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quinta-feira, 12 de outubro de 2023

O IMPÉRIO EM RUÍNAS DO CAPITAL FICTÍCIO E DOS JUROS - PARTE 2

 

Continuação deste post.

Aos países de economia fraca, como o Brasil e tantos outros, com pouca representatividade de PIB, para os quais não acorrem mais facilmente o capital ocioso, somente se obtém recursos com ofertas de juros mais expressivos, circunstância que representa uma exploração inaceitável aos povos destes países pobres que se constituem como a grande maioria das populações humanas no Planeta Terra.  

É a famigerada lei do mercado expressa na regra da oferta e da procura na qual a mercadoria dinheiro tem preço e na qual a remuneração, para quem não tem crédito, representa maior risco e juros altos como aqueles pagos pelo Brasil, que somente em 2022 representou um total de R$ 586 bilhões. 

Se considerarmos que em 2022 houve um déficit da previdência social brasileira da ordem de R$ 270 bilhões, vamos facilmente concluir que retirar direitos previdenciários de quem passou a vida pagando contribuição é um crime, principalmente se estabelecermos relação com a extorsão bancária mundial à qual os governantes brasileiros se submetem sem altivez, por compactuarem com o sistema mundial de exploração sob o qual governam vaidosamente.  

Bolsonaro e Lula se ajoelham diante do capital mundial, e nisto se assemelham por não terem coragem de dizer a verdade e correrem o risco de represálias no confronto com um sistema que lhes garante poder político, cada vez mais decrépito.  

Mas a fatura de tal situação ainda está por chegar, e os sintomas de tal precariedade já se fazem sentir expressos na migração mundial em busca da sobrevivência junto aos países que exploram os emigrantes de muitas formas - vendendo armas e mercadorias, que são armas também -, mas principalmente pela via de cobrança de juros no presente: são os mesmos que exploraram ditos povos em suas colônias escravistas no passado.  

A hipocrisia é tanta que os ricos adoram fazer alguma benemerência aos países africanos enviando alguns alimentos, por exemplo, numa espécie de chá das cinco horas de dondocas elitistas que posam de caridosas. 

Acresce-se à incapacidade mundial de reprodução de lucros na produção de mercadorias, que por si só já denuncia a falência sistêmica que se observa hoje num processo mais acelerado do que antes, fatores outros que denotam a incapacidade de convivência sob os critérios atuais, quais sejam: 

- desemprego estrutural, que impossibilita a subsistência dos trabalhadores abstratos e a extração de mais-valia vital para a economia e para o Estado cobrador de impostos, fonte vital para a exploração pelo capital; 

-  queda na arrecadação fiscal

- inflação de preços das mercadorias

- emissão de CO² em volumes cada vez maiores na atmosfera que provocam o aquecimento global sem que a irracionalidade do sistema possa contê-la; 

- desespero fratricida da luta pela hegemonia de blocos econômicos na guerra concorrencial de mercado;  

- permanência das guerras bélicas - com anúncio de hecatombe nuclear cada vez mais presente nos discursos dos estadistas estatistas

- aumento da violência urbana e do crime organizado

- aumento da fome no mundo em meio ao anúncio de avanços tecnológicos antes inimagináveis.  

Não tenho dúvidas de que o passo mais próximo no sentido da saturação do modelo capitalista, cujo colapso histórico anunciado num tempo relativamente breve, se considerarmos o tempo histórico e as mutações sociais havidas ao longo da existência humana, vem sendo postergado permanentemente, será iniciado com a crash financeiro do sistema bancário mundial e correspondente colapso dos padrões monetários e seu poder de compra e venda - invenção histórica macabra que de tão usual parece natural como a satisfação das necessidades físicas. 

As febres que aparecem aqui e acolá em alguns grandes bancos e imobiliárias já denunciam as infecções no organismo financeiro, que somente sobrevive graças ao crédito que se dá às moedas oficiais falsas e fortes, porque sem conexão com a produção de mercadorias - fonte da inflação global -, e ao extermínio populacional pelas guerras - como no século passado com as duas guerras mundiais e outras localizadas que ocorreram e ocorrem permanentemente -, fome e pestes. 

 Veremos o colapso via consumo mediada pela compra e venda de mercadorias em face da inexistência de moeda capaz de promover o intercâmbio comercial, fato que nos impelirá a uma produção de bens destinada exclusivamente à satisfação do consumo, e tudo em meio a grandes convulsões sociais.  

Se sobrevivermos à barbárie atual, e estabelecermos outro modo de relação social baseada apenas na produção para satisfação do consumo, com o uso dos saberes tecnológicos aplicados a essa produção, de modo ecologicamente sustentável e sob outro ordenamento jurídico constitucional e de direito ordinário, então viveremos em outro estágio da civilização. 

 Mas será que continuaremos a correr para o abismo - como uma manada irracional de bois - seguindo cegamente o fetichismo da mercadoria sem questioná-lo e superarmo-lo?  

Sobreviveremos a isto?  

Esta é uma pergunta que não quer calar! (por Dalton Rosado) 

terça-feira, 10 de outubro de 2023

O IMPÉRIO EM RUÍNAS DO CAPITAL FICTÍCIO E DOS JUROS - PARTE 1

 


F
oi Karl Marx quem cunhou a expressão capital fictício como sendo aquele representado por créditos a receber em data futura dos devedores. A palavra fictício é usada em sentido figurativo e significa a incerteza do resultado desejado pelos credores de realização objetiva de retorno acrescido do capital emprestado.   

Já os juros, como se sabe, representam a remuneração do capital dado pelo credor emprestador ao devedor que paga tal remuneração acrescida da devolução do valor líquido recebido por conta do empréstimo por ele recebido.  

Os donos dos meios produtores de mercadorias, a burguesia industrial, diferentemente dos banqueiros, costumam dizer - sub-repticiamente - que o capital fictício e os juros são parasitários porque ganham dinheiro sem nada produzir. Entendem, os primeiros, que ao produzir mercadorias estão contribuindo para a vida social e que os banqueiros são meros usurários e usurpadores dos esforços dos empreendedores da indústria, da pecuária e dos serviços.  

Antes mesmo de adentrarmos na questão do que representa, hoje, o capital fictício e os juros, devemos analisar dois aspectos dessa relação: 

1) a atividade empreendedora dos produtores de mercadorias e serviços representada pelo ciclo  D=M=D+ - dinheiro que se transforma em mercadoria que gera mais dinheiro -, nada mais é do que a fórmula capitalista de acumulação do capital pela extração de mais valia de quem produziu as mercadorias pela via do trabalho abstrato; 

2) a relação dos banqueiros emprestadores de dinheiro obedece ao intento de remuneração do capital como forma de manutenção aumentada do capital sob a forma de juros, apostando no sucesso da vida mercantil empresarial.  

Os lucros e níveis diferenciados de taxas desses na produção e venda de mercadorias obedece ao mesmo critério de lucros, taxas e interesses dos banqueiros com relação ao capital. São faces de uma mesma moeda

 Nessa relação, e sob qualquer das duas formas ora elencadas, nada é santo, vez que se trata de uma subjugação social à lógica ditatorial do capital, que é segregacionista, contraditória, assassina da vida social, destrutiva da vida humana e ecológica, além de autodestrutiva - da forma e conteúdo - no final da linha, como ora se está a observar neste período limite da capacidade de expansão e reprodução do capital nos níveis necessários da economia, que por isso definha. 

Não são benfeitores da humanidade os empreendedores, e nem meros sanguessugas os banqueiros - como costumam classificá-los os industriais, como sentimento de exploração pelos juros pagos -, vez que ambos se apropriam indebitamente do trabalho abstrato do qual dependem para obter a remuneração do capital pelos lucros e juros. 

Os primeiros o fazem de modo direto e os segundos de modo indireto; e não custa acrescentar que ambos são um tipo mais confortável de escravos da lógica do capital, pois que dela se beneficiam com os confortos materiais que o capital lhes proporciona.  

O capital fictício nunca fez tanto jus ao seu significado como agora, exatamente porque há uma impossibilidade concreta de restituição pelos devedores, privados e estatais, dos valores de capital tomados - a expressão de direito comercial aqui começa a se assemelhar ao seu significado popular - aos credores banqueiros ou rentistas - aqueles que aplicam capital no mercado financeiro via sistema bancário -, e até mesmo dos juros, em muitos casos. 

Os empréstimos, hoje, se resumem substancialmente ao financiamento da dívida pública crescente e impagável, levando à crise da dívida, porque a atividade empresarial empacou e é muito alto o risco de financiamento dos empreendimentos da economia real - há uma crença ilusória de muitos dos rentistas de que o Estado produz valor válido.  

Os banqueiros emprestam seu capital na expectativa de que os tomadores de empréstimos, assim chamados de devedores, possam obter lucros capazes de remunerar os custos do capital emprestado, juros, e os próprios lucros empresariais, e desta forma, ambos estão ligados por laços indissolúveis de dependência dos resultados obtidos no mercado onde são negociadas as mercadorias. 

Em março deste ano, com a falência de Silicon Valley Bank e Signature Bank, ambos dos Estados Unidos, houve um estremecimento do sistema financeiro mundial pelo medo de contaminação do sistema bancário mundial que já sobrevive por aparelhos, o que obrigou o Federal Reserve dos Estados Unidos a um socorro de urgência na ordem de US$ 143 milhões, pequeno tapa buraco para evitar o rompimento do dique que contém a hecatombe financeira de mais adiante, já anunciada. 

Tal fato assustou o mercado financeiro por medo de uma nova crise que seria gerada pelo impasse ora existente entre a desesperada expansão monetária sem lastro mesmo em meio à alta da inflação dos Estados Unidos, que implicou num aumento das suas taxas de juros oficiais para 5,5% ao ano, algo antes inimaginável. 

Do mesmo modo o Banco Central Europeu está elevando as taxas de juros para 4,5% ao ano em face da necessidade de expansão monetária sem lastro como forma de tentativa de debelar a crise da depressão econômica multipolar que atinge todos os níveis da economia, tanto no âmbito fiscal como da guerra concorrencial de mercado em face de hiperprodutividade tecnológica de mercadorias sem a correspondente capacidade de compra dessa produção. 

Por sua vez, a China dita comunista é tão apegada ao capitalismo e dele dependente quanto os Estados Unidos, para ficarmos apenas na citação das duas mecas do capitalismo mundial da atualidade.  

A China, com sua dívida pública impagável, de 300% do PIB, instituiu a chamada nova rota da seda visando se salvar com uma hegemonia econômica junto aos países asiáticos, africanos e sul-americanos, através de empréstimos com taxas de 5% a.a, mais altas do que os 2,5% a.a do FMI. Após ter concedido empréstimos na ordem de US$ 832 bilhões, hoje se vê às voltas com uma inadimplência de cerca de USS$ 240 bilhões, vendo-se obrigada a efetuar uma rolagem de dívida que representa uma bola de neve a engolir tudo pelo caminho em não pouco tempo.  

A nova rota da seda mais se parece com o terremoto no Destino do Poseidon, clássico filme de 1972, hoje não muito lembrado. 

Encalha o capital mundial produtor de mercadorias por conta do encalhe da capacidade de compra causada pela perda da capacidade de compra resultante do desemprego estrutural e redução sistemática da extração de mais-valia global e do lucro; que encalha a receita fiscal; que torna o capital fictício uma miragem que se dissolve num deserto seco, numa disrupção definitiva do processo de relação social capitalista. 

São dois cegos batendo numa mesma porta. 

Indicadores econômicos calculam que a dívida pública e privada mundiais, consolidada perante credores internacionais, esteja em US$ 226 trilhões - ano de 2020, que em nossa moeda seria de mais de R$ 1 quatrilhões - e que vem aumentando, é montante incompatível com o PIB mundial calculado pelo Banco Mundial de US$ 71,6 trilhões.   

Se considerarmos que nesse PIB mundial estão incluídas as despesas correntes - manutenção da máquina governativa nos seus vários níveis e custos de produção de mercadorias - dos países nele incluídos, vamos deduzir, facilmente, numa conta macroeconômica rápida e simplória, que até mesmo os juros dessa dívida estão se tornando impagáveis. Muito brevemente não haverá dinheiro para o tal serviço da dívida, nome pomposo para os juros. 

Vivemos sob uma bola de neve de capital fictício e sua rolagem para uma data futura na qual a verdade da insolvência de tal dívida tornar-se-á evidente e substancialmente previsível, e esse será o dia do início do juízo final do capitalismo.  

Essa é a explicação pela qual o capital ocioso mundialmente está sendo aplicado em títulos da dívida pública com remuneração baixíssima para os países de moeda forte, e até mesmo com juros decrescentes em alguns casos, posto que há uma ilusão de que ditos títulos merecem credibilidade. (por Dalton Rosado, continua neste post)

sábado, 27 de maio de 2023

O FUTURO VAI REPETINDO O PASSADO

Para além disso, a reorganização econômica do Brasil para um regime agromineral-extrativista segue em frente. Bolsonaro foi o representante mais bem acabado desta nova lógica porque ele simplesmente a colocava sem peias, sem duplo discurso e sem qualquer tipo de vergonha. Lula retorna para dar um verniz civilizado para esta nova lógica, mantendo-a, mas com uma capa racionalista.

Nisto reside outro ponto débil com potencial para engolir o novo presidente, pois quanto mais avança a nova matriz econômica, mais fortes ficam as forças do atraso e, correlatamente, sua expressão política no Brasil, o bolsonarismo. 

A precarização das relações de trabalho, a flexibilização das leis ambientais, a dilapidação da indústria e das empresas públicas, a crise urbana com a explosão da violência, tudo isso fortalece o tripé reacionário do agronegócio, igrejas evangélicas e militarismo. Terá Lula condições de mexer no nervo disto e reverter as condições regressivas no Brasil? Eu diria que não

Não apenas o agora presidente eleito ajudou neste processo quando de suas passagens pelo governo federal, como também está hoje afiançado de modo íntimo com os grandes capitalistas brasileiros que almejam justamente o avanço do dito cujo, embora, como dito, num ritmo menos irascível. Seria preciso romper e radicalizar à esquerda, mas isto seria dissolver o grande pacto e recolocar a luta de classes noutro nível. 

Então, o futuro se prenuncia tenebroso. A extrema-direita seguirá mobilizada e o novo governo, centrado no passado e acreditando ser possível uma conciliação já caducada, aprofundando o modelo de espoliação do pais, estará muito em breve em face de uma profunda impopularidade e frustração. Neste momento, o pior poderá acontecer e os derrotados de hoje talvez voltem reenergizados. 

Não há saída além da mobilização popular e do avanço de transformações efetivamente positivas para o Brasil, rompendo com o modelo extrativista e democratizando de fato a vida social. 

Mas, é provável que isto talvez esteja para além da capacidade de Lula. 

Este texto foi escrito por mim em 31 de outubro de 2022, dia seguinte à vitória de Lula no segundo turno da eleição para presidente. Passados quase oito meses e com quase seis de governo Lula 3 é possível afirmar a justeza dessas palavras. Pior, o governo dá sinais claros de dissolução acelerada, colocando por terra seus principais trunfos na proteção ambiental e indígena

Não poderia ser diferente, pois, ao contrário de 2003, hoje é impossível a existência da conciliação de classes dado contexto de crise capitalista acelerada e o profundo processo de mudança da base econômica do país para o neoextrativismo. Não é possível agradar ao mesmo tempo, o agro e os índios, o agro e os ambientalistas, banqueiros e trabalhadores, comerciantes e trabalhadores. Claramente é necessário tomar um lado e Lula 3 não vacila em se assumir em favor dos capitalistas, jogando o povo comum aos leões. 

Até quando se sustentará a popularidade lulista baseado nas reminiscências do passado é algo difícil de calcular. Mas o trem está descarrilhando de forma clara. (por David Emanuel Coelho) 



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A PENÚRIA FUSTIGA OS BRASILEIROS E OS 4 MAIORES BANCOS ESPOCAM CHAMPANHE: BATERAM RECORDE DE AGIOTAGEM EM 2018

Enquanto o PIB brasileiro, segundo as projeções, deverá crescer apenas 1,3% em 2018, os quatro maiores bancos do país anunciam lucros que, somados, representam um aumento de 19,88% nos ganhos por eles obtidos mediante o exercício da agiotagem legalizada, comparando-se o desempenho de 2017 com o do ano passado.

O total, R$ 69 bilhões, é o maior da História, segundo a empresa responsável pela divulgação, a Economática, especializada no fornecimento de dados financeiros. 

Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander espocam champanhe francês; a nós, as vítimas do parasitismo financeiro, só resta a opção de brindarmos com água de torneira, se é que ainda não foi cortada por falta de pagamento...

segunda-feira, 23 de abril de 2018

FILHOS DE SCROOGE, OS BANQUEIROS NOS EXPLORAM CADA VEZ MAIS!

Scrooge, o agiota de Um conto de Natal, de Charles Dickens
"Se tivesse respondido à queda dos juros básicos e ao recuo da inadimplência como no passado, a taxa média dos empréstimos ao consumidor no Brasil seria hoje 37,6% ao ano, 20 pontos percentuais abaixo dos 57,7% efetivamente cobrados em média.

Segundo o banco UBS, o descolamento ocorre a partir de 2014, quando o país entrou em recessão. Daí em diante, as duas variáveis consideradas cruciais para entender a dinâmica do crédito à pessoa física —o nível de calotes nos empréstimos e as oscilações do juro básico— deixam de explicar o comportamento das taxas ao consumidor.

'É brutal a diferença entre o que o modelo indica o que deveria ser a taxa cobrada, se ela tivesse se comportado como no passado, e o que ela é efetivamente', diz Tony Volpon, economista-chefe do UBS e ex-diretor do Banco Central." (notícia publicada nesta 2ª feira, 23, pela Folha de S. Paulo, de autoria das repórteres Érica Fraga e Flávia Lima)

segunda-feira, 19 de março de 2018

UM ROBIN HOOD ENGANA-TROUXAS E A REPETIÇÃO DA INFÂMIA COMO FARSA

Sean Connery no papel de Robin Hood idoso, mas nem tanto... 
Os dirigentes do PT continuam buscando fórmulas de garantir sobrevida a um partido que não tem mais futuro como força transformadora da nossa sociedade.

Depois da repulsiva Carta ao Povo Brasileiro de 2002, quando se renderam ao grande capital em troca da permissão dos poderosos para o Lula ganhar a eleição presidencial e ser devidamente empossado, preparam-se para lançar outra. Será a repetição da infâmia como farsa.

Daquela vez ficou acertado que a autoridade presidencial se restringiria às ninharias do cotidiano econômico, enquanto que a vontade dos donos do PIB prevaleceria na tomada das grandes decisões macroeconômicas. Graças a tal pacto mefistofélico, nunca os banqueiros lucraram tanto quanto durante seu governo, conforme o próprio Lula várias vezes admitiu.

Agora vão vesti-lo com o traje verde de Robin Hood (certamente alugado numa loja de adereços teatrais!): querem que o vejamos como um presidente capaz de reduzir o imposto dos pobres e aumentar o dos ricos. De quebra (e isto vem mais ao encontro de suas propensões reais), extinguiria o congelamento das despesas federais, de forma que o Estado pudesse gastar à vontade no estímulo ao desenvolvimento y otras cositas más...
"Nunca antes neste país os banqueiros lucraram tanto"

Por que não foi adotado tal pacote Robin Hood em 2015, quando Dilma Rousseff iniciava seu segundo mandato? Teria sido melhor do que implicitamente renegar todas as posições defendidas pela esquerda ao longo dos tempos, agarrando-se ao neoliberalismo dos inimigos de classe como tábua de salvação. 

Mas, o diabo mora nos detalhes, como o de que seria um programa de governo intragável e inaceitável para o grande empresariado, que tudo faria para o inviabilizar. Tentar aplicá-lo estando no poder seria um convite ao golpe de Estado. Propô-lo como plataforma eleitoral será unir contra si todo o poderio econômico, político e de manipulação das consciências de que o capitalismo dispõe. 

Não é cartada a se cogitar seriamente no pior momento da esquerda brasileira e latino-americana neste século, quando a correlação de forças nos é francamente desfavorável. Vamos falar sério: algo assim depende muito mais de força nas ruas para sustentá-la do que de votos nas urnas para eleger sicrano ou beltrano. Não podemos esquecer que Dilma foi despachada para casa mediante um simples piparote parlamentar, sem que se registrasse nenhuma resistência digna de nota.

Seria tão estapafúrdio tentá-la neste momento que nos faz suspeitar de que seja apenas mais um pulo do gato: um subterfúgio para poder trombetear, no Brasil e no exterior, que Lula terá sido preso por pretender confrontar a gritante desigualdade econômica brasileira e não devido a condenações (justas ou injustas) a ele impostas pela Justiça, em função de crimes comuns.
Na hora do aperto Dilma oPTou pelo neoliberalismo

Então, a nova carta aos brasileiros se diferenciaria da primeira por não ser um compromisso assumido com o mercado mas tão somente trunfo demagógico, uma peça de propaganda enganosa similar à promessa de que o PT não faria o ajuste fiscal, repetida ad nauseam durante a campanha de Dilma em 2014. 

Tão logo assumiu o novo mandato, ela empossou Joaquim Levy com a principal tarefa de... fazer o ajuste fiscal.

É pela contumácia com que recorre a esses engana-trouxas característicos dos políticos profissionais que o PT hoje não passa de uma legenda queimada aos olhos dos cidadãos com um mínimo de espírito crítico. E foi se desqualificando junto aos formadores de opinião que ele iniciou a marcha para o fundo do poço onde hoje se encontra.

A esquerda tem de renascer pelas mãos de gente com mais integridade e credibilidade intacta, em todos os sentidos. 

E de nada adiantará o PT apenas transferir seus votos para o Psol e adotar Guilherme Boulos como simulacro de Lula, se as mudanças pararem por aí. 
Príncipe herdeiro é coisa de monarquias, Boulos!

Enquanto não fizer uma profunda autocrítica dos motivos que o levaram a sofrer em 2016 a pior derrota da esquerda brasileira desde o golpe de 1964, estará sinalizando que prefere fugir à responsabilidade pelos erros cometidos, sem adotar estratégia e táticas mais condizentes com os desafios atuais nem afastar as lideranças responsáveis pelo desastre recente.

Ou seja, prevalecendo a autocrítica zero serão mantidas suas opções pela conciliação de classe, pelo reformismo e pelo populismo. Então, estaria apenas começando a repetir a mesma trajetória que já fracassou uma vez e agora seria bisada em condições muito mais desfavoráveis.

Por último: a luta contra a desigualdade econômica é uma bandeira importante demais para ser utilizada como mero trunfo demagógico.

domingo, 13 de agosto de 2017

BANCO SABOTA LEGALIZAÇÃO DA MACONHA NO URUGUAI: QUER EVITAR CONCORRÊNCIA DE OUTRAS DROGAS.

Toque do editor
Reproduzo abaixo uma interessante notícia do comentarista internacional Clóvis Rossi sobre o programa de legalização da maconha no Uruguai.

Nunca fui um cruzado da maconha livre como o Fernando Gabeira, pois considerava mais relevantes as causas a que eu me dedicava. Mas, se tivesse de dar o meu voto num plebiscito, certamente cravaria o sim, concordando com a proposta de que sua produção e venda se deem às claras. Até agora ninguém me convenceu de que cause mais danos à nossa saúde do que os cigarros e a fumaceira espalhada pelos carros, p. ex.

Como quase todos os jovens rebeldes da minha geração, experimentei a maconha... mas não me entusiasmou. O efeito era deixar as pessoas com ataques de bobeira, dizendo qualquer coisa que lhes vinha à mente e achando imensa graça no que não tinha quase nenhuma. Ah, também parecia dar mais tesão, algo que não me fazia falta no vigor dos meus vinte e poucos anos. 

Então, como há pessoas que bebem socialmente, eu fumava maconha socialmente, sem entusiasmo. A única droga que realmente apreciei foi o LSD, até perceber que a viagem poderia me levar longe demais e eu não conseguir voltar. 

Depois que nossa comunidade alternativa se desagregou e fui obrigado a me encaixar de novo no sistema, nunca tive a mínima vontade de adquirir maconha. Quando via jovens dando bandeira pelas ruas da cidade, espalhando o odor característico da cannabis e não se preocupando muito em disfarçar o que estavam fazendo, dava-lhes um sorriso irônico. Lembrava de como a coisa era diferente na década de 1970, quando cheguei a ter um amigo que cumpriu pena de um ano na Casa de Detenção por mera posse de medicamentos colocados no index das otoridades.
Um cruzado da maconha livre: Fernando Gabeira.

Talvez por eu já ser idoso mas não repetir o comportamento careta da velharada, duas vezes a moçada simpatizou comigo e me ofereceu baseado. Embora tenha lido que a potência aumentou muito em comparação com a da década de 1970, não me causaram efeito nenhum. 

Sem pretender ostentar uma expertise que não tenho, a minha impressão é de que as drogas destroem quem quer se destruir; e, no chute, eu diria que a tão alardeada dependência química não passa de dependência psicológica, com a existência do ser humano sob o capitalismo tendo se tornado tão deprimente e sem sentido que muitos não a conseguem suportar, refugiando-se em paraísos artificiais.

A principal droga que precisamos eliminar, portanto, é o regime de exploração do homem pelo homem, para voltarmos a levar uma vida digna de ser vivida, tendo em cada ser humano um irmão e não um competidor; e trabalhando para dar nossa contribuição à felicidade de todos, não para garantir as muitas drogas (luxo, poder, status, quinquilharias de todo tipo, sexo vendido, etc.) que apenas mitigam a nossa insatisfação permanente.

Por último, aproveitando o gancho do texto do Clóvis Rossi: piores do que a mais nociva das drogas são os bancos, parasitas que sugam nosso sangue e compram nossa alma com o dinheiro que usurpam de nós mesmos. (CL).
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BANCOS SÃO INESPERADO OBSTÁCULO PARA
LEGALIZAÇÃO DA MACONHA NO URUGUAI
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Por Clóvis Rossi
A pioneira iniciativa uruguaia de legalizar a maconha, naturalmente polêmica, está enfrentando obstáculos vindos de um agente inesperado, a banca. Ou, mais exatamente, do banco Santander.

O telejornal Telenoche informou que a farmácia Pitágoras de Malvín deixaria de vender cannabis porque o Santander cancelou sua conta por ser um dos estabelecimentos registrados para a comercialização da droga.

A orientação veio da matriz do banco na Espanha, segundo El Observador, e não da direção uruguaia do banco. A alegação é a de que as farmácias que vendem maconha podem ser eventualmente usadas para lavagem de dinheiro.

Outros bancos estão avaliando a situação, entre eles o brasileiro Itaú, e, se seguirem o Santander, estará em grave risco um modelo que merece uma chance de ser testado.

Canceladas as contas, inviabiliza-se o funcionamento das farmácias e, por extensão, todo o esquema de legalização da cannabis, em vigor desde 19 de julho —pouco mais de 20 dias, portanto.

A alegação do Santander, se for comprovada, atinge o coração do programa, que se apoia precisamente na premissa de que é preciso afastar o crime organizado da órbita das drogas.

Não sei se o projeto uruguaio é o caminho ideal, mas sei —e todos sabem— que fracassou redondamente o enfoque policial-militar adotado nos outros países, Brasil inclusive. O consumo só faz aumentar e, com ele, aumenta a criminalidade que gira em torno das drogas.

Logo, cabe monitorar de perto a experiência uruguaia para saber se é aplicável em outros países, quais os defeitos que eventualmente tem e como saná-los. O governo uruguaio nega que o defeito apontado pelo Santander seja real.

Milton Romani, que chefiou a Junta Nacional de Drogas até 2016 e, nessa condição, foi o grande arquiteto do programa de legalização que acaba de entrar em vigor, diz que, antes dela, houve outra regulamentação, exatamente sobre lavagem de dinheiro. Garante que foram fechados todos os canais que faziam do Uruguai, de fato, um paraíso para a lavagem de dinheiro.

A legalização da cannabis provocou um segundo efeito no crime: o Monitor Cannabis da Faculdade de Ciências Sociais calcula que, no estágio atual do programa, o narcotráfico perdeu 27% do mercado —número expressivo para apenas 20 dias.

Já o diretor da Polícia Nacional, Mario Layera, faz questão de lembrar que os 11.508 uruguaios devidamente registrados como compradores (até 7 de agosto) não estão precisando cometer um delito para conseguir a dose de consumo pessoal nem precisam frequentar lugares inseguros como as bocas de venda.

Ao número de registrados como consumidores cabe acrescentar 6.963 cultivadores. "Esse número (quase 20 mil no total) é de enorme importância", diz Romani.

Explica: "Demonstra a confiança dos usuários no sistema, na lei e no Estado. Se eles preferissem continuar comprando do narcotráfico, o modelo estava acabado".

É evidente que é cedo demais para que essas saudáveis constatações representem um atestado definitivo de êxito do modelo. Mas é obrigatório acompanhar a evolução do programa porque já sabemos no que dá o seu contrário. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

2015 FOI UM ANO TERRÍVEL PARA OS BRASILEIROS E ÓTIMO PARA O BRADESCO

Um ano de recessão, desemprego, perdas salariais, redução do poder aquisitivo, aflições e desespero: é como a grande maioria dos brasileiros lembrará de 2015.

O Bradesco, pelo contrário, terá recordações bem mais agradáveis: tratou-se do ano em que seu lucro líquido foi o segundo maior da história já registrado por um banco brasileiro com ações negociadas na Bolsa: R$ 17,1 bilhões.

Atrás apenas do Itaú Unibanco, que cravou R$ 20,2 bilhões em 2014. 

Acaba de trombetear sua proeza, indiferente ao efeito que causará nos que estão perdendo tudo, em meio à pior recessão das últimas décadas.

O que é o roubo de um banco comparado com fundar um? --indagou Bertold Brecht.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A NOVA PALAVRA DE ORDEM DO GOVERNO DO PT: "BANQUEIROS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS!"

Cara de um (Setubal)...
"Temos que enfrentar os nossos problemas repartindo o ônus por todos os segmentos, mesclando redução de benefícios e aumento de impostos. No momento, isso se faz necessário, pois a alternativa é muito pior. Infelizmente, acredito que a conta não fecha sem a CPMF, que deve ser temporária e declinante ao longo de quatro anos." 
(Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, que soma forças com seu equivalente do Bradesco, Luís Carlos Trabuco, na faina para ressuscitarem o tributo mais execrado pelos brasileiros, com toda razão --afinal, 
 acarreta redução do consumo, com o
...focinho do outro (Trabuco)
consequente 
agravamento da recessão e aumento do desemprego, sendo, portanto, uma "alternativa muito pior" do que, p. ex., obrigar os grandes bancos a devolverem um pouco da enormidade que escorcham dos seus clientes, fazendo da agiotagem o negócio mais 
lucrativo do Brasil)

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O BRADESCO CRESCE. OS BRASILEIROS EMPOBRECEM.

Quando eles riem...
Os brasileiros estão aflitos, sentindo-se empobrecer dia a dia, fazendo contas e mais contas para não se afundarem em dívidas, angustiados pelo medo de perderem seus empregos, adiando compras maiores para um futuro que têm dificuldades cada vez maiores para vislumbrarem. "A recuperação começará neste semestre? Nem a pau, Juvenal!" "Em 2016? Fala sério!" "Em 2017? Pode até ser, mas que está com cheiro de 2018, lá isto está. Ainda mais sendo ano de eleição presidencial..."

Uma exceção entre tantas feições preocupadas e sisudas é o sorriso escancarado de Luís Carlos Trabuco Cappi, o presidente do Bradesco. Não só acaba de engolir o tentáculo brasileiro do HSBC, como mostrou ter dinheiro sobrando para bancar os projetos mais onerosos que lhe derem na telha. Só não sei com quem compará-lo, se com o Tio Patinhas ou com o Cidadão Kane... 
...nós choramos.

Para o homem chamado Trabuco (parece título de spaghetti western!), 17,9 bilhões de reais não são nada. Aumentando o número de casas de agiotagem (ôps, ia esquecendo, o eufemismo é agências...), num instante recuperará o investimento, mesmo tendo desembolsado bem mais do que o HSBC Brasil valia, segundo o tal do mercado (esse ente sem face nem compaixão que rege nossos destinos sob o capitalismo!).

Mas, qual o significado maior da aposta biliardária do Trabuco? É o de que, como sempre, enquanto a crise estiver fustigando e desgraçando nosso povo, os bancos lucrarão como nunca, aproveitando a alta dos já estratosféricos juros a pretexto de conter a inflação e outros negócios de ocasião que surgem quando os cidadãos encontram-se desesperados.

A política econômica do ministro Joaquim Levy dá a Trabuco a certeza de que não perderá um centavo dos US$ 5,2 bilhões. Provavelmente, em pouco tempo ganhará o dobro. Ufana-se de que vai crescer em um ano o que cresceria numa década. Alguém duvida?

Para este também US$ 5,2 bilhões não eram nada
E quem é o Levy? Ninguém menos do que o empregadinho que o Trabuco indicou para nossa presidenta, quando ele próprio declinou o convite para assumir o Ministério da Fazenda. Ao que Dilma deve ter respondido: "Não tem tu? Vai tu mesmo..."

Hoje se percebe que o Trabuco sabia muito bem o que estava fazendo.

Eu nem preciso dizer quem não sabia.

Quem entregou o ouro pro bandido.

Quem botou a raposa pra tomar conta do galinheiro.

Quem fez o injustificável, engoliu o inaceitável, esqueceu sua identidade, perdeu o rumo e cedo perceberá que a capitulação ao inimigo não garante o cargo de ninguém.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O QUE É ROUBAR UM BANCO COMPARADO A FUNDAR UM BANCO?

"Hay gente que se escandaliza más porque se les rompan los cristales a los bancos que porque los bancos los bancos se dediquen a romper la vida de la gente" (anônimo)

"O monopólio surgiu dos bancos, os quais, de modestas empresas intermediárias que eram antes, se transformaram em monopolistas do capital financeiro. Três ou cinco grandes bancos de cada uma das nações capitalistas mais avançadas realizaram a 'união pessoal' do capital industrial e bancário, e concentraram nas suas mãos somas de milhares e milhares de milhões, que constituem a maior parte dos capitais e dos rendimentos em dinheiro de todo o país. 

A oligarquia financeira, que tece uma densa rede de relações de dependência entre todas as instituições econômicas e políticas da sociedade burguesa contemporânea sem exceção: tal é a manifestação mais evidente deste monopólio.

O imperialismo é a época do capital financeiro e dos monopólios, que trazem consigo, em toda a parte, a tendência para a dominação, e não para a liberdade. A reação em toda a linha, seja qual for o regime político, é a exacerbação extrema das contradições. (...) Intensifica-se também particularmente a opressão nacional e a tendência para as anexações, isto é, para a violação da independência nacional.

Os monopólios, a oligarquia, a tendência para a dominação em vez da tendência para a liberdade, a exploração de um número cada vez maior de nações pequenas ou fracas por um punhado de nações riquíssimas ou muito fortes: tudo isto originou os traços distintivos do imperialismo, que obrigam a qualificá-lo de capitalismo parasitário, ou em estado de decomposição." (Lênin, O Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo, cujo texto integral pode ser acessado aqui)

"O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?" (Bertold Brecht)

OS BRASILEIROS SOFREM E OS BANCOS SURFAM NA RECESSÃO. ATÉ QUANDO?!

Ricardo Melo, colunista da Folha de S. Paulo,  estava muito inspirado ao escrever o artigo 
desta 2ª feira, 11. Disse tudo que havia para 
se dizer. Apoio, aplaudo e reproduzo:

A cada momento, uma nova má notícia é oferecida ao público que esperava dias melhores. 

Os juros decolam. O Fies definha. Enquanto o desemprego cresce, as regras de proteção aos demitidos tornam-se mais severas.

O sonho de comprar imóvel vira pesadelo com as novas taxas da Caixa Econômica e do Banco do Brasil. Minha Casa, Minha Vida atualmente vale tanto quanto um slogan eleitoral de ocasião, e nada mais do que isso.

As demissões vêm a galope. O pé no freio das montadoras indica um efeito dominó que não se sabe onde vai parar.

A crise na Petrobras engessa uma parte significativa do PIB nacional; é como se a sede do Ministério da Fazenda tivesse se transferido de Brasília para o Paraná.

E o governo de turno assiste a tudo isso com uma mistura de empáfia e desorientação. Cancela pronunciamentos em dias-chave, vide o 1º de Maio, foge de cerimônias oficiais como prisioneiro em um bunker, evita contato com o povo.

...Nem uma palavra sobre a distribuição justa do ônus de uma crise mundial que atinge o conjunto do planeta. Como sempre, a conta é espetada no lombo dos trabalhadores.

Coincidência ou não, na mesma época somos informados dos resultados dos principais bancos do país.

O Itaú Unibanco registrou lucro líquido de R$ 5,733 bilhões no primeiro trimestre deste ano. O ganho é recorde para o período... 

Um pouco antes, o Bradesco anunciou ter fechado o primeiro trimestre de 2015 com lucro líquido de R$ 4,244 bilhões, 6,3% acima do resultado do quarto trimestre de 2014 e 23,3% maior que o mesmo período do ano passado.

Os trabalhadores penam, a indústria resmunga, o comércio reclama. Já o capital financeiro comemora. Será que é tão difícil saber de onde tirar?

domingo, 27 de julho de 2014

BANCOS FAZEM TERRORISMO PARA NÃO DEVOLVEREM O QUE FOI SURRUPIADO DAS POUPANÇAS.

Sempre tive a humildade de reconhecer que não me é possível ser experto em todos os assuntos. Ainda mais agora que, impedido de atuar profissionalmente por preconceitos em relação a minhas idade e convicções, não tenho mais acesso às fontes de alto nível que tanto facilitam o trabalho da imprensa.

Então, para informar bem os meus leitores, só me resta recorrer, em alguns casos, a textos alheios --quando são daqueles que pegam no breu.

P. ex., o assunto principal da coluna do Elio Gaspari (foto acima) neste domingo, 27: o terrorismo praticado pelos bancos, por meio dos economistas e escribas que gravitam em sua órbita, com o deplorável apoio do BC, para evitar que os trabalhadores recebam o que lhes foi surrupiado no passado.

VEXAME, A BANCA NÃO SABE CONTAR

No final do ano passado, o Supremo Tribunal Federal esteve prestes a julgar o litígio dos poupadores das cadernetas de poupança que se sentiram lesados com a correção monetária de seus depósitos durante os planos econômicos fracassados do fim do século passado.

Com o apoio do Banco Central, a banca desencadeou uma operação de terrorismo político-financeiro, argumentando que se os depositantes prevalecessem, provocariam um desastre bíblico na economia nacional. Seriam R$ 150 bilhões, talvez R$ 180 bilhões, quem sabe, R$ 441 bilhões. Uma empresa de consultoria falou em R$ 600 bilhões.

Um manifesto assinado por Guido Mantega e cinco ex-ministros da Fazenda, inclusive aqueles que ajudaram a produzir a ruína da hiperinflação, foram na mesma linha. 

Um dos advogados da banca chegou a mandar uma carta ao ministro Ricardo Lewandowski prevendo que uma decisão a favor dos poupadores "lançará o país numa coorte de horrores que, sem exagero, irão do desemprego em massa à fome da população mergulhada nos sortilégios de uma crise econômica que afetará toda a nação." Os ilustres causídicos da banca, que já haviam tentado tenebrosas tentativas no escurinho de dois recessos do STF, conseguiram adiar para este ano o julgamento do caso.
Está difícil de ler? Clique no quadro para ampliar.

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor sustentava que isso era um exagero e argumentava que esses mesmos bancos haviam provisionado apenas R$ 11 bilhões. Na conta do Credit Suisse o litígio custaria R$ 26,5 bilhões.

A Procuradoria-Geral da República informou que as contas catastrofistas estavam erradas. A cifra certa, para a PGR, está em R$ 21,9 bilhões. Em vez de aterrorizar o país com uma conta doida para não pagar coisa alguma, os bancos poderiam ter feito a conta certa, como fez o Credit Suisse. Afinal, eles a conheciam.

Ficará na história da banca brasileira o fato de terem inventado um apocalipse para ganhar um dinheirinho à custa da boa-fé do público e da sua capacidade de atemorizar os ministros do Supremo.

Tudo indica que o Supremo decide a questão ainda neste ano. (por Elio Gaspari, em artigo para a Folha de S. Paulo, O Globo e outros jornais)
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