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sábado, 3 de setembro de 2022

REVÓLVER QUE NEGA FOGO FAZ LEMBRAR FACADA COM LÂMINA RETRÁTIL

"Cristina permanece viva porque, por algum motivo que ainda não foi confirmado, a arma com cinco balas não disparou mesmo com o
gatilho sendo puxado" (Alberto Fernández,  presidente da Argentina)
 

domingo, 27 de outubro de 2019

O FESTIVAL DE BESTEIRAS QUE ASSOLA A POLÍTICA EXTERNA DO NOSSO PAÍS

josias de souza
BRASIL OPERA NA
 ARGENTINA SEM BÚSSOLA
A pluralidade de interlocutores faz da diplomacia algo extremamente singular. A atividade é feita de tradição e princípios. Nela, a regra é sempre menos perigosa do que a improvisação. Sob Jair Bolsonaro, porém, subverteu-se até o mais trivial dos princípios. Foi para as cucuias o princípio da não intervenção em assuntos internos de outros países. 

Ao meter-se na disputa presidencial da Argentina, Bolsonaro conseguiu a proeza de se tornar inimigo de um presidente que as urnas ainda nem deram à luz. Isso pode ser péssimo para os negócios. 

Os argentinos irão à sorte do voto neste domingo. As pesquisas indicam que Mauricio Macri, o preferido de Bolsonaro, será derrotado por Alberto Fernández, que carrega Cristina Kirchner na vice. De acordo com o vaticínio do capitão, a Argentina vai virar uma nova Venezuela

Ainda que virasse uma sucursal do inferno, o governo brasileiro teria de dialogar com o capeta. Por uma razão singela: a Argentina é a terceira maior parceira comercial do Brasil. 

Em 2018, a soma de exportações e importações revela negócios de US$ 25,6 bilhões. As operações foram superavitárias para o Brasil em US$ 3,86 bilhões. Em 2017, o saldo positivo foi ainda maior: US$ 8,18 bilhões. 

Num cenário assim, a animosidade de Bolsonaro pode custar caro. O preço ficará ainda mais amargo se o prejuízo alcançar o acordo firmado entre Mercosul e União Europeia. 

O presidente brasileiro não decide quem os argentinos vão colocar na Casa Rosada. Cabe-lhe definir apenas a melhor estratégia para se relacionar com o eleito, seja quem for. 

O diabo é que, em matéria de política externa, Bolsonaro diz uma coisa e pratica o contrário. 

Diz promover relações internacionais sem viés ideológico. Na prática, idealizou com Macri um relacionamento do tipo Dilma-Kirchner ou Lula-Chávez. 

Em vez de aprender com os erros dos antecessores, Bolsonaro mimetiza-os. Sofre da mesma patologia: a soberba da infalibilidade. 

Quanto mais erra, mais Bolsonaro persiste na dissimulação. Nos Estados Unidos, declarou-se apaixonado por Donald Trump, agora às voltas com um pedido de impeachment. 

Em Israel, o capitão encostou sua imagem na figura do primeiro-ministro Benjamim Netanyahu, que comunicou há uma semana que não conseguirá formar um governo de coalizão, abrindo espaço para que o rival Benny Gantz o substitua no comando do país. 

Achegando-se a Trump, Bolsonaro inquietou a China, maior parceira comercial do Brasil. 

Aproximando-se de Netanyahu, irritou árabes e muçulmanos, grandes clientes do agronegócio brasileiro. 

Agora, percorre a Ásia e o Oriente Médio num esforço para reduzir danos, preservar negócios e atrair investimentos. 
Bolsonaro demora a perceber que, nas relações internacionais, o pragmatismo é melhor conselheiro do que o ódio o amor. Na diplomacia, nenhum sentimento deve estar acima do interesse nacional. 

Personalismo e ideologia são os dois caminhos mais curtos para o brejo. Sobretudo num instante em que o Itamaraty opera sem bússola. 

Nesse ambiente, não poderia haver pior solidão do que a companhia do chanceler Ernesto Araújo —ministro da cota do polemista Olavo de Carvalho. 

Não há o risco de dar certo. (por Josias de Souza)

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

GOVERNO OU MOSTRENGO IDEOLÓGICO? O PRESIDENTE TEM VIÉS DITATORIAL E O GURU ECONÔMICO É UM LIBERAL ANACRÔNICO – 2

(continuação deste post)
Mas, as medidas econômicas planejadas dentro do figurino liberal mercantilista mais ortodoxo do ministro da Economia Paulo Guedes, além das contradições ideológicas com o chefe do governo, esbarram também nas conjunturas econômicas endógenas e exógenas. 

O modelo econômico industrial brasileiro tem baixa produtividade de mercadorias, por fatores que adiante analisaremos, o que se soma ao quadro de recessão econômica mundial cíclica renitente (com breves e localizados espasmos de oxigenação, entremeados com depressões econômicas cada vez maiores e intensas, que nos atingem de morte). 

Isso explica as dificuldades de obtenção de resultados positivos a partir das premissas do ministro Paulo Guedes: elas estão previamente destinadas ao fracasso.

Não nos esqueçamos que, nos dois últimos trimestres, registramos PIB negativos (-0,3 e -0,13, respectivamente), entrando na chamada recessão técnica, enquanto crescia o número de brasileiros abaixo da linha da pobreza (hoje calculado em 13,2 milhões de pessoas).

Tudo indica que a tão esperada cavalaria (os países do G7) não vá aparecer na enésima hora para nos salvar dos ataques dos próprios fundamentos capitalistas em fase de saturação mundial. 

Pelo contrário, tal cavalaria é que já está precisando de socorro, e o Brasil será apenas visto pelas grandes (mas já combalidas) potências econômicas como uma nova colônia mercantil a ser saqueada. 

Que o digam os bancos internacionais, sempre divulgando balanços nos quais ostentam lucros estratosféricos, embora artificiais e assentados em moedas falsamente valorizadas e em ativos podres... 

São muitas as contradições endógenas e exógenas, bem como os impasses que nos impelem ao abandono da crença na velha política institucional, agora travestida de nova, como forma de superação dos nossos problemas econômico-sociais. 

Isso nos impõe a busca de alternativas fora da lógica da produção de mercadorias e que conflitam com o permanente choque da idiossincrasia do governo brasileiro e seus tão díspares quanto disparatados pensamentos, corporificados num eclético e conflitante elenco que inclui:
— militares estatistas; 
 economistas liberais; 
— fundamentalistas religiosos com suas visões pré-iluministas sobre direitos humanos e comportamentais; 
 profissionais antiecológicos, ligados ao agronegócio; 
 diplomata exotérico guiado por astrólogo de almanaque;
 ingerência familiar inoportuna (um corpo de ministros sem pasta) a carimbar, com o beneplácito governamental, quem é leal ou traidor das ideias anti-civilizatórias conhecidas e defendidas por tais príncipes deslumbrados com o poder;
 um ex-juiz de 1ª instância, que passou a ser impingido propagandisticamente como  super-herói de combate à corrupção e recebeu como prêmio por sua flagrante colaboração eleitoral o posto de ministro da Justiça, mas agora teve sua atuação como magistrado desmascarada (quebrou o decoro próprio à magistratura ao partidarizar os seus julgamentos e aparelhar membros do Ministério Público e da Polícia Federal nos processos criminais por ele presididos).

Tudo isso sob a batuta de um governante biruta, com alma de vereador e pretensões de estadista, a ponto de: 
— meter pateticamente o nariz nas decisões políticas dos países vizinhos e até nos de além-mar; 
— praticar o nepotismo mais descarado nas indicações para cargos estratégicos, chegando ao cúmulo de querer tornar seu inexperiente filho o embaixador brasileiro nos Estados Unidos; 
— proibir os seus assessores de pensar e emitir opiniões pessoais, sob pena de serem sumariamente demitidos com a pecha de desleais;
 fazer apologia de torturadores e assassinos de presos políticos indefesos, justificando seu viés totalitário com evocações extemporâneas do perigo vermelho (as bandeiras pretas dos anarquistas e emancipacionistas estão muito mais na moda!); 
 evidenciar, nas suas declarações e ações, submissão incondicional aos EUA e seu presidente destrumpelhado
 não ter o menor pejo em deixar transparecer o seu pensamento misógino, escravista e policialesco (seja agredindo a honra das mulheres; defendendo veladamente o trabalho infantil; elogiando as milícias e condecorando com título honorífico, por seu filho e discípulo, um dos seus membros hoje conhecidos; e defendendo a venda de armas sob o pretexto de sua comercialização controlada);

O conjunto da obra do ex-capitão (que nem o Exército aguentou manter nas suas fileiras!) o leva a já estar sendo considerado mundo afora como o mais perigoso governante anti-ecológico do planeta, jogando por terra os últimos vestígios de nossa outrora afamada boa vontade em assuntos ambientais, bem como da nossa cordialidade racial de país que a todos recebia indiscriminadamente. 

O discurso xenofóbico  dele contra a possível debandada de hermanos argentinos para o Rio Grande do Sul depois da previsível derrota eleitoral de Maurício Macri e o suposto caos econômico que a volta do kirchnerismo acarretaria, dá bem a ideia de como ele acha que deve tratar os eventuais imigrantes. Aliás, ele tem sido o maior cabo eleitoral contra seu amigo Macri, outro que deve estar se perguntando: Por que não te calas, Bolsonaro? 

O Brasil já tem uma realidade naturalmente difícil de ser administrada, justamente por causa de sua formação político-econômico-social colonial elitista e historicamente corrupta, defensora da permanência da mentalidade cartorial burocrática e com níveis de desigualdades sociais que assustam quantos aqui chegam e constatam a existência nababesca da fatia privilegiada da sua população (numericamente em declínio) e o profundo fosso social a separá-la da grande maioria. 

Não faz muito tempo que nosso país era qualificado, pejorativamente, de Belíndia, porque uma parte dele tinha padrões de vida social dignos de uma Bélgica e a outra parte, uma miséria comparável à da Índia. 

Hoje a comparação com o Brasil ofenderia, isto sim, aos indianos, pois a economia daquele país decolou, já sendo a sétima do mundo em Produto Interno Bruto Nominal (seu PIB vem crescendo, em média, 7% ao ano).

Daria para escrever um tratado sobre os problemas crônicos do Brasil, que não guarda similaridade com outros modelos mundiais; mesmo que tivéssemos um governo competente e probo, ditos problemas não poderiam ser resolvidos se mantidas as premissas pré-existentes. 

Precisamos de novos paradigmas, pois a questão não é de escolhermos os governantes certos, mas sim de não termos governante; de nos organizarmos horizontalmente do ponto de vista social; e de superarmos a lógica escravista da vida mercantil em ocas,o da qual somos particularmente vítimas.

Mas, analisemos pontualmente o resultado das contradições próprias ao nosso país e que se avolumam cada vez mais, como resultantes de um governo influenciado por pensamentos díspares entre seus ministros. 
Por Dalton Rosado
O resultado final é uma geleia geral amorfa, em que, tal como ocorre numa corda de caranguejos, todos se mexem e nenhum sai do lugar.

Partamos, pois, para o detalhamento de alguns desses aspectos. 
(continua neste post)

quarta-feira, 1 de maio de 2019

O MUNDO ESTÁ PRENHE DE REVOLUÇÕES – 6

(continuação deste post)
O governo brasileiro trombeteia que, se não aprovarmos a reforma da Previdência, corremos o risco de nos tornarmos um Argentina.  Tal afirmação demonstra o quanto as duas maiores locomotivas populacionais e da economia sul-americanas estão falidas.

As duas nações estão sendo governadas segundo o que há de mais liberal em termos de economia política mundial desde maio de 2016, quando Michel Temer se tornou o presidente do Brasil em exercício (Mauricio Macri, empossado em dezembro de 2015, o antecedeu). 

A consequência é que suas economias afundam no caos. Culpar os governos social-democratas de Cristina Kirchner e Dilma Rousseff após todo esse tempo já não serve como desculpa. 

Não é o caráter social-democrata ou liberal dos governos determina as melhoras sociais descuradas e declinantes na crise capitalista da terceira revolução industrial (a da microeletrônica), e muito menos são esses modelos políticos de governos capazes de promover a emancipação humana.

O que nos encaminharia para um novo patamar evolutivo seria justamente a busca contínua e perseverante da superação dos pressupostos fundados nas categorias capitalistas em processo de contradição que demonstra toda a irracionalidade autotélica da mediação social por elas promovida. 
"o PIB argentino apresenta queda renitente"

Sobre a Argentina, segundo país mais populoso da América do Sul, com cerca de 50 milhões de habitantes, dotado de riquezas materiais exuberantes e de um povo culto e acostumado a padrões de consumo historicamente superiores aos de seus vizinhos, escrevi, também no artigo (vide aqui) já referido, o seguinte: 
"...a Argentina encara uma inflação de 50% ao ano; taxa de desemprego de 10%; e sua moeda, o peso argentino, desvalorizado, vale cerca de 2,4% do dólar americano (1 USD=0.02,43 peso argentino); o Produto Interno Bruto apresenta queda renitente"
Os portenhos vivem crise cíclicas cada vez mais próximas. Sucedem-se governos e mais governos e a trajetória falimentar vai se repetindo.

O governo de Maurício Macri, democraticamente eleito e de inclinação conservadora, alinhado a tudo que representa o interesse da economia mundial, recorre ao Fundo Monetário Internacional para pedir socorro financeiro, que lhe impõe a ortodoxia do ajuste fiscal como forma de extirpar aquilo que considera como nexo causal do cancro econômico capaz de tudo corroer.

Já o quadro da Venezuela, nossa convulsionada vizinha do norte, é de uma economia em colapso.
Economia venezuelana decaiu à metade do que era em 2013

Tendo cerca de 35 milhões de habitantes, é detentora de grandes reservas de petróleo que a situariam entre os países potencialmente ricos; contudo, os venezuelanos amargam as idiossincrasias de um governo que se diz anticapitalista mas trabalha com os mecanismos capitalistas, sem se aperceber que o fetichismo da mercadoria a tudo submete destrutivamente.  

É lamentável ao extremo que o povo venezuelano sofra restrições alimentares em pleno século 21, quando o domínio do ser humano sobre o conhecimento cientifico-tecnológico deveria lhe proporcionar comodidades existenciais de alto nível. Entretanto, ao contrário do que poderia acontecer, o povo venezuelano talvez viva hoje em situação de pobreza alimentar superior àquela dos seus ancestrais indígenas. 

Brasil, Argentina e Venezuela e Colômbia, que totalizam pouco mais de 330 milhões de habitantes ou algo em torno de 80% da população sul-americana, estão às voltas com sérios problemas econômicos.

O Chile, apesar ou justamente por causa de sua reduzida população (cerca de 18 milhões de habitantes) apresenta tanto padrões de renda per capita elevado, como Índice de Desenvolvimento Humano alto, de 0,843, que o situa em 44º lugar no mundo. 
Imagens como esta voltaram a ser comuns na América do Sul

O Uruguai com seus pouco mais de 3,3 milhões de habitantes é outra exceção à regra de pobreza da América Latina.

Por sua vez Equador, Peru e Paraguai se situam na faixa dos países pobres, com renda per capita pouco acima de US$ 11.000; e bem pior está a Bolívia, com míseros US$ 3.030 de renda per capita. 

Vale notar, em termos políticos, o eterno pêndulo entre governos de esquerda e de direita, sendo que a tendência conservadora vem se alastrando nos últimos anos; o quadro é de acentuada insatisfação do eleitorado com os governos que se alternam no poder político estatal negando repetidamente as promessas eleitorais por estrita obediência à lógica do capital a que servem. 

A onda judiciária sul-americana de cruzada contra a corrupção tem viés hipócrita conservador na medida em que atribui os fracassos governamentais ao mau uso dos impostos por parte dos governantes, ainda que se saiba que o processo eleitoral é dominado pela influência do poder econômico que tudo corrompe e que vai continuar tendo influência nos investimentos governamentais como contrapartida eleitoral de gastos declarados ou não. 

Estatisticamente, podemos afirmar que as três regiões mais pobres do nosso planeta (Ásia, África e América Latina, que totalizam cerca de 85% da população mundial), têm 80% de suas populações vivendo majoritariamente as precariedades próprias do inaceitável baixo ou baixíssimo poder aquisitivo, enquanto 15% de seus habitantes desfrutam de razoáveis níveis de consumo e 5% exibem abusivos níveis de riqueza abstrata. 
É imperativa a instauração de um novo tipo de relação social
Já as populações da Oceania, Europa e norte da América do Norte, com cerca de 15% da população mundial, têm uma posição favoravelmente inversa à das regiões pobres acima referidas. 

Considerando que nas regiões ricas existem pobres e nas regiões pobres existem ricos, somos, portanto, um mundo com 80% de pobres; 15% de remediados; e 5% de ricos. Este é o retrato do capitalismo no final de segunda década do século 21 e em processo de recessão mundial.     

Conclusão: após o período de crescimento econômico do pós-guerra, a terceira revolução industrial, que vem se consolidando desde 1970 em ritmo acelerado, está expondo a irracionalidade da lógica de produção de mercadorias e, consequentemente do valor monetário, causando o fenômeno da depressão econômica que provoca o desemprego estrutural; a falência do Estado e das empresas públicas e privadas; e a debilitação do sistema de crédito financeiro, que está prestes a ruir. 

Tudo está a indicar e confirmar o atingimento do limite interno absoluto da expansão capitalista, que deverá impor um diferente tipo de relação social.

O qual não poderá ser outro senão aquele que tenha como base um novo modo de produção, capaz de superar a riqueza abstrata segregacionista e de potencializar todo o saber acumulado da humanidade em seu próprio benefício e de modo ecologicamente sustentável. (por Dalton Rosado) 

domingo, 27 de dezembro de 2015

FERREIRA GULLAR DISSECA O POPULISMO QUE FINGE SER DE ESQUERDA, MAS QUER APENAS ETERNIZAR-SE NO PODER.

De tudo que li neste domingo, 27, desde que retomei o leme desta nave que teima em aventurar-se por caminhos diferentes dos convencionais no campo da esquerda, o texto mais polêmico, disparado, foi este abaixo, do poeta Ferreira Gullar. 

Convido todos a lerem-no atentamente, não como a um oráculo que estaria sempre certo, mas como a um articulista que ousa levantar discussões interessantes, sem medo de tabus e de caras feias.

Eu discordo dele, p. ex., na equiparação de Brasil e Argentina à Venezuela e Bolívia; avalio esses processos históricos como bem diferentes, tanto que até houve tentativas para aproveitar nas grandes nações certas lições das duas pequenas --as quais, claro, fracassaram.


E concordo com ele quanto ao fato de estarmos assistindo ao ruir de muitos valores que vinham sendo cultivados pela esquerda; e de que temos de reinventar o futuro, se quisermos permanecer como vanguarda da sociedade.


Principalmente no Brasil: quando o PT ganha eleições na bacia das almas e graças, sobretudo, aos grotões; e quando conta com o Senado para evitar o impeachment de sua desastrosa presidente da República, ao preço de atropelar a autonomia da Câmara Federal, algo de muito errado está acontecendo.


Pois grotões e Senado sempre foram os últimos bastiões dos governos impopulares e reacionários, prestes a serem varridos para a lixeira da História. Assim se deu nos estertores da ditadura militar e é para o mesmo final inglório que marcha o petismo, mais uma estrela que se apagou no céu da revolução. 

Por Ferreira Gullar
FIM DE UMA ETAPA 

Para que se possa entender o que se passa no Brasil, política e economicamente, creio ser necessário levar em conta o tipo de populismo que aqui se implantou, a partir do governo Lula, e se agravou com o governo Dilma.

O populismo não é uma novidade, nem aqui nem em outros países latino-americanos, mas, de algumas décadas para cá, implantou-se em alguns deles um tipo especial de populismo que, para distingui-lo do anterior, costumo chamá-lo de "populismo de esquerda".

Claro que de esquerda mesmo ele não é. Trata-se, na verdade, de uma esperteza ideológica que manipulou as aspirações revolucionárias, surgidas na região a partir da Revolução Cubana, após a década de 1960. 

Essas aventuras guerrilheiras contribuíram involuntariamente para as ditaduras militares que se espalharam pelo continente. O fim dessas ditaduras, por sua vez, abriu caminho para esse novo populismo, que se apresentou como o oposto dos regimes militares, anticomunistas por definição.

Sucede que o final daquelas ditaduras coincidiu com a derrocada dos regimes comunistas, tornando anacrônica a pregação do revolucionarismo marxista. Em seu lugar, inventou-se o socialismo bolivariano, um dos nomes desse populismo, que já não pregava a ditadura do proletariado e, sim, o resgate da pobreza por meio de programas assistencialistas. 
"Vivemos o fim de uma etapa da história latino-americana"

Não fala mais em revolução, porque se trata agora de uma aliança com parte do empresariado que só tem a lucrar com o assistencialismo oficial. Está aí a origem das licitações fajutas, dos contratos de gaveta, fontes de propinas bilionárias.

E claro que esse populismo tem particularidades específicas nos diferentes países onde se implantou. Na Argentina, por exemplo, tem raízes em certa ala do peronismo, enquanto na Venezuela inclui até as Forças Armadas. Já no Brasil, tendo como figura central um operário metalúrgico, esse populismo contou com o apoio de centrais sindicais e de parte da intelectualidade de esquerda, que ainda sonhava com um regime proletário.

Além disso, em cada um deles, adota procedimentos específicos de modo a ajustar-se às condições econômicas e sociais para alcançar seus objetivos. Não obstante, todos eles têm um mesmo propósito: usar o poder político –a máquina do Estado– para garantir o apoio dos setores menos favorecidos da sociedade e se manter para sempre no poder. 

Na Venezuela e na Bolívia, os governos populistas lograram mudar a Constituição do país para se reelegerem indefinidamente. No Brasil, como isso não seria possível, o populismo investiu pesadamente nos programas assistencialistas e num modelo econômico inviável que conduziu o país à situação crítica em que se encontra hoje.
Cristina Kirchner: a imagem da derrota.

A ascensão do populismo, como sucessor dos governos militares –e seu contrário–, conquistou a confiança de grande parte da opinião pública, inclusive por oferecer melhoria de vida a setores mais pobres da população. No Brasil, por exemplo, sobretudo no primeiro governo Lula, essa melhoria veio consubstanciar a sua popularidade, possibilitando sua própria reeleição e a eleição de sua sucessora.

Não obstante, também aqui o populismo, esgotadas as qualidades, caminha para encerrar sua aventura. Na Argentina, ao que tudo indica, isso já começou a acontecer com a derrota do kirchnerismo, que também empurrou o país para o impasse econômico, por contrariar as necessidades objetivas do contexto sócio-econômico. 

Aliás, um elemento comum a todos esses regimes é o antiamericanismo, que só contribuiu para agravar a situação deles. No mesmo caminho seguiu a Venezuela que, com a derrota recente de Maduro, começa a fazer água. No Brasil, Lula e Dilma têm seu discurso abafado pelas paneladas e, enquanto isso, Cuba estende a mão aos norte-americanos.

Não resta dúvida, portanto, de que vivemos o fim de uma etapa da história latino-americana, que coincide, em escala internacional, com o esgotamento da utopia socialista, iniciada na Revolução Russa de 1917. Se isso, por um lado, significou a sobrevivência do regime democrático na maioria dos países, por outro exige que reinventemos o futuro.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

REDUÇÃO DA POLÍTICA À EXACERBAÇÃO DE ANTAGONISMOS E SATANIZAÇÃO DOS ADVERSÁRIOS SATUROU ARGENTINOS

Por Clóvis Rossi
CRISPAÇÃO CANSOU A ARGENTINA

Não foi exatamente um modelo inteiro que ruiu nas urnas argentinas deste domingo, 22, mas, acima de tudo, a maneira rude de exercê-lo.

Que o modelo não foi inteiramente derrotado prova-o o fato de que seu antagonista, o vencedor Mauricio Macri, empenhou-se durante toda a campanha em jurar que não mexeria nos programas sociais que deram popularidade primeiro a Néstor Kircher e depois à Cristina Kirchner.

Essa fatia do modelo —o esforço de de inclusão social, sincero ou demagógico, a juízo de cada leitor— é um ativo que veio para ficar e não só na Argentina.

No Brasil, por exemplo, não houve, em 2014, e não haverá em 2018 ou depois qualquer candidato, por mais reacionário que seja, capaz de pôr em dúvida a permanência do Bolsa Família, para citar apenas um dos símbolos dos governos do PT, como o foi na Argentina, ainda que com outro nome (Asignación Universal por Hijo).

Macri se beneficiou da rejeição à dinastia Kirchner 
Outros aspectos do modelo, como o excesso de intervenção do Estado, podem ter sido rejeitados nas urnas deste domingo, mas é algo que só dirão as análises sociológicas que o tempo do jornalismo dificulta.

O que, sim, do meu ponto de vista, pode se afirmar com segurança que perdeu foi a maneira imperial de exercer a Presidência, a crispação permanente que Cristina, muito mais que Néstor, impôs ao país.

Produziu um estado de ânimo que só é adequadamente descrito por uma palavra espanhola, hartazgo. Em português, é cansaço, esgotamento, mas hartazgo, ainda mais com o forte acento portenho, soa definitivo.

Constata para El País, p. ex., o intelectual En­ri­que Va­lien­te Noai­lles: "A Ar­gen­ti­na se fartou de si mesma, de viver num ambiente que produz seu próprio monóxido de car­bono".

Reforça Ricardo Kirschbaum, que, como editor-chefe do Clarín, foi um dos alvos permanentes da crispação: "Hoje se acaba um ciclo político que fez do antagonismo sua razão de ser".

Presidência imperial é rejeitada pelos hermanos
Até Daniel Scioli, o candidato (a contragosto) de Cristina, admitiu na antevéspera da votação: "Talvez estejam [os eleitores] irritados com as brigas, mas comigo é diferente. Sou um homem de diálogo, como já demonstrou a minha vida".

É bom ressaltar que outros regimes que se dizem de esquerda na América do Sul, Brasil inclusive, adotaram o mesmo mecanismo de satanizar os adversários, tratando-os como inimigos da pátria.

Pode-se, por extensão, supor que o cansaço dessa confrontação permanente estender-se-á além da Argentina, quando houver eleições.

Aliás, Jorge Fontevecchia, diretor do grupo Perfil, outro alvo da crispação do kirchnerismo, dizia à Folha ainda antes da eleição:
"Creio que vivemos [Brasil e Argentina] ciclos parecidos. Essa mudança aqui [na Argentina] talvez tivesse ocorrido também na última eleição brasileira, caso ocorresse alguns meses depois".
O palpite parece correto: Dilma Rousseff ganhou a eleição com pequena diferença, mas depois dela sua popularidade mergulhou num infernal tobogã.

Como a Argentina, o Brasil parece cansado desse perene nós contra eles / eles contra nós.

domingo, 15 de novembro de 2015

ELIO GASPARI, IMPERDÍVEL: "LULA E SUA TEORIA DO RETROCESSO POLÍTICO".

Texto de Elio Gaspari
Lula disse na Colômbia que sente "um cheiro de retrocesso político na América Latina e na América do Sul" e pediu à plateia que não acreditasse "nas bobagens da imprensa". Nosso Guia tinha ao seu lado o ex-presidente do Uruguai, José Mujica.

Falta explicar o que Lula considera "bobagens da imprensa".

Certamente não são as notícias sobre a honorabilidade de Pepe Mujica, um ex-guerrilheiro que presidiu seu país de 2010 até março passado e elegeu seu sucessor.

Ele não teve mensalón, nem petrolón. Continuou morando na mesma casa, com o mesmo carro e a mesma cachorra Manuela. Ao assumir, anunciou que doaria 70% de seu salário para a construção de casas para os pobres. Segundo a Transparência Internacional, o Uruguai, junto com o Chile, têm os menores índices de corrupção da América Latina.
Lula: alarmismo olfativo.

Talvez Lula esteja falando das "bobagens da imprensa" em relação à Argentina, que vai eleger seu novo presidente no dia 22.

Lá, 14 anos de domínio do casal Nestor e Cristina Kirchner levaram a economia para o buraco e a família da presidente para a fortuna. O país tornou-se conhecido pelos escândalos envolvendo as relações do governo e seus amigos com empreiteiros, petrogatunos e exportadores.

Uma banda da esquerda latino-americana acumula duas marcas sinistras. Tem a mais longeva das ditaduras em Cuba e os dois países mais corruptos do continente: a Venezuela narcobolivariana, seguida pela Nicarágua sandinista da família Ortega. A Bolívia, Equador e Argentina têm índices de corrupção piores que o Brasil.

O que há por aí não é um cheiro de retrocesso político, mas a verificação de que existem países assolados pela corrupção e têm governos que se dizem de esquerda. O Chile e o Uruguai estão na outra ponta.
Mujica: entrou e saiu do poder com reputação ilibada.

Bolivarianos, sandinistas e petistas chegaram ao poder com a bandeira da moralidade. O que há no ar não é um cheiro de retrocesso político, mas de repúdio aos pixulecos.

Roubalheira não tem ideologia. O general Augusto Pinochet tinha o apoio de grande parte da população chilena enquanto torturava e matava opositores. Quando se descobriu que ele e sua família tinham US$ 15 milhões em 125 contas secretas, a direita chilena jogou sua memória no mar.

Quando o filho da presidente chilena Michelle Bachelet foi apanhado em traficâncias, ela demitiu-o e disse que enfrentava "momentos difíceis e dolorosos como mãe e presidente". Não culpou a elite nem viu conspiração, muito menos "retrocesso político". Viu apenas realidade: seu filho metera-se numa roubalheira.

terça-feira, 3 de março de 2015

GOVERNO DE DILMA NÃO ESTÁ EM FASE TERMINAL, MAS JÁ ESGOTOU SUA QUOTA DE ERROS.

Quando ela disse adotar o "padrão Felipão"...
A democracia brasileira corre óbvios riscos, mas é exagero comparar a situação atual ao pré-1964, assim como há grande diferença entre o locaute de caminhoneiros orquestrado e financiado pela CIA em 1972 no Chile e os últimos acontecimentos no Brasil, cujos protagonistas apenas defendem o próprio bolso.

Teorias conspiratórias à parte, não há nenhuma evidência real de que os EUA estejam agora envolvidos em tramoias para defenestrar Dilma, Cristina Kirchner e Nicolas Maduro, até porque os três tropeçam nas próprias pernas e são os principais responsáveis pelas crises em curso nos seus países. 

Exatamente por inexistir um esquema golpista estruturado, competente e com recursos financeiros de sobra, como o que tentou tomar o poder em 1961 e conseguiu em 1964, o caso de Dilma Rousseff não é terminal. 

Mas, chegou a hora de o PT começar a dar os passos certos, pois a quota de errados está mais do que esgotada. 

Ela tentou apaziguar o grande capital adotando a receita neoliberal para cenários de queda de investimentos, perda de competitividade e estouro das contas públicas: a recessão purgativa. 

Não levou em conta, contudo, a indignação do eleitorado, por ter sido levado a crer que, reelegendo-a, escaparia deste remédio amargo.
...não imaginava estar sendo premonitória...

Nem o instinto de sobrevivência dos políticos do próprio PT e da base aliada, que temem ser castigados nas urnas se apoiarem o draconiano pacote de ajuste fiscal.

Por último, confiou a tarefa de preparar o saco de maldades a um Chicago boy de segunda categoria, sem jogo de cintura para preencher o espaço de czar da área econômica, permitindo que Dilma se mantivesse convenientemente à distância para a impopularidade não respingar nela.

Deu tudo errado. Joaquim Levy não passa de um coadjuvante que se embanana todo ao ter os holofotes voltados para si, dá declarações as mais inoportunas, desconstrói-se sozinho e acaba forçando Dilma a manifestar-se... contra ele! Resumindo: além de estar vendendo peixe podre, consegue piorar a coisa com seu evidente amadorismo.

João Goulart, em circunstâncias semelhantes, recorria a nomes de primeira grandeza como Carvalho Pinto, Celso Furtado e São Tiago Dantas. E nem assim funcionou, pois o PCB e Leonel Brizola torpedearam suas gestões até que saíssem, derrotados.

Então, se os grãos petistas quiserem evitar o impeachment de Dilma ou (pior ainda) um golpe de estado, têm de considerar opções como a articulação de um governo de união nacional, a montagem de um gabinete de crise e/ou a renúncia da presidenta, acompanhada ou não pela renúncia do vice Michel Temer. Mesmo que percam os anéis, conservarão os dedos e a enorme chance de reassumirem a Presidência com Lula em 2018.
...no pior sentido possível!

Se nada fizerem de impactante, a contagem regressiva continuará, com a Dilma tão impotente diante do agravamento da crise quanto Felipão ao ver a Alemanha marcar gol após gol sem esboçar a mínima reação, pois tinha sido superado pela adversidade. 

E, continuando nos paralelos futebolísticos, para a partida do impeachment começar só falta um motivo (ou pretexto) à altura, como algum testemunho de delator premiado que envolva Dilma com a roubalheira na Petrobrás; uma ocorrência dramática nas manifestações oposicionistas do próximo dia 15; uma lambança de aloprado do PT na linha do atentado de Gregório Fortunato contra Carlos Lacerda, etc. O que cair primeiro na rede será peixe.

Então, o governo do PT precisa retomar rapidinho a iniciativa política, deixando de dar sopa pro azar. 

E tendo a humildade de reconhecer que as soluções plausíveis implicam todas uma redução do poder de Dilma, em benefício de atores políticos que não estejam tão queimados e ainda sejam capazes de incutir esperança nos brasileiros. 

Pois, enquanto não passar a sinistrose atual, nada dará certo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

DILMA, O IMPEACHMENT BATE À SUA PORTA?

Quando, aos 18 anos, eu chefiava o setor de Inteligência da Vanguarda Popular Revolucionária, meus informes ao Comando Nacional eram curtos e grossos, porque não tínhamos tempo para divagações e elucubrações. Havia decisões urgentes a tomar, o tempo todo.

Se, naquele tempo, eu tivesse de transmitir uma avaliação sobre a possibilidade de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, produziria algo deste tipo:
  • há uma direita menos influente que está insatisfeita com a longa permanência do PT no Palácio do Planalto, mas, para os realmente poderosos, EUA inclusos, afastar Dilma não é prioritário, pelo menos do ponto de vista de interesses contrariados ou ameaçados (até porque o fantasma bolivariano já não os assusta mais, com a morte de Chávez, o derretimento da Venezuela e a situação cada vez mais deteriorada da Argentina);
  • cá no Brasil, o aprofundamento das crises econômica e política pode, contudo, fazer a balança pender para o outro lado, se o governo parecer estar se desmilinguindo, o que afetaria os L.U.C.R.O.S. (como diria o Eugênio Gudin) dessa corja;
  • é nisto que apostam os defensores do impeachment, eles querem é colocar o bloco na rua, acreditando que, no caminho, receberão as adesões necessárias;
  • daí o balão de ensaio que acabam de lançar, por intermédio do Ives Opus Gandra Dei Martins, com má receptividade;
  • de qualquer forma, agora que Eduardo Cunha preside a Câmara, o mais provável é que o processo de impeachment acabe, mais dia, menos dia, sendo aberto;
  • a nova fase da Operação Lava-Jato parece vir ao encontro da necessidade de acharem um motivo, ou pretexto, mais forte para o impedimento;
  • eu arriscaria o chute de que acabará sendo a alegação de que dinheiro sujo do esquema de corrupção da Petrobrás irrigou alguma das campanhas presidenciais de Dilma, ou ambas;
  • o governo, sem imaginação, parece disposto a lutar com todas as suas forças para que o impeachment não seja discutido. Esquece que tende a perder mais e mais sustentação com a conjugação das medidas recessivas que tomou, os protestos de rua e os excessos repressivos, os desdobramentos do petrolão e o agravamento das crises hídrica e energética. Poderá ser obrigado a travar a batalha decisiva quando estiver debilitado ao extremo;
  • a concretização do impeachment ou sua rejeição pelos votos dos parlamentares deverá trazer alguma calmaria ao ambiente político, seja com a constituição de um novo governo, seja com o governo atual recebendo um voto de confiança que dificultará quaisquer outras tentativas de dar-lhe fim prematuro;
  • já se o PT conseguir evitar que o impeachment seja discutido e votado, aí haverá motivos para temermos um golpe de estado, pois ficará e será devidamente explorada a impressão de que o Congresso, cedendo aos estímulo$ fi$iológico$, se tornou incapaz de cumprir sua missão (as pregações insidiosas da extrema-direita já batem muito nesta tecla).

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O GOLPE PARAGUAIO E A VOZ DO OPUS DEI

"Tanto foi tranquilo o processo de afastamento no Paraguai que não existiram manifestações de expressão em defesa do ex-presidente. As Forças Armadas nem precisaram enviar contingentes à rua...

Processo digno das grandes democracias parlamentares. Mas difícil de ser compreendido pelo histriônico presidente venezuelano, (...) pela aprendiz de totalitarismo que é a presidente argentina (...) ou pelos dois semiditadores da Bolívia e do Equador.

O curioso foi o apoio da presidente Dilma a essa 'rebelião de aspirantes a ditadores'... "

Quem escreveu as besteiras acima e as fez publicar no jornal da  ditabranda  foi o principal porta-voz do Opus Dei na mídia brasileira, Ives Gandra Martins (que, apropriadamente, está na foto da direita, acima).

O "processo digno das grandes democracias parlamentares" a que ele se refere é, pasmem!, o  impeachment relâmpago  de Fernando Lugo, na verdade um acinte e uma vergonha para a democracia.

O ato falho que ele cometeu foi salientar que "as Forças Armadas nem precisaram enviar contingentes à rua", num reconhecimento implícito de que esta providência fazia parte do esquema golpista articulado desde 2009, assim como os US marines teriam desambarcado no Brasil caso a quartelada de 1964 encontrasse resistência significativa.

Por último, sendo o Opus Dei o que é, Ives Gandra nos deu a conhecer, simplesmente, a relação atualizada dos presidentes ameaçados de sofrerem os próximos golpes parlamentares, depois do êxito das empreitadas hondurenha e paraguaia. Eia a ordem de prioridade dos eternos conspiradores:
  1. Hugo Chávez
  2. Cristina Kirchner
  3. Evo Morales
  4. Rafael Correa
  5. Dilma Rousseff
Que os cinco se considerem alertados e tomem as devidas cautelas. Quem dorme de touca acaba sendo colocado em avião de pijamas.

E que nossa Dilma reflita sobre se valeu a pena reagir de forma tão débil à deposição de Lugo, descartando o embargo econômico que seria a única medida democraticamente aceitável (já que utilizada com total impunidade há meio século pelos EUA contra Cuba...) para quebrar a espinha dos golpistas.

Preferiu aproveitar a confusão para incluir a Venezuela no Mercosul.

De que adiantará, se Chávez for derrubado, como o foram Zelaya e Lugo?

Ovos de serpente devem ser esmagados antes de eclodirem. Dois ofídios já estão firmes e fortes. Quantos mais consentiremos?

sábado, 23 de junho de 2012

O RESCALDO DO GOLPE MADE IN PARAGUAY

O pretexto do golpe parlamentar no Paraguai foi mais patético ainda que o utilizado em Honduras. Só faz sentido na ótica de reacionários empedernidos: os miseráveis tentarem ocupar terras para as cultivarem e não morrerem de fome é subversão das piores e justifica até a derrubada de um presidente que não reza pela cartilha do sagrado direito à propriedade.

A execução, por um lado, revelou um profissionalismo que faz supor uma mão oculta manipulando títeres; o desinteresse com que os EUA receberam este gritante atentado à democracia dá uma boa pista de quem possa ser o roteirista do espetáculo.

Pelo outro, teve o inconveniente de não enganar ninguém no resto do mundo. Até as pedras perceberam que Fernando Lugo não teve o mais remoto direito de defesa. Impeachment em pouco mais de 30 horas é algo que só passa pela cabeça de quem estiver se baseando numa cópia fajuta do Direito Constitucional, adquirida de contrabandistas. Foi um típico  impeachment made in Paraguay...

A reação dos países dominantes da América do Sul, por enquanto, está sendo tímida demais. Dilma Rousseff e Cristina Kirchner têm de botar na cabeça que ervas daninhas se alastram quando não as extirpamos em tempo: se esta virada de mesa resultar, outras virão. 

Chávez, Morales e Mujica são alvos óbvios, troféus que os  roteiristas  há muito querem empalhar e exibir na parede. E, no final da fila, virão, obviamente... Dilma e Cristina.

Então, até por autopreservação, cabe-lhes produzirem desta vez uma reação bem mais efetiva do que no caso hondurenho.

Um embargo econômico do tipo que os EUA impõem há meio século a Cuba faria os golpistas logo pedirem água.

O restante do arsenal estadunidense de desestabilização de governantes indesejáveis é x-rated, pornográfico demais. O embargo, contudo... já que a ONU e a OEA admitem condescender com ele indefinidamente, por que não? Pau que bate em Chico pode bater também em Francisco...

Para a esquerda, fica, pela enésima vez, a comprovação de que, no frigir dos ovos, as Forças Armadas não garantem a ordem constitucional, mas ajudam alegremente a promover a desordem que convém aos poderosos. As quarteladas brasileira e chilena não haviam sido suficientes para dissipar tais ilusões?!

E também a de que conquistar governos por via eleitoral não significa tomar o poder. Então, apostar em lideranças tíbias porque empolgam o povão tem o inconveniente de que, na hora H, nunca se pode contar com elas. Zelaya e Lugo não foram propriamente depostos, mas sim enxotados com petelecos.

Outros se descaracterizam tanto, rendendo-se tão incondicionalmente ao grande capital, que nem precisam ser enxotados; tornam-se caricaturas de si próprios.

A esquerda que coloca todas as suas fichas na via eleitoral deveria, pelo menos, tentar levar à presidência da república seus melhores quadros, os mais consistentes em termos ideológicos, não essas figurinhas tão populares para vencer eleições quanto ineptas para governarem como verdadeiros homens de esquerda.

No momento crítico, um Salvador Allende foi capaz de abrir mão da vida para legar aos pósteros sua última lição de grande revolucionário. Simplesmente não dá para imaginarmos um Zelaya ou um Lugo fazendo o mesmo.
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