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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

O EPISÓDIO REAL DO CANTOR QUE, DEPOIS DE OBTER SUCESSO COM UMA MÚSICA SOBRE A SITUAÇÃO DE PÓS-MORTE, FALECEU JOVEM.

Um relato que me impressionou na meninice foi o do intérprete de uma composição sobre a pós-morte que realmente faleceu em seguida, vítima de um acidente improvável aos 22 anos de idade.

O povo dizia que o coitado tinha sido punido por revelar os mistérios do além, tendo então recebido o castigo de conhecer prematuramente a situação descrita na música.

Garimpando no Google, localizei o episódio. O cantor se chamava Almir Ribeiro (1935-1958) e já fazia considerável sucesso ao morrer afogado numa praia de Punta del Este apropriadamente chamada de Brava. Estava naquela cidade turística uruguaia apresentando-se no Casino San Raphael. Era sua primeira viagem ao exterior.

A música é o samba-canção Onde estou?, de Hervê Cordovil e Vicente Leporace. Visivelmente inspirado no kardecismo, mostra um espírito desorientado, ainda ignorando o que lhe aconteceu mas já suspeitando da verdade (o verso final é "será que a morte abreviou os dias meus?"). 

O compacto simples que a incluía tinha sido lançado cerca de dois anos antes de ele morrer. 

Além das elucubrações supersticiosas, outro motivo de seu destino trágico ter repercutido muito foi ele estar então namorando a também cantora Maysa, cujos amores suscitavam considerável escândalo naquela época puritana.  

Pelo sim, pelo não, dali em diante nenhum(a) outro(a) cantor(a) gravou ou interpretou essa canção. Tornou-se tabu.

Encontrei no Youtube o filme Absolutamente certo (d. Anselmo Duarte, 1957) em que Almir Ribeiro canta a música mórbida. 

Vejam na janelinha embaixo. Sabendo o que depois lhe sucedeu, dá arrepios vê-lo se movimentando erradio por um cenário digno do Zé do Caixão, enquanto dançarinos executam uma coreografia fantasmagórica  

Resolvi lembrar aqui este aspecto aparentemente premonitório porque nem no Google está presente (a notícia mais completa sobre Almir Ribeiro é esta, de um jornal de Itapetininga, sua cidade natal). 

Qualquer dia inspirará um filme de terror... (por Celso Lungaretti)
Onde estou? começa exatamente em 1:02:48

sábado, 13 de julho de 2019

MISÉRIA, DESALENTO E IGNORÂNCIA SÃO O CALDO DE CULTURA DO CHARLATANISMO RELIGIOSO EM QUE BOLSONARO SURFA

luís francisco carvalho filho
SUPERSTIÇÃO, FANATISMO, MILAGRE
A religiosidade exuberante do Brasil sempre despertou interesse de artistas, intelectuais e políticos. O pagador de promessas (Anselmo Duarte, 1962) e Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964) são dois dos filmes brasileiros de maior prestígio internacional.

A Flip celebra Euclides da Cunha, escritor de Os sertões (1902), obra magnífica sobre o extermínio de Canudos. Além de Antônio Conselheiro, morto em 1897, outros beatos desgarrados reinaram em diferentes sertões, reprimidos com mais ou menos rigor, conforme a dimensão de seus desatinos.

Ao longo do tempo, sebastianismo, charlatanismo e imoralidade, assim como desvios de conduta ou de dinheiro, mobilizam a atenção de autoridades. João de Deus, padres, pastores e pais de santo são hoje detidos por abuso sexual.
Há uma guerra informal pela conquista de fieis e poder. O desfecho depende da capacidade de comunicação espiritual dos pregadores e de manejo dos mecanismos mundanos da isenção tributária, do dízimo e do próprio sincretismo.

A maioria da população brasileira é cristã (87%, segundo o Censo de 2010) e o catolicismo está em franco declínio. Segundo o IBGE, em 1970, 92% da população era católica: em 1991, 83%; em 2000, 73,6%; em 2010, 64,6%. No Rio de Janeiro, o percentual atingiu 45,8%. Evangélicos que, em 1940, representavam 2,6% da população, alcançaram 22,2% em 2010.

Pesquisa do Datafolha indicava 50% de católicos em 2016, anunciando que 3 em cada 10 brasileiros com mais de 16 anos eram evangélicos.

Em 1991, o papa João Paulo 2º, que depois viraria santo, alertava: O Brasil precisa de santos. Pois o Brasil não tinha nenhum e agora tem 36 santos (28 deles anônimos, é verdade, mártires de massacre calvinista holandês no século 17, em Pernambuco), além de irmã Dulce, que será canonizada em outubro.

Política e religião se entrelaçam. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade é parte da narrativa do golpe de 1964. 

Igualmente católicas, na década de 1980, as senhoras de Santana combatiam indecência e sexo na TV. A inspiração messiânica da Lava Jato interfere no tabuleiro eleitoral e populista.

O Vaticano pede perdão pelos pecados cometidos e fabrica santos em série. A Igreja Universal esteriliza pastores para gerenciar melhor o negócio. Brasília é capital mística do país.

Jair Messias Bolsonaro reclama dos males da ocupação ideológica do PT, mas tenta impor uma pauta moralmente primitiva e deletéria. De raiz familiar católica, o presidente circula pelos templos como venerável e não como servo.
O apoio evangélico ao escolhido tem preço e retribuição terrena: afrouxamento da vigilância fiscal. No Palácio do Planalto, onde se flerta com a ideia da terra plana, a nova era é comemorada: Deus vult (como Deus quer) é tudo nosso, pensam eles.

Segundo levantamento do Conselho Nacional de Justiça, o juiz brasileiro é homem, branco, casado, católico e pai. Não é só a vaga do Supremo: como informa o jornalista Frederico Vasconcelos, Bolsonaro nomeará, até o final do mandato, pelos menos 90 juízes em 35 tribunais. Terrivelmente.

Miséria, desalento e ignorância fazem florescer superstição, fanatismo, milagres, demônios e censura.

É de Otavio Frias Filho (1957-2018) o pensamento instigante: Só quando a fé diminui a tolerância aumenta. Ceticismo faz bem. (por Luís Francisco Carvalho Filho)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O CANTOR QUE TERIA SIDO PUNIDO POR REVELAR OS MISTÉRIO DO ALÉM

Um relato que me impressionou na meninice: o do intérprete de uma composição sobre o pós-morte que realmente faleceu em seguida, vítima de um acidente improvável.

O povo dizia que o coitado teria sido punido por revelar os mistérios do além, recebendo o castigo de conhecer prematuramente a situação descrita na música.

Garimpando no Google, localizei o episódio.

O cantor se chamava Almir Ribeiro e morreu afogado aos 22 anos, quando já fazia considerável sucesso.

A música é o samba-canção "Onde estou?", de Hervê Cordovil e Vicente Leporace. Visivelmente inspirado no kardecismo, mostra um espírito desorientado, ainda ignorando o que lhe aconteceu mas já suspeitando da verdade (o verso final é "será que a morte abreviou os dias meus?"). O compacto simples que a incluía foi lançado cerca de dois anos antes de ele morrer.

Pelo sim, pelo não, dali em diante nenhum(a) outro(a) cantor(a) gravou ou interpretou esta música. Tornou-se tabu.

Encontrei no Youtube um trecho do filme Absolutamente certo (d. Anselmo Duarte, 1957) em que Almir Ribeiro canta a mórbida "Onde estou?". Vejam embaixo; sabendo o que depois lhe sucedeu, dá arrepios.   

Resolvi lembrar aqui este aspecto, digamos, premonitório,  porque não o encontrei em nenhum outro lugar. Qualquer dia virará filme.

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