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quinta-feira, 8 de maio de 2025

TAL COMO SEU ANTECESSOR NOMINAL, IRÁ LEÃO XIV FAZER UM PONTIFICADO CONTRADITÓRIO? O TEMPO DIRÁ.

O nome escolhido por um Papa diz muito sobre os caminhos que ele deseja trilhar em seu reinado e no caso do novo pontífice a escolha vem carregada de significado. 

Leão XIII foi o Papa responsável pela encíclica chamada De Rerum Novarum, um documento publicado em 1891 que tratava especificamente da questão operária em um contexto de perda de influência do catolicismo entre a classe trabalhadora europeia, cada vez mais ganha pelo socialismo. Contraditório, o documento criticava a situação miserável dos trabalhadores, defendia o direito de greve e de sindicalização, mas também atacava o socialismo, o liberalismo e a laicização social. Foi a primeira grande tentativa do Vaticano de entrar no mundo moderno. 

Leão XIII tentou combater a influência
socialista entre os trabalhadores.

Essa informação histórica é importante para entendermos a escolha de Robert Francis Prevost pelo nome Leão XIV. Arcebispo de origem estadunidense, nascido em Chicago, Prevost foi durante mais de duas décadas bispo no Peru, país do qual é cidadão naturalizado. Portanto, a rigor, ele é o primeiro Papa estadunidense, mas também o primeiro peruano, continuando com o movimento do Vaticano, iniciado com Francisco, de eleger pontífices oriundos da América Latina, região onde hoje o catolicismo encontra-se em franca decadência. Que ele também seja estadunidense é mais uma peça política nada gratuita, diante dos recentes desgastes da Igreja nos EUA por causa das denúncias de pedofilia que abalaram aquele país. 

O agora Papa, inclusive, é criticado por ter acobertado padres pedófilos e é lembrado por ter feito declarações nada abonadoras a respeito da comunidade LGBT, declarando que suas práticas não estariam de acordo com o evangelho. Condenou igualmente a tentativa de se ensinar ideologia de gênero nas escolas da pequena e miserável cidade peruana onde era bispo. Em geral, é tido como um moderado, mais à direita que Francisco, mas sem o reacionarismo de um Bento XVI. 

Daens acreditou na encíclica
de Leão XIII, mas foi por ele
abandonado.
A encíclica de Leão XIII foi muito mais um documento vazio que uma correção concreta de rumos na empoeirada Igreja Católica. Quem tiver curiosidade, pode assistir ao filme Daens, colocado na janelinha ao final deste post, cuja trama aborda a história do padre belga  Adolf Daens. Vivendo no interior da Bélgica, esse sacerdote acreditava nas promessas da De Rerum Novarum e inicia potente campanha em prol dos operários, ali submetidos à superexploração e à miséria mais implacável, e entra em disputa com os burgueses locais. Os industriais da região iniciam brutal perseguição contra ele, o levando a bater nas portas do Papa em busca de ajuda. Contrariando sua encíclica, Leão XIII não ousa se colocar contra a poderosa burguesia belga e abandona o pobre Daens à própria sorte. No fim, condenado ao silêncio obsequioso, sua única alternativa é abandonar a Igreja e seguir sua luta.

Ao escolher seu nome, Leão XIV mostra qual será o espírito de seu pontificado e esse espírito parece ser o mesmo de seu antecessor nominal: contraditório e formal, buscando se entregar ao mundo moderno, mas o condenando, confrontando os poderosos no discurso, mas não na prática, e no fim acima de tudo preocupado com sua perda acelerada de fiéis. No fim, o novo Papa parece ser uma síntese impossível de uma Igreja atravessada por uma profunda crise entre os ressentimentos reacionários e as aspirações liberalizantes. (por David Coelho) 

domingo, 27 de abril de 2025

FRANCISCO ERA UM LIBERAL QUE BUSCAVA COLOCAR A IGREJA CATÓLICA NO SÉCULO 19, MAS OS TEMPOS ATUAIS DÃO VITÓRIA A SEU ANTECESSOR.

 


O falecido Papa não era um homem de esquerda, apesar de ter angariado a simpatia de parte considerável da esquerda, órfã de lideranças e carente de um programa político robusto. De seu apoio à ditadura militar argentina e seu papel na perseguição a membros de sua ordem poucos falaram ultimamente, embevecidos com a retórica levemente progressista de Francisco. 

Jorge Mario Bergoglio ascendeu ao trono de São Pedro após a renúncia de Bento XVI em 2013. Ratzinger havia se tornado Papa em 2005 com um programa francamente reacionário, mas desfocado em relação à sua época. Na realidade, ele havia chegado cedo demais, pois a onda neofascista ainda estava embrionária e a esquerda liberal vivia seu auge com Obama, Lula, Kirchner e outras figuras semelhantes dominando o espaço público. O resultado era sua solidão mundial, uma voz de extrema-direita isolada em um mundo progressista. Diante disso, ele resolve renunciar ao papado, abrindo uma crise na igreja cuja resposta veio através da eleição de um cardeal conservador, mas com mentalidade mais liberal, trazido, pela primeira vez, da América Latina. 

A imagem de Bento 16 não era das melhores...

Não poderia existir antítese mais perfeita com relação a Bento 16 que Francisco. O antigo papa era extremamente reservado e frequentemente aparecia com uma carranca pesada. Seu discurso era antipático e seu gosto pelo luxo e pela pompa do Vaticano era imenso. Seu sucessor, contudo, era pura simpatia, tinha o discurso familiar e empático, além de ter quase nenhum apego às pompas e ao luxo. 

A missão de Francisco era aproximar do mundo moderno uma instituição esclerosada e para isso combinava o papel do Papa de consciência moral do mundo, algo já muito usado por João Paulo II, com algumas medidas liberalizantes. Enquanto Bento 16 era adepto do slogan o mundo que se curve à igreja, Francisco tentava conduzir uma aproximação com a realidade do século XXI, mas visando alcançar os níveis de desenvolvimento do século XIX. No fim, ambos estavam coagidos pela mesma situação: a perda histórica de relevância da Igreja Católica no mundo, mas enquanto Ratzinger buscava fazer o mundo retroagir para se adequar ao ser da igreja, Bergoglio buscava faze-la se adaptar à situação histórica atual. 

Por ironia, o Papa que chegou cedo demais agora está vencendo, pois a situação mundial hoje é mais adequada ao programa de Bento 16 e não ao de Francisco. Por isso, não será surpresa se o novo pontífice escolhido for alguém mais à direita, um herdeiro de Ratiznger e não de Bergoglio. O que isso significaria para o futuro do catolicismo é difícil dizer, mas é pouco provável que a derrocada dessa religião seja freada na Europa e na América Latina. 

...ao contrário do risonho Francisco.

Entre os europeus, a igreja vai perdendo espaço para os ateus e os sem religião, enquanto que entre os latino-americanos, ela perde terreno sobretudo para os evangélicos, embora os sem religião também cresçam por aqui. Somente a África ainda mantém fidelidade, mas por ser um continente politica e economicamente fraco, a sobrevivência católica ali pouco acrescentaria na balança da geopolítica. Por onde se olhe, o catolicismo vai se tornando uma relíquia e seus papas cada vez mais oscilarão entre serem rabugentos saudosistas do passado e senhores simpáticos a falar vagamente sobre as preocupações do momento

De qualquer forma, é preciso ter sempre em mente que a mudança radical hoje necessária no mundo nunca virá do Vaticano ou dos templos, mas da luta organizada dos trabalhadores do povo em geral. (por David Coelho) 




sábado, 29 de julho de 2023

O CHORO DE LULA É DESPOLITIZANTE E REACIONÁRIO

 Lula possui o hábito costumaz de chorar, sobretudo em situações em que a miséria do país é colocada diante dele. Certamente, muitos devem ver nesse hábito a coragem de um homem em mostrar sua faceta humana e, ainda por cima, quebrar estereótipos de gênero, visto ser o choro culturalmente considerado algo indigno dos homens, algo próprio das mulheres. 

No entanto, o hábito de segurar bebês também foi introduzido no passado com motivação semelhante. Em uma época que o cuidado com crianças era algo exclusivamente feminino, quando o homem sequer podia se aproximar dos infantes, os políticos começaram a segurar os pequeninos como prova de sua humanidade e forma de quebrar estereótipos parecidos aos de hoje. Genuíno ou não, o ato buscava aproximar políticos do populacho comum, mostra-lo enquanto um indivíduo típico e não um aristocrata servido por babás e empregados domésticos. 

Estou com isso condenando segurar bebês ou chorar? Claro que não! Apenas gostaria de refletir sobre o significado dessas ações, nem de longe inocentes. Bolsonaro, por exemplo, também chora, mas seu choro tem um sentido diferente do de Lula. 

Nem sempre Lula chorou. Pelo meu entendimento, seu hábito de chorar começou de forma acentuada mais ou menos por volta da década de 1990. Quando era um líder sindical, não há relato de que tivesse o costume de chorar, mesmo tendo motivos genuínos para expressar fortes emoções naquele período. É válido, portanto, considerar ter esse hábito se iniciado por algum motivo naquela época. 

Não sem coincidência, a década de 1990 marca o período de transição de Lula e do próprio PT de uma posição centrada na lógica trabalhista, orientada pela ação sindical e pelo estatismo, para uma tônica de digestão administrativa da pobreza, seguindo as orientações do Banco Mundial e os ditames morais da Igreja Católica, sobretudo. Nessa nova forma de conceber a ação política, a luta pelo controle social dos trabalhadores foi cedendo espaço à ideia de conter os danos mais pronunciados da extrema pobreza, incluindo os pobres através da assistência social e levando serviços públicos para os grotões marginalizados. Ao invés de combater o capitalismo, minorar seus impactos. 

Em lugar da luta de classes, era colocada a centralidade da moral de matriz cristã. O pobre substituía o trabalhador e as diferenças econômicas eram apagadas em nome do discurso tecnocrata da política social a ser conduzida pelo Estado cidadão. Nesse aspecto, a pobreza passou a ser vista não enquanto um produto necessário e inevitável do desenvolvimento capitalista, forma social que só pode produzir riqueza gerando, ao mesmo tempo, imensa miséria, mas como uma falha moral de indivíduos egoístas e sem humanidade, incapazes de estender a mão para seus semelhantes. 

Para Lula e o PT, o primordial passou a ser não mudar a sociedade, mas garantir que um pouco do banquete dos ricos chegasse à mesa dos pobres. Passou a imperar o espírito caridativo e esse foi elevado a política pública oficial. Mas a caridade sempre está baseada em emoções, no apelo à sensibilidade alheia. O sujeito que esmola na rua roga aos passantes para lhe ajudarem a satisfazer a fome e, para isso, apela aos sentimentos nobres deles. A esmola é sempre algo feito a partir da comoção, da tristeza diante da dor alheia. 

Por isso Lula chora. Ele precisa esmolar em prol dos miseráveis. Ele chora para sensibilizar a classe dominante, a burguesia, dos males vividos diariamente pelos pobres do Brasil. Nossos capitalistas, conhecidos pela patifaria e mesquinhez, necessitam ser lembrados de seu dever cristão de ajudar os semelhantes e contribuir com um pedaço do imenso orçamento público para garantir o sucesso das políticas de digestão da pobreza. 

No entanto, se a caridade individual é bem-vinda e meritória - pois de fato a fome e o sofrimento de um ser humano são algo inadmissíveis, sendo dever de qualquer um ajudar a quem sofre - a caridade pública é um ato despolitizante e reacionário. Um indivíduo não tem condições de modificar a estrutura social, mas forças coletivas sim e, por isso, não deve ser papel de um líder popular transformar a caridade em fim político, mas apontar para a transformação concreta do mundo de modo a superar radicalmente a miséria e por fim à necessidade de qualquer caridade. 

A caridade pública gera o clientelismo porque passa a colocar o beneficiário em condição de credor daquela organização que o ajuda. Não à toa as instituições religiosas sempre usaram e usam do mecanismo da caridade como meio para alavancar sua influência e seu poder, pois assim pode forjar uma base imensa de dependentes. Por isso também, a caridade pública nunca busca romper com a miséria, extirpa-la, pois precisa da existência de miseráveis para manter aquele grupo responsável pela ação caridativa. 

Assim, o choro de Lula é despolitizante e reacionário. Faz parte de uma estratégia de digestão moral da miséria, de administração da extrema pobreza, e visa substituir a luta de classes pelo moralismo tacanho e sentimentalóide.

De novo, não se trata de condenar o choro por si mesmo, como se fosse uma atitude indigna. Demonstrar sentimentos em público não é indigno, mas o choro de um líder pode ser a expressão da fúria diante de uma injustiça, do entusiasmo diante da luta ou mesmo a tristeza por perdas e derrotas, mas jamais o choro costumaz de quem quer mais uma esmola para o povo que, no fim das contas, é o criador de toda a riqueza existente e, por isso, não deveria precisar de nenhuma caridade. (por David Emanuel Coelho) 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

VEJA, EM VÍDEO, UM MENINO JESUS DIFERENTE: O DE CHICO BUARQUE.

Assim como o leopardo nunca perde as pintas, a Igreja Católica jamais se conformou com a perda da autoridade que no passado detinha para censurar, mutilar, banir e emascular tudo o que lhe desse na telha, chegando a colocar obras inteiras no index e, muitas vezes, seus autores na fogueira. O martírio de Giordano Bruno lançará uma sombra sobre o Vaticano até o final dos tempos!

Em pleno século 20 a Igreja ainda tentava determinar o que seu rebanho poderia ou não curtir, mas os tempos eram outros e de nada lhe adiantou classificar de blasfemo o filme O bebê de Rosemary (de Roman Polanski, 1968) nem excomungar o Je vou salue, Marie  (de Jean Luc-Godard, 1985). Quase ninguém ligou, salvo o inacreditável presidente José Sarney, que mandou proibir a exibição do segundo, esquecido de que no Brasil vige a separação entre Igreja e Estado.

Curiosamente, o Vaticano não adotava a mesma postura patética e obtusa com relação à música popular, de forma que Lúcio Dalla e Paola Palotino não sofreram idênticas perseguições por implicitamente compararem os relatos bíblicos sobre Cristo com as desventuras de uma mãe solteira e do seu filho bastardo, que acaba se tornando conhecido na zona do cais como Menino Jesus.

A versão que Chico Buarque fez para o Brasil é belíssima; e foi providencial a mudança nos arranjos (de autoria do maestro Rogério Duprat e do Magro do MPB-4), que tornaram a canção mais lenta e melancólica.

Eis algumas informações mais, do site do Dr. Zen:
"A música Minha História tem alguns fatos curiosos na sua gênese e na própria justificativa do seu nome. A música original, 4 marzo 1943, também é conhecida como Gesú BambinoMenino Jesus em italiano — foi composta no início dos anos 70 na Itália por Lúcio Dalla e Paola Palotino e abordava a história das mães solteiras adolescentes sob a ótica dos filhos, frutos de relacionamentos com soldados estrangeiros no período da 2° grande guerra, daí seu subtítulo: Os filhos da guerra. A versão italiana foi premiada com o 3º lugar do Festival de San Remo de 1971.  
Chico Buarque, amigo de Dalla, com o brilhantismo de sempre, adaptou a letra para nossa realidade tratando a música sob o prisma de um filho de uma prostituta de caís. O compositor brasileiro brincava em relação ao subtítulo da música italiana, dizendo que sua música seria chamada Os filhos da puta. Brincadeiras à parte, Buarque resolveu colocar o nome de Menino Jesus. 
Era tempo de ditadura, os militares não gostaram e, como era comum na época, censuraram. O cantor resolveu colocar o nome definitivo de Minha história". 

sábado, 30 de janeiro de 2016

RUI MARTINS MATA A COBRA E MOSTRA O PAU: "DILMA SANCIONA LEI INCONSTITUCIONAL".

Dilma pecou e não tem perdão, por ter jogado às urtigas a laicidade do Estado brasileiro, que assegura a separação entre o Estado e as 
igrejas, herdada dos positivistas e maçons da República. E 
assim agiu para ganhar votos dos deputados
 evangélicos contra seu impeachment. 
O Brasil tem uma tradição republicana laica, vinda dos franceses positivistas e dos maçons, assegurando a separação entre a Igreja e o Estado, integrada na Constituição de 1891. Não há uma declaração expressa afirmando essa separação, mas na Declaração dos Direitos dos Cidadãos, a Constituição deixava explícito no artigo 72, que, modificado em 1926 passou a ser :
§ 7º Nenhum culto ou igreja gosará de subvenção official, nem terá relações de dependencia ou alliança com o Governo da União, ou o dos Estados. A representação diplomatica do Brasil junto à Santa Sé não implica violação deste principio.
A Constituição reconhecia direito igual para todas as religiões, que as pessoas seriam livres para seguir qualquer religião ou não ter religião, que o ensino público seria laico nas escolas públicas e que só seria reconhecido o casamento feito em cartório.

Entretanto, a Igreja Católica, na época dominante e sem  a concorrência atual dos evangélicos, considerou-se prejudicada inclusive na questão do casamento, que só teria valor quando celebrado em cartório civil. Por isso, se mobilizou quando da elaboração da reforma das Constituições de 1934 e 1937, através da Liga Eleitoral Católica que pleiteava não só a validade civil dos casamentos feitos diante dos padres, chamados casamentos religiosos, como a inscrição na lei da indissolubilidade do casamento, para assegurar sua posição contra o divórcio.

Assim, embora se tivesse mantido a separação da Igreja e do Estado, o clero católico obteve também o retorno do ensino religioso e a administração dos cemitérios também por associações religiosas. Isso implicou igualmente a introdução da palavra Deus no preâmbulo da Constituição, mas, como argumentou o STF, sem poder normativo, isto é, sem que o Estado teísta implicasse uma união com a Igreja, como ocorre em muitos países, inclusive Israel, e no Oriente Médio, que são Estados teocráticos.

A separação do Estado da Igreja é uma conquista da evolução da sociedade moderna, do fim dos regimes religiosos da Idade Média na Europa, nos quais os próprios reis dependiam para serem coroados e governar do reconhecimento e bençao do Vaticano, considerado representante do poder divino.

A Renascença, o Iluminismo e a ruptura da unidade dos cristãos com a Reforma provocando um pluralismo religioso cristão, as interpretações não religiosas, seculares ou laicas da vida e da sociedade levaram à necessidade de se separar o Estado, ao qual pertencem todos os cidadãos, da Igreja com seus diferentes tipos de fé, seus dogmas, credos, crenças convivendo com o mundo real mas a ele não pertencendo.

Se durante um século, desde a introdução por missionários, as denominações protestantes foram minoritárias, contentando-se em ter apenas alguns deputados estaduais em alguns Estados e não se interessando, por tradição calvinista ou luterana, em intervir na legislação do Estado (como tinham aconselhado Cristo e o apóstolo Paulo), esse quadro mudou nas últimas décadas.

O surto do evangelismo começou na América Central nos anos 60, onde a promessa bíblica de uma vida futura melhor, num céu ou paraíso e com vida eterna, fizeram as populações mais carentes darem mais crédito ao discurso de pregadores que aos dos políticos ou revolucionários. Mas, tão logo os pregadores perceberam o número de fiéis, obtido com suas promessas de autênticos vendedores de loteamentos no céu e promessas abstratas, decidiram ter uma parcela do poder temporal, numa espécie de ter o certo possível que o duvidoso.

O centenário da Guerra dos Canudos nos leva a estabelecer uma certa relação do evangelismo populista, diferente do protestantismo clássico mais intelectualizado, com os seguidores ingênuos e beatos de Antonio Conselheiro, que sem exclusão e perseguição, se tornaram pacíficos, passivos e de grande abnegação.

Ao mesmo tempo não se pode esquecer ser a religião um lenitivo contra as dores da pobreza, das injustiças e das depressões, funcionando o pregador como um psiquiatra dos pobres, ajudado pela magia dos cantos, das orações e da fé exercida em coletivo geradora de maior confiança.

Ao contrário das denominações protestantes, cujos pastores têm uma formação universitária teológica,os pregadores evangélicos se improvisam ao se sentirem chamados para levarem a palavra ao povo. Uma parte são aproveitadores da fé dos incautos e simples, mas outra parte age como tendo sido escolhida pelo deus com os quais imaginam ter uma relação mais próxima. E utilizando a sabedoria popular, mesmo sem formação escolar, conseguem encantar seus seguidores. As igrejas evangélicas garantem ser um canal direto de contato com deus.

Enquanto o protestantismo de origem européia e mesmo americana, como os presbiterianos, conseguem ser liberais e sempre foram pelo divórcio, aceitam o aborto e começam a aceitar o casamento homossexual e o exercício do pastorado por mulheres, o populismo evangélico e sua inspiração direta na Bíblia sem uma formação cultural, levam ao moralismo rígido de certa forma próximo do moralismo muçulmano, quando proíbem as mulheres de cortar o cabelo, de usar saias compridas e o véu na igreja, além de condenarem o homossexualismo  e a relação sexual antes do casamento.

O evangelismo chegou ao Brasil pouco antes do golpe militar e se expandiu com o apoio americano na compra de rádios e canais de televisão. Com uma Igreja Católica distante do povo com uma mensagem antiquada e condenando a teologia da libertação para continuar junto do poder, os evangélicos encontraram um campo fértil para sua mensagem de se poder falar com deus e se ganhar uma vida eterna, com o perdão dos pecados, embora não se saiba muito bem que pecados possam ter os pobres trabalhadores.

Próximos dos 30 % da população, hoje os pregadores evangélicos se enriqueceram e sentiram ter também poder políticos. Alguns se sentem chamados por deus, mas outros utilizam a crendice popular como alavanca para terem cargos públicos e viverem melhor.

Tudo isso poderia ser muito simples, se os líderes evangélicos ficassem só nos cânticos dos salmos e hinos e nas prédicas para seus seguidores serem bons e abnegados. Mas não ficaram e hoje têm parlamentares e políticos decididos a colocar nas nossas leis e práticas o que imaginam ser da vontade de deus. E o Brasil já sente o risco de ter leis reacionárias para punir os homossexuais e as mulheres que abortam.

A Igreja Católica que sempre desfrutou do poder no Brasil, tendo apoiado o golpe dem 1964, namorar a possibilidade de ter uma Concordata com o Vaticano, como ocorre na Argentina (clero igualmente reacionário) com seus bispos sendo dignatários do Estado. Os evangélicos alimentam o projeto de as igrejas poderem fazer propostas ao governo ou parlamento.

E é nesse contexto que a presidente Dilma decide agradar os evangélicos sem desagradar os católicos, usando de seu cargo de dirigente de um país laico para decretar uma data para pregação do Evangelho, se esquecendo de que nem todos os brasileiros são cristãos ou religiosos.

Por ironia, a data escolhida, nesse gesto anti-laico, é o 31 de outubro –data  do primeiro protesto de Martinho Lutero contra as bulas papais e a venda das indulgências mas, ao mesmo tempo, a data da festa céltica  pagã de Halloween levada aos EUA pelos irlandeses, onde ficou muito popular com suas caveiras de abóboras, hoje comercializada, mas considerada pelos evangélicos como festa satânica.

Na sua incrível capacidade de errar, nossa presidente violou nossa tradição laica e querendo agradar aos evangélicos, que a fizeram em 2010 recuar depois de ter se declarado favorável ao aborto, não vetou uma lei levada ao Congresso em 2009 pelo deputado Neucimar Fraga, ex-prefeito de Vila Velha, no Espírito Santo. Depois de aprovada pela Câmara, a lei foi aprovada em 2015 pelo Senado com o apoio dos lobistas evangélicos.

A lei 13.246, que se esperava ser vetada por ser inconstitucional num país laico, foi sancionada na surdina, dia 12 de janeiro, pela presidente Dilma, numa tentativa de escapar do impeachment com o apoio dos deputados evangélicos.

Será que a OAB vai deixar passar esse atentado à laicidade do Estado brasileiro?

sábado, 13 de setembro de 2014

GAUCHE NA VIDA

"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida."
(Drummond, Poema de sete faces)

Hoje me dei conta de que minhas duas filhas não fizeram primeira comunhão. Como é algo distante dos meus interesses, nunca havia pensado nisso.

Antigamente, pelo contrário, poucas crianças escapavam. Minha mãe, embora espírita, queria que eu fizesse. Meu pai não dava palpite nesses assuntos, dizia que "em política, futebol e religião, cada um faz suas escolhas e não vale a pena discuti-las com os outros, pois sempre acaba em briga". 

Então, fui eu que decidi. E não cedi. [Acho que nem batizado seria, se não tivessem me pegado distraído no berço...]

Não foi o espiritismo que me afastou da Igreja, foi o que meu primo Flávio contou. Ele nasceu com uma perna mais curta que a outra e precisava de cuidados médicos um tanto onerosos. Como a grana era curta, levavam-no à Santa Casa de Misericórdia.

Certa vez uma freira lhe perguntou qual sua religião e ele caiu na besteira de responder que era espírita, como os pais.

Foi o bastante para a megera fanática passar a chamá-lo de "endemoniado" e a açular as outras esposas de Deus contra o coitado. Tratavam-no a pontapés. Uma criança de quatro anos!

Eu deveria ter uns seis quando o Flávio me contou este episódio. Fiquei indignado. Desde muito cedo eu não suportava injustiças.

Então, ao entrar no grupo escolar, não hesitei em me declarar espírita e recusar-me a assistir às aulas de educação religiosa, dadas na ótica católica. Se o Flávio aguentara a barra, eu não ficaria atrás.

De uns 40, fomos só quatro os que optamos por ir para o pátio, onde tínhamos de suportar a ranzinzice de uma servente que, provavelmente, nutria preconceito contra nós. Ela nos intimava, aos berros, a ficarmos em pé, encostados numa parede, sem conversarmos.

Havia evangélicos que não se assumiram como tais por receio de se diferenciarem do rebanho. Eu, logo na primeira vez em que tal dilema se apresentou, preferi ser visto como ovelha negra do que ver a mim próprio como pusilânime.

E, em todas as situações semelhantes pelos anos adentro, continuaria sempre escolhendo ser gauche na vida.

Ou como Jards Macalé cantou, adaptando o poema de Drummond para os malucos belezas dos anos 70,  meu papel no mundo tem sido o de desafinar o coro dos contentes...

Jards Macalé inspirou-se no poema de
Drummond ao compor "Let's play that"

quarta-feira, 7 de maio de 2014

CONHEÇA A MELHOR CANÇÃO JÁ DEDICADA A UMA BRUXA



Já que as bruxas estão na crista da onda, aproveitei para disponibilizar a melhor das músicas a ela dedicadas: "Isobel Goudie" (1972).

Foi de um conjunto de rock escocês, The Sensational Alex Harvey Band, a iniciativa de homenagear a mais famosa bruxa do seu país.

Isobel, presumivelmente, nasceu em 1632 e, aos 30 anos, foi acusada de feitiçaria. Sob tortura, confessou haver sido iniciada por um homem cinzento, que a teria submetido a sofrimentos extremos.

Quanto ao xis da questão, yo no creo en brujas, ponto final. Para mim, não passavam de mulheres reprimidas que precisavam de pretextos sobrenaturais para darem vazão a seus desejos carnais. Iludiam a si próprias e canalhas sanguinários como Torquemada as faziam de espantalhos para reforçarem o jugo da Igreja.

Espantoso mesmo é que a última bruxa européia, Anna Göldi, tenha sido executada em 1782 e cá neste grotão inalcançável pela civilização ainda haja hordas capazes de chacinarem uma coitada por causa de mero e ridículo boato.

Então, como aqui continua sendo o fim do mundo, vale encerrar com outra canção marcante: "Marginália II". Desde que Gilberto Gil e Torquato Neto a compuseram, em 1968, a geléia geral brasileira permanece inalterada. O passar dos anos, no nosso caso, não significa evolução.


sexta-feira, 18 de abril de 2014

MEU JESUS É O QUE ANDAVA SOBRE AS ÁGUAS

Hoje não tem artigo, crônica ou crítica. Tem música.

E é uma canção belíssima: La Saeta. Fiquei arrepiado ao escutá-la pela primeira vez, na voz do nosso Fagner, em dueto (ouça-o aqui) com o autor Joan Manuel Serrat -outro extraordinário cantor/compositor catalão, a exemplo de Lluís Llach.

Talvez porque, desde meus verdes anos, sempre me incomodasse a opulência do catolicismo oficial -- aquele dos altares, das procissões, da Inquisição e das  Redentoras.

Com o tempo aprendi que não era esse o verdadeiro legado de Jesus Cristo, mas sim uma mensagem de esperança para os pobres, os humildes, os fracos, os desprotegidos, os injustiçados e os excluídos da Judeia -como destaca o douto estudioso de religiões Reza Aslan numa das exegeses mais importantes e consistentes já produzidas sobre os evangelhos, Zelota (leia uma boa reportagem aqui).

Também mexeu muito comigo a tese levantada por um dos pais da contracultura, Norman O. Brown, em seu clássico absoluto, Vida contra morte (1959): a de que o pecado cometido pela humanidade contra o Pai já foi purgado por milênios de calvário, sendo chegada a hora de resgatarmos a promessa de liberdade e plenitude que o Filho trazia e foi escamoteada por visões religiosas que preferem enfatizar os horrores da crucificação, para tanger seus rebanhos ao conformismo.

Tudo a ver com esta canção que, comparando o calvário longínquo de Jesus ao calvário permanente dos ciganos, é uma altaneira negação do Cristo dos crucifixos (sois pecadores, arrependei-vos!) para afirmar o que andava sobre as águas (tudo podeis, libertai-vos!).

Eis a letra completa de La Saeta:

Dijo una voz popular:
¿Quién me presta una escalera
para subir al madero
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?

Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos
siempre con sangre en las manos,
siempre por desenclavar.

Cantar del pueblo andaluz
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz.

Cantar de la tierra mía
que echa flores
al Jesús de la agonía
y es la fe de mis mayores.

¡Oh, no eres tú mi cantar
no puedo cantar, ni quiero
a este Jesús del madero
sino al que anduvo en la mar!

E aqui, a interpretação mais empolgante que dela encontrei no Youtube:

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O CASAMENTO GAY, A TFP E OS CAMELÔS

Ugo Tognazzi e Michel
Serrault, o 1º casal gay
famoso das telas (A
Gaiola das Loucas, 78).


Se os gays já moram juntos e constituem uniões estáveis, por que tanto drama quanto a eles legalizarem a relação, para garantia de direitos e para que possam adotar crianças?
Bem, os católicos argentinos continuam aferrados a velhos dogmas, dos tempos em que proles numerosas eram desejáveis e os homossexuais, discriminados por não cumprirem o dever da procriação.

Hoje, com gente saindo pelo ladrão, o preconceito perdeu sua utilidade, daí estar sendo, pouco a pouco, esvaziado.


Eu fico com o Raulzito: "Faze o que tu queres, pois é tudo da Lei".


É bom que ainda haja seres humanos querendo constituir famílias, seja de que tipo forem. Sempre há afeto, apoio, troca, diálogo.


Ruins mesmo são esses poços de egoísmo que querem viver sozinhos e só desfrutar os outros, sem se comprometerem com nada e ninguém.


Quanto às crianças, o que se teme? Maus exemplos? Piores do que os martelados pela TV dia e noite, impossível.


Ou, falemos claro, que os homossexuais sejam, necessariamente, pedófilos, o que é uma asneira sem tamanho. Só cabe na cabecinha de quem encara todo ser diferente de si como um monstro. Homos e héteros, os há de todo tipo.


O certo é que, ao ver a cruzada histérica do clero para pressionar o Senado argentino, lembrei-me de quando a Tradição, Família e Propriedade fazia a mesma coisa por aqui, na década de 1960, pregando contra o divórcio, a pílula anticoncepcional, o
arcebispo vermelho D. Helder Câmara e outras sandices.

Naquela época de informalidade e beleza selvagem, os militantes da TFP iam às praças com seus estandartes medievais e seus ternos de papa-defuntos, engravatados, cheirando a brilhantina barata e com aquele jeitão inconfundível de carentes sexuais, quiçá virgens aos vinte e tantos anos...


Insistiam muito com os transeuntes para que aderissem a seus abaixo-assinados, faziam discursos chatíssimos.


Foi hilário o episódio que presenciei certa vez na Praça do Patriarca: os camelôs, contrariados porque aqueles chatos de galocha faziam a freguesia apressar o passo, atrapalhando suas vendas, descobriram a forma de os afugentar.


Subiram em caixotes e começaram a fazer discursos em tom semelhante, só que debochados:

- A Tradição, Família e Propriedade está contra o divórcio, contra o noivado, contra o casamento, contra o Palmeiras e também contra o fedor desse bueiro...
Naquela ocasião os reaças bateram em retirada, mas eu soube que saiu até pancadaria na disputa pelas calçadas.

terça-feira, 13 de abril de 2010

VATICANO ATACA HOMOSSEXUALISMO PARA DEFENDER CELIBATO

CLIQUE P/ AMPLIAR: charge do nosso
bom Cleuber, cujos trabalhos podem ser
acessados no site Traço de Guerrilha

O Vaticano está enredando-se cada vez mais nas suas contradições.

Sem conseguir justificar o fato de que muitos sacerdotes eram pedófilos, nem a omissão da alta hierarquia católica face a essa prática, agora resolveu abrir outra frente na batalha de opinião pública (que está perdendo de goleada!).

Parece que relações públicas não são o forte da Igreja, hoje em dia. Que idéia de jerico, já estando vulnerabilizado, comprar briga com um dos lobbies mais poderosos que existem!

Falando à imprensa em Santiago, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, zurrou:

"Muitos psicólogos e psiquiatras demonstraram que não há relação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram que há entre homossexualidade e pedofilia".

Sendo ele o número dois da Igreja, não se trata de uma declaração impensada de quem estava num mato sem cachorro. É pior ainda.

Como sou um mero articulista que a grande imprensa discrimina, não me vejo na obrigação de ficar diplomaticamente pisando em ovos. Vou pegar o touro pelos chifres.

O celibato dos sacerdotes não tem nada a ver com os ensinamentos de Cristo.

Começou a ser instituído a partir do ano 300, quando o Concílio de Elvira, na Espanha, determinou sua obrigatoriedade para os padres e bispos da província. Depois, foi se generalizando.

Mas, naquele tempo a hipocrisia não ia tão longe a ponto de exigir-se que homens se comportassem como eunucos. Simplesmente, os varões de batina transavam à vontade, fecundavam as moças e deixavam crescer e multiplicarem-se os bastardos.

Pois a restrição aberrante, contrária à natureza, tinha o único e exclusivo objetivo de impedir que os filhos de sacerdotes reivindicassem bens da Igreja como herança paterna. O resto era conversa pra boi dormir.

Papas chegavam a ser temidos guerreiros. Clérigos chegavam a ser insaciáveis garanhões. Tudo era bem diferente.

Corte para nossa época.

Um amigo espanhol me garante que, durante a Guerra Civil no seu país, os republicanos andaram invadindo conventos e encontrando muitos fetos enterrados.

Isto foi por eles interpretado como uma confirmação de que, em plena década de 1930, padres e freiras não fossem tão dóceis assim às imposições descabidas. Mas, pode ter também outras explicações.

E a Igreja acabou se tornando um refúgio para homossexuais latentes ou sem coragem para assumir a opção já feita.

O celibato tem algo a ver com isto? É óbvio que sim. Tem TUDO a ver.

Qual o melhor ambiente para homossexuais no pré-1968, aqueles tempos de zombarias, perseguições e discriminação, do que um agrupamento de homens privados do envolvimento amoroso com as mulheres? Onde poderiam encontrar com mais facilidade os congêneres e oportunidades para exercer discretamente sua orientação sexual?

Quanto à grita escandalizada contra a pedofilia sacerdotal, nem tanto ao céu, nem tanto à Terra.

Freud cansou de provar que a inocência angelical das crianças é um mito. Para quem quiser aprofundar-se no assunto, recomendo seus Três ensaios sobre a sexualidade infantil (1905).

No entanto, deve ser severamente punida a intromissão de adultos nessas primícias do erotismo, pois pode causar traumas terríveis. Os impúberes têm mesmo de ficar circunscritos a seu próprio universo. E as invasões desse universo têm mesmo de ser coibidas a todo custo.

A partir da puberdade, entretanto, a coisa muda de figura.

Muitas culturas admitem que moçoilas casem logo após a primeira menstruação. Geralmente não há problemas; vez por outra o resultado é ruim, como num caso recente de hemorragia fatal.

Quanto aos adolescentes, Freud também explica que neles coexistem os impulsos heterossexuais e homossexuais. Então, nesse período de indefinição, o assédio de um sacerdote pode mesmo ser um fator decisivo para que se inclinem na segunda direção.

Se este resultado é bom ou ruim, depende dos olhos de quem vê. No nosso planeta superpovoado, os conceitos mudaram um pouco desde aquele passado no qual prole numerosa era desejada pelas famílias e pelas nações, de forma que o desvio dessa obrigação constituía praticamente um crime. O preconceito mascarava uma conveniência.

Enfim, é tudo ambíguo e ambivalente, difícil de se destrinchar, um cipoal de ideologias e interesses.

Vai daí que só chegaríamos realmente à verdade analisando em profundidade cada caso de pedofilia sacerdotal. Extrair conclusões simplistas e genéricas, como está se fazendo, constitui postura das mais irresponsáveis, tendente à demagogia.

E é aqui que entram outras iniquidades atuais: o sensacionalismo e a avidez.

Folhetim medíocre é prato cheio para uma indústria cultural que, cada vez mais, serve para desviar as atenções do fundamental, superdimensionando as ninharias.

E salta aos olhos que a grande maioria dos queixosos superou essas experiências remotas e levava vida perfeitamente normal, até vislumbrar a chance de arrancar uma grana fácil da Igreja.

Causa-me extrema repulsa perceber que há pessoas expondo-se dessa forma por um punhado de notas.

Dá para simpatizarmos com os que se apresentaram na esperança de ver castigados os sacerdotes corruptores.

Mas, aqueles para quem um cheque apaga o passado e compensa o constrangimento de fazer tais revelações, não passam de oportunistas da pior espécie.
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