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quinta-feira, 19 de junho de 2025

NUMA DÉCADA AGÔNICA, ESTE FILME RESGATOU NOSSOS SONHOS E ESPERANÇAS. HOJE TAMBÉM NOS FALTA UM ALENTO

Um dos filmes com intenções políticas mais poéticos da história do cinema, Jonas que terá 25 anos no ano 2000 (que completará meio século no ano que vem...) mostra uma Suíça que, em meados da década de 1970, retornara à plena normalidade capitalista, nada restando dos ventos de mudança que sopraram fortes em 1968, com exceção de um ou outro indivíduo isolado que representava alguma faceta das utopias cultivadas pela geração anterior.

Já não existia um projeto coletivo a imantar tais vertentes, mas os pequenos profetas (como o ótimo diretor Alain Tanner  os qualificou em entrevistas) continuavam tentando levar adiante, isoladamente, aquilo em que acreditavam. Eram oito, todos com os nomes iniciados por M (de maio, o mês das barricadas francesas).
O personagem Mathieu segue as pegadas de Rousseau

Uma teia de circunstâncias inesperadas os vai colocando em contato, até que os oito se reúnem numa única ocasião, congraçando-se na fazenda do personagem que se dedica ao cultivo de vegetais sem contaminação química. É quando almoçam exultantes, numa sequência, belíssima, que simboliza a 
Santa Ceia. 

Bem naquela fase e sob tais auspícios, o casal de fazendeiros gera um filho, que terá o simbólico nome de Jonas. 

A alusão é ao profeta que foi engolido pela baleia mas sobreviveu, assim como o filme acena com a esperança de que a criança sobreviverá à gordura capitalista para, no ano 2000, corporificar uma nova e definitiva síntese dos ideais dos pequenos profetas.

Embora o filme não esclareça como isto se dará, parece destacar sobretudo a via representada pelo personagem Mathieu (São Mateus?), que Rufus interpreta.

Ele quer educar as crianças de forma que não percam sua bondade natural, escapando ilesas aos condicionamentos ideológicos que uma sociedade corrupta lhes tenta impor, mais ou menos como Jean-Jacques Rousseau preconizou em Emílio, ou Da Educação. 

Hoje, quando as melhores esperanças da humanidade parecem ter ficado para trás, substituídas pelos piores augúrios quanto à própria sobrevivência da nossa espécie, Jonas... é um filme simplesmente obrigatório. 

Até por colocar em questão algo que realmente vale a pena discutirmos: se 1968 foi uma primavera que passou em nossas vidas ou o ensaio geral de uma revolução que ainda chegará. (por Celso Lungaretti)
Clique aqui para assistir ao filme completo no Youtube

terça-feira, 12 de março de 2024

ERAM ANARQUISTAS, GRAÇAS A DEUS. É A ELES QUE DEVEMOS A COLÔNIA CECÍLIA – 2

MEIO SÉCULO ANTES DO SAUDOSO RAUL SEIXAS NASCER, JÁ SE TENTARA CRIAR NO BRASIL UMA SOCIEDADE ALTERNATIVA 
O filme La Cecilia (d. Jean-Louis Comolli, 1975) resgata um episódio histórico pouco conhecido entre nós, embora aqui transcorrido: a implantação de uma colônia rural no Paraná, por parte de anarquistas italianos.

Foi a concretização de um sonho há muito acalentado por Giovanni Rossi, conforme ressaltou a historiadora Izabelle Felici: 

"A personagem do fundador da Cecília é indissociável da história da colônia. Toda a sua atividade política gira em torno de um projeto de vida comunitária. 

Desde a sua adesão à Internacional, em 1873, aos 18 anos de idade, Giovanni Rossi propôs um projeto de vida comunitária na Polinésia. 

Os numerosos artigos que ele apresentou na imprensa italiana, anarquista e socialista, os apelos que ele lançou às associações, federações, partidos, suscetíveis, a seus olhos, de ajudá-lo, tinham todos por objetivo expor seu projeto de comunidade ou, após 1890, apoiar a experiência em curso no Brasil. 

Com o mesmo objetivo de propaganda, Rossi funda, além disso, seu próprio jornal, Lo Sperimentale, em 1886. Ele desenvolve igualmente seu projeto de comunidade num romance utópico, Un Comune Socialista, no qual a personagem feminina tem por nome Cecília".

O experimento durou cerca de quatro anos, entre 1890 e 1893. Houve muito entusiasmo no início, mas depois foram aflorando os problemas que acabariam levando à extinção da colônia. Eis alguns:

— a contribuição desigual de citadinos e camponeses, pois a produtividade dos primeiros era inferior. Deveriam receber a mesma fração dos frutos do trabalho, conforme os ideais igualitários? Isto não significaria uma espécie de proletarização dos que produziam mais por estarem acostumados a lidar com a terra? De outra parte, se os lavradores fossem melhor aquinhoados do que os outros, não estaria sendo reproduzida a escala de valores da sociedade burguesa? Inexistia uma solução que contentasse a todos;

— a dificuldade de lidarem, no dia a dia, com o conceito do amor livre, uma novidade que incomodava principalmente as colonas de origem camponesa;

— 
a absoluta falta de seriedade do Estado brasileiro, que já era patético décadas antes de De Gaulle o haver constatado. O imperador Pedro II, atendendo a pedido do músico Carlos Gomes, doou as terras para a instalação da Cecília, mas, proclamada a República, o seu ato foi sumariamente revogado e os colonos tiveram de pagar pelas terras com parte de sua colheita e trabalhando sem remuneração em obras do governo;

— a hostilidade dos moradores da região (por sentirem-se prejudicados pela concorrência) e de uma vizinha comunidade polonesa, católica e conservadora;

— as fases de escassez e de fome, com a consequente ocorrência de doenças causadas pela desnutrição (problemas passageiros, que, contudo, reforçaram a tendência ao egoísmo por parte dos menos convictos dos ideais anarquistas, gerando desgastantes divisões); e

— a tentativa do governo de recrutar os colonos (italianos!!!) para combaterem a Revolução Federalista, o que, inclusive, contrariava seus ideais, pois simpatizavam com os revoltosos.

A Cecília chegou a ter 250 moradores e não deixaram de ocorrer defecções em massa, contrabalançadas pela chegada de novas levas de voluntários, atraídos pela divulgação nos círculos libertários europeus.

Alguns desistentes migraram para Curitiba, onde fundaram a Sociedade Giuseppe Garibaldi.
.
POR QUE A HISTÓRIA DA COLÔNIA CECÍLIA
NÃO FOI CONTADA NUM FILME BRASILEIRO?

O filme francês conta esta rica história de forma dramatizada e com óbvia simpatia pela causa. 

O diretor Comolli (1941-2022), também crítico de cinema e de jazz, fez mais de 40 filmes entre 1968 e 2019, geralmente com posicionamento anarquista e/ou anti-stalinista. Foi editor-chefe do Cahiers do Cinema de 1966 a 1971, a fase mais politizada desta influente publicação.

Vale destacar que o elenco, cuja única cara familiar ao público brasileiro é a do ótimo Vittorio Mezzogiorno (No coração da montanha, O processo do desejo, Três irmãos), deu perfeita conta do recado.

Particularmente, eu preferiria uma abordagem menos convencional – como, p. ex., a que o cineasta suíço Alain Tanner deu aos ideais de 1968 no seu extraordinário Jonas, que terá 25 anos no ano 2000. 

Mas, sendo tão raras as produções que enfocam episódios históricos ligados às bandeiras da esquerda, temos mais é de incentivar filmes como este, recomendando a todos que o prestigiem, discutam e divulguem...

Chega a ser chocante que, em meio a tanta tralha produzida no Brasil, ninguém haja realizado um filme sobre a Colônia Cecília, nem sobre a importantíssima greve geral de 1917. 
   
Antes mesmo das trevas que desabaram sobre nós em 2019, já existiam assuntos malditos para nosso cinema, como os relativos a episódios libertários (não confundir com o uso fake que está sendo dado a esta palavra pelos liberticidas ultradireitistas), às lutas por justiça social e às possibilidades eróticas inaceitáveis para as pessoas reprimidas. 

E, claro, nada mudou significativamente com a volta do Lula ao poder, já que sua simpatia pela esquerda combativa sempre foi e é cada vez mais... nenhuma! O máximo que ele almeja é um capitalismo que assopre com mais força para mitigar nossa dor, depois de nos morder impiedosamente. (por Celso Lungaretti)
O projeto era ótimo; Rossi deveria tê-lo tentando noutro país.
Observações: esta duologia junta duas pautas que vieram por si sós ao meu encontro. Interessei-me pela greve geral de 1917 porque ela nasceu no cotonifício Crespi, em cujas dependências meu pai trabalhou 46 anos consecutivos (primeiro na tecelagem e depois, que ela faliu, em empresas menores que alugaram sua dependências). 

Nem na memória dele, que lá começou a trabalhar em 1930, nem na do bairro da Mooca a greve ainda era tema de conversas, o que me fez querer saber o porquê.

Já a Colônia Cecília  tinha, obviamente muitos pontos de contato com a comunidade alternativa da qual participei após sair das prisões militares, e que foi fundamental para eu superar os traumas da tortura e a amargura de constatar que nada mais restava a fazer para tentarmos impedir o prolongamento indefinido das trevas ditatoriais. 

Acreditando que venceria ou morreria, não estava preparado para aguentar a paz dos cemitérios naquela terra arrasada, ao lado de um povo acovardado. 

Mas, as poucos percebi que sobrara um desafio importante: seríamos capazes de viver realmente como irmãos solidários, a partir de laços ideológicos e não de sangue? Nossa sociedade alternativa em miniatura sobreviveria à do Raulzito? 

Tudo estava contra nós e a nossa comuna também durou pouco, mas houve momentos nos quais deu para perceber que, sim, em circunstâncias mais propícias teríamos conseguido. 

Viver em fraternidade é muito melhor do que ser movido pela ganância, competindo ferozmente com iguais por uma salvação cada vez mais duvidosa.  

Senti que o homem novo com que tanto sonhávamos em 1968 habitava em nosso interior. E é esta a nossa esperança de salvação nos tempos terríveis que estão à nossa espreita adiante, quando a debacle definitiva do capitalismo somar-se à devastação das alterações climáticas. (CL) 
Raulzito numa performance ousada de "Metamorfose ambulante"

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

GODARD ESTÁ MORTO. FOI MEU PRIMEIRO SONHO, MAS NÃO O ÚNICO

Puro Godard! Em meio a uma discussão com Marianne, Ferdinand diz: "Viram? Ela é
 sempre assim!". Ela: "Com quem você está falando?". Ele: "Com os espectadores".
Ela, após olhar para trás e tomar um susto: "Mas, nós não devemos fazer isso". 
N
a década de 1960, curti intensamente os filmes do cineasta francês Jean-Luc Godard, que se foi por suicídio assistido nesta 3
ª feira (13), aos 91 anos, aparentemente apenas por estar "exausto", cansado de viver.

Se eu fosse ainda o crítico de cinema queum dia fui, relembraria toda a sua carreira, mesmo não a tendo acompanhado com interesse depois de 1968. 

Mas, já não preciso representar tais papéis. Posso me ater ao que Godard para mim representou. Aos que quiserem ler algo mais na linha convencional, recomendo esta minha evocação da nouvelle vague, filão do qual ele foi o expoente mais conhecido e influente.  

Deveria ter uns 15 anos quando me atraiu uma acanhada mostra do cinema francês, com a exibição de sete filmes, um por dia, alternados em duas salas de um bairro paulistano pouco dado a iniciativas artísticas: a Vila Mariana. 
Godard, sendo preso nos protestos de 1968... 
Era um momento em que procurava um caminho na vida e a novidade me interessou a ponto de pegar dois ônibus, com um amigo da escola, para irmos assistir a alguns desses filmes. 

Dois eram do Godard, se bem me lembro O pequeno soldado (1963) e Tempo de guerra (1963). Misturando poesia, tiradas filosóficas, HQ, non sense, sacadas políticas, humor negro, irreverências de todo tipo, eles me deslumbraram. Desconstruía o cinema que eu conhecia até então, propondo um novo, muito mais ousado e criativo.

Assisti a quase tudo dele dessa época.  Compunha um painel das opções existenciais dentro da sociedade burguesa, negando-as.  

Seu Tempo de Guerra me surpreendeu por ser uma produção baratíssima, com atores desconhecidos, e mesmo assim tão contundente na crítica às guerras capitalistas, em que coitadezas são laçados para servirem de buchas de canhão e destruídos sem sequer saberem por que estavam lutando. 

Em O Desprezo (1963), bateu pesado nos esquerdistas bem pensantes que, para subirem na vida numa sociedade que afirmam detestar, abrem mão de suas convicções sem pestanejar. No caso, trata-se de um roteirista de cinema que, ao ter a grande chance de projetar-se na profissão, não hesita em empurrar a esposa para os braços do poderoso produtor que a deseja, passando a receber dela o merecido desprezo. Quantos semelhantes a ele conheci por aí...

[Ficou associado a um dos momentos mais bizarros de minha militância clandestina. Lá pelo último trimestre de 1969, ocorreu de eu ficar sem abrigo, descontatado da VPR, com minha foto nos cartazes de procurados, esperando o ponto que um companheiro de outra organização conseguiu marcar para eu reencontrar-me com os meus. 
...e convencendo colegas a pararem o Festival de Cannes.

Depois de uma noite tumultuada e insone, eu tinha o dia inteiro pela frente, precisando fazer hora discretamente, sem chamar a atenção, pelo centro velho de São Paulo. E. noutro cinema que não costumava exibir os chamados filmes de arte, estava em cartaz O Desprezo.

Entrei e assisti a três sessões seguidas, sempre caindo no sono logo no comecinho e acordando quando as luzes se acendiam no final, sobressaltado com a possibilidade de a arma que eu carregava sob o braço ter sido vista por alguém.  Afinal, fui-me embora para meu ponto... e só veria inteiro esse filme décadas depois.]

Prestou tributo aos pequenos marginais que povoam a literatura e a sétima arte da França, de uma forma encantadora e com um amor livre que chocava quem se acostumara ao moralismo estadunidense, em sua estreia no longa-metragem: Acossado (1960).

Representou o admirável mundo novo que a tecnologia estava criando como ums sombria distopia em Alphaville (1965) .   

Fez sua declaração de horror aos Estados Unidos, a tudo que  o país era e a tudo que sua lavagem cerebral cinematográfica projetava para o mundo, em Made in USA (1966), do qual nunca esqueço a Anna Karina esclamando "Que vontade de vomitar desde que me arrasto por aqui!".

E o meu predileto, O demônio das onze horas (1965), que cansei de rever, é sobre um intelectual que rompe com sua vida previsível ao embarcar numa aventura com sua nova amante, que está sendo caçada por uma gang ou serviço secreto em razão de uma história complicada (que o filme não esclarece) e se torna também alvo da perseguição.  
"O desprezo": o roteirista só observa o poderoso
produtor dar uma óbvia cantada na sua esposa. 

Ou seja, mostrava uma via de escape romântica a uma existência insossa e desprovida de significado. "Foi meu primeiro, meu único sonho", dizia uma das frases disparadas pelos personagens a pretexto de nada, mas que, na verdade, comentavam a ação do filme.

E encontrar outra vida, naquele momento, era exatamente meu primeiro sonho. Só que, ao contrário do Ferdinand (Jean-Paul Belmondo) do filme, que nem agonizante admitia que a namorada Marianne (Anna Karina) o chamasse pelo apelido carinhoso de Pierrot, eu ainda teria muitos outros sonhos pela frente,...

Até que a busca artística do Godard chegou ao ponto de maior proximidade com minha busca pessoal em A Chinesa, que estreou na França em agosto de 1967 mas só chegou ao Brasil no ano seguinte. 

Mostra um grupo de jovens reunidos numa comunidade para aprenderem teorias revolucionárias e tentarem viver e se relacionar como homens novos. Quando os ventos de mudança sacudiram o mundo em 1968, A chinesa foi reconhecido como um filme premonitório. Aqui, se constituiu, simplesmente, no que mais marcou nosso grande ano da contestação. 

Na virada de 1967 para 1968, eu vivenciara o mesmo que A chinesa mostra, a reunião com outros principiantes para estudar a revolução e conviver de maneira solidária e livre com aquela que viria a ser doravante minha família principal. 

E, como os personagens da fita, saí desse trailer da revolução disposto a dedicar a ela o resto da vida, passado então a defrontar-me com as dificuldades para levar à prática a opção que fizera, muito piores aqui do que na França.
Alain Tanner, herdeiro de Godard, morreu dois dias antes

Então, enquanto Godard e outros cineastas interrompiam aos berros o Festival de Cannes de 1968 (o que nunca ocorrera e jamais ocorreria de novo) porque a verdadeira arte naquele momento se encontrava nas barricadas de Paris, eu e três colegas interrompíamos aos berros as aulas do Colégio MMDC, numa Mooca que não via algo semelhante desde que nela se iniciara a grande greve anarquista de 1917. 

A partir de 1968, fui fazer da vida real o meu próprio filme, então não precisei mais do Godard e nem acompanhei atentamente sua carreira.

Mas, por outra coincidência, seria eu o crítico paulistano que mais entusiasticamente acolheria o filme Jonas, que terá 25 anos no ano 2000, do cineasta suíço Alain Tanner, quando este estreou aqui (com um considerável atraso). 

Os críticos da grande imprensa detestaram, eu adorei e dei uma pequena contribuição para ele acabar virando um cult dos saudosos de 1968, principalmente no bairro boêmio do Bixiga, cujo cineclube cansou de exibi-lo.

Tanner então  me pareceu o diretor que conseguira dar o passo adiante que faltou a Godard depois de A Chinesa.

E não é que ele morreu exatamente dois dias antes de Godard, e aos 92 anos, portanto quase com a mesma idade?! (por Celso Lungaretti)
Não encontrei no Youtube algum filme completo do Godard para 
postar aqui, mas este trecho de Masculino, Feminino 
(1966) é  uma de suas grandes sacadas, ao desmistificar em
definitivo as suspeitas e superestimadíssimas pesquisas de opinião.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

A REVOLUÇÃO NA LIBERTÂNIA – 2

(continuação deste post)
No cult Jonas, que terá 25 anos no ano 2000, cabe 
às crianças resgatar e unificar as tendências que se
dispersaram 
no pós-1968, conduzindo-as à vitória.
 
O
s sindicatos, contestados na sua proposta de mera obtenção de resultados, passaram a não mais reivindicar salários e empregos, mas sim a fazer o chamamento aos seus associados para que se incorporassem às indústrias e fazendas de produção sem remuneração e voltadas para a produção de itens a serem gratuitamente distribuídos. 

À altura, o grande embate sindical se dava entre, de um lado, as direções adeptas da tradicional reivindicação de melhoras salariais (cada vez menos fortes na correlação de forças com o capital, em face do numeroso exército de desempregados); e, do outro, as muitas direções sindicais que haviam trocado o antigo sindicalismo de resultados pela crescente sindicalização emancipacionista, consistente numa produção social fora da lógica do valor e do mercado. 

Nas décadas anteriores as manifestações de ruas haviam sido reprimidas com violência e mortes. 

O embate então se dava entre uma população desarmada, ainda crédula na representação política burguesa, e as forças militares de governos que só tinham tal resposta a dar, pois não podiam atender aos reclamos da população por absoluta falta de meios (o dinheiro cada vez escasso do Estado falido) e falta de vontade política. Os confrontos acabavam descambando para carnificinas infrutíferas.

A proporção de baixas nestes embates em praças públicas era de 50 civis para cada militar morto. O mais impressionante é que muitas vezes entre os mortos estavam parentes próximos dos militares que, a troco de um soldo mensal, barbarizavam a população desesperada. 
 Sítio Brotando a Emancipação, em Fortaleza 

Entretanto, uma nova forma de pressão popular contra a tirania social e ecológica do capitalismo ainda renitente passara a tomar forma, impulsionada pelas facilidades de comunicação (via satélite) que o próprio capitalismo introduzira, com internet e celulares baratos.

Tais celulares (cada pessoa tinha um e cada um e vivia agarrada à telinha) traziam frases instrutivas, debochadas e revolucionárias que calavam fundo nas consciências populares, tais como: 
— a mercadoria é o ópio do povo; 
— não trabalhe jamais;
— a emancipação do homem será total, ou não será; 
— as armas da crítica passam pela crítica das armas; 
— abaixo o realismo socialista, viva o surrealismo; 
— a imaginação toma o poder; 
— é proibido proibir; 
— não mude os empregadores, mude o emprego da/na vida; 
— pare o mundo que eu quero descer;
— pela autogestão da vida cotidiana; 
— não nos prendamos ao espetáculo da contestação, passemos à contestação do espetáculo; 
— os sindicatos são uns bordéis; 
— professores, vocês nos fazem envelhecer. 

A vida pode ser bem melhor, e será!
Assim, a doutrinação social sobre como obter os meios de subsistência e como ajudar na sua produção semiclandestina ganhava espaço e, mesmo sendo fortemente vigiada pelo serviço de inteligência do governo, conseguia burlar tal vigilância (inclusive graças ao número cada vez maior de participantes, comparativamente ao dos incumbidos de os controlarem).

Quando alguém era intimado por um policial a comparecer a uma delegacia sob a acusação de ter cometido crime contra a economia estatal, já era comum a retaliação solidária dos vizinhos e de uma força comunitária anti-repressão que se criara em cada bairro. A ida à delegacia se dava sob escolta de um grande contingente de pessoas solidárias, o que inibia a prática de arbitrariedades. 

O lema então vigente passara a ser mexeu com um de nós, mexeu com todos!. O sentimento de defesa comunitária havia se difundido de tal maneira que as forças de repressão passaram a ficar pisando em ovos quando tinham de cumprir tais ordens arbitrárias. 

Sob tal perspectiva, aos poucos foi sendo difundida uma estratégia de ação para derrubar definitivamente o sistema capitalista combalido e sua força política e policial estatal protetora. Já se sentia o apoio e a força propulsora da revolução. (por Dalton Rosado – continua neste post)

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

COMO A MISÉRIA NÃO É POR SI SÓ REVOLUCIONÁRIA, PRECISAMOS REINVENTAR A REVOLUÇÃO – 1

dalton rosado
A GRANDE RUPTURA
E
stamos numa encruzilhada do tempo, divididos entre continuarmos acreditando ou fingindo acreditar que podemos transformar substancialmente a vida social e ecológica por dentro do modelo atual (democrático burguês) ou adotarmos retrocessos consubstanciados em outros modelos menos solidários, próprios aos regimes de força, militarizados, disciplinadores, falsos moralistas, elitistas, como se estas fossem as únicas opções existentes..

Querem (os segmentos formadores de opinião) nos condicionar a acreditarmos que a nós não é permitido promovermos a grande e necessária ruptura de modo de produção atual (que nos últimos séculos tem sido igual na sua base constitutiva, diferindo cosmeticamente em modelos políticos mais ou menos abertos), por nós criado e ao qual obedecemos cegamente. 

Vivemos atualmente presos a um modelo social claramente obsoleto, sem que saibamos como dele nos desvencilhar. Algo assim como o criador se submetendo à criatura, ou seja, como um monstro de Frankenstein fugindo ao controle do cientista e precisando ser detido por uma força coletiva maior. 

Há uma quase unanimidade consensual no sentido de que o modo de produção capitalista seja algo ontológico, imutável, cuja necessidade seria tão óbvia quanto beber água para matar a sede.. 

Acredita-se, majoritariamente ou não, que a democracia burguesa é o melhor antídoto contra o totalitarismo político. É a política do medo. Fingimos que o ruim é bom por medo de péssimo no qual está inserida uma grande dose de covarde hipocrisia.   

A recente história das revoluções demonstrou muito bem como fracassam as mudanças político-governamentais quando não vão ao âmago da questão (a superação das categorias capitalistas). 

A única diferença do capitalismo burguês liberal clássico para o capitalismo de Estado é a forma política de governo e o nome do explorador:
— no primeiro caso, o capitalista privado e seu aparelho de Estado mantenedor da ordem burguesa; e,
— no segundo, a nomenklatura que monopoliza o poder sob o capitalismo de Estado.. 

Em ambos, os gerenciamentos verticalizados obedecem à lógica funcional do sujeito automático da forma-valor, que tem na sua própria valorização contínua o seu modo inarredável de ser. Consequentemente, tanto a União Soviética como a China terminaram por sucumbir à lógica de mercado, tão cara ao modo de produção capitalista.

E não poderia ser de outra forma, pois do stalinismo e do maoísmo não havia motivo para esperarmos outra coisa senão o extermínio dos verdadeiros revolucionários e o avassalamento à necessária expansão capitalista contínua sem a qual a forma-valor não sobrevive (mas que, paradoxalmente, é a razão de sua ruína no longo prazo, como agora ocorre). 

A ordem capitalista tem agora medo da falência da China ao invés de desejá-la, justamente porque, com a economia globalizada na relação de créditos monetários e da dinâmica da produção de mercadorias, qualquer resfriado pode se transformar numa gripe epidêmica e letal. 
Assim Alain Tanner simbolizou a esperança, no cult Jonas, que terá 25 anos no ano 2000: uma
nova geração atando os fios soltos de todos os idealistas que se dispersaram no pós-1968
 
 
Somente os oportunistas políticos defensores dos regimes totalitários reverberam como mantra o risco do chamado
comunismo e comunistas, que terminou por servir de exemplo antagônico da concepção e visão emancipacionista de mundo, como se a Rússia, China, Cuba, Coreia do Norte, etc., traduzissem o ideal de emancipação humana. 

Os totalitários stalinistas, maoístas, nazistas, integralistas, boçalnaristas, putinistas, maduristas, fidelistas, juntamente com os sociais-democratas lulistas, alberto-fernandistas, peronistas, joe-bidenistas, sanchez-pedristas, angela-merkelistas e o diabo que os parta, são todos espécies políticas de um mesmo gênero: o modo de produção capitalista!

A direção política sob o capital termina sempre por convergir para a obediência cega aos seus pressupostos ditatoriais, de vez que, em nome da idolatria ao dito cujo, sacrificam-se seres humanos para garantir sua preservação. 
O argumento tão repetido de que a sensibilidade humanista social-democrata seria algo diferente dos regimes totalitários, é (mesmo 
havendo uma diferença quantitativa no volume de força que ambos empregam para esmagar os respectivos cidadãos por eles subjugados) qualitativamente falsa, posto que ambos terminam sempre por oprimir o povo mediante a supressão de direitos, as primeiras vítimas a sucumbirem quando a economia entra em depressão.

Morrer sob um pelotão de fuzilamento nazista ou de fome num país que se declare democrata burguês e explorado pelo capitalismo, é morte do mesmo jeito, independentemente da intensidade do sofrimento de uma ou do outra forma. 

Vivemos no Brasil sob um regime democrático em que pese as tentativas boçalnarianas de golpe. A importância do Brasil no cenário mundial e a consciência institucional e popular majoritária impediram que se consumassem as intenções golpistas de ultradireita e as falácias de salvação política de quem sempre se anunciou como político totalitário. 

Boçalnaro, o ignaro não enganou ninguém sobre seus propósitos, ainda que tenha sobrevivido eleitoralmente graças à sua ausência ao debate político-eleitoral após uma facada meio mandrake.

Mas o adeus às ilusões está se aproximando. (por Dalton Rosado – continua neste post)
Mais um fruto da parceria criativa entre o compositor Dalton Rosado
e o intérprete Gomes Brasil. Nenhum deles, vale ressaltar, propõe
o uso de coquetéis molotov como solução da crise brasileira...

terça-feira, 26 de maio de 2020

A BARBÁRIE ATUAL UM DIA SERÁ APENAS A SOFRIDA LEMBRANÇA DAS TURBULÊNCIAS QUE ANTECEDERAM NOSSA EMANCIPAÇÃO

dalton rosado
2084
Era junho de 2084. A pandemia de 64 anos antes havia sido em grande parte debelada pela nova vacina contra o coronavírus; mas, como se tornara endêmica, o contágio virótico continuou ocorrendo por muito tempo, com elevado número de mortes. 

Ainda se morria de contaminação pelo coronavírus, mas bem menos que de outras doenças endêmicas como tuberculose, malária, etc., que, apesar de diminuírem substancialmente, ainda existiam e não haviam cessado de provocar contaminação e mortes mundo afora.

É que a vacina do coronavírus não tinha erradicado completamente a contaminação virótica, além de não funcionar entre os já contaminados descuidados;  estes ainda se contaminavam e morriam, mas em percentagem muito menor do que no ápice da pandemia, a despeito de o vírus haver se transmutado, tornando-se mais letal. 

Mas agora morrem por contaminação virótica apenas cerca de cinco pessoas/dia em todo o mundo, contra as 5 mil pessoas/dia do auge da pandemia; naquele ano de 2020, de triste memória, os óbitos atingiram a casa de 1 milhão. 

Os governantes que então impuseram a ferro e fogo a quebra do isolamento social foram processados por crime contra a humanidade, condenados e presos. São tidos como criminosos pela sociedade atual.

Os hospitais e as equipes da área de saúde já haviam se adaptado aos processos de imunização e aperfeiçoado sua atuação graças aos Equipamentos de Proteção Individual; os hospitais haviam, ademais, se estruturado suficientemente com uma variada gama de equipamentos da chamada engenharia tecnológica das máquinas médicas. 

Agora, com as endemias sob substancial controle, os problemas são outros. 

A pandemia daquele já longínquo ano de 2020 apenas havia exposto aquilo que já se notava anteriormente: o capital perdera a sua dinâmica social como forma de relação social funcional.

O coronavírus não foi causa da crise, tendo apenas acelerado o processo de decomposição do capital como mediação válida das relações sociais.

Os Bancos Centrais, de tanto emitirem moeda sem valor, perderam credibilidade e foram extintos, até porque as moedas entraram em disfunção social.

As moedas perderam completamente a capacidade de regular as relações de trocas de mercadorias. Como consequência, o mercado de trocas quantificadas mensuradas pelas moedas simplesmente desapareceu, porque elas não eram mais capazes de representar o valor, o qual, por sua vez, deixou de quantificar os objetos pelo critério abstrato de um quantitativo numérico de valor igualmente abstrato. 

Um quilo de feijão, tanto quanto um avião, passara a valer por sua capacidade e importância como função social, sendo consumidos dentro de critérios equitativos de produção e de organização social; a computação foi primordial nesse processo de organização e consumo da produção social sem valor econômico.  

A propriedade deixou de funcionar como instituto jurídico válido; apenas a posse, regulada segundo critérios jurídicos de direito consentâneos com o melhor ideal de justiça, passou a servir como critério de validade pelo uso social e juridicamente respeitado.  
O Estado cobrador de impostos foi superado e, em seu lugar, sobreveio uma organização social descentralizada, na qual as leis locais comprovadamente eficazes passaram a ser critério para as suas incorporações nos códigos jurídicos nacionais que serviram como Constituição verdadeiramente popular e em constante aperfeiçoamento social que lhes dava função institucional. 

O processo legislativo passou a se processar de baixo para cima, por comissões locais, até se transformar, pela validade comprovada, em regras gerais meramente orientadoras de procedimentos jurídicos normativos e processuais comprovadamente eficazes.

O exercício jurisdicional agora é exercido por pessoas escolhidas dentro da comunidade por critérios de respeitabilidade, honradez e elevado saber jurídico-humanista, dentro dos cânones jurídicos estabelecidos, sendo periodicamente  substituídos pela comunidade. 

As relações sociais ora seguem outros critérios, de vez que as moedas perderam o valor de modo tão substancial que isto evou os Estados à decomposição orgânica; o mesmo aconteceu com todo o sistema de crédito bancário, o qual, falido, havia decretado a suspensão de qualquer pagamento de depósitos bancários. 

Os bancos fecharam, tendo muitos deles sido incendiados pela população enfurecida ao ver que os seus depósitos e aplicações financeiras haviam virado pó. 

Não havendo dinheiro em circulação, de vez que não eram mais emitidas moedas como forma de pagamento; com isto, as relações sociais de produção e consumo se transformaram completamente. 

A vida social se transformou completamente, após um período de grande turbulência durante a adaptação aos novos critérios de relação social estabelecidos. Transposta tal etapa, todos puderam constatar que tudo ficara bem mais cômodo e sem a aceleração da vida anterior, na qual o tempo de cada atividade representava o único critério de sobrevivência pessoal e da obtenção individual e cumulativa de valor. 

Agora os incapacitados fisicamente têm acesso ao consumo com a mesma comodidade daqueles que atuam na produção social. Acabou o critério capitalista segundo o qual quem não produz, não come.

O saber, ora aplicado à produção social coletiva e desligada da mensuração pelo valor econômico, garantiu a abundância daqueles produtos verdadeiramente indispensáveis ao consumo, enquanto se suprimiam as quinquilharias desnecessárias. 

Atualmente todos podiam facilmente obter uma morada digna, ou seja, confortável e com adequada infraestrutura sanitária de esgotos, abastecimento d’água e luz. 

O sistema de transportes urbanos, agora impulsionados por energia limpa, conseguira limpar a atmosfera dos gases poluentes; as avenidas e ruas passaram a ser interligadas por um sistema de transporte coletivo rápido, eficaz e racional. 

Até as drogas sumiram do mercado, justamente porque ninguém mais se interessava em produzir algo que apenas escravizava e enlouquecia os consumidores, tornando-os dependentes. 

A produção e consumo de drogas passou a ser algo socialmente tão deplorável quanto a ato de fumar, tornado há muito brega e anti-salutar.  

Viajar de uma região para outra passou a ser algo tão acessível a toda a população e de tal modo abrangente que foi necessário que se estabelecessem critérios de viagens com cotas por indivíduos como forma de atendimento confortável do crescente fluxo de turistas. Eram priorizadas as viagens profissionais reconhecidas como tais. 

A arte e os esportes deixaram de ser mercadorias; os artistas e desportistas apenas disputam o sucesso e as glórias pelo reconhecimento social da qualidade daquilo que praticavam, de vez que esse mérito não proporciona mais qualquer vantagem financeira. 

A medicina havia evoluído a tal ponto que as epidemias viróticas podiam agora serem previstas e evitadas; com isto, a média de vida dos humanos passou de 100 anos. 

Com os acréscimos de tempo disponível, já que as atividades profissionais bem distribuídas pela população oportunizava mais períodos fora da atividade produtiva de bens e serviços, desenvolveram-se outras potencialidade humanas. 

Agora havia médicos que, noutros momentos, eram músicos; carpinteiros-escritores, advogados-pintores, etc. Mesmo naquelas modalidades que exigiam esmero concentrado como as atividades atléticas, sempre sobrava um tempinho para ir ao teatro ou atrás de outras possibilidades de ócio produtivo. 
Os grandes artistas, atletas, escritores, cineastas, músicos, etc., eram reconhecidos pelo talento de que eram detentores e pelo prazer que as suas atividades proporcionavam.
Mas nem tudo era só alegria; havia outros problemas, antes inimagináveis. 

A vida fácil muitas vezes provocava um tédio em quem não conseguia ter prazer com aquilo que facilmente estava à mão, entrando então em depressão existencial. Mas, eram as exceções que confirmavam a regra de uma sociedade que evoluíra acentuadamente.

Nada nunca é completamente perfeito; mas não precisamos, evidentemente, da barbárie a que estávamos submetidos anteriormente, não é?   (por Dalton Rosado)
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