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sábado, 30 de abril de 2022

DEMÉTRIO MAGNOLI QUALIFICA LEONARDO BOFF DE "PACIFISTA DE ARAQUE"

demétrio magnoli
PACIFISMOS
"Paz para a nossa época" –as palavras de Chamberlain, ao retornar da Conferência de Munique, ecoam até hoje como um signo de vergonha. 
O primeiro-ministro britânico praticava o apaziguamento, utilizando-se da linguagem do pacifismo. 

Diante da guerra de agressão russa na Ucrânia, o discurso pacifista está de volta. Como em 1938, seus mais destacados arautos não querem a paz, mas um desfecho específico da guerra.

Chamberlain não era um pacifista. O apaziguamento, estimulado pela parcela da elite britânica simpática a Hitler, sintetizava um desastrado cálculo estratégico: direcionar as forças alemãs para um confronto mutuamente destruidor com os soviéticos. 

Os pacifistas aplaudiram a entrega dos Sudetos tchecos, que exibiam como um preço de liquidação para obter a paz universal. "Chamberlain fez a coisa certa em Munique", declarou Bernard Shaw, a figura icônica do pacifismo.

"Se Zelenski tivesse dito há tempos que não iria entrar na Otan, teria evitado a guerra", tuitou o teólogo Leonardo Boff. 

Os fatos desmentiram, de imediato, a profecia contrafactual do piedoso humanista. Na segunda semana da guerra, Zelenski aceitou trocar a paz por um estatuto de neutralidade geopolítica da Ucrânia –mas a Rússia rejeitou a oferta, exigindo a transferência da Crimeia, do Donbass e do sul ucranianos à sua soberania.

Putin deflagrou uma guerra de conquista alegando que a Ucrânia não passa de uma extensão da Rússia. 
Boff está de acordo com o conceito que sustenta a invasão. No seu tuíte, a frase estende-se do seguinte modo: "...a guerra e a carnificina que os russos estão fazendo, destruindo uma parte de si mesmos, pois Ucrânia e Rússia foram sempre uma só terra".

Shaw não era apenas um pacifista célebre, mas também –algo geralmente esquecido– um admirador de Hitler, Stalin e Mussolini. 

Na quarta semana da guerra, Boff transitou da exigência inicial de neutralidade ucraniana para uma posição mais realista, que replica os objetivos de Putin: 
"Me pergunto se tem sentido Zelenski sacrificar todo um povo numa guerra que sabe não poder ganhar. Para poupar seu povo caberia, não uma rendição, mas uma negociação mesmo com concessões". 
Assim, de passagem, Boff conta-nos que não é Putin, mas Zelenski, que sacrifica todo um povo.

Putin imaginou que, por não ser uma nação legítima, a Ucrânia capitularia sem luta. Viu, no lugar disso, uma nação inteira se levantar contra o poderoso invasor. 

Na sua infinita bondade, Boff solicita a Zelenski que faça a vontade de Moscou, entregando-lhe vastos territórios –e, com eles, as populações que os habitam. Seu pacifismo, como o de tantos outros, é uma encenação destinada a divulgar os pretextos e as narrativas do chefe do Kremlin.
"Shaw não era apenas um pacifista célebre, mas
também um admirador de Hitler, Stalin e Mussolini"

Diante da decisão dos EUA, junto com outros 42 países, de fornecer armas pesadas à Ucrânia, o ministro do Exterior russo, Sergei Lavrov, passou a acusar a Otan de promover uma guerra por procuração contra a Rússia. 

Os pacifistas de araque repetem, sílaba por sílaba, as cínicas sentenças de Lavrov. De fato, ignoram a Carta da ONU, que condena a guerra de conquista e avaliza o direito à autodefesa coletiva –ou seja, o direito de nações não beligerantes de contribuir para o esforço de guerra de um país invadido.

Na Ucrânia, mais que o destino de uma nação soberana, joga-se o futuro da ordem mundial edificada em 1945 pelas potências vencedoras da 2ª Guerra Mundial, inclusive a URSS. Um triunfo em terras ucranianas impulsionaria Putin a prosseguir sua escalada de guerras imperiais na Moldávia e nos países bálticos, sob o álibi de proteger os russos do exterior

Segundo a lógica de Boff, em nome da paz, cada uma dessas nações deveria desistir da soberania e de suas fronteiras internacionalmente reconhecidas. O pacifismo do nosso Shaw, como o do Shaw original, é propaganda de guerra. (por Demétrio Magnoli)

sexta-feira, 3 de julho de 2020

CIENTE DA LETALIDADE DO CORONAVÍRUS, BOLSONARO OPTOU PELO DESDÉM. PODE SER CONSIDERADO APTO PARA O CARGO?

bruno boghossian
BOLSONARO SABOTOU COMBATE AO CORONAVÍRUS
AO SABER DA PROJEÇÃO
 DE 100 MIL MORTES
Na última 6ª feira de março, Jair Bolsonaro apareceu na TV e disse o que pensava sobre o aumento de casos de coronavírus no país: 
"Alguns vão morrer? Vão, ué. Lamento. Essa é a vida, é a realidade".
O presidente adotou a negligência como política oficial durante a pandemia. O desdém se tornou a principal marca do desempenho ruinoso do Brasil, que agora ganha contornos ainda mais perturbadores.

Ex-secretário do Ministério da Saúde, o epidemiologista Wanderson Oliveira contou à repórter Natália Cancian que o Palácio do Planalto foi avisado de uma projeção que estimava em 100 mil o número de mortes por coronavírus em seis meses. 

Segundo ele, os dados chegaram à cúpula do governo já em março.

Desde o início, a equipe de Bolsonaro tinha elementos sobre a gravidade da doença. Naquele mês, o presidente dizia que a Covid-19 faria menos de 800 vítimas (todos os grifos em vermelho são do editor). A previsão fraudulenta desabou em três semanas.

Bolsonaro sonegou informações e implantou uma sabotagem contínua às ações de combate à pandemia. Demitiu um ministro e forçou a saída de outro. Quando o país bateu 30 mil mortes, não deu bola: 
"A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo".
O governo também sabia que a cloroquina era um método duvidoso de tratamento, mas estimulou o uso do remédio.

O Exército estocou mais de 1 milhão de comprimidos. Procuradores querem saber por que os insumos para o medicamento custaram mais do que o normal.

Os conflitos fabricados por Bolsonaro em torno das medidas de distanciamento, defendidas pelos técnicos da área, ajudaram a empurrar o país para o buraco, segundo Oliveira.
"Perdemos um tempo precioso com um debate improdutivo que acabou resultando numa confusão para a população muito grande".
O presidente liderou o país com a mesma habilidade do prefeito de Itabuna, na Bahia. Nos últimos dias, o alcaide disse que abriria o comércio mesmo que os casos na cidade disparassem, "morra quem morrer". (por Bruno Boghossian)
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TOQUE DO EDITOR — Durante a ditadura militar, além dos quatro processos a que respondi por minha militância na VPR e VAR-Palmares, houve mais tarde um quinto, de caráter censório à minha atuação jornalística.

Arriscando-me a um sexto, já que se tenta criminalizar a comparação do bolsonarismo com o nazismo, avalio que o comportamento mais parecido com o que o epidemiologista Wanderson Oliveira atribui a Bolsonaro é o de Hitler em 1945: furibundo por perceber que sua queda estava cada dia mais próxima, ele ordenou a destruição da infraestrutura da Alemanha, para legar aos aliados uma terra arrasada!

Foi o chamado Decreto Nero, abortado pelo ministro Albert Speer, que prometeu implementá-lo e fez exatamente o contrário.
por Celso Lungaretti

A conclusão que se impõe, a partir do relato do epidemiologista, é a de que, furibundo com as consequências que o morticínio do vírus inevitavelmente traria para sua obsessão de ser reeleito em 2022, Bolsonaro resolveu dobrar a meta: "Se é para morrerem 100 mil, então que morram logo 200 mil!".

As perguntas que não querem calar são:
— Hitler estava louco em 1945 e deveria ter sido afastado do poder?
— Bolsonaro está louco em 2020 e deve ser afastado do poder? 
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