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sábado, 18 de março de 2023

PODEROSOS TENTARÃO IMPINGIR AO BRASIL UMA "SOLUÇÃO AL CAPONE" PARA OS CRIMES DO GENOCIDA FUJÃO

H
á pelo menos um mês (vide, p. ex.,
 este post meu e este do David) estamos alertando que se trama nos podres Poderes uma solução repulsiva e covarde para a imensidão de crimes cometidos por Jair Bolsonaro no exercício da presidência da República. 

Se depender desses pizzaiolos contumazes, ao invés das grades que ninguém como o Bozo jamais fez tanto por merecer no Brasil, sua punição será, tão somente, a inelegibilidade. 

Como este blog não segue a reboque nem da grande imprensa nem das redes sociais, mas está sempre à frente de ambas, continua sendo ignorado por aquele tipo de leitores para quem só importa o que todo mundo está dizendo.

E o pior é que pouco podemos fazer contra isso. Muito pouco. 

Por questão de princípios, continuaremos não aceitando inserções publicitárias nem o apadrinhamento por parte de quaisquer forças políticas. Nascemos independentes e assim seguiremos até o fim (do blog ou do Brasil...). 

Quem quiser esperar um mês ou mais para ver destacado na grande imprensa aquilo que antecipamos lá atrás, fique à vontade, embora preferíssemos mesmo é que os leitores nos ajudassem a espalhar pela web os artigos que, pelo menos em três casos (o do Dalton, o do Rui e o meu), são o resultado de meio século de lutas e do acúmulo de todo tipo de experiências. 

E não hesito em apontar o caçula da turma, o David, com um dos mais promissores talentos das novas gerações, uma das poucas esperanças de reconstrução da esquerda brasileira, que foi levada ao fundo do poço por reformistas e populistas. 

O resgate da combatividade da esquerda, que existe para dar um fim à exploração do homem pelo homem e não para coonestá-la no mendicante papel de força auxiliar da burguesia, vai ser a tarefa fundamental para os companheiros que virão daqui para a frente (daí frequentemente ilustrarmos nossos posts com a imagem da fênix).

Feita esta introdução, passo a reproduzir trechos da coluna semanal do Demétrio Magnoli na Folha de S. Paulo deste sábado (18). 

Não escondo meu motivo: será um acinte tal desfecho para o crapuloso mandato do pior presidente que este país já teve e maior assassino de brasileiros de todos os tempos. Se tal pizza for servida e consumida, o Brasil como o conhecemos terá acabado. 

Então, precisamos desde já iniciar a luta contra a proposta indecente. Antes que a pizza saia do forno. (por Celso Lungaretti)
.
AL CAPONE, BOLSONARO E NÓS (trechos)
Al Capone acabou em Alcatraz pelo menor de seus crimes: evasão fiscal. 

Os crimes comuns que pesam sobre Jair Bolsonaro no caso das joias pouco significam perto dos crimes constitucionais praticados sistematicamente ao longo de seu mandato. Mas delineia-se um cenário no qual o ex-presidente terá o destino do mafioso. Seria uma forma de misturar, no liquidificador da demagogia, impunidade com inelegibilidade.

Durante a pandemia, Bolsonaro:
— sabotou as restrições sanitárias e a campanha de vacinação, operando contra o direito coletivo a saúde pública; 
— seu governo estimulou a invasão de terras indígenas por garimpeiros e madeireiros, desafiando o compromisso estatal de proteção desses povos;
— durante quatro anos, o presidente mobilizou seus apoiadores em persistente agitação golpista, que culminou no 8 de janeiro de Brasília, traindo o dever de respeito às instituições democráticas. 

Contudo, ao que parece, responderá apenas por peculato, descaminho e abuso de poder.

A solução Al Capone tornaria Bolsonaro inelegível, por decisão do TSE, com base na Lei da Ficha Limpa. Seria um típico jeitinho brasileiro –isto é, um artifício para ignorar os princípios que sustentam a ordem democrática...

... enterrar na cova do esquecimento os crimes constitucionais de Bolsonaro equivale a assinar um cheque em branco para a delinquência antidemocrática dos detentores de poder, no presente e no futuro. E é isso que vai se desenhando, a julgar pela postergação infinita dos procedimentos judiciais necessários.

"Não vamos atirar pedras", respondeu o ministro do STF Luís Roberto Barroso quando indagado, no 9 de janeiro, sobre a responsabilização do ex-presidente pela tentativa de acender a faísca do golpe de Estado. 
A senha indica um desejo de grande parte da elite política. Bolsonaro leve e solto, impune, mas transferido ao gueto diáfano dos que não podem disputar eleições –eis a forma ensaiada de uma reconciliação nacional.

Al Capone era um criminoso comum. Colocá-lo atrás das grades, sob uma sentença qualquer, servia ao interesse público. 

Bolsonaro pertence a categoria diferente. A impunidade de seus crimes constitucionais só serve, no fim das contas, aos interesses de longo prazo do bolsonarismo. (por Demétrio Magnoli)

sábado, 10 de dezembro de 2022

A METAMORFOSE: LULA FOI DORMIR PROGRESSISTA E ACORDOU PAI DOS POBRES

demátrio magnoli
CHEQUE DO PRESIDENTE
Bolsa esmola era assim que, 20 anos atrás, Lula qualificava o programa Bolsa Escola de FHC. 

Depois, no poder, o tal bolsa esmola tornou-se o Bolsa Família, até Bolsonaro transformá-lo no Auxílio Brasil, que agora recupera o rótulo de identificação lulista. Sugiro, no lugar disso, um rebranding definitivo: cheque do presidente

A operação publicitária justifica-se duplamente: no campo do marketing, estabiliza a imagem de marca; no das políticas públicas, garante transparência de objetivos.

O Lula oposicionista de 2002 não criticava os valores do Bolsa Escola mas o conceito de transferência direta de renda, inspirado nas propostas de combate à pobreza do Banco Mundial. 

A conversão ideológica do Lula presidente assinalou, ao lado do abandono das ambições petistas de reforma econômica estrutural, a descoberta de uma mina de ouro eleitoral. De larva a borboleta: assinando o cheque, o líder dos trabalhadores metamorfoseava-se em pai dos pobres.

A pobreza extrema declinou sem parar entre 2003 (12,6%, segundo o Banco Mundial) e 2014 (3,3%). No percurso, o Bolsa Família desempenhou papel significativo, mas não determinante. 

O fenômeno da redução da pobreza verificou-se nos mais diversos países em desenvolvimento, da China à Turquia e do México ao Peru, sem vultosos programas de transferência de renda. O longo ciclo internacional marcado por fluxos abundantes de investimentos e valorização das commodities fazia o serviço.

Mas um cheque é um cheque. Lula nunca incrustou o programa de transferência de renda no rochedo da Constituição, evitando conferir-lhe o estatuto de política de Estado. O cheque do presidente deveria ser uma benesse de governo. 

"Meu adversário, que odeia os pobres, terminará o Bolsa Família" –a ameaça assombrou as disputas eleitorais de 2006, 2010 e 2014. No ano mais difícil, quando Dilma Rousseff disputava a reeleição, o valor real do cheque atingiu o ápice: R$ 245,10. Sob o lulismo, o Bolsa Família tornou-se sinônimo de política social.

Bolsonaro aprendeu a executar a mágica, mas de modo desajeitado. Na pandemia, criou o auxílio emergencial; no ano eleitoral, o Auxílio Brasil de R$ 600. A ação tardia, interrompida em 2021, obteve efeitos eleitorais limitados. 

Serviu, porém, para expor as entranhas perversas do mecanismo fabricado pelo lulismo: cada novo governo precisa elevar o valor do cheque que chega a mais de 21 milhões de famílias.  

Lula escolheu R$ 600 para empatar com Bolsonaro –e o suplemento de R$ 150 por filho pequeno para derrotá-lo.

O número escrito no cheque deriva de imperativos de concorrência política, não de um cálculo de eficiência na alocação de recursos públicos.

Programas de transferência de renda aliviam temporariamente a pobreza –mas ocultam suas raízes profundas. 

A depressão econômica gerada pela folia dilmista levou a pobreza extrema a 5,3% em 2018, mas o auxílio emergencial a comprimiu à menor taxa histórica, em 2020, no auge da pandemia (1,9%). 

Em 2021, sem o auxílio, a taxa saltou a 8,4% –e certamente experimentará forte redução em 2022, assegurada pelos R$ 600. O cheque faz milagres efêmeros.

As raízes da miséria só podem ser erradicadas por políticas econômicas responsáveis e políticas sociais universalistas. As primeiras dinamizam o mercado de trabalho, elevando os salários. As segundas ampliam a oferta de bens públicos de qualidade (educação, saúde, saneamento, transportes) e impulsionam a reforma urbana (moradia em áreas centrais). 

Nada disso, contudo, tem o poder sedutor de um cheque assinado pelo presidente –ainda mais quando ele contém a senha do cofre do crédito consignado.

A PEC da Transição é o passaporte para Lula alcançar e ultrapassar Bolsonaro. Seu custo é o congelamento da pobreza estrutural, sempre disfarçada pelo cheque do presidente. Uma mão lava a outra. (por Demétrio Magnoli)

sábado, 5 de novembro de 2022

DEMÉTRIO MAGNOLI QUER VER GOLPISTAS PROVANDO CASSETETE DA DEMOCRACIA

O CÁLCULO DO CHANTAGISTA
Intervenção federal – as duas palavras escritas nas faixas desfraldadas por arruaceiros bolsonaristas pretendem significar golpe militar

O projeto do golpe, porém, ficou para trás. A escumalha iludida por seu líder funciona como massa de manobra. Bolsonaro a emprega para outra finalidade.

O ainda ocupante do Palácio do Planalto sonhou com o golpe desde que, no primeiro dia, vestiu a faixa presidencial. A trama golpista foi barrada pela resistência das instituições e, em especial, pela recusa dos altos comandos militares a participarem da aventura tresloucada.

O golpe morreu uma vez em novembro de 2020, quando o então comandante do Exército, Edson Pujol, declarou que sua Força não é instituição de governo nem tem partido. 

Morreu mais uma vez a partir de abril de 2021, quando os novos chefes das três Forças aplicaram discretamente, sem qualquer declaração pública, o princípio expresso pelo demitido Pujol.

Bolsonaro não desistiu, engajando-se na tentativa de ressuscitar os mortos. 

O plano derradeiro era tirar proveito da desastrada tática conciliatória do TSE: ter aceitado a incorporação de representantes militares no processo de fiscalização da integridade das urnas eletrônicas. 

Não funcionou. Os militares designados pelo Ministério da Defesa empenharam-se no esporte da simulação, rejeitando as alternativas de confirmar ou impugnar a lisura do sistema de voto. Então, o golpe morreu pela terceira vez.

A quarta e última morte deu-se na noite de 26 de outubro. Ali, convocados pelo presidente para uma reunião extraordinária, os comandantes militares não aceitaram alinhar-se à chicana desesperada de denúncia do alegado boicote de rádios às inserções eleitorais da campanha bolsonarista.

Bolsonaro sabe que a oportunidade passou. O golpe virou arruaça. Ele e seu círculo golpista mais próximo patrocinaram os bloqueios rodoviários com uma meta distinta: pressionar as instituições a conceder ao presidente e seus filhos uma garantia de impunidade judicial. 

A chantagem baseia-se na ideia de tomar o Brasil como refém e objeto de intercâmbio. No fim, em troca da negociação de uma espécie de anistia prévia, Bolsonaro concederia à nação o retorno à vida normal.

Para evitar um desfecho oposto ao planejado, o chantagista organizou uma operação de duplicidade informacional:
— numa ponta, evoluiu do silêncio à declaração ambígua, de leitura aberta, emitida na 3ª feira (1º), e dela ao apelo direto pelo fim dos bloqueios, emitido no dia seguinte;
— na outra, os gerentes de suas redes sociais insistiram na conclamação ao fechamento das estradas, indicando que a mensagem genuína do líder não sofrera reversão. 

Por essa via tortuosa, Bolsonaro tenta livrar-se da acusação de subversão da ordem democrática e, simultaneamente, conservar o ímpeto do movimento subversivo.

A operação está cravejada de incertezas e riscos. Como impedir que a duplicidade provoque uma cisão definitiva no bolsonarismo, separando a facção mais radicalizada da massa dos seguidores? Como controlar o grau de radicalização, evitando desfechos inesperados capazes de cancelar a negociação institucional? 
O apelo à substituição dos bloqueios por manifestações golpistas pacíficas foi uma tentativa de quadratura do círculo, não uma renúncia à estratégia da chantagem.

O objetivo de Bolsonaro é mostrar força, poder de mobilização, para vergar o sistema de justiça, elevando-se acima da lei. 

Se conseguir colocar as instituições de joelhos, conservará a unidade da direita em torno da sua liderança. Caso contrário, a direita se fragmentará –e só restará ao chantagista uma franja incapaz de conviver com as regras do jogo.

É hora de responder ao golpismo com a musculatura da lei, acompanhada pela necessária repressão. Os extremistas, que sonham com o cassetete da ditadura, precisam conhecer o cassetete da democracia. (por Demétrio Magnoli)

sábado, 22 de outubro de 2022

O FEDOR DA CAMPANHA DO BOZO EMPESTEOU TODA A COMUNICAÇÃO ELEITORAL

demétrio magnoli
MEIOS E FINS
"
O tema desta campanha
não é economia, são os
temas propostos por Bolsonaro, o que significa
que o presidente venceu o debate desta eleição." 
Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil, não erra no diagnóstico. Na TV e nas redes sociais, a campanha de Lula emula a linguagem do bolsonarismo. 

Segundo a síntese do ministro, "Lula não está lutando no campo dele; está travando uma eleição no campo adversário".

A gosma oriunda da campanha bolsonarista espalhou-se por toda a comunicação eleitoral, dos dois lados. Sob o efeito Janones, a campanha lulista transitou da qualificação de genocida, aplicada ao presidente desde a pandemia, para sugestões de que ele teria inclinações ao canibalismo e à pedofilia. 

Jogo empatado? Diferentes pesquisas, que registram discretas quedas nos índices de rejeição a Bolsonaro, indicam que não. O jogo no campo adversário sempre serve ao adversário – eis uma regra universal da política.

A interpretação de texto, mesmo elementar, evidencia níveis deploráveis de distorção. Na entrevista antiga ao New York Times, Bolsonaro pretendia associar (falsamente) indígenas brasileiros à prática do canibalismo e impressionar o interlocutor exibindo-se (pateticamente) como tolerante à diversidade cultural.
Já as declarações do presidente sobre as meninas venezuelanas, expressas na sua vulgaridade habitual, simplesmente atestam arraigados preconceitos, tanto sobre mulheres quanto sobre refugiados. O janonismo, porém, escolheu acusar o presidente de ser um potencial devorador de índios e um adepto, real ou virtual, da pedofilia.

Os expedientes tóxicos do janonismo não comoveram o eleitorado. Entretanto, entusiasmaram comentaristas progressistas engajados, aberta ou veladamente, na campanha lulista. A turma, muito culta, nada entendeu sobre a relação entre meios e fins.

Os fins justificam os meios, assegura uma crença ingênua adotada por pessoas que se imaginam moralmente superiores. De fato, os meios qualificam e moldam os fins. 

O carluxismo é um meio eficiente para produzir um governo extremista, inclinado ao preconceito e propenso ao golpismo. O janonismo, imagem espelhada do carluxismo, não é um meio apropriado para gerar um governo democrático, capaz de respeitar a pluralidade social e a divergência política.

O PT não é neófito na prática de campanhas difamatórias. Nos idos de setembro de 2014, operando em nome de Dilma Rousseff, João Santana montou a célebre peça de TV na qual Marina Silva expropriava a comida dos pobres, transferindo-a aos banqueiros. O recurso à linguagem do esgoto funcionou –e a política brasileira enveredou por um labirinto escuro.

O paralelo é, contudo, imperfeito. A propaganda imunda de 2014 surtiu efeito pois situava-se, ainda, nos limites da esfera da política: o alvo não era a pessoa da candidata, mas sua proposta de conceder independência ao Banco Central. Hoje, o 
janonismo, imitação do carluxismo, move-se no terreno da difamação pessoal.

Numa ofensiva recente, a campanha de Lula divulga um vídeo no qual Bolsonaro homenageia Alfredo Stroessner, acompanhado pela notícia de que o ex-ditador paraguaio era um pedófilo que mantinha meninas como escravas. No caso, o tema não é exatamente a ditadura, mas a pedofilia. A absorção da linguagem bolsonarista tem implicações que ultrapassam o 30 de outubro.

A vida política não se encerra, apoteoticamente, no 2º turno. Depois dele, o Congresso votará leis relevantes, o STF pronunciará sentenças cruciais, os eleitores voltarão às urnas em novas eleições municipais, estaduais e federais. 

Sempre será possível asseverar que algo decisivo –inclusive a democracia– pende por um fio. A alegação utilizada para justificar o jogo sujo no campo adversário ressurgirá em múltiplas oportunidades. O bolsonarismo terá triunfado –mesmo após a derrota. (por Demétrio Magnoli)
Cara do Janones...
T
OQUE DO EDITOR: JANONES NÃO ME REPRESENTA 
– O que existe entre meios e fins é uma interação dialética, então o uso de meios ignóbeis contamina os fins: torna-os igualmente vis.

Mas, quem disse que o PT tem compromisso com a democracia? Na verdade, a real ideologia petista é exatamente o utilitarismo: vale tudo para conquistar posições no Executivo e no Legislativo e, assim, desfrutar as benesses e privilégios que o capitalismo disponibiliza para seus serviçais.

Revolução? É uma hipótese de difícil concretização, que só vinga esporadicamente. Pragmáticos não apostam nela.

Assim é que o PT abriu mão dos ideais de transformação da putrefata sociedade burguesa, trocando-os pela conveniência de levar vantagem dentro dela. 

Já na década de 1980 começou a expurgar as tendências esquerdistas que trazia em seu seio, insuflando o reformismo e o populismo, até chegar ao estágio atual, quando precisa esconder em campanha sua proposta de política econômica (pois não passa de mais do mesmo) e não ousa revelar quem será ministro da Economia (pois vai escolher um dos costumeiros).

Nada a estranhar, portanto, no paralelismo de sua comunicação com a do genocida ensandecido. 
...focinho do Carluxo

Lula e o Bozo não passam das duas faces da moeda capitalista, mas a face bestial implica extermínios como o de uns 400 mil brasileiros imolados no altar do obscurantismo durante a pandemia que matou 1 milhão dos nossos compatriotas (uso as projeções confiáveis de instituições estrangeiras, não os viciados dados brasileiros). 

Somos obrigados a tapar o nariz e votar no Lula, porque ainda estamos tentando evitar o apocalypse now e não antecipá-lo. Mas, faço questão de deixar registrado: Janones não me representa! (por Celso Lungaretti)

sábado, 23 de julho de 2022

DEMÉTRIO MAGNOLI: "O CONGRESSO FOI COMPRADO PELO ORÇAMENTO SECRETO"

demétrio magnoli
A EXPRESSÃO PERDIDA
Insistir no impeachment de Bolsonaro seria o
único caminho decente para a democracia
Atônitos, os embaixadores assistiram a um espetáculo singular. Bolsonaro, chefe de Estado, comportou-se como líder de uma seita extremista denunciando perseguições eleitorais conduzidas contra ele por um Estado maléfico.

Na sequência, o evento foi alvo de diversas notas críticas assinadas pelo presidente do Senado e pelos demais candidatos presidenciais. Nenhuma delas cravou a expressão precisa: crime de responsabilidade. Nossa democracia cambaleia.

Debati, em 2018, com o intelectual petista André Singer. O impeachment de Dilma ocorrera menos de dois anos antes e Lula encontrava-se preso. 

Singer sustentou a ideia de que o lulismo esgotava-se numa crise profunda. Discordei, argumentando que o lulismo seguia como alternativa viável de poder. Depois, concordei com a avaliação dele de que repetidos impeachments enfraquecem a democracia.
 
Acertei ao discordar; errei ao concordar. No fundo, o dilema abstrato não faz sentido.  

Impeachment é uma das últimas linhas de defesa da democracia: a faca grosseira que, cortando o abuso de poder presidencial, preserva o império da lei. 

O Congresso nunca avançou rumo ao necessário impeachment de Bolsonaro porque foi comprado pelo orçamento secreto.

O governo Bolsonaro obteve, por via legal, o que o governo Lula não conseguiu pelas vias ilegais do mensalão e do petrolão

Apavorado pelo espectro do impeachment, o atual presidente renunciou à sua prerrogativa de gerir o orçamento, entregando-o como butim aos parlamentares. 

É uma estratégia coerente, no caso de um presidente engajado exclusivamente no sonho insano de subverter o regime democrático.

Lula jamais faria algo semelhante, pois acalentava, além de um projeto de poder, um programa político e econômico. No caso dele, a aquisição de maioria parlamentar por vias corruptas destinava-se, precisamente, a eliminar os contrapesos parlamentares constitucionais à prerrogativa presidencial de gerir o orçamento público.

Quantos crimes de responsabilidade Bolsonaro já cometeu? O criminoso serial atingiu um ápice no seu comício para os embaixadores. Ali, em evento oficial, diante de representantes de dezenas de nações, o presidente atacou a imagem de uma instituição basilar da democracia brasileira. O nome correto disso é traição à pátria

Mas tudo terminou na célebre pizza e nem mesmo a oposição de esquerda ergueu a voz para clamar pelo impeachment. (por Demétrio Magnoli)

sábado, 4 de junho de 2022

EXTERMINADORES AGORA OCULTAM AS IMAGENS DE SUAS ATROCIDADES

demétrio magnoli
A FOTO DA GUERRA
Cinquenta anos atrás, em 8 de junho de 1972, aviões sul-vietnamitas bombardearam o povoado de Trang Bang, não muito distante de Saigon, que havia sido ocupado por forças do Vietnã do Norte. Usaram napalm, um composto incendiário lançado pela aviação dos EUA contra cidades japonesas na 2ª Guerra Mundial.

Nick Ut, um fotojornalista vietnamita-estadunidense da AP, capturou com sua Leica a foto que definiria a Guerra do Vietnã. Nela, em meio a um grupo de crianças que fugiam aterrorizadas por uma estrada, estava Kim Phuc, 9 anos, a pele em brasa descolando-se de seu corpo.

Na verdade, muitas fotos definiram a tragédia nas selvas da Indochina. Malcolm Browne imortalizou o monge que ateou fogo em si mesmo numa rua de Saigon, em 1963, em protesto contra a perseguição aos budistas. Marc Riboud eternizou a imagem da jovem Jan Rose, uma flor nas mãos, diante das tropas da Guarda Nacional, protestando em frente ao Pentágono, em 1967.

1968, ano da morte. O fotógrafo militar Ronald Haeberle fixou a cena dos corpos de crianças e mulheres assassinados por tropas americanas no massacre de My Lai, em março.

As fotos da chacina de indefesos camponeses em My Lai
estarreceram o mundo, ajudando a tirar os EUA do Vietnã.
Art Greenspon congelou a cena pungente de soldados americanos recuperando companheiros feridos numa trilha de mata.

Eddie Adams captou o momento em que o chefe de polícia de Saigon atirou a sangue frio na cabeça de um suspeito rendido. 

Fim da linha: em 1975, Hubert Van Es perenizou a desesperada evacuação por helicópteros da embaixada americana no Vietnã do Sul.

O fotógrafo Nick Ut salvou a vida da garota Phuc e ganhou o Pulitzer pela imagem icônica. A foto quase parou no filtro da AP, que vetava nus frontais; foi objeto da suspeita de Richard Nixon, que desconfiava de manipulação; e sofreu breve censura de Mark Zuckerberg, que a suprimiu do Facebook num dia de 2016. Mas, no rastro de tantas outras, serviu para parar a guerra, como queria o fotojornalista.

Jane Fonda visitou Hanoi em 1972 e deixou-se fotografar numa bateria anti-aérea, ao lado de soldados norte-vietnamitas. A imagem, captada por um fotógrafo militar anônimo, correu o mundo e a metamorfoseou de Barbarella em Hanoi Jane.

As forças dos EUA venceram praticamente todas as batalhas travadas na Indochina. Perderam a guerra no front interno, sob a ofensiva devastadora das manifestações pacifistas. A primeira guerra da era da informação evidenciou os limites postos pela imprensa livre às democracias marciais.

Os EUA extraíram duas conclusões principais da Indochina. No Guerra do Golfo (1991), soldados profissionais tomaram o lugar do exército de conscritos. Na invasão do Iraque (2003), os jornalistas foram embutidos na redoma supervisionada das unidades militares. Muitos reduziram-se à condição de mascotes dos militares, na precisa descrição de Gay Talese.

Chefe de polícia de Saigon executando prisioneiro
era da informação inaugurou, também, uma fase de renovado controle estatal sobre o fluxo de informações. Aí reside uma vantagem decisiva dos regimes autoritários, na hora da guerra. 

A Rússia praticou massacres indiscriminados de civis em Grozny, na Chechência (1999-2000) e em Alepo, na Síria (2016), antes de infligir bombardeios devastadores sobre cidades ucranianas, na invasão em curso. 

Nesses lugares de matança, não havia fotojornalistas. A extensão das tragédias só ficou estabelecida depois, por meio de investigações baseadas em imagens de satélites.

O New York Times documentou, a posteriori, com base nesse recurso e em vídeos precários obtidos por celulares, as atrocidades cometidas em Bucha (Ucrânia). Mas o impacto desse tipo de notícia não se compara às fotos publicadas quase em tempo real da Guerra do Vietnã.

Faltam os rostos, as expressões, a escala humana. Há ciência e técnica, não uma experiência compartilhada de horror. Os cínicos discursos de justificação de uma guerra criminosa amparam-se no exílio forçado dos fotógrafos. (por Demétrio Magnoli)

sábado, 30 de abril de 2022

DEMÉTRIO MAGNOLI QUALIFICA LEONARDO BOFF DE "PACIFISTA DE ARAQUE"

demétrio magnoli
PACIFISMOS
"Paz para a nossa época" –as palavras de Chamberlain, ao retornar da Conferência de Munique, ecoam até hoje como um signo de vergonha. 
O primeiro-ministro britânico praticava o apaziguamento, utilizando-se da linguagem do pacifismo. 

Diante da guerra de agressão russa na Ucrânia, o discurso pacifista está de volta. Como em 1938, seus mais destacados arautos não querem a paz, mas um desfecho específico da guerra.

Chamberlain não era um pacifista. O apaziguamento, estimulado pela parcela da elite britânica simpática a Hitler, sintetizava um desastrado cálculo estratégico: direcionar as forças alemãs para um confronto mutuamente destruidor com os soviéticos. 

Os pacifistas aplaudiram a entrega dos Sudetos tchecos, que exibiam como um preço de liquidação para obter a paz universal. "Chamberlain fez a coisa certa em Munique", declarou Bernard Shaw, a figura icônica do pacifismo.

"Se Zelenski tivesse dito há tempos que não iria entrar na Otan, teria evitado a guerra", tuitou o teólogo Leonardo Boff. 

Os fatos desmentiram, de imediato, a profecia contrafactual do piedoso humanista. Na segunda semana da guerra, Zelenski aceitou trocar a paz por um estatuto de neutralidade geopolítica da Ucrânia –mas a Rússia rejeitou a oferta, exigindo a transferência da Crimeia, do Donbass e do sul ucranianos à sua soberania.

Putin deflagrou uma guerra de conquista alegando que a Ucrânia não passa de uma extensão da Rússia. 
Boff está de acordo com o conceito que sustenta a invasão. No seu tuíte, a frase estende-se do seguinte modo: "...a guerra e a carnificina que os russos estão fazendo, destruindo uma parte de si mesmos, pois Ucrânia e Rússia foram sempre uma só terra".

Shaw não era apenas um pacifista célebre, mas também –algo geralmente esquecido– um admirador de Hitler, Stalin e Mussolini. 

Na quarta semana da guerra, Boff transitou da exigência inicial de neutralidade ucraniana para uma posição mais realista, que replica os objetivos de Putin: 
"Me pergunto se tem sentido Zelenski sacrificar todo um povo numa guerra que sabe não poder ganhar. Para poupar seu povo caberia, não uma rendição, mas uma negociação mesmo com concessões". 
Assim, de passagem, Boff conta-nos que não é Putin, mas Zelenski, que sacrifica todo um povo.

Putin imaginou que, por não ser uma nação legítima, a Ucrânia capitularia sem luta. Viu, no lugar disso, uma nação inteira se levantar contra o poderoso invasor. 

Na sua infinita bondade, Boff solicita a Zelenski que faça a vontade de Moscou, entregando-lhe vastos territórios –e, com eles, as populações que os habitam. Seu pacifismo, como o de tantos outros, é uma encenação destinada a divulgar os pretextos e as narrativas do chefe do Kremlin.
"Shaw não era apenas um pacifista célebre, mas
também um admirador de Hitler, Stalin e Mussolini"

Diante da decisão dos EUA, junto com outros 42 países, de fornecer armas pesadas à Ucrânia, o ministro do Exterior russo, Sergei Lavrov, passou a acusar a Otan de promover uma guerra por procuração contra a Rússia. 

Os pacifistas de araque repetem, sílaba por sílaba, as cínicas sentenças de Lavrov. De fato, ignoram a Carta da ONU, que condena a guerra de conquista e avaliza o direito à autodefesa coletiva –ou seja, o direito de nações não beligerantes de contribuir para o esforço de guerra de um país invadido.

Na Ucrânia, mais que o destino de uma nação soberana, joga-se o futuro da ordem mundial edificada em 1945 pelas potências vencedoras da 2ª Guerra Mundial, inclusive a URSS. Um triunfo em terras ucranianas impulsionaria Putin a prosseguir sua escalada de guerras imperiais na Moldávia e nos países bálticos, sob o álibi de proteger os russos do exterior

Segundo a lógica de Boff, em nome da paz, cada uma dessas nações deveria desistir da soberania e de suas fronteiras internacionalmente reconhecidas. O pacifismo do nosso Shaw, como o do Shaw original, é propaganda de guerra. (por Demétrio Magnoli)

sábado, 19 de março de 2022

PARA OS FILHOS DE MARX, OS FILHOS DE PUTIN NADA MAIS SÃO DO QUE FILHOS D...

demétrio magnoli
TOMOGRAFIA DO DISCURSO PUTÍNICO
Os papagaios brasileiros de Putin, alvoroçados antes da invasão, calaram-se depois que as forças russas, incapazes de alcançar seus objetivos militares, engajaram-se no vandalismo, bombardeando os edifícios residenciais, hospitais e abrigos de civis. 

Contudo, a algazarra retornará no minuto seguinte à eventual cessação de hostilidades. Vai aí, então, uma descrição das vertentes principais do discurso putínico de justificação da guerra de agressão.​
1. "A Rússia nasceu em Kiev –e, portanto, a Ucrânia não é uma nação legítima, mas um fragmento da Mãe Rússia"O argumento do Putin historiador, extraído dos anais clássicos do chauvinismo grão-russo, caberia na voz de um czar. Por aqui, circula livremente entre professores universitários.

De fato, Ucrânia e Rússia nasceram juntas. No plano puramente lógico, seria possível virar o argumento putínico ao avesso para postular que a Rússia não passa de uma extensão da Mãe Ucrânia
Curioso –e um tanto melancólico– é constatar que os acadêmicos dispostos a ecoar a falácia histórica putínica rejeitam, corretamente, a justificação bíblica para o controle de Israel sobre o conjunto da Terra Santa.
2"A operação militar especial russa destina-se a desnazificar a Ucrânia"A lenda de uma Ucrânia submetida à hegemonia nazista, verdade oficial russa, ganhou tração nas redes sociais e, sob formas disfarçadas, na imprensa brasileira. O argumento sustenta-se, apenas, nas muletas da ignorância.

A Ucrânia tem um sistema político plural, competitivo, com eleições livres. O partido da direita ultranacionalista Svoboda obteve 2% dos votos e uma solitária cadeira parlamentar nas eleições ucranianas. 

Há quase 20 anos, o Svoboda expulsou os grupelhos neonazistas que o frequentavam. Uma facção minoritária neonazista participa da milícia Batalhão Azov, que apoiou a campanha eleitoral do Svoboda.

Os papagaios de Putin, que procuram com lupa neonazistas ucranianos, praticam o duplipensar. Eles jamais se recordam de que diversos partidos da extrema-direita europeia bebem na fonte (às vezes, nas finanças) do chefe do Kremlin.
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"A Rússia defende a sua segurança nacional, evitando a adesão da Ucrânia à Otan"O argumento da moda, disseminado tanto pela esquerda petista quanto pela direita bolsonarista, tem a finalidade de desviar a responsabilidade pela guerra ao imperialismo americano ou ao globalismo liberal.

A expansão da Otan merece exame crítico, que precisaria abranger o abandono ocidental do governo reformista russo de Yeltsin, no início da década de 1990. Mas não se pode atribuir a ela a agressão russa, pois a pretensão ucraniana de integrar a Otan foi congelada desde 2014.

Mais: a Otan comprometeu-se com a Rússia, em 1997, a não deslocar forças significativas ou armas nucleares ao território de seus novos integrantes. A obrigação foi honrada. Inexistia o risco, alegado por Lula, de estabelecimento de bases militares americanas na Ucrânia.

A barbárie desencadeada na Ucrânia desmoralizou os discursos putínicos explícitos, gerando duas novas variantes, menos letais mas muito mais infecciosas. A primeira inspira-se no pacifismo; a segunda, no identitarismo.

De acordo com a variante pacifista"não há mocinhos, nem bandidos", uma profunda conclusão filosófica compartilhada por Guilherme Boulos e Marcos Feliciano. É o truque típico, grosseiro, para borrar a fronteira entre agressor e vítima.
Já a variante
identitária enxerga, na indignação diante das colunas de refugiados, uma suposta hipocrisia ocidental"Tudo isso apenas porque são europeus e brancos", acusam. 

Os sacerdotes identitários, figuras abundantes nas páginas da Folha de S. Paulo, apostam suas fichas no colapso da memória histórica: a Guerra do Vietnã começou a acabar quando emergiram as imagens dos bombardeios de napalm sobre aldeias vietnamitas. (por Demétrio Magnoli)

sábado, 12 de março de 2022

PUTIN REVIVEU A OTAN E NOS LEVOU DE VOLTA AO DETESTÁVEL MUNDO VELHO

A Otan ampliada era só um tigre de papel, mas
serviu como pretexto para a invasão da Ucrânia

  
demétrio magnoli
TIGRE DE PAPEL
O mapa da expansão da Otan pipocou em todos os lugares, geralmente por iniciativa dos papagaios de Putin, engajados na justificação da agressão à Ucrânia. 

No papel, impressiona: desde 1999, a aliança ocidental recebeu a adesão de 14 países, entre ex-integrantes do bloco soviético e as três antigas repúblicas soviéticas do Báltico.

De fato, porém, a Otan ampliada é, como diria Mao Tsé-tung, um tigre de papel.

Putin tem razão ao alegar que as promessas feitas à URSS em 1990 não foram honradas. Na hora da reunificação alemã, líderes estadunidenses, britânicos e alemães asseguraram a Gorbachev que, com exceção da Alemanha Oriental que desaparecia, a Otan não avançaria nenhum milímetro rumo a leste.

Eram firmes garantias verbais, embora nunca vertidas em tratados. Mas, depois das guerras na Iugoslávia, os EUA mudaram de ideia, em parte devido à pressão dos países do antigo bloco soviético que almejavam a auréola de segurança oferecida pela aliança militar.

À frente de uma Rússia cambaleante, Boris Yeltsin cedeu. Por meio do tratado de cooperação Otan-Rússia, de 1997, a aliança encetou sua expansão. Foi um erro histórico do Ocidente, mas apenas a conclusão do equívoco maior, anterior, de abandonar o governo russo reformista à própria sorte, rejeitando a ideia de um resgate econômico nos moldes do Plano Marshall.
Um forte trunfo do Putin é a falta que o gás
natural russo fará à Europa nos meses frios

Putin nasceu no berço moldado pelo duplo engano. Mas o mapa ilude. Mao qualificou a bomba atômica dos EUA como tigre de papel e, em 1956, usou a mesma alcunha para ironizar o imperialismo estadunidense. A Otan ampliada merece mais o epíteto.

A Alemanha é, junto com a URSS, o motivo que levou à criação da Otan, em 1949. Contudo, nos 40 anos que transcorreram desde a reunificação, as forças armadas alemãs sofreram uma miniaturização:
— dos 310 mil soldados, sobram 180 mil;
— dos 4,7 mil tanques, restam 300; 
— dos 390 aviões de guerra, 230; 
— dos 130 navios, 60; 
— submarinos? Eram 18; agora são seis.

O orçamento de defesa alemão desabou de US$ 60 bilhões em 1990 para US$ 34 bi em 2005 e só voltou a crescer nominalmente após a anexação russa da Crimeia, em 2014, alcançando US$ 52 bi em 2020. Mesmo assim, no período inteiro, retrocedeu de 2,6% do PIB para 1,3%. A tendência repete-se nos demais países europeus da Otan.

Na França, os dispêndios militares passaram de 2,8% do PIB em 1990 para menos de 1,9% em 2019. No Reino Unido, de 3,6% para 1,7%. O componente europeu da Otan é hoje mais vasto territorialmente,  contudo mais fraco militarmente.

O tratado Otan-Rússia proibiu o deslocamento de forças militares significativas para os novos integrantes da aliança. Isso foi honrado. 

A segurança dos 14 países incorporados repousa não sobre tropas ou equipamentos bélicos, mas na linha imaginária traçada pelo artigo 5º da carta da aliança ocidental, que garante a defesa mútua (leia-se: a defesa providenciada pelos EUA) em caso de agressão externa. A expansão representou, sobretudo, um gesto político.
Ao aproximar-se de Putin, o Bozo não tinha a menor noção
de como o conflito ucraniano dificultaria a sua reeleição  
 
Putin utilizou o tema da Otan como pretexto para a agressão –e seu álibi passou a ser repetido por incontáveis analistas simpáticos. 

Espertos, eles não dizem que a hipótese de ingresso da Ucrânia na Otan foi congelada desde o ataque russo de 2014, concluído pela anexação da Crimeia e pelo estabelecimento dos enclaves separatistas do Donbass. 

Nem que nada mudou daquele momento até a invasão russa em curso.

Entretanto, quando incendeia um país independente inteiro, o chefe do Kremlin insufla vida numa Otan que, nas palavras de Macron, vegetava em morte cerebral

A Alemanha reverteu em três dias uma política externa de 30 anos. Os países europeus anunciam escaladas de gastos militares para bem além dos 2% do PIB, a meta almejada pela Otan mas não atingida desde o fim da guerra fria

O tigre de papel experimenta uma metamorfose, recuperando carne, osso e músculos. (por Demétrio Magnoli)
"O imperialismo impõe sua lei em todo lugar/ A revolução não é um
jantar/ A bomba atômica é um tigre de papel/ As massas são os heróis
verdadeiros" (tema do filme A Chinesa, de Jean-Luc Godard, 1967)
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