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terça-feira, 2 de julho de 2019

A GRANDE DIÁSPORA MUNDIAL – 3

(continuação deste post)
Segundo Ramadhani, refugiado burundinês de 26 anos, viver numa dessas tendas de acampamento corresponde a uma luta diária para conseguir comida e água. Tais condições acabam com a vida de qualquer um, diz ele, mas é melhor do que viver com medo e trancado em casa, daí preferir permanecer nesses campos até morrer. 

Segundo relato da psiquiatra Carolyne César, da ONG Médicos Sem fronteiras, é alarmante e o índice de tentativas de suicídios dos imigrantes enviados à ilha de Nauru pelo governo australiano; as crianças, acrescenta, afirmam que é melhor morrer do que ali permanecer.  

Esta é a cruel realidade de um mundo moldado por uma ordem sócio-econômica genocida. 

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados denuncia que 68,5 milhões de pessoas foram expulsas de suas casas à força, como consequência das ações de governos despóticos; da intolerância de grupos fundamentalistas religiosos; do temor inspirado por milicianos que praticam a extorsão, vendendo pretensa proteção; e do crime organizado. 

Mas, o que está na base dessa formação sócio-criminosa é a impossibilidade de produção social dos países da periferia do capitalismo sob um contrato econômico one world que encontrou o seu limite interno absoluto de convivência social harmônica.
Todos esses fenômenos ocorrem sob o primado da barbárie social causada por um modelo de produção social fundado na concorrência de mercado e financiamento da produção a juros extorsivos para os países da periferia capitalista (como ocorre com o Brasil, que aceita tal imposição docilmente, pois, afinal, é mais fácil cortar direitos previdenciários).  

Os países que se beneficiam de tais relações de produção e que rejeitam os originários de suas antigas colônias, agora estão também ameaçados nas suas pujanças econômicas, pois não se pode explorar indefinidamente sem que as consequências dessa lógica demonstre a sua insustentabilidade de longo prazo (e continue impune!). 

A debacle que já se observa na União Europeia, expressa nos altos níveis de desemprego, problemas com a previdência social e dívida pública crescente, denunciam que o barco capitalista, tal como os barcos do mar Mediterrâneo cheios de imigrantes desesperados, está afundando.

Neste contesto, dois segmentos políticos ganham espaço nos países capitalistas dominantes da União Europeia:  
 um é o dos partidos ultraconservadores (foto ao lado), que abrigam os defensores dos privilégios tradicionais, ora ameaçados, e que reforçam os discursos nacionalistas xenófobos, tentando manter o status quo pela força (os arminhas de lá) e impor retrocessos civilizatórios; e
 o outro é o dos partidos ecológicos (os verdes), que, apesar das boas intenções, não tocam na questão fundamental que é a falência e negatividade das relações de produção capitalistas. 

A crise ecológica, vale ressaltar, tem uma abrangência global, não seletiva. Atinge as florestas europeias (e estadunidenses) com incêndios cada vez maiores; prejudica a agricultura; e causa poluição insuportável, tanto quanto a desertificação, as secas e inundações tropicais. 

A hipocrisia mundial é algo que deveria causar indignação nas mentes mais esclarecidas.

Hipócritas são, p. ex., as alegadas preocupações dos EUA e seus subservientes apoiadores sul-americanos com a tragédia humana da Venezuela (independentemente de o governo de Maduro não me inspirar a mais remota simpatia) e a condenação do regime cubano.
Mohammed bin Salman ainda encontrou quem apertasse sua mão ensanguentada
Por que? Entre muitos outros motivos, por tolerarem na reunião do G-20 a participação de um assassino como o príncipe saudita Mohammed bin Salman, responsável pela morte do jornalista Jamal Khashoggi e de outros dissidentes políticos decapitados por regime brutal.  

E o alegado sentimento humanitário da União Europeia e da Turquia se revela uma balela à medida que financiam o governo despótico da Líbia para que, com sua guarda costeira no mar Mediterrâneo, detenha embarcações de imigrantes utilizando os métodos mais cruéis e desumanos.    

Observemos tragédias mundiais como:
 a dos povos da minoria rohingya em Mianmar;
 as perseguições de comunidades inteiras na Nigéria e em Camarões;
 a miséria do Sudão do Sul e do Burundi;
 o êxodo venezuelano (foto ao lado), salvadorenho, guatemalteco, hondurenho, haitiano e boliviano;
 a guerra permanente da Líbia e da Síria;
 as guerras fundamentalistas religiosas do Afeganistão, de Mossul e de tantas outras regiões do oriente médio; e
 a disputa territorial entre palestinos e israelenses. 

Todas têm, um ponto em comum: a falência (e ganância) de um modelo político-econômico que está a clamar por sua superação.

Entretanto, tal superação implica uma autocrítica de nossa servidão voluntária ao sistema que está na base de toda essa tragédia planetária. Devemos honestamente reconhecer nossa condição de cúmplices, ainda que involuntários, com todos esses crimes de lesa-humanidade. 

Seremos capazes de, conscientemente, antes mesmo que a realidade nos empurre para a tomada de medidas de emergência ou de desaparecermos da face da Terra, operarmos a transformação emancipatória necessária e indispensável? 

Somente a nós cabe a resposta. (por Dalton Rosado)

"...quando há uma terra prometida/ o bravo irá e outros o seguirão/ a beleza
do espírito humano/ é a vontade de realizar os próprios sonhos/ e assim,
as massas atravessam o oceano/ em direção a uma terra de paz e
de esperança/ mas ninguém ouviu uma voz ou viu uma luz/
enquanto era jogado na costa/ e ninguém foi recebido
pelo eco da frase Eu levanto minha lâmpada
junto à porta dourada..."  

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

NEONAZISTAS ALEMÃES TÊM PARTICIPAÇÃO MARCANTE NAS MANIFESTAÇÕES DE RUA CONTRA OS ESTRANGEIROS

daniel avelar
VIOLÊNCIA EM PROTESTOS XENÓFOBOS
 EVOCA PASSADO NAZISTA NA ALEMANHA.
Alemães fazendo saudação nazista em público. Grupos de extrema-direita perseguindo imigrantes nas ruas. Milhares de manifestantes pedindo a expulsão de estrangeiros.

Cenas como essas, que ecoam o período do nazismo, foram registradas na Alemanha no início desta semana. A violência em Chemnitz, cidade localizada no Estado da Saxônia, no leste do país, fez os alemães voltarem a discutir a ascensão de movimentos de extrema-direita.

A tensão em Chemnitz teve início no domingo (26), após um alemão de 35 anos ser morto a facadas. Os principais suspeitos do crime são um iraquiano e um sírio, que foram detidos pela polícia.

A notícia do assassinato levou grupos de extrema direita a convocarem um protesto anti-imigrantes no mesmo dia. A manifestação, que atraiu algumas centenas de participantes, se repetiu na 2ª feira (27), reunindo cerca de 6 mil pessoas e provocando confrontos entre neonazistas e militantes de esquerda que participavam de uma manifestação contrária.

O incidente gerou reações das principais autoridades alemãs, além de reacender o debate sobre imigração e xenofobia no país.
A histeria xenófoba está servindo de cavalo de Troia para os neonazistas alemães... 
Dezenas de pessoas ficaram feridas, algumas gravemente, em confrontos entre militantes da extrema-direita e participantes de uma manifestação contrária. Além disso, segundo o jornal britânico The Guardian, a perseguição contra imigrantes ocorrida durante os tumultos deixou um sírio, um búlgaro e um afegão feridos.

A violência nas ruas refletiu o tom das manifestações da extrema-direita, em que militantes gritaram palavras de ordem nacionalistas e xenófobas, como Chemnitz é nossa, fora estrangeiros e para cada alemão morto, um estrangeiro morto. Ao menos dez pessoas estão sendo investigadas por fazerem a saudação nazista, que é proibida na Alemanha.

As forças de segurança foram duramente criticadas por permitir que a situação em Chemnitz fugisse do controle. Ademais, o vazamento de um relatório sobre o esfaqueamento de domingo para militantes xenófobos levantou suspeitas de que tenha havido colaboração entre agentes da polícia e grupos da extrema-direita.

O primeiro-ministro da Saxônia, Michael Kretschmer, acusou a extrema-direita de tirar proveito do assassinato de domingo e pediu que os habitantes de Chemnitz “se posicionem juntos dos nossos concidadãos estrangeiros”. A chanceler alemã, Angela Merkel, repudiou a violência xenófoba e declarou que “o que vimos é algo que não tem lugar numa democracia constitucional”.

As manifestações da extrema direita foram impulsionadas por notícias falsas, incluindo as alegações de que a vítima do esfaqueamento de domingo teria sido atacada ao tentar proteger uma mulher, e de que um outro homem havia sido morto por estrangeiros. A polícia desmentiu essas histórias.
...assim como a ultradireita brasileira quis usar a greve dos caminhoneiros para dar um golpe de estado.
Os principais responsáveis pela disseminação das fake news são organizações de extrema-direita, incluindo o grupo que convocou as manifestações em Chemnitz.

A extrema-direita também está no Parlamento, após o partido AfD (alternativa para a Alemanha) conquistar a terceira maior bancada no Bundestag nas eleições do ano passado.

A representação da extrema-direita no Parlamento, fato inédito na Alemanha desde a queda do nazismo, oferece um canal institucional para ideias xenófobas. De fato, alguns líderes da AfD declararam apoio aos manifestantes de Chemnitz. Um dos parlamentares da sigla, Markus Frohnmaier, disse que “se o Estado não protege mais seus cidadãos, então as pessoas devem tomar as ruas e proteger a si mesmas. É simples assim!”.

A violência xenófoba na Alemanha não está limitada aos incidentes em Chemnitz. Em 2017, houve mais de mil ataques contra abrigos para refugiados no país. Grande parte dos incidentes foi registrada em Estados do leste da Alemanha, membros do bloco comunista durante a Guerra Fria, mas também houve episódios xenófobos em outras partes do país.

O aumento dos ataques xenófobos na Alemanha é uma reação à chegada de imigrantes e refugiados, que alcançou seu pico em 2015 com a política de portas abertas do governo Merkel –mais de 1 milhão de estrangeiros entraram no país naquele ano. Desde então, o governo tem restringido a imigração, em parte devido à pressão da extrema-direita. (por Daniel Avelar) 
Este é o filme do momento, desgraçadamente. Leia mais sobre ele clicando aqui.

sábado, 25 de agosto de 2018

SURTO DE XENOFOBIA DESEMBESTADA NOS FAZ RETROCEDER À IDADE DA PEDRA

hélio schwartsman
PELO FIM DAS FRONTEIRAS
Imigração é um fenômeno estranho. Do ponto de vista puramente racional, ela é a solução para vários problemas globais. Mas, como o mundo é um lugar menos racional do que deveria, pessoas que buscam refúgio em outros países costumam ser recebidas com desconfiança quando não com violência, o que diminui o valor da imigração como remédio multiuso.

No plano econômico, a plena mobilidade da mão de obra seria muito bem-vinda. Segundo algumas estimativas, ela faria o PIB mundial aumentar em até 50%. Mesmo que esses cálculos estejam inflados, só uma fração de 10% já significaria um incremento da ordem de US$ 10 trilhões (uns cinco Brasis).

Uma das principais razões para o mundo ser mais pobre do que poderia é que enormes contingentes de humanos vivem sob sistemas que os impedem de ser produtivos.

Um estudo de 2016 de Clemens, Montenegro e Pritchett estimou que só tirar um trabalhador macho sem qualificação de seu país pobre de origem e transportá-lo para os EUA elevaria sua renda anual em US$ 14 mil.

A imigração se torna ainda mais tentadora quando se considera que é a resposta perfeita para países desenvolvidos que enfrentam o problema do envelhecimento populacional.

Não obstante tantas virtudes, imigrantes podem ser maltratados e até perseguidos quando cruzam a fronteira, especialmente se vêm em grandes números. Isso está acontecendo até no Brasil, que não tinha histórico de xenofobia. Desconfio de que estão em operação aqui vieses da Idade da Pedra, tempo em que membros de outras tribos eram muito mais uma ameaça do que uma solução.

De todo modo, caberia às autoridades incentivar a imigração, tomando cuidado para evitar que a chegada dos estrangeiros dê pretexto para cenas de barbárie. Isso exigiria recebê-los com inteligência, minimizando choques culturais e distribuindo as famílias por regiões e cidades em que podem ser mais úteis. É tudo o que não estamos fazendo. (por Hélio Schwartsman)

OS ÚLTIMOS VÍNCULOS ELEMENTARES DE SOLIDARIEDADE FORAM DESTRUÍDOS NA FESTA MACABRA DE CAÇA A ESTRANGEIROS

vladimir safatle
REFUGIADOS E CIDADÃOS
Há de se retornar mais uma vez a Pacaraima, pois é nessa cidade no extremo norte do país que se define atualmente o Brasil.

Pode parecer que essa é apenas uma frase de efeito para dramatizar um pouco textos jornalísticos do final de semana. Mas a verdade é que a vila de pouco mais de 12 mil habitantes é o ponto privilegiado de contato do Brasil com as dinâmicas de reconfiguração da política mundial e da função do que podemos entender por Estado-nação.

A imagem aterradora de uma turba queimando pertences de refugiados, suas tendas, e expulsando-os enquanto entoavam o hino nacional com o orgulho dos criminosos que se julgam moralistas, dos bandidos que têm olhos duros contra o crime, não é um incidente isolado. Esse é um caso premeditado.
O descaso do governo federal com a sorte dos refugiados e sua incapacidade de organizar uma política mínima de acolhimento e distribuição no território nacional desses que procuram fugir de instabilidades econômicas e políticas não são apenas uma falta moral repugnante. São uma bomba-relógio política já montada em várias partes do mundo.

Melhor gerir um povo em luta contra refugiados e delirando sobre símbolos nacionais do que alguém que não cai nesse tipo de armadilha primária. Poderíamos lembrar da aberração de ver cenas dessa natureza num país como o Brasil, construído pela escravização dos negros, pelo extermínio de indígenas e pelo acolhimento de levas de refugiados armênios, sírios, libaneses, judeus, assim como de tantos outros imigrantes fugindo da miséria desde o século 19.

Essa aberração pode até ser loucura, já que ela expõe a mobilização de medos atávicos num país que se beneficiou há mais de um século do que os refugiados trouxeram. Mas essa loucura tem método.

Num momento no qual o Estado-nação já não existe mais, no qual as fronteiras econômicas são ficções, no qual a desestabilização da lira turca provoca efeitos imediatos na economia brasileira, cantar o hino nacional como expressão de um este é meu lugar, forasteiro só pode ser visto como um atestado de impotência travestido de força.

Ele é a prova maior de como o nacionalismo é o último refúgio da estupidez humana. Dele, as únicas coisas a derivar são paralisia e destruição.

Não tendo mais função econômica alguma, a nação se resume atualmente a seu núcleo originário. Natio, em latim, está ligado a nascimento, origem. Ou seja, trata-se da simples afirmação fantasmática do nascimento que pretensamente nos daria algo de comum e intransferível.

Mas nada nos une como brasileiros; nem sequer temos uma história em comum, nossos pactos entraram em colapso. Para se esquecer disso sempre haverá aqueles que procurarão criar unidades fictícias, construindo inimigos externos, mesmo que tais inimigos sejam refugiados lutando pela simples sobrevivência.

Mas é fato que nem sequer nisso o Brasil inova. A política mundial tem em um dos seus pilares a produção contínua de refugiados. Não há país minimamente desenvolvido que não se beneficie da pressão de desestabilização produzida pelo fato de existirem massas de não-cidadãos migrando pelo mundo. Não-cidadãos que estarão dispostos a suportar as piores privações para não retornarem à sua insegurança inicial.

Normalmente, o refugiado é contraposto ao cidadão, aquele que tem direitos e territorialidade garantidos pelo Estado. No entanto o cidadão sempre precisou do refugiado para se esquecer de sua contínua precarização e fragilidade.
Ele precisa disso para esquecer que será o próximo refugiado, o próximo a se encontrar em condição de vulnerabilidade extrema, o próximo a vagar sem rumo à procura de condições elementares de sobrevivência. Pois os vínculos elementares de solidariedade foram destruídos na última festa macabra de caça a estrangeiros.

Aí será tarde para descobrir que a solidariedade ou é irrestrita e incondicional ou é simplesmente inexistente. Será tarde para descobrir que nos tornaremos refugiados paradoxalmente cantando o hino nacional contra refugiados. (por Vladimir Safatle)

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A DISTOPIA MUNDIAL E A VOLTA DAS PRÁTICAS NAZIFASCISTAS – 2

(continuação deste post)
Gueto de Varsóvia, 1943: modelo para Trump?
AFUNDANDO NUM OCEANO DE INIQUIDADES – Diante da distopia atual o capitalismo tira a sua máscara de respeito aos direitos humanos pelo chamado Estado democrático de direito. Tal como na Alemanha nazista, utiliza-se agora a própria lei e os argumentos de defesa da economia nacional como argumentos falaciosos para a repulsa aos não nacionais, como se fossem seres humanos diferentes dos demais.

Não são poucos os exemplos que podem ser citados, tudo praticado democraticamente por governantes eleitos em eleições nas quais vontade popular é manipulada pela via de um discurso xenófobo segundo o qual nós não podemos pagar pelos erros dos outros e precisamos de quem defenda os nossos interesses

Não se compreende que o mundo economicamente globalizado é uma grande nau que faz água por muitos dos seus lados e que nos levará a todos para o fundo de um mesmo oceano de iniquidades.

Não se compreende que, sob o capitalismo, a vitória de uns poucos implica a derrota da maioria; e que, diferentemente desse nefasto contrato social, deveríamos viver sob a égide de um modo de mediação social diferenciado, no qual sejam a solidariedade humana e a apropriação da capacidade da natureza de prover a subsistência global nas suas variações climáticas e territoriais, os pontos fundamentais da nossa existência social.
Cena que se torna corriqueira: refugiados lançando-se ao mar

Ao contrário disso, o que se observa mais recentemente é que:

— o ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, adepto do discurso xenófobo nacionalista, teve a insensibilidade de negar acolhida a 629 pessoas, dentre elas mulheres grávidas, crianças e velhos, que, em desespero, se lançaram ao mar;  

— o presidente dos Estados Unidos, maior país capitalista do mundo e que costuma ditar regras morais e éticas para as demais nações (como se o capitalismo fosse um modo de produção capaz de promover minimamente prosperidade geral e equilíbrio social!), é o primeiro a barrar os empobrecidos do planeta que tentam chegar à grande ilha de acumulação de riqueza capitalista. 

Que mundo é esse, que não nos cabe a todos?

Comparo a prisão de pessoas que imigram em desespero de sobrevivência e sua separação dos filhos, sob Trump, ao que fazia a Alemanha nazista: mandava as crianças judias para campos de concentração!    

Como se explicar a diáspora africana, americana central, asiática, árabe, e até mesmo dentro do continente europeu, sem que se coloque a culpa disso tudo num sistema que encontrou o seu limite interno absoluto de coexistência social graças à disfunção entre forma e conteúdo?
A lógica do capitalismo impõe a restrição dos direitos previdenciários 

Como aceitar que pessoas idosas sejam privadas de seu sustento após anos de trabalho em razão do déficit da previdência social, que ocorre até mesmo nos países economicamente desenvolvidos como a França (vale lembrar que o próximo presidente do Brasil e o parlamento a ser eleito em outubro herdarão a incumbência, imposta pela lógica capitalista, de restringirem direitos previdenciários)?

A concentração de valor (dinheiro e mercadorias) no organismo social capitalista sem capacidade de auto-reprodução está condenando ditos capitais a virarem pó; diante dessa iminência, os Estados cada vez mais recorrem à força militar para manutenção da ordem sistêmica capitalista decrépita e, assim, cada vez mais opressora (sob os auspícios da lei!).   

Entretanto, como tal problema de natureza econômica não se resolve pela força bruta, corremos o risco de assistirmos nas próximas décadas a lutas fratricidas, a guerras civis entre os que querem manter os seus privilégios por trás de muros e armas e aqueles que buscam a sobrevivência a qualquer custo.

Por Dalton Rosado
Sem que atentemos para as questões subjacentes à miséria social mundial que se amplia, nós corremos o risco de entrarmos definitivamente na barbárie, que nunca foi e nem será a solução para os problemas que nós mesmos criamos. 

Barbárie corporificada na eleição de Donald Trump e na sua política anti-imigratória que encarcera crianças.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A DISTOPIA MUNDIAL E A VOLTA DAS PRÁTICAS NAZIFASCISTAS – 1

"Agora temos
uma orquestra,
só falta um maestro"
(guarda estadunidense face ao choro uníssono de crianças
separadas dos pais e
presas em jaulas
de arame) 
O mundo experimenta hoje um fenômeno migratório das populações dos países periféricos do capitalismo para os grandes centros do chamado 1º mundo como nunca antes ocorreu.

Isto se deve ao fato de as condições de produtividade de mercadorias e o caro financiamento dessa produção e da dívida pública estatal dos países periféricos, em relação aos países que controlam a economia mundial, serem substancialmente diferenciadas para pior. A concorrência é desigual.   

A barbárie em curso nas nações periféricas de um mundo no qual a economia se tornou globalizada, causada pelo descompasso cada vez mais acentuado das condições financeiras e de concorrência de mercado, dá azo ao surgimento de governos tirânicos e grupos paramilitares que dominam pela força das armas as populações pauperizadas e desesperadas.

As populações de tais países só veem uma saída: o aeroporto, para os que podem pagar uma passagem de avião e conquistar a tal cidadania graças a comprovação de riqueza, ou a aventura da emigração, seja pelo mar em embarcações precárias, seja por terra frequentemente atravessando áreas conflagradas. E para quê? Para, no seu destino, serem recebidos como párias da humanidade. 
Secretário-geral da ONU repudiou tratamento desumano às famílias de refugiados e migrantes nos EUA 
A conclusão é igualmente simples: o capitalismo encontrou o seu limite interno de expansão e aquilo que outrora proporcionou a riqueza dos países que conduziram as duas primeiras revoluções industriais logo após o período da colonização escravista direta, agora esbarra na terceira revolução industrial (a da microeletrônica), na qual o trabalho abstrato produtor de valor se tornou mero acessório da produção de mercadorias. 

Com a terceira revolução industrial as massas globais de extração de mais-valia e de valor global diminuíram substancialmente; assim como um organismo vivo desfalece quando falta sangue, o capitalismo mundial ora agoniza, com os países tidos como ricos sobrevivendo por aparelhos (refinanciando suas impagáveis dívidas públicas, emitindo títulos públicos insolváveis e moedas sem lastro, recorrendo, enfim, a expedientes que apenas postergam o inevitável). 

Por sua vez os países periféricos do capitalismo, por não terem as mesmas condições de sustentação artificial das nações ricas, são largados à própria sorte. 
Desertificação avança no Ceará

Tomemos como exemplos alguns fenômenos do Brasil, país que se situa a meio caminho entre as nações empobrecidas e as grandes produtores de mercadorias. 

As terras nordestinas, em grande parte, se tornaram improdutivas, seja por falta de níveis de produtividade que lhes permitam concorrer em condições de igualdade no mercado brasileiro, seja por causa das secas cíclicas, cada vez mais frequentes e intensas com o avanço do aquecimento global.  

Assim, as terras que antes eram dominadas pelos antigos coronéis do sertão, hoje estão simplesmente abandonadas, sendo comum vermos casas em ruínas onde antes moravam grandes contingentes de trabalhadores rurais. 

A reforma agrária no Nordeste se tornou factível porque a substancial redução do valor econômico das terras leva os grandes fazendeiros a almejarem a desapropriação barata pelo governo, para com isto poderem comprar uma casa nos centros urbanos.

Entretanto, tais terras, ocupadas pelos assentamentos rurais, em pouco tempo são também abandonadas, pelos mesmos motivos, ou seja, no capitalismo, ou se produz em grande escala, com equipamentos modernos e pouca mão de obra, ou não se inviabiliza a produção por falta de capacidade concorrencial de mercado.  

No sertão do Nordeste do Brasil até a economia de subsistência já não funciona, pois produzir um quilo de queijo com o leite de poucos animais, torna-se mais caro do que comprá-lo numa venda ou supermercado.   

Evidência recente da disfunção econômica é o que está ocorrendo com o sistema de transporte rodoviário. O custo do transporte de mercadorias está incompatível com o preço dos fretes, pois a elevação do valor deste último não pode ser repassada para o preço das mercadorias em razão da concorrência de mercado e da falta de poder aquisitivo de grande parte da população.
Setor de transporte de carga pressiona pelo aumento do frete

O resultado é a paralisia de todo o sistema de transporte, que pressiona pelo reajuste dos preços dos fretes mas esbarra na depressão de toda a economia. O quadro é de uma septicemia generalizada de todo o organismo econômico.

Outro sintoma é o atual estágio de violência urbana no Brasil, uma verdadeira escalada da barbárie social e da anomia. O problema não pode ser equacionado pelos sábios estudiosos da questão de segurança pública sem analisarem as questões estruturais que lhe são subjacentes, sob pena de ditas discussões se tornarem evasivas e/ou hipócritas. 

Muitos outros exemplos da famigerada inviabilidade econômica que incide sobre grande parte das atividades econômicas poderiam ser aqui citadas. Todas elas mais não são do que sintomas de fenômenos econômicos que denunciam um processo de falência, prenunciando um futuro colapso irremediável. Ai do povo, que será, como sempre, a principal vítima das agruras provocadas por tal processo! (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

terça-feira, 21 de junho de 2016

NÚMERO DE REFUGIADOS NO MUNDO DISPARA E CRIANÇAS SÃO MAIS DA METADE

É dos mais preocupantes o quadro exposto no recém-divulgado relatório Tendências Globais, que o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) elabora com base em dados próprios, de governos e de agências parceiras, detalhando o deslocamento forçado ao redor do mundo: aponta um total de 65,3 milhões de pessoas deslocadas por guerras e conflitos até o final de 2015

Ou seja, um em cada 113 habitantes do planeta foi arrancado de seu lar e perambula por outras regiões ou países, em situação de precariedade extrema.
Vale a pena reproduzir os principais trechos da notícia divulgada pela ONU:

"...O número [de 65,3 milhões] representa um aumento de quase 10% se comparado com o total de 59,5 milhões de pessoas deslocadas registradas em 2014. Esta é a primeira vez em que os números de deslocamento forçado ultrapassaram o marco de 60 milhões de pessoas.

...Comparado com a população mundial de 7 bilhões e 349 milhões de pessoas, estes números significam que um a cada 113 pessoas é hoje solicitante de refúgio, deslocado interno ou refugiado – um nível sem precedentes para o Acnur. No total, existem mais pessoas forçadas a se deslocar por guerras e conflitos do que a população do Reino Unido, da França ou da Itália.

Na maioria das regiões do mundo, o deslocamento forçado tem aumentado desde meados da década de 90. Mas este crescimento se acentuou ao longo dos últimos cinco anos.

Três razões explicam esta tendência: 
  • situações que causam grandes fluxos de refugiados estão durando mais — p. ex., conflitos na Somália ou no Afeganistão estão agora em sua terceira e quarta décadas, respectivamente; 
  • novas ou antigas situações dramáticas estão ocorrendo frequentemente — o maior conflito atual sendo a Síria, além de outros significativos nos últimos cinco anos, como Sudão do Sul, Iêmen, Burundi, Ucrânia, República Centro-Africana e outros; e 
  • a velocidade na qual soluções para os refugiados e deslocados internos são encontradas tem caído desde o final da Guerra Fria.
Há cerca de dez anos, no final de 2005, o Acnur registrou uma média de seis pessoas deslocadas a cada minuto. Hoje, este número é de 24 por minuto.

...Entre os países analisados pelo relatório Tendências Globais, alguns se destacam por serem a principal origem de refugiados no mundo. Síria — com 4,9 milhões de refugiados —, Afeganistão — com 2,7 milhões — e Somália — com 1,1 milhão — totalizam mais da metade dos refugiados sob o mandato do Acnur.

Os países com maior número de deslocados internos são Colômbia — 6,9 milhões —, Síria — 6,6 milhões — e Iraque — 4,4 milhões. O Iêmen, em 2015, foi o país que mais registrou novos deslocados internos — 2,5 milhões de pessoas ou 9% de sua população.

...As crianças somavam 51% do total de refugiados em 2015, de acordo com os dados que o Acnur conseguiu reunir. (...) Preocupantemente, muitas foram separadas de seus pais ou estão viajando sozinhas. 

Ao todo, havia 98,4 mil solicitações de refúgio de crianças desacompanhadas ou separadas de suas famílias registradas ao final de 2015. Este é o maior número já visto pelo Acnur — um reflexo trágico sobre como o deslocamento forçado global está afetando desproporcionalmente a vida dos jovens".

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

'PEGA, MATA E COME!'

Lembrança inesquecível dos meus verdes anos é ter visto Maria Bethânia cantando "Carcará", com toda a contundência que a canção pedia. Aquele gritado "pega, mata e come!" impactava no âmago da nossa alma.

Era uma celebração da capacidade de resistência dos nordestinos, que aos trancos e barrancos iam sobrevivendo à miséria, à seca, à fome e à retirada forçada de sua terra natal para buscar esperança alhures.

Daí a citação que ela declamava no final da música:
"Em 1950 mais de dois milhões de nordestinos viviam fora dos seus estados natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí! 15% da Bahia!! 17% de Alagoas!!!"
Hoje são outros os retirantes: os que deixam países periféricos, devastados pela penúria e pelas guerras, indo bater na porta de prósperas nações europeias, que cada vez mais as fecham na cara desses coitados.

Eis dados chocantes alinhavados pela Folha de S. Paulo:
  • o fluxo de refugiados e imigrantes na Europa é o maior desde a 2ª Guerra Mundial;
  • 1.005.504 pessoas chegaram ilegalmente à Europa entre 1º de janeiro e 21 de dezembro de 2015;
  • o crescimento em relação ao mesmo período de 2014 foi de 365%;
  • 3.692 pessoas morreram ou desapareceram no caminho até o continente europeu. 
Pega, mata e come! 

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