A direita venezuelana, conhecida por suas práticas fascistas, alega fraudes nas eleições do país há décadas: jamais conseguiu comprovar nada. Nunca tendo provado, seu único grande mérito foi ter feito escola pelo continente, exportando a estratégia de questionar as eleições para tentar impor golpes, o mais notório de todos o da Bolívia em 2019, logo replicado, sem sucesso, nos EUA em 2021 e no Brasil em 2022. As alegações, sempre trombeteadas pelo governo estadunidense e pela mídia brasileira, sempre foram descartadas por observadores imparciais e instituições internacionais de auditagem eleitoral.
Na verdade, fraude na urna é algo muito pouco usual nos dias que correm. É extremamente custoso e complexo faze-lo, além de facilmente descoberto. Mesmo as mais terríveis ditaduras do oriente médio - aquelas onde a FIFA faz Copas e a imprensa brasileira não vê nunca problema algum - não manipulam o voto depositado, mas procedem de forma mais ampla, impedindo a candidatura de opositores, dificultando a inscrição de eleitores e reduzindo ao máximo os agrupamentos políticos passíveis de serem eleitos.
Guaidó, o presidente fictício.
Aliás, tal forma de procedimento é hoje amplamente adotada naquele país tido como exemplo de democracia, os próprios EUA, onde existem apenas dois partidos, é extremamente difícil se candidatar e se você for negro ou latino poderá nunca conseguir tirar sua autorização para voto.
Mas Maduro agiu nesse sentido, impedindo a candidatura de dezenas de opositores à esquerda e à direita, e dificultando a inscrição de eleitores. A direita fascista lançou um candidato totalmente desconhecido, após inúmeros de seus nomes mais viáveis serem barrados pela justiça controlada pelo chavismo. É pouco provável que Edmundo González , um João Ninguém mesmo entre seus correligionários, fosse conseguir alguma vitória de fato, sendo isso muito mais elocubrações propagandeadas pela mídia.
No fim, como quase sempre, longe de existir aqui uma preocupação com lisuras eleitorais, a crise da Venezuela parece ser um repeteco da crise da Bolívia de cinco anos atrás e visa justificar uma virada de mesa em prol das forças conservadoras. Sob o pretexto da fraude eleitoral, será incentivado um levante das forças reacionárias para tomar o poder à força, em um contexto talvez mais sangrento, pois as forças armadas da Venezuela são hegemonicamente chavistas.
Quem sabe até ressuscitem o Guaidó para voltar à presidência? (por David Coelho)
Embora o saldo de seu governo tenha sido positivo em termos de melhorar a situação econômica e social da paupérrima Bolívia, o populista Evo Morales repetiu o erro de tantos outros populistas que veem a si próprios como homens providenciais, os únicos capazes de fazerem felizes seus povos.
Então, fincam os dentes no poder como um buldogue morde seu osso e evitam projetar seguidores à sua altura para não terem quem lhes faça sombra nas próprias fileiras.
Geralmente pagam caro por colocarem a si mesmos acima da causa dos explorados.
...o grande Touro Sentado...
Lula, p. ex., despencou porque, percebendo que uma tentativa de mudar as regras do jogo para possibilitar nova reeleição abriria seu flanco às investidas da direita, escolheu o poste errado para o substituir enquanto cumpria o ritual de alternância no poder: Dilma Rousseff, cuja gestão econômica desastrosa acabaria, aí sim, levantando a bola para o inimigo marcar o ponto.
Ou seja, desejando um(a) boneco(a) de ventríloquo e não um petista minimamente qualificado para exercer a Presidência, optou por alguém que avaliava como tão carente de carisma e de brilhantismo que seria obrigada a seguir obedientemente suas determinações, não causando grandes estragos nem se tornando sua concorrente. Mas, não sabia com que ego descomunal estava lidando...
Por que comparo as situações? Porque foram dois governos até então sólidos que desmancharam no ar graças a lambanças constrangedoras: a de Dilma, ao tentar exumar o anacrônico e superado nacional-desenvolvimentismo; e a de Morales, ao botar os pés pelas mãos no afã de evitar um 2º turno que provavelmente venceria com certa facilidade.
...e o lendário Tupac Amaru II.
Nos dois casos, a conta foi paga pelo povo: o brasileiro, que amarga o presidente mais tosco e desequilibrado de sua História; e o boliviano, que parece destinado a muito sofrer por não existir ninguém capaz de preencher adequadamente o vazio de poder que se desenha, ainda mais com o acirramento das tensões decorrente da forma como ele foi defenestrado.
Morales (seguindo as pegadas de Dilma) coloca tudo na conta de um golpe branco, o que acaba parecendo desculpa de mau pagador, para desviar a atenção do peso que as próprias trapalhadas tiveram na sua desgraça. Um pouco de humildade cairia bem para ambos.
A única opção sensata agora seria a convocação de nova eleição presidencial, com Morales participando apenas como apoiador do candidato por ele escolhido (com nossa torcida para que apostasse em alguém bem diferente da Dilma).
Não consigo sentir pena de quem traiu Cesare Battisti e veio balançar o rabo na posse do Bozo. Mas, nem todos os líderes de origem indígena podem ter a estatura moral, a coerência e a coragem de um Tupac Amaru II ou de um Touro Sentado. (por Celso Lungaretti)
Tributo de Vandré aos quechuas, tamoios, mapuches, tabajaras, guaranis, incas, astecas, maias, aimarás e tupis (povos exterminados): "Por sus mujeres y tierras, sus flores y amores/ Quiere ser mi canto alegre frente a los dolores/ De América, de América".
O presidente da Bolívia, Evo Morales, foi alvo de uma série de críticas de aliados por causa da prisão e da extradição do italiano Cesar Battisti no país.
Mas especialistas e fontes ouvidas pela BBC News Brasil apontam que Evo optou pelo pragmatismo, que já o caracterizou noutras situações.
Evo, disseram, não pretende desagradar o colega brasileiro Jair Bolsonaro – apesar de estarem em pontos distantes do espectro ideológico – e correr o risco de ficar isolado na região. Ainda segundo a avaliação deles, o presidente boliviano quer evitar problemas num ano de eleição presidencial, quando tentará o quarto mandato presidencial seguido na Bolívia.
Stefanofi: Battisti foi um regalo de Morales para o neofascista Salvini e o hermano Bolsonaro
"Não importa o presidente que esteja no poder no Brasil, seja ele de esquerda ou de direita, Evo fará de tudo para evitar conflitos com o país que é o principal parceiro da Bolívia, tanto na área econômica e comercial quanto no setor de segurança. Temos uma ampla e frágil fronteira com o Brasil e dele dependemos", disse o analista Javier Gómez, do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Trabalhista e Agrário, em La Paz.
O analista boliviano observou que Evo briga permanentemente com os Estados Unidos, ao qual chama de império, mas que jamais faria o mesmo com o Brasil.
Para Gómez, o presidente boliviano já deve ter registrado "os primeiros sinais de mudança" na relação do Brasil com a Bolívia desde que Bolsonaro chegou ao poder, e não pretende piorar ainda mais a situação.
Raul Garcia Linero: "decisão injusta, covarde e reacionária"
O analista citou como exemplo o caso do projeto de construção do chamado corredor bioceânico, ligando o Atlântico, do Brasil, ao Pacífico, no Chile, que, ao contrário do esperado, excluiria a Bolívia, como anunciou o presidente do Chile, Sebastián Piñera, logo após encontro com Bolsonaro, no início deste mês no Brasil.
'HERMANO' – Político definido como de esquerda e bolivariano, em referência ao grupo que surgiu com o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, Evo até chamou Bolsonaro de hermano (irmão) num tuíte no dia da posse do presidente brasileiro – mesma forma como se referia a Lula, de quem era muito mais próximo, quando este era presidente do Brasil.
Apesar de ideologicamente distante de Bolsonaro, Morales não pode se dar ao luxo de se isolar na região, dizem analistas
O pragmatismo de Evo foi ainda apontado pelos especialistas pela forma com que ele conduz a economia boliviana, com responsabilidade fiscal e crescimento, e por sua decisão de participar da posse de Bolsonaro, no dia 1º de janeiro, em Brasília, dez dias depois participar da polêmica posse do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em Caracas.
Na cerimônia na Venezuela, Evo sentou ao lado dos colegas da Nicarágua e de Cuba que, como Maduro, tinham sido banidos da lista de convidados à posse de Bolsonaro.
O ministro Carlos Romero, executor da infâmia, é agora chamado de Judas nos círculos de esquerda
'DIVIDIDO' – O analista em temas internacionais Francisco Solares, do Colégio de Internacionalistas do Estado de Santa Cruz, disse que a extradição do italiano Battisti foi claramente um gesto de Evo para Bolsonaro.
"É uma forma de sinalizar um recomeço na relação com o Brasil", disse Solares. Para ele, todas as decisões passam pelo presidente, e a medida teria dividido o governo, já que a ala mais à esquerda, ligada ao vice-presidente Álvaro García Linera, não aprovaria a decisão de extraditar Battisti.
O historiador e jornalista argentino Pablo Stefanoni, que morou sete anos em La Paz, e é apontado por acadêmicos como um dos mais entendidos sobre os atos de Evo e dos líderes de esquerda da região, avalia que a rápida ação de extraditar Battisti, sem direito a apelação para continuar no país, confirma o pragmatismo do líder boliviano.
Bolsonaro e Salvini adoraram o novo Evo...
"Battisti foi extraditado em menos de 24 horas. Evo quis se livrar rápido da situação para não ter problemas com Bolsonaro. Mas com a decisão de expulsar Battisti certamente dividiu o governo. A ala mais à esquerda do governo não apoia este tipo de medida", disse Stefanoni à BBC News Brasil.
Nas redes sociais, Stefanoni escreveu que Battisti foi um regalo (presente) de Evo para o líder italiano Matteo Salvini e para o hermano Bolsonaro.
'Battisti foi extraditado em menos de 24 horas. Evo quis se livrar rápido da situação para não ter problemas com Bolsonaro', opina analista boliviano
HOMEM FORTE – Battisti foi preso no último sábado (12) em Santa Cruz de la Sierra, ao lado do território brasileiro, e entregue, no dia seguinte, pela Interpol Bolívia à Interpol da Itália no aeroporto internacional de Viru Viru, na mesma cidade.
O anúncio da extradição de Battisti foi feito por um dos homens fortes da administração de Evo, o ministro de Governo Carlos Romero, responsável pela área de segurança na gestão central. Romero não faria nada sem a determinação direta de Evo, concordaram analistas e fontes ouvidas pela BBC News Brasil.
...muito parecido com o velho René Barrientos...
No domingo, no rápido comunicado, com direito a poucas perguntas, na sede da Interpol em Santa Cruz de la Sierra, Romero informou que Battisti tinha entrado no país de forma irregular e por isso seria extraditado, segundo as normas migratórias do país. E que a operação tinha sido detalhada entre as autoridades diplomáticas da Bolívia e da Itália.
Em nenhum momento ele citou a palavra Brasil. Nem mesmo quando perguntado, respondeu apenas que o Estado requerente é a Itália e disse ainda que não havia registro do lugar por onde o italiano entrara, evitando especificar que tinha sido do Brasil para a Bolívia. Romero também evitou dar detalhes de como a prisão tinha sido feita numa rua da cidade.
No dia seguinte, 2ª feira, ele confirmou que Battisti tinha pedido refúgio, em dezembro, à Comissão Nacional de Refugiados (Conare) e que o pedido tinha sido negado.
Nesta 3ª feira, três dias depois da expulsão de Battisti da Bolívia, o caso continua rendendo críticas – mas também elogios – a Evo Morales.
O irmão do vice-presidente, Raúl García Linera, que apoia o governo, disse que a decisão boliviana de entregar Battisti às autoridades italianas foi injusta, covarde e reacionária.
...que deixou os EUA caçarem e executarem o Che na Bolívia
Por sua vez, um dos integrantes do Movimento ao Socialismo, que é a base de apoio política e social de Evo, chamou Romero de Judas, também pela mesma decisão.
A decisão de Evo foi, porém, elogiada por políticos de Santa Cruz de la Sierra, reduto da oposição à La Paz, que antes o criticavam, como Samuel Doria Medina. "Digo, sem ódio, mas com firmeza, que a Bolívia não pode ser refúgio de assassinos e refugiados", disse.
(...) Bolsonaro parabenizou os responsáveis pela prisão do terrorista que, disse, vinha sendo protegido pelos governos do PT.
O líder italiano Salvini agradeceu às autoridades brasileiras pelo empenho que levou à prisão de Battisti – comunicado que também foi publicado no Twitter de Bolsonaro.
Se ainda estivesse vivo, o genial Henfil certamente despacharia Evo Morales para o cemitério dos mortos vivos. O blog se limitará a dedicar-lhe esta música...
Lula vai preso? Quando? Existe uma outra possibilidade. Diante da prisão inevitável e próxima, Lula entra numa embaixada latino-americana, declara-se perseguido político e pede asilo diplomático. Não há nenhuma indicação de que ele pretenda fazer isso, mas a realidade ensina que esse caminho existe.
Pelo andar da carruagem, Lula será preso para cumprir a pena que lhe foi imposta pelo TRF-4. Está condenado a 12 anos de cadeia, e dois outros processos poderão render novas penas. Aos 72 anos, ralará alguns anos anos em regime fechado até sair para o semiaberto.
Lembram da saída pela esquerda do Leão da Montanha?
Como é melhor chorar no exterior do que rir na carceragem de Curitiba, Lula sabe que dispõe do caminho do asilo diplomático.
Considerando-se perseguido político, conseguiria essa proteção em pelo menos duas embaixadas, a da Bolívia e a do Equador. Pedir proteção aos cubanos ou aos venezuelanos só serviria para queimar seu filme.
Para deixar o Brasil, Lula precisaria de um salvo-conduto do governo de Michel Temer. Bastariam algumas semanas de espera, esfriando o noticiário, e ele voaria. Uma vez instalado no país que lhe deu asilo, ele poderia viajar pelo mundo. Mesmo que voltem a lhe tomar o passaporte, isso seria uma irrelevância. Até 1976, João Goulart, asilado no Uruguai, viajava com passaporte paraguaio.
O asilo de Lula poderia agradar ao governo, pois, preso, ele seria defendido por uma constrangedora campanha internacional. [Guardadas as proporções, como aconteceu com o chefe comunista Luís Carlos Prestes entre 1936 e 1945.]
Com o perdão do Gonçalves Dias, a Canção do Exílio do Lula seria assim...
A vitimização de Lula perderia um pouco de dramaticidade, mas as cadeias ensinam que com o tempo a mobilização murcha, e a solidão da cela toma conta da cena.
A gambiarra tem um inconveniente. Ele só poderia voltar ao país nas asas de uma anistia.
De tudo que li neste domingo, 27, desde que retomei o leme desta nave que teima em aventurar-se por caminhos diferentes dos convencionais no campo da esquerda, o texto mais polêmico, disparado, foi este abaixo, do poeta Ferreira Gullar.
Convido todos a lerem-no atentamente, não como a um oráculo que estaria sempre certo, mas como a um articulista que ousa levantar discussões interessantes, sem medo de tabus e de caras feias.
Eu discordo dele, p. ex., na equiparação de Brasil e Argentina à Venezuela e Bolívia; avalio esses processos históricos como bem diferentes, tanto que até houve tentativas para aproveitar nas grandes nações certas lições das duas pequenas --as quais, claro, fracassaram.
E concordo com ele quanto ao fato de estarmos assistindo ao ruir de muitos valores que vinham sendo cultivados pela esquerda; e de que temos de reinventar o futuro, se quisermos permanecer como vanguarda da sociedade.
Principalmente no Brasil: quando o PT ganha eleições na bacia das almas e graças, sobretudo, aos grotões; e quando conta com o Senado para evitar o impeachment de sua desastrosa presidente da República, ao preço de atropelar a autonomia da Câmara Federal, algo de muito errado está acontecendo.
Pois grotões e Senado sempre foram os últimos bastiões dos governos impopulares e reacionários, prestes a serem varridos para a lixeira da História. Assim se deu nos estertores da ditadura militar e é para o mesmo final inglório que marcha o petismo, mais uma estrela que se apagou no céu da revolução.
Por Ferreira Gullar
FIM DE UMA ETAPA
Para que se possa entender o que se passa no Brasil, política e economicamente, creio ser necessário levar em conta o tipo de populismo que aqui se implantou, a partir do governo Lula, e se agravou com o governo Dilma.
O populismo não é uma novidade, nem aqui nem em outros países latino-americanos, mas, de algumas décadas para cá, implantou-se em alguns deles um tipo especial de populismo que, para distingui-lo do anterior, costumo chamá-lo de "populismo de esquerda".
Claro que de esquerda mesmo ele não é. Trata-se, na verdade, de uma esperteza ideológica que manipulou as aspirações revolucionárias, surgidas na região a partir da Revolução Cubana, após a década de 1960.
Essas aventuras guerrilheiras contribuíram involuntariamente para as ditaduras militares que se espalharam pelo continente. O fim dessas ditaduras, por sua vez, abriu caminho para esse novo populismo, que se apresentou como o oposto dos regimes militares, anticomunistas por definição.
Sucede que o final daquelas ditaduras coincidiu com a derrocada dos regimes comunistas, tornando anacrônica a pregação do revolucionarismo marxista. Em seu lugar, inventou-se o socialismo bolivariano, um dos nomes desse populismo, que já não pregava a ditadura do proletariado e, sim, o resgate da pobreza por meio de programas assistencialistas.
"Vivemos o fim de uma etapa da história latino-americana"
Não fala mais em revolução, porque se trata agora de uma aliança com parte do empresariado que só tem a lucrar com o assistencialismo oficial. Está aí a origem das licitações fajutas, dos contratos de gaveta, fontes de propinas bilionárias.
E claro que esse populismo tem particularidades específicas nos diferentes países onde se implantou. Na Argentina, por exemplo, tem raízes em certa ala do peronismo, enquanto na Venezuela inclui até as Forças Armadas. Já no Brasil, tendo como figura central um operário metalúrgico, esse populismo contou com o apoio de centrais sindicais e de parte da intelectualidade de esquerda, que ainda sonhava com um regime proletário.
Além disso, em cada um deles, adota procedimentos específicos de modo a ajustar-se às condições econômicas e sociais para alcançar seus objetivos. Não obstante, todos eles têm um mesmo propósito: usar o poder político –a máquina do Estado– para garantir o apoio dos setores menos favorecidos da sociedade e se manter para sempre no poder.
Na Venezuela e na Bolívia, os governos populistas lograram mudar a Constituição do país para se reelegerem indefinidamente. No Brasil, como isso não seria possível, o populismo investiu pesadamente nos programas assistencialistas e num modelo econômico inviável que conduziu o país à situação crítica em que se encontra hoje.
Cristina Kirchner: a imagem da derrota.
A ascensão do populismo, como sucessor dos governos militares –e seu contrário–, conquistou a confiança de grande parte da opinião pública, inclusive por oferecer melhoria de vida a setores mais pobres da população. No Brasil, por exemplo, sobretudo no primeiro governo Lula, essa melhoria veio consubstanciar a sua popularidade, possibilitando sua própria reeleição e a eleição de sua sucessora.
Não obstante, também aqui o populismo, esgotadas as qualidades, caminha para encerrar sua aventura. Na Argentina, ao que tudo indica, isso já começou a acontecer com a derrota do kirchnerismo, que também empurrou o país para o impasse econômico, por contrariar as necessidades objetivas do contexto sócio-econômico.
Aliás, um elemento comum a todos esses regimes é o antiamericanismo, que só contribuiu para agravar a situação deles. No mesmo caminho seguiu a Venezuela que, com a derrota recente de Maduro, começa a fazer água. No Brasil, Lula e Dilma têm seu discurso abafado pelas paneladas e, enquanto isso, Cuba estende a mão aos norte-americanos.
Não resta dúvida, portanto, de que vivemos o fim de uma etapa da história latino-americana, que coincide, em escala internacional, com o esgotamento da utopia socialista, iniciada na Revolução Russa de 1917. Se isso, por um lado, significou a sobrevivência do regime democrático na maioria dos países, por outro exige que reinventemos o futuro.
O Brasil não extraditará o senador Roger Pinto Molina para a Bolívia, garantiu o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, à Folha de S. Paulo. Foi enfático:
"Devolvê-lo para a Bolívia, não. Devolvê-lo para a Bolívia, nós não devolveremos".
O repórter Fernando Rodrigues insistiu, querendo confirmação. E Garcia repetiu o "não", informando que há apenas duas hipóteses para o desfecho do caso: "ou ele pode ter asilo aqui ou ele pode ir para outro país".
Como os leitores devem recordar, os parlamentares Molina e Evo Morales eram amigos antes que o último ascendesse à Presidência. Convidado a integrar o governo, Molina recusou, segundo ele por divergir de Morales quanto à cocaína:
"Sempre acreditei que o tema da coca fosse a matéria-prima para o narcotráfico e era preciso atacar isso. Ele defendia a coca".
A relação azedou de vez quando Molina entregou a Morales um dossiê acusando o governador do estado de Pando, aliado do presidente, de envolvimento com traficantes.
Aí, começaram a pipocar os processos contra Molina na Justiça boliviana (a mesma que manteve 12 torcedores brasileiros presos por um crime que só um deles poderia ter cometido...); num passe de mágica, foram abertos 22!
Molina se refugiou na nossa embaixada, o Brasil lhe concedeu asilo e o governo boliviano, ignorando as leis e práticas internacionais, passou uma eternidade negando-lhe salvo conduto para deixar o país em segurança.
Depois de 15 meses de confinamento, ele foi resgatado numa operação rocambolesca que, segundo a versão oficial, teria sido iniciativa isolada do diplomata Eduardo Sabóia.
A História se repetiu como farsa?
Seria um novo, embora menos dramático, resgate fantástico.
Só que é difícil de engolir: Sabóia estava acompanhado por um senador brasileiro, teve a cobertura de militares brasileiros e atravessou tranquilamente uma fronteira que deveria estar sendo muito bem guardada. Finalmente, ele passou menos de três semanas suspenso de suas funções no Itamaraty e logo foi reintegrado.
A hipótese mais plausível é a de que fizesse parte de um esquema bem mais amplo e tenha agido com a anuência dos seus superiores, cansados de esperar por uma solução civilizada e temerosos do desprestígio que adviria para o Brasil caso Molina se suicidasse, como ameaçava fazer.
Quanto à demissão do chanceler Antônio Patriota, alguma satisfação teria de ser dada a Morales, para não deixá-lo mal com a opinião pública boliviana. Mas, não se tratou exatamente de uma punição: Patriota assumiu, em seguida, a chefia da delegação brasileira na ONU, designação das mais honrosas.
Agora, Garcia antecipa que, seja qual for a decisão do Conselho Nacional para os Refugiados sobre o pedido de extradição boliviano, o Brasil não o extraditará.
Faz sentido. O Conare existe para subsidiar o ministro da Justiça e seus pareceres não têm de ser obrigatoriamente seguidos (Tarso Genro tomou decisão diferente no Caso Battisti, p. ex.). Ademais, o Supremo Tribunal Federal confirmou que a última palavra, nesses episódios, é da Presidência da República.
Então, podemos supor que Garcia fala pelo ministro José Eduardo Cardozo, pela presidenta Dilma Rousseff ou por ambos, ao declarar de forma tão incisiva que Molina está definitivamente a salvo do governo boliviano.
Alguns comentaristas políticos da imprensa e muitos da internet ficaram como baratas tontas neste imbroglio, principalmente os que correram a satanizar Sabóia, acreditando que fosse esta a vontade imperial. Quando a falta de independência e a falta de perspicácia andam juntas, o resultado tende a ser patético.
A informação de que o Ministério das Relações Exteriores já tirou o diplomata Eduardo Sabóia da geladeira, autorizando seu retorno ao trabalho, me deixou com a pulga atrás da orelha.
Eu o defendi na suposição de que realmente agira por iniciativa própria ao resgatar o senador Roger Pinto Molina; acreditei que ele tivesse querido solucionar, de forma voluntarista, uma situação de absoluto desrespeito do governo boliviano pela instituição do asilo político e de inapetência do governo brasileiro para fazer prevalecerem as leis e práticas civilizadas.
No entanto, depois de Sabóia haver sido duramente criticado pela presidenta Dilma Rousseff e de o Itamaraty haver anunciado uma rigorosa sindicância para investigar sua atuação, eis que ele retoma sua rotina, belo e lampeiro, como se nada houvesse acontecido.
Foi aí que eu me lembrei do complexo esquema armado para a evasão de Molina, incluindo a participação de um senador brasileiro e até de nossos militares, aparentemente incumbidos de garantir a segurança do fugitivo.
Sabóia: apenas um funcionário obediente?
E me ocorreu que Sabóia, não sendo nenhum James Bond, dificilmente teria conseguido armar todo esse circo sozinho. Ao contrário do que se vê nos filmecos de Hollywood, amadores nunca dão conta dessas situações.
Na web, os apressadinhos correram a levantar suspeitas sobre o dedo da CIA, do agronegócio, da tucanada, etc.
Noves fora, o mais plausível é que a paciência das autoridades brasileiras haja chegado ao limite e, temerosas do dano à nossa imagem se o (na prática) cativeiro de Molina terminasse mal, elas mesmas tenham tramado e executado o resgate fantástico.
Uma vez alcançado o objetivo, é óbvio que teriam de jogar a culpa em cima do Sabóia, da forma mais enfática possível, para não deixarem transparecer que haviam feito o Evo Morales de bobo.
O pior é que, se minhas deduções estiverem corretas --e tudo leva a crer que estão--, eu também fui feito de bobo.
Em boa companhia: o Prêmio Nobel da Paz de 1996, José Ramos-Horta, acaba de elogiar a "coragem" de Sabóia, qualificando-o de "mártir".
Enfim, mesmo se houver cumprido ordens ao invés de as desobedecer, o seu papel no episódio terá sido louvável; algum risco sempre há e quem o assume por motivos justos é um bom ser humano.
Mas, claro, Sabóia não precisava da minha bem-intencionada defesa, já que sua carreira não estaria ameaçada, muito pelo contrário...
A citação do grande Proudhon é longa, mas vale a pena lê-la até o fim. Para um homem de esquerda, tem tanta relevância quanto os 10 mandamentos para os cristãos:
"Ser governado é: ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legisferado, regulamentado, depositado, doutrinado, instituído, controlado, avaliado, apreciado, censurado, comandado por outros que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude.
Ser governado é: ser em cada operação, em cada transação, em cada movimento, notado, registrado, arrolado, tarifado, timbrado, medido, taxado, patenteado, licenciado, autorizado, apostilado, admoestado, estorvado, emendado, endireitado, corrigido.
É, sob pretexto de utilidade pública, e em nome do interesse geral: ser pedido emprestado, adestrado, espoliado, explorado, monopolizado, concussionado, pressionado, mistificado, roubado;
Depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa: reprimido, corrigido, vilipendiado, vexado, perseguido, injuriado, espancado, desarmado, estrangulado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, para não faltar nada, ridicularizado, zombado, ultrajado, desonrado. Eis o governo, eis sua justiça, eis sua moral!"
O stalinismo e os regimes autoritários de esquerda vieram comprovar o acerto da postura de desconfiarmos sempre de governos e a necessidade de tudo fazermos para dar-lhes fim, instaurando uma sociedade de iguais em todos os sentidos, em que a administração dos homens seja substituída pela administração das coisas (tanto meta suprema do anarquismo quanto etapa final da edificação do comunismo --as divergências entre ambos se restringiam à via para chegarmos à sociedade perfeita, não havendo dúvida nenhuma quanto à obviedade de que nela não poderão existir governantes e governados).
No essencial, eu jamais abdiquei dos valores básicos da geração 68, como o de desconfiar sempre dos governos, inclusive dos tidos como amigos. A verdade é revolucionária! Se mentem, devem ser, sim, denunciados. E devemos cobrar-lhes autocríticas. E devemos exigir que passem a confiar mais no seu povo, ao invés de o manipular.
Governos nos traem: aliam-se até ao pior inimigo
E, como os dramas dos anos de chumbo, minhas lutas na defesa dos direitos humanos e a atividade jornalística tornaram familiar para mim a sistemática do asilo político, desde o primeiro momento avaliei que, no episódio do resgate fantástico, era uma aberração o governo de Evo Morales ter passado mais de um ano e meio sem conceder o salvo conduto para o senador Roger Pinto Molina.
ENTÃO, FACE À POSTURA GROTESCA DO GOVERNO BOLIVIANO E AO DESCASO DO GOVERNO BRASILEIRO DIANTE DE UMA SITUAÇÃO INACEITÁVEL, JUSTIFICAVA-SE, SIM, O VOLUNTARISMO DO DIPLOMATA EDUARDO SABÓIA, QUE FOI, REPITO, O ÚNICO PERSONAGEM LOUVÁVEL DESSA COMÉDIA DE ERROS. ELE SALVOU A HONRA DO BRASIL, JÁ QUE O ITAMARATY PARECE TER ESQUECIDO ATÉ O SIGNIFICADO DA PALAVRA!
O pior veio depois, com a satanização de Sabóia pela rede virtual de propagandistas do governo, sempre prontos a repassarem as versões convenientes, sem nunca se preocuparem em verdadeiramente informar-se e refletir sobre os episódios. São os homens unidimensionais ditos de esquerda, contraponto à unidimensionalidade a que a indústria cultural reduz os cidadãos comuns, os videotas.
E, pouco a pouco, percebi que o governo boliviano fez com Molina exatamente o que o governo italiano fez com Cesare Battisti, satanizando-o a partir do veredicto de uma farsa jurídica que nenhuma democracia de verdade admitiria.
Só que a Bolívia agiu por atacado, com os processos contra Molina brotando como cogumelos a partir de 2008. Antes, amigo de Morales, recebia todas as honras. Depois, só faltou acusarem-no de haver assassinado Simon Bolivar...
Linchamentos morais são uma constante na web
O que nunca serei na vida é tolo. Ao ver a pilha de uns 20 processos instaurados contra ele e quão disparatados alguns eram, não tive dúvidas de que sofria perseguição política e que o MEDÍOCRE (vide o episódio dos 12 torcedores corinthianos) Judiciário boliviano acumpliciava-se com uma mesquinha vendetta governamental.
Foi o motivo de eu haver reproduzido, neste sábado, uma entrevista do Molina. Antes, até admitia que pudesse ser mesmo um mero corrupto. Agora, tenho absoluta certeza de que isto é o que menos importava; fosse ele a Madre Teresa de Calcutá e inventariam pretextos para processá-lo da mesma maneira.
Por último, acabo de ter a confirmação do que já suspeitava: A BOLÍVIA NÃO ESTAVA DESOBRIGADA DE CONCEDER O SALVO CONDUTO, COMO OS PROPAGANDISTAS BRASILEIROS ALEGARAM. Eis o que o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia esclarece (os grifos são meus):
"É de grande relevância registrar que existe uma Convenção sobre Asilo Diplomático firmada em Caracas no dia 28 de março de 1954, que se acha em pleno vigor e da qual a Bolívia é signatária desde o primeiro dia, assim como nosso país.
Essa convenção reza que 'concedido o asilo, o Estado asilante pode pedir a saída do asilado, sendo o Estado territorial obrigado a conceder imediatamente, salvo caso de força maior, as garantias necessárias a que se refere o artigo 5º e o correspondente salvo-conduto'".
O diplomata septuagenário, aliás, chegou exatamente à mesma conclusão que eu: "O governo brasileiro deveria ter tratado do assunto com mais firmeza", pois impunha-se "uma posição firme e categórica", com a "exigência mais enérgica do cumprimento do direito internacional".
Antigamente se dizia que "em tempo de guerra, mentira como terra". Só que não estamos em guerra. E nem quando era nenê eu engolia terra.
Depois que a União Soviética se deformou a ponto de tornar-se um terrível estado policial, nenhum revolucionário comprometido com a componente libertária da transformação da sociedade tem o direito de acreditar piamente no que governos autoritários de esquerda afirmam, nem a obrigação de descartar automaticamente as alegações dos que se dizem por eles perseguidos.
Então, em nome do direito ao contraditório, reproduzo aqui o depoimento que o senador Roger Pinto Molina, pivô de uma das piores lambanças da diplomacia brasileira em todos os tempos, deu à Folha de S. Paulo.
Não posso afiançar a veracidade de nada do que ele afirmou, nem tenho os meios práticos para ir averiguar eu mesmo com quem está a verdade.
Mas, até por ter constatado a mediocridade do Judiciário boliviano no episódio dos 12 corinthianos laçados como bode expiatórios de um homicídio culposo do qual apenas um poderia ser o autor, não calarei eu também o senador Molina.
...sempre preferirei a Rosa vermelha e seu legado.
Deixo que ele fale, pois é assim que os homens de esquerda formados na tradição de Rosa Luxemburgo ("A verdade é revolucionária") fazem.
No mínimo, como vacina para evitar-se o mal que abateu a URSS e tornou execrável a imagem da esquerda, retardando por mais de um século a revolução mundial: o stalinismo.
Sou do departamento de Pando, uma das regiões mais atrasadas da Bolívia. Meu pai era do campo, minha mãe trabalhava em casa, e em algum momento tivemos um pequeno comércio, que foi o que nos permitiu estudar. Era uma pequena mercearia, que vendia alimentos. Trabalhei muito para conseguir estudar. Em minha região não havia uma universidade, então tive que ir para outra cidade. Minha família não tinha condições de pagar uma universidade. Trabalhei no banco Ganadero, na área de crédito, por dez anos.
Tenho uma base cristã de princípios, sou evangélico batista, e sempre entendi que o trabalho social que as igrejas fazem é fundamental.
Fui presidente do tribunal eleitoral, vereador, deputado, depois governador [de Pando], deputado novamente, senador e hoje tenho um mandato até fevereiro de 2015. Ocupei vários cargos, no Senado, deputado, vice-presidente do Senado. O principal foi o chefe da oposição no Senado no último ano.
Molina: corrupto ou perseguido?
[O então deputado] Evo Morales era alguém com quem convivi nos primeiros anos no Congresso. Era um amigo, com quem eu podia jogar futebol. E jogamos várias vezes juntos, tenho fotos.
De maneira contínua ele me convidou para participar desse projeto político, ou parte desse projeto. Tínhamos uma visão diferente. Sempre acreditei que o tema da coca fosse a matéria-prima para o narcotráfico e era preciso atacar isso. Ele defendia a coca. Eu acreditava na liberdade, no direito privado, na propriedade das coisas e consciente de que era necessário reduzir a coca.
Quando chegou ao governo, Evo nos convidou de novo ao palácio, umas três ou quatro vezes. Ele queria que fizéssemos parte do seu governo. Nós achamos que era mais importante ajudá-lo nos temas sociais, da luta contra a miséria, com isso nós nos comprometemos.
Mas logo veio um processo de decomposição e violência do governo que atribuo à presença cubana e ao processo de linchamento político.
Depois que Cuba e Venezuela intervieram de forma direta [formando parcerias com o governo], ele teve outro tipo de política e comportamento muito mais agressivos. Então se estabelece como política de seu governo acabar com a oposição. E começa a perseguir de maneira sistemática todos os ex-presidentes, ex-governadores.
Todos os governos de esquerda querem é chegar, mudar a Constituição, adequá-la a eles, porque têm um objetivo, consolidar-se no governo, não importa como.
Sabóia: indiscutivelmente, um herói.
Nenhum desses governos se vai por vontade própria, de forma democrática. Ou seja, é o modelo chavista-cubano. E claro que nós nos opomos a isso. Queríamos que houvesse um Estado, uma República, que havia que se conservar a constitucionalidade.
O modelo cubano é que o se chama de "segundo paredón". Hoje em dia já não te matam, mas te destroem, te desqualificam e te acusam de maneira sistemática.
No meu caso, começa no ano de 2008, quando o governo leva gente para a minha região e há confrontação e morrem camponeses, como fruto da violência que foi gerada pelo governo.
Eu estava em La Paz, era chefe da oposição. Não tinha nada a ver com o governo departamental.
Não estava nem perto. Tenho uma propriedade na região desde os anos 80, mas ela não foi invadida. Poderia dizer o contrário, mas não seria verdadeiro. Tem 1.150 hectares e umas 650 cabeças de gado. É pequena.
O governo começa a inventar processos de todo tipo. Inventam uma acusação de que eu causei dano ao Estado pela venda de um terreno.
A liberdade é indissociável do socialismo e do anarquismo
Totalmente falso. Fui condenado à revelia apenas porque empresas destinaram recursos para uma universidade pública, que formou milhares de estudantes.
O juiz que primeiro me julgou disse que deveriam fazer um monumento para mim. Abriram 22 processos. Dez eram por desacato. Havia cerco judicial.
Descobriram-se três ou quatro planos para me assassinar. Detiveram-me por 45 dias, violando a Constituição, em prisão domiciliar. Vêm de maneira mais seguida as ameaças de mortes, chegando a um ponto insuportável. Então se descobre um plano para me sequestrar.
Isso me levou a tomar uma decisão do pedido de asilo. Eu estava atacando os interesses do verdadeiro setor forte do governo Evo Morales, que é o tema da droga.
Hoje em dia, retornar à Bolívia é pouco menos que um suicídio para mim. Se você escuta Morales, como ele fala, o pouco respeito que tem pelas pessoas, tenha a plena segurança de que voltar à Bolívia [para mim] é uma sentença de morte.
O isolamento na embaixada era insuportável. Em algum momento, disse "bom, por que não termino isso de uma vez?". Na primeira vez parece estranho, porque sou cristão. Mas à medida que o tempo passa, isso volta à mente, "seria tão simples e amanhã tudo estaria acabado". Saboia começou a se preocupar. E então ele me disse ter três opções, e a terceira era cumprir os objetivos que havia dito a presidente Dilma [quando da concessão do asilo], que era preservar minha vida.
O episódio do resgate fantástico foi, como sempre, abordado nos espaços virtuais da esquerda chapa-branca com mentalidade de Fla-Flu. O diplomata Eduardo Sabóia tinha de ser satanizado a qualquer preço e as trapalhadas do Governo, justificadas a qualquer preço. Vai daí que a postura deste blogueiro provocou estranheza, por estar desconectada da linha justa, a única aceitável.
Então, em meio a tantas e tão densas trevas, é importante destacar um artigo que produziu alguma luz: Uma diplomacia estudantil (clique p/ acessar), do jornalista e historiador Elio Gaspari.
Principalmente este trecho, que ajuda a entender a linha adotada cá neste humilde espaço em que ainda se cultiva o pensamento crítico (o qual --pasmem!-- era uma bandeira de boa parte da esquerda em 1968, antes que fosse reentronizado o maniqueísmo stalinista):
"A maneira como a diplomacia de Lula e da doutora [Dilma] lidaram com o instituto do asilo revela desrespeito histórico com um mecanismo que protegeu centenas de brasileiros perseguidos por motivos políticos. Ele ampara gregos e troianos. Em 1964, brasileiros asilaram-se na embaixada boliviana. Anos depois, oficiais golpistas bolivianos asilaram-se na embaixada brasileira e o governo esquerdista do general Juan José Torres deu-lhes salvo-condutos em 37 dias.
Carlos Lacerda asilou-se por alguns dias na embaixada de Cuba e João Goulart pediu asilo territorial ao Uruguai. Em poucos meses, o governo do marechal Castello Branco concedeu salvo-condutos a todos os asilados que estavam em embaixadas estrangeiras.
Já o do general Médici, vergonhosamente, fechou as portas de sua representação em Santiago nos dias seguintes ao golpe do general Pinochet e dezenas de brasileiros foram obrigados a buscar a proteção de outras bandeiras.
...O direito de asilo é uma linda tradição. Não se deve avacalhá-lo".
O rolo compressor dos portais, sites e blogues alinhados incondicionalmente com o governo federal só leva em conta um objetivo imediato e menor: obter alguma vantagem nas escaramuças da interminável rinha travada com os partidos de direita, disputando nacos de governo sob o capitalismo (e sem nenhuma disposição real de dar fim ao pesadelo capitalista!).
Este velho guerreiro que vos escreve continua com seu olhar, sua mente e suas esperanças voltadas para o dia em que, afinal, a esquerda recolocará em pauta a tomada do poder e a transformação em profundidade da sociedade brasileira, ao invés de continuar se conformando com o papel de dócil gestora do capitalismo brasileiro.
E, como lutas de verdade (não essas briguinhas de compadres entre PT e PSDB) expõem seus participantes a muito perigo, é importantíssimo para nós que seja mantida a integridade de institutos como o do asilo político. Em circunstâncias dramáticas como as da resistência à ditadura militar, o direito de asilo geralmente faz a diferença entre a vida e a morte dos que travam o bom combate.
O que valem, como seres humanos, os pugilistas cubanos que queriam ficar ricos na Europa ou o tal senador boliviano acusado de corrupção? Muito pouco, talvez nada. Exatamente por isto, nem de longe justificam que, deixando de protegê-los quando nos cabia tal papel, forneçamos pretexto para que, futuramente, governos de outras tendências políticas neguem proteção a nossos companheiros de ideais --que, estes sim, valem muito!
O Caso Battisti foi, simplesmente, a maior vitória da esquerda brasileira de um bom tempo para cá, depois de uma infinidade de episódios semelhantes que terminaram muito mal para os militantes revolucionários, aqui e alhures. Os porta-vozes da direita cansaram de bater na tecla de que o Brasil deveria dar ao escritor italiano o mesmo tratamento que deu aos boxeadores caribenhos, despachando-o sumariamente para Berlusconi.
Com Lula no poder, tal ladainha não resultou. E se fosse José Serra o presidente? Decerto correria a vergar-se à imposição italiana, pois foi esta a posição que manifestou em várias entrevistas. E talvez usasse, como justificativa, exatamente o mau precedente que abrirmos para agradar aos irmãos Castro.
Então, eu sempre tenho em mente que a rua é de duas mãos, antes de me posicionar. O que hoje nos beneficia pode se voltar contra nós no futuro, como um bumerangue.
E, francamente, se salvar um Roger Pinto qualquer é o preço a pagarmos para garantir a salvação do próximo Battisti, eu o pagaria mil vezes!