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sábado, 17 de setembro de 2022

UM MESMO CRISTO, MAS DOIS EVANGELHOS

U
ma estimada amiga de João Pessoa (PB) me presenteou com um livro do conhecido frei Betto, que tem como título Jesus militante

Foi um presente bem oportuno neste momento político do Brasil, onde uma facção de intitulados seguidores de Cristo tomou parte da cena e tem peso suficiente para decidir a eleição presidencial, influir na composição da próxima Câmara Federal, na substituição de um terço do Senado, sem omitir sua influência nas votações estaduais e municipais.

O livro do frei Betto é todo ele baseado no Evangelho de São Marcos, contemporâneo assim como Mateus, Lucas e João de Jesus na época do domínio e controle da Palestina pelos romanos. Ele contou seu convívio com Cristo e transmitiu, nos seus escritos, as mensagens deixadas pelo verdadeiro messias.

É sempre impressionante, quando se trata da figura de Jesus, imaginar-se como uma figura desvinculada do clero dominante da época (dominado e comprometido com os ocupantes romanos), sem poder econômico ou político, ainda subsiste dois milênios depois, exercendo influência tão marcante na sociedade.

Por isto mesmo, muitos historiadores, principalmente nestes últimos dois séculos, deixando de lado sua significação religiosa construída por seus seguidores (dos quais surgiu a Igreja, dividida pela Reforma e subdividida pelos movimentos decorrentes) quiseram ir além dos relatos santificados.

Sem entrar nesta busca, da qual surgiram numerosas escolas, livros e interpretações, me lembro de uma delas, talvez mais conhecida embora menos comentada que A vida de Jesus, do francês Ernest Renan, do Collège de France: trata-se da pesquisa feita pelo humanista franco-alemão Albert Schweitzer, mais conhecido como missionário na África, publicada com o título de A busca do Cristo histórico.
Quem foi Jesus? Existiu mesmo? Teve uma certa importância com seus milagres, suas parábolas, suas declarações, criou algum problema para o Império Romano, foi mesmo punido com a pena de morte? 

Morreu numa cruz ou suas mãos foram pregadas acima da cabeça num madeiro ou estaca? Que tipo de pregação ele fazia?

As perguntas, os debates são muitos e não diminuíram à medida que a religião de Jesus, transformada em cristianismo dado o caráter messiânico assumido, chegou às Américas. 

Do lado hispânico-português, exceto a aceitação de uma parte da cultura, lendas, crendices vindas dos índios e dos escravos africanos, o cristianismo católico pouco mudou até meados do século 20.

Entretanto, os ingleses levaram para a América do Norte um protestantismo puritano e anglicano em transformação e ruptura, que se transformou diante das mudanças sociais estadunidenses, crescimento econômico, guerra da secessão (que não solucionou a questão racial imanente). Do dito cujo surgiram as vertentes neopentecostais, que as distinguem das luteranas e calvinistas europeias por serem uma espécie de refundação do cristianismo original pregado por Jesus. 

Tal cristianismo é substituído por uma mistura com o judaísmo dos profetas e a substituição da linguagem pacífica do cristianismo nascente pela recuperação da linguagem guerreira dos reis, dos nacionalistas monoteístas e do próprio deus Jeová contra os vizinhos idólatras. 

No fundo, é o cristianismo do western, da sobrevivência dos imigrantes brancos contra a população autóctone indígena.

É esse cristianismo neopentecostal branco evangélico que se transformou no principal suporte do capitalismo estadunidense e que hoje apoia Donald Trump e novamente ameaça os Estados Unidos de secessão.

E aqui chegamos aos dois Evangelhos vindos do mesmo Jesus, do mesmo Cristo.

O evangelismo neopentecostal brasileiro, cuja doutrina conservadora, machista, agressiva e guerreira já foi adotada por uma questão de sobrevivência pelas denominações protestantes tradicionais, é o filho dileto do neopentecostalismo dos EUA. 

Ele não se preocupa com a situação de pobreza de seus seguidores, citando duas frases do próprio Jesus: Os pobres, sempre os tereis convosco e O meu reino não é deste mundo. Sua pregação básica é o reino dos céus, para depois da morte.

O capitalismo, com suas desigualdades sociais, não é nenhum problema para os novos guerreiros cristãos –Silas Malafaia, Edir Macedo, Cláudio Duarte, Marco Feliciano, etc.– que oferecem aos seus seguidores o Evangelho da Prosperidade, sem uma discussão social sobre de onde poderia advir essa enganadora e quimérica abastança econômica.

O Jesus Militante do frei Betto é pelo evangelho da Teologia da Libertação, também defendido por Leonardo Boff, segundo o qual a preferência teológica do cristianismo é pelos pobres e pelo fim da desigualdade social. 

Sem gabinete do ódio e sem a linguagem guerreira do bem contra o mal, que poderá justificar todos os excessos e crimes depois das eleições. (por Rui Martins)

sábado, 30 de abril de 2022

DEMÉTRIO MAGNOLI QUALIFICA LEONARDO BOFF DE "PACIFISTA DE ARAQUE"

demétrio magnoli
PACIFISMOS
"Paz para a nossa época" –as palavras de Chamberlain, ao retornar da Conferência de Munique, ecoam até hoje como um signo de vergonha. 
O primeiro-ministro britânico praticava o apaziguamento, utilizando-se da linguagem do pacifismo. 

Diante da guerra de agressão russa na Ucrânia, o discurso pacifista está de volta. Como em 1938, seus mais destacados arautos não querem a paz, mas um desfecho específico da guerra.

Chamberlain não era um pacifista. O apaziguamento, estimulado pela parcela da elite britânica simpática a Hitler, sintetizava um desastrado cálculo estratégico: direcionar as forças alemãs para um confronto mutuamente destruidor com os soviéticos. 

Os pacifistas aplaudiram a entrega dos Sudetos tchecos, que exibiam como um preço de liquidação para obter a paz universal. "Chamberlain fez a coisa certa em Munique", declarou Bernard Shaw, a figura icônica do pacifismo.

"Se Zelenski tivesse dito há tempos que não iria entrar na Otan, teria evitado a guerra", tuitou o teólogo Leonardo Boff. 

Os fatos desmentiram, de imediato, a profecia contrafactual do piedoso humanista. Na segunda semana da guerra, Zelenski aceitou trocar a paz por um estatuto de neutralidade geopolítica da Ucrânia –mas a Rússia rejeitou a oferta, exigindo a transferência da Crimeia, do Donbass e do sul ucranianos à sua soberania.

Putin deflagrou uma guerra de conquista alegando que a Ucrânia não passa de uma extensão da Rússia. 
Boff está de acordo com o conceito que sustenta a invasão. No seu tuíte, a frase estende-se do seguinte modo: "...a guerra e a carnificina que os russos estão fazendo, destruindo uma parte de si mesmos, pois Ucrânia e Rússia foram sempre uma só terra".

Shaw não era apenas um pacifista célebre, mas também –algo geralmente esquecido– um admirador de Hitler, Stalin e Mussolini. 

Na quarta semana da guerra, Boff transitou da exigência inicial de neutralidade ucraniana para uma posição mais realista, que replica os objetivos de Putin: 
"Me pergunto se tem sentido Zelenski sacrificar todo um povo numa guerra que sabe não poder ganhar. Para poupar seu povo caberia, não uma rendição, mas uma negociação mesmo com concessões". 
Assim, de passagem, Boff conta-nos que não é Putin, mas Zelenski, que sacrifica todo um povo.

Putin imaginou que, por não ser uma nação legítima, a Ucrânia capitularia sem luta. Viu, no lugar disso, uma nação inteira se levantar contra o poderoso invasor. 

Na sua infinita bondade, Boff solicita a Zelenski que faça a vontade de Moscou, entregando-lhe vastos territórios –e, com eles, as populações que os habitam. Seu pacifismo, como o de tantos outros, é uma encenação destinada a divulgar os pretextos e as narrativas do chefe do Kremlin.
"Shaw não era apenas um pacifista célebre, mas
também um admirador de Hitler, Stalin e Mussolini"

Diante da decisão dos EUA, junto com outros 42 países, de fornecer armas pesadas à Ucrânia, o ministro do Exterior russo, Sergei Lavrov, passou a acusar a Otan de promover uma guerra por procuração contra a Rússia. 

Os pacifistas de araque repetem, sílaba por sílaba, as cínicas sentenças de Lavrov. De fato, ignoram a Carta da ONU, que condena a guerra de conquista e avaliza o direito à autodefesa coletiva –ou seja, o direito de nações não beligerantes de contribuir para o esforço de guerra de um país invadido.

Na Ucrânia, mais que o destino de uma nação soberana, joga-se o futuro da ordem mundial edificada em 1945 pelas potências vencedoras da 2ª Guerra Mundial, inclusive a URSS. Um triunfo em terras ucranianas impulsionaria Putin a prosseguir sua escalada de guerras imperiais na Moldávia e nos países bálticos, sob o álibi de proteger os russos do exterior

Segundo a lógica de Boff, em nome da paz, cada uma dessas nações deveria desistir da soberania e de suas fronteiras internacionalmente reconhecidas. O pacifismo do nosso Shaw, como o do Shaw original, é propaganda de guerra. (por Demétrio Magnoli)

sábado, 31 de julho de 2021

BOLSONARO, SIMPLESMENTE, PIROU DE VEZ

ricardo kotscho
FIM DE LINHA: SÓ
UMA JUNTA DE
PSIQUIATRAS PODE
LIVRAR O BRASIL
DE BOLSONARO
Bolsonaro, simplesmente, pirou de vez. 

Se ainda restava alguma dúvida, o deprimente pastelão sobre fraudes na urna eletrônica apresentado ao vivo na noite de 5ª feira (29), durante 2 horas e 49 minutos, na TV Brasil e pelas redes sociais, mostrou que o presidente Jair Messias Bolsonaro não tem mais a menor condição de continuar governando o país.

Este é o fato; o resto é tudo fake news em doses industriais. 

Como o impeachment se tornou inviável, após a entrega do governo ao centrão de porteira fechada, não adianta mais fazer editoriais, colunas, notas de repúdio, manifestações de protesto e denúncias na Justiça. 

Tudo já foi dito e escrito a respeito da incompatibilidade do ex-capitão, com evidentes sinais de transtorno mental, para o exercício da Presidência da República. 
.
"Chegou a hora de agir e arrancar o assassino de seu povo do posto que ocupa à base de mentiras e ofensas à Constituição."

Foi o que sugeriu  meu amigo teólogo Leonardo Boff, com quem eu concordo plenamente. 

De que jeito isso seria possível? Boff aponta a solução numa série de posts publicados no twitter:
"Bolsonaro deve ser interditado por uma junta de especialistas, convocada pelo STF, por ser incapaz de liderar uma nação e de sustar o genocídio em curso. Alguém com poder deve fazer isso. Se não, passaremos por um povo insensível e cruel face a seus mortos por culpa de um genocida".
Esse teatro mambembe produzido por Bolsonaro para a volta do voto impresso e auditável tem o único objetivo de mobilizar suas tropas para melar o processo eleitoral e provocar uma convulsão no país. 

O que o move é o derretimento da sua popularidade nas pesquisas e o medo de perder as eleições de 2022. Mais do que isso: é o pavor de ser processado e preso pelos crimes de responsabilidade em série que cometeu em seus dois anos e meio de governo, em especial no enfrentamento da pandemia, que já deixou mais de 550 mil mortos. 

Só isso explica o seu desespero de apresentar como
indício de fraude o vídeo de 2018 de um certo Alexandre Chut, astrólogo que faz acupuntura em árvores. 

"Provas das fraudes nas urnas! Exclusivo e urgente!", escreveu o doido na página de Naomi Yamaguchi (irmã daquela médica da cloroquina), suplente de deputada federal pelo PSL 

A seu lado na live, estava um sujeito identificado apenas como Eduardo, que seria um analista de inteligência, encarregado de apresentar outros indícios de fraude encontrados por um outro especialista que ficou com medo de se expor, segundo o presidente. 

Medo de quem? Depois se ficou sabendo que o tal de Eduardo é o coronel Eduardo Gomes da Silva, ex-assessor do general Luiz Eduardo Ramos na Casa Civil. Na sequência, apareceu também um Jefferson que seria programador. De quê? De fake news

Parecia tudo inverossímil, e era. (por Ricardo Kotscho)

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

POR NÃO TERMOS FEITO A AUTOCRÍTICA OBRIGATÓRIA EM 2016, SOFREMOS UMA DERROTA PIOR AINDA EM 2018

Nunca foi isto que se pretendeu do PT...
Sou um brasileiro cordial, então estou sempre pronto para fornecer as informações necessárias a companheiros que redigem seus artigos sem conhecimento de causa. Nem precisam agradecer...

O Breno Altman, fundador do Ópera Mundi, aparece no site da Folha de S. Paulo com um artigo em que explica da seguinte forma o que Deus e o mundo vêm exigindo do Partido dos Trabalhadores nos últimos anos:
"De Giordano Bruno, Galilei e Copérnico, entre outros hereges, a Santa Inquisição não queria extrair apenas a liberdade ou a própria vida. Acima de tudo, buscava abjuração das ideias. Puni-los era insuficiente: a Igreja somente se dava por satisfeita quando beijavam a cruz e reconheciam que a Terra era o centro do universo.
Esse espírito atravessou os tempos. Muitas das vozes que exigem autocrítica do Partido dos Trabalhadores, por exemplo, assim mascaram o desejo de vê-lo renegando sua natureza classista".
Também Carlos Lungarzo, que sempre merecerá nosso reconhecimento pela abnegada colaboração que presta há tantos anos à causa de Cesare Battisti, foi extremamente infeliz ao tecer estes comentários, em artigo publicado no Congresso em Foco:        
"...a autoflagelação é apenas uma versão masoquista do sadismo judicial, cujo objetivo não é “redimir” o autor do crime, mas fazer que ele seja castigado para prazer de seus carrascos e da turba que estes levam do cabresto.
...mas sim o reconhecimento dos erros cometidos...
A autocrítica do PT só serviria para que a ralé linchadora pequena-burguesa se delicie, e possa dizer: até eles próprios, os malditos petralhas, reconhecem seus crimes".
Quem não conheceu a esquerda de tempos melhores nem está informado sobre suas práticas, pode até concordar com a desnecessidade de o PT fazer uma autocrítica, confundida, por meio de uma retórica melodramática, com o mero arrependimento cristão.

O que eu tenho a dizer a ambos é: menos, companheiros, menos

Se consideram necessário atirar boias para um partido que se afoga num mar de lama, façam-no, mas não omitam que é uma tradição de longa data da esquerda desencadear processos de crítica e autocrítica após ter cometido graves erros, cujos resultados hajam sido desastrosos.

Do ponto de vista da esquerda, nunca se tratou de ajoelhar no milho, dizer perdoe-me, Pai, pois eu pequei e beijar cruzes, mas sim de identificar onde estavam as falhas, corrigi-las e tomar providências para evitar sua futura repetição (a chamada autocrítica na prática), além de avaliar o comportamento dos dirigentes responsáveis por fracassos catastróficos.

O processo de autocrítica mais emblemático da esquerda brasileira foi o ocorrido em 1964 e anos seguintes, porque nos era totalmente inaceitável o fato de sequer ter havido qualquer reação significativa à usurpação do poder pelos golpistas.
...e o resgate de bandeiras fundamentais para o partido...
Como resultado, o PCB perdeu sua hegemonia na esquerda e nunca mais a reconquistou; novos partidos e organizações foram criados, outros se fundiram, muitos racharam, mudando diametralmente a correlação de forças no nosso campo; e se preparou o terreno para a adesão à guerrilha urbana e rural, que se tornaria a forma predominante de luta a partir do AI-5.

E isto tudo em função de um golpe dado com tropas e tanques na rua. O que dizer do impeachment de Dilma Rousseff, uma vergonhosa rendição sem luta, em que bastou um peteleco parlamentar para mandar a presidente eleita para casa?!

Então, tendo Dilma sido afastada temporariamente da presidência da República em 12 de maio de 2016 e estando careca de saber que a ela não voltaria 180 dias depois nem que a vaca tossisse, eu abri o blog Náufrago da Utopia para a discussão em profundidade das causas e consequências do que acabara de ocorrer.

No próprio dia 12 saíram estes dois artigos analíticos, um meu e o outro do Dalton Rosado.  

E muitos mais vieram na esteira, tanto da nossa equipe quando os que pinçamos na grande imprensa e nas redes sociais, até que, no dia 17,  lancei esta convocação para todos que quisessem dar suas contribuições ao debate sobre a refundação da esquerda, detalhando o que tínhamos a obrigação de abordar naquele instante:
...continuar sendo uma alternativa ao sistema político podre.
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"A reaglutinação de forças deve marchar paralelamente com a depuração moral, pois não conseguiremos reconquistar o respeito do cidadão comum se nossa imagem continuar associada à daqueles que, comprovadamente, tenham utilizado a atuação política para, de forma ilícita, perseguir objetivos pessoais como o enriquecimento e a conquista de status.
E, claro, como não adianta repetirmos o que deu errado na esperança de que na vez seguinte dê certo, temos de discutir quais as novas estratégias e táticas a serem adotadas, para substituírem as que chegaram ao esgotamento na atual década".
Enfim, como blogueiro de esquerda que desde o primeiro momento abracei a ideia da autocrítica e fiz tudo que pude para que a dita cuja se tornasse realidade, espero dos companheiros Lungarzo e Altman as ressalvas obrigatórias: 
— de que a autocrítica do PT foi pleiteada em primeiro lugar pela esquerda e dentro da concepção que a esquerda tem deste processo, que não tem absolutamente nada a ver com o arrependimento cristão nem com as práticas da Inquisição Católica; e
— de que, seja lá o que for que a direita tenha cobrado muito tempo depois do PT em termos de autocrítica, quem lançou a ideia não foi ela, fomos nós, daí ser inaceitável fazê-la passar por uma iniciativa dos inimigos de classe e, a partir daí, desqualificá-la aos olhos dos leitores do nosso lado.
Para acessar a imperdível entrevista do Paulo Paim, clique aqui
[O nós a que me refiro no parágrafo anterior inclui desde a equipe do Náufrago até o Tarso Genro (que nos antecedeu), bem como os companheiros que simultaneamente ou mais adiante se manifestaram no mesmo sentido, dentre eles o Leonardo Boff, o Paulo Paim, o Gilberto Carvalho, o Guilherme Boulos e tantos outros, além do grande Noam Chomsky lá fora.]

E o que deveria e deve constar de tal autocrítica? Principalmente isto:
— se foi correta a derivação do PT para a conciliação de classes, para o populismo e para o reformismo ou deveria ter sido mantida a opção pela luta de classes e pela transformação em profundidade da sociedade brasileira;
— se, face à facilidade com que Dilma foi expelida da Presidência quando os poderosos decidiram fazê-lo em 2016, compensa continuar-se priorizando a conquista de posições no Estado burguês ou é hora de voltarmos a colocar em primeiro plano a participação nas lutas sociais e a acumulação de forças para a superação do capitalismo;
Walter Pomar discutiu a autocrítica com outros expoentes da esquerda 
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— o reconhecimento de que foi um erro terrível o PT ter voltado as costas aos manifestantes de junho de 2013 e ficado indiferente à desmedida repressão policial e judicial que foi lançada contra eles;
— o reconhecimento da responsabilidade que o PT teve na gestação da pior recessão econômica da História brasileira;
— o reconhecimento de que a adesão do Governo Dilma Rousseff ao neoliberalismo em 2015 confundiu e desmobilizou a esquerda, o que contribuiria decisivamente para a perda da batalha pela supremacia nas ruas em 2016;
— o reconhecimento de que a derrota eleitoral em 2018, diante de um inimigo destrambelhado e caricato (mas perigoso), se deveu a erros crassos como a insistência na candidatura fantasma do Lula e o torpedeamento da tentativa de articular-se uma frente da esquerda, tendo como cabeça de chapa um candidato que não carregasse consigo a imensa rejeição ao PT; e
— o reconhecimento de que a conduta moral do PT no poder não foi condizente com os valores da esquerda nem deverá ser jamais repetido por aqueles cuja razão de existir é regenerar uma sociedade apodrecida (sendo, portanto, os que mais devem resistir à tentação de chafurdarem em tal podridão). 
Até o Juca Kfouri exige, de forma veemente, a autocrítica.
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Enquanto não acertarmos as contas do passado, continuaremos sendo vistos como inconfiáveis por aqueles que precisamos conquistar ou reconquistar para juntos construirmos um futuro bem diferente desse pesadelo com que o populismo neofascista nos acena.

Por não termos feito a lição de casa em 2016, sofremos derrota ainda pior em 2018. 

Então, ou nos colocamos à altura dos desafios que passaremos a enfrentar a partir do primeiro dia de 2019, ou nosso destino será, na melhor das hipóteses, a irrelevância; e na pior, a tragédia. 
                             (por Celso lungaretti)

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

LEONARDO BOFF PROPÕE A CRIAÇÃO DE DUAS GRANDES FRENTES: UMA POLÍTICA E A OUTRA DE "VALORES ÉTICOS-SOCIAIS"

"...não milito em nenhum partido, mas apoio a causa daqueles que pensam nos pobres e marginalizados, nos direitos das minorias políticas, e organizam políticas sociais de inclusão na sociedade. 

Estou convencido de que é essencial que haja uma grande frente política plural que se comprometa com os direitos citados acima. 

E que, tão imprescindível como essa, se constitua uma frente de valores ético-sociais utilizando ferramentas que eles não podem usar, como fraternidade; solidariedade; o direito de cada um ter um pedacinho de terra, já que essa é a casa comum na qual todos devem caber; ter um teto; a renúncia a toda violência real ou simbólica; o direito de ser feliz numa sociedade na qual não seja tão difícil o amor. 

Sou a favor de uma espécie de colégio de líderes, vindos das várias partes de nosso país continental, para que as resistências e oposições tenham sua base em vários estados e não apenas naqueles econômica e politicamente mais relevantes."

quinta-feira, 26 de julho de 2018

"SIGNIFICATIVA PARCELA DA ESQUERDA BRASILEIRA E LATINO-AMERICANA ADOTA COMPORTAMENTO DE SEITA RELIGIOSA"

clóvis rossi
NICARÁGUA, PT E BOLSONARO (trechos)
Há esquerdistas como Boff, que não seguem o rebanho...
O PT não tem qualificação moral para criticar Jair Bolsonaro por defender a ditadura e fazer apologia da tortura. Claro que ambas as atitudes são abjetas, mas todas as ditaduras o são e deveriam, pois, ser igualmente criticadas.

Não é o que o PT está fazendo em relação à Nicarágua: no encontro do Foro de São Paulo, conglomerado de partidos e organizações ditas de esquerda, líderes petistas apoiaram o governo de Daniel Ortega.

Lá estavam, entre outros e outras petistas menos votadas, a ex-presidente Dilma Rousseff e a presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann.

Apoiaram um autocrata que comanda um morticínio que já fez mais de 360 vítimas, que tortura indiscriminadamente, que sequestra e faz desaparecer quem se manifesta contra o regime —mesmos crimes que a ditadura brasileira também cometeu e que Bolsonaro defende.
...e há quem nos faça semelhantes aos zumbis de seitas religiosas

...E o PT, em vez de solidarizar-se com os jovens que estão à frente dos protestos, solidariza-se com quem persegue, sequestra e assassina seus próprios compatriotas, para citar Boff [cuja carta pode ser acessada aqui].

Boff só é referência para o PT quando visita Lula na prisão?

...[Eu] diria que significativa parcela da esquerda brasileira e latino-americana adota comportamento de seita religiosa, movida a dogmas que não ousa contestar.

Como criticar, então, a outra seita, a dos seguidores de Bolsomito? (por Clóvis Rossi)

LEONARDO BOFF LAVA NOSSAS ALMAS: É UM ESQUERDISTA QUE NÃO LAMBE AS BOTAS ENSANGUENTADAS DOS TIRANOS!

"Como presidente de honra de nosso Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, Rio, uno-me ao Centro Nicaraguense de Direitos Humanos que, com seu comunicado de apoio aos bispos, faz uma justa crítica ao governo que está perseguindo, sequestrando e assassinando seus próprios compatriotas

Repito as palavras do papa João Paulo II: não há guerra santa, nem guerra justa, nem guerra humanitária, porque toda guerra mata e ofende a Deus. O mesmo vale para quem comanda práticas semelhantes contra seu povo.

Estou perplexo pelo fato de que um governo que conduziu a libertação da Nicarágua possa imitar as práticas do antigo ditador. O poder não existe para impor-se a seu povo, mas sim para servi-lo com justiça e em paz.
A Nicarágua necessita do diálogo, mas, antes de tudo, necessita que as forças repressivas parem de matar, especialmente aos jovens. Isto é inaceitável. A Nicarágua necessita de paz e, de novo, paz."
(Leonardo Boff, teólogo, escritor e professor universitário)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A ESQUERDA "SEMPRE FOI UMA FORÇA AUXILIAR DOS GRUPOS PROGRESSISTAS, MESMO NEOLIBERAIS", DIZ LEONARDO BOFF.

"A esquerda brasileira nunca teve muito enraizamento popular... Seu poder de mobilização é mais metafórico (bandeiras vermelhas e slogans) do que efetivo, em termos de apresentar um projeto alternativo para o país. 

Ela sempre foi uma força auxiliar de grupos progressistas, mesmo neoliberais, mas que lhe permitiam uma presença no aparelho de Estado por causa de um presidencialismo de coalizão partidária. 

A esquerda precisa se renovar, no paradigma social, na linguagem, nas formas de se dirigir ao povo e, especialmente, se apresentar como um centro de reflexão séria sobre qual Brasil finalmente queremos. Falta pensamento e sobra movimentação." (Leonardo Boff, teólogo)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

ALGUNS BRASILEIROS IMPRESCINDÍVEIS

Por Dalton Rosado
Há os que lutam até o fim de suas existências e, assim, prolongam-na por meio do seu exemplo. Tornam-se imprescindíveis e, mais do que isto, imortais. 

Na Igreja Católica brasileira existem exemplos históricos de sacerdotes que dedicaram a sua vida à defesa da justiça contra a tirania do poder. 

Um deles, ainda no início século XIX, chamava-se Joaquim da Silva Rabelo, um jovem filho de portugueses, nascido na cidade do Recife, que viria a se tornar sacerdote com o nome religioso franciscano de Joaquim do Amor Divino Caneca – frei Caneca –, em homenagem a seu pai, um funileiro português que consertava vasilhames. 

Frei Caneca se revelou um sacerdote culto, filósofo que extrapolou os limites do claustro para defender bandeiras populares e lutar contra o absolutismo monárquico português, capitaneado pelo então regente José Bonifácio de Andrada e Silva. [D. Pedro II demonstraria depois ser um monarca mais avançado do que os militares republicanos que o sucederam, o que demonstra que a nossa saga republicana conservadora vem de longe...] 
Até os carrascos o respeitavam 

Tornou-se um dos líderes intelectuais e espirituais da Confederação do Equador, movimento que defendia os ideais revolucionários republicanos (face ao escravismo direto feudal) e que foi sufocado pelos donos do poder local, detentores de títulos nobiliárquicos e aliados da monarquia portuguesa. 

Frei Caneca foi fuzilado por um grupo de militares em praça pública (pois os que exerciam o ofício de carrascos se recusaram a enforcá-lo, tal sua força moral!) como um exemplo para intimidar oposicionistas. 

Segundo o historiador Evaldo Cabral de Mello, frei Caneca foi “o homem que, na história do Brasil, encarnará por excelência o sentimento nativista, apesar de ser curiosamente um lusitano jus sanguinis

Frei Caneca, a exemplo de dom Paulo Evaristo Arns, era a personificação da entrega religiosa à defesa da liberdade; costumava dizer que “quem bebe da minha caneca tem sede de liberdade”.   

Fui advogado co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza, órgão criado por dom Aloísio Lorscheider em 1982, no final da ditadura militar. Dom Aloísio foi mais um dos grandes sacerdotes sulistas do Brasil de descendência alemã, como dom Paulo Evaristo Arns, e como ele, igualmente franciscano e homem de hábitos simples, solidário com os humildes e de grandeza moral inquestionável.  

Como advogado da Arquidiocese de Fortaleza pude observar, na convivência fraterna, a firmeza de propósitos de dom Aloísio quando a questão era a defesa das liberdades, dos direitos civis e da vida. 
Dom Aloísio: altivo face aos poderosos.
Extremamente culto e respeitado internacionalmente, teve o seu nome cotado para ser o primeiro papa de origem sul-americana, na sucessão de Paulo VI; mas, após vários escrutínios, o conclave elegeu o papa João Paulo I, da linha da Teologia da Libertação, que viria a falecer imediatamente após. 

Com a morte precoce de João Paulo I, veio em seguida a eleição do cardeal polonês João Paulo II que tinha outra orientação filosófica, talvez causada pelos traumas do povo polonês com o capitalismo de estado sob o domínio soviético. Dom Aloísio Lorscheider voltou ao Brasil com a mesma humildade e se mantendo altivo face aos poderosos.       

Da mesma estirpe de sacerdotes dedicados à causa do povo brasileiro é seu amigo Leonardo Boff, o eterno frei franciscano de descendência alemã, que tem dedicado a vida ao combate à desigualdade social denunciando o anacronismo genocida da lógica capitalista e de sua ordem política. 

O que dizer de dom Pedro Casaldáliga, o bispo tornado brasileiro de vida modesta, que se junta ao seu povo na caminhada contra as agruras sociais impostas pelo capitalismo?! 
Leia o artigo completo aqui

Existem muitos outros sacerdotes que se miram no exemplo redentor para o exercício da vida sacerdotal e assim se tornaram imprescindíveis à luta de emancipação popular e, como consequência, imortais na memoria libertária por seus exemplos vivificados.

Um deles, que quero destacar: o frade dominicano cearense frei Tito de Alencar Lima, que, por se colocar contra o arbítrio genocida, foi barbaramente torturado e levado à morte psicológica, causada por trauma irreversível. Tornou-se um mártir da liberdade.         

Aproveito para exaltar, também, aqueles que hoje dedicam as suas vidas à libertação do povo, desapegados do poder e das exigências imanentes ao seu exercício despótico, num exemplo presente. 

O que dizer de uma Maria Luíza Fontenelle, a primeira mulher a ser eleita prefeita da uma capital, vinda das lutas populares e que exerceu o poder municipal em Fortaleza sem conciliar com o que há de mais podre na triste história política republicana, marcada pela corrupção e pela conciliação com a ordem sistêmica, e que, por isto mesmo, foi perseguida pelos que detêm o controle político partidário submisso a tal ordem espúria e pelos seus beneficiários mais diretos?! 

Maria Luíza, ao compreender o significado do exercício do poder político, apeou-se dele para denunciá-lo e, assim, colocar-se com autoridade à margem da correnteza da unanimidade acomodada com o que está posto, condicionando-se à crítica capaz de dar passos decisivos em busca da emancipação humana. Jamais se tornou escrava da política.  

Há muitos outros filhos do povo que travaram o bom combate até o último dos seus dias, tornando-se, por isto mesmo, imprescindíveis e imortais por seu exemplo de luta, independentemente de quaisquer críticas ao conteúdo de suas ações. 

São os casos do capitão Carlos Lamarca; do dirigente político Carlos Marighella; do líder estudantil Honestino Guimarães; do jornalista Vladimir Herzog; dos metalúrgicos Manoel Fiel Filho e Santo Dias, da Pastoral Operaria; do parlamentar Rubens Paiva; da brasileiríssima alemã Olga Benário e seu marido Luiz Carlos Prestes (o cavaleiro da esperança); de Herbert José de Souza  (o Betinho, irmão do Henfil); do advogado das liberdades democráticas Sobral Pinto; da dra. Zilda Arns que fundou a Pastoral da Criança; do ecologista Chico Mendes e tantos outros que deixo de citar por falha de memória, igualmente imprescindíveis.  

Além das centenas de resistentes dizimados pela ditadura militar, cuja relação completa pode ser acessada aqui.

Aos que tombaram na defesa da liberdade e da busca de emancipação do povo dedicamos a nossa maior reverência neste momento de pesar pela perda do imprescindível e imortal dom Paulo Evaristo Arns..

sábado, 11 de julho de 2015

NÃO ESTARIA NASCENDO, A PARTIR DA GRÉCIA, A ERA DOS POVOS?

Leonardo Boff é outro autor com o qual não concordo sempre nem integralmente, mas que às vezes lança artigos inspiradíssimos, como este abaixo, que eu reproduzo por inteiro e recomendo entusiasticamente a todos os leitores do blogue.


NA GRÉCIA, A DIGNIDADE VENCEU A COBIÇA.

Há momentos na vida de um povo em que ele deve dizer não, para além das possíveis consequências. Trata-se da dignidade, da soberania popular, da democracia real e do tipo de vida que se quer para toda a população.

Há cinco anos que a Grécia se debate numa terrível crise econômico-financeira, sujeita a todo tipo de exploração, chantagem e até terrorismo por parte do sistema financeiro, especialmente de origem alemã e francesa. Ocorria uma verdadeira intervenção na soberania nacional com a pura e simples imposição das medidas de extrema austeridade excogitadas, sem consultar ninguém, pela troika (Banco Central Europeu, Comissão Européia e o FMI).

Tais medidas implicaram uma tragédia social, face à qual o sistema financeiro não mostrava nenhum sentido de humanidade. "Salve-se o dinheiro e que sofra ou morra o povo". Efetivamente desde que começou a crise ocorreram mais de dez mil suicídios de pequenos negociantes insolventes, centenas de crianças deixadas nas portas dos mosteiros com um bilhete das mães desesperadas:"não deixem minha criancinha morrer de fome". Um sobre quatro adultos estão desempregados, mais da metade dos jovens sem ocupação remunerada e o PIB caiu 27%. 

Não passa pela cabeça dos especuladores que atrás das estatísticas se esconde uma via-sacra de sofrimento de milhões de pessoas e a humilhação de todo um povo. Seu lema é "a cobiça é boa". Nada mais conta.

Os negociadores do novo governo grego de esquerda, do Syriza, com o primeiro ministro Alexis Tsipras e seu ministro da fazenda um acadêmico e famoso economista da teoria dos jogos Yanis Varoufakis que quiseram negociar as medidas de austeridade duríssimas encontraram ouvidos moucos. A atitude era de total submissão:"ou tomar ou deixar".

O mais duro era o ministro das Finanças alemão Wolfgang Sträuble:"não há nada para negociar; apliquem-se as medidas". Nem pensar numa estratégia do ganha-ganha, mas pura e simplesmente do ganha-perde. A disposição era de humilhar o governo de esquerda socialista, dar uma lição para todos os demais países com crises semelhantes (Italia, Espanha, Portugal e Irlanda).

A única saída honrosa de Tsipras foi convocar um referendo: consultar o povo sobre se diria um não (OXI) ou um sim (NAI). Qual a posição face à inflexibilidade férrea da austeridade que aparece totalmente irracional por levar uma nação ao colapso, exigindo uma cobrança da dúvida reconhecidamente impagável. O próprio governo propôs a consulta e sugeriu o não

Os credores e os governos da França e da Alemanha fizeram ameaças, praticaram um verdadeiro terrorismo nas palavras do ministro Varoufakis e falsificaram as informações como se o referendo fosse para ficar na zona do Euro ou sair, quando na verdade não se tratava nada disso. Apenas era de aceitar ou rejeitar o diktat das instituições financeiras europeias. A Grécia quer ficar dentro da zona do Euro.

A vitória de domingo dia 5 de julho foi espetacular para o não: 61% contra 38% do sim. Primeira lição: os poderosos não podem fazer o que bem entendem e os fracos não estão mais dispostos a aceitar as humilhações. Segunda lição: a derrota do sim mostrou claramente o coração empedernido do capital bancário europeu. Terceiro, trouxe à luz a traição da Unidade Européia a seus próprios ideais que era a integração com solidariedade, com igualdade e com assistência social. Rendeu-se à lógica perversa do capital financeiro.

A vitória do não representa uma lição para toda a Europa: se ela quer continuar a ser súcuba das políticas imperiais norte-americanas ou se quer construir uma verdadeira unidade européia sobre os valores da democracia e dos direitos. O insuspeito semanário liberal Der Spiegel advertia que através da sra. Merkel, arrogante e inflexível, a Alemanha poderia, já pela terceira vez, provocar uma tragédia européia. Os burocratas de Bruxelas perderam o sentido da história e qualquer referência ética e humanitária. Por vingança o Banco Central Europeu deixou de subministrar dinheiro para os bancos gregos continuarem a funcionar e os obrigou a fechar.

Uma lição para todos, também para nós: quando se trata de uma crise radical que implica os rumos futuros do país, deve-se voltar ao povo, portador da soberania política e confiar nele. A partir de agora os credores e as inflexíveis autoridades do zona do Euro terão pela frente não um governo que eles podem aterrorizar e manipular, mas um povo unido que tem consciência de sua dignidade e que não se rede à avidez dos capitais. Como dizia um cartaz:"Se não morremos de amor, por que vamos morrer de fome"?

Na Grécia nasceu, pela primeira vez, a democracia mas de cunho elitista. Agora, nesta mesma Grécia, está nascendo uma democracia popular e direta. Ela será um complemento à democracia delegatícia. Isso vale também para nós no Brasil.

Um prognóstico, quiçá uma profecia: não estaria nascendo, a partir da Grécia, a era dos povos? Face às crises globais serão eles que irão às ruas, como entre nós e na Espanha e tentarão formular os parâmetros políticos e éticos do tipo de mundo que queremos para todos. Já não confiamos no que vem de cima. Seguramente o eixo estruturador não será a economia capitalista desmoronando, mas a vida: das pessoas, da natureza e da Terra. Isso realizaria o sonho do Papa Francisco em sua encíclica: a humanidade "cuidando da Casa Comum".
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