Gian-Maria Volonté e Lou Castel: amizade inesperada.
Quando acompanhamos indignados a nova agressão do Trump ao continente americano, talvez nos sirva de um pequeno consolo assistir a este excelente faroeste anti-imperialista do cinema italiano.
O que gostaríamos de ver é uma união de países contra a pirataria internacional e a entrega de um ultimato ao sequestrador fanfarrão, mas não podemos esperar algo assim dos presidentes bananas de nuestra América, começando pelo Lula.
Isto porque ele se mostra mais apreensivo com as sequelas eleitorais do episódio do que com o risco que a própria Amazônia passou a correr de ser ocupada e saqueada. Então, fiquemos com a arte, pois a vida anda uma desilusão só...
Klaus Kinski: messiânico e carismático.
Gringoé o filme de 1967 que apontou um novo rumo para a carreira do diretor e roteirista Damiano Damiani (1922-2013), cujas incursões pelos épicos, dramas e comédias haviam tido resultados inexpressivos.
Ao contar uma história com fundo político e todos os ingredientes do cinema de ação procurados pelos fãs dos westerns, conseguiu agradar não só à clientela habitual dos bangue-bangues (desacostumada a a roteiros com essa qualidade superior e a tal excelência de interpretações, trilha sonora e direção), como também atrair um público mais politizado.
Gringo(também conhecido como Uma bala para o general) mostra o mercenário estadunidense El Niño(Lou Castel) tentando chegar ao acampamento de um dos líderes da Revolução Mexicana, dom Elias (Jaime Fernández) para o assassinar a soldo do reacionário governo asteca.
Consegue infiltrar-se num grupo guerrilheiro que ataca trens e guarnições militares para obter armas destinadas a Elias, mas sua tarefa se complica quando nasce uma inesperada amizade entre ele e o comandante da tropa, El Chuncho(Gian-Maria Volonté).
Num filme superlativo, com vários momentos inesquecíveis, destaque também para a primeira interpretação impactante do Klaus Kinski, como El Santo. (por Celso Lungaretti)
As investigações da Polícia Federal estão revelando que o putsch ultradireitista fracassado em 08.01 no Brasil foi singular na história do golpismo mundial.
Motivo: nunca houve outro em que os planejadores e executantes deixassem tantas provas contra si pelo caminho, como se a intenção secreta deles fosse:
— a descoberta da trama;
— a tomada de providências para evitar o seu êxito;
— o desfecho ridículo da tentativa; e
— a prisão e condenação dos principais envolvidos.
Evidentemente, isso tem muito a ver com a personalidade do chefe da organização criminosa que tentava virar a mesa para alterar o que as urnas haviam decidido: talvez o orgulho impeça o réu nº 1 de escolher o melhor caminho para evitar a prisão, mas se a defesa de Jair Bolsonaro alegar insanidade mental, terá ótimas chances de ser bem sucedida.
Tão disparatado e inconsequente como o Bozo, mas inofensivo ao invés de totalmente nocivo, o personagem Brancaleone de Nórcia (Vittorio Gassman) é uma brilhante criação do cineasta e co-roteirista Mario Monicelli, um dos gigantes da comédia italiana no século passado.
Inspirado obviamente no D. Quixote, ele é outro nobre sem fortuna nem noção, inconformado com a decadência da cavalaria medieval. Suas peripécias, contudo, conseguem ser bem mais hilárias que as do personagem imortal de Miguel de Cervantes.
O Incrível Exército Brancaleone (1966) é simplesmente um filmaço, que nada perdeu do seu vigor e do seu encanto após tantas décadas. Assistam e constatem!
Não canso de admirar a versatilidade e excelência de Gassman, o maior ator daquela fase dourada do cinema italiano, mesmo correndo na mesma faixa dos superlativos Marcello Mastroianni e Ugo Tognazzi.
Não fosse Gassman o filme, apesar de todos os seus predicados, jamais seria a obra-prima que acabou se tornando. Atuação inesquecível.
Destaque também para a bela Catherine Spaak e para um Gian-Maria Volonté a caminho do estrelato. E a trilha sonora de Carlo Rustichelli é outra pérola, notadamente o tema principal, utilizado com a impagável animação do início do filme. (por Celso Lungaretti)
Odia da desforraé um filme que sempre me faz recordar o momento decisivo da minha vida, quando, mal acabava de completar 18 anos, sai do lar familiar paracorrer mundo, correr perigo, conforme a canção do Caetano Veloso.
E se trata de um dos melhoreswesternsrevolucionários italianos daqueles anos rebeldes. Seu diretor, Sergio Sollima, começara como crítico de cinema, entrou na Cinecittà como roteirista e assistente da direção e só aos 30 anos teve sua primeira chance dirigindo (ainda assim, apenas um dos segmentos de uma comédia erótica).
Já como único diretor,O dia da desforra(1966) seria seu quarto filme e o primeiro realmente bem-sucedido. Foi tão apreciado que até uma sequência teve,Corre, homem, corre(1968), a qual, contudo, não chegou a empolgar.
Também graças ao prestígio adquirido, Sollima ainda dirigiu outros dois filmes mais ambiciosos, o faroesteQuando os brutos se defrontam(1967), com Thomas Milian e Gian-Maria Volonté; e o policialCidade Violenta(1970), estrelado por Charles Bronson.
Depois Sollima voltou ao ramerrão, deixando a impressão que poderia ter feito coisas melhores se lhe dessem os recursos e a liberdade de ação de que dispôs emO dia da desforra.
Ignoro o quanto do conteúdo revolucionário deste filme se deve a ele e quanto ao co-roteirista Sergio Donati, que colaborou com o grande Sergio Leone em duas de suas obras-primas,Era uma vez no Oeste (1968) eQuando explode a vingança(1971). Pelos trabalhos desenvolvidos por ambos como roteiristas, percebe-se que Donati estava mais familiarizado com enfoques politizados.
Cuchillo Sanchez (Tomas Milian) era um dos camponeses despertados para as lutas sociais por Benito Juárez. Depois que a revolução não vingou naquele momento (meados do século 19), havia se tornado um bandido de pequenas contravenções e pouca importância, até ser acusado do estupro e assassinato de uma menina de 12 anos.
Jonathan Corbett (Lee Van Cleef), ex-xerife e depois caça-prêmios, é pressionado pelo ricaço Brokston a sair no seu encalço, inclusive porque capturar autor de crimes tão repulsivos lhe aumentaria o prestigio.
Brokston se propunha a bancar a candidatura de Corbett a senador, para obter, em reciprocidade, apoio ao seu projeto de implantação de uma ferrovia entre EUA e México.
A perseguição se alonga porque Cuchillo é hábil e astuto. E coisas surpreendentes acabam vindo à tona, principalmente sobre o quanto os acontecimentos estavam sendo influenciados pela gritante desigualdade social no México, o que conduz a um desfecho que se dá, realmente, numgrande tiroteio, conforme o título que o filme recebeu nos EUA.
Os dois atores principais estão perfeitos nos seus papéis, a trilha sonora de Ennio Morricone é simplesmente um arraso e o filme vale cada fotograma. Pena que Sollima (falecido em 2015, aos 94 anos) nunca mais tenha acertado na mosca, embora seu trabalho seguinte,Quando os brutos se defrontam, não haja ficado muito atrás.
Por último, explico o sentido do título que dei a este post. Em fins de fevereiro de 1969, prestes a ingressar na VPR, fui surpreendido com aquedade um companheiro que conhecia meu nome real e tinha como indicar à Oban meu endereço, então precisei sair às pressas de casa em plena madrugada para me colocar a salvo.
Com pouco dinheiro, passei uns 10 dias precariamente hospedado num hotel barato do centro velho de São Paulo, à espera doponto que teria com o dirigente da VPR incumbido dos trâmites de integração do nosso grupo de oito secundaristas àquela organização.
Como a VPR atravessava um período tumultuado, de crise interna e prisões, só me restava aguardar pacientemente o encontro que havia sido marcado com intervalo bem maior do que o costumeiro.
Sem saber como seria a nova etapa que me aguardava e apreensivo com a possibilidade de minha identidade já tercaído(eu só trazia comigo os meus documentos autênticos), fui duas vezes ao pulgueiroque ficava quase na frente do hotel e exibia...O dia da desforra.
Por falta de coisa melhor para fazer, em ambas permaneci por várias sessões seguidas, ora assistindo ao filme, ora mergulhado em reflexões.
Não pensei nisto então, mas havia um perseguido na tela e eu começava a levar vida de perseguido, tendo de esconder quem era, mudar a aparência, evitar lugares onde me conheciam, andar pelas ruas sempre atento à possibilidade de alguém estar seguindo meus passos, etc. Foi uma amarga ironia ser logo aquele o filme exibido do outro lado da rua.
Ficou, assim, nas minhas lembranças como marco do exato momento em que minha vida mudou para sempre.(por Celso Lungaretti)
No dia 17 de fevereiro de 1600 foi queimado vivo, aos 52 anos, um mártir da luta do saber contra as trevas da ignorância e do fanatismo: o escritor, filósofo, frade dominicano, matemático, ocultista hermético, poeta, teólogo e teórico de cosmologia Giordano Bruno.
Aproveito a oportunidade para disponibilizar aqui a cinebiografia que leva seu nome, lançada em 1973, com direção do ótimo Giuliano Montaldo e Gian-Maria Volonté no papel principal.
Desta vez não darei meus pitacos sobre o filme porque faz quase meio século que o assisti e, embora o tenha considerado excelente, a reconstituição explícita das torturas e violências que sofreu me revirou o estômago, a ponto de nunca ter reunido ânimo para uma segunda apreciação.
Foi algo que só me ocorreu neste caso e no de Actas de Marusia (d. Miguel Littin, 1975), dentre as muitas dezenas de fitas com sequências de tortura que já vi. Por quê? Sei lá...
Para preencher a lacuna, eis um resumo da sua trajetória, a partir do texto de Dilma Frazão no site ebiografia (vide integraaqui):
Giordano Bruno, nome religioso de Filipo Bruno, nasceu próximo à Nápoles, filho dos nobres Giovanni Bruno e Fraulissa Savolino.
Com 14 anos começou a estudar Humanidades, Lógica e Dialética, tendo aos 17 ingressado como noviço no convento Dominicano de San Dominica Maggiore.
Ordenado sacerdote em 1572, doutorou-se em Teologia três anos depois. Durante seus anos de convento, interessou-se sobretudo por Aristóteles, Johannes Kepler e Erasmo de Roterdã. Defendia alguns textos que questionavam os princípios da Igreja.
Em fevereiro de 1576 fugiu para Roma, após ser submetido pelos próprios dominicanos a um primeiro processo de heresia. Logo depois abandonou o hábito e iniciou uma longa peregrinação.
Em 1578 foi para Genebra, onde adotou o calvinismo, mas, ao escrever um artigo contestando algumas ideias calvinistas, foi excomungado do movimento.
Em 1582 seguiu para a França, passando a lecionar em Toulouse. Em seguida se mudou para Paris, tendo oferecido ao rei Henrique III a obra As Sombras das Ideias. Escreveu também Sinais dos Tempos.
Dali seguiu para a Inglaterra, onde permaneceu até 1585 entre Oxford e Londres, sob a proteção do embaixador francês. Nessa época escreveu a trilogia Diálogos Italianos, El Candelero e La Cena del Niércoles de Ceniza. Após ser acusado de plagiar o trabalho de um colega foi expulso de Oxford.
Em 1591, Giordano Bruno foi viver em Frankfurt, onde se converteu ao luteranismo. Mais uma vez se desentende e sofre a excomunhão da Igreja Luterana.
No ano seguinte, conhece o nobre veneziano Giovanni Mocenigo, que o convida para visitar Veneza. Segundo alguns historiadores, foi uma armadilha para prender Bruno que, havia muitos anos, estava na lista dos procurados pela Inquisição.
Volonté: superlativo!
No dia 23 de maio de 1592, Bruno foi levado para o cárcere do Santo Ofício de San Domênico de Castello. Em Roma, após um processo que se arrastou por sete anos, a Inquisição o declarou culpado
As numerosas acusações contra Giordano Bruno eram baseadas em alguns de seus livros, que para a Igreja continham blasfêmia, conduta imoral e heresia aos dogmas católicos.
Para livra-lo da morte, a Santa Inquisição exigia a retratação integral de suas teorias. Quando questionado pelos inquisidores, destacava que suas ideias eram puramente filosóficas e não religiosas, mas o argumento não foi aceito (*).
No dia 18 de fevereiro de 1600, foi condenado à morte na fogueira e obrigado a ouvir sua sentença de joelhos. Nesse momento desabafou:
"Talvez vocês sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la".
Giordano Bruno foi queimado na fogueira, no Campo de Fiori, em Roma.
Ele prenunciou o avanço da ciência com suas teorias do universo infinito e da multiplicidade dos mundos.
Escreveu em defesa da teoria heliocêntrica de Copérnico, segundo a qual o Sol estava no centro do universo, contrariando a teoria geocêntrica imposta pela Igreja.
Afirmava que a Bíblia deveria ser seguida apenas por seus ensinamentos morais, para evitar contradições entre a religião e a ciência.
Escreveu Do Infinito Universo e Mundos, que defendia que o Universo era infinito e estava inacabado, ou seja, não era a obra perfeita e concluída de Deus.
Afirmava que havia mundos habitados. Essas teorias avançadas iam de encontro a tudo o que a Igreja pregava e defendia.
* Não encontrei como esclarecer se é correto o desfecho mostrado no filme. A Igreja afinal teria resolvido poupar Giordano Bruno, oferecendo-lhe a salvação em troca apenas de ele confirmar uma confissão que fizera anteriormente, mas aí ele recusa. E justifica para um amigo, referindo-se ao inquisidor que lhe comunicara a oferta: "Havia sangue demais naquelas mãos". (CL)
Ricardo Cucciola e Gian-Maria Volonté estão superlativos nos papéis...
Hoje crianças guatemaltecas (vide aqui), ontem pobretões italianos: o assassinato de imigrantes por parte de autoridades estadunidenses vem de longe! Um dos piores linchamentos legalizados de todos os tempos foi o que a Justiça dos EUA impôs na década de 1920 a dois imigrantes italianos, o sapateiro Nicola Sacco e o peixeiro Bartolomeo Vanzetti: condenou-os à pena capital em julgamento marcado por tendenciosidade extrema, atribuindo-lhes um latrocínio ocorrido em abril de 1920.
...dos inocentes eletrocutados com fins de intimidação política
A parcialidade do tribunal de Massachussetts causou enorme indignação –manifestações de protesto reuniram multidões por todo o mundo, celebridades e eminentes juristas deram declarações candentes e até o Papa tentou evitar que eles fossem executados. Tudo em vão. O fato de serem ambos anarquistas havia sido o fator determinante de sua condenação –os EUA viviam um período de histeria anticomunista após a revolução soviética de 1917– e a inevitável politização do caso acabou determinando a não aceitação, por parte do tribunal, de provas e de uma confissão que os inocentavam.
Ou seja, quando surgiram gritantes evidências de que os crimes haviam sido cometidos por bandidos comuns, as autoridades já tinham ido muito longe e preferiram perseverar no erro do que o admitir honestamente. Cometeram homicídio premeditado, portanto; elas sim mereciam a cadeira elétrica!
Em agosto de 1927, após mais de sete anos de tensão e sofrimento, foram eletrocutados. Meio século depois, o governador do Massachussets reconheceu-lhes oficialmente a inocência. Esta saga foi levada às telas em 1971 pelo diretor e roteirista Giuliano Montaldo, um especialista em cinebiografias e dramas que têm acontecimentos históricos como pano de fundo (Giordano Bruno, Deus está conosco, L'Agnese va a morire, L'addio a Enrico Berlinguer, a mini-série Marco Polo, etc.).
Ele conseguiu apresentar uma síntese bem essencializada do caso, sem prejuízo da sua enorme carga emocional. E teve a felicidade de contar com uma dupla de atores magníficos, extremamente identificados com seus papéis (Gian-Maria Volonté e Riccardo Cucciola); e com mais uma trilha musical memorável do gênio Ennio Morricone, incluindo a fundamental escolha de Joan Baez para interpretar as três partes da Balada de Sacco e Vanzetti e o tema final, Here's to You.
Na minha opinião, o Caso Battisti tem muito a ver com o Caso Sacco e Vanzetti. Uma diferença era haver tido um desfecho justo em 2011, mas tal nuance não existe mais: acaba de ser absurdamente reaberto, com a chocante conivência da Justiça brasileira.
A tendenciosidade dos relatores do processo no STF (então Cezar Peluso e Gilmar Mendes, agora Luiz Fux) foi, p. ex., idêntica à dos promotores estadunidenses. E o empenho de reacionários poderosos, no sentido de que o assassinato de ambos servisse como exemplo para intimidar os movimentos de inconformismo com as injustiças sociais que estavam pipocando nos EUA, também tem tudo a ver com o lobby que aqui atuou para impingir uma narrativa falsa, mandando às favas todos os escrúpulos de consciência Queriam porque queriam nos enfiar goela adentro uma decisão tão infame quanto a entrega de Olga Benário aos carrascos nazistas no século passado. É alentador sabermos que, até o presente momento, fracassaram.
Vejam e avaliem, não só por termos presenciado e estarmos presenciando episódios semelhantes nestes tristes trópicos, convidando-nos à reflexão, como também pelo forte motivo de que é um filmaço!
As legendas estão em espanhol, mas dá para entendê-las perfeitamente.
Antonio Palocci me faz lembrar um western italiano.
Antes que o leitor comece a suspeitar de Alzheimer, esclareço: refiro-me a um diálogo magistral do filme Quando os brutos se defrontam (d. Sergio Sollima, 1967), um dos que melhor conseguiu embutir assuntos sérios num enredo de ação, satisfazendo tanto aos espectadores que buscavam apenas emoções baratas quanto aos capazes de captar algo além do óbvio.
Mostra o professor tísico de um colégio de elite do Leste estadunidense (Gian-Maria Volonté) indo ao Oeste para, num clima quente e seco, tentar recuperar a saúde. Lá seu destino se entrelaça com o de um chefe de bandidos (Tomas Milian) e acaba surgindo uma improvável amizade entre ambos.
Mas, a interação os transforma. O selvagem desenvolve sentimentos nobres e o civilizado, ao mesmo tempo que se fortalece fisicamente, fica embriagado com o poder que seus conhecimentos e sua inteligência privilegiada lhe podem proporcionar entre os rústicos.
Acaba se tornando o líder de todos os foras-da-lei da região. E, quando desmascara e está prestes a executar um espião da agência de detetives Pinkerton, diz ao sujeito que, mesmo tentando passar-se por inculto, ele ainda deixava perceber que era uma pessoa estudada.
E o homem da Pinkerton lhe responde: "Já você é a pior espécie de parasita. Civilizado entre os civilizados, selvagem entre os selvagens, se adapta perfeitamente a qualquer ambiente e passa a manipular todos ao redor, tendo como único objetivo satisfazer sua ambição desmedida".
Igualzinho ao Palocci, que, quando estava entre os idealistas, era simpático ao trotskismo e pertenceu à Libelu; depois, ao se ver diante das tentações da política profissional, cedeu a todas elas, mandou os escrúpulos às favas, tornou-se um ás da corrupção, encheu-se de grana, tudo fez para esmagar um coitadeza com sua autoridade ministerial e, preso, se revelou o maior delator serial do petrolão, com um comportamento mais vergonhoso ainda que o de muitos empresários cuja única ideologia era o enriquecei! capitalista.
E por que falar no Palocci agora? É que nesta 6ª feira (22) o Tribunal Regional Federal da 4ª Região homologou sua delação premiada. O acordo com a Polícia Federal de Curitiba já estava fechado e assinado desde abril, mas o Ministério Público Federal discordava.
Dois dias depois (!) de o Supremo Tribunal Federal haver decidido que a Polícia Federal também tem autoridade para firmar tais acordos, o TRF-4 correu a dar sinal verde ao Palocci para usar seus conhecimentos e sua inteligência privilegiada na inglória faina de safar-se da prisão passando por cima dos cadáveres (em sentido figurado, claro...) de quantos ex-companheiros de partido ele conseguir ferrar.
Até mesmo o registro do PT corre perigo, pois sabe-se que Palocci vai sustentar que o ditador líbio Muammar Gaddafi forneceu US$ 1 milhão para a campanha presidencial de Lula em 2002, o que é terminantemente vedado pela Constituição Federal:
Art. 28. O Tribunal Superior Eleitoral, após trânsito em julgado de decisão, determina o cancelamento do registro civil e do estatuto do partido contra o qual fique provado:I - ter recebido ou estar recebendo recursos financeiros de procedência estrangeira;II - estar subordinado a entidade ou governo estrangeiros...
Se conseguir fornecer alguma prova concreta de que isto realmente aconteceu, Palocci poderá jogar a pá de cal no caixão do PT.
Ricardo Cucciola e Gian-Maria Volonté estão superlativos nos papéis...
Um dos piores linchamentos legalizados de todos os tempos foi o que a Justiça estadunidense impôs na década de 1920 a dois imigrantes italianos, o sapateiro Nicola Sacco e o peixeiro Bartolomeo Vanzetti: condenou-os à pena capital em julgamento marcado por tendenciosidade extrema, atribuindo-lhes um latrocínio ocorrido em abril de 1920.
A parcialidade do tribunal de Massachussetts causou enorme indignação –manifestações de protesto reuniram multidões por todo o mundo, um sem-número de celebridades e juristas deram declarações candentes e até o Papa tentou evitar que eles fossem executados. Tudo em vão.
...dos inocentes eletrocutados com fins de intimidação política
O fato de serem ambos anarquistas havia sido o fator determinante de sua condenação –os EUA viviam um período de histeria anticomunista após a revolução soviética de 1917– e a inevitável politização do caso acabou determinando a não aceitação, por parte do tribunal, de provas e de uma confissão que os inocentavam.
Ou seja, quando surgiram gritantes evidências de que os crimes haviam sido cometidos por bandidos comuns, as autoridades já tinham ido muito longe e preferiram perseverar no erro do que o admitir honestamente. Cometeram homicídio premeditado, portanto; elas sim mereciam a cadeira elétrica! Em agosto de 1927, após mais de sete anos de tensão e sofrimento, foram eletrocutados. Meio século depois, o governador do Massachussets reconheceu-lhes oficialmente a inocência.
Esta saga foi levada às telas em 1971 pelo diretor e roteirista Giuliano Montaldo, um especialista em cinebiografias e dramas que têm acontecimentos históricos como pano de fundo (Giordano Bruno, Deus está conosco, L'Agnese va a morire, L'addio a Enrico Berlinguer, a mini-série Marco Polo, etc.).
Ele conseguiu apresentar uma síntese bem essencializada do caso, sem prejuízo da sua enorme carga emocional. E teve a felicidade de contar com uma dupla de atores magníficos, extremamente identificados com seus papéis (Gian-Maria Volonté e Riccardo Cucciola); e com mais uma trilha musical memorável do gênio Ennio Morricone, incluindo a fundamental escolha de Joan Baez para interpretar as três partes da Balada de Sacco e Vanzetti e o tema final, Here's to You.
Na minha opinião, o Caso Battisti foi um Caso Sacco e Vanzetti que acabou bem (nada indica que a atual insistência da Itália em reabri-lo vá levar a outro resultado que não a confirmação do que foi decidido em 2010/2011). A tendenciosidade dos dois relatores do processo no STF (primeiramente Cezar Peluso e depois Gilmar Mendes) foi, p. ex., idêntica à dos promotores estadunidenses.
E o empenho de reacionários poderosos, no sentido de que o assassinato de ambos servisse como exemplo para intimidar os movimentos de inconformismo com as injustiças sociais que estavam pipocando nos EUA, também tem tudo a ver com o lobby que aqui atuou para impingir uma narrativa falsa e tentar impor o que seria uma decisão tão infame quanto a entrega de Olga Benário aos carrascos nazistas no século passado.
Vejam e avaliem, não só por termos presenciado episódios semelhantes nestes tristes trópicos, convidando-nos à reflexão, como também pelo forte motivo de que é um filmaço!
As legendas estão em espanhol, mas dá para entendê-las perteitamente.
Era dia 17 de novembro de 1985 e terminava a apuração de votos (que naquele tempo era manual), confirmando os prognósticos das empresas especializadas: dera-se a primeira vitória de uma candidata do PT a um cargo executivo da importância da prefeitura de Fortaleza, quinta maior cidade do Brasil.
Uma multidão exultava diante do local de apuração, o Ginásio Paulo Sarasate. Tendo participado da coordenação da campanha (juntamente com Jorge Paiva, o coordenador geral, e outros menos votados, como o atual deputado federal José Guimarães, do PT), eu assistia àquela profusão de contentamento da multidão com um misto de alegria e preocupação.
Lembro-me que estávamos em cima de uma Kombi, eu e o então deputado federal do PT José Genuíno (cearense radicado em São Paulo, que viera para o evento à última hora). Ele, percebendo minha alegria contida, que certamente transmitia certa dose de contrição, perguntou-me: você não está feliz? Respondi-lhe que sim, mas também preocupado com o day after, pois aquela multidão estava se sentindo redimida e a nossa vitória não significava, obviamente, a redenção.
Na euforia da vitória; dias piores viriam.
Havíamos obtido a vitória eleitoral justamente em função do caos que marcara os governos de prefeitos nomeados por governadores que, por sua vez, eram escolhidos pela ditadura militar. Ainda por cima, as prefeituras daquela época não tinham autonomia financeira, pois esta só viria quando a Constituição de 1988 passasse a vigorar, no ano seguinte.
No nosso caso particular, as dificuldades eram evidentes: não dispúnhamos de nenhum vereador do PT ou de qualquer partido de esquerda; nenhum deputado estadual; e nenhum deputado federal na bancada cearense.
Eu viria a ser o secretário de Finanças, incumbido de administrar a falência da prefeitura de Fortaleza.
Os meus receios não tardaram a ser confirmados pelo desenrolar dos acontecimentos:
— com 15 dias de governo, as categorias profissionais que haviam conquistado o piso salarial correspondente (graças, em grande parte, à nossa luta) estavam prontas para cobrar a implementação de tais conquistas, embora o orçamento já fosse deficitário;
Reunião com o secretariado: abacaxis para descascar
— a empresa de ônibus de propriedade da prefeitura exigia o aumento do preço das passagens, como forma de cobrir o déficit que vinha sendo subsidiado pela receita da própria prefeitura, cujas finanças estavam combalidas;
— os empresários de ônibus, idem;
— as empresas de coleta de lixo, pressionando ao máximo que fossem efetuados os pagamentos em atraso, deixavam, premeditadamente, de cumprir sua tarefa, de forma que o lixo se amontoava nas ruas, tornando insuportável o mau cheiro e o desconforto;
— para completar o quadro, naquele início de ano vieram as chuvas particularmente e precocemente regulares, que aumentavam os buracos sem que as tradicionais verbas federais (era assim que funcionavam as prefeituras ao tempo da ditadura) chegassem. Era uma deliberada tentativa de fazer passar por ineficiente a administração popular recém-instalada.
Em greve de fome contra o boicote do governo federal
As dificuldades administrativas tradicionais eram enormes e intermináveis. Ademais, a prefeita Maria Luíza Fontenele, além de ser a primeira mulher eleita para uma prefeitura de capital, pertencia à ala marxista do PT, que estava sofrendo um processo de perseguição interna (éramos adeptos do marxismo tradicional, do movimento operário, só posteriormente evoluindo para o marxismo esotérico da crítica ao valor/dissociação de gênero).
A dose era muito forte para o sistema, e até mesmo para o PT.
A ideia de assumir um cargo executivo na esfera política do capitalismo liberal burguês era e é um equívoco para quem se propõe a ser anticapitalista.
Uma vez investido no poder, e sendo obrigado a conviver com todos os antagonismos sistêmicos institucionais decorrentes do imperativo de manutenção da ordem capitalista, um governo que possua norte revolucionário, ou mesmo reformista sério, passa a ter de administrar não somente a crise financeira do aparelho de Estado na atual fase de depressão econômica capitalista, como se vê obrigado a revogar as conquistas sociais adquiridas na fase de ascensão capitalista.
Maria Luíza e D. Helder Câmara nas ruas de Fortaleza
Ou seja, eram sapos e mais sapos a serem engolidos em nome da governabilidade capitalista. Pode?
No caso da nossa administração popular de 1986/1988 em Fortaleza, os problemas se agravaram pelo fato de não aceitarmos a política de conciliação com os políticos tradicionais e com donos do PIB tupiniquim, o que nos colocou em rota de colisão com a descaracterização ideológica do petismo, já em curso (corrupção à parte, pois naquela época ela ainda não era tão visível).
Este foi o verdadeiro motivo da expulsão de Maria Luíza e seus apoiadores (inclusive eu, por ela escolhido para ser seu candidato à sucessão).
De tudo ficou a lição não apenas da ingovernabilidade de qualquer governo que se proponha a ser pró-povo (a máquina estatal não foi concebida e aperfeiçoada para isto), bem como de quão incoerente é, para quem denuncia a falência vindoura do capitalismo, tentar administrá-lo em proveito desse mesmo capitalismo.
Com Suplicy e Gilson Menezes
Tal foi, em linhas gerais, a trajetória que nos levou ao amadurecimento político e consequente opção pelo Marx esotérico, que se contrapõe em tudo ao Marx exotérico, do movimento operário, marcado pelo politicismo inconsequente.
A concepção de luta social a partir da crítica da economia política e da dissociação de gênero difere completamente:
— dos métodos e objetivos teleológicos da luta eleitoral;
— da luta pela inserção administrativa no aparelho de Estado; e
— das concepções e objeto teleológico das atuais lutas do movimento sindical (movimento feminista do movimento dos sem-terra e dos sem-teto, etc).
Estão equivocados os que defendem a candidatura do Lula como se fosse um ato de resistência anticapitalista.
Destarte, não tenho saudades da nossa experiência da administração popular, mas confesso que aprendi com ela. (por Dalton Rosado)
...é, indiscutivelmente, este Giordano Bruno (d. Giuliano Montaldo, 1973) que o blogue disponibiliza, completo e legendado, na janelinha abaixo.
Ele era um dos pensadores mais avançados do século 15, defendendo, p. ex., a tese de que o universo seria composto por uma infinidade de estrelas e planetas, com a existência de vida inteligente não se restringindo à Terra.
Montaldo mostra sua via crucis de maneira exemplar e contundente. Devo ressalvar, contudo, que as torturas a ele impostas pela Inquisição e a execução de GB são chocantes demais para quem tem estômago fraco. Causam pesadelos.
Volonté tem outra das suas atuações memoráveis. É difícil dizer se ele ficou melhor como GB ou como Bartolomeo Vanzetti, no outro filme de Montaldo mais lembrado pelos cinéfilos brasileiros.
Obs. um comentarista me avisou que o link para o Youtube não está mais ativo. Então, tirei do ar a janelinha que se tornou inútil, e lá não há outro para o substituir.
Quem sabe baixar torrentes, contudo, tem o download do filme e da legenda disponibilizados no ótimo site Filmes Épicos. É só clicar aqui.