terça-feira, 31 de dezembro de 2013

domingo, 29 de dezembro de 2013

A NOBREZA DE ALI E A TORPEZA DE WEIDMAN

Nunca esquecerei a 3ª luta entre os extraordinários Muhammad Ali e Joe Frazier.

As duas primeiras, com uma vitória de cada lado, haviam sido inconclusivas. 

Ali acumulara pontos suficientes para, pelo menos, empatar a 1ª, apesar do knock-down sofrido no último assalto. Assim não entenderam os jurados, despertando fortes suspeitas de que fatores extra-ringue pesaram na sua decisão. Ser um símbolo do repúdio à Guerra do Vietnã acarretava consequências de todo tipo, como se constata num excelente filme de Stephen Frears, A maior luta de Muhammad Ali.

Também não pareceu ter vencido a 2ª, novamente por pontos. Dois empates teriam ficado de melhor tamanho.

No tira-teima, Ali teve Frazier totalmente à sua mercê no 14º round, mas preferiu não desferir um golpe poderoso contra o adversário grogue. Pediu ao juiz que encerrasse a luta e, não sendo atendido, deixou o tempo escorrer até o soar do gongo. 

O descanso não foi suficiente para Frazier se recuperar. Abandonou. Sua cara, numa foto, parecia pôster de filme de terror...

A nobreza de Ali contrasta com a torpeza do tal Chris Weidman no UFC.

Primeiramente, por ter utilizado uma defesa que tinha enorme chance de produzir o resultado que produziu.

Depois por, apesar das lágrimas de crocodilo que derramou sobre o pobre Anderson Silva, ter feito questão de trombetear aos quatro ventos que treinara muito tal defesa com o joelho, por ele justificada como uma maneira de intimidar os oponentes, dissuadindo-os de utilizarem chutes baixos. 

Ou seja, quis que todos soubessem que o ocorrido não fora obra do acaso. No fundo, no fundo, ele considera a fratura uma proeza; talvez emoldure uma foto do brasileiro se contorcendo em dores para colocá-la na sua estante de troféus.

Concordo com Weidman: não foi mesmo por acaso. Foi por ganância, ambição e insensibilidade. Por considerar que não há limites quando se trata de engordar sua conta bancária e alavancar sua carreira.

Há quem prefira restringir suas críticas à bestialidade das MMA e à morbidez do público que lhe garante estrondoso sucesso financeiro. Mas, o julgamento de Nuremberg consagrou o princípio de que a ninguém é dado praticar atos hediondos sob a justificativa de que cumpria ordens superiores (ou, no caso presente, de que contusões são aceitáveis nos esportes em que há contato físico).

Nada obriga o lutador a infligir no colega de profissão as dores mais terríveis, talvez danos permanentes, talvez a morte. 

Mesmo nessas arenas de gladiadores modernas, geralmente há como evitar o pior. Muhammad Ali o fazia. Já o repulsivo Weidman não tem a mais remota preocupação em evitar o pior (pouco importando o fato de que Anderson Silva também não seja um anjinho, apelando frequentemente para os perigosíssimos chutes na cara).

Considero-me um brasileiro cordial, quase sempre compassivo. Mas, no que tange a Weidman, seria um hipócrita se me mostrasse condescendente. Torço para que Vitor Belfort chegue às mesmas conclusões que eu::
  • quem encara o esporte como uma guerra, merece sofrer, como esportista, as consequências de uma guerra;
  • quem trata o adversário como inimigo, como inimigo deve ser tratado pelo adversário seguinte.
Isto, claro, dando como favas contadas que os interesses comerciais continuarão prevalecendo até sobre nosso direito à sanidade e à vida, como sói acontecer no capitalismo. Pois, já passou da hora dessas rinhas sanguinárias de humanos serem terminantemente proibidas. 

O melhor mesmo será se não ocorrer a luta Weidman x Belfort, nem nenhuma outra desse tipo.

UMA AMOSTRA DO MAGNÍFICO CINEMA POLICIAL FRANCÊS DOS ANOS 60 E 70

Finalmente encontrei no Youtube e estou podendo disponibilizar aqui um filme representativo do magnífico cinema policial francês das décadas de 1960 e 1970: Adeus, amigo (1968).

Era um tempo em que os estadunidenses insistiam em introjetar nos espectadores, martelando-a ad nauseam, sua visão maniqueísta de mundo, de forma que quase todos os seus policiais (e também os westerns) tomavam o partido das forças da ordem e apresentavam os bandidos sob ótica extremamente negativa. 

A demonização dos gangsters ia a tais extremos que, na fita famosa de 1932, dirigida por Howard Hawks, há uma clara sugestão de que Scarface seria incestuoso. Para que os tiras parecessem sãos, confiáveis e protetores, os marginais eram apresentados como monstruosidades.

Produto de uma sociedade muito mais evoluída, o cinema francês não estava comprometido com lavagens cerebrais conservadoras e policialescas. Grandes novelistas como George Simenon e Auguste Le Breton fixaram um parâmetro para o gênero: enfocar o submundo e a polícia como dois universos complementares, cujas regras e valores eram expostas de forma isenta, sem preconceitos rançosos.

O comissário Maigret, personagem de Simenon, não está a serviço de uma Justiça infalível nem obedece cegamente à lei. Sempre que há um conflito entre o que é certo e o que acabará ocorrendo face às imperfeições da Justiça e da lei, ele opta por seguir seu próprio juízo. 

O grande Jean Gabin no papel do Comissário Maigret
Até cometendo pequenas ilegalidades, age e tange os acontecimentos para que haja Justiça no sentido maior da palavra, seja poupando coitadezas que não sabiam o que estavam fazendo ou merecedores de uma nova chance, seja castigando poderosos que normalmente ficariam impunes. Expressa uma um descompromisso e uma desconfiança bem européia em relação ao Estado.

Quanto a Le Breton, seu clássico Rififi mostrou o submundo (o chamado milieu) de forma até simpática: quando um gângster sequestra uma criança para pressionar os comparsas a entregarem-lhe todo o butim, a reação da marginalidade é unânime e indignada, tomando as dores do pai aflito. Não são monstros, têm sua moral e seus códigos, incluindo uma solidariedade básica para com os outros marginais. 

[Isto é algo difícil de compreender para os jovens de hoje, pois os criminosos, principalmente a partir dos lucros mirabolantes do tráfico de drogas, tornaram-se bestas-feras, além de manterem laços promíscuos com a polícia e delatarem uns aos outros com a maior sem-cerimônia. Mas, nem sempre foi assim.]

Robert Ryan contracenou com Jean-Louis Trintignant
Se Simenon e Le Breton foram determinantes para a postura arejada dos policiais franceses da primeira metade do século passado, cujo principal astro era Jean Gabin, adiante vieram juntar-se-lhes Sebastien Japrisot e, principalmente, Jose Giovanni (autor de novelas policiais que também atuava como roteirista -adaptando tanto seus textos como os de outros escritores, daí ter colaborado com duas dezenas de filmes- e diretor).

E David Goodis, cuja obra é muito mais afim dos policiais franceses que dos estadunidenses, teve suas novelas aproveitadas em cinco filmes, dentre eles o primoroso O homem que surgiu de repente.

Um divisor de águas foi O samurai (1967), do grande cineasta Jean-Pierre Melville, veterano da Resistência Francesa. Equiparando um matador de aluguel francês aos ronins japoneses, o filme disseca exaustivamente a técnica e os valores desse indivíduo que obedece a um código de conduta extremamente rígido: é o profissional perfeito, só que atuando numa profissão diferente. Com sua parcimônia de diálogos e sua abordagem desglamourizada, influenciou fortemente os cineastas franceses daquela geração, praticamente definindo o modo francês de fazer policiais dali em diante.

Antes de ser cineasta, Melville resistiu à ocupação nazista
Melville é responsável por outros filmes fundamentais, como Bob le Flambeur (1956), Técnica de um delator (1962), Os profissionais do crime (1966), O círculo vermelho (1970) e Expresso para Bordeaux (1972). 

Entre os principais diretores do filão, destacam-se também: 
  • o próprio Giovanni (Último domicílio conhecido, 1970; Scomoune, o tirano, 1972: Dois homens contra uma cidade, 1973; O cigano solitário, 1975; e Bumerangue, 1976);
  • Henri Verneil (Gangsters de casaca, 1963; Os sicilianos, 1969; Os ladrões, 1971; e Medo sobre a cidade, 1975):
  • Jacques Deray (Borsalino, 1970; Os gangsters não esquecem, 1972; e Flic story, 1975);
  • Rene Clement (O sol por testemunha, 1960; O passageiro da chuva, 1970; e O homem que surgiu de repente, 1972); 
  • Robert Enrico (Ho! A face de um criminoso, 1968; Um beijo ao morrer, 1972; e O segredo, 1974); e
  • Yves Boisset (O assassino tem as horas contadas, 1968; O chefão, 1970; e O cobra, 1971). 
Delon e Belmondo, juntos em Borsalino
Os astros do filão, claro, eram Alain Delon e Jean-Paul Belmondo, mas muita gente boa andou por lá: Jean-Louis Trintignant, Maurice Ronet, Robert Hossein, Yves Montand, Simone Signoret, Lino Ventura, Gian-Maria Volonté, Serge Reggiani, Michel Bouquet, Bernard Fresson, o eterno Jean Gabin, etc. Até Robert Ryan e Omar Shariff deram o ar de suas graças.

Adeus, amigo tem direção correta de Jean Herman, valendo, sobretudo, pela excelente história de Sebastien Japrisot e pela atuação marcante de Alain Delon e Charles Bronson, ambos na melhor fase de suas carreiras. 

Uma série de equívocos acaba fazendo com que ambos fiquem presos num enorme cofre, durante o feriadão de Natal: Dino (Delon), porque queria fazer um favor à amante de um saudoso amigo; e Franz (Bronson) por pensar que se tratava de um roubo, do qual tentou também participar. 

Ao finalmente saírem, Dino pede a Franz que lhe dê sua palavra de honra, de jamais revelar que estiveram juntos no cofre, evitando assim um enquadramento jurídico que aumentaria muito uma eventual pena de prisão. Franz responde: "Mas, eu não tenho honra". E Dino: "Prometa-me, mesmo assim".

A insólita amizade entre pessoas tão diferentes vai lhes acarretar muitos tormentos. Mas, acabará mesmo havendo honra entre ladrões (um título alternativo do filme, por sinal mais adequado). Recomendo enfaticamente.  

sábado, 28 de dezembro de 2013

A DESMILITARIZAÇÃO DO POLICIAMENTO IMPÕE-SE DESDE 1985!!!

No instante em que é novamente discutida a substituição das polícias militarizadas brasileiras por instituições civis, vale lembrarmos que, no final de junho de 2012, o Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas recomendou a extinção das ditas cujas, em função não só de seu altíssimo índice de letalidade, mas também do fato de que parte expressiva de tais óbitos se devia a "execuções extrajudiciais".

Após analisar 11 mil casos de alegadas  resistências seguidas de morte, a ONU constatou o que por aqui todos estávamos carecas de saber desde 1992, quando Caco Barcellos lançou seu primoroso livro-reportagem Rota 66 - A história da polícia que mata: frequentemente não houvera resistência nenhuma mas, tão somente, assassinatos a sangue frio de suspeitos já rendidos.

Para piorar, as autoridades brasileiras quase sempre acobertavam os homicídios desnecessários e covardes perpetrados pelos PMs.

Na reunião da ONU em que se discutiu o assunto, coube à Coreia do Sul dar nome aos bois, equiparando tais episódios aos crimes outrora cometidos pelos nefandos esquadrões da morte (aqueles bandos de policiais exterminadores que, durante a ditadura militar, trombeteavam triunfalmente seus feitos e agora atuam com alguma discrição, mas continuam existindo, sim, senhor!).

"TREINAMENTO CRUEL E HUMILHANTE"

Para Marcelo Freixo, professor de História e deputado estadual pelo PSOL (RJ), "é fundamental que o Congresso Nacional aprove a proposta de emenda constitucional (PEC 51/2013) que prevê a desvinculação entre a polícia e as Forças Armadas; a efetivação da carreira única, com a integração entre delegados, agentes, polícia ostensiva, preventiva e investigativa; e a criação de um projeto único de polícia". Concordo em gênero, número e grau.

Em artigo publicado na Folha de S. Paulo deste sábado (28), Freixo citou vários episódios em que o treinamento imposto pela PM, rigoroso a ponto de justificar a comparação com sessões de tortura, causou a morte de soldados.

O caso mais chocante aconteceu no Rio de Janeiro, em novembro, quando um integrante da 5ª Companhia Alfa da PM morreu, outros 33 recrutas passaram mal e 24 sofreram queimaduras nas mãos ou nas nádegas (quem não suportava os exercícios era obrigado a sentar-se no asfalto escaldante).

Os oficiais não lhes davam sequer tempo para se hidratarem, então alguns beberam a água suja destinada aos cavalos. A enfermaria da unidade revelou que alunos chegaram a urinar e vomitar sangue.

O secretário estadual de Segurança José Mariano Beltrame, acertadamente, classificou a morte do recruta Paulo Aparecido Santos de Lima, de 27 anos, como homicídio. Resta saber se será punida como tal.

Uma pertinente indagação de Freixo:
"Como esses soldados, submetidos a um treinamento cruel e humilhante, se comportarão quando estiverem patrulhando as ruas e atuando na pacificação das comunidades?" 
E uma constatação também pertinente (eu diria até irrefutável...):
"Em todos os Estados do país, a PM é concebida sob a mesma lógica militarista e antidemocrática. (...) Em vez de se preocupar em formar soldados para a guerra, para o enfrentamento e a manutenção da ordem de forma truculenta, o Estado precisa garantir que esses profissionais atuem de forma a fortalecer a democracia e os direitos civis. A realização dessa missão passa necessariamente por mudanças na essência do braço repressor do poder público".
ENTULHO AUTORITÁRIO

Tal mostrengo existe por obra e graça da ditadura de 1964/85, só sobrevivendo a ela em função da pusilanimidade dos governantes civis a quem cabia eliminar o entulho autoritário.

Na sua trajetória para concentrarem poder na segunda metade da década de 1960, os militares encontraram alguma resistência por parte dos governadores civis que ajudaram a dar o golpe mas depois viram, com óbvio desagrado, esfumarem-se suas ambições presidenciais. Precavidos, os fardados resolveram assegurar-se de que os paisanos não contariam com tropas a eles leais.

O governador Adhemar de Barros, p. ex., até o último momento acreditou que a Força Pública impediria a cassação do seu mandato (tiraram-no do caminho acusando-o de corrupto -o que ele sempre foi- mas, na verdade, porque não se conformava com o monopólio castrense do poder).

Então, nas Constituições impostas de 1967 e 1969, a ditadura fez constar da forma mais incisiva que "as polícias militares (...) e os corpos de bombeiros militares são considerados forças auxiliares, reserva do Exército".

Na prática, seus comandos foram se subordinando cada vez mais aos das Forças Armadas; e as lições de tortura aprendidas de instrutores estadunidenses e aprimoradas nos DOI-Codi's da vida foram ciosamente repassadas aos novos  pupilos. Daí a tortura ter continuado a grassar solta, longe dos holofotes, depois da redemocratização do País, só mudando o perfil das vítimas (passaram a ser os presos comuns).

Além disto, a ditadura estimulou a absorção da civilizada Guarda Civil de São Paulo pela truculenta Força Pública (que atuava como tropa de choque em conflitos), sob a denominação de Polícia Militar. Vale notar que o decreto-lei neste sentido, o de nº 217, é de 08/04/1970, bem no auge do terrorismo de estado no Brasil.

Não é à toa que, até 2011, a unidade mais violenta da PM paulista (a Rota) mantinha no seu site rasgados elogios ao papel que a corporação havia desempenhado na derrubada do presidente legítimo João Goulart, só os deletando sob vara da ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

EM JANEIRO A USP VOLTARÁ A TER UM REITOR DE VERDADE. FORA TFP!

Há companheiros que igualam a atual democracia a serviço dos poderosos à ditadura de 1964/85. Geralmente, os que nasceram depois dos anos de chumbo ou eram muito jovens para guardarem uma lembrança mais precisa do arbítrio.

Um pequeno exemplo da diferença entre os dois períodos históricos acaba de ser dado pelo governador Geraldo Opus Dei Alckmin.

Em novembro de 2009, o então governador José Serra, prestes a fazer uma campanha presidencial de orientação acentuadamente direitista, escolheu para reitor da Universidade de São Paulo o segundo colocado na lista tríplice que lhe foi submetida: João Grandino Rodas, menina dos olhos da Tradição, Família e Propriedade.

Rodas tinha o pior currículo possível e imaginável.

Como diretor da Faculdade de Direito da USP, requisitou em agosto de 2007 a entrada da tropa de choque da PM para a expulsão de manifestantes que haviam ocupado o prédio em função da Jornada em Defesa da Educação.

Integrando a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos entre 1995 e 2007, indeferiu todos os pedidos de reparação que pôde -127 dos 172 processos nos quais atuou-, quase sempre por questiúnculas burocráticas como a de que o prazo para os requerimentos teria se esgotado. Chegou ao cúmulo de negar a participação da ditadura no assassinato da estilista Zuzu Angel, sendo, contudo, voto vencido.

Depois, como reitor da USP, reviveu os piores tempos da repressão ditatorial, ao aquartelar permanentemente a PM no campus universitário, gerando todo tipo de provocações, enfrentamentos e atritos com estudantes, professores e servidores.

Afora as denúncias de corrupção e má gestão que pipocavam desde que era diretor da Faculdade de Direito. Como reitor da USP, foi, p. ex., acusado da compra de imóveis com preços elevados, extinção de cursos e vagas, terceirização da universidade e aumento do filtro social para a entrada de alunos na Universidade.

Culminando com o expurgo de janeiro de 2011, quando Rodas foi responsável pela demissão em massa de 271 funcionários da USP.

Na ocasião, o grande jurista Fábio Konder Comparato e outros quatro professores da USP assim se manifestaram:
"Após declarar-se pelo financiamento privado e pela reordenação dos cursos segundo o mercado, o reitor vem instituindo o terror por intermédio de inquéritos administrativos apoiados em um instrumento da ditadura (dec. nº 52.906/ 1972), pelos quais pretende a eliminação de 24 alunos.
Quanto aos servidores, impôs, em 2010, a quebra da isonomia salarial, instituída desde 1991, e, para inibir o direito de greve, suspendeu o pagamento de salários, desrespeitando praxe institucionalizada há muito na USP. 
Agora, em 2011, determinou o 'desligamento' de 271 servidores, sem prévio aviso e sem consulta a diretores de unidades e superiores dos 'desligados'. Não houve avaliação de desempenho. Nenhum desses servidores possuía qualquer ocorrência negativa. As demissões atingiram técnicos na maioria com mais de 20 anos de serviços prestados à universidade.
O ato imotivado e, portanto, discriminatório, visou, unicamente, retaliar e aterrorizar o sindicato (Sintusp), principal obstáculo à privatização da USP..."
A indignação foi tamanha que Rodas recebeu (e esnobou!) convite para prestar esclarecimentos na Assembléia Legislativa de São Paulo. Fez-se representar por um subalterno escolhido à sua imagem e semelhança: sem ter como justificar as medidas arbitrárias, ele abandonou intempestivamente a sessão, deixando de prestar os esclarecimentos solicitados.

A CONVENIÊNCIA POLÍTICA PESOU 
MAIS DO QUE A AFINIDADE IDEOLÓGICA

Se estivéssemos numa ditadura, Alckmin poderia tranquilamente nomear o favorito de Rodas, Wanderley Messias, com o qual certamente tem grande afinidade ideológica. Não precisaria levar em conta o fato de o colégio eleitoral (formado por membros do Conselho Universitário, dos conselhos centrais e das congregações das unidades, dos conselhos deliberativos de museus e institutos especializados) tê-lo relegado ao terceiro lugar, com apenas 462 votos.

Já na nossa (ainda que imperfeita) democracia, um valor mais alto se alevantou, determinando sua decisão: o fato de a permanência do PSDB no Palácio dos Bandeirantes estar seriamente ameaçada. Então, tratou de eliminar um foco de permanente tensão, que poderia lhe ser muito prejudicial na eleição de 2014, caso, p. ex., algum confronto entre fardados e universitários terminasse em morte. . 

Daí haver optado pelo candidato que não só venceu amplamente a disputa no colégio eleitoral (obtendo 1.206 votos, enquanto os concorrentes, somados, totalizaram 960), como também foi o preferido numa consulta aberta na universidade, em que 14 mil pessoas indicaram seu predileto.

Vai daí que, no próximo dia 25, a USP voltará a ter um reitor de verdade, após as péssimas e turbulentas gestões de Suely Vilela Sampaio e Rodas. 

Com isto, o processo de fascistização da USP -paradoxalmente iniciado por um ex-presidente da UNE- vai ser, enfim, detido. Alvíssaras!

Caberá ao médico Marco Antonio Zago, que se define como um apaziguador, a missão de eliminar todos os resquícios da praça de guerra em que a USP foi transformada ultimamente. 

Começando pela imediata extinção do convênio com a PM, uma vergonha para qualquer instituição de ensino superior em qualquer país do mundo.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O ESPÍRITO ESPORTIVO E O ESPÍRITO DE HORDA

Em 1949, o tetracampeão italiano Torino perdeu todos os seus titulares num acidente de aviação. Era o líder do campeonato e faltavam quatro rodadas. A única opção que lhe restou foi escalar juvenis nas partidas restantes.

Mesmo assim foi campeão, porque os principais adversários imitaram o seu gesto, recusando-se a tirar proveito mesquinho de uma tragédia. 

Em 1969 o Corinthians vinha fazendo um grande campeonato paulista e parecia fadado a encerrar o jejum de títulos que já totalizava 14 anos. Depois de derrotar todos os outros grandes, era o franco favorito para o quadrangular decisivo. 

Mas, sofreu um baque com o acidente automobilístico que matou o lateral-direito Lidu e o ponta-esquerda Eduardo, dois jogadores fundamentais para o bom desempenho daquela equipe. 

Pediu autorização para contratar substitutos, embora as inscrições já estivessem encerradas. Todos os adversários concederam, menos um: o Palmeiras. Fragilizado, o Corinthians despencou na fase decisiva.

Vinte anos separam estes dois episódios. Mas, a diferença é muito maior. É entre espírito esportivo e espírito de horda.

E, por falar nisto, o que devemos esperar do escrete do Felipão no Mundial de 2014? Espírito esportivo ou aquele repulsivo "Pega! Pega! Pega!" do paulistão de 1999? 

Para os que não se lembram, foi a ordem que Scolari deu ao seu comandado Paulo Nunes, incitando-o a chutar o adversário Edílson.  A agressão covarde desencadeou uma pancadaria generalizada e a partida final do campeonato acabou, melancolicamente, antes do tempo regulamentar.  

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O NATAL COMO CELEBRAÇÃO DO TEMPLO E DE SEUS VENDILHÕES. E A ALTERNATIVA.

O que o mundo realmente celebra no Natal? A saga de um carpinteiro que trouxe esperança a pescadores e outras pessoas simples de um país subjugado ao maior império da época.

Os primeiros cristãos eram triplamente injustiçados: economicamente, porque pobres; socialmente, porque insignificantes; e politicamente, porque tiranizados.

Jesus Cristo nasceu três décadas depois da maior revolta de escravos enfrentada pelo Império Romano em toda a sua existência.

As mais de seis mil cruzes fincadas ao longo da Via Ápia foram o desfecho da epopéia de Spartacus, que, à sua maneira rústica, acenou com a única possibilidade então existente de revitalização do império: o fim da escravidão. Roma ganharia novo impulso caso passasse a alicerçar-se sobre o trabalho de homens livres, não sobre a conquista e o chicote.

Vencido Spartacus, não havia mais quem encarnasse (ou pudesse encarnar) a promessa de igualdade na Terra.

Jesus Cristo a transferiu, portanto, para o plano místico: todos os seres humanos seriam iguais aos olhos de Deus, devendo receber a compensação por seus infortúnios num reino para além deste mundo.

Este foi o cristianismo das catacumbas: a resistência dos espíritos a uma realidade dilacerante, avivando o ideal da fraternidade entre os homens.

Hoje há enormes diferenças e uma grande semelhança com os tempos bíblicos: o império igualmente conseguiu neutralizar as forças que poderiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

A revolução é mais necessária do que nunca, mas inexiste uma classe capaz de assumi-la e concretizá-la, como o fez a burguesia, ao estabelecer o capitalismo; e como se supunha que o proletariado industrial fizesse, edificando o socialismo.

AS AMEAÇAS DE CATÁSTROFES E O FANTASMA DO RETROCESSO

O fantasma a nos assombrar é o do fim do Império Romano: ou seja, o de que tal impasse nos faça retroceder a um estágio há muito superado em nosso processo evolutivo.

O capitalismo hoje produz legiões de excluídos que fazem lembrar os bárbaros que deram fim a Roma; não só os que vivem na periferia do progresso, mas também os miseráveis existentes nos próprios países abastados, vítimas do desemprego crônico.

E as agressões ao meio ambiente, decorrentes da ganância exacerbada, estão atraindo sobre nós a fúria dos elementos, com conseqüências avassaladoras. Décadas de catástrofes serão o preço de nossa incúria.

No entanto, como disse o grande jornalista Alberto Dines, “criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas na beira do abismo recuam e escolhem viver”.

Se a combinação do progresso material com a influência mesmerizante da indústria cultural tornou o capitalismo avançado praticamente imune ao pensamento crítico e à gestação/concretização de projetos alternativos de organização da vida econômica, política e social, tudo muda durante as grandes crises, quando abrem-se brechas para evoluções históricas diferentes.

Temos pela frente não só a contagem regressiva até que as contradições insolúveis do capitalismo acabem desembocando numa depressão tão terrível como a da década de 1930, como a sucessão de emergências e mazelas que decorrerão das alterações climáticas.

O sofrimento e a devastação serão infinitamente maiores se os homens enfrentarem desunidos esses desafios. Caso as nações e os indivíduos prósperos venham a priorizar a si próprios, voltando as costas aos excluídos, estes morrerão como moscas.

O desprendimento, substituindo a ganância; a cooperação, em lugar da competição; e a solidariedade, ao invés do egoísmo, terão de dar a tônica do comportamento humano nas próximas décadas, se as criaturas e nações escolherem viver.

E há sempre a esperança de que os mutirões criados ao sabor dos acontecimentos acabem apontando um novo caminho para os cidadãos, com a constatação de que, mobilizando-se e organizando-se para o bem comum, eles aproveitam muito melhor as suas próprias potencialidades e os recursos finitos do planeta.

Então, para além deste Natal mercantilizado, que se tornou a própria celebração do templo e de seus vendilhões, vislumbra-se a possibilidade de outro. O verdadeiro: o Natal cristão, dos explorados, dos humilhados e ofendidos.

Se frutificarem os esforços dos homens de boa vontade.

sábado, 21 de dezembro de 2013

A AMBIÇÃO DELIRANTE DE AGUIRRE E O REICH DE MIL ANOS DE HITLER

Aguirre, a cólera dos deuses (1972) -disponibilizado, completo e legendado, na janelinha abaixo- é a obra máxima do diretor alemão Werner Herzog, que começou no dito cinema de arte e marcou forte presença nas décadas de 1970 e 1980. 

Desde então, contudo, sua carreira decaiu miseravelmente. Mas, não deve ser julgado por equívocos como a refilmagem piorada de Vício frenético (levou uma goleada do Abel Ferrara!) e O sobrevivente. Ele chegou a ser muito grande. Deveria ter encerrado a carreira quando não lhe ofereciam mais projetos com os quais tivesse afinidade ou que estivessem à altura do seu talento.

Aguirre continua sendo, até hoje, um dos filmes que melhor flagram a apatia e passividade com que o povo alemão se submete a líderes autoritários imbuídos de ambições desmedidas e destrutivas, acompanhando-os até o mais amargo fim. O paralelo com Hitler e seu Reich de mil anos é mais do que evidente.

Destaque também para a inesquecível atuação do carismático Klaus Kinski, que parece ter nascido para representar o papel de Don Lope de Aguirre -o aventureiro que, quando o fracasso de uma expedição em busca de Eldorado se evidencia, não se conforma com a decisão de Don Pedro de Urzúa (nosso velho conhecido Ruy Guerra), o qual, sensatamente, ordena o retorno. Assume o comando pela força e arrasta a todos para o âmago da selva amazônica, que os tragará.

Os  cenários naturais são majestosos, a ganância ensandecida de Aguirre impacta fortemente os espectadores e o filme é lembrado também pela convivência difícil entre Kinski e Herzog, que o diretor depois esmiuçaria no documentário Meu melhor inimigo (1999). 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

SER BOM VASSALO, O QUE É? É VOLTAR AS COSTAS AO SNOWDEN.

Deu na imprensa: Thomas Shannon, assessor especial do secretário de Estado John Kerry, qualificou de "positiva" a decisão do governo brasileiro, de desconsiderar o pedido de asilo de Edward Snowden e a sua disposição de ajudar-nos a combater a arapongagem estadunidense, expressos na Carta ao povo do Brasil.

"Há vários sinais positivos emitidos pelo governo brasileiro, (...) chegamos a um bom ponto", acrescentou Shannon.

Realmente, o governo brasileiro agiu com sabedoria. Aquela sabedoria sobre a qual discorreu o grande Brecht:
"Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria: 
manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; 
seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los. 
Sabedoria é isso!" 
Só faltou o verso seguinte: "Mas, eu não consigo agir assim!".

E,  por falar em Brecht e brechtianos, ocorreu-me também que a situação presente tem tudo a ver com o trecho abaixo da magistral peça Arena conta Tiradentes, que é de 1968 mas continua atualíssima:
CORINGA
Ser bom vassalo o que é?
Me responda quem souber.
CORO
Ser bom vassalo é esquecer
aquilo que a gente quer.
Ser bom vassalo é morrer.
Ser bom vassalo, quem quer?
Me responda quem quiser.
CORINGA
Só quer ser um bom vassalo,
quem vive seu bom viver,
quem explora e não é explorado,
quem tem tudo pra perder!
Em tempos idos, os bons vassalos defendiam apenas seus privilégios. Agora a coisa piorou: até os que deveriam ser contra os privilégios acabam se tornando bons vassalos, pois temem que a governabilidade seja prejudicada se entrarem em atrito com o suserano. 

Uma característica, contudo, permanece imutável: ser bom vassalo é esquecer aquilo que a gente quer. Aquilo pelo que um dia lutamos. Aquilo em nome do qual companheiros estimados morreram e sofreram.

Por último, a boa notícia (uma, pelo menos!): o texto integral de Arena conta Tiradentes acaba de ser disponibilizado neste endereço. Recomendo enfaticamente.

Para quem quiser saber mais sobre a peça, eis alguns links: primeiro, segundo, terceiro e quarto.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

JOGANDO COMO GALINHA MORTA, COM TÉCNICO TICO-TICO, GALO FOI DEPENADO

Muitos ficaram indignados com o que eu escrevi quando o Atlético Mineiro conquistou a Copa Libertadores da América de 2013:
"É uma pena que a noite de Cinderela atleticana deva acabar por aqui, a menos que aconteça o pra lá de improvável: a substituição do Cuca por um técnico de ponta.
...O Atlético deitou e rolou  antes das quartas de final, mas depois encruou, nivelando-se com equipes inferiores e dependendo da sorte e de acasos para levantar a taça. 
Não conseguiu fazer um mísero gol a mais do que o Tijuana (dois empates), o Newell's Old Boys (derrota e vitória pelo mesmo placar, 2x0) e o Olimpia (idem, idem). 
Salvou-se graças a gols marcados no apagar das luzes, ao pênalti desperdiçado pelos mexicanos também no apagar das luzes... e ao fato de que as luzes, desta vez não metaforicamente, sofreram um providencial  apagão quando a equipe estava perdida em campo, na semifinal.  
Ademais, por duas vezes seguidas tirou o bilhete premiado na loteria dos pênaltis.
O que poderia ser uma conquista tão fácil e categórica quanto a do Corinthians em 2012, tornou-se um drama de explodir corações. Por culpa de quem?
Do mediano Cuca, claro. Ele não soube armar um esquema para obter vitórias ou, pelo menos, empates fora de casa, contra os adversários mais qualificados. Nem para, organizadamente, fazer os placares em casa. Daí ter ficado na dependência do tudo ou nada  nos instantes derradeiros.
É inimaginável o time do Cuca vencer o time do Guardiola no Mundial"
Nem sequer chegou à final, sendo eliminado antes pelo nono colocado do campeonato marroquino, o Raja Casablanca. Um time que se limitou a defender bem e contra-atacar com rapidez, aproveitando os buracos da defesa do galo.

Como eu destacara, o técnico Cuca tinha sido incompetente para conseguir vitórias ou empates fora de casa na fase de mata-mata da Libertadores e continuou sendo-o no Mundial. Com a diferença de que não havia jogo de volta para permitir uma reversão do quadro na bacia das almas.

O Atlético se apequenou diante de uma torcida entusiástica e de um adversário brioso e taticamente aplicado, mas bem inferior em termos técnicos. Perdeu e mereceu perder.

Talvez os leitores que não gostam de avaliações críticas, preferindo os oba-obas triunfalistas, passem agora a me compreender melhor.

Nem de longe eu torcia contra o Atlético. Mas, tudo que conheço de futebol, após acompanhá-lo com razoável interesse durante cinco décadas, me levava a concluir que o galo só teria alguma possibilidade de conquistar o título mundial se trocasse de treinador. Com um time muito inferior ao do Bayern e um técnico muitíssimo inferior ao Pep Guardiola, suas chances seriam irrisórias.

Meu alerta de nada serviu e aconteceu exatamente aquilo que eu tentava evitar. Paciência.

Da mesma forma, tenho advertido que Felipão não é o homem certo para conduzir o Brasil à vitória em 2014. É a minha maneira de contribuir para que ele seja substituído antes do pior acontecer.

Com uma pequena ressalva: as últimas atuações do Neymar no Barcelona nos ensejam alguma esperança de que, mesmo com um técnico ultrapassado, possamos salvar-nos graças a lances de talento individual.

Mas, tudo ficará bem mais fácil se tivermos um estrategista no banco, ao invés de um sargentão com artimanhas motivacionais do tempo do Onça.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

FESTIVAL DE DESFAÇATEZ QUE ASSOLA O PAÍS

A rainha Maria Antonieta disse:
"Eu me dou o direito de não me manifestar sobre nada. Eu não acho que o governo brasileiro tem que se manifestar sobre esse indivíduo [Edward Snowden] que não deixou claro nada, que não se dirigiu a nós. Não somos um órgão que se comunica por intermediários."

A presidenta Dilma Rousseff teria dito:
"Se não têm pão, que comam brioches!"
Ôps... será que foi o contrário? Terei trocado as bolas?

A idade me deixou meio confuso. Ainda sou do tempo em que o FHC divergia politicamente do Lula, que queria trucidar o Collor, que era inimigo figadal do Sarney, enquanto o passado da Dilma não lhe permitia confraternizar com o Sarney e o Collor. 

Ainda não me adaptei bem ao festival de desfaçatez que assola a País. 

Enfim, acho que nem o Stanislaw Ponte Preta conseguiria...

BOM SENSO FC 10 x filhote da ditadura 0


Faz muito tempo que eu não vejo um massacre intelectual tão acachapante como a carta que o Bom Senso Futebol Clube enviou ao filhote da ditadura José Maria Marin.

Só não teve mais graça porque foi como bater em bêbado. Trata-se de um presidente da CBF que se recusa ao diálogo simplesmente porque não tem o que dizer, nem como justificar sua desastrosa gestão. Um zero à esquerda, enfim.

A pergunta que não quer calar é: até quando o ministro do Esporte continuará em cima do muro, assistindo à deterioração das relações entre os que fazem o futebol e aquele que o parasita, bem na véspera da Copa do Mundo que sediaremos.

Acorda, Aldo! Se o Marin está no lugar errado, na hora errada, é porque você deixou. Com o imenso poder de fogo do governo face à cartolagem medíocre, venal e eternamente pendurada nas tetas da viúva, bastaria uma ATITUDE (em português claro: um murro na mesa) de sua parte para o Brasil não estar correndo o risco de disputar uma Copa do Mundo tendo como dirigente máximo do seu futebol um lambe-botas de torturadores.   


Acorda, Lula! O Mundial que você tanto quis trazer para o nosso país poderá terminar num terrível fiasco se não houver uma intervenção saneadora e AGORA. Explica isso pra Dilma, que de futebol não entende bulhufas. Se o Mandela também ficasse vendo a banda passar, a África do Sul não venceria o Mundial de Rúgbi, nem o país teria se unido em função do esporte.

Delenda est Marin. Vou continuar repetindo isto enquanto ainda houver tempo para evitar o vexame anunciado. Deu certo para o Catão, pode dar certo de novo. 

Mas, por favor, entendam como Marin tem de ser DESTITUÍDO. Sendo um brasileiro cordial, não chego ao extremo de pregar a DESTRUIÇÃO... de quem quis a destruição do Vladimir Herzog e vibrou com a destruição do Carlos Marighella. 

Abaixo reproduzo o brilhante manifesto que, certamente, foi o Paulo André quem redigiu, confirmando a minha expectativa de que, fora do gramado, ele viria a ser um novo Sócrates. Já é.

Caro Presidente,

Talvez o senhor não saiba, mas não somos apenas um grupo de jogadores. Somos mais de 1000 (mil), reunidos em apenas três meses, em prol de um futebol melhor para todos.

Um grupo democrático, onde todos os envolvidos têm poder de votar, opinar e participar. Sabemos que o senhor não está acostumado com essa tal democracia e até entendemos que seja difícil se adaptar, faz pouco tempo…

O senhor tem razão quando diz que existe um calendário permanente desde 2003. E um calendário ruim desde então. Porque antes disso ele era péssimo.

Mas o senhor conseguiu resolver todos os problemas do calendário do dia para a noite. Foi só limitar o número de jogos dos jogadores e não dos clubes e pronto, eis que melhoraremos a qualidade no espetáculo. Ou seja, a saída escolhida é o mesmo que encontrar um burro dentro de sua sala e pedir para trocarem o sofá, pois algo lhe parece estranho.

Não nos diga que o senhor tem orgulho do calendário de apenas quatro meses de competição para a maioria dos clubes do Brasil. Talvez o senhor dê pulos de alegria quando vê a formula de disputa do Campeonato Paulista de 2014, que pode fazer com que um time seja campeão e rebaixado ao mesmo torneio.

Desconfiamos até que o êxtase o atinja quando o senhor percebe a extraordinária estratégia de um time precisar ser desclassificado de uma competição nacional (Copa do Brasil) para se classificar para um torneio internacional (Copa Sul-Americana).

Em nome da honra, este dia tem de chegar antes do Mundial!
Quanta genialidade! Responda-nos uma coisa: É justo que os times percam seus melhores jogadores quando há partidas das seleções simplesmente porque o campeonato daqui não para nas datas FIFA?

Responder não parece ser seu forte, não é mesmo?

Inclusive, esse “grupo de meia dúzia de jogadores” deve ser muito chato mesmo para exigir explicações tão “complicadas”.

De qualquer forma, e apesar de tudo, foi importante o senhor ter falado das Séries C e D e ressaltar a boa ação da CBF com essas duas competições. Mas veja, caro presidente, a fonte de receita da CBF é a Seleção Brasileira, fruto final do futebol jogado no país. Logo, usar parte desses recursos para subsidiar as competições para as quais a confederação não consegue receita não é caridade, é uma simples obrigação. Afinal, assim como os direitos sobre a NOSSA Seleção são da CBF, os deveres sobre o futebol brasileiro também devem ser.

Só para lembrá-lo, é graças à grandeza do futebol brasileiro, construída por clubes e jogadores nos últimos 100 anos, que a CBF possui hoje, 14 legítimos patrocinadores. Logo, não basta cuidar apenas da Seleção, é preciso regar a raiz do nosso futebol.

Outra coisa. Talvez o senhor não tenha lido, mas já falamos abertamente sobre os salários do futebol. E temos certeza de que o Fair Play Financeiro implementado de forma eficaz (não aquele de faz de conta da FPF) irá diminuir os salários. E mesmo cortando na nossa própria carne, continuaremos lutando pelo bem do futebol. Porque quem regula o salário pago aos jogadores é o mercado e se o gestor for obrigado a gastar apenas o que o clube arrecada, pagará menos a todos. O que gera salários astronômicos (e atrasados) é a falta de um dispositivo punitivo (esportivo e civil) a quem gasta mais do que ganha.
Velho ditado: quem se deita com cães, acorda com pulgas.

Mas isso é encrenca política demais para alguém assumir em ano de eleição, não é?

E para ajudar o Bom Senso FC a virar consenso de uma vez por todas, o Campeonato Brasileiro terminou de forma melancólica, dentro do tribunal! A frase: “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas” não poderia se encaixar melhor nessa situação. A justiça desportiva se torna protagonista e o resultado de campo fica para trás. Sem discutir o mérito de quem está certo ou errado, a conclusão final é de que a CBF é que deveria ir para a segunda, terceira, quarta divisão.

No fundo e para finalizar, a nossa expectativa é que a CBF, que se denomina entidade maior do futebol brasileiro, realmente assuma o seu papel de gestora do nosso esporte e participe do debate jogando, atuando, e não apenas assistindo.

E antes que nos perguntem, as férias têm nos feito muito bem.

Em janeiro nos vemos por aí. Boas Festas!

Bom Senso Futebol Clube

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

...E A MONTANHA PARIU UM RATO. MAIS UMA VEZ!!!

Tão logo tomei conhecimento da Carta aberta ao povo do Brasil, corri a defender um posicionamento digno do nosso governo: que abrigasse Edward Snowden e lhe permitisse continuar escancarando os podres da espionagem estadunidense.

Sabia que dificilmente seria esta a decisão das autoridades brasileiras, pois já haviam rechaçado pedido semelhante no passado, esquivando-se com burocratices.

O dado novo era que, depois disto, os EUA foram flagrados espionando a Petrobrás e até mesmo a nossa presidenta -a qual, para salvar sua imagem junto ao público interno, teve de ir à ONU posar de vítima indignada. 

Foi, falou, falou, falou e ninguém importante da parte criticada estava lá para ouvir e contestar, numa demonstração inequívoca de desprezo por Dilma e pelo Brasil.

O sapo não só foi engolido, como metamorfoseado em príncipe pela propaganda oficial. Ser olimpicamente ignorada pelo Império tinha de parecer um triunfo moral, para que a ninguém ocorresse cobrar-lhe uma resposta efetiva aos EUA, à altura dos insultos recebidos.

Mesmo assim, nova chance surgiu e fiz tudo que estava ao meu alcance para que o desfecho não fosse novamente pífio. Em vão: a decisão está tomada e é a de não indispormo-nos com os donos do mundo por causa de um Snowden qualquer.

Se fossem mais sinceras, as fontes do Itamaraty que comunicaram a segunda negação de Cristo (ôps, quer dizer, de Snowden), poderiam ter argumentado: "O que o Brasil ganharia dando abrigo a Snowden? Apenas relações mais tensas com os EUA. A troco de quê?".

Palavras de Reinaldo Azevedo, o reaça mais exibido do Brasil, que tem todos os defeitos, menos um: não finge ser o que não é.

Ele qualifica Snowden de "traidor de sua própria pátria" (um conceito tão embolorado só poderia mesmo vir expresso com as redundâncias características da linguagem telenovelesca...) e aconselha: "Ele que vá para Caracas".

Não duvido de que os hierarcas do Itamaraty, lá com seus botões, pensem exatamente assim. Só não assumem.

Chocante é vermos a mesma postura de constrangedora vassalagem sendo adotada por quem um dia ousou pegar em armas contra a ditadura e o imperialismo!

Por último, o esclarecimento da questão que levantei ("Chegou a hora da verdade, Dilma! Agora saberemos quem você é e quanto vale.") veio mais depressa do que eu supunha.

Quem é Dilma? Uma política profissional que tem passado mais ilustre que a maioria dos seus pares, pois um dia foi revolucionária.

Quanto vale? O mesmo que os demais políticos profissionais, pois tal passado é imperceptível nas suas atitudes presentes. 

HORA DA VERDADE PARA DILMA

Nossa presidenta discursou na ONU e os EUA não deram a mínima.

Se ela aceitar o oferecimento de Edward Snowden, abrigando-o no Brasil e retirando-lhe a mordaça que os EUA lhe impuseram, aí sim estará dando uma resposta à altura do insulto recebido. 

Chegou a hora da verdade, Dilma! Agora saberemos quem você é e quanto vale.

SNOWDEN NOS PEDE ASILO: LEIA SUA "CARTA ABERTA AO POVO DO BRASIL"

"Revogaram nosso direito à privacidade e invadiram nossas vidas"
"Seis meses atrás, emergi das sombras da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA para me posicionar diante da câmera de um jornalista. Compartilhei com o mundo provas de que alguns governos estão montando um sistema de vigilância mundial para rastrear secretamente como vivemos, com quem conversamos e o que dizemos.

Fui para diante daquela câmera de olhos abertos, com a consciência de que a decisão custaria minha família e meu lar e colocaria minha vida em risco. O que me motivava era a ideia de que os cidadãos do mundo merecem entender o sistema dentro do qual vivem.

Meu maior medo era que ninguém desse ouvidos ao meu aviso. Nunca antes fiquei tão feliz por ter estado tão equivocado. A reação em certos países vem sendo especialmente inspiradora para mim, e o Brasil é um deles, sem dúvida.

Na NSA, testemunhei com preocupação crescente a vigilância de populações inteiras sem que houvesse qualquer suspeita de ato criminoso, e essa vigilância ameaça tornar-se o maior desafio aos direitos humanos de nossos tempos.

A NSA e outras agências de espionagem nos dizem que, pelo bem de nossa própria 'segurança' --em nome da 'segurança' de Dilma, em nome da 'segurança' da Petrobras--, revogaram nosso direito de privacidade e invadiram nossas vidas. E o fizeram sem pedir a permissão da população de qualquer país, nem mesmo do delas.

"Nossos direitos não podem ser limitados por uma organização secreta"
Hoje, se você carrega um celular em São Paulo, a NSA pode rastrear onde você se encontra, e o faz: ela faz isso 5 bilhões de vezes por dia com pessoas no mundo inteiro.

Quando uma pessoa em Florianópolis visita um site na internet, a NSA mantém um registro de quando isso aconteceu e do que você fez naquele site. Se uma mãe em Porto Alegre telefona a seu filho para lhe desejar sorte no vestibular, a NSA pode guardar o registro da ligação por cinco anos ou mais tempo.

A agência chega a guardar registros de quem tem um caso extraconjugal ou visita sites de pornografia, para o caso de precisar sujar a reputação de seus alvos.

Senadores dos EUA nos dizem que o Brasil não deveria se preocupar, porque isso não é 'vigilância', é 'coleta de dados'. Dizem que isso é feito para manter as pessoas em segurança. Estão enganados.

Existe uma diferença enorme entre programas legais, espionagem legítima, atuação policial legítima -em que indivíduos são vigiados com base em suspeitas razoáveis, individualizadas- e esses programas de vigilância em massa para a formação de uma rede de informações, que colocam populações inteiras sob vigilância onipresente e salvam cópias de tudo para sempre.

Esses programas nunca foram motivados pela luta contra o terrorismo: são motivados por espionagem econômica, controle social e manipulação diplomática. Pela busca de poder.

"A NSA chega a guardar registros de quem tem um caso extraconjugal"
Muitos senadores brasileiros concordam e pediram minha ajuda com suas investigações sobre a suspeita de crimes cometidos contra cidadãos brasileiros.

Expressei minha disposição de auxiliar quando isso for apropriado e legal, mas, infelizmente, o governo dos EUA vem trabalhando arduamente para limitar minha capacidade de fazê-lo, chegando ao ponto de obrigar o avião presidencial de Evo Morales a pousar para me impedir de viajar à América Latina!

Até que um país conceda asilo político permanente, o governo dos EUA vai continuar a interferir na minha capacidade de falar.

Seis meses atrás, revelei que a NSA queria ouvir o mundo inteiro. Agora o mundo inteiro está ouvindo de volta e também falando. E a NSA não gosta do que está ouvindo.

A cultura de vigilância mundial indiscriminada, que foi exposta a debates públicos e investigações reais em todos os continentes, está desabando.

Há somente três semanas, o Brasil liderou o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas para reconhecer, pela primeira vez na história, que a privacidade não para onde a rede digital começa e que a vigilância em massa de inocentes é uma violação dos direitos humanos.

A maré virou, e finalmente podemos visualizar um futuro em que possamos desfrutar de segurança sem sacrificar nossa privacidade.

"Em democracias, a vigilância do público tem de ser debatida pelo público"
Nossos direitos não podem ser limitados por uma organização secreta, e autoridades americanas nunca deveriam decidir sobre as liberdades de cidadãos brasileiros.

Mesmo os defensores da vigilância de massa, aqueles que talvez não estejam convencidos de que tecnologias de vigilância ultrapassaram perigosamente controles democráticos, hoje concordam que, em democracias, a vigilância do público tem de ser debatida pelo público.

Meu ato de consciência começou com uma declaração: 'Não quero viver em um mundo em que tudo o que digo, tudo o que faço, todos com quem falo, cada expressão de criatividade, de amor ou amizade seja registrado. Não é algo que estou disposto a apoiar, não é algo que estou disposto a construir e não é algo sob o qual estou disposto a viver'.

Dias mais tarde, fui informado que meu governo me tinha convertido em apátrida e queria me encarcerar. O preço do meu discurso foi meu passaporte, mas eu o pagaria novamente: não serei eu que ignorarei a criminalidade em nome do conforto político. Prefiro virar apátrida a perder minha voz.

Se o Brasil ouvir apenas uma coisa de mim, que seja o seguinte: quando todos nos unirmos contra as injustiças e em defesa da privacidade e dos direitos humanos básicos, poderemos nos defender até dos mais poderosos dos sistemas."
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