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quarta-feira, 23 de novembro de 2022

MUNDIAIS DA FIFA/5 VEZES BRASIL: DA 5ª APOTEOSE AO 5º DOS INFERNOS

Quanto mais alto é o coqueiro...
Q
uis o destino que um mesmo técnico, o Felipão, atingisse o ápice de sua carreira ao comandar a seleção brasileira na conquista do pentacampeonato mundial de futebol em 2002 e personificasse a maior humilhação sofrida até hoje pelo escrete canarinho, pois fracassou miseravelmente quando do chocolate que a Alemanha nos aplicou na Copa de 1914.

Mas, comecemos esta recapitulação um pouco antes, mais precisamente em 1998, quando o Brasil perdeu o Mundial da França por causa da lambança de um enfermeiro, das rixas no seio do elenco e da pusilanimidade do técnico Zagallo.

Não vinha mesmo fazendo campanha brilhante: fora derrotado pela Noruega (1x2) na 1ª fase e necessitara dos pênaltis (4x2) para despachar a Holanda nas semifinais, depois do 1x1 no tempo normal. 

Pior: a liderança do grupo era disputada por Dunga (apoiado pelos veteranos de 1994) e Bebeto (o preferido dos novatos), com direito a uma cabeçada do brucutu no bebê chorão durante a partida contra o Marrocos.

Poucas horas antes da final contra os anfitriões, Ronaldo Fenômeno recebe uma rotineira infiltração de xilocaína para diminuir as dores no seu joelho. Mal aplicada: atingiu uma veia e espalhou-se na corrente sanguínea, fazendo com que, 10 minutos depois, ele entrasse em convulsão.

Zagallo, acertadamente, pretendeu substitui-lo pelo animal Edmundo. Mas, o inacreditável Ricardo Teixeira, presidente da CBF, impôs uma mudança de escalação na enésima hora, em benefício do garoto-propaganda da Nike, que voltava sonado do tratamento de emergência.

Dunga ainda tentou dar força a Zagallo, para que mantivesse a decisão sensata. Mas, Bebeto usou sua influência no sentido oposto, favorecendo a aceitação do ultimato de Teixeira.
...maior é o tombo do coco, afinal!

Inexistindo unanimidade no grupo, Zagallo ficou com as mãos livres... para submeter-se ao cartola-mor, como sempre.

Os jogadores levaram para o campo os rancores do vestiário, fazendo exibição das mais apáticas no 1º tempo. Era tudo de que Zidaine precisava para praticamente liquidar o Brasil com os dois gols que marcou.

Quando acordaram, já era tarde. A França resistiu à pressão brasileira, fez outro tento em contra-ataque e poderia ter indo além. A goleada por 0x3 saiu barata.

A frustração por haver deixado escapar uma Copa tida como ganha ainda se fazia sentir nas eliminatórias para o Mundial seguinte.

Em suas 18 partidas o Brasil foi dirigido por nada menos do que quatro técnicos: Luxemburgo, Candinho, Leão e Felipão. 

Acabou por garantir sua vaga apenas na última rodada, ficando 13 pontos atrás da Argentina e só três à frente do Uruguai (repescagem) e da Colômbia (desclassificada).

Luiz Felipe Scolari, técnico de conceitos rústicos e perfil autoritário, era malvisto pela cartolagem, pois não se prostrava diante dela.

Assombrados pelo fantasma da desclassificação, os dirigentes, entretanto, acabaram cedendo à pressão dos torcedores, para quem, depois do fracasso de Luxemburgo, Felipão se tornara unanimidade – como consequência, principalmente, de seu ótimo currículo em mata-matas da Copa Libertadores da América.

Não foi nada além de razoável (três vitórias e três derrotas), mas segurou o rojão num momento crítico, bem de acordo com sua imagem de homem forte.

De quebra indispôs-se com Romário, por suposta ou real má vontade do baixinho para com o escrete. Afastou-o definitivamente, apesar do seu pedido de desculpas público e do lobby de cartolas & imprensa esportiva.

Situação paradoxal: queda de braço entre um técnico que era preferência nacional e um jogador, idem. 
Ronaldos: Kahn bateu roupa e o Fenômeno guardou...
Para dar a volta por cima, Felipão fez uma jogada arriscadíssima, ao contrapor um mito a outro mito: escolheu Ronaldo 
Fenômeno como seu artilheiro, embora viesse em maré de fracassos, contusões graves e longos períodos de convalescença, desde a fatídica final contra a França em 1998.

Com seu carisma e habilidade motivacional, aproveitou as críticas à Seleção para fechar o grupo em torno de si. Era a Família Scolari  lutando contra tudo e contra todos.

E a sorte o bafejou: não só Ronaldo renasceu das cinzas na Copa da Coréia do Sul/Japão, como a Seleção teve a tarefa facilitada por enfrentar as galinhas mortas que pediu a Deus.

Treinou contra a China (4x0), Costa Rica (5x2) e desperdiçou duas vezes a oportunidade de golear a incipiente Turquia, vencendo-a apenas por 2x1 na 1ª fase e 1x0 na semifinal (gol de Ronaldo, em bela arrancada pela meia-esquerda).

Nas oitavas-de-final, a Bélgica chegou a dar algum trabalho a são Marcos (um dos destaques da campanha), mas Rivaldo e Ronaldo resolveram. 2x0.

O único adversário de verdade foi o das quartas-de-final: a Inglaterra de Beckham, Owen e Campbell, que sobrevivera ao grupo da morte na 1ª fase (vencendo a Argentina e empatando com a Suécia e a Nigéria) e vinha de golear a Dinamarca. Não havia favorito.
...já Seaman se adiantou demais e o Gaúcho o encobriu. 

Uma rara falha de Lúcio propiciou gol a Owen, mas o personagem do jogo seria Ronaldinho Gaúcho, que:
— carregando a bola do meio-de-campo até a entrada da área, serviu Rivaldo livre, para este empatar;
— cobrando falta da zona morta (na intermediária, junto à lateral), acertou chute primoroso, encobrindo o goleiro David Seaman, que esperava um cruzamento; e
— foi expulso logo em seguida por causa de uma solada, mas os dez restantes souberam segurar o 2x1.

Depois de fazer a lição de casa contra a Turquia, teve pela frente uma Alemanha que nem sequer cogitava chegar à final: seu objetivo era preparar o time para a Copa seguinte, que iria disputar em casa.

Vitória, com autoridade, do Brasil de Marcos; Cafu, Lúcio, Edmilson, Roque Jr. e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Kleberson e Ronaldinho Gaúcho (Juninho Paulista); Rivaldo e Ronaldo (Denilson).

Já criara mais chances no 1º tempo, quando Kleberson acertou o travessão e Oliver Kahn, o melhor goleiro do Mundial, andou fazendo defesas difíceis.
Dever cumprido em 2002. Ninguém imaginava que viria então uma ressaca de 4 Copas 
Decidiu no 2º. A tarefa foi facilitada por uma inusitada falha de Khan, que bateu roupa num chute forte mas defensável de Rivaldo, deixando Ronaldo à vontade para abrir o marcador.

A Alemanha saiu para o jogo e, em rápido contra-ataque pela direita, Kleberson cruzou, Rivaldo deixou passar e Ronaldo colocou no canto: 2x0.

Terminou a campanha com estatísticas invejáveis:
— só vitórias, como em 1970 (quando um campeão jogava seis vezes, e não as atuais sete);
— melhor ataque (18 gols);
— artilheiro (Ronaldo, 8);
— um dos vice-artilheiros (Rivaldo, 5, na companhia do alemão Miroslav Klose);
— uma das melhores defesas (4 gols sofridos, atrás apenas da Alemanha, 3); e
— melhor saldo de gols (14) de um campeão nos 21 Mundiais jogados até hoje (a Alemanha igualou o saldo 14 em 2014, disputando, contudo, duas prorrogações).
O melhor da vitória sobre os ingleses; veja aqui toda a partida    
Sem ser um esquadrão dos sonhos como os de 1958, 1970 e 1982, soube fazer valer a experiência e a qualidade técnica do seu elenco.

Na empolgação da conquista, contudo, os brasileiros valorizaram em demasia um treinador que apenas soubera aproveitar bem o elenco superior que tinha nas mãos. 

Do dia para a noite, o Felipão virou estrela de palestras de liderança para empresários, como se fossem de grande valia lições como a do que se deve fazer quando o concorrente esnoba sua empresa. 

Deveriam eles correr atrás dos rivais para agredi-los (como Scolari instigou Paulo Nunes a fazer numa decisão de Campeonato Paulista, aos gritos de Pega!, Pega!, Pega!)? 

Como diziam os antigos, quanto mais alto o coqueiro, maior é o tombo. O Felipão aprenderia isto em 2014, ao sofrer a pior goleada de uma seleção brasileira de futebol em 108 anos de existência, com a agravante de o 1x7 diante da Alemanha ter ocorrido numa semifinal de Copa do Mundo disputada no Brasil! (por Celso Lungaretti)
O melhor da final contra os alemães; veja aqui toda a partida

sábado, 28 de novembro de 2020

OS 7x1 DO FELIPÃO ERAM A PIOR GOLEADA POR NÓS SOFRIDA ATÉ AGORA, MAS O BOZO QUEBROU O RECORDE: MUNDO 161x1 BRASIL

jamil chade
ISOLADO, BRASIL É O ÚNICO PAÍS A APOIAR TRUMP NA ONU EM VOTO CONTRA OMS
O governo dos Estados Unidos  propôs eliminar referências de apoio à Organização Mundial da Saúde numa resolução da Organização das Nações Unidas que sugeria um compromisso global para fortalecer a resposta contra a pandemia da covid-19. 

Entre todos os governos que fazem parte da ONU, o único país que apoiou a proposta estadunidense foi o Brasil. 

O voto, na semana passada, o voto ocorreu no 3º Comitê da Assembleia Geral da ONU. O texto original recomenda o fortalecimento nacional e internacional da resposta ao impacto da pandemia sobre mulheres e meninas. 

Mas, tendo anunciado sua ruptura com a OMS, o governo dos EUA apresentou um projeto de emenda sugerindo que um parágrafo inteiro fosse eliminado do texto original. A Casa Branca queria que o trecho reconhecendo o papel central da agência de saúde fosse abolido.

Nele se diz que os governos reconhecem
o mandato constitucional da Organização Mundial da Saúde de agir como autoridade de direção e coordenação do trabalho internacional no domínio da saúde, e reconhecendo o seu papel-chave de liderança no âmbito da resposta mais vasta das Nações Unidas.

Quando a proposta foi colocada à votação, 161 países votaram contra a emenda estadunidense. 

Cinco países se abstiveram, entre eles nanicos da diplomacia internacional como Haiti, Lesoto e Tonga. Mas apenas um país em todo o mundo saiu em apoio ao governo Trump: o de Jair Bolsonaro. Cerca de outros 30 países não compareceram para o voto. 

Nenhum outro aliado de Trump —incluindo Israel, Japão, Hungria, Polônia e outros— seguiu o caminho proposto pelos EUA. 

Falando em nome de diversos governos de todos os grupos regionais, a diplomacia da Nova Zelândia criticou a emenda estadunidense, alertando que ela ia contra o trabalho do Comitê e que minava os princípios do multilateralismo. (por Jamil Chade)

domingo, 16 de agosto de 2020

BRASIL LEVA OUTRO CHOCOLATE DE 7x1: DESTA VEZ O VEXAME FOI NA COPA COVID

Cara de um, focinho do outro: os pais dos 7x1
Por dia, para cada 100 mil habitantes, adotando-se um critério mais exigente, considera-se que a pandemia da Covid-19 está controlada quando o registro é de apenas 1 caso novo.

A média mundial anda por volta de 3,3 casos novos/dia.

Alguns estados dos EUA consideram aceitáveis 5 casos.

A média nacional no país do Trump, contudo, tipifica uma pandemia totalmente fora de controle: são assombrosos e inaceitáveis 17 novos casos/dia!

Pior ainda, só o Brasil: 21 casos!

Isto dá uma boa ideia do buracos em que nos enfiamos colocando palpites de leigos metidos a bestas acima do saber acumulado por cientistas de todos os países, a partir das lições extraídas do combate a todos as epidemias enfrentadas pela humanidade ao longo dos séculos. (por Celso Lungaretti)

domingo, 24 de novembro de 2019

O MISTER COLOCOU OS ATRASADOS TREINADORES DO BRASIL NO CHINELO

"nem sequer é de 1ª linha na Europa"
Não sou flamenguista e nem simpatizo muito com o clube de regatas. Enquanto mineiro e cruzeirense, sempre fui muito desconfiado com relação ao clube cujos favorecimentos da arbitragem e da mídia são notórios. 

Tampouco compro por completo a ideia de time do povo, visto que o clube carioca efetivamente popular é o Vasco da Gama, clube da zona norte, região proletária, cujo estádio servia para os discursos de Vargas no dia do trabalho e que foi um dos primeiros no Brasil a permitir a participação de negros. 

Dito isto, não posso, contudo, me omitir diante da brilhante conquista da América feita pelo Flamengo. Mais ainda porque tal conquista é o resultado direto da vinda de um técnico de verdade: Jorge Jesus. 

Há quase um ano, lancei este artigo comparando a vitória de Bolsonaro na eleição presidencial com a de Felipão no Campeonato Brasileiro. Argumentei que ambos eram a representação do nosso atraso no futebol e na política. Dinossauros, vivem com a cabeça no pretérito mais que perfeito e só conseguem destaque por aqui devido ao contexto de completa mediocridade do país. 

Bolsonaro mostrou este ano o quanto é um político abaixo do volume morto. Não fosse Maia e Toffoli, seu destino seria tombar feito um peão girando em falso. 

Já Felipão teve um time milionário nas mãos, tecnicamente tão bom quanto o do Flamengo e igualmente caro. Mas naufragou sem esperanças, sobretudo diante da modernidade de Jesus e de Sampaoli. Acabou chutado do Palmeiras antes que fosse tarde demais para o clube paulista.

Mas Felipão e Bolsonaro, repito, espelham o que são a política e o futebol no Brasil. O resto dos treinadores brasileiros também não passa de um museu de arcaísmos, não sendo, portanto, à toa que Jesus está sobrando no Brasileirão: sua capacidade técnica está muito acima da rotineira por aqui. 
Meme zoando o chocolate de 5x0 que o Grêmio tomou do Fla
E olhe que Jesus nem sequer é um treinador de primeira linha da Europa. Está no terceiro escalão, mas isto equivale a anos-luz à frente do melhor que o Brasil tem a oferecer. 

Quem assiste o futebol europeu de modo algum fica surpreso com o jogo praticado pelo Flamengo, é a média dos clubes de lá e não precisamos analisar Barcelona ou Real Madrid para ver esse futebol em campo, basta olharmos times mais modestos como os portugueses Porto e Sport. 

A alta competitividade europeia, aliada à boa organização dos clubes e das federações, é o motivo disso. Na Europa, mesmo clubes pequenos, de terceira ou quarta divisões levam multidões aos estádios e possuem uma estrutura invejável. 

Obviamente, o dinheiro conta muito e nisto não apenas o Brasil fica para trás, mas grande parte do mundo também. No entanto, convenhamos, o futebol brasileiro tem ficado para trás mesmo em comparação com forças modestas como os países árabes, a Ucrânia e o México.

Tite, noutro dia mesmo, considerou a Coréia do Sul um adversário de respeito para a seleção pentacampeã mundial!

Jesus não é um gênio, ele é o produto médio de um ambiente com alto nível técnico. E demonstra na Libertadores e no Brasileiro, o quanto nosso ambiente é baixo tecnicamente. 

Já na semifinal ele escancarou para quem quisesse ver o abismo que nos separa do velho mundo, ao massacrar o boleiro boquirroto Renato Gaúcho. 

A voz da dor-de-cotovelo
O ex-ponta direita é o símbolo do futebolista nacional, já tendo feito até mesmo profissão de fé na ignorância e na preguiça, ao declarar que não se importava em buscar aperfeiçoamento técnico. 

Óbvio, no Brasil de Weintraub, ser um idiota é tudo de bom. Letramento é coisa de trouxa, o negócio é puxar saco dos poderosos para tentar emplacar uma boquinha qualquer. 

O recente 5x0 ficou barato para quem simplesmente não sabe até hoje o que aconteceu. Gaúcho passou pela mesma experiência que outro representante do atraso teve em 2011 no Mundial de Clubes. Oito anos depois, Muricy Ramalho ainda tenta compreender o que se passou naquele Santos 0x4 Barcelona, cujos números teriam sido bem mais acachapantes caso os catalães não se mostrassem piedosos.

Os comentaristas esportivos brasileiros são tais quais os econômicos: vivem para omitir e induzir opinião e, impossibilitados de camuflar a realidade decadente do futebol nacional, abraçam-se ao argumento miserável de que o futebol é universal e, por isso, não importa muito a origem de Jorge Jesus, mas sim suas ideias. 

Curioso que não haja técnicos bons de origem saudita ou indiana! Talvez a genialidade não tenha batido à porta por lá... 

Na realidade, posso dizer tranquilamente que o jogo deste sábado, 23/11, foi o primeiro desafio verdadeiro de Jorge Jesus no Flamengo. Enfrentou outro grande treinador, o qual embora não venha da escola europeia, está num país onde o futebol sul-americano ainda respira. 

Gallardo é um técnico de nível excepcional e até mesmo superior a Jorge Jesus. Montou um belo esquema tático e consegui neutralizar o time carioca durante boa parte do jogo. 

Melhor resposta ele daria depois no campo
Soube aproveitar bem o nervosismo da equipe rubro-negra, sobretudo no primeiro tempo, mas acabou falhando no fim, por excesso de preciosismo e por terem faltado pernas a seus jogadores, os quais possuem uma média de idade um pouco superior à dos flamenguistas. 

No entanto, Gallardo e Jesus fizeram um jogo memorável, não do ponto de vista do espetáculo, mas do ponto de vista técnico. Jesus ganhou no detalhe e na sorte. 

O próximo desafio para Jesus é o Mundial de Clubes. Chegar à final e enfrentar o Liverpool. Será quando, em definitivo, teremos noção de quão bem estruturado tecnicamente está o time do técnico português. 

Para mim, a maior contribuição desta equipe do Flamengo é desnudar a mediocridade do futebol brasileiro. 

Fez bem a direção rubro-negra em trazer o português para cá e tomara que isto incentive outros clubes a fazerem o mesmo. A própria direção da CBF, se fosse esperta, seguiria pelo mesmo caminho e daria um jeito de arranjar um técnico europeu de primeira grandeza para o lugar do mediano Tite. 

Porém, apenas isto não é o bastante. É preciso reconstruir o futebol nacional, valorizar os clubes pequenos, corrigir distorções nos campeonatos, trazer de volta o povão para os estádios, acabar com o monopólio da Rede Globo sobre o esporte e pôr fim à prática de sermos exportadores de pé-de-obra. Isto, no entanto, é algo radical demais e complexo demais para os limites da nossa burguesia colonial. 

O futuro do futebol brasileiro, de resto como da sociedade em geral, parece depender do futuro da revolução brasileira. Por enquanto, o Flamengo nos dá um alívio momentâneo. Até quando? – eis a grande pergunta. (por David Emanuel de Souza Coelho)

CAMPANHA DOS CRONISTAS ESPORTIVOS DE DIREITA NÃO DERRUBA TITE. E ELE PODE LIVRAR-SE DA NEYMARDEPENDÊNCIA

Bruno Henrique e Gabigol vivem momento mágico
O que todos comentam é a virada eletrizante do Flamengo sobre o rival argentino nos minutos finais da partida que decidia a Copa Libertadores da América.

O que não vi ninguém dizer é que o maior talento futebolístico surgido no Brasil desde Neymar cumpriu com louvor o seu rito de passagem e deve agora livrar Tite da incômoda dependência de um único e complicadíssimo fora-de-série.

Também nisto derrotamos a Argentina, que não tem, no horizonte visível, nenhuma revelação capaz de pôr fim à Messidependência. Só mesmo la pulga poderá levar os hermanos a conquistarem seu terceiro caneco em 2022; se ele estiver contundido ou sentir o peso da idade até lá, serão mais quatro anos na fila. Simples assim.

Já o Brasil, tudo leva a crer, superará com vantagem a Neymardependência. Bruno Henrique é também um fora-de-série, e solidário como a prima donna infantilizada nunca foi e jamais será, ainda que pare de se contundir a cada três meses e não se envolva mais em escândalos, reerguendo sua carreira das cinzas.
Tite poderá deixar de ser babá de marmanjo
A Conmebol, uma vez na vida, acertou: BH foi mesmo o melhor jogador desta Libertadores. 

Eu acrescentaria que, com sua jogada magistral no primeiro gol contra o River Plate, decidiu a final. Aberta a porteira entraria toda a boiada, até porque os argentinos, numa eventual prorrogação, estariam pra lá de inferiorizados, tanto na parte física quanto na anímica.

E o ganho para Tite não foi só este. Gabigol se afirmou como um goleador muito melhor do que Roberto Firmino, Douglas Costa e (o pior de todos) Gabriel Jesus. Com grande chance de vir a disputar a titularidade com outra auspiciosa revelação, o Rodrygo do Real Madrid.

Gerson também fez por merecer uma chance de mostrar seu futebol vestindo a amarelinha;  e Everton Ribeiro e Rodrigo Caio, de voltarem a fazê-lo. Os três nem de longe são inferiores aos atuais reservas (já BH e Gabigol estão um degrau acima, como fortíssimos candidatos à titularidade).

E, por falar em Tite, vou tirar um gênio da garrafa: a campanha infernal de parte da crônica esportiva contra ele tem tudo a ver com o ocupante do Palácio do Planalto ser hoje um reaça exacerbado.
Bozo adoraria que o técnico do escrete fosse seu correligionário

Durante todo o tempo em que trabalhei nas redações, os maiores focos da direita no jornalismo sempre foram as editorias de Polícia e de Esportes. Saí no fim de 2003, mas tudo indica que ainda o sejam, com algumas louváveis exceções.

O certo é que Tite assumiu a Seleção Brasileira quando, nas eliminatórias do último Mundial, estávamos fora da zona de classificação, com 9 pontos ganhos e ridículo aproveitamento de 50% dos disputados nas seis rodadas. Era grande o temor de que, pela primeira vez na História, não nos classificássemos para uma Copa.

Com Tite conquistamos 32 pontos em 36 possíveis (88,9%), um assombro! A campanha memorável encheu de esperanças o povo brasileiro.

Veio o Mundial e a base daquele escrete caíra acentuadamente de produção, seja por contusão (Neymar, Renato Augusto – Daniel Alves foi cortado antes) ou má fase técnica (Gabriel Jesus, Paulinho, Marcelo).
Tite também merece uma 2ª chance
Embora a desclassificação diante da Bélgica por 1x2 tenha sido um banho de água fria no entusiasmo recém-conquistado da torcida brasileira, uma análise isenta leva necessariamente à conclusão de que aquele escrete, mesmo com algumas alterações que Tite deveria ter efetuado (Gabriel Jesus, Fernandinho e Paulinho foram indefensáveis, os jogadores errados na partida errada), caso sobrevivesse às quartas-de-final, só passaria pelos franceses por milagre...

Desde então, a única competição importante disputada por Tite foi a Copa América – e o Brasil ganhou.

Os amistosos caça-niqueis continuaram sendo o que sempre foram, uma completa irrelevância em termos técnicos. Mesmo assim, os bolsonaristas da crônica esportiva satanizaram Tite tanto quanto puderam, num esforço concentrado para derrubá-lo antes das eliminatórias para a próxima Copa, que começarão no semestre que vem.

Face à inexistência de opções tão promissoras assim no Brasil (o mais cotado era o Renato Gaúcho, sobre cujo Grêmio o Flamengo do mister tem passado como um trator...) ou no exterior (os técnicos de ponta dificilmente aceitariam, Sampaoli foi muito pior do que Tite no último Mundial e nada conquistou no Santos, Jorge Jesus seria doido varrido se trocasse a condição de unanimidade no Mengão pela de incógnita na Seleção).

Tite, agora com um elenco bem melhor nas mãos, merece uma segunda chance, tanto quanto Telê Santana em 1986; e ainda é a nossa melhor opção, por mais ruídos que faça a charanga ultradireitista. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

FERNÁNDEZ MOSTRA A QUE VEIO: VAI UNIR A AMÉRICA DO SUL CONTRA BOLSONARO

O blog evidentemente publicará, a partir desta 2ª feira (28), análises aprofundadas sobre a volta do kirchnerismo ao poder na Argentina.

Mas, de bate-pronto, dá para perceber que Alberto Fernández aposta na formação de uma (implícita) frente antifascista para isolar o desastroso governo brasileiro, propondo-se desde já para líder e contando com Bolsonaro para o papel de espantalho.

Daí ter feito, logo no dia da vitória, uma provocação óbvia (o sinal de Lula livre), sabendo que o tacanho Bozo engoliria não só a isca e o anzol, mas até a linhada...

Não deu outra. Naquele seu falar característico de quem fugiu da escola, o presidente (argh!) brasileiro retrucou exatamente como Fernández esperava:
"É um afronto à democracia brasileira e ao sistema judiciário brasileiro. Ele está afrontando o Brasil de graça". 
Afora ter-se negado a cumprimentar o vitorioso e já estar cogitando não comparecer à sua posse. Pirraças são serventias da casa, no governo do Urtigão brasileiro...

E não é de graça, não, Pedro bó. O Fernández sabe muito bem o que está fazendo e aonde pretende chegar. 

Você é que está sem rumo no espaço, ocupando um cargo para o qual não tem a mínima qualificação. Então, o Fernández vai pespegar-lhe um 7x1 igual ao que a Alemanha aplicou no seu admirador, o Felipão.

O Brasil está f... e mal pago. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O BOLSONARO DO FUTEBOL ESTÁ NA RUA DA AMARGURA. FALTA O FELIPÃO DA POLÍTICA...

Não surpreendeu a ninguém o apoio do técnico Luiz Felipe Scolari ao deputado ultradireitista Jair Bolsonaro na última eleição presidencial: o treinador limitado, autoritário e truculento tem muitas afinidades com o político idem, idem e quase idem (há muito de propaganda enganosa nas suas bravatas). 

Pode-se dizer que o gaúcho à moda antiga Felipão é o machão que o paulista acariocado Bozo gostaria de ser. Como técnico do Grêmio, p. ex., calou a boca do congênere palmeirense Vanderlei Luxemburgo com um tapa em pleno estádio Olímpico.

Já do capitão motosserra só se conhecem agressões contra mulheres e contra o fracote Randolfe Rodrigues. Mas, quando a parada era mais indigesta, optou por obedientemente entregar arma e moto à bandidagem, preferindo preservar a vida do que a imagem.

Curiosamente, foi o outro bolsonarista do Palmeiras, o jogador Felipe Melo, quem precipitou a nova desgraça de Scolari: um dos recordistas mundiais de cartões vermelhos e amarelos, o bolsominion dos gramados (como o apelidou Juca Kfouri) novamente estava suspenso quando seu time mais dele carecia. Esta tem sido sua sina desde que, com muito rancor e nenhum juízo, enterrou a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2010.

A facilidade com que, na semana passada, o Grêmio virou o jogo contra o Palmeiras em plena arena paulista, frustrando novamente o sonho do Mundial que os alviverdes jamais conquistaram, foi decisiva para a demissão do Felipão, que acabou tendo o destino habitual dos que criam corvos: olhos bicados.
Mas, perguntarão os leitores, por que tanta bronca do velho treinador? É porque ele simboliza muito daquilo que eu mais deploro no esporte e na vida.

Eu tinha sete anos quando os brasileiros gritamos pela primeira vez a Taça do Mundo é nossa!. Acompanhei, atento e maravilhado, toda a trajetória da geração de ouro do futebol brasileiro. 

E jamais deixei de colocar a arte como um ingrediente indispensável para eu gostar de times e selecionados.

Apesar do meu coração corinthiano, nunca deixei de assistir às partidas que podia do Santos do Pelé, do Botafogo do Mané, do Cruzeiro do Tostão, do Flamengo do Zico, da laranja mecânica do Cruyff, do Napoli do Maradona, do Barcelona do Messi e outros esquadrões que ganhavam sem deixarem de proporcionar espetáculos deslumbrantes.

Cheguei a tirar férias como torcedor do meu time quando o treinador Mário Sérgio Pontes de Paiva, em 1993-95,  mandava seus pupilos fazerem faltas leves (evitando expulsões) o tempo todo, para o jogo dos adversários mais fortes não fluir, na esperança de marcar um gol numa bola vadia e segurar até o fim o placar mínimo. Eu acompanhava o resultado das partidas pelo jornal e mais nada.

Scolari nunca passou de um Mário Sérgio um pouco melhorado. Tornava seus times guerreiros (com uma rispidez bem próxima da deslealdade) e defensivistas, contando fazer gols principalmente à custa de bolas paradas e do jogo aéreo. Os jogadores mais emblemáticos do estilo Felipão foram o paraguaio Arce (um lateral direito muito hábil nos cruzamentos) e Jardel (centroavante alto e grande cabeceador). 

Para quem preza apenas a vitória, o Grêmio de Felipão, Arce e Jardel bastava. Para mim, era a quintessência do antifutebol.

A conquista do Mundial de 2002 foi o auge e o canto do cisne do Felipão, que nada mais faria de notável, até porque a revolução catalã, pouco depois, expeliu da divisão de elite do futebol mundial os treinadores meramente pragmáticos. 

E Scolari, quanto à estratégia de jogo, sempre foi zero à esquerda, como ficou evidenciado ao sofrer a pior derrota e a maior goleada que um selecionado principal brasileiro amargou em mais de um século de História e mais de mil partidas disputadas.

Antes, salvava-se nos aspectos táticos e motivacionais. Agora, nem isto. 

Queimou-se em 2012 no Palmeiras por ter passado às turbas organizadas os nomes de jogadores baladeiros a fim de que estas os disciplinassem, mas sua trairagem vazou para os delatados e ele ficou sem ambiente de trabalho, com o vestiário de pernas pro ar (metade do grupo o defendia e metade o execrava). Deixou o time  em marcha acelerada para a série B do Brasileirão.  

Desta vez, culpou os atletas pela desclassificação na Libertadores e eles, como era pra lá de previsível, arrastaram-se em campo domingo, enquanto os do Flamengo voavam.

Se tivesse parado na hora certa, seria lembrado como o pentacampeão de 2002 e não como a bruxa dos 7x1. Faltou-lhe humildade e simancol para sair enquanto estava por cima. (por Celso Lungaretti)
"Oi, zum, zum, zum, zum, zum, está faltando um.
Oi, zum, zum, zum, zum, zum, está faltando um"

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O RETROCESSO SEM FIM CHEGA AO ESTÁDIO: ATÉ A DEMAGOGIA FUTEBOLÍSTICA DO DITADOR MÉDICI ESTÁ DE VOLTA!

O presidente eleito fez lembrar o Médici de 1970...
Ver o presidente eleito dividindo o palco com jogadores e dirigentes do Palmeiras na festa de entrega da taça ao campeão do Brasileirão 2018 me trouxe logo à lembrança um antecessor que também usava o futebol para melhorar sua imagem política: o ditador Emílio Garrastazu Médici, responsável pelo pior terrorismo de estado que este país já conheceu.

Gaúcho, ele costumava presenciar os clássicos dominicais no Maracanã, como se tivesse algum apreço pelos times do Rio de Janeiro. Naquele tempo o futebol carioca era muito curtido em cidades do Norte, Centro-Oeste e Nordeste (por ser aquele que as tevês mostravam lá), mas não no orgulhoso Rio Grande do Sul, cioso dos seus próprios valores.

E Médici geralmente assistia às partidas com um radiozinho de pilha colado ao ouvido, para imitar o estilo geraldino (torcedor das gerais, que tinham o ingresso mais barato). Uma figura patética, forçando a barra para parecer o que não era e com aquela multidão de seguranças ao redor, atrapalhando a visão dos verdadeiros torcedores.

Descendente de italianos, Bolsonaro morou em São Paulo tempo suficiente para ser mesmo torcedor do Palmeiras (quem sabe?). Mas, não parece os italianos e os filhos/netos de imigrantes que conheci no bairro da Mooca, onde morei até que, mal acabava de completar 18 anos, dei outro rumo à minha vida. Eram muitos e, mesmo nos momentos de alegria, não se portavam de maneira tão histriônica. Quem mais ele me lembrou foi Silvio Berlusconi...
...e Sílvio Berlusconi em passado recente...

E Felipão? Tinha o elenco mais caro do campeonato e se beneficiou do desinteresse de adversários fortes como o Grêmio e o Cruzeiro, que priorizaram outras competições, várias vezes escalando reservas para poupar seus melhores titulares.

O futebol brasileiro, sob o capitalismo, virou isso: times envolvidos em até três certames ao mesmo tempo, mas encarando a sério apenas um ou dois deles e fingindo que compete no(s) outro(s). Chegam ao cúmulo de visivelmente entregarem jogos para ser eliminados, evitando assim o desgaste dos seus elencos quando a decisão de duas competições ocorre nas mesmas semanas.

E Felipão sempre representou o que eu mais detesto no futebol: a obsessão pela vitória a qualquer preço, reduzindo o esquema de jogo à quintessência do pragmatismo tosco. Desde os tempos do Grêmio, ele montava defesas bem fechadas e que marcavam duro (violência inclusa, para intimidar craques adversários), contando fazer gols graças ao jogo aéreo e às bolas paradas. Ora perdia, ora vencia, mas nunca deslumbrava. 

Era o paizão severo tratando os atletas como se fossem se fossem seus filhos e não hesitando em esbofetear outro técnico (Vanderlei Luxemburgo) nem em mandar os jogadores do Palmeiras agredir o capetinha Adilson num Corinthians x Palmeiras (seus furiosos gritos de "pega!", "pega!", "pega!" são uma baixaria inesquecível, que a TV mostrou ao Brasil inteiro).

Com a chamada revolução catalã, que Felipão foi incapaz de assimilar (claro!), até porque contrariava toda sua visão de futebol e de mundo, tornou-se obsoleto e até mesmo sua capacidade de liderança sofreu abalo. 
...com seu patético populismo retrô.
Foi demitido do Palmeiras em 2012 porque, não conseguindo disciplinar o elenco, terceirizou a missão, soprando às hordas uniformizadas o nome de jogadores que passavam as noites na gandaia, para serem devidamente hostilizados. 

Deu azar. Seu jogo sujo vazou e ele passou a ser encarado pelos delatados como traíra. Isto dividiu o elenco a tal ponto que ele teve de sair, deixando o Palmeiras na rota do rebaixamento para a série B, que acabaria se consumando.

E, no Mundial de 2014, são inesquecíveis as imagens do seu aturdimento no banco, perplexo e sem ação, enquanto a Alemanha fazia quatro gols consecutivos em apenas sete minutos (entre os 22' e os 28' do 1º tempo). O líder não foi capaz de liderar no momento em que mais a seleção necessitava, deixando que um placar possível de reverter (0x1) se tornasse uma goleada acachapante (0x5).

Quanto mais o futebol brasileiro se tornar medíocre como espetáculo, mais perderá terreno para a Champions e as grandes competições europeias, que agora podemos ver pela TV. E mais nossas revelações baterão asas antes mesmo de conquistarem um título aqui no Brasil. 

Felipão voltou prometendo muito mas ficou devendo a Libertadores, tomou um nó tático do Meno Menezes na Copa do Brasil e acabou entregando apenas o Brasileirão, que tinha obrigação de ganhar (o elenco mais caro e melhor lhe permitia substituir titulares por reservas de desempenho quase equivalente, enquanto Flamengo e Grêmio se ressentiam muito quando não atuavam completos).
Sem Libertadores, o Brasileirão virou prêmio de consolação

E o pior é que suas vitórias só fazem alargar o fosso no qual o futebol brasileiro se afunda. Vencer a qualquer preço, nem que seja jogando feio e com gol roubado nos acréscimos, não passa de uma mentalidade anacrônica e contraproducente ao extremo na atualidade. 

Temos é de aprender a vencer ou perder oferecendo belos espetáculos, pois só assim voltaremos a atrair mais público e patrocínios, que deem sustentação financeira para nossas equipes. 

É do que dependemos para sair da melancólica condição de exportadores de pé-de-obra.
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