio são exceção irrisória, jamais regra.

A Mooca proletária dos meus verdes anos deixou de existir, hoje os novos ricos tomaram conta. A avenida Paes de Barros virou um boulevard de bancos e empresas com instalações faraônicas. Os marcos do meu passado viraram pó que o vento do tempo espalhou.


Ainda acontece alguma coisa no meu coração quando cruzo a Ipiranga com a São João, apesar da visível decadência do centro velho, do desfilar de zumbis do crack e marginais, de o cine Ipiranga não existir mais, de o Marabá ter virado colmeia de salinhas malcheirosas e o Metro, templo da fé mercantilizada.

E não gostaria, como no pesadelo bizarro de Arnaldo Baptista, de ver uma bomba H destruindo São Paulo.

Mas, o encanto há muito passou, até porque não existem mais aviõezinhos de papel jorrando do alto dos edifícios... 

Então, fico com o Tomzé e sua oportuna ressalva: "porém com todo defeito/ te carrego no meu peito".

domingo, 19 de outubro de 2014

BRASILEIRO. VOCAÇÃO: INSPETOR DE QUARTEIRÃO.

Leio no Estadão que as "áreas mais pobres da cidade (...) foram tomadas por uma aflição geral", temendo que a água termine de vez em São Paulo. E, como sempre, os moradores correram a policiarem uns aos outros:
"Em lugares como o Parque Cocaia, no extremo da zona sul, moradores, com auxílio de comerciantes e lideranças comunitárias, criaram até um 'código moral' para o uso do recurso. Eles avaliam que agora ninguém mais tem direito a desperdiçar 'nenhuma gota'.
Jovens passam o dia circulando de motos pelas vielas estreitas do bairro, chamando a atenção de quem é flagrado lavando calçada ou veículo"
Assim é o brasileiro: um inspetor de quarteirão em potencial, doidinho para ter uma chance de exercer sua otoridade sobre os iguais.

Nunca lhe ocorre que tais paliativos podem, no máximo, atenuar um tiquinho o problema.

Como São Paulo não é nenhum território independente, cabe ao Brasil encontrar uma solução real, obviamente desviando água de Estados dela menos carentes para socorrer os paulistas.

Mas, a terrível obtusidade e pequenez dos governantes faz com que o elástico seja esticado ao máximo, com risco de arrebentar na cara das criancinhas, dos idosos e dos inválidos. A racionalidade só virá depois da eleição. Até lá, os brasileiros de São Paulo estarão sendo tratados como reféns, pois seu desespero serve aos objetivos da mais ignóbil politicalha.

Os patrulhadores de vizinhos nunca voltarão o olhar para o alto. Sempre vão preferir aporrinhar e fustigar outros coitadezas, pois assim sentem-se menos coitadezas.

E, tão valentes quando se trata de baterem boca ou partirem para arranca-rabos com idênticos zé-manés, borram-se de paúra ante a perspectiva de confrontarem os poderosos e os governantes, sempre os maiores culpados pelos infortúnios que se abatem sobre estes tristes trópicos.

P.S. - há poucos dias, comentei que já não tenho acesso às fontes de bastidores com as quais contava ao atuar na grande imprensa, só me restando confiar nas avaliações que faço e no que depreendo do acompanhamento atento do noticiário.  Assim, neste texto escrito na tarde de domingo, critiquei a não destinação para São Paulo de água de outros Estados que estão em situação mais confortável. Era uma conclusão óbvia a se tirar do quadro atual. Para minha surpresa, o candidato Aécio Neves tocou neste assunto hoje, 2ª feira, criticando o aparelhamento da Agência Nacional de Águas. Como não creio que ele me leia, deve ter sido mera coincidência. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

JUSTIÇA DE SP DÁ À PM "UM SALVO-CONDUTO PARA A TRUCULÊNCIA E A VIOLÊNCIA SEM LIMITES"

Por concordar com cada palavra deste artigo dos presidentes do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de SP (José Augusto de Camargo) e da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de SP (Rubens Chiri), reproduzo-o na íntegra. 

Só faço uma pequena ressalva: o título ficaria melhor com o acréscimo do advérbio mais, pois decisões judiciais infames (esta aqui, p. ex.) pululam em São Paulo, onde o autoritarismo que emana do Palácio dos Bandeirantes parece ter contaminado o Palácio da Justiça. 


Às vezes, tenho a impressão de que os dois palácios se tornaram vasos comunicantes...

UMA DECISÃO JUDICIAL INFAME

Com uma penada, a Justiça de São Paulo colocou em risco dois direitos fundamentais para a vida em um Estado democrático de Direito: o de informar corretamente e o de ser bem informado.

Foi esse o sentido do acórdão votado por unanimidade no Tribunal de Justiça de São Paulo, que atribui culpa "exclusivamente" ao repórter fotográfico Alex Silveira por ele ter levado um tiro de bala de borracha no olho esquerdo enquanto registrava um protesto de servidores na avenida Paulista, em 2000. Disparado pela Tropa de Choque da Polícia Militar, o projétil deixou o fotógrafo cego de uma vista.
Consequência da impunidade: Alex Silveira já havia sido atingido em 2000...

Diz o texto do acórdão que, ao se manter "no meio" do conflito entre manifestantes e policiais, Alex Silveira "colocou-se em quadro no qual se pode afirmar ser dele a culpa exclusiva do lamentável episódio do qual foi vítima".

É claro que repórteres podem fazer suas reportagens por telefone, que fotógrafos podem cobrir manifestações voando de helicóptero ou operando o "joystick" de um drone. Se procedessem assim, jamais se colocariam "no meio" de conflitos.

A melhor tradição do jornalismo, contudo, privilegia o colocar-se "no meio" do cenário dos acontecimentos para, assim, narrar com mais precisão e verossimilhança os enfrentamentos que ocorrem e que constituem a própria matéria-prima da notícia. Ou alguém imagina que Euclydes da Cunha (1866-1909) poderia escrever "Os Sertões" sentado em uma escrivaninha na sede do jornal "O Estado de S. Paulo"?

"Estar no meio" é missão do jornalismo, do jornal e dos jornalistas, que, aliás, por isso mesmo, compõem o que se chama de "media", ou, em bom português, meio. Só os inimigos da liberdade de informar e de ser informado podem imaginar que se possa produzir jornalismo de qualidade e com alto grau de confiabilidade "de longe".

A decisão da Justiça de São Paulo embute mais um sério agravante. É o que dá à Polícia Militar --a quem caberia garantir a segurança nas manifestações-- um salvo-conduto para a truculência e a violência sem limites, inclusive atacando jornalistas quando no estrito cumprimento do dever de informar.
...por uma bala de borracha igual à que vitimaria Giuliana Vallone em 2013.

É sabido que, de junho de 2013 até hoje, 190 jornalistas foram agredidos durante manifestações --88% deles foram vítimas de abusos cometidos por policiais. Preocupa-nos a escalada de violência da PM contra as manifestações populares e, em seu bojo, as evidências de que as forças policiais passaram a atingir deliberadamente jornalistas, tentando impedir que registrem abusos e ilegalidades.

A decisão do Tribunal de Justiça no caso do fotógrafo Alex Silveira dá cobertura aos abusos da polícia e abre precedente inaceitável para que esse tipo de violência prossiga e, quem sabe, até se agrave.

Por isso, consideramos imperioso que as instâncias da Justiça brasileira reformem a infeliz, gravíssima e injusta decisão tomada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Os jornalistas e repórteres fotográficos prestam solidariedade ao colega Alex Silveira e desejam que o Estado seja responsabilizado por essa terrível agressão ao nosso companheiro e à liberdade de imprensa. (José Augusto de Camargo e Rubens Chiri)

domingo, 24 de janeiro de 2010

A SÃO PAULO, COM AMOR E DOR

"São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor

São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor"
(Tom Zé)

A primeira lembrança que tenho de São Paulo é o quarto centenário, em 1954.

Eu estava com três anos e meus pais me levaram na festa que teve lugar no Viaduto do Chá, à noite.

Uma multidão como eu nunca vira e as luzes poderosas, refletidas nos aviõezinhos de papel laminado que jorravam do alto dos edifícios, ficaram gravadas para sempre na minha memória.

E eu soube que vivia numa cidade chamada São Paulo. Que essa cidade fazia 400 anos. E que era muito mais imponente naquele local das festividades do que onde eu residia.

Fui captando melhor esse contraste à medida que crescia.

Morava na Mooca, bairro operário que gravitava em torno de um cotonifício gigantesco, o Crespi, tomando um quarteirão inteiro.

Além disso, havia muitas outras fabriquetas. E na Mooca moravam, principalmente, os operários dessas indústrias e os que nelas haviam trabalhado. Gente simples e austera.

Ao centro eu ia com minha mãe uma vez por mês, pois, naquele tempo, pagava-se o aluguel no escritório do locador.

Bom para mim, que via cenários diferentes e era premiado com uma guloseima do Café Moka, na Praça da Sé.

Sentia-me achatado pelos arranha-céus e estranhava todos aqueles homens de terno passando apressados. Parecia estar num mundo diferente, de grandes lojas, vitrines enfeitadas e movimento incessante.

Aquilo me parecia o progresso, a modernidade, desvalorizando, aos meus olhos de menino, o bairro pobre do meu dia a dia.

O chamado centro histórico de São Paulo, entre as praças da Sé e da República, concentrava comércio, entretenimento e bancos, principalmente.

E a proximidade do Palácio do Governo, nos Campos Elísios, ajudava a manter essa região como a principal da cidade.

Mas, o Palácio se foi para o Morumbi, em 1965.

Os ricaços, aos poucos, mudaram dos arredores. E, a partir da inauguração do Minhocão, em 1971, os Campos Elísios e seu entorno entraram em decadência acelerada.

O comércio moveleiro de alto padrão também migrou da rua das Palmeiras, que ficava ao lado.

Como na agonia do Império Romano, os bárbaros foram tomando os territórios ao redor do centro histórico, cujo brilho só perdurou por um tempinho mais.

A partir da inauguração do Metrô, em 1974, o distrito da Sé se definiu como zona de passagem, atravessada por centenas de milhares de pessoas.

Seu comércio chique debandou e as lojas se adequaram ao perfil de uma clientela mais pobre e menos exigente.

Nos meus quase 60 anos de vida, presenciei a fase derradeira do esplendor do centro histórico e acompanhei cada momento de sua degradação.

Mais ainda do que ao Caetano, alguma coisa acontecia no meu coração ao cruzar a Ipiranga com a avenida São João.

É difícil transmitir, aos que nela já nasceram, a diferença entre a vida antes e depois da sociedade de consumo. Algo assim como interagirmos antes com pessoas, mesmo que não as melhores possíveis, e depois com meros robôs (o homo economicus em sua plenitude...).

Como disse o Tom Zé, São Paulo tinha todo defeito, era uma metrópole em que habitantes vindos de todo canto se agrediam cortesmente, correndo e morrendo a todo vapor, na perseguição frenética da grana.

Mas, ao falar em “aglomerada solidão”, ele exagerou. Pois, a indiferença, a impessoalidade, a falta de calor humano iriam intensificar-se mesmo é de 1978 em diante, ou seja, depois que ele compôs sua música célebre sobre a cidade.

E a região da Avenida Paulista, atual cartão postal de São Paulo, não substitui o centro histórico de outrora num aspecto fundamental: expressa a sociedade motorizada, em que pedestres ficam espremidos e os automóveis reinam imponentes.

Os bancos e os escritórios de grandes empresas agora estão na Paulista, tramando e implementando a desumanização, como sempre.

Quanto ao comércio e ao entretenimento, foram confinados nos shopping centers.

A sensação que me dá é de ter sido expulso das ruas e das praças, que não pertencem mais ao povo, assim como o céu deixou de ser do condor.

Ao mesmo tempo, em tardia autocrítica, percebo que a existência mais aprazível para seres humanos nunca esteve no Centrão endinheirado, mas sim na Mooca humilde da minha infância.

E, hoje, nos bairros distantes onde os vizinhos ainda se falam e conhecem, onde as crianças ainda brincam nas ruas e onde as pessoas ainda fazem parte de uma comunidade, não de um condomínio.
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