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quarta-feira, 24 de novembro de 2021

SÓ FALTA O LULA IMITAR O QUE ROOSEVELT DISSE SOBRE SOMOZA: "ORTEGA É UM FILHO DA PUTA, MAS É NOSSO FILHO DA PUTA".

 raphael tsavkko garcia
AO APOIAR DITADURAS DO LADO CERTO,
 A ESQUERDA FORTALECE BOLSONARO
Somoza, também nicaraguense, exerceu o poder de
fato por 20 anos. Ortega enfileira mandatos desde 2007


C
ada vez mais, a denúncia do autoritarismo bolsonarista perde sentido e força. 

Não porque tenha deixado de ser um fator preocupante e uma ameaça à democracia brasileira, mas tão somente porque seu principal adversário, o ex-presidente Lula, não é exatamente um exemplo de defesa coerente da democracia e dos direitos humanos.

Como sustentar uma oposição vigorosa à barbárie bolsonarista sem dar voz à hipocrisia? Ao arrepio da ciência política, Lula voltou à carga, comparando Daniel Ortega, ditador da Nicarágua, com a premier alemã Angela Merkel. "Por que a Merkel pode ficar 16 anos no poder e Ortega não?", perguntou. 

Como denunciar visitas de Bolsonaro a países ditatoriais ou a simpatia nem um pouco disfarçada do presidente por ditaduras quando, após eleições forjadas na Nicarágua – em que opositores foram presos e observadores internacionais impedidos de participar –, o Partido dos Trabalhadores oficialmente elogia o "processo eleitoral" e saúda o vencedor, o protótipo de ditador Daniel Ortega? 

Os direitos humanos estão longe de serem a principal pauta do eleitor brasileiro, mas, quando se fala em impeachment e em processos contra Bolsonaro por crimes contra a humanidade e genocídio, é difícil – para não dizer impossível – esquecer-se de que o PT, seu principal antagonista, também não tem nos direitos humanos uma bandeira. Ao menos não além do discurso. 

Essas pautas só são importantes quando linhas são cruzadas pelos adversários? Como acusar Bolsonaro de genocídio ou crimes contra a humanidade – e, de fato, Bolsonaro cometeu tais crimes – pela forma como lidou com a pandemia quando se aplaude Nicolás Maduro, ditador da Venezuela, que defendia "remédios alternativos" como forma de vencer a covid-19? 

Como é possível condenar Bolsonaro por discursos antidemocráticos quando lideranças e figuras destacadas do PT defendem aberta repressão contra manifestantes pró-democracia em Cuba? 

Se os conflitos de Bolsonaro com a China simbolizam, em definitivo, o seu amadorismo em política externa, ao mesmo tempo, os elogios da ex-presidente Dilma à China, nas palavras dela, uma "luz contra a decadência ocidental", são igualmente condenáveis. 

Sob a desculpa de "autodeterminação dos povos", de "soberania", de "anti-imperialismo", vemos defesas escancaradas de ditaduras sanguinárias. Até mesmo os ativistas pró-democracia de Hong Kong foram acusados de "fascismo", tendo em vista o imperativo infantil de um alinhamento automático com a China. 

Por mais que, repito, direitos humanos não sejam exatamente a pauta mais importante para o eleitor brasileiro, o discurso hipócrita é notado e sentido. Não precisamos ir ao exterior para coletar exemplos de como, no poder, a esquerda flertou com abusos de direitos humanos. Belo Monte, ataques a indígenas e ocupação militar de favelas são alguns deles. 

Sim, é verdade que Bolsonaro segue tendo uma ficha corrida (bem) mais problemática, mas isso não desculpa os malfeitos anteriores, apenas reforça a necessidade de uma oposição para a qual os direitos humanos estejam além da retórica. 

Nada disso significa, reafirmo, que Bolsonaro não seja, no cômputo geral, o pior dos mundos. Mas o fato é que a frouxidão e a hipocrisia da esquerda – em particular dos petistas – acaba fortalecendo o presidente no diálogo junto a eleitores ou potenciais eleitores. 

Bolsonaro em momento algum esconde seu desprezo pelos direitos humanos, seu autoritarismo, suas fantasias golpistas. Ele pode ser acusado de muitas coisas, mas, à diferença do PT, não de hipocrisia no campo dos valores. 

Mesmo após três anos no poder (e após décadas na Câmara dos Deputados), Bolsonaro segue se posicionando como outsider, "contra a política tradicional", e a persistência desse discurso se deve, em parte, às contradições da oposição. 

Acima de tudo, o fato de os dois principais líderes políticos do Brasil atual defenderem, abertamente, ditaduras e regimes autoritários diz muito sobre a política brasileira e a incapacidade da direita e da esquerda para se reinventar e, efetivamente, defender valores sociais, cidadania e direitos humanos sem meias palavras ou vírgulas. (por Raphael Tsavkko Garcia, jornalista e doutor em direitos humanos pela Universidade de Deusto)

sábado, 11 de agosto de 2018

SE AS PROPOSTAS DOS PRESIDENCIÁVEIS FOREM PRA VALER, O ITAMARATY SOFRERÁ UMA INVASÃO BÁRBARA EM 2019...

patrícia campos mello
A MARAVILHOSA POLÍTICA EXTERNA
DO ALCKMIN, DO BOLSONARO E DO PT
A senadora Ana Amélia (PP), candidata a vice na chapa do tucano Geraldo Alckmin, acha que tudo bem o governo brasileiro fechar os olhos para a mania da Rússia de sair envenenando as pessoas com armas químicas, desde que o Brasil fature alguns milhões de dólares por não condenar o Kremlin. 

“Quando houve aquele episódio na Inglaterra do envenenamento do russo (Serguei Skripal, que foi envenenado junto com a filha com Novichok), vários países, a começar pela Inglaterra, impuseram sanções à Rússia, sanções de natureza econômica. O Brasil não fez nada, não teve nenhum gesto e a Rússia mantém o embargo à carne suína brasileira”, disse a senadora em entrevista à Reuters nesta semana. O mercado russo está fechado para a carne suína brasileira há oito meses.

“O Brasil deveria aproveitar esse episódio e dizer: olha, a negociação comercial, a relação comercial com a relação político-diplomática estão caminhando juntas. Nós não fizemos nenhuma ação de represália ou de sanção então deem um gesto de boa vontade, para abrir a porta para a carne suína brasileira que continua sob embargo. Eu tenho essa visão, eu acho que esse é o pragmatismo comercial, uma visão na área da relação comercial bastante clara.”
"Nada como uma política externa pragmática, certo?"

Nada como uma política externa pragmática, certo?

Depende. Exatos oito anos atrás, o então chanceler, Celso Amorim, foi duramente criticado por tucanos ao justificar a visita do ex-presidente Lula à Guiné Equatorial, governada há quase quarenta anos pelo ditador Teodoro Obiang. 

“Negócios são negócios” disse Amorim, e chamou de “pregação moralista” as menções às violações dos direitos humanos cometidas pelo ditador.

Não há muita diferença entre Obiang e Putin, um autocrata no poder desde 1999, cujas violações de direitos humanos na Rússia são amplamente divulgadas.

Ana Amélia vem apimentar o chuchu insosso de seu parceiro de chapa —vale lembrar que a senadora foi aquela que equiparou a rede de TV Al Jazeera, do governo do Qatar, à facção terrorista Estado Islâmico.

Política externa certamente não está entre as prioridades do eleitor brasileiro (ou de qualquer país, na realidade). Mas o tema sempre revela muito sobre a personalidade –e ignorância— dos candidatos a presidente e seus vices.

O candidato Jair Bolsonaro (PSL) copia sua plataforma de política externa do americano Donald Trump. Bolsonaro já disse que, caso eleito, vai tirar o Brasil do Acordo do Clima de Paris, tal como seu vizinho do norte.
A insanidade de um réprobo da civilização...
Não vou nem entrar no mérito sobre a diferença do Brasil, um dos países mais bem equipados para enfrentar o desafio do aquecimento global, e dos EUA, e quanto o Brasil teria a ganhar se abraçasse com mais ênfase –e não abandonasse– a negociação climática.

Bolsonaro também declarou que vai transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Com isso, o Brasil se uniria à multidão de quatro países –Estados Unidos, Honduras, Guatemala e Paraguai– que mudaram sua embaixada e irritaram profundamente nações árabes, além de minar as já combalidas negociações entre israelenses e palestinos. 

Mas, afinal, para Bolsonaro, “Palestina não é um país, então não deveria existir uma embaixada aqui”, disse ele, referindo-se a sua intenção de fechar a embaixada da Palestina em Brasília.

As sandices internacionais não são monopólio da direita.

O PT e o PC do B continuam apoiando de forma incondicional a ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela e a de Daniel Ortega na Nicarágua.

Em nota após as eleições de 20 de maio, os partidos celebram a “retumbante vitória política e eleitoral do presidente Nicolás Maduro”, que seria uma “expressão da vitalidade do sistema eleitoral democrático venezuelano e dos sólidos laços do governo com o povo.”
...obviamente seria macaqueada por outro obtuso.

Eleições livres que vetaram partidos, prenderam candidatos, reagiram a manifestações com bombas. Sem falar das fake news. “A transparência e os mecanismos de verificação [das eleições venezuelanas] são reconhecidos por personalidades como o ex-presidente americano Jimmy Carter”, diz o comunicado do Foro de São Paulo, com apoio do PT. 

Faz muitos anos que o Carter Center não reconhece eleições venezuelanas. “A eleição da Assembleia Nacional Constituinte (no ano passado) se deu com a completa inexistência de integridade eleitoral, representa sérios problemas de legitimidade e legalidade. As medidas adotadas pelo governo para cercear a liberdade de expressão e o direito a manifestações pacíficas vão contra os valores democráticos”, foi o comunicado do Carter Center.

Em relação à Nicarágua, onde morreram mais de 300 pessoas em protestos nos últimos meses, o PT lamentou “profundamente as mortes e eventuais violações de direitos humanos ocorridas". Eventuais... 
(por Patrícia Campos Mello, ex-correspondente da Folha de S. Paulo nos
EUA e ganhadora do prêmio internacional de jornalismo Rei da Espanha)

sábado, 28 de julho de 2018

QUEM SE PROPÕE A GOVERNAR O ESTADO BURGUÊS EM BENEFÍCIO DO POVO, OU É INGÊNUO OU MAL INTENCIONADO...

dalton rosado
O PODER POLÍTICO SOB O CAPITAL
Nada é mais negativamente impositivo do que a lógica do capital sobre as ações do poder político de Estado, esse último seu servo obediente e fiel.   

Qualquer governante com sensibilidade social inabalável e conhecendo a dinâmica da mediação social sob a forma-valor (dinheiro e mercadorias) compreenderá que é impossível continuar o exercício do poder político sob o capital em substancial benefício social sem deixá-lo, e voltando-se contra ele próprio, e passando a combatê-lo. 

A outra opção, própria a quem antes combatia o capital e agora se aferra aos encantos do poder político capitalista privado ou estatal (sendo laçado pela gravata, como diria o Tom Zé) é negar todos os postulados pró-povo que antes defendera. 

Essa foi a conclusão a que cheguei quando exerci função pública estatal de comando e pude constatar a incoerência do exercício do poder político sob o capital por alguém com sensibilidade para o drama social vivido pelos trabalhadores assalariados de renda média e baixa (a grande maioria) e que seja conhecedor da crítica da economia política marxiana.

O barro que molda a gestão política de Estado numa sociedade mediada sob a forma-valor não dá liga com a razão emancipacionista. São matérias comportamentais incompatíveis, e a razão desta incompatibilidade reside no caráter fetichista da forma-mercadoria.

Ora, a forma-mercadoria tem uma dinâmica própria de reprodução do valor que é, antes de tudo, segregacionista e cumulativa, na medida em que o valor, para existir, necessita de retenção constante e crescente, sem a qual ele perece irremediavelmente. 
Esta é uma prova do caráter meramente abstrato da forma-valor, ademais insensível à questão social, da qual faz mero uso utilitário. O valor econômico é um fantasma que se torna real, inebria e mata.

O processo de acumulação constante do capital implica um fim autotélico interminável no qual, quanto mais se acumula, mais se necessita acumular, deixando para as calendas gregas a ideia de sua distribuição, ainda que uma determinada fatia do bolo beneficie quem o administra (capitalistas privados ou estatais) e alguns beneficiários indiretos (a chamada aristocracia operária, burocratas de alto escalão do poder do Estado e alguns profissionais de nível superior). 

Tal processo dura somente até o momento em que a concorrência mundial de mercado impõe a redução de custos de produção mediante a dispensa do trabalho abstrato produtor de valor pela via da tecnologia aplicada à produção, bem como promove a concentração de riqueza daí derivada, tornando-se cada vez mais elitista.  

Por sua vez o Estado, cujo acesso se dá pela via política, tem limitações econômico-administrativas cada vez mais acentuadas, decorrentes do alto custo da máquina institucional (salários, gastos militares e manutenção), além dos investimentos na conservação e criação de obras públicas de infraestrutura para o funcionamento da vida mercantil, pagamento dos juros da dívida pública e, atualmente, do complemento financeiro do déficit previdenciário.

Torna-se quase impossível o atendimento das demandas sociais, até porque, além dos custos da máquina estatal acima referidos, existem as amarras constitucionais que impossibilitam o exercício pleno de uma administração pública compatível com os interesses maiores da coletividade. 

O Estado burguês, qualquer que seja a inclinação ideológica do governante, termina sempre por se evidenciar no longo prazo como um algoz do povo, mesmo que a propaganda e as ações populistas mascarem a verdadeira essência do poder. 

Quem se propõe a governar o Estado burguês em benefício do povo, ou é ingênuo e acaba sendo por ele governado; ou está, desde o início, mal intencionado.

É evidente que, nos países de economia desenvolvida (e que assim o são na inversa e inevitável proporção do empobrecimento dos demais países), o Estado pode proporcionar um relativo bem-estar social, criando a falsa expectativa de que todos possam ter o mesmo destino. 

A busca de imitação do chamado 1º mundo pelos países pobres corresponde a uma ilusão derivada da incompreensão da dinâmica do capital, segundo a qual, a cada ilha de riqueza, corresponde sempre um mar de pobreza. 

Por sua vez, também a busca do chamado desenvolvimento econômico dos países periféricos ao capitalismo corresponde a uma busca impossível de se realizar; algo assim como se querer que um time de futebol de várzea consiga tornar-se campeão do Brasileirão. 
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CONSEQUÊNCIAS DO APEGO AO ESTADO BURGUÊS — O que está acontecendo na Nicarágua, sob a presidência continuada de Daniel Ortega (o antigo líder da revolução sandinista que derrubou o ditador Anastácio Somoza), é o mesmo que aconteceu a Dilma Rousseff e tantos outros governantes da América Latina que, eleitos com um discurso de redenção dos seculares sofrimentos do povo, passaram a oprimi-lo.

Todos os governantes que se apegam ao poder, ainda que bem intencionados, terminam sempre por se ajustarem aos ditames do limite da governabilidade capitalista, negando bandeiras anteriormente defendidas por força da lógica capitalista lhes é imposta; ou terminam por fazer uma vergonhosa e inaceitável concessão de favores ao capital como forma de manutenção do poder, além de firmarem alianças políticas que garantam a governabilidade. 

O poder corrompe e a perpetuidade no poder corrompe muito mais, diz a oposição, mas apenas quando fora do poder. 

A ebulição da insatisfação popular contra Daniel Ortega explodiu sob a forma de repúdio à reforma da previdência social, que mais não é do que a restrição à concessão de direitos adquiridos. Mas, este foi apenas um ponto dentro da insatisfação generalizada que eclodiu socialmente.

Diante disto, e do apego ao poder, reproduz-se na Nicarágua (e noutros países latinos cujos governos são tidos como de esquerda) a repressão popular sangrenta que apenas denuncia como é mesquinho e manipulador das mentes humanas o exercício do poder político estatal burguês. É sempre bom lembrar que estão presentes e em pleno funcionamento na Nicarágua todas as categorias fundantes do capitalismo).

A questão que se coloca não é o combate à forma de poder ou a qualidade do seu exercício, mas a negação do próprio poder. O exercício do poder pró-povo é algo assim tão irrealizável como se querer a justa distribuição do dinheiro. Aliás, uma coisa está indissoluvelmente ligada à outra.

Não se pode distribuir o dinheiro de forma justa exatamente porque ele somente existe a partir de sua acumulação injusta e permanente. A questão que se coloca não é tentar distribui-lo de forma justa, mas superá-lo; esta é a forma eficaz de combatê-lo.
Querer um Estado pró-povo é querer que o próprio direito sob o qual se assenta toda a estrutura jurídica que dá legalidade à exploração do capital seja abolido; é querer inverter a sua natureza, ou seja, é querer que o pé de caju dê manga.   

Ora, se almejamos uma nova estrutura de vida social, a primeira coisa que devemos fazer é abolir o próprio Estado. Resultará sempre inútil a tentativa de bom exercício, estando ele como está subjugado ao poder econômico (que é o responsável último por nossas agruras). 

O Estado moderno, a política e o poder econômico são tão indissociáveis quanto elementos químicos que somente juntos formam um terceiro elemento. A falta de um deles pressupõe as suas extinções mútuas. 

Agora, no Brasil, vamos assistir nos próximos meses ao mais enfadonho discurso televisivo da governabilidade pró-povo, que corresponde a um estelionato eleitoral – a propaganda gratuita dos partidos políticos e dos seus candidatos.

Tal propaganda oficial, pretensamente apartidária, institucional, que se pretende voz da sociedade civil e que chama para o exercício do voto, vai nos ensinar que devemos avaliar os candidatos para vermos aquele que tem propostas governamentais exequíveis e confiáveis, como se fosse possível, tanto para a direita como para a esquerda, pela via político-eleitoral, determinar a soberania comportamental de uma lógica econômica previamente definida e que agora vive os seus estertores. 

Aviso aos navegantes: o próximo governo, seja qual for o seu matiz ideológico, vai ter de resolver o problema de déficit da previdência social, que no ano passado totalizou R$ 268,8 bilhões (e está aumentando em 2018), além dos juros da dívida pública, e não se aceita que se jogue o direito às pensões previdenciárias para além da expectativa de vida saudável.

Este é um exemplo significativo do que será governar nesse momento de debacle do capital. 

Diante disso, pergunta-se: por que alguém que diz almejar uma sociedade saudável e livre das injustiças se disporia a governar o ingovernável, remediar o irremediável e sofrer para salvar o capitalismo na sua fase de derrocada irreversível? 

Tal empreitada somente se justifica para aqueles que querem o poder para se locupletarem, darem azo às suas vaidades, ou, ainda, para os paus mandados do capital. 

Francamente, como diz o Celso Lungaretti, "não me engana que eu não gosto". (por Dalton Rosado).
"A gravata já me laçou/ A gravata já me enforcou/ Amém!"      

quinta-feira, 26 de julho de 2018

"SIGNIFICATIVA PARCELA DA ESQUERDA BRASILEIRA E LATINO-AMERICANA ADOTA COMPORTAMENTO DE SEITA RELIGIOSA"

clóvis rossi
NICARÁGUA, PT E BOLSONARO (trechos)
Há esquerdistas como Boff, que não seguem o rebanho...
O PT não tem qualificação moral para criticar Jair Bolsonaro por defender a ditadura e fazer apologia da tortura. Claro que ambas as atitudes são abjetas, mas todas as ditaduras o são e deveriam, pois, ser igualmente criticadas.

Não é o que o PT está fazendo em relação à Nicarágua: no encontro do Foro de São Paulo, conglomerado de partidos e organizações ditas de esquerda, líderes petistas apoiaram o governo de Daniel Ortega.

Lá estavam, entre outros e outras petistas menos votadas, a ex-presidente Dilma Rousseff e a presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann.

Apoiaram um autocrata que comanda um morticínio que já fez mais de 360 vítimas, que tortura indiscriminadamente, que sequestra e faz desaparecer quem se manifesta contra o regime —mesmos crimes que a ditadura brasileira também cometeu e que Bolsonaro defende.
...e há quem nos faça semelhantes aos zumbis de seitas religiosas

...E o PT, em vez de solidarizar-se com os jovens que estão à frente dos protestos, solidariza-se com quem persegue, sequestra e assassina seus próprios compatriotas, para citar Boff [cuja carta pode ser acessada aqui].

Boff só é referência para o PT quando visita Lula na prisão?

...[Eu] diria que significativa parcela da esquerda brasileira e latino-americana adota comportamento de seita religiosa, movida a dogmas que não ousa contestar.

Como criticar, então, a outra seita, a dos seguidores de Bolsomito? (por Clóvis Rossi)

LEONARDO BOFF LAVA NOSSAS ALMAS: É UM ESQUERDISTA QUE NÃO LAMBE AS BOTAS ENSANGUENTADAS DOS TIRANOS!

"Como presidente de honra de nosso Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, Rio, uno-me ao Centro Nicaraguense de Direitos Humanos que, com seu comunicado de apoio aos bispos, faz uma justa crítica ao governo que está perseguindo, sequestrando e assassinando seus próprios compatriotas. 

Repito as palavras do papa João Paulo II: não há guerra santa, nem guerra justa, nem guerra humanitária, porque toda guerra mata e ofende a Deus. O mesmo vale para quem comanda práticas semelhantes contra seu povo.

Estou perplexo pelo fato de que um governo que conduziu a libertação da Nicarágua possa imitar as práticas do antigo ditador. O poder não existe para impor-se a seu povo, mas sim para servi-lo com justiça e em paz.
A Nicarágua necessita do diálogo, mas, antes de tudo, necessita que as forças repressivas parem de matar, especialmente aos jovens. Isto é inaceitável. A Nicarágua necessita de paz e, de novo, paz."
(Leonardo Boff, teólogo, escritor e professor universitário)

quinta-feira, 19 de julho de 2018

"TALVEZ NADA SEJA MAIS EMBLEMÁTICO DO PESADELO EM QUE SE TRANSFORMARAM REVOLUÇÕES DE SONHO QUE A NICARÁGUA"

clóvis rossi
A REVOLUÇÃO TRAIU OS SONHOS
"...que triste ver que os sonhos que sonharam parcelas significativas dos jovens e não tão jovens latino-americanos tenham sido soterrados por ditaduras.

Talvez nada seja, hoje em dia, mais emblemático do pesadelo em que se transformaram revoluções de sonho —sonho de liberdade— que a Nicarágua.

Nesta 4ª feira (18), a Organização dos Estados Americanos discutia resolução de censura à repressão desatada pelo governo de Daniel Ortega e sua mulher, a vice Rosario Murillo, contra principalmente os estudantes rebelados. Repressão que, segundo organismos de direitos humanos, deixou ao menos 351 mortos em três meses de levante popular.
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A triste ironia é que, há 39 anos, a mesma OEA aprovou em junho resolução condenando o regime de Anastasio Somoza Debayle, o ditador de turno, e exigiu sua substituição imediata.

Um mês depois, Somoza caiu e assumiu Daniel Ortega, o líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional que comandava os muchachos, os jovens que usavam os cachecóis rubro-negros da Frente.

Nesta 5ª feira (19), comemoram-se precisamente 39 anos da vitória do sonho de liberdade que à época se sonhava.

Agora, no entanto, os muchachos estão do outro lado das barricadas, exigindo a saída do novo Somoza, como chamam Ortega, o traidor da revolução, que se aliou à fatia mais reacionária e corrupta da elite nicaraguense para tornar-se um tiranete.

Os muchachos agora se declaram em "desobediência estudantil acadêmica", como parte da rebelião contra o novo Somoza. Explicam que governo e autoridades acadêmicas são incapazes de "respeitar e salvaguardar nossa integridade física e mental, a liberdade de expressão, a autonomia universitária e, mais importante ainda, nosso direito de viver".

Agora, a igreja, parte da qual apoiara e ajudara os muchachos de cachecóis rubro-negros, apoia e ajuda os muchachos que marcham contra o governo sandinista e vestem a bandeira azul e branca da Nicarágua.

A Conferência Episcopal nicaraguense convocou um jejum para esta 6ª feira (20) de explícito conteúdo político. Será, dizem os bispos, "um ato de desagravo pelas profanações realizadas estes últimos meses contra Deus" (alusão óbvia à violência que o governo vem empregando contra manifestações em geral pacíficas).

É razoável supor que o jejum tende a ser o estopim para novas manifestações contra o governo e, por extensão, por novas profanações contra Deus (e contra as pessoas, principalmente os jovens).
Será mais uma oportunidade para saber se os muchachos têm o direito de sonhar e de viver o sonho de liberdade pelo qual seus pais e avós deram o sangue."(por Clóvis Rossi)

domingo, 13 de maio de 2018

O ATUAL NIILISMO SERÁ A CALMARIA QUE ANTECEDE A EBULIÇÃO?

Ao que se deve o atual niilismo, que permeia a postura dos brasileiros diante de tudo? 

A resposta a tal indagação pode desvendar os mistérios que resultam na apatia do comportamento social dos brasileiros neste ano eleitoral de 2018. 

O atual niilismo social se traduz numa descrença completa no que está posto e numa visão pessimista sobre o que virá; decorre de uma sucessão de governos de orientações políticas mais à direita, centro ou à esquerda, que se alternam no poder e terminam sempre por igualar-se nas suas práticas político-administrativas.

Nada mais keynesiano do que um governo neoliberal na crise econômica; nada mais neoliberal do que um governo keynesiano na ascensão capitalista. 

Sob a égide do capital os governantes, tais quais os surfistas, equilibram-se nas ondas, mas não têm a menor condição de modificar a intensidade e natureza destas mesmas ondas. Não governam, mas são governados por uma lógica ditatorial que lhes é subjacente e que os enquadra em posturas administrativas ou legislativas que pouca ou quase nenhuma diferenciação mostram no ato de governar ou legislar.
Por seu turno, o indivíduo social transformado em cidadão espoliado pelo sistema capitalista e pelo Estado, ente jurídico que ingenuamente acreditou ser seu protetor acima da forma de mediação social estabelecida (a produção de valor como forma de sustento individual e coletivo), sente que o que temos como estrutura social está absolutamente decomposto, mas não tem esperança e crença em algo que o substitua a contento.

Qualquer pesquisa de opinião pública que se faça no sentido de se apurar o conceito dos políticos indicará a completa decepção com relação a todos aqueles que os representam nos dois segmentos políticos, o administrativo e o legislativo. 

O processo eleitoral, como já escrevi noutros artigos, traduz-se na escolha pelo cidadão dentre aquilo que já lhe foi previamente escolhido. Recentemente, num programa da Globonews, causou risos e obteve a concordância dos jornalistas um comentário no sentido de que a eleição seria como um um restaurante no qual se pode escolher qualquer prato, desde que conste do cardápio. 

É graças a isto que o voto (no Brasil, obrigatório) é o exercício de legitimação pelo cidadão de um poder que lhe é estranho e opressor. Daí a Justiça Eleitoral gastar milhões de reais para incutir na cabeça de todos que o voto é um direito. 

Se um dia a reivindicação do voto para todos e com o mesmo peso representou um avanço diante do absolutismo feudal (no qual um monarca a quem se atribuía poderes divinais representava o Estado e a Lei acima de qualquer súdito), disto não decorre automaticamente que o processo eletivo democrático burguês seja verdadeiro aferidor da soberania da vontade popular, nem que ele resulte em benefícios para o povo. 

O processo político-eleitoral, qualquer que seja a estrutura política governamental, é corrupto e corruptivo até a medula.

Entretanto, é difícil para o cidadão comum achar a saída. 

Noutro dia, participando de uma conversa de um grupo heterogêneo de pessoas que haviam se reunido por acaso, e que não me conheciam ou ao meu passado, deparei-me com opiniões que devem grassar em muitos outros grupos de igual formação. 

Aqueles de pensamentos mais conservadores (e que pareciam ser a maioria do grupo) externavam a sua satisfação em atribuir o tradicional caos brasileiro, agora acentuado, ao desgoverno do PT e à corrupção; já aqueles de pensamentos mais à esquerda ( que pareciam estar em minoria) tentavam justificar o caos fazendo uma analogia aos governas militares e aos governos civis de Sarney, Color de Melo e FHC, que em nada melhoraram a vida do brasileiro comum, além de, ao mesmo tempo, apontarem as melhorias sociais sob os governos Lula e Dilma.

Eu, que permanecera calado observando o desenrolar daquela conversa cujo teor é hoje muito comum, não pude deixar de manifestar a minha opinião no sentido de que as duas vertentes de pensamento estavam equivocadas.

Afirmei que qualquer governante que venha a assumir a direção político-administrativa do país estava previamente submetido às intempéries atuais da economia que é quem governa, cabendo a estes apenas o seguinte:
a) administração acadêmica da condução da economia nas suas correntes neoliberal, keynesiana, ditatorial estatizante, teocrática, etc; 
b) administração da escassez de recursos; 
c) administração da impagável dívida pública e seus juros escorchantes;
d) administração do déficit previdenciário, cada vez maior por força do desemprego estrutural;
e) repressão caótica da violência urbana causada pela desestruturação social, fruto da baixa renda e do desemprego;  
f) implementação cada vez maior da cobrança de impostos a uma população exaurida, numa tentativa inglória de assegurar maior governabilidade. 

Diante de tal interferência, todos se voltaram contra meus argumentos, afirmando que, já que eu era contra tudo e contra todos, apontasse a saída.

Não queria eu aprofundar a discussão sobre tal tema num sábado de carnaval, pois isto envolveria uma avaliação mais complexa de todos os fatores históricos e atuais do desenvolvimento capitalista que agora encontrou a seu ponto de declínio irremediável. 

Minha reticencia em discutir ocorreu porque minha filha havia me pedido para evitar azedar o ambiente, não entrando em qualquer provocação nem levantando as minhas estranhas teses. 
Então, para encerrar o papo e poder fugir de uma discussão que se prenunciava acalorada e infrutífera (principalmente sob os efeitos etílicos), disse apenas que, para resolver o problema, teríamos de abolir o dinheiro. 

Diante do estupor de todos diante daquela assertiva que mais parecia uma heresia fora de cogitação, a reação grupal foi a de que eu estava a propor algo fora da realidade, impossível de se concretizar e, portanto, fora da discussão.

Assim, como um herege diante de crentes, pude me levantar e sair da roda para tomar uma caipirinha e comer uma pesada feijoada, mas bem mais leve do que as concepções preconcebidas e equivocadas das duas correntes que formavam a discussão que eu presenciara. 

O DECEPCIONANTE LEGADO DAS ADMINISTRAÇÕES DE ESQUERDA NA AMÉRICA LATINA – Nada é mais penoso quando se quer atingir um objetivo do que a falta de meios para tanto. 

É como se jogar um jogo de futebol com regras parciais que beneficie apenas um dos contendores, do tipo: 
a) qualquer falta cometida em qualquer lugar do campo seria pênalti para o mandante, enquanto que somente seria marcado pênalti para o visitante quando a falta fosse cometida dentro da pequena área; 
b) cada gol valeria por dois para o mandante, mas dois gols valeriam apenas um gol para o visitante; e assim por diante.   

Podemos adequar a metáfora acima à administração socialista de um país cuja mediação social seja feita a partir das categorias capitalistas.

O caso mais flagrante e atual da ingovernabilidade de um pais com norte socialista e mecanismos capitalistas de mediação social é a experiência da Venezuela. 

Trata-se hoje de um país ditatorial, militarizado, estatizante, pretensamente anticapitalista e anti-imperialista, mas que, contudo, baseia a sua vida social em critérios capitalistas. Ou seja, lá estão presentes todas as categorias capitalista fundantes, como o trabalho abstrato, o mercado, as mercadorias, o dinheiro (espécies do gênero forma-valor), e seus instrumentos de apoio como Estado e suas instituições, a política, etc. 
Ora, o principal comprador do petróleo Venezuelano eram os Estados Unidos, seu inimigo nº 1 declarado; e, como ocorre com todos os países exportadores de matéria-prima, as oscilações do preço do petróleo (sua mercadoria preponderante) no mercado determinam a capacidade financeira do governo e da economia como um todo. 

A Venezuela é um exemplo vivo do que estamos falando, e tem tudo para cair nos braços da capital liberal num futuro breve, provocando ainda mais a descrença em qualquer alternativa fora do capitalismo.  

A dependência de tudo e de todos à economia e seus dissabores, sem que aparentemente possamos dela nos livrar (para muitos viver fora da economia mercantil é como se querer viver sem tomar água, p. ex.), é a causa do niilismo atual. 

É como se, diante de impossibilidade de saída social coletiva, cada um tomasse a iniciativa de salvar a própria vida (cada um por si e Deus por todos...), inexistindo força gregária social capaz de unir todos os sentimentos de frustrações e alternativas sociais emancipatórias num movimento indestrutivelmente forte.
Por Dalton Rosado

Neste sentido, as administrações petistas e outras de igual teor na América latina (vide as medidas de governo adotadas na Nicarágua pelo outrora revolucionário sandinista e atual presidente Daniel Ortega) representaram um retrocesso na luta do povo por franquias sociais emancipacionistas. 

Mas tal niilismo não há de durar para sempre, podendo o marasmo se transformar em revolução verdadeiramente emancipacionista.
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