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sexta-feira, 27 de junho de 2025

O RAULZITO FARIA 80 ANOS NESTE SÁBADO. EIS UM ARTIGO QUE RELEMBRA O SEU MAIS BELO SONHO: A SOCIEDADE ALTERNATIVA.

No início dos anos 80, quando trabalhava em revistas de música, tive uma breve amizade com o Raul Seixas.

O que nos aproximou foi termos ambos 1968 como referencial maior de nossas existências. 

Canções tipo "Metamorfose Ambulante", “Tente Outra Vez”, "Cachorro Urubu" e "Sociedade Alternativa" lavavam minha alma, num momento em que a velha esquerda rabugenta se reerguia, passando como um rolo compressor sobre os loucos sonhos dourados da  geração das flores.

De papos sóbrios e etílicos que tive então com o Raulzito, posso dizer que o lance da sociedade alternativa era, basicamente, o de agruparmos as pessoas com boa cabeça em comunidades que estivessem, ao mesmo tempo, dentro do sistema (fisicamente) e fora dele (espiritualmente).

Essas comunidades existiram no Brasil, de 1968 até meados da década seguinte. Nelas praticávamos um estilo solidário de vida, buscando reconciliar trabalho e prazer. Procurávamos ter e compartilhar o necessário, evitando a ganância e o luxo.

Acreditávamos que um homem novo só afloraria com uma prática de vida nova; quem quisesse mudar o mundo dentro das estruturas podres, acabaria sendo, isto sim, mudado pelo mundo.
Woodstock 69, o festival da paz e amor  

Vimos esta previsão melancolicamente confirmada adiante. Companheiros que um dia travaram dignamente o bom combate foram se tornando indiferentes aos dramas do povo brasileiro; existiram até uns tantos que se bandearam para a direita e outros que, para nossa imensa vergonha, se desnortearam com a embriaguez do poder a ponto de delinquirem. 

De nossa parte, em vez de conquistarmos o governo para acumularmos poder e tentarmos implantar uma sociedade mais justa de cima para baixo, nós queríamos deslocar o eixo para o sentido horizontal. 

Ou seja, acreditávamos em ir praticando uma vida não-competitiva em comunidades que se entrelaçariam e cresceriam aos poucos, até engolirem a sociedade antiga. Hoje a coisa não seria tão simples assim, mas, como ponto de partida, por que não?

As teses e posturas da chamada Nova Esquerda dos anos 60 continuam sendo uma das melhores tentativas que podemos fazer para sairmos deste inferno pamonha que o capitalismo globalizado engendrou. Daí o empenho dos conservadores de direita e de esquerda (eles existem, sim!) em relegá-las ao esquecimento. 1968 ainda é tabu..
O NÉO-ANARQUISMO 
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Maio de 1968: barricada numa rua de Paris.
Se, como todo mundo diz, a sociedade alternativa proposta pelo Raulzito tinha muito a ver com os livros do bruxo Aleister Crowley (que ele e o Paulo Coelho andaram traduzindo do original), também se inspirava nas barricadas parisienses, nas comunidades hippies e na contracultura, o que poucos apontam.

Ele e eu conversamos muito sobre isso; éramos ambos saudosos dos tempos em que tentávamos nos tornar homens novos, na convivência solidária com os irmãos de fé em nossos territórios livres.

A referência ao maio/1968 francês é óbvia, p. ex., na segunda estrofe de "Cachorro Urubu": "E todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era,/ que já não é mais primavera./ Oh, baby, a gente ainda nem começou."

Os conservadores sempre tentaram reduzir a obra do Raulzito a uma provocação artística, sem maiores consequências políticas e sociais. Mas, ele não era meramente um gênio de comportamento bizarro, como tentam retratá-lo, folclorizando-o para torná-lo inofensivo.

Era, isto sim, um homem sintonizado com o néo-anarquismo que esteve em evidência na Europa e EUA na virada dos anos 60 para os 70. E só não dizia isso de forma mais explícita em suas canções porque o Brasil era um estado policial, submetido a uma censura rígida, embora burra.

Este não era, claro, o único aspecto de sua multifacetada personalidade – talvez nem o principal. Mas é o que mais tem sido omitido pelos que querem fazer dele apenas um monumento do passado, não um guia para a ação no hoje e agora.
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LIKE A ROLLING STONE 
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Woody Guthrie (esq.) inspirou fortemente Bob Dylan
Eu morei numa comunidade alternativa, em 1971/72. 

Foi uma experiência riquíssima, num momento em que eu precisava extravasar as emoções represadas no cárcere e me reconstruir, já que o sonho de uma sociedade de liberdade e justiça social ficara adiado por décadas e eu, esperançoso como qualquer adolescente, não me preparara psicologicamente para suportar a sociedade unidimensional que a contra-revolução erigiu.

Atrapalhava muito, naquela terrível Era Médici, a tensão entre a liberdade que conseguíamos vivenciar em recinto fechado e o terror e o medo que grassavam lá fora.

Vivíamos acuados, os cidadãos comuns nos olhavam com receio ou rancor por causa de nossas cabeleiras e roupas extravagantes. Enquanto isso, a economia deslanchava e alguns sentiam-se tentados a ir buscar também o seu quinhão do  milagre brasileiro.

Hoje, quem tem olhos para ver já pode aquilatar o que é a sociedade de consumo e a posição de país periférico na economia globalizada: parafraseando Conrad, "o horror, o horror!".

Acostumado aos tempos em que se labutava para viver, eu não consigo aceitar que atualmente as pessoas vivam para trabalhar, mobilizadas por objetivos profissionais umas 14 horas por dia (expediente, horas extras que dificilmente são pagas, cursos e mais cursos de atualização profissional, etc.).
A lendária comunidade pioneira
E tudo isso para quê? Para poderem comprar um monte de objetos supérfluos e quase nunca encontrarem relacionamentos gratificantes no dia-a-dia, pois já não sabem mais interagir –querem apenas usar umas às outras.

Então, fico pensando que, em lugar de levarmos vida de cão dentro do sistema, poderíamos, como então, estarmos todos nos agrupando em casarões da cidade e sítios no campo, criando pequenos negócios para subsistência, plantando, levando uma vida simples mas solidária. Reaprendendo a ter no outro um irmão e não um competidor.

Com as facilidades de comunicação atuais (que fizeram muita falta em 1968 e anos seguintes), essas comunidades urbanas e rurais se entrelaçariam, ajudando umas às outras, trocando o que produzissem, prescindindo dos bancos, escapando dos impostos e das formas de controle do Estado. Em suma, praticando criativamente, adaptados aos dias de hoje, os ensinamentos de Thoreau em A Desobediência Civil.

Seria um ponto de partida. E, conforme os territórios livres fossem crescendo, poderiam até virar algo mais sério – uma alternativa para toda a sociedade...

COMO FAZER 
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Nas comunidades de 1968/72, o que se fazia era reviver a velha democracia grega: reuniões para se decidir os assuntos mais importantes, para nos conhecermos melhor, para sonharmos e brincarmos.

Podia começar num debate acirrado e terminar com todo mundo nu dançando ao som de "Let the sun shine in" (com inocência, pois não éramos dados ao sexo grupal).

Enfim, tentávamos existir plenamente como grupo, esforçando-nos para superar o egoísmo e a possessividade.
Na Bahia, Arembepe era o paraíso agora... 

Havia problemas, claro. Emprestávamos ao outro o que ele estava precisando mais, numa boa; só que, às vezes, descobríamos na enésima hora que alguém tinha levado sem pedir aquilo que a gente ia usar. Dava discussão e os limites tinham de ser depois definidos na reunião coletiva da nossa 
comuna.


Também não era fácil administrarmos o jogo das paixões. Minha amizade com um ótimo companheiro andou estremecida por uns tempos quando a namorada rompeu com ele e iniciou uma relação comigo. Por mais que quiséssemos nos colocar acima de sentimentos menores como o ciúme, eles existiam e nos machucavam.

O importante, entretanto, era essa vontade que todos tínhamos de superar as limitações de nossa educação pequeno-burguesa e viver de forma generosa e solidária.

Quando alguém tinha um problema, era de todos. Quando alguém estava triste, logo um companheiro ia perguntar o motivo. Tudo que podíamos fazer pelo outro, fazíamos.

Onde erramos? Duas vaciladas fatais implodiram a comuna. 
...dos bichos grilos daqui e de hermanos

Uma foi deixarmos a droga correr solta – LSD e maconha, principalmente, pois o propósito era abrirmos as  portas da percepção, no dizer de Huxley. Isto, entretanto, trouxe à tona facetas da personalidade reprimida que o grupo não conseguia administrar. Acabaram ocorrendo conflitos, rompimentos.

A outra foi recebermos de braços abertos todos os pirados que surgiam, vendo um amigo em cada pessoa que parecesse estar fora do sistema. Como sempre, apareceram os aproveitadores, os parasitas, os pequenos marginais. E a polícia veio atrás.

Mas, as experiências que vivenciamos foram tão intensas que aquele ano valeu por uns cinco. Foi com imenso pesar que vimos aqueles laços se romperem, sendo obrigados a voltar, cada um por si, à luta inglória pela sobrevivência. Era uma tortura sermos obrigados a correr de novo atrás do ouro de tolo, quando não tínhamos mais  aquela velha opinião formada sobre tudo...

Com algumas correções de rumo e numa conjuntura menos repressiva, as comunidades ainda poderão ser viabilizadas. Há que se tentar outra vez. Mesmo porque, como disse o Raul, "basta ser sincero e desejar profundo/ você será capaz de sacudir o mundo".
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O NOVO DESAFIO
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A tentativa de irmos engendrando uma alternativa ao sistema dentro do próprio sistema tem muito mais a ver agora do que no tempo do Raul, pois os homens precisarão unir-se para enfrentar a crise das alterações climáticas.
Acidente nuclear japonês: um terrível alerta. 

Na segunda metade deste século, o planeta será fustigado por terremotos, maremotos, furacões, tufões, tsunamis, inundações, fome e seca. As perdas poderão ser diminuídas se os homens se ajudarem mutuamente, sem o egoísmo e a competitividade capitalistas; caso contrário, até mesmo o fim da espécie humana não estará descartado.

O futuro da humanidade não pode ficar à mercê da ganância, sob pena de interesses mesquinhos acabarem destruindo o planeta.

Os homens têm de encontrar formas de organizar-se para a produção em termos solidários, visando o bem comum e não o lucro. Cooperarem em vez de competirem.

Mas, isso não pode ser imposto por uma burocracia. Chega de ditadura do proletariado, estatização compulsória da economia e outras experiências que malograram!

É uma mudança de cultura que teremos de efetuar voluntariamente, se quisermos legar aos nossos descendentes algo além de uma Terra arrasada.

Precisaremos construir algo novo a partir da cooperação voluntária dos cidadãos. Mostrarmos que o bem comum deve prevalecer sobre os interesses individuais. Convencermos os recalcitrantes ou mantê-los fora da nova sociedade que estivermos criando. E isso fazendo o possível e o impossível para evitarmos que ela também descambe para a coerção e a repressão.
"...e o mundo será um só!"

E não serão os podres poderes atuais que vão encabeçar essa luta. A união de que necessitamos deve ser forjada a partir de agora, como uma rede a ser montada pelas pessoas de boa cabeça, independentemente de governos e partidos políticos.

Se o enfrentamento da maior ameaça com que os homens já se depararam não propiciar o surgimento de uma sociedade melhor, nada mais o fará. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 12 de março de 2024

ERAM ANARQUISTAS, GRAÇAS A DEUS. É A ELES QUE DEVEMOS A COLÔNIA CECÍLIA – 2

MEIO SÉCULO ANTES DO SAUDOSO RAUL SEIXAS NASCER, JÁ SE TENTARA CRIAR NO BRASIL UMA SOCIEDADE ALTERNATIVA 
O filme La Cecilia (d. Jean-Louis Comolli, 1975) resgata um episódio histórico pouco conhecido entre nós, embora aqui transcorrido: a implantação de uma colônia rural no Paraná, por parte de anarquistas italianos.

Foi a concretização de um sonho há muito acalentado por Giovanni Rossi, conforme ressaltou a historiadora Izabelle Felici

"A personagem do fundador da Cecília é indissociável da história da colônia. Toda a sua atividade política gira em torno de um projeto de vida comunitária. 

Desde a sua adesão à Internacional, em 1873, aos 18 anos de idade, Giovanni Rossi propôs um projeto de vida comunitária na Polinésia. 

Os numerosos artigos que ele apresentou na imprensa italiana, anarquista e socialista, os apelos que ele lançou às associações, federações, partidos, suscetíveis, a seus olhos, de ajudá-lo, tinham todos por objetivo expor seu projeto de comunidade ou, após 1890, apoiar a experiência em curso no Brasil. 

Com o mesmo objetivo de propaganda, Rossi funda, além disso, seu próprio jornal, Lo Sperimentale, em 1886. Ele desenvolve igualmente seu projeto de comunidade num romance utópico, Un Comune Socialista, no qual a personagem feminina tem por nome Cecília".

O experimento durou cerca de quatro anos, entre 1890 e 1893. Houve muito entusiasmo no início, mas depois foram aflorando os problemas que acabariam levando à extinção da colônia. Eis alguns:

— a contribuição desigual de citadinos e camponeses, pois a produtividade dos primeiros era inferior. Deveriam receber a mesma fração dos frutos do trabalho, conforme os ideais igualitários? Isto não significaria uma espécie de proletarização dos que produziam mais por estarem acostumados a lidar com a terra? De outra parte, se os lavradores fossem melhor aquinhoados do que os outros, não estaria sendo reproduzida a escala de valores da sociedade burguesa? Inexistia uma solução que contentasse a todos;

— a dificuldade de lidarem, no dia a dia, com o conceito do amor livre, uma novidade que incomodava principalmente as colonas de origem camponesa;

— 
a absoluta falta de seriedade do Estado brasileiro, que já era patético décadas antes de De Gaulle o haver constatado. O imperador Pedro II, atendendo a pedido do músico Carlos Gomes, doou as terras para a instalação da Cecília, mas, proclamada a República, o seu ato foi sumariamente revogado e os colonos tiveram de pagar pelas terras com parte de sua colheita e trabalhando sem remuneração em obras do governo;

— a hostilidade dos moradores da região (por sentirem-se prejudicados pela concorrência) e de uma vizinha comunidade polonesa, católica e conservadora;

— as fases de escassez e de fome, com a consequente ocorrência de doenças causadas pela desnutrição (problemas passageiros, que, contudo, reforçaram a tendência ao egoísmo por parte dos menos convictos dos ideais anarquistas, gerando desgastantes divisões); e

— a tentativa do governo de recrutar os colonos (italianos!!!) para combaterem a Revolução Federalista, o que, inclusive, contrariava seus ideais, pois simpatizavam com os revoltosos.

A Cecília chegou a ter 250 moradores e não deixaram de ocorrer defecções em massa, contrabalançadas pela chegada de novas levas de voluntários, atraídos pela divulgação nos círculos libertários europeus.

Alguns desistentes migraram para Curitiba, onde fundaram a Sociedade Giuseppe Garibaldi.
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POR QUE A HISTÓRIA DA COLÔNIA CECÍLIA
NÃO FOI CONTADA NUM FILME BRASILEIRO?

O filme francês conta esta rica história de forma dramatizada e com óbvia simpatia pela causa

O diretor Comolli (1941-2022), também crítico de cinema e de jazz, fez mais de 40 filmes entre 1968 e 2019, geralmente com posicionamento anarquista e/ou anti-stalinista. Foi editor-chefe do Cahiers do Cinema de 1966 a 1971, a fase mais politizada desta influente publicação.

Vale destacar que o elenco, cuja única cara familiar ao público brasileiro é a do ótimo Vittorio Mezzogiorno (No coração da montanhaO processo do desejoTrês irmãos), deu perfeita conta do recado.

Particularmente, eu preferiria uma abordagem menos convencional – como, p. ex., a que o cineasta suíço Alain Tanner deu aos ideais de 1968 no seu extraordinário Jonas, que terá 25 anos no ano 2000

Mas, sendo tão raras as produções que enfocam episódios históricos ligados às bandeiras da esquerda, temos mais é de incentivar filmes como este, recomendando a todos que o prestigiem, discutam e divulguem...

Chega a ser chocante que, em meio a tanta tralha produzida no Brasil, ninguém haja realizado um filme sobre a Colônia Cecília, nem sobre a importantíssima greve geral de 1917. 
   
Antes mesmo das trevas que desabaram sobre nós em 2019, já existiam assuntos malditos para nosso cinema, como os relativos a episódios libertários (não confundir com o uso fake que está sendo dado a esta palavra pelos liberticidas ultradireitistas), às lutas por justiça social e às possibilidades eróticas inaceitáveis para as pessoas reprimidas. 

E, claro, nada mudou significativamente com a volta do Lula ao poder, já que sua simpatia pela esquerda combativa sempre foi e é cada vez mais... nenhuma! O máximo que ele almeja é um capitalismo que assopre com mais força para mitigar nossa dor, depois de nos morder impiedosamente. (por Celso Lungaretti)
O projeto era ótimo; Rossi deveria tê-lo tentando noutro país.
Observações: esta duologia junta duas pautas que vieram por si sós ao meu encontro. Interessei-me pela greve geral de 1917 porque ela nasceu no cotonifício Crespi, em cujas dependências meu pai trabalhou 46 anos consecutivos (primeiro na tecelagem e depois, que ela faliu, em empresas menores que alugaram sua dependências). 

Nem na memória dele, que lá começou a trabalhar em 1930, nem na do bairro da Mooca a greve ainda era tema de conversas, o que me fez querer saber o porquê.

Já a Colônia Cecília  tinha, obviamente muitos pontos de contato com a comunidade alternativa da qual participei após sair das prisões militares, e que foi fundamental para eu superar os traumas da tortura e a amargura de constatar que nada mais restava a fazer para tentarmos impedir o prolongamento indefinido das trevas ditatoriais. 

Acreditando que venceria ou morreria, não estava preparado para aguentar a paz dos cemitérios naquela terra arrasada, ao lado de um povo acovardado. 

Mas, as poucos percebi que sobrara um desafio importante: seríamos capazes de viver realmente como irmãos solidários, a partir de laços ideológicos e não de sangue? Nossa sociedade alternativa em miniatura sobreviveria à do Raulzito

Tudo estava contra nós e a nossa comuna também durou pouco, mas houve momentos nos quais deu para perceber que, sim, em circunstâncias mais propícias teríamos conseguido. 

Viver em fraternidade é muito melhor do que ser movido pela ganância, competindo ferozmente com iguais por uma salvação cada vez mais duvidosa.  

Senti que o homem novo com que tanto sonhávamos em 1968 habitava em nosso interior. E é esta a nossa esperança de salvação nos tempos terríveis que estão à nossa espreita adiante, quando a debacle definitiva do capitalismo somar-se à devastação das alterações climáticas. (CL) 
Raulzito numa performance ousada de "Metamorfose ambulante"

quinta-feira, 21 de julho de 2022

FÁBULA SOBRE A MUTAÇÃO DO REINO DO CAPITAL EM REINO DA LIBERDADE – 2

(continuação deste post)
O
reino da Capitolânia ficou em polvorosa. As pessoas se perguntavam: como foi possível que aceitássemos tanta injustiça social sem que não nos apercebêssemos da razão dela existir??? 

Então, imbuídos de uma revolta consciente, decidiram que daquele momento em diante ninguém iria trabalhar mediante salário; e que todas as atividades de produção seriam partilhadas sob um planejamento social de consumo capaz de satisfazer de forma equânime a necessidade de cada um, independentemente da respectiva capacidade de produção. 

Não houve revolta armada, já que até os militares foram atingidos pelo perfume da consciência e baixaram as armas. Os trabalhadores simplesmente ficaram em casa por alguns dias até retomarem as suas atividades, agora sob autogerenciamento e sem o critério da produção de valor e dinheiro. 

O odiado governante, que se encontrava de viagem ao exterior, sabedor do efeito provocado pelo tal perfume, tratou de voltar com urgência e, usando uma máscara atrelada a um tubo de oxigênio para ficar imune aos efeitos desconhecidos daquele aroma, analisar o que estava ocorrendo em seu reino. 

Logo após, sentindo-se impotente e não aceitando os efeitos do perfume da consciência, exilara-se definitivamente noutro país governado por alguém de sua estirpe, sonhando reunir forças para uma tentativa retomar as rédeas do poder em seu reino e reverter todas as mudanças ocorridas.  
Cena do filme La Cecilia (assista-o aqui), sobre a 1ª
tentativa de organizar a sociedade em bases igualitárias
no Brasil: uma colônia rural anarquista no fim do séc. 19

Até mesmo a força militar do reino da Capitolânia, que também havia aspirado o perfume e agora estava em número reduzido, servia apenas para fiscalizar os pequenos delitos comunitários que ainda existiam, de natureza pessoais ou possessórios (não existiam mais crimes contra o patrimônio, de vez que a propriedade era regida pelo critério de utilidade e necessidade pessoal).

Daí em diante a sociedade daquela nação (cujo nome foi trocado para Libertânea) adotou um sistema de produção totalmente voltado para a satisfação das necessidades dos cidadãos. 

Ficou estruturada em células comunitárias deliberativas, com três grandes segmentos, como na antiga estrutura de divisão de  poderes elitistas, mas agora tornados segmentos organização popular de base: 
células administrativas  de controle da produção e abastecimento das unidades de produção (fazendas, industrias, centros administrativos de armazenamento e distribuição, controle de estoques, emissão de aplicativos de limites de consumo, etc.) dos distritos, ligadas a uma estrutura central de coleta de informações da grande região, que devolvia os dados para as decisões de base;
— células legislativas, compostas pelos membros da comunidade que passaram a legislar de acordo com os interesses e problemas surgidos nos vários campos do direito (civil, possessório não patrimonial –que deixara de existir, de vez que fora abolida a propriedade–, criminal, administrativo, etc.);
— células judiciárias, encarregadas da análise de processos e sentenças judiciais nos vários campos do direito, bem como em instancias de competências diferenciadas. 

Todos os serviços e produção funcionavam sem remuneração, mensuradas por critério da antiga forma-valor, mas que agora eram administradas pelo critério de necessidade comunitária a partir de um planejamento igualmente comunitário e deliberado a partir do aferimento da necessidade e capacidade de suprimento coletivo do consumo. 

Os novos critérios de produção e organização social surtiram efeitos tão satisfatórios e instigadores do espírito solidário que passaram a servir de exemplo para outras regiões que, mesmo não tendo sido atingidas pelo perfume da consciência, (o qual, infelizmente, não alcançava regiões mais distantes), passaram a se espelhar naquele exemplo altamente promissor de construção social.  

Entretanto, como os reinos vizinhos fossem ainda governados pela antiga lógica insana, militarista, elitista subtrativa dos recursos coletivamente produzidos, competitivamente destrutiva e ecologicamente predatória, de vez que o perfume da consciência não havia transposto as fronteiras da Libertânea, estabeleceu-se uma aliança entre aquelas nações intelectualmente subdesenvolvidas.

Tratava-se da tentativa de abafar o perigoso exemplo de emancipação popular vinda da Libertânea, na qual imperava a mais absoluta paz e prosperidade, mas que ameaçava a relação social retrógrada dos países vizinhos, todos conservadores.  
Uma experiência emancipacionista nos dias atuais:
o Sítio Brotando a Emancipação, em Fortaleza.

Paulatinamente, contudo, prevaleceu entre os povos dirigidos pelos governantes ainda teleguiados pela lógica da forma-valor, um sentimento de adesão ao modelo que servira de exemplo construtivo e solidário, adotado na Libertânea. Assim, as tentativas de agressão contra ela floparam solenemente. 

É que tal exemplo se alastrou mundo afora, derrubando, sem volta e progressivamente, o estágio inferior de relação social escravista até então vigente. 

Os novos problemas que surgiram em face das novas relações sociais adotadas, provocaram novos desafios, mas vamos ter de aguardar os encaminhamentos para um novo relato a partir das experiências vividas, informando, desde já, que eles não foram poucos. (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

SE A EMANCIPAÇÃO HUMANA NÃO FOR ALEGRE E FRATERNA, JAMAIS SERÁ EMANCIPATÓRIA – 1

dalton rosado
UMA REFLEXÃO PROPOSITIVA E
 AUTOCRÍTICA HISTÓRICA DA ESQUERDA
Entre outras questões, o grande embate dos anarquistas com os marxistas tradicionais sempre foi a negação do Estado como etapa de se alcançar uma sociedade sem classes sociais. 

Os primeiros sempre admitiram que o Estado nas mãos dos trabalhadores promoveria, pela via revolucionária da tomada do poder burguês, a necessária transição; os anarquistas diziam que esta via do poder estatizante não seria capaz de usar o veneno como antídoto do dito cujo, algo assim, como se desconfiassem que o uso do cachimbo entortasse a boca.

Os marxistas tradicionais, que se diziam sábios do socialismo científico, criticavam (e, o que é pior, perseguiam) os anarquistas, atribuindo-lhes falta de consistência programática e organizacional, além de qualificá-los de pequenos burgueses inconsequentes, por mera divergência doutrinária.

Os anarquistas acusavam os marxistas tradicionais de estatistas totalitários, capazes de justificar todas as injustiças cometidas no processo revolucionário em nome de um fim que (no entender deles, anarquistas) por aquela via jamais seria alcançado. 

Ambos repudiavam o poder burguês e clerical, sendo este último bastante influente no século 19, quando surgiram as teses doutrinárias socialistas de combate ao florescente capitalismo da primeira revolução industrial e tentativas de consolidação do republicanismo burguês com suas marchas e contramarchas do início daquele século.
Nascidos em 1809 e 1818, Proudhon e Marx foram os
grandes formuladores do anarquismo e marxismo
 

A Europa ferveu nas décadas iniciais e seguintes do século 19, marcado pelas guerras napoleônicas imperialistas; luta pela preservação e volta do poder monárquico; episódio da Comuna de Paris em 1871; guerra franco-prussiana, e ascensão do capitalismo imposto pelas armas de fogo (então desenvolvidas). 

Posteriormente a estes episódios, os dirigente de partidos comunistas, procurando ser fieis ao que julgavam ser o marxismo mais fidedigno, mandavam seus militantes pular a 1ª parte de O capital, por considerá-la filosofia hegeliana de menor importância, de vez que tentava explicar a essência da forma-valor (mercadoria e dinheiro), e isso lhes parecia tão fácil concluir que não mereceria maior atenção. 

Fixaram-se nas estratégias políticas de tomada do poder revolucionário sem considerar a essência mais acurada do pensamento de Karl Marx, escoradas justamente na crítica da economia política, que era mais profunda e analítica no longo prazo do que as escaramuças de revolução armada defendidas por Friedrich Engels, que encontrou em Lenin, posteriormente, um estrategista perfeito. 

Os anarquistas desconfiavam do poder político (daí a máxima anedótica Hay gobierno? Soy contra!), mas não propuseram a superação das categorias capitalistas, acreditando ingenuamente que, com os meios de produção nas mãos do operariado, mas sob a égide do mercado e sem tutela política e clerical, tudo estaria resolvido.

O Marx político errou, envelheceu; o Marx da crítica da economia política é mais atual do que nunca. 

O anarquismo, sem um melhor entendimento da negatividade da essência da forma-valor (dinheiro e mercadorias), era ingênuo e, apesar de tentativas comunitárias como a Colônia Cecília, não teve a capacidade de se contrapor à ordem militar e capitalista.
A influência dos anarquistas no Brasil durou pouco, mas a eles se deve a greve geral de 1917 
Então, fragmentou-se e foi  perdendo força como contingente aglutinador de expressão social transformadora e emancipacionista.

Ambas as tentativas sempre foram bem intencionadas mas, como disse o próprio Marx, o caminho para o inferno está cheio de boas intenções.

Como previu Marx nos Grundrisse, o capitalismo atingiu atualmente um estágio avançado e irreversível de contradições dos seus fundamentos existenciais, tornando-se claramente autodestrutivo de sua própria forma e socialmente destrutivo porque inviável como forma de mediação social minimamente eficaz; e, o que é pior, ameaçando-nos com uma crise ecológica capaz de acarretar o ecocídio da humanidade.   

Mas a autodestrutibilidade da forma capitalista não é, por si só, capaz de provocar a emancipação humana, caso inexista uma teoria revolucionária que dê um norte exequível e factível de ruptura, capaz de galvanizar a sociedade humana atual sob seus pressupostos. 

Afinal, a sociedade já não é composta majoritariamente por uma única categoria profissional, como o foi no passado pelo proletariado, o sujeito da revolução segundo a doutrina marxista tradicional, tida como única revolucionária. (por Dalton Rosado)
(continua neste link)
O Dalton escolheu para ilustrar este artigo a sua composição volta
do cipó, tributo que prestou a Geraldo Vandré, inspirando-se em 
duas canções do paraibano: Réquiem para Matraga e Aroeira

terça-feira, 20 de outubro de 2020

OS ANARQUISTAS JÁ FIZERAM HISTÓRIA NO BRASIL/2: A COLÔNIA CECÍLIA

      A colônia, conforme foi charmosamente retratada no filme italiano La Cecília, de 1975...
E
m 1968 o anarquismo ressurgiu triunfalmente na cena política, com suas bandeiras negras tremulando nas barricadas parisienses. 

Foi quando caiu para as novas gerações de revolucionários a ficha de que a greve geral de 1917 havia sido um episódio de extrema importância nas lutas sociais brasileiras, mas permanecera meio século subdimensionado ou mesmo omitido pela historiografia comunista, que, mesquinhamente, evitava levar água para o moinho da concorrência.

O impacto foi ainda maior para mim por ter tomado conhecimento de que o movimento se iniciara no Cotonifício Rodolfo Crespi, no qual meu pai trabalhara de 1930 até a desativação e desmembramento em 1963, além de permanecer como empregado, até 1976, de firmas menores que lá se estabeleceram.  
...e a Cecília lui-même, belo experimento libertário de 130 anos atrás! 
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Eu mesmo fiquei conhecendo uma delas, na qual ia fazer um bico mensalmente.

Quando o grande cotonifício ainda existia, eu cheguei a visitá-lo com meu pai. Para minha surpresa, constatei depois que o congênere italiano mostrado no filme Os Companheiros, ambientado no final do século retrasado, era quase idêntico. Ou seja, a fábrica daqui parecia uma cópia da europeia de seis décadas antes!

Percebendo o quanto a greve de 1917 havia sido minimizada pelos historiadores camaradas (o duplo sentido é intencional!), acabei me interessando também pelo outro grande marco da atuação anarquista no Brasil, a Colônia Cecília, e escrevendo sobre ambas. (CL)
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BEM ANTES DO RAULZITO NASCER, JÁ SE HAVIA TENTADO CRIAR AQUI UMA SOCIEDADE ALTERNATIVA
 
O filme La Cecilia (d. Jean-Louis Comolli, 1975) resgata um episódio histórico pouco conhecido entre nós, embora aqui transcorrido: a implantação de uma colônia rural no Paraná, por parte de anarquistas italianos.

Foi a concretização de um+ sonho há muito acalentado por Giovanni Rossi, conforme ressaltou a historiadora Izabelle Felici
"A personagem do fundador da Cecília é indissociável da história da colônia. Toda a sua atividade política gira em torno de um projeto de vida comunitária. 
Desde a sua adesão à Internacional, em 1873, aos 18 anos de idade, Giovanni Rossi propôs um projeto de vida comunitária na Polinésia. Os numerosos artigos que ele apresentou na imprensa italiana, anarquista e socialista, os apelos que ele lançou às associações, federações, partidos, suscetíveis, a seus olhos, de ajudá-lo, tinham todos por objetivo expor seu projeto de comunidade ou, após 1890, apoiar a experiência em curso no Brasil. 
Com o mesmo objetivo de propaganda, Rossi funda, além disso, seu próprio jornal, Lo Sperimentale, em 1886. Ele desenvolve igualmente seu projeto de comunidade num romance utópico, Un Comune Socialista, no qual a personagem feminina tem por nome Cecília".  

O experimento durou cerca de quatro anos, entre 1890 e 1893. Houve muito entusiasmo no início, mas depois foram aflorando os problemas que acabariam levando à extinção da colônia. Eis alguns:
— a contribuição desigual de citadinos e camponeses, pois a produtividade dos primeiros era inferior. Deveriam receber a mesma fração dos frutos do trabalho, conforme os ideais igualitários? Isto não significaria uma espécie de proletarização dos que produziam mais por estarem acostumados a lidar com a terra? De outra parte, se os lavradores fossem melhor aquinhoados do que os outros, não estaria sendo reproduzida a escala de valores da sociedade burguesa? Inexistia uma solução que contentasse a todos;
— a dificuldade de lidarem, no dia a dia, com o conceito do amor livre, uma novidade que incomodava principalmente as colonas de origem camponesa;
— a absoluta falta de seriedade do Estado brasileiro, que já era patético décadas antes de De Gaulle o haver constatado. O imperador Pedro II, atendendo a pedido do músico Carlos Gomes, doou as terras para a instalação da Cecília, mas, proclamada a República, o seu ato foi sumariamente revogado e os colonos tiveram de pagar pelas terras com parte de sua colheita e trabalhando sem remuneração em obras do governo;
— a hostilidade dos moradores da região (por sentirem-se prejudicados pela concorrência) e de uma vizinha comunidade polonesa, católica e conservadora;
— as fases de escassez e de fome, com a consequente ocorrência de doenças decorrentes da desnutrição (problemas passageiros, que, contudo, reforçaram a tendência ao egoísmo por parte dos menos convictos dos ideais anarquistas, gerando desgastantes divisões); e
— a tentativa do governo de recrutar os colonos (italianos!!!) para combaterem a Revolução Federalista, o que, inclusive, contrariava seus ideais, pois simpatizavam com os revoltosos.

A Cecília chegou a ter 250 moradores e não deixaram de ocorrer defecções em massa, contrabalançadas pela chegada de novas levas de voluntários, atraídos pela divulgação nos círculos libertários europeus.

Alguns desistentes migraram para Curitiba, onde fundaram a
Sociedade Giuseppe Garibaldi.

O filme conta esta rica história de forma dramatizada e com evidente simpatia pela causa.

Vale destacar que o elenco, cuja única cara familiar ao público brasileiro é a do ótimo Vittorio Mezzogiorno (No coração da montanhaO processo do desejoTrês irmãos), deu perfeita conta do recado.

Particularmente, eu preferiria uma abordagem menos convencional –como, p. ex., a que o cineasta suíço Alain Tanner deu aos ideais de 1968 no seu extraordinário Jonas, que terá 25 anos no ano 2000

Mas, sendo tão raras as produções que enfocam episódios históricos ligados ao anarquismo, temos mais é de incentivar filmes como este, recomendando a todos que o prestigiem, discutam e divulguem...

Chega a ser chocante que, em meio a tanta tralha produzida no Brasil, ninguém haja realizado um filme sobre a Colônia Cecília, nem sobre a importantíssima greve geral de 1917.    

Antes mesmo das trevas que desabaram sobre nós em 2019, já existiam assuntos malditos para nosso cinema, como os relativos a episódios libertários, às lutas por justiça social e às possibilidades eróticas inaceitáveis para as pessoas reprimidas. 

E, claro, nossos últimos 22 meses foram de retrocesso desembestado, rumo a um passado ignaro e bestial. (CL)
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