sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

PARA REINALDO AZEVEDO, USAR PISTOLA CONTRA CANIVETE É "LEGÍTIMA DEFESA"

"Tenta-se linchar um policial que cometeu a ousadia da legítima defesa", grasnou na Folha de S. Paulo (acesse aqui) o Reinaldo Azevedo, corvo menor de uma época menor. Por mais que arrepie as penas, bata as asas e faça escândalo no milharal, nunca chegará a Carlos Lacerda, o corvo-mor. É só uma imitação barata.

A legítima defesa a que ele se refere é a de um brutamontes que, supostamente ameaçado com canivete por um manifestante (o jovem Fabrício Chaves alega só tê-lo sacado depois de receber os disparos), efetivamente mandou bala no dito cujo, colocando-o em coma e causando-lhe a perda de um testículo. Até os colegas de farda consideraram um exagero... evitando, por coleguismo, utilizar a palavra covardia.

Eu, que não tenho papas na língua, afirmo com todas as letras: quem usa pistola .40 contra canivete, ou tem instinto assassino, ou é um grandessíssimo covarde. Para os que não estão familiarizados com o assunto, esclareço tratar-se de uma arma tão potente que seu impacto necessariamente provoca a queda da pessoa atingida, colocando-a à mercê do atirador.

Já canivete não passa de um brinquedinho para ginasiano exibir à namorada e se pavonear. Aos 13 anos eu já tinha um, com considerável atraso em relação aos meninos da favela do bairro, que ganhavam o primeiro lá pelos 8 anos.  

Mesmo sendo sexagenário eu me defenderia facilmente de um atacante com canivete; a pontapés, já que minhas pernas teriam alcance muito maior que o braço do inimigo, impedindo sua aproximação. Afora o fato de que havia outros PMs por perto, para intervirem se necessário.

Fez-me lembrar a charge antológica de Ziraldo, no auge da guerra do Vietnã: vários super-heróis estadunidenses a fugirem em carreira desabalada, pânico estampado em seus rostos, de um minúsculo vietcong com sandálias e chapéu em forma de cone.

Olhando as fotos do RA, qualquer um percebe que ele não sabe nadinha da realidade das ruas. É um rato de biblioteca do pior tipo, pois só se alimenta de livros reaças.

E está sempre caindo no ridículo ao se manifestar sobre o que se passa fora de sua redoma -como quando, orgulhosamente, anunciou ter denunciado à Polícia o IP dos computadores de internautas que lhe estariam mandando mensagens ameaçadoras.

Ele ignora, ou finge ignorar, que todos os articulistas polêmicos as recebemos aos montes, sem jamais levarmos a sério esses trotes, cujos autores geralmente não passam de adolescentes metidos a bestas.

Também intrigou com as otoridade uma leitora que lhe enviou e-mail queixando-se de sua perseguição ao José Genoíno e conjeturando que o RA poderia sofrer retaliação "de alguém mais exaltado" caso o petista morresse na prisão. Isto nem ameaça é, salvo para quem passa a vida transtornado pela paúra.

Dá a impressão de que semana sim, outra também, ele vai depositar tais ninharias na mesa do delegado. Será como uma espécie de contrapartida ao seus protetores que ele os defende incondicionalmente, mesmo nos episódios em que sua atuação é indefensável? 

Chega ao ponto de desqualificar todos os que criticam a truculência dos agentes do Estado, rotulando-os de integrantes de uma hipotética Frente Única de Difamação da Polícia

Deveria intitulá-la, isto sim, de Frente Ampla, pois a péssima imagem das Polícias Militares não é apenas consensual entre os brasileiros civilizados; ela corre mundo, a ponto de até o Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas haver recomendado sua extinção.

Dentre outros motivos por serem useiras e vezeiras em maquilarem "execuções extrajudiciais", fazendo com que as mortes pareçam ter resultado de resistência à prisão.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

COPA DAS MARACUTAIAS: "JORNALISMO NÃO É ARMAZÉM DE SECOS E MOLHADOS"


Em dia inspirado, o comentarista esportivo Juca Kfouri (que foi aliado da ALN durante os anos de chumbo, como quadro de apoio do saudoso Joaquim Câmara Ferreira) dissecou o não vai ter Copa e a reação absolutamente histérica e intolerante da rede virtual petista contra quem discorda das maracutaias que políticos e cartolas embutiram na festa do futebol. 

A caixa de música da esquerda palaciana trata os black blocs e os indignados com virulência comparável à dos textos de Nelson Rodrigues e outros reaças contra os estudantes combativos de 1968. 

Pior: desqualifica-os e os sataniza com uma retórica tão falaciosa que me fez lembrar não só os propagandistas da ditadura militar, como também sua inspiração maior, a máquina de propaganda criada por Joseph Goebbels. 

Fico pasmo ao ver pessoas que pretendem ser de esquerda derramando profusas lágrimas de crocodilo sobre o fusca queimado de um infeliz que pegou as sobras do protesto ocorrido no aniversário da cidade de São Paulo e não dando a mínima para o manifestante baleado estupidamente por um PM na mesma ocasião. Um perdeu um carro velho, o outro chegou a estar em coma e quase perdeu a vida. Quem deveria importar mais para nós? 

Recomendando a leitura na íntegra do artigo do Kfouri (acesse aqui), reproduzo os principais parágrafos:
"A Copa brasileira não será a 'Copa das Copas' como quer o governo, assim como o Brasil não é o país do futebol como supõe a Fifa.
Ao optar pelo megalomaníaco ao fazer a Copa em 12 cidades quando deveria tê-la limitado às oito exigidas pela Fifa, a Copa do Mundo no Brasil perdeu a oportunidade de ser a Copa do Mundo do Brasil.
Denunciar os elefantes brancos, o gasto desmedido de dinheiro público com estádios em vez de investimentos nas sedes, as remoções arbitrárias, por mais que irrite o jornalismo chapa-branca, é obrigação de quem, como dizia Millôr Fernandes, sabe que jornalismo é oposição, não armazém de secos e molhados.
Mentir e distorcer como fazem os que escondem 502 anos de História do Brasil, como se o país tivesse apenas 12, são outros 500, a outra face da mesma moeda".

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O PRIMEIRO TOUR DE FORCE DO MESTRE SERGIO LEONE

Atração desta 5ª feira (29) no blogue, Por uns dólares a mais (1965) foi o primeiro grande filme do mestre Sergio Leone.

Como expliquei na minha retrospectiva sobre o western italiano (acesse aqui), ele lançara o novo gênero transpondo para o velho Oeste uma história de samurais. Muitos cineastas vieram atrás. Então, seu novo filme era uma espécie de desafio, a oportunidade de separar o homem das crianças: tinha de provar que seu estrondoso sucesso inicial não fora apenas um golpe de sorte. Eis algumas das minhas considerações naquele artigo:  
"...em Por um punhado de dólares ele introduzira a figura do anti-herói no centro da trama; a amoralidade básica dos tipos e das situações; a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação; a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
Depois, em Por uns dólares a mais, todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.
A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, em vez de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço do antigo mocinho".
Se a idéia, em si, já era ótima, a execução resultou ainda melhor, em função do apropriadíssimo ator que ele escolheu para o papel de segundo anti-herói (o primeiro continuou sendo Clint Eastwood, novamente na pele do Estranho Sem Nome): Lee Van Cleef.

Ao contrário de Eastwood, que não fora muito longe em Hollywood como astro (salvo num seriado de TV), Van Cleef já tinha longa e bem-sucedida carreira... como coadjuvante. Atuara em westerns memoráveis como Matar ou morrer, Honra a um homem mau, Sem lei e sem alma, O homem dos olhos frios, Estigma da crueldade e O homem que matou o facínora.

Como no caso de Eastwood (e, mais tarde, de James Coburn e Eli Wallach), o olho clínico de Leone detetou em Van Cleef o potencial para voos maiores; e, com seu toque de Midas, elevou a carreira do dito cujo a um patamar bem mais alto, a partir de seus inesquecíveis desempenhos em Por uns dólares a mais e Três homens em conflito. [Van Cleef teve muita sorte ao trocar temporariamente Hollywood pela Cinecittà, pois também Sergio Sollima e Tonino Valerii levantaram a bola para ele marcar belos pontos, respectivamente em O dia da desforra e O dia da ira.]

E, se Por um punhado de dólares fora o filme-do-astro-único (Eastwood), Por uns dólares a mais teria, além dele e de Van Cleef, outra grande atração, o vilão genial, psicótico e drogado interpretado por Gian-Maria Volonté. Não sei dizer quem encarnou melhor seu personagem; mas, justiça seja feita a Volonté, coube a ele a composição mais difícil.

Klaus Kinski também está no elenco, só que sem o carisma que logo se vislumbraria em Gringo (d. Damiano Damiani, 1966), para irromper com força total em Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972).

A história é a de dois caça-prêmios (Eastwood e Van Cleef) que unem forças para uma empreitada complicada, mas muito rentável: capturar/eliminar a quadrilha do Índio (Volonté). Só que a motivação não é apenas mercenária: há uma vingança no final da linha.
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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

BESTIALIDADE POLICIAL JUSTIFICA IMPEACHMENT DOS GOVERNADORES

Um comentarista incógnito do CMI, em tom de galhofa (vide aqui), fez uma leitura totalmente equivocada do meu artigo As principais ameaças à Copa não vêm das ruas, mas sim dos gabinetes, afirmando que a minha preocupação com blecautes e violência policial se restringiria ao período do Mundial da Fifa.

Como se eu, várias vezes, já não houvesse recriminado os péssimos serviços públicos prestados aos brasileiros; e como se eu não fosse um dos mais constantes e incisivos críticos da truculência repressiva.

Respondi ser o meu artigo "uma resposta aos que, mesmo um PM tendo baleado estupidamente um manifestante, preferem assestar suas baterias contra os manifestantes e poupar os PMs". E acrescentei:
"Aliás, [são] os mesmos que estão ESCONDENDO a informação de que a petição on line pró Snowden é, provavelmente, a que alcançou maior número de adesões até hoje no Brasil. ESTA INFORMAÇÃO SERIA OBRIGATÓRIA PARA QUALQUER SITE OU BLOGUE DE ESQUERDA. Minha dúvida é: os espaços virtuais petistas ainda são espaços virtuais de esquerda? Temo que não".
Para minha surpresa, uma companheira cujo passado de lutas é dos mais expressivos, veio em socorro do humorista anônimo. Como ela merece respeito, alonguei-me um pouco no esclarecimento da questão. 

Acredito que valha a pena reproduzir alguns trechos aqui, até porque são elucidativos e servem como uma reafirmação de princípios: 
"A minha intenção foi, UNICA E EXCLUSIVAMENTE, a de confrontar a rede virtual petista, que está satanizando todos os que protestam contra a Copa e insinuando que é a mão oculta da direita que move os cordéis. 
Para a esquerda palaciana, o 'não vai ter Copa' de alguns adolescentes bobinhos é pior do que a truculência bestial das polícias estaduais (além de consentir, pois não diz uma palavra contra, na possível participação das Forças Armadas em atividades repressivas durante a Copa). 
O que houve de mais chocante no dia 25 foi o disparo de um PM contra um civil que não portava arma de fogo; até o jornal da ditabranda, em editorial, critica esta aberração; no entanto, em espaços virtuais tidos como de esquerda se lamenta mais o fulano azarado que teve seu fusca queimado do que o manifestante que quase foi executado.
Eu contrapus que quem realmente está ensejando os piores cenários para a Copa é o Governo Federal, ao omitir-se diante dos péssimos serviços prestados pelo Poder Público ou pelas companhias privadas às quais delegou a prestação dos serviços de que antes se incumbia diretamente; e ao fechar os olhos à violência desenfreada dos fardados. 
Se tivéssemos uma esquerda de verdade no Brasil, o Jânio de Freitas não estaria falando com as paredes ao lembrar que a complacência dos governadores com os desmandos de suas polícias justifica até impeachment: 'Os governadores e seus prepostos para a segurança pública não podem instaurar ambientes de guerra civil, com suas armas inadmissíveis e ferocidade injustificável permitidas, senão estimuladas, como se fossem normais na democracia. Essa prática é uma transgressão ao Estado de Direito e como tal pode ser tratada, por meio de impeachment'. 
O impeachment, aliás, a que Geraldo Alckmin faz jus desde o episódio do Pinheirinho, quando um idoso barbarizado pela repressão foi por ela sequestrado e mantido longe da família e da imprensa, para não gerar noticiário adverso. Como acabou morrendo logo em seguida, cabia, sim, a responsabilização do Alckmin e de sua Gestapo por sequestro e assassinato. Eminentes juristas endossaram esta tese, mas a esquerda palaciana não deu a mínima, pois prefere engolir os sapos mais indigestos do que colocar em risco a maldita 'governabilidade'..." 
Finalmente, correndo o risco de eu também, e mais uma vez, falar com as paredes (como quando escrevi este artigo), destaco: de tudo que está colocado neste post, o mais importante é a proposta de impeachment dos governadores de Neandertal, começando pelo Alckmin. 

Nem que fosse por desencargo de consciência, deveríamos fazer o que é justo, de preferência ao que é conveniente (ou menos arriscado). É claro que dificilmente resultaria, com os Legislativos que temos. Eles são o horror, o horror!

Mas dormiríamos melhor sabendo que nós -pelo menos nós!- tentamos deter a escalada do retrocesso e da barbárie.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

AS PRINCIPAIS AMEAÇAS À COPA NÃO VÊM DAS RUAS, MAS SIM DOS GABINETES

A AES, cuja concessão para distribuir energia elétrica em São Paulo há muito deveria ter sido extinta por não estar honrando os compromissos assumidos, deixou, pela enésima vez, a principal cidade da América do Sul às escuras na semana passada (vide aqui). E se isto voltar a acontecer durante a Copa, expondo-nos a ridículo mundial?

Anteontem (25/01), a Polícia Militar de São Paulo novamente baleou um civil sem justificativa aceitável, colocando-o em coma. A alegação de que o coitado ameaçava um soldado com estilete é risível e é a de sempre; desde a ditadura militar, a PM de SP é mundialmente conhecida como uma corporação que maquila execuções em autodefesa, tendo inclusive sido, por este motivo, energicamente recriminada pela ONU (que recomendou sua extinção, conforme pode ser visto aqui).

E se manifestantes forem barbarizados durante a Copa, para os repórteres do mundo inteiro relatarem e os fotógrafos do mundo inteiro fotografarem?

O perigo aumenta com a cartilha repressiva lançada sorrateiramente pelo ministro da Defesa no finalzinho de 2013 (vide aqui), abrindo a possibilidade de que as Forças Armadas venham a ser acionadas para reprimir black blocs, indignados e rolezeiros. Aí as mortes de civis serão praticamente uma certeza; faz parte da cultura militar esmagar o inimigo, o que é catastrófico quando se lida com cidadãos do próprio país. Deus nos acuda!

A rede virtual petista propaga incessantemente teorias da conspiração relativas ao Mundial; parte sempre do pressuposto de que o inferno são os outros. 

Mas, o maior risco de avacalhação provém dos péssimos serviços prestados aos brasileiros pelos governos e pelas companhias privatizadas.

E o maior risco de desastre total, da truculência dos efetivos policiais que tentarão sufocar violentamente as manifestações de desagrado, ao invés de administrarem o problema com um mínimo de sensatez.  

De tudo que de ruim poderá acontecer, o pior vai ser se fardados assassinarem civis, horrorizando as pessoas civilizadas de países cuja tradição não é autoritária como a nossa.

As principais ameaças à Copa não vêm, portanto, das ruas, mas sim dos gabinetes em que omissos se omitem e serpentes chocam seus ovos.

domingo, 26 de janeiro de 2014

PETIÇÃO PRÓ ASILO A SNOWDEN NO BRASIL ATINGE 1 MILHÃO DE ADESÕES


Na manhã deste domingo, 26, a petição on line em favor da concessão de asilo no Brasil a Edward Snowden ultrapassou a impressionante marca de 1 milhão de assinaturas, conforme pode ser constatado aqui.

É um patamar dificílimo de ser alcançado, atestando, de forma cabal, que os melhores brasileiros não engoliram as desculpas esfarrapadas do nosso governo, que tem todos os motivos para receber Snowden de braços abertos (principalmente depois que a presidenta da República e a Petrobrás se descobriram espionados pelos estadunidenses com a mais chocante sem-cerimônia ) e apenas um para não fazê-lo: seu abjeto servilismo em relação aos EUA, seu medo de represálias com que os italianos também nos ameaçaram no Caso Battisti e depois deixaram pra lá. 

Daquela vez, pagamos para ver e desmascaramos o blefe. Desta, estamos fugindo como coelhos assustados. Por quê? 

Desde a primeira ocasião em que nossas autoridades saíram vexaminosamente pela tangente, há mais de meio ano (vide aqui), tenho sido um dos mais ferrenhos defensores de um posicionamento soberano por parte do Itamaraty e de Dilma Rousseff, bem como um dos mais veementes críticos destas demonstrações de vassalagem que eu jamais, JAMAIS, esperaria de um governo do PT -mesmo levando em conta a descaracterização que o partido já sofreu relativamente à sua identidade inicial, aos ideais em nome dos quais foi fundado, em fevereiro de 1980.

Está lá no manifesto de fundação, com todas as letras:
"Os trabalhadores querem a independência nacional. Entendem que a Nação é o povo e, por isso, sabem que o país só será efetivamente independente quando o Estado for dirigido pelas massas trabalhadoras". [Se, enquanto tal dia não chega, abdicarmos das mais ínfimas afirmações de independência, que exemplo estaremos dando às massas trabalhadoras?!] 
Também está lá, preto no branco:
"O PT pretende ser uma real expressão política de todos os explorados pelo sistema capitalista. Somos um Partido dos Trabalhadores, não um partido para iludir os trabalhadores". [O que são os subterfúgios para bater a porta na cara do Snowden, se não formas de iludir os trabalhadores e todos os brasileiros ciosos da soberania nacional?]
Já somos um milhão de cidadães exigindo que, pelo menos neste caso, o PT no governo não traia os princípios trombeteados pelo PT no palanque.

Seremos muito mais, se o governo continuar se comportando como avestruz.

DILMA, AJA COMO A COMPANHEIRA WANDA AGIRIA: DÊ ASILO AO HEROICO EDWARD SNOWDEN!!!

sábado, 25 de janeiro de 2014

SÃO PAULO PODE PARAR, SIM! A AES APAGÃOPAULO CONSEGUIU.

Durante o Caso Battistti, era comum eu ser tirado do ar por hackers fascistas; tanto que acabei aprendendo o caminho das pedras e restabelecia o blogue quase que instantaneamente.

Mas, defender-me do descaso de uma multinacional é mais difícil. A AES, sediada nos EUA, conseguiu a proeza de me manter afastado do micro por 26 horas seguidas.

Os tucanos lhe entregaram numa bandeja o serviço de distribuição de energia elétrica na cidade de São Paulo e em parte da região metropolitana. Presta um serviço simplesmente deplorável.

Nesta 6ª feira (24), após um temporal que provocou a queda de muitas árvores e afetou boa parte da rede, a AES Eletropaulo fez os reparos com angustiante morosidade, comprovando mais uma vez que não possui estrutura para administrar as emergências do seu ofício. Será hilário se sua (in)competência for posta à prova durante a Copa de Mundo...

Pior ainda é a total irresponsabilidade com que sua central de atendimento vai garantindo que o fornecimento será restabelecido num horizonte próximo (no máximo, três horas adiante), sem que a promessa seja honrada. 

No meu edifício, foram uns oitos chutes para fora do estádio. Levou um dia para a equipe de reparos dar as caras no bairro e nem duas horas para solucionar o problema; enquanto isto os clientes, justificadamente indignados, ainda por cima eram feitos de otários. 

Ora, quem liga para pedir tal informação, geralmente vai agir em função dela; sabendo-se condenados a espera tão longa, muitos se refugiariam em casas de parentes, amigos, ou mesmo em hotéis. Ainda mais os que têm crianças pequenas.

Então, a desinformação leviana e contumaz, neste caso, é, moralmente, criminosa; e, legalmente, deveria ser considerada delituosa e punida como tal. Meras multas não adiantam, como os paulistanos estão carecas de saber.

A AES há muito concluiu ter feito um mau negócio, então nem de longe investe o necessário, enquanto tenta, sem sucesso, passar o abacaxi adiante. O governo federal se omite. A agência reguladora não passa de uma agência apaziguadora.  E a população da maior cidade da América do Sul é tratada a pontapés.

Se queres um monumento à privataria tucana, eis o ideal: a AES Apagãopaulo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O FILME SEMPRE LEMBRADO PELA PARTIDA DE XADREZ COM A MORTE

Ingmar Bergman é um dos maiores cineastas do século passado, mas tenho alguma incompatibilidade estética com a maioria dos seus filmes. Não dão liga comigo.

O que não me impede de gostar muito de O Rosto (1958) até o finalzinho, que até fez sentido (artistas, afinal, não prevalecem sobre a classe dominante em nossa sociedade), mas quebrou meu barato; de O ovo da serpente (1977) enquanto mostra os efeitos da hiperinflação sobre a Alemanha, só que, ao enveredar pela gênese do nazismo, o mestre (na minha humilde opinião) excedeu-se nos clichês; e de A hora do amor (1971), sem restrições.

O sétimo selo (1956), o filme que hoje vocês podem ver no blogue, apresenta a Idade Média exatamente como eu a concebo: um enorme retrocesso na escada da civilização, um tempo de trevas, fanatismo, massacres e pestes. E é inesquecível a partida de xadrez travada pelo cavaleiro com a Morte, que vai se desenvolvendo a cada encontro entre eles; com isto, ele ganha pelo menos um tempo a mais, afora a possibilidade remota de vencer a Ceifadora e continuar vivo. . 

Não o considero perfeito -há trechos algo piegas-, mas é um grande filme, que, decerto, satisfará aos leitores deste blogue (espero...).

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

DE QUE LIXEIRA SAIU ESTA CARTILHA DE REPRESSÃO DITATORIAL?

Vamos supor que você fique sabendo da existência de um manual para a intervenção das Forças Armadas em situações que não configuram, nem de longe, o enfrentamento de inimigos externos (a missão que a elas compete numa verdadeira democracia).

Um manual que contenha tópicos como estes:
  • "Operação de Garantia da Lei e da Ordem é uma operação militar conduzida pelas Forças Armadas, de forma episódica, em área previamente estabelecida e por tempo limitado, que tem por objetivo a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio... 
  • "Forças Oponentes são pessoas, grupos de pessoas ou organizações cuja atuação comprometa a preservação da ordem pública ou a incolumidade das pessoas e do patrimônio... 
  • "A decisão do emprego das Forças Armadas  na garantia da lei e da ordem compete exclusivamente ao Presidente da República, por iniciativa própria, ou em atendimento a pedido manifestado por quaisquer dos poderes constitucionais...
  • "...pode-se encontrar, dentre outros, os seguintes agentes como Forças Oponentes: a) movimentos ou organizações; c) pessoas, grupos de pessoas ou organizações atuando na forma de segmentos autônomos ou infiltrados em movimentos, entidades, instituições, organizações... 
  • "...podem-se relacionar os seguintes exemplos de situações a serem enfrentadas durante uma Operação de Garantia da Lei e da Ordem: c) bloqueio de vias públicas de circulação; d) depredação do patrimônio público e privado; e) distúrbios urbanos; f) invasão de propriedades e instalações rurais ou urbanas, públicas ou privadas; g) paralisação de atividades produtivas; h) paralisação de serviços críticos ou essenciais à população ou a setores produtivos do País; i) sabotagem nos locais de grandes eventos; e j) saques de estabelecimentos comerciais.
  • "...podem-se relacionar as seguintes ações a serem executadas durante uma Operação de Garantia da Lei e da Ordem: c) controlar vias de circulação urbanas e rurais; d) controlar distúrbios; e) controlar o movimento da população; f) desbloquear vias de circulação; h) evacuar áreas ou instalações; l) impedir o bloqueio de vias vitais para a circulação de pessoas e cargas; m) interditar áreas ou instalações em risco de ocupação; n) manter ou restabelecer a ordem pública em situações de vandalismo, desordem ou tumultos; r) prover a segurança das instalações, material e pessoal envolvido ou participante de grandes eventos; restabelecer a lei e a ordem em áreas rurais; e v) vasculhar áreas"
Você, claro, pensará tratar-se de um documento encontrado entre as imundícies da lixeira da História, originário da Alemanha de Hitler, da Itália de Mussolini, do Chile de Pinochet ou, mesmo, do Brasil de Médici.

Difícil mesmo seria você adivinhar que ele foi publicado no site do Ministério da Defesa brasileiro, no apagar das luzes de 2013, com o aval e a assinatura do ministro incumbido de defender e preservar a democracia que o País tanto sofreu para reconquistar (um senhor chamado Celso Amorim).

Parece que a paúra que lhes inspiram os indignados e a garotada dos rolezinhos, neste ano de Copa do Mundo e de eleição presidencial, está transtornando nossos governantes a ponto de eles abdicarem da mais comezinha cautela (para não falarmos do próprio instinto de sobrevivência!).

Será que não passa pela cabeça desses obtusos burocratas a possibilidade de um futuro presidente da República fazer o pior uso possível de tal cartilha de repressão ditatorial?!

Os signatários do Ato Institucional nº 5, dentre eles o Delfim Netto e o Jarbas Passarinho, também supunham que aquelas medidas totalitárias serviriam mais como espantalho, para intimidar e dissuadir os resistentes, do que para serem neles hediondamente aplicadas. Serão amaldiçoados até o final dos tempos por causa dos horrores que decorreram de suas insensatas assinaturas. 

Ai de quem escancara os portões do inferno, Amorim!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O CINE BELAS ARTES FOI SALVO. PENA QUE TANTOS OUTROS MORRERAM!

Depois de uma luta de três anos, o movimento de apoiadores do Belas Artes conquistou uma grande vitória: o cinema será reaberto, com apoio da Caixa Econômica Federal, até o próximo mês de maio.

Localizado na valorizadíssima esquina da rua Consolação com a avenida Paulista, o espaço era muito cobiçado pelos servos da grana que "destrói coisas belas", como bem definiu o Caetano Veloso.

Para evitar mais esta destruição, os defensores das coisas belas recorreram à abertura de processos de tombamento (conseguindo que a fechada, pelo menos, fosse tombada pelo patrimônio histórico estadual) e de uma CPI na Câmara Municipal, a audiências na Assembleia Legislativa e a propostas para o Plano Diretor Estratégico da cidade, além dos costumeiros abaixo-assinados

Com a posse de Fernando Haddad como prefeito de São Paulo em 2013, tudo ficou mais fácil. Os detalhes da devolução do cinema à cidade serão anunciados no próximo sábado (25), aniversário de São Paulo.

Como bom cinéfilo, meus sentimentos são de gratidão para com o movimento que salvou o Belas Artes.

Espremido e jogado fora: o fim do patrocínio
de um banco quase matou o Belas Artes.
Mas, não seria o caso de a cidadania se mobilizar contra a desumanidade capitalista em toda e qualquer circunstância, não apenas em situações específicas?

Cada cinema fechado nas últimas décadas significava algo para muitas pessoas. Nada se fez para os salvar. Então, houve um certo ranço elitista nesta mobilização única.

Cada vez que passo pelo prédio que abrigou o cine Aliança das minhas matinês longínquas, sinto um aperto no coração. Ninguém lutou por ele na Mooca. Os frequentadores não eram intelectuais, mas sim pessoas comuns da baixa classe média. Seus sonhos e sua nostalgia não mereciam respeito?

De resto, vale esclarecer que, embora seja um cinema que marca a memória cultural da cidade, o Belas Artes não funcionava desde 1943, como alguns apressados afirmaram.

Houve uma confusão com o cinema ao lado, que era Astúrias entre 1931 e 1943, passando então a chamar-se Ritz, enquanto o cine Trianon, verdadeiro antecessor do Belas Artes, só seria aberto em 1956.

A Sociedade Amigos da Cinemateca, constituída em 1962, inicialmente exibia suas pérolas cinematográficas numa pequena sala da rua Aurora, constrangedoramente próxima de uma zona de meretrício. Lembro-me de nela ter assistido, p. ex., a O Homem do Prego (1964, d. Sidney Lumet).

Prestes a ser inaugurado, em 1967.
Surgiu uma oportunidade de se transferir para um local mais apropriado e a SAC não bobeou, assumindo o espaço do ex-Trianon e nele instalando o Belas Artes, que logo se tornou o principal cinema de arte de Sampa, eclipsando o Bijou, o Marachá Augusta, o Cosmos 70, etc.

A atração inaugural, em julho/1967, foi Os russos estão chegando! Os russos estão chegando! (1966, d. Norman Jewison).

Enfim, o cultuado cinema que agora terá uma sobrevida, remonta a 1967 -não a 1931, 1943 ou 1956.

E viveu seu grande momento nos idos de 1968, exibindo fitas como A Chinesa (1967, d. Jean-Luc Godard), esmiuçada à exaustão pelas rodas de estudantes, contestadores e  outsiders  em geral que se aglomeravam no bar em frente.

Para quem não sabe, esclareço: trata-se de um filme que entrou em evidência com a chamada  Primavera de Paris, por parecer tê-la antecipado.

Mostra jovens que se isolam durante algum tempo para aprofundarem sua opção revolucionária, entre leituras, discussões, relacionamentos pessoais/amorosos e esboços de uma existência mais livre. Termina com o fim do aprendizado, quando cada um, aclaradas suas dúvidas, direciona-se para a forma de vida e de atuação que lhe é mais afim.

Quanto ao título, não se referia a uma mulher asiática, mas sim à linha chinesa, de Mao Tsé-Tung e seu livrinho vermelho, que então eram tidos como o contraponto ao  revisionismo  soviético...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

PETIÇÃO PRÓ SNOWDEN NO BRASIL LOGO CHEGARÁ A 1 MILHÃO DE SIGNATÁRIOS

"Edward Snowden desistiu de tudo para trazer à luz a operação de megaespionagem feita pelos EUA contra o Brasil e o restante do mundo inteiro. Seu passaporte foi revogado por seu próprio país e agora ele está preso em um limbo jurídico em Moscou, com um visto de um ano de duração. O Brasil, um dos principais alvos da espionagem, deveria oferecer abrigo a alguém que nos abriu os olhos para a vigilância norte-americana indiscriminada e em escala global. É hora de oferecer a Edward Snowden asilo imediato no Brasil!"

Esta é a justificativa do abaixo-assinado lançado por David Miranda, em favor do asilo de Edward Snowden no Brasil. Na manhã desta 3ª feira (21), o número de aderentes já está em 915 mil. Quem quiser colaborar para que seja atingido o objetivo de 1 milhão de signatários, clique aqui.  

Como bem disse o estimado companheiro Arthur José Poerner (um dos gigantes da resistência jornalística à ditadura militar), em mensagem que enviou ao governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, pedindo sua participação nesta cruzada:

"O ex-agente de informação Edward Snowden já é um benfeitor da Humanidade, muito mais merecedor do Prêmio Nobel da Paz do que o já agraciado presidente Obama, como o mundo inteiro começa, aos poucos, a reconhecer. E os excessos totalitários da espionagem norte-americana, que ousam violar até mesmo a privacidade da nossa presidenta da República, constituem gravíssima afronta à soberania nacional brasileira.

Não há, portanto, qualquer razão para negar ao Snowden generosa acolhida, inclusive de acordo com a histórica tradição de asilo político do Itamaraty. Seria, além disso, mais uma prova cabal de que está em pleno curso o processo de consolidação da nossa democracia. Tucídides já dizia, mais de quatro séculos antes de Cristo, que o segredo da felicidade é a liberdade; e o da liberdade, a coragem, Precisamos ter, na política externa, a mesma coragem que tivemos na resistência à ditadura".

Quanto a mim, repito a indagação que lancei há meio ano, quando o Itamaraty ignorou o primeiro apelo de Snowden ao governo brasileiro. Curta e grossa:

"Teremos voltado, em pleno governo do PT, a ser quintal dos EUA?!"

P.S.: O TOTAL DE 1 MILHÃO DE ADESÕES FOI ALCANÇADO 
POR VOLTA DAS 9h30 
DO DOMINGO, 26!!! 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O MELHOR FILME SOBRE A NADA SANTA INQUISIÇÃO...

...é, indiscutivelmente, este Giordano Bruno (d. Giuliano Montaldo, 1973) que o blogue disponibiliza, completo e legendado, na janelinha abaixo. 

Ele era um dos pensadores mais avançados do século 15, defendendo, p. ex., a tese de que o universo seria composto por uma infinidade de estrelas e planetas, com a existência de vida inteligente não se restringindo à Terra.

Montaldo mostra sua via crucis de maneira exemplar e contundente. Devo ressalvar, contudo, que as torturas a ele impostas pela Inquisição e a execução de GB são chocantes demais para quem tem estômago fraco. Causam pesadelos.

Volonté tem outra das suas atuações memoráveis. É difícil dizer se ele ficou melhor como GB ou como Bartolomeo Vanzetti, no outro filme de Montaldo mais lembrado pelos cinéfilos brasileiros. 

Obs. um comentarista me avisou que o link para o Youtube não está mais ativo. Então, tirei do ar a janelinha que se tornou inútil, e lá não há outro para o substituir. 

Quem sabe baixar torrentes, contudo, tem o download do filme e da legenda disponibilizados no ótimo site Filmes Épicos. É só clicar aqui.

domingo, 19 de janeiro de 2014

O BLOGUE ORGULHOSAMENTE APRESENTA UM FILME SOBRE A COLÔNIA CECÍLIA


O filme La Cecilia (d. Jean-Louis Comolli, 1975) resgata um episódio histórico pouco conhecido entre nós, embora aqui transcorrido: a implantação de uma colônia rural no Paraná, por parte de anarquistas italianos.

O experimento durou cerca de quatro anos, entre 1890 e 1893. Houve muito entusiasmo no início, mas depois foram aflorando os problemas que acabariam levando à extinção da colônia. Eis alguns deles:

  • a contribuição desigual de citadinos e camponeses, pois a produtividade dos primeiros era inferior. Deveriam receber a mesma fração dos frutos do trabalho, conforme os ideais igualitários? Isto não significaria uma espécie de proletarização dos que produziam mais por estarem acostumados a lidar com a terra? De outra parte, se os lavradores fossem melhor aquinhoados do que os outros, não estaria sendo reproduzida a escala de valores da sociedade burguesa? Inexistia uma solução que contentasse a todos.
  • a dificuldade de lidarem, no dia a dia, com o conceito do amor livre, uma novidade que incomodava principalmente as colonas de origem camponesa;
  • a absoluta falta de seriedade do Estado brasileiro, que já era patético décadas antes de De Gaulle o haver constatado. O imperador Pedro II, atendendo a pedido do músico Carlos Gomes, doou as terras para a instalação da Cecília, mas, proclamada a República, o seu ato foi sumariamente revogado e os colonos tiveram de pagar pelas terras com parte de sua colheita e trabalhando sem remuneração em obras do governo;
  • a hostilidade dos moradores da região (por sentirem-se prejudicados pela concorrência) e de uma vizinha comunidade polonesa, católica e conservadora;
  • as fases de escassez e de fome, com a consequente ocorrência de doenças decorrentes da desnutrição (problemas passageiros, que, contudo, reforçaram a tendência ao egoísmo por parte dos menos convictos dos ideais anarquistas, gerando nocivas divisões);
  • a tentativa do governo de recrutar os colonos (italianos!!!) para combaterem a Revolução Federalista, o que, inclusive, contrariava seus ideais, pois simpatizavam com os revoltosos.
A Cecília chegou a ter 250 moradores, houve defecções em massa, a chegada de novas levas de pessoas atraídas pela divulgação nos círculos libertários europeus, etc. Alguns desistentes migraram para Curitiba, onde fundaram a Sociedade Giuseppe Garibaldi.

É o que o filme mostra, de forma dramatizada e com evidente simpatia pela causa.

Vale destacar que o elenco, cuja única cara familiar ao público brasileiro é a do ótimo Vittorio Mezzogiorno (No coração da montanha, O processo do desejo, Três irmãos), deu perfeita conta do recado.

Particularmente, eu preferiria uma abordagem menos convencional -como, p. ex., a que o cineasta suíço Alain Tanner deu aos ideais de 1968 no seu extraordinário Jonas, que terá 25 anos no ano 2000

Mas, sendo tão raras as produções que enfocam episódios históricos ligados ao anarquismo, temos mais é de difundi-las e recomendar a sua discussão.

Chega a ser chocante que, em meio a tanta tralha produzida no Brasil, ninguém haja realizado um filme sobre a Colonia Cecília. Nem sobre a importantíssima greve geral de 1917, a primeira com maior abrangência em nosso País, tendo sido dramática, sangrenta, longa e... vitoriosa!    

A tutela do sectário PCB sobre a historiografia de esquerda implicou a minimização tanto da Colonia Cecília quanto da greve de 1917, durante décadas. Quando as bandeiras negras anarquistas foram erguidas nas barricadas parisienses em 1968, o interesse dos historiadores por ambas foi reavivado, daí resultando livros e estudos acadêmicos que dimensionaram melhor sua relevância.

Nosso cinema, contudo, continua desperdiçando estes dois grandes temas. Que cada um teça suas conjeturas sobre os motivos de tão injustificável omissão.


sábado, 18 de janeiro de 2014

LÚCIO FLÁVIO, PASSAGEIRO DE UMA AGONIA QUE PERDURA ATÉ HOJE

Os brasileiros avessos a argentinos que me desculpem mas, depois da morte de Glauber Rocha e do declínio dos grandes nomes do cinema novo, foi o hermano Hector Babenco quem segurou as pontas da cinematografia brasileira em termos de qualidade e relevância, pelo menos até a afirmação de Walter Salles na década de 1990.

E, sem desmerecer Pixote: a lei do mais fraco, O beijo da mulher aranha e Carandiru, sua obra-prima é mesmo Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), que esmiuça a atuação da polícia bandida (ou seja, da polícia que era parceira dos bandidos, fornecendo-lhes armas e proteção em troca de parte substancial do produto dos roubos) e o nascimento do Esquadrão da Morte no Rio de Janeiro. Um filme que contrastou vivamente com as produções cautelosas daquela fase da ditadura.

Ótima direção de Babenco, marcantes atuações de Reginaldo Faria como o bandido Lúcio Flávio Vylar Lirio (um personagem interessante, pois se tornou criminoso após ver sua casa invadida e seu pai humilhado por agentes do Dops durante uma festa de casamento) e de Paulo César Peréio como o policial Moretti (ersatz do famoso Mariel Mariscot), e um tema que continua atualíssimo, pois a associação entre policiais e criminosos só fez aumentar desde então, assim como as ilegalidades e torturas praticadas nas delegacias.

Aliás, a forma chocante como as torturas são mostradas no filme foi o que mais causou espanto em 1977. Mesmo não se tratando de maus tratos infligidos a prisioneiros políticos, tratava-se de um tema tabu. Foi uma surpresa o filme ser liberado pela censura, sinalizando que o pior momento da ditadura havia finalmente passado.

Recomendo enfaticamente.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DOS ROLEZINHOS

Luciana Genro é eloquente em sua rejeição do apartheid social:
"A repressão, inclusive juridicamente sustentada, contra os jovens da periferia que vão dar rolezinho no shopping é o momento em que a fantasia da igualdade é desfeita de forma cabal. Caiu a máscara do Direito. Eles não têm direito à igualdade jurídica com os jovens de classe média que também circulam aos bandos pelo shopping, pois os pobres não trocam, isto é, não consomem...
...Sem consumir, são descartáveis – pois inúteis ao capitalismo – e o lugar deles é nas periferias. Mas se ousam invadir o templo do consumo, a polícia é chamada. Mesmo que não roubem, não furtem, mas se não se contentam com o seu lugar periférico e querem ocupar o espaço dos consumidores sem consumir, é para os presídios imundos (...) que eles devem ir. Polícia neles!"
Reinaldo Azevedo, como sempre, se coloca ao lado da PM e à direita de Genghis Khan:
"Mais uma vez, a PM é vista como algoz, e 'jovens pobres, negros e da periferia', como arautos de um novo tempo. Os deserdados da 'modernização conservadora' teriam decidido invadir o espaço privado do capitalismo excludente: o shopping!
...Cada um desses nichos de opinião considera que tem o direito de impor a sua pauta ou seus hábitos ao conjunto da sociedade --se necessário, pela força. Os que fazem rolezinhos não estão cobrando mais democracia, como quer a esquerda rosa-chique. Eles manifestam, na prática, é desprezo pela cultura democrática.
...Se há, hoje, espaços de fato públicos, são os shoppings. As praças de alimentação, por exemplo, são verdadeiras ágoras da boa e saudável democratização do consumo e dos serviços. Lá estão pobres, ricos, remediados, brancos, pretos, pardos, jovens, velhos, crianças... ".
O RA, aliás, ficou à direita até do jornal da ditabranda, que lhe concede um espaço semanal para propagar seu ideário neofascista mas não quer assumir, ela própria em seus editoriais, posições tão repulsivas, pois detonariam o pouco de credibilidade que lhe resta:
"Os encontros servem, segundo as convocações nas redes sociais, para 'zoar, rolar umas paqueras, pegar geral e se divertir'. Realizados em shoppings centers paulistanos, atraem centenas de adolescentes, em geral da periferia.
A despeito de seu caráter festivo e despretensioso, a novidade logo incomodou lojistas, consumidores e políticos. Durante os 'rolezinhos', os adolescentes, divididos em vários grupos, caminham ou correm pelos corredores do centro de compras, cantando funk.
Não é só o corre-corre que assusta. Houve casos isolados de furto e depredação, que obviamente devem ser punidos... 
Passado o susto inicial, no entanto, essas reuniões poderiam, sem nenhum prejuízo, ser incorporadas à rotina da cidade".
MALDITOS FETICHES DO CAPITALISMO!

O que eu tenho a dizer sobre tudo isso?

Que a truculência policial jamais será contida enquanto não desmilitarizarmos o policiamento, eliminando mais este entulho autoritário que a ditadura de 1964/85 nos legou (vide aqui). As PM's invariavelmente encaram tais fenômenos sociais da forma mais preconceituosa possível, como se fossem crimes mesmo não estando capitulados como tais no Código Penal; e seus protagonistas, como inimigos a serem esmagados. 

Por que? Porque esta é a cultura militar, de quem se prepara para a guerra contra outras nações e não para a convivência com os cidadãos do seu país. O Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas já recomendou a extinção das PM's brasileiras, repisando o óbvio ululante: não são elas, mas sim as instituições civis, que devem lidar com os problemas dos civis numa democracia. O que falta é vontade política -eu diria até coragem- para confrontarmos o autoritarismo ainda dominante na sociedade brasileira.

Que, para os jovens da periferia, os rolezinhos  não significam apenas "zoar, rolar umas paqueras, pegar geral e se divertir", mas também embutem um desafio aos menos desfavorecidos, uma maneira de chocá-los e de se afirmarem. Só que se trata de um desafio bem embrionário, começando pelo fato de não renegarem o consumismo; eles apenas estão frustrados por não o poderem desfrutar tanto quanto a clientela habitual daqueles shoppings. Inexiste, portanto, um potencial contestatório equiparável ao das manifestações de rua dos nossos indignados.

Estes últimos, sim, têm tudo para se tornarem uma nova vanguarda anticapitalista, em substituição aos partidos de esquerda que hoje evitam até proferir a palavra revolução, tão domesticados estão. 

O pessoal dos rolezinhos, os gays que marcam beijaços para os shoppings e contingentes afins devem ter seus direitos humanos e civis respeitados, mas seria um erro superestimarmos seu inconformismo. Com um pouquinho de jogo de cintura, o sistema os cooptará -é exatamente o que a Folha de S. Paulo propõe, sua incorporação "à rotina da cidade".

Quanto aos shoppings, louvados pelo RA como "verdadeiras ágoras [vá ser pedante assim na ponte que partiu!!!] da boa e saudável democratização do consumo e dos serviços", são, isto sim, malditos fetiches do capitalismo! Exacerbam algumas das piores características do sistema alicerçado na exploração do homem pelo homem:

  • a segregação dos excluídos, com os cidadãos que ainda têm emprego/trabalho encastelando-se em espaços protegidos como os dos shoppings e dos condomínios fechados, enquanto a miséria e a barbárie grassam lá fora, entre os desempregados e marginalizados, cada vez mais relegados a uma condição subumana;
  • a priorização do indivíduo motorizado, a quem são oferecidas as melhores condições para se locomover de sua morada bem policiada para o edifício idem no qual trabalha e para o shopping idem em que faz quase todo o resto, sem ser obrigado a por os pés no chão das vias públicas (o que o condiciona a sentir-se seguro apenas nos espaços controlados e a temer os imprevistos das ruas, não identificando como suas iguais as pessoas que fazem parte da multidão e sendo levado a querer obsessivamente delas se diferenciar -esta maioria silenciosa de patéticos egoístas, que tentam levar vantagem sozinhos e estão se lixando para o bem comum, desempenha papel fundamental para a sobrevivência do capitalismo); e
  • o consumo compulsivo, induzido pelos muitos artifícios que levam os necessitados de determinado produto a acabarem adquirindo vários outros artigos, geralmente não prioritários, enforcando-se nos crediários e cartões de créditos, sendo sangrados pelos juros escorchantes e ficando eternamente prisioneiros da engrenagem capitalista. 

Os shoppings nos reduzem à condição de pássaros -em gaiolas reluzentes, sim, mas sempre cativos! 

É nas ruas e nas praças que podemos forjar uma realidade bem diferente.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A VERDADE ESTÁ SUJEITA AO CALENDÁRIO ELEITORAL. E AO QUE MAIS?

No finalzinho de 2013, os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade foram prorrogados por sete meses. Então, com o novo prazo fixado pela medida provisória, o relatório final do colegiado não mais será divulgado no próximo mês de maio, mas sim em 16 de dezembro de 2014.

Fontes palacianas atribuem a decisão da presidenta Dilma Rousseff ao seu desejo de evitar um tiroteio direita-esquerda durante a campanha presidencial -o qual, evidentemente, seria prejudicial às suas pretensões reeleitorais.

Desta vez, pelo menos, o adiamento desnecessário do desfecho não manterá um cidadão sob prisão arbitrária durante uma eternidade, como aconteceu com o Cesare Battisti. Mas, se a verdade foi colocada na dependência do calendário eleitoral, ao que mais se sujeitará?

A própria comissão criou a expectativa de que uma de suas recomendações venha a ser a revisão da Lei da Anistia, passo inicial para o Brasil acompanhar a tendência mundial e seguir a recomendação da ONU, no sentido de que não sejam deixados impunes os agentes do terrorismo de estado. Trata-se do primeiro nó que tem de ser desatado para uma punição efetiva dos torturadores.

O segundo: levar a questão novamente ao Supremo Tribunal Federal, na esperança de que mude seu entendimento sobre os habeas corpus preventivos que os carrascos concedem a si próprios em plena vigência dos regimes de exceção.

A questão é:  podemos confiar que as decisões da CNV não vão obedecer igualmente às conveniências políticas?

Como a Dilma fugiu do pedido de asilo do Edward Snowden como o diabo da cruz, sinalizando não querer de maneira nenhuma peitar os EUA, podemos supor que não quererá também peitar as viúvas da ditadura e os militares da reserva, cuja influência efetiva sobre as tropas é nenhuma, mas cujos blefes ainda provocam muita tremedeira no Palácio do Planalto.

Temo que a revisão da Lei da Anistia venha a ser recomendada pela CNV apenas na hipótese de derrota da Dilma; seria um dos vários abacaxis a serem colocados no colo do(a) sucessor(a).

E que, vitoriosa, ela não queira nem ouvir falar do assunto, com a CNV abstendo-se de causar-lhe aborrecimentos.

Tomara que meus temores sejam infundados...

USTRA DIZ QUE NÃO OCULTOU CADÁVER, SÓ O ENTERROU SOB NOME FALSO...

Quem acompanha meu trabalho, sabe que já em 2007 eu descria da possibilidade de se punir os torturadores da ditadura militar sem a revogação da anistia de 1979, que igualou algozes e vítimas. 

Vencidos pela facção de Nelson Jobim na luta então travada no seio do ministério, Tarso Genro e Paulo Vannuchi foram proibidos por Lula de continuarem pregando o necessário e indispensável, qual seja a revisão da Lei de Anistia. Aí, para salvarem as próprias imagens, indicaram à esquerda o caminho dos tribunais, que jamais desatariam o nó enquanto Executivo e Legislativo permanecessem de braços cruzados.

E o nó não foi mesmo desatado. O Supremo Tribunal Federal, numa das decisões mais aberrantes de sua História, em 2010 considerou válida a anistia que os carrascos concederam a si próprios em plena vigência da ditadura, usando os presos políticos e os exilados como moeda de troca e obtendo o aval de um Congresso descaracterizado e intimidado. 

Desde então, as ações civis e criminais contra os torturadores têm um desfecho anunciado: se condenados nas instâncias menores, os réus sabem que tranquilamente darão a volta por cima no STF. Os processos passaram a ter apenas efeito moral; são ingênuos os que sonham com penas de prisão e/ou pecuniárias, pois elas não virão enquanto não forem alteradas as regras do jogo (impostas pelo inimigo e não questionadas pelos pusilânimes do nosso lado quando a ditadura acabou).

Não foi nem um pouco significativa, portanto, a decisão da Justiça Federal de São Paulo, ao considerar prescrito o crime de ocultação de cadáver cometido pelo torturador-símbolo Carlos Alberto Brilhante Ustra e pelo delegado aposentado Alcides Singillo, que deram sumiço nos restos mortais do  militante Hirohaki Torigoe, repetindo a prática adotada pela repressão ditatorial em dezenas de outros casos. Se o Ministério Público Federal, autor da ação, transpusesse esta barreira, certamente tropeçaria numa posterior. Ustra e Singillo nada tinham a temer.

O que vale um registro é a bizarra justificativa da defesa de Ustra. Os procuradores argumentavam que, como o cadáver não foi encontrado até hoje, tratava-se de um crime permanente. Os patronos do chefão do DOI-Codi paulista disseram que o corpo do Torigoe não está sumido, tendo sido enterrado com o nome falso que ele usaria no momento da prisão.

É o mesmo que admitir não só seu assassinato, mas a própria ocultação de cadáver, de vez que a repressão sempre conseguia identificar os defuntos que lhe interessavam.

Enfim, desta vez o Ustra conseguiu livrar a cara sem atirar a responsabilidade sobre seus superiores, como fez em outras ocasiões, implicitamente reconhecendo que servia a uma instituição genocida. 

No que, aliás, estava certíssimo: a culpa por todas as práticas hediondas começava no general que se fazia passar por presidente da República e se estendia para cada elo da cadeia de comando.

Obs.: tentei divulgar este texto no Facebook, mas parece haver agora algum filtro 
que rejeita matérias com Ustra no título. A censura avança, a democracia recua...
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