Mostrando postagens com marcador Clóvis Rossi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clóvis Rossi. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de junho de 2019

UM ARTIGO PARA AQUILATARMOS A IMENSA FALTA QUE NOS FARÃO O BRILHANTISMO E O CARÁTER DE CLÓVIS ROSSI (1943-2019)

SÓ GABO OU KARL MARX PARA 
CONTAR A FARSA QUE É O BRASIL
Uma vez em Davos, muitos anos atrás, eu coincidi de almoçar com um jornalista da TV portuguesa. Do Brasil, ele não sabia nada além do enrosco à época com os dentistas brasileiros que procuravam se instalar em Portugal e eram sabotados e dos jogadores brasileiros nos times de lá.

Mas, muito curioso, me pediu para fazer um breve relato da história recente do Brasil (estávamos em 1993 ou 1994, já não me lembro).

Comecei contando que, ao final da ditadura, havia sido eleito um senhor respeitável que se gabava de jamais ter tido nem sequer um insignificante resfriado. Mas que, na véspera da posse, baixou no hospital, depois passou para outro e só saiu deste último para o cemitério.

Em seu lugar, como primeiro presidente da democracia recém-inaugurada, assumiu outro simpático senhor que, no entanto, havia sido presidente do partido da ditadura até bem pouco antes.

Não era propriamente popular, como presidente acidental, mas logo editou um plano econômico que congelou a inflação, o flagelo que então consumia os bolsos e os nervos de eleitores e, por extensão, o prestígio dos políticos.
Tornou-se o presidente mais popular da história das pesquisas.

Quando a inflação descongelou, ficou tão impopular que não conseguiu nem sequer ter um candidato que o defendesse na eleição seguinte, ainda que mais de 20 tivessem se apresentado. Aliás, ganhou justamente o que mais violentamente criticara o presidente que havia sido o mais popular da história até então.

Ah, por acaso, ambos (o presidente impopular e o novo presidente eleito) haviam militado no partido que apoiara a ditadura, o que, em tese, deveria inabilitá-los para a democracia.

A essa altura, notei que meu interlocutor me olhava com alguma malícia, imaginando que eu estava inventando a história do Brasil. Parei, então, e lhe disse que a única pessoa habilitada a contá-la, naquele período, seria um certo Gabriel García Márquez – ele, o principal artífice do realismo mágico.

Pena que Gabo tenha morrido porque, ao acompanhar o noticiário dos últimos dias, anos até, me volta a sensação de que tudo não passa de uma invenção desses maravilhosos autores do realismo mágico.

Minto. Nem a prodigiosa imaginação deles seria capaz de inventar algo tão delirante como a realidade brasileira.

Aquelas malas e caixas de dinheiro cabem em Macondo, não no Brasil.

Só em cidades imaginárias, pode-se acreditar que todos os presidentes da democracia, exceto Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco, tenham sido denunciados – sempre por corrupção.

Não são poucos: José Sarney, Fernando Collor, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer.

Se não é coisa de república bananeira, não sei mais o que é república bananeira.

Delatores delatam 1.829 políticos, no total, e depois, em uma nova gravação dizem que era tudo brincadeirinha. Se a nova gravação é brincadeirinha, as antigas valem? 

Se não valem, o que era aquela mala com dinheiro filmada com um apressado homem de confiança do presidente?

Que havia mala e que havia dinheiro, não foi o Gabo que inventou, tanto que o indigitado cidadão devolveu mala e dinheiro (aliás, devolveu em prestações, um tantão primeiro e o restinho depois).

Se não é a Gabo que devemos recorrer, talvez caiba adaptar Karl Marx e sua a história se repete, a primeira vez como tragédia e, a segunda, como farsa.

Vê-se, velho Karl, que você não conheceu o Brasil. Aqui a história se repete sempre como farsa, mas é sempre, ao mesmo tempo, uma tragédia para a maior parte do público, excetuados os farsantes que se divertem como corsários que são. (por Clóvis Rossi, em pleno dia 7 de setembro de 2017, sem nenhum receio de detonar os filhos da...pátria!)
"Minha terra tem palmeiras / onde sopra o vento forte, / 
da fome, do medo e muito, / principalmente da morte" 

sexta-feira, 31 de maio de 2019

CLÓVIS ROSSI PERCEBE EM WEINTRAUB "DESVIOS DE PERSONALIDADE QUE VÃO ALÉM DE SUA PRECÁRIA ESCOLARIZAÇÃO"

clóvis rossi
PRÓXIMA ETAPA DO MINISTRO
DA  EDUCAÇÃO: MANDAR
 QUEIMAR LIVROS
Depois da abjeta sugestão para que pais, professores e estudantes denunciassem quem participasse de manifestações, o próximo passo do ministro Abraham Weintraub é propor a queima de livros (de preferência, todos os que não sejam os de Olavo de Carvalho, claro).

Seria absolutamente coerente com a confessada admiração de ilustres governistas pela ditadura de Augusto Pinochet Ugarte. Fui testemunha ocular, nos primeiros dias da instalação da ditadura, de uma queima de livros no centro de Santiago. Gerou fotos que correram o mundo porque lembravam, obviamente, as piras que a Alemanha nazista montou para queimar livros.

A ordem de Weintraub, além de abjeta por si só, revela desvios de personalidade que vão além de sua precária escolarização, já revelada ao escrever insita em vez de incita
Queima de livros marcou a ditadura de Pinochet...

Agora que incita o pessoal a ser traíra, para usar a palavra que os jovens preferem, fica claro que não tem noção de convivência.

Algum pai denunciaria o filho se este saísse de casa para ir à manifestação? É óbvio que não, a menos que a manifestação fosse ilegal, o que não é o caso. 

Por este último aspecto, fica claro que o ministro também não conhece o funcionamento da democracia.

Natural, aliás, em quem aceita ser ministro de quem, como Jair Bolsonaro, defende a ditadura e elogia um torturador condenado, caso de Brilhante Ustra.

Não me lembro de o ministro ter sugerido que fossem denunciados os que participaram da manifestação a favor do governo no domingo (26). Na particular democracia desse cidadão, só tem direito a se manifestar quem é a favor do governo (do governo dele, claro).
...e também a de Getúlio Vargas.

Suspeito que, além de sugerir a queima de livros, o ministro pense em entronizar como patrono da Educação o general espanhol José Millán Astray (se é que Weintraub já ouviu falar dele, o que é improvável). 

Milán Astray, em 12 de outubro de 1936, na cerimônia de abertura do ano letivo na Universidade de Salamanca, empolgando-se com o avanço das tropas franquistas, reagiu violentamente contra o discurso do reitor, o reputado intelectual Miguel de Unamuno, e soltou: Abajo la inteligencia, viva la muerte.

terça-feira, 21 de maio de 2019

A ATUAL CRISE BRASILEIRA É "A MAIS ESDRÚXULA DE TODAS JÁ VISTAS", NA AVALIAÇÃO DE CLÓVIS ROSSI.

O besteirol, que já rolava solto em 64...
clóvis rossi
CENAS EXPLÍCITAS DE ABSURDOS NUM PAÍS
 PERTO DE VOCÊ
Iniciei minha vida profissional, em 1963, cobrindo momentos da conspiração que desaguaria no golpe de 1964. Tenho, portanto, 56 anos de estrada no acompanhamento de crises neste país tropical que parece viciado nelas.

Com tanta experiência, confesso que jamais vi uma crise como a que se desenrola nestes meses. Não sei dizer se é mais ou menos grave que alguma outra ou que todas as outras. Não há um metro exato para medir cada crise.

Mas posso assegurar tranquilamente que é a crise mais esdrúxula que me tocou viver. É um teatro do absurdo levado às últimas consequências, um non sense total e absoluto.

Começa pelo fato de que Jair Bolsonaro confessou publicamente que não nasceu para ser presidente, mas para ser militar. É natural, portanto, que o leitor Lucas Monteiro escreva para a Folha de S. Paulo que Bolsonaro “ainda não entendeu o que é ser presidente".

Claro que ele não entendeu, Lucas, pois não nasceu para o ofício.

Caberia perguntar por que, diabos, então se candidatou a presidente se não é a praia dele? E, uma vez eleito, o que está fazendo no cargo, se não nasceu para ele?
...agora ultrapassa todos os limites.

Talvez o problema esteja no fato de que a carreira para a qual se julga feito tampouco o aceita. Foi expelido do Exército, para a reserva, porque seus companheiros de arma devem tem achado que ele não nascera para ser militar.

Aliás, é um baita non sense um cidadão que se diz talhado para ser militar ter como guru um pilantra que dia sim, outro também, esculhamba os militares em geral. 

Esculhamba, em particular, os militares que Bolsonaro escolheu para acompanhá-lo no governo. E este, em seguida às esculhambações, condecora o escatológico astrólogo. É ou não é um teatro do absurdo?

Mas não fica por aí: o presidente que não nasceu para ser presidente diz que não lhe apetece fazer uma reforma da Previdência. Não obstante, seu guru na Economia (tema ele confessa também não ter nascido para entender) toca como samba de uma nota só reforma da Previdência/reforma da Previdência.

Aí, em dado dia, o cidadão que nasceu para ser militar mas foi expelido da carreira divulga texto de um ex-candidato a vereador obscuro de um partido nanico que diz que o país é ingovernável sem que se façam conchavos que Bolsonaro afirma não estar disposto a fazer.
Ministro da Educação tostando kafka na fogueira

Por isso, segundo o texto, Bolsonaro até agora não fez nada, absolutamente nada. O presidente que não nasceu para ser presidente concorda que não fez nada, posto que divulgou o texto (ninguém em seu juízo perfeito espalha um texto com o qual discorda, a não ser para apresentar a crítica do papel em referência, coisa que Bolsonaro não fez).

A tese de que o Brasil é ingovernável sem conchavos com as corporações (não especificadas no texto, como se fossem alienígenas) é outro non sense. Governar é gerir pressões, demandas e necessidades. A vida, aliás, é também assim. Quem não sabe administrar tais situações não vive bem e, se presidente, não governa bem.

Tudo somado, vem inexoravelmente à memória o filme de 1979 Muito além do jardim, de Hal Ashby. É a história de um jardineiro, magistralmente interpretado por Peter Sellers, de poucas letras (para dizer o mínimo), que perde o emprego da vida toda e, pelo acaso, vai se aproximando de círculos cada vez mais poderosos até chegar à Presidência dos Estados Unidos.

No cinema, me diverti muito. Na vida real, é assustador.

TOQUE DO EDITOR — É o que sempre tento explicar para os interlocutores que me criticam por zoar o governo e a pessoa de Jair Bolsonaro: quem tem um mínimo de sensibilidade artística simplesmente não consegue levar a sério isso que está aí, comparado pelo Clóvis Rossi ao teatro do absurdo e por mim a um espetáculo de aberrações. 

Há também os ranzinzas que confundem a esculhambação à moda do Barão de Itararé ou d'O Pasquim com panfletarismo. Quanta falta de humor! Sou mais jovem aos 68 anos do que essa gente aos 28...

Quanto ao sarcástico artigo do Clóvis Rossi (um jovem de 76 anos!), eu só acrescentaria que, ao invés da analogia com Muito além do jardim, cairia melhor se ele a fizesse com o romance no qual o filme se baseou: O videota (1970), de Jerzy Kosinski. 

Muito mais contundente que Ashby, o polonês Kosinski bateu pesado na TV, pois é por absorver incessantemente a lavagem cerebral da máquina de fazer doidos que o jardineiro se torna, como diz o título, um idiota do vídeo.

Seria o paralelo ideal a se traçar com um idiota da selvageria das redes sociais. 
(por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 17 de maio de 2019

SEM EDUCAÇÃO JÁ BASTA O PRESIDENTE

clóvis rossi
FAÇA UMA BOA FACULDADE, JAIR
Perfeita a frase que o leitor Walter José de Miranda, de Curitiba, captou no protesto da 4ª feira (15) contra os cortes na educação: Sem educação já basta o presidente.

Se alguém ainda tivesse a mais leve dúvida de que falta educação básica, no sentido de comportamento decente, ao presidente Bolsonaro, basta anotar o lamentável bullying que ele praticou no dia seguinte contra a jornalista Marina Dias, correspondente da Folha de S. Paulo em Washington. Se alguém não leu, Bolsonaro mandou a jornalista fazer uma boa faculdade.

Já é condenável o bullying contra qualquer pessoa, mas se torna infame quando praticado por alguém que deveria ter o mínimo de respeito pelo que os antigos como eu chamavam de dignidade do cargo.

No caso de Bolsonaro, há uma agravante: ele não tem autoridade pedagógica, digamos assim, para recomendar que qualquer pessoa faça o que ele chama de boa faculdade.

Ele próprio não fez a faculdade mais relevante para a carreira militar, a Eceme – Escola de Comando e Estado Maior do Exército. É o estabelecimento de ensino de mais alto nível do Exército Brasileiro e tem a missão de preparar oficiais superiores para as funções de Estado Maior, comando, chefia, direção e assessoramento.

Como Bolsonaro não foi preparado para tais funções, não está qualificado para analisar a qualificação de outros profissionais.

O presidente não passou, no Exército, de uma patente intermediária, a de capitão. Fez, sim, o curso da Aman  Academia Militar das Agulhas Negras, que é o nível básico para formação de oficiais. Nada mais que isso.

Não chegou aos níveis superiores (major, tenente-coronel e coronel), para não mencionar, claro, os três patamares do generalato (general de brigada, de divisão e de exército).

Mesmo na Aman, seu preparo não deve ter sido brilhante: confessa, dia após dia, que não entende de economia. Ora, o curso básico da Aman inclui economia no currículo. Logo, ou Bolsonaro faltou às aulas ou não entendeu o que lhe era ensinado.

Como foi reformado por um ato de indisciplina, pelo qual chegou a ficar preso durante 15 dias, seus próprios camaradas de armas demonstraram, implicitamente, que ele não preencheria os requisitos para se candidatar aos processos seletivos da Eceme, assim sintetizados no sítio da Escola:
embasamentos intelectual e cultural, necessários ao futuro oficial do estado-maior e assessor de alto nível da força; 
 conhecimento interdisciplinar de História, Geografia, Geopolítica e Estratégia, necessário à continuidade da instituição de caráter permanente ‘Exército Brasileiro', em uma nação com as dimensões e projeção do Brasil; e 
— capacidade de resolução de problemas de forma sintética, clara, objetiva, coerente, com reduzida disponibilidade de tempo e utilizando a expressão escrita.
.
Como os livros do astrólogo Olavo de Carvalho não são recomendados pelo Exército (ou por qualquer instituição séria), Bolsonaro não poderia mesmo ser aprovado e, portanto, não está preparado para funções de chefia e comando para as quais prepara a Eceme. 
(por Clóvis Rossi)

terça-feira, 9 de abril de 2019

O CONSELHO DE CLÓVIS ROSSI PARA OLAVO DE CARVALHO: TRANCAR-SE NUM HOSPÍCIO E JOGAR A CHAVE FORA.

"A única solução para o hospício em que se transformou uma parte do Brasil dos Bolsonaros é Olavo de Carvalho, a piada que virou guru, aceitar que, como todos estão errados e só ele está certo, ele é anormal e merece trancar-se em algum hospício e jogar a chave fora"
.
(Clóvis Rossi, numa alusão a 
Alienista, do Machado de Assis)

segunda-feira, 11 de março de 2019

OS BOLSONAROS REZAM PELA CARTILHA ALUCINADA DE OLAVO DE CARVALHO E O BRASIL VIRA FAZ-ME-RIR PLANETÁRIO

clóvis rossi
AUSÊNCIAS QUE PREENCHERIAM LACUNAS
Seria uma tremenda bênção para o governo Jair Bolsonaro se os pupilos de Olavo de Carvalho realmente pedissem afastamento, como ordenado pelo guru.

Seriam ausências que preencheriam lacunas, se você me entende.

A mais sintética e mais perfeita definição para o papel de Olavo de Carvalho foi feita há algum tempo por esse excelente jornalista que é Bernardo Mello Franco, que fez carreira brilhante na Folha de S. Paulo e hoje está em O Globo.

Disse que o polemista passara de piada a doutrina oficial de governo. Só no Brasil mesmo para uma piada virar conselheiro-chefe de um governo.

Ninguém sério leva Olavo de Carvalho a sério. Que os Bolsonaros rezem pela alucinada cartilha dele, azar do Brasil, que está se transformando em faz-me-rir planetário.

Não é opinião só da Foice de São Paulo, como os hidrófobos do bolsonarismo costumam chamar tal jornal. Basta ler o que um impecável conservador, Luiz Felipe Pondé, escreveu em sua coluna desta 2ª feira (11): 
"Esse grupo boçal ao redor da administração Bolsonaro pensa que foi ele quem o elegeu, mas essa percepção é típica de quem vive alienado da realidade. Quem elegeu Bolsonaro, na sua maioria, detesta seu clã, seus idiotas paranoicos e seus churrascos na varanda".
Pena que os olavetes no governo não pareçam ter a menor propensão para largar a boquinha, apesar das ordens do guru. O chanceler Ernesto Araújo, um deles, tem até histórico —e longo— de servir a governos dos quais discorda.

Está no Itamaraty há quase 30 anos. Passou pois, incólume, pelos governos de Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer.

Nunca deu um pio sobre a política externa desses governos, a não ser quando percebeu a chance de subir na vida ao vislumbrar a possibilidade de vitória de Jair Bolsonaro, outro olavete.

Aí, sim, atreveu-se a partir de então a ser crítico das políticas que ajudara a levar adiante, discretamente, é verdade, porque nunca foi relevante no Itamaraty.

Um dos problemas com os olavetes é que, além de serem tidos como uma piada, são uma piada datada, fora de época. 

Olavo de Carvalho dedicou-se a combater o comunismo. Deve achar, como todo fanático que vive alienado da realidade (para citar Pondé) de novo, que foi ele quem derrubou o Muro de Berlim.

O comunismo ficou soterrado nos escombros do Muro, mas os fanáticos querem continuar no combate. São caça-fantasmas, pois.

Dá até uma boa comédia para Hollywood, mas não dá um bom governo, porque os problemas brasileiros não são o comunismo, mas um punhado de outros, todos já fartamente diagnosticados e expostos.

Desconfio até que, se todos os seguidores do guru-piada renunciassem e não fossem substituídos, o governo ficaria melhor. (por Clóvis Rossi)

domingo, 3 de março de 2019

ABRAÇO DE AFOGADOS: APÓS O REINADO DE MOMO, O REI BOZO REASSUME E VAI VISITAR OS ENROLADÍSSIMOS TRUMP E NETANYAHU.

clóvis rossi
ÍDOLOS DE BOLSONARO
EM APUROS
O presidente Jair Bolsonaro tem agendadas duas viagens internacionais, não por acaso para países governados no momento por seus dois maiores ídolos, o americano Donald Trump e o israelense Binyamin Netanyahu.

Ótimo. O Brasil deve manter de fato boas relações com ambos, como, de resto, o tem feito nos últimos muitíssimos anos.

O problema é que Bolsonaro chegará a Washington e Jerusalém em um mau momento —talvez péssimo— para seus ídolos.

Os rolos de Trump têm sido divulgados um dia sim, o outro também, mas atingiram um cume de escândalo depois do depoimento ao Congresso de Michael Cohen, o ex-advogado pessoal do presidente.

Como se sabe, Cohen chamou seu ex-cliente de racista, mentiroso e vigarista.

Pode estar mentindo? Pode, até porque já mentiu antes. Mas, convenhamos, poucas pessoas teriam melhores condições para avaliar Trump do que Cohen, que com ele conviveu por dez anos.
"racista, mentiroso e vigarista", além de histriônico...

Vale, a propósito, mencionar o que escreveu David Frum para The Atlantic: “O depoimento de Cohen pode não se mostrar inteiramente correto, mas todo ele é plausível”.

É terrível que uma publicação importante ache plausível que o presidente seja um vigarista.

Há, no depoimento de Cohen, um trecho que convida o ministro Sergio Moro a pensar, depois do vexatório desconvite a Ilona Szabó: o ex-advogado, relata o New York Times, ofereceu um retrato daninho da vida na órbita do presidente —na qual, disse, assessores sacrificam integridade pela proximidade com o poder.

Depois da visita a essa Washington tóxica, Bolsonaro partirá para Israel.

Lá, o procurador-geral Avichai Mandelblit avisou que está dando os passos necessários para eventualmente indiciar o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, envolvido em três casos de corrupção e de abuso de poder.

Antes, Mandelblit ouvirá o premiê. Se não se convencer de suas explicações, vai indiciá-lo, no que seria a primeira vez na história de Israel em que um primeiro-ministro enfrentará acusações criminais na posse do cargo.
"envolvido em três casos de corrupção e abuso de poder"
O indiciamento parece provável, porque “a investigação [que pode levar ao indiciamento] foi conduzida com cautela, alguns até diriam com excessiva cautela, ao longo de muito tempo”, como disse ao jornal digital The Times of Israel Suzie Navot, professora de Direito Constitucional e Parlamentar.

Bolsonaro desembarcará em Israel dias antes da eleição de 9 de abril, em que o simples anúncio do indiciamento pode desbancar Netanyahu: pesquisa de The Times of Israel mostra que o indiciamento roubaria seis cadeiras no Knesset, o Parlamento, da coligação que apoia o premiê, reduzindo-as a 55 de um total de 120. Sem indiciamento, Netanyahu teria uma minoria rasa —61 cadeiras.

Seria, portanto, prudente que Bolsonaro tratasse de manter alguma ponte com o novo bloco de oposição, capitaneado por um militar como o presidente brasileiro o foi.

Chama-se Benny Gantz, ex-chefe do Estado Maior das Forças de Defesa de Israel. Ele criou o bloco Azul e Branco (cores da bandeira de Israel) com dois outros ex-chefes militares (Moshe Yaalon e Gabi Ashkenazi), além do centrista Yair Lapid.

Seria bom que o presidente brasileiro aprendesse que simpatias pessoais não podem determinar relações de país para país, ainda mais quando os ídolos de Bolsonaro estão tão enrolados. 

(por Clóvis Rossi)

sexta-feira, 1 de março de 2019

STROESSNER NUNCA FOI UM ESTADISTA, E SIM UM NEFANDO DÉSPOTA ASSASSINO

O ídolo paraguaio do presidente era torturador e corrupto...
clóvis rossi
BOLSONARO ADMIRA UM ASSASSINO E LADRÃO
Ao chamar o general paraguaio Alfredo Stroessner de estadista, Jair Bolsonaro desqualifica a si próprio como presidente de um regime democrático.

Stroessner nunca foi um estadista, e sim um nefando déspota assassino.

Bolsonaro nem precisaria recorrer à ampla bibliografia que conta a história da ditadura do período 1954-1989. Bastaria conhecer, p. ex., decisão de 2003 da justiça paraguaia que determinou o embargo dos bens de Stroessner (então exilado no Brasil), numa causa por violação aos direitos humanos.

Foi responsabilizado pela morte sob tortura, em 1974, de Celestina Pérez de Almeida, esposa do educador Martín Almada.

Mas esse fato, por si só, não comoveria Bolsonaro, cujo ídolo chama-se Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar condenado pela justiça pela prática de tortura. Quem admira um torturador admira todos eles.

Mas Stroessner não era apenas um ditador. Era também tão corrupto que o juiz Arnaldo Fleitas estimou, certa vez, a sua fortuna de Stroessner em US$ 500 milhões (equivalentes hoje a R$ 1,8 bilhão), distribuídos em contas secretas na Suíça ou abertas em nomes de terceiros e da empresa Sur Inmobiliaria, administrada por alguns de seus netos.
...e seu ídolo brasileiro, só torturador.
Se uma pessoa assim é um estadista, para Bolsonaro, então Sérgio Cabral também o é, assim como Paulo Preto, certo?

Se se desse ao trabalho de ler alguma coisa além dos tuítes de seus filhos, Bolsonaro ficaria sabendo, p. ex., que a ditadura de Stroessner ficou marcada, entre outros pontos, pela violação sistemática aos direitos humanos (práticas de torturas físicas e psicológicas, assassinatos, exílios forçados, desaparecimentos, violações sexuais, entre outros); por gordo esquema de corrupção e pela censura aos órgãos de imprensa (talvez a admiração de Bolsonaro se explique por aí).

Quem quiser se informar sobre o que foi de fato o regime do estadista de Bolsonaro pode consultar o chamado Archivo del Terror, uma penca de documentos encontrados em 1992 numa delegacia de polícia de Lambaré, a 30 quilômetros de Assunção. Os documentos estão armazenados no Palácio de Justiça e comprovam não só as práticas bárbaras da ditadura como o trabalho conjunto com outros regimes autoritários do Cone Sul, Brasil inclusive.

É claro que, ao rotular um déspota como estadista, Bolsonaro não vai conseguir reescrever a história. O perigo é que esse tipo de avaliação idiotizada destapa uma caixa de Pandora da qual tendem a emergir boçalidades como, para ficar na mais recente, a proposta de cantar o hino e filmar as crianças fazendo-o. (por Clóvis Rossi)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

OLAVETES E OUTROS ALOPRADOS QUERIAM BRASIL AVASSALADO A TRUMP. MILITARES MOSTRARAM QUEM REALMENTE MANDA

clóvis rossi
SAI A FORÇA, ENTRA O ESTRANGULAMENTO
Dura derrota da nova direita: aliados dos EUA no continente americano descartaram intervenção armada
O Grupo de Lima não deu a menor atenção à sugestão de Juan Guaidó de tirar Nicolás Maduro do poder por meio de uma intervenção militar. Guaidó explicitou para Sylvia Colombo, da Folha de S. Paulo, o que queria dizer quando repetiu Donald Trump, que vive dizendo que todas as opções estão sobre a mesa. Intervenção militar seria uma delas.

Parêntesis: dias atrás, uma sessão informativa de um alto funcionário americano, cujo nome não pode ser citado conforme as regras do jogo, deixara claro que, quando os Estados Unidos dizem que todas as opções estão sobre a mesa, querem dizer apenas todas as opções políticas, diplomáticas, financeiras e comerciais —não a militar.

Até antes da reunião do Grupo de Lima nesta 2ª feira (25), o repúdio expresso a uma ação militar, partido dos presidentes do Peru e do Chile e do vice-presidente do Brasil, enterra de vez essa hipótese, que, de resto, nunca esteve seriamente no cardápio, exceto talvez na cabeça de Trump.

A opção que ficou de pé —reafirmada pelo vice-presidente Mike Pence— é a de sufocar o regime por meio do aumento das sanções.
Disparates caem bem nas campanhas eleitorais, não nos governos
Ao mirar a PDVSA, a estatal do petróleo e praticamente a única grande fonte de recursos em moeda forte para a Venezuela, o objetivo é secar esse maná e, assim, impedir o governo de fazer o já precário abastecimento de alimentos.

Em consequência, em tese haveria um incentivo para que os militares e outros grupos abandonassem Maduro.

Funciona? Talvez, mas há dois fatos para duvidar da eficácia: primeiro, Cuba está há 60 anos sob bloqueio americano, e a ditadura continua de pé. Segundo, Maduro procura sempre driblar as sanções, buscando fontes alternativas de moeda forte. Embarca, por exemplo, ouro para a Turquia e vende petróleo a terceiros países usando intermediários russos.

Ainda assim, o governo tem cada vez mais dificuldades para conter os protestos. Por um motivo simples, como relata David Parra, no Caracas Chronicles, valiosa publicação digital:
"Estive em muitas manifestações nestes anos de violência na Venezuela. Mas o que vi no dia 23 de fevereiro na fronteira com a Colômbia [as manifestações para tentar forçar a entrada de ajuda humanitária] foi diferente: toda uma sociedade lutando com o desespero daqueles que não têm nada mais a perder".
Parece evidente que nenhuma sociedade se dispõe a morrer sem lutar.
Ilustração do Caracas Chronicle: disposição de lutarem contra Maduro teria aumentado
Essa situação dramática torna sensata a afirmação do general Hamilton Mourão à GloboNews no sentido de que é preciso conversar com os generais venezuelanos para convencê-los a aceitar a transição para a democracia.

Posição sensata, mas inviável? Não necessariamente, a julgar pelo relato de Ivan Briscoe, diretor do Programa para a América Latina e o Caribe do International Crisis Group, dedicado precisamente a analisar e, de preferência, prevenir conflitos.

Briscoe conversou com um membro da Assembleia Constituinte, o Parlamento ilegítimo que a ditadura montou para desautorizar a Assembleia Nacional de maioria oposicionista. Esse leal, mas crítico chavista, como Briscoe o definiu, sugeriu que uma saída seria os generais tomarem o poder por um ano ou dois, período em que negociariam um acordo com a oposição e a comunidade internacional e, então, realizar eleições para devolver o poder aos civis.

Pode ser uma posição isolada mas é reveladora de que até no coração do regime há gente pensando em um pós-Maduro. (por Clóvis Rossi)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

O PROFESSOR CLÓVIS ROSSI ENSINA A UM ALUNO BURRINHO O QUE TODO PRESIDENTE DA REPÚBLICA TEM DE SABER POR SI MESMO

clóvis rossi
PRESIDENTE NÃO TEM 'FORO ÍNTIMO'
Ao alegar uma questão de foro íntimo para demitir o ministro Gustavo Bebianno, Jair Bolsonaro dá uma demonstração definitiva de que não tem a menor qualificação para exercer função pública.

Foro íntimo não cabe no exercício de funções públicas, quaisquer que sejam e menos ainda na mais elevada, que é a Presidência da República.

Decisões nessa esfera só podem ser tomadas em função do interesse público, que, por definição, é oposto ao foro íntimo. Inacreditável que tenha que escrever uma coisa tão óbvia, mas no planeta dos Bolsonaros não vigora o sentido comum.

Foro íntimo o presidente poderia invocar para, p. ex., não convidar Bebianno para almoçar no Palácio, ou por ter mau hálito ou o cabelo desalinhado ou pelo hábito de usar sapatos em vez de chinelos, o que contrariaria o sentido íntimo de elegância do presidente.

Mas, para convidar ou demitir alguém de algum ministério, o único critério que vale é o interesse público. Para demitir, é obrigatório dizer se o defenestrado é corrupto ou incompetente ou as duas coisas ao mesmo tempo e talvez acrescentar mais algum deslize.

Para piorar as coisas, se fosse possível, Bolsonaro constrangeu seu porta-voz, Otávio do Rêgo Barros, a usar em público a indecente explicação de foro íntimo para a saída de Bebianno. Um general deveria saber perfeitamente que interesse público prevalece, sempre, sobre qualquer questão de foro íntimo.

O general viu-se perdido, repetindo uma e outra vez a tal muleta do foro íntimo, sem explicar as causas do afastamento, sem se referir ao imenso laranjal abrigado no PSL, o partido do presidente.

Ao esconder-se atrás do foro íntimo, o presidente continua devendo explicações sobre as suspeitas de trambiques em que estão envolvidos seu filho Flávio, seu ministro do Turismo e seu ex-ministro Bebianno.
Falar abobrinhas em discurso gravado ou emitir tuítes é mais uma demonstração de que não tem noção do que é o exercício de uma função pública. 

Pode até atingir, atrás dessas barricadas, o seu público, mas convém prestar atenção ao fato de que os 57,7 milhões que votaram nele são menos do que os 89 milhões que ou votaram no adversário ou votaram em branco ou anularam o voto ou nem sequer compareceram às urnas.

O homem público deve satisfações a todos eles, que não querem saber de seu foro íntimo mas precisam saber que interesse público foi violado para Bebianno ser demitido. 
(por Clóvis Rossi)
Related Posts with Thumbnails