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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

CRISE CAPITALISTA ACELERA TRAGÉDIAS CLIMÁTICAS IGUAIS AS DE SÃO PAULO

 


As fortes chuvas no estado de São Paulo já causaram a morte de 46 pessoas nos últimos dias. Em geral, foram vítimas de deslizamentos de encostas e inundações. 

Longe de se tratar de uma simples tragédia, o acontecimento é consequência de uma junção de dois fatores diretamente relacionados com a sociedade capitalista, particularmente com o capitalismo brasileiro. 

O primeiro fator é a ocupação desordenada do solo. Sem política mínima de habitação ou qualquer controle público, alastram-se construções em regiões de encostas e à beira de córregos e rios. Tais ocupações acabam por desmatar as áreas ocupadas e enfraquecer a estabilidade do solo, facilitando o trabalho de liquefação da terra. Quando a chuva chega, o solo se desfaz e as construções são arrastadas morro abaixo. 

Problema secular no Brasil, sua raiz está na crise da habitação, cujo início já aparecia pouco tempo após a Abolição da Escravidão, momento em que os agora alforriados, não encontrando local para morar, começaram a construir casebres nas encostas do Rio de Janeiro, gerando as chamadas favelas, nome dado às formações geológicas dos morros. 

Com o boom urbano das décadas de 1950-1980, a coisa piorou e muito. As levas de imigrantes que chegavam às metrópoles iam se ajuntando não apenas em encostas, mas também à beira das corredeiras de água e das estradas, locais de propriedade pública. Em casos mais drásticos, bairros inteiros chegaram a se formar em cima de antigos lixões.

A ocupação desordenada do solo é fator crucial nas 
tragédias causadas pelos temporais no Brasil.
 

Portanto, o problema tem uma origem definida na falta de moradias, pois os terrenos e habitações dignas alcançam valores proibitivos, impedindo sua aquisição pela maioria pauperizada do povo brasileiro. O próprio valor dos aluguéis é outro elemento dificultador, jogando milhões de pessoas na falta de teto. 

A este fato, nas últimas décadas veio se ajuntar outro elemento complicador, também ligado à ocupação do solo, mas em chave diversa. Se a ocupação irregular de milhões de brasileiros ocorreu por falta de recursos, a outra face do problema ocorreu por excesso de recursos, com a ocupação irregular de terrenos por pressão especulativa, sobretudo do setor horteleiro e de casas de alto padrão

Assim, áreas de preservação começaram a ser tomadas, matas derrubadas, beiras de rios apropriadas e mesmo praias foram invadidas por construções irregulares não do povaréu sem teto, mas de milionários e de companhias de hotéis, pousadas e afins. 

A região litorânea de São Paulo onde hoje acontece esta catástrofe é um exemplo disso, com milhares de hotéis, pousadas, casas de campo e mansões se alastrando de forma descontrolada e, na maioria das vezes, com a conivência do poder público. 

Portanto, a questão fundiária é um elemento chave na catástrofe vivida no período de chuva, tanto pela falta de moradia adequada, tanto pela pressão imobiliária do setor horteleiro e das casas de alto padrão. O outro elemento é o aquecimento global que vem mudando drasticamente o regime das chuvas ao redor do planeta, ampliando a intensidade delas, enquanto diminui seu período de duração. 

É fato inquestionável a origem humana do aquecimento global, provocado majoritariamente pela liberação na atmosfera de bilhões de toneladas de CO2, frutos de queimas de combustíveis fósseis, mas também de queimadas, da incineração incorreta do lixo e até da criação extensa de bovinos. Com o aquecimento, geleiras derretem, bilhões de litros de água doce se misturam ao mar alterando o ritmo das correntes oceânicas e mudando sensivelmente o clima global. 

Antes de ser um puxa-saco de milico, Aldo Rebelo, então
ministro de Dilma, já distribuía burrice gratuita por aí,
confundindo aquecimento global com falta de frio. 
Apesar do nome aquecimento global, é um equívoco tomar o termo literalmente, não se tratando de o clima simplesmente ficar mais quente, mas de que a temperatura global média será maior. O resultado pode ser, inclusive, mais frio, com invernos mais rigorosos. De fato, a imprevisibilidade e o caráter extremo dos fenômenos climáticos é o resultado cabal destas alterações planetárias, inclusive, com chuvas torrenciais sendo cada vez mais comuns. 

Períodos longos de estiagem são sucedidos por intervalos curtos de chuva apocalíptica, afetando milhões de pessoas e matando milhares. No contexto brasileiro, a junção do fator climático com o problema fundiário acaba gerando consequências terríveis. 

No entanto, a tragédia está longe de ser algo meramente natural. Ao contrário, trata-se de fator completamente social, econômico, estando sua raiz no capitalismo, tanto em sua capacidade de gerar exclusão, quanto em seu poder de arruinar o meio ambiente. (por David Emanuel Coelho)

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

AS URNAS DE NOSSA DESESPERANÇA – 6: O MITO FABRICADO É UM AVENTUREIRO DESQUALIFICADO E PERIGOSO.

(continuação deste post)
Jair Bolsonaro, social e economicamente ignaro 
No mundo inteiro observa-se um crescimento das ideias totalitárias, variando apenas o grau de intensidade, conforme a situação de cada país no concerto do capitalismo mundial. 

Umas são totalitárias para imposição submissa da pobreza (casos da África, Ásia, Oriente Médio, América Central e do Sul); outras para a imposição da conservação de privilégios ameaçados (casos da União Europeia, Estados Unidos, etc.).     

Tal crescimento, entretanto, não significa hegemonia de pensamentos, mas um acirramento entre posições políticas (conservadoras, liberais, socialistas, trabalhistas, etc.) como consequência da ruptura do pacto social até então vigente, em razão de fatores econômicos novos que promovem o desequilibro social insuportável e irremediável sob o capitalismo.          

O fenômeno pode ser explicado à luz de uma análise econômica de depressão mundial principalmente, mas conjugada com aspectos da descentralização do controle das mídias de comunicação. Estas agora disseminam um volume de informações visuais e auditivas mais abrangentes e nas quais a palavra escrita é menos usada, abrindo o leque em termos de formação de opiniões.

É cada vez maior tanto a concentração de riqueza abstrata entre os que a detém (dinheiro e mercadorias como representação do valor), quanto o contingente dos que já não conseguem minimamente recursos para o provimento das suas necessidades básicas. 

Conforme recentíssimo relatório da FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a fome não cessa de aumentar mundo afora.
"Amadores!", dizem os banqueiros aos saqueadores comuns
São problemas decorrentes de fatores climáticos como o aquecimento global; da falência da economia real; dos juros altos para os países periféricos devedores; e da falência das finanças estatais, que, somados, implicam a impossibilidade do provimento das necessidades vitais de alimentação (bem como de outras demandas sociais básicas).

Os índices de desnutrição aumentaram na África, América do Sul e se mantêm em níveis elevados na Ásia (maior contingente populacional do mundo); acirra-se o quadro mundial de disputa entre os que conseguem se manter economicamente sustentáveis e os que apenas são vistos, pela ordem econômica, como párias que consomem sem produzir valor. 

Segundo a FAO, na África cerca 370 milhões de pessoas passam necessidade e a quarta parte da população do continente tem sintomas de desnutrição. Regimes totalitários ou democraticamente perpetuados e apoiados por forças militares impõem ao povo africano a migração em massa (sob condições de absoluto risco) pelos mares, em busca de uma nova vida numa Europa que é cada vez mais intolerante à imigração. 

O fenômeno da imigração é mundial; por aqui, vemos haitianos, bolivianos e venezuelanos buscarem o nosso país como forma de escaparem das tragédias sociais em seus países. 

Paradoxalmente, vêm para um país que, por sua vez (em que pese a baixo índice de densidade demográfica), é exportador de gente para as nações desenvolvidas, principalmente profissionais especializados e com nível superior de escolaridade.
A cena social mostra os ricos do mundo cada vez mais se encastelando nos seus muros da segregação social com medo da barbárie social capitalista, expressa na violência urbana que assume hoje contornos de guerra civil em muitos países (inclusive no Brasil) e no desespero de imigrantes famintos.  

O muro do qual falamos não é apenas físico (embora sejam visíveis as cercas elétricas, monitoramento de vídeo, guardas, casamatas, etc.), mas, sobretudo social.

O que fomenta o surgimento de salvadores da pátria – Jair Bolsonaro surfa na onda do desconforto social de segmentos privilegiados que acreditam no resguardo dos seus interesses pela força ditatorial, sem considerar os riscos que ele representa; e de pessoas desinformadas que fazem uma leitura superficial e simplista sobre o que está subjacente à nossa tragédia social (com destaque para a extrema superestimação da questão da corrupção com o dinheiro público). 

Bolsonaro pode ser considerado, sem qualquer exagero, como: 
Ele é um evidente misógino...
— machista, conforme se evidenciou no tratamento desequilibrado e grosseiro por ele dado às mulheres parlamentares que algum dia lhe tenham feito oposição na Câmara Federal (está no seu sétimo mandato consecutivo); 
— racista, pois são gritantes seus preconceitos ao referir-se a afrodescendentes e indígenas;
— nacionalista xenófobo, cujo fanatismo é agravado por sua rígida disciplina militarista, na qual busca respostas para problemas que transcendem a sua compreensão limitada dos problemas sociais;
— falso outsider, visto que acumula mandatos legislativos há 27 anos (e os filhos seguem seus passos) mas se apresenta como anti-político; 
— político com pretensões totalitárias, tanto que se refere com desprezo à participação popular e conta, para a sustentação do seu governo, com as forças militares (já prevendo as reações às medidas impopulares que adotará em defesa do status quo capitalista);   
— político desinformado e com chocante conhecimento  das complexas questões que envolvem o cenário econômico mundial e brasileiro;         
— homofóbico, vez que simplesmente agride os gays por terem tal opção e trata os homossexuais como doentes, propondo até a tal cura gay, em voga entre desmiolados;
— terrorista, pois, como sabemos, pretendeu protestar contra os baixos soldos militares fazendo explodir bombas em instalações militares e na adutora do Guandu (tendo, inclusive, entregue a uma repórter desenho de próprio punho, mostrando como sabotaria o abastecimento de água do RJ);
— defensor de torturadores, pois várias vezes exaltou publicamente o exemplo do coronel Brilhante Ustra, que, à época da ditadura, prendia, torturava e matava a sangue frio dissidentes políticos (tidos como subversivos), encenando pretensos embates de rua que apenas serviam como justificativas para assassinatos bestiais de pessoas presas e indefesas;
— parlamentar sem brilho, pois é notório que teve sempre pouca atuação objetiva no sentido de proposições ou mesmo em debates, notabilizando-se apenas por suas bravatas bombásticas e pelas agressões verbais a seus colegas (e a tantos quantos caíssem no seu desagrado); e
— oportunista, pois, apesar de se declarar um anticomunista de carteirinha assinada, fez lobby para a efetivação em cargo público de Aldo Rebelo (PC do B) por conveniência pessoal, de onde se conclui que, ou não via o Rebelo como tão comunista assim, ou ele próprio, Bolsonaro, não passa de um anticomunista de ocasião.
...e tem uma incontida fixação em pistolas.
A síntese que se pode fazer do candidato Bolsonaro é que ele corresponde a um aventureiro desqualificado e perigoso: pode conduzir o já combalido Brasil a uma aventura de resultados imprevisíveis, mas com enorme chance de serem nefastos.

Breve análise do programa de governo do Bolsonaro – o perfil pessoal do candidato Bolsonaro se coaduna com suas propostas de governo ultraconservadoras, que seguramente não resolverão o problema da atual decadência do capitalismo.

Tais propostas confirmam  estar ele imbuído de um pensamento retrógrado que observa o futuro com a nuca, convergindo para a visão de um Estado mínimo voltado para a preservação das regras do jogo capitalista por meio da força militar e do autoritarismo. 

A proposição de redução dos ministérios, comum a muitos candidatos, é antiga e se direciona no sentido da redução do déficit fiscal a qualquer custo social, como prega o Fundo Monetário Internacional para os países periféricos (tal organismo de crédito, contudo, nada tem a dizer sobre a crescente dívida pública e privada dos países desenvolvidos). 

Promete reduzir a dívida pública em 20%, proposição que ainda que fosse conseguida à custa de nossos sacrifícios em nada resolveria o problema dos altos juros dessa dívida pagos pelo Brasil, ponto sobre o qual ele não se pronuncia.

Na esteira de seu pensamento neoliberal e ultraconservador, evidentemente, enxerga na privatização de tudo (previdência social, educação, etc.) a varinha de condão capaz de transformar o inferno capitalista no paraíso. 
O grande Paulo Freire teria mesmo de ser um dos alvos de Bolsonaro

Defende uma visão armamentista, quando diz que a arma é um objeto inerte que pode ser usado para o bem ou para o mal. No caso daqueles a quem Bolsonaro quer armar, a segunda hipótese certamente é verdadeira. 

Para Bolsonaro a propriedade não deve ter função social, devendo qualquer reivindicação de terra para plantar ou morar ser encarada como ato terrorista. 

Para a educação defende o expurgo das ideias de Paulo Freire, como se esse grande educador que criou um método de alfabetização copiado mundo afora fosse responsável por nosso analfabetismo crônico. Quer a educação como mercadoria, e tudo dentro da sua visão de defesa dos conceitos capitalistas e nacionalistas de governo. 

Francamente, não é necessário aprofundarem-se as propostas de Jair Bolsonaro, pois basta uma análise preliminar para se inferir claramente o desastre que seria um governo sob sua orientação, com a resposta aos males sendo buscada na intensificação daquilo que corresponde às suas causas. 

As perspectivas eleitorais do candidato Bolsonaro  é possível que o presidenciável ultradireitista chegue ao 2º turno graças ao atentado que o transformou em vítima, reforçando a ideia que ele tenta transmitir, de que seria um mártir salvador da pátria. Mas, nem mesmo isto são favas contadas.
Sua candidatura, apesar de encontrar guarida numa faixa de eleitores que o consideram capaz de confirmar o dístico ordem e progresso (ou seja, da ordem capitalista e progresso econômico para os burgueses), não tem consistência para a grande maioria do eleitorado. 

As pesquisas de opinião pública demonstram um alto grau de rejeição a Bolsonaro, por parte de eleitores que, por muitas razões, não se identificam com o seu perfil aventureiro. 

Então, a dispersão das intenções de voto torna quase impossível haver um ganhador já no dia 7 de outubro e, num 2º turno, Bolsonaro seria facilmente abatido por qualquer adversário.  

De minha parte, sempre acho que é um equívoco a esquerda bem intencionada (exclusive aquela fisiológica que adora mamar nas tetas do Estado, e mais não é do que uma direita envergonhada) querer o poder estatal. 

Isto porque, quando no poder, a esquerda nada pode fazer senão administrar as inadministráveis finanças públicas e direcionar os parcos recursos para a infraestrutura estatal do capital sem a qual o Estado definha, frustrando, assim, o eleitorado que sempre espera sua redenção a partir da ascensão à Presidência da República de quem proclama a intenção de defender o povo. 

Mas sei do perigo que representa uma candidatura como a do Bolsonaro para as liberdades de opinião e interesses populares no que diz respeito às poucas franquias institucionais ainda existentes e ao atendimento de demandas sociais mínimas.

Um governo com tal perfil somente iria aprofundar as desigualdades, mormente num momento de decadência do modelo social capitalista nos países periféricos como o Brasil.

Mas, mesmo tendo consciência do perigo, entendo que devamos enfrentar as falácias institucionais e o perigo fascista negando legitimidade ao processo eleitoral por abstenção ao voto ou votando nulo.  

O voto é sempre inútil por legitimar a ordem institucional que dá sustentação à ordem econômica segregacionista (ambas se completam); e o voto dito útil, dado como forma de se evitar o mal maior (os ultraconservadores como Bolsonaro) acaba criando expectativas frustradas. 

Devemos sempre enfrentar a crueldade do mal maior com a coragem do confronto que dá adeus às ilusões democrático-burguesas e com posturas que gerem consistentes teses e práticas emancipacionistas, ainda que tais proposições demandem tempo, esforços e sacrifícios.

Apesar de tudo, repito o que disse em artigo anterior: torço pelo seu pleno restabelecimento, quer seja por meu respeito pela vida de qualquer ser humano, seja pela aura de martírio que a sua morte suscitaria e a consequente substituição por outro qualquer de sua estirpe, com chances ainda maiores de vitória.        

Não vote, e, se não puder, vote nulo! (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

TRIBUTO ÀS CHUTEIRAS IMORTAIS – 6: É A ÚLTIMA CHANCE DE COLOCARMOS ÁGUA NO CHOPP EUROPEU! (final)

Em 20 Copas do Mundo até hoje disputadas, durante 19 prevaleceu o equilíbrio entre o continente europeu e o subcontinente sul-americano: sempre que a Europa se colocava à frente, o campeão seguinte era um selecionado da América do Sul, e vice-versa. Foram oito décadas seguidas sem que alguma impusesse sua hegemonia sobre a outra.

Em 2014, contudo, a balança se desequilibrou: pela primeira vez uma delas emplacou três conquistas consecutivas, estabelecendo o placar de 11x9. Então, o Mundial da Rússia será também o primeiro em que uma vitória do lado em desvantagem não bastará para restabelecer a igualdade. 

A Europa ameaça, portanto, tornar-se o continente do futebol, relegando-nos a condição subalterna até mesmo no esporte em que mais nos destacávamos. Como as coisas chegaram a este ponto?

2006 – Na Copa da Alemanha, o Brasil deu a Carlos Alberto Parreira a chance de bisar seu feito. Bom preparador físico que se tornou um técnico mediano, ele vencera na bacia das almas o Mundial de 1994, com um esquema de nove atrás e dois na frente (Romário e Bebeto), que só poderia mesmo levar a decisão contra a Itália para a loteria dos pênaltis, após 120 insuportáveis minutos de 0x0.

Parreira até dispunha de jogadores talentosos em número suficiente para montar uma grande seleção (Dida, Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ronaldo Fenômeno, Robinho), mas ficou faltando, exatamente... o dedo do técnico. Ou, pelo menos, que algum desses superstars chamasse para si a responsabilidade e resolvesse quase tudo, como Romário fizera em 1994, carregando o Brasil nas costas, pelo menos até aquela soporífera final na qual ninguém jogou nada.

Então, mesmo com o magro 1x0 e as dificuldades encontradas diante da Croácia na estréia, não caiu para Parreira a ficha de que a seleção estava lenta e desarrumada, dependendo exclusivamente de lampejos individuais.
Zidane expulso: reagiu mal à provocação de um italiano

Infelizmente para nós, isto ficaria encoberto pela mínima competitividade dos adversários seguintes, derrotados por 2x0 (Austrália), 4x1 (Japão) e 3x0 (Gama).

Aí, quando tivemos outro escrete de verdade pela frente, fracassamos melancolicamente. Para piorar, nossa asa negra foi de novo a França, que depois da goleada que lhe aplicamos na semifinal de 1958 (5x2), já nos havia dado o troco duas vezes, em 1986 e 1998. 

Com melhor esquema tático, mais atitude e o veterano Zidane em estado da graça, a França sobrou em campo: criou várias oportunidades, marcou com Thierry Henry aparecendo sozinho às costas da defesa brasileira e ainda foi prejudicada pela arbitragem, que assinalou fora da área um toque que havia sido cometido dentro dela. O único arremate brasileiro que foi na direção da meta francesa, exigindo defesa do goleiro Barthez, aconteceu aos 44 minutos do 2º tempo!

Na final contra a Itália, a França foi mais ofensiva; a defesa adversária, contudo, soube evitar outros gols depois do sofrido logo aos 7 minutos de jogo (Zidane, de pênalti). Os italianos acharam o empate em escanteio alçado para a área na esperança de que um deles ganhasse a disputa de cabeça com a zaga (foi o Materazzi) e conseguiram mantê-lo até o final do jogo e também da prorrogação.
Na famigerada decisão por pênaltis deu Itália, comprovando que nessas loterias tanto pode prevalecer o melhor (o Brasil foi ligeiramente superior em 1994) quanto o pior. Merecimento real só se definiria se fosse disputada nova partida alguns dias depois, mas os interesses comerciais hoje pesam mais do que os valores esportivos.

2010 – Aí veio a revolução tática do Barcelona, que o técnico Pep Guardiola iniciou em 2009, entronizando o jogo coletivo de posse de bola, movimentação constante e objetividade ofensiva. Foi um resgate e aperfeiçoamento daquele futebol total do técnico Rinus Michels e do maestro Johan Cruyjff,  o chamado carrossel holandês (ou laranja mecânica) da Copa de 1974.

O selecionado espanhol, obviamente o mais afinado com tais conceitos, venceu o Mundial da África do Sul com inegável eficiência, mas ficou devendo brilhantismo. 
Lenda do futebol, Andrés Iniesta fez o gol do título

Depois da fase de grupos, limitou-se a vitórias por 1x0 (sobre Portugal, Paraguai, Alemanha e Holanda, sendo esta última na prorrogação da finalíssima, com um golaço de Iniesta). Nas quatro partidas a Espanha foi superior, mostrando-se, contudo, incapaz de construir placares mais categóricos.

O Brasil permaneceu alheio à modernidade futebolística sob o autoritário Dunga, que a CBF tentou transformar em técnico da noite para o dia. 

Como jogador ele sempre fora um carregador de piano, provavelmente ressentido com a obrigação de ralar para os mais talentosos brilharem. Mas, pelo menos compensava suas evidentes limitações com muita entrega e capacidade de liderança. 

Como treinador ele continuou limitado e nem um bom líder conseguia mais ser, pois o elenco, quase todo atuando no futebol internacional, se desacostumara ao simplismo, rispidez e rabugices dos treineiros da velha escola.  
Assim, o Brasil de Dunga só venceu galinhas mortas (2x1 em cima da Coréia do Norte e 3x1 na Costa do Marfim, durante a fase de grupos; e 3x0 sobre o Chile nas oitavas de final), empatou em 0x0 com Portugal e foi derrotado pela Holanda por 2x1 nas quartas de final. 

Robinho marcou no 1º tempo, Schneidjer fez os dois gols da virada no 2º, Robben jogou muito e Felipe Melo foi o de sempre: cavalar, causando a própria expulsão quando nossa seleção mais precisava dele.

2014 – Finalmente, a CBF (abreviação de Casa Bandida do Futebol, segundo Juca Kfouri) parece ter concluído que o fracasso de 2010 se deveu a ter como técnico um sub-Felipão. Então, para dar a volta por cima na Copa seguinte, recorreu ao Felipão-ele-mesmo, técnico que já estava totalmente ultrapassado e vinha de passagem desastrosa pelo Palmeiras.
Até o Brasil vencer a Copa das Confederações, Dilma gelou Marin. Depois deu pra trás
Como homem de esquerda, não desculparei jamais que em março de 2012, quando o corrupto Ricardo Teixeira teve de renunciar à presidência da CBF sob vara, a presidente Dilma Rousseff e o ministro do Esporte Aldo Rebelo tenham aceitado passivamente sua substituição pelo filhote da ditadura José Maria Marin, um deputado que, em 1975, discursara na Assembléia Legislativa de São Paulo exigindo que fosse apurada a infiltração subversiva na TV Cultura.

Bastaria o governo federal ter levado ao conhecimento dos presidentes de clubes e federações que Marin, um dos responsáveis morais pelo assassinato de Vladimir Herzog, era um nome inaceitável para ocupar o posto de dirigente máximo do futebol brasileiro às vésperas do Mundial marcado para nosso país. Pusilânimes, endividados e dependentes de favores da União como eram e são, jamais ousariam passar por cima desse veto informal.
O craque Romário e o filho de Herzog pediram saída de Marin

Mas, a ex-presa política torturada e o ex-militante do partido cujos combatentes foram executados em massa no Araguaia não se deram a tal trabalho. E Marin, como era de esperar-se, escolheu o igualmente autoritário Felipão como técnico, desprezando as sondagens de Pep Guardiola, interessado em acrescentar outra enorme proeza ao seu currículo brilhante. [Terá a decisão de Marin sido por afinidade ideológica? É difícil imaginarmos outro motivo...]

A campanha começou com o Brasil sofrendo para derrotar a Croácia por 3x1: saiu em desvantagem e virou graças a um pênalti mandrake (o terceiro gol, marcado no último minuto, resultou num placar enganador). Seguiu-se um empate em 0x0 com o México e a previsível sova nos camaronenses por 4x1. 

Nas oitavas de final, o pífio empate com o Chile por 1x1 no tempo normal e 0x0 na prorrogação levou a decisão para os pênaltis (ruim até neste quesito, nosso selecionado venceu por míseros 3x2, desperdiçando duas cobranças).    

Contra a Colômbia, complicamos um jogo que estava fácil (2x0), sofrendo um gol aos 35' do 2º tempo e passando sufoco nos minutos derradeiros. Para piorar, Neymar sofreu entrada criminosa e ficou fora da Copa.
Espectador privilegiado: viu bem de perto o show alemão
E veio o catastrófico 7x1 do Mineirão, a pior e mais humilhante derrota sofrida pela seleção principal do Brasil em mais de mil partidas disputadas desde julho de 1914. Embora não estivéssemos mesmo à altura da Alemanha, o escore jamais teria sido tão acachapante se Felipão:

— não houvesse enfraquecido nosso meio de campo ao optar pela escalação de mais um atacante, Bernard, ao invés de tentar anular o ponto forte do adversário (diz-se que tal insensatez se deveu a ele ter sonhado, na véspera, que o jogador atleticano nos conduziria à vitória); e

— não tivesse ficado atônito e impotente no momento da adversidade, assistindo sem nenhuma reação à Alemanha marcar quatro gols consecutivos em apenas sete minutos, entre os 23' e 29' do 1º tempo, quando a derrota por 1x0 se transformou num chocolate de 5x0, inviabilizando qualquer possibilidade de virada. 

Enquanto isto, Messi, Mascherano e Dí Maria conseguiram, aos trancos e barrancos, conduzir a Argentina a uma improvável final. Na fase de grupos Leonel foi decisivo com seus quatro gols, Javier tapava os buracos de toda a defesa e Ángel decidiu a partida de oitavas de final contra a Suíça marcando o tento único no antepenúltimo minuto da prorrogação.
Contra a Bélgica (1x0) Di María se contundiu e a tarefa de criar oportunidades para os companheiros ficou inteiramente entregue a Messi que, sobrecarregado, não fez mais gols (para o que também contribuiu a possibilidade que os adversários passaram a ter de colocarem vários zagueiros em cima dele, o único jogador perigoso que sobrara na linha de frente dos hermanos).

Foi demais. A Argentina não conseguiu fazer um mísero gol na Holanda (venceu nos pênaltis) nem contra a Alemanha (perdeu por 1x0, tendo jogado melhor nos 45 minutos iniciais e depois caído de rendimento). Contudo, resistiu bravamente até o reserva Götze marcar, quando faltavam apenas sete minutos para o final da prorrogação.

A vice-campeã Argentina, com puro-sangues de menos e pangarés demais, fez campanha heroica, sobrevivendo a duas prorrogações e só entregando os pontos no finalzinho da terceira.
Do que o Brasil fez, nem é bom falar. Às vezes me belisco para ter certeza de que não foi um pesadelo e o 7x1 aconteceu mesmo.

2018 – Deste 21º Mundial, o que mais quero é uma vitória sul-americana, para impedir que os abastados europeus acrescentem definitivamente a superioridade futebolística às tantas outras que já detêm sobre os abestados (nós), entregando-nos mais um certificado de vira-latas.

A grande chance de fazermos ao menos justiça poética (já que a social é, por enquanto, quase impossível) está na ponta das chuteiras brasileiras: contamos com nosso melhor grupo de jogadores desde 2002 e um técnico acentuadamente superior aos cinco que já nos trouxeram títulos. Depois que Tite conquistou a Libertadores  e o Mundial de Clubes com o modesto Corinthians de 2012, não existe missão impossível para ele.
Depois do Mundial de Clubes, o de seleções?

O Uruguai de Suarez e Cavani também pode surpreender. E até no caso da convulsionada Argentina não convém descartarmos uma volta por cima, pois conta com o maior futebolista deste século, o que não é pouca coisa. 

Já Peru e Colômbia estão lá com a esperança de darem bons espetáculos, jogando como nunca; e a certeza de que, mesmo assim, perderão como sempre. O máximo que podem alcançar são as quartas de final.
O PENTA DA 'FAMÍLIA SCOLARI' (2002)

sexta-feira, 24 de março de 2017

ENQUANTO AS FERAS DO TITE APLICAVAM UM CHOCOLATE NO URUGUAI, A MÁFIA DA CBF DAVA UM GOLPE NOS NOSSOS CLUBES!

A melhor campanha de uma seleção brasileira em eliminatórias de Copas do Mundo em todos os tempos foi a do Mundial de 1970, disputada um ano antes, quando as chamadas feras do Saldanha venceram a Colômbia por 6x2 (em casa) e 2x0 (fora); a Venezuela por 6x0 (c.) e 5x0 (f.); e o Paraguai por 1x0 (c.) e 3x0 (f.). 

Era seu recorde de vitórias consecutivas até ontem (23/03), quando atingiu a marca de sete triunfos nas sete partidas em que foi comandada pelo técnico Tite. Com uma vantagem: desta vez impôs sonoras goleadas a seus maiores rivais sul-americanos, os bicampeões mundiais Argentina (3x0) e Uruguai (4x1), enquanto o saudoso João sem medo (que capachos da ditadura deram um jeito de afastar por ser comunista) só enfrentou então a quarta força do nosso continente e dois sacos de pancadas.

E (lembrando a bela letra que Oswaldo Montenegro compôs para "Bandolins"), como se não fosse um tempo em que já fosse impróprio se dançar assim, o Brasil sapecou 3x0 no perigoso selecionado do Equador em plena Quito e triturou a Bolívia por 5x0 em Natal.
Então, além da satisfação por finalmente podermos olhar com justificadas esperanças para o próximo Mundial da Fifa, é importante lembrarmos que a Confederação Brasileira de Futebol, corrupta até a medula, jogou no lixo a Copa de 2010, ao transformar em técnico um ex-jogador (Dunga) que só se destacava pelo espírito de luta, mas não sabia nem sabe até hoje ler taticamente o futebol; e a de 2014, ao retirar da aposentadoria um treinador (Felipão) totalmente ultrapassado desde a revolução catalã da década passada.

E nunca deixarmos de cobrar da dupla Dilma Rousseff/Aldo Rebelo sua responsabilidade pela maior humilhação que um escrete brasileiro sofreu em mais de um século de História, os 7x1 que a Alemanha nos enfiou goela adentro em pleno Mineirão, pois os dois tinham nos bastidores força mais do que suficiente para imporem a moralização da CBF ou, pelo menos, evitarem que o velho cúmplice da ditadura José Maria Marin substituísse o encalacrado Ricardo Teixeira.

Se faltassem outros motivos, apenas o fato de que Marin tinha responsabilidade moral no assassinato de Vladimir Herzog tornava imperativo que a antiga militante da VAR-Palmares e o atual militante do PCdoB tudo fizessem para impedir a suprema humilhação: o planeta inteiro ver, no camarote das personalidades, um réprobo desses como dirigente máximo do futebol brasileiro durante a Copa do Mundo que sediamos!

Como a cartolagem vive mamando nas tetas da União, teria bastado um murro na mesa bem dado para que Marin fosse discretamente afastado da linha sucessória. Mas Dilma cuidava de outros assuntos e Rebelo nem sequer sabia o que estava fazendo como ministro do Esporte. 

Ambos se omitiram vergonhosamente, Juca Kfouri clamou em vão, Marin assumiu, chamou Felipão e colocou nossa seleção no rumo da catástrofe. Depois, ainda tivemos de aguentar o vexame de que fosse o FBI a fazer o que tínhamos a obrigação de ter feito, encarcerando Marin e tornando Marco Polo Del Nero um confinado no seu próprio país.

Ontem, enquanto o escrete de Tite conseguia sua mais bela e difícil vitória, a máfia da CBF dava um golpe sorrateiro para perpetuar o poder das federações sobre os clubes, num momento em que estes começam a contestar o jugo das entidades sanguessugas.

Obrigada a estender o direito de voto aos clubes da 2ª divisão, conferiu-lhe peso 1, deu peso 2 aos clubes da 1ª divisão e peso 3 aos dirigentes das federações.

Com isto, as decisões continuarão nas mãos dos parasitas, que terão 81 votos contra 60 dos clubes. E as iniciativas independentes esbarrarão em grandes dificuldades.

Até quando? 

P.S.: Dizem que técnico não ganha jogo. Mas, o que seria ontem do Brasil se Paulinho não tirasse coelho da cartola, empatando a partida com um portentoso chute de longe?! Foi quando a maré virou em nosso favor. E Paulinho só estava lá porque Tite acreditou nele, enquanto tantos e tantos ranzinzas da crônica esportiva cansavam de apontá-lo como protegido do treinador.

domingo, 4 de janeiro de 2015

GEORGE HILTON TEM DE SER DESTITUÍDO!!!

A faixa presidencial compensará todos os sapos que Dilma tem de engolir?
Como considero um desperdício de tempo acompanhar o noticiário policial, não conhecia os antecedentes do pastor George Hilton, o novo ministro dos Esportes. Então, o relato do jornalista Bernardo Mello Franco, na edição dominical da Folha de S. Paulo (vide íntegra aqui), veio bem a calhar:
"No primeiro mandato de Dilma, o ministério se notabilizou por repassar dinheiro público a ONGs ligadas ao PC do B. No segundo, pertencerá ao PRB, sigla controlada pela Igreja Universal. Antes de nomear sua nova equipe, a presidente disse que consultaria o Ministério Público para prevenir escândalos. Bastaria ter usado o Google para evitar a instalação de uma bomba-relógio no governo às vésperas da Rio-2016.
A Polícia Federal já flagrou Hilton em um aeroporto com 11 caixas de dinheiro vivo, somando R$ 600 mil. O episódio provocou sua expulsão do antigo PFL, que não se notabilizava pelo rigor ético com os filiados.
Como estas pessoas avaliariam o novo ministro?
Ao transmitir o cargo, o comunista Aldo Rebelo recebeu o pastor com uma citação bíblica. Entre todos os textos sagrados, escolheu uma parábola sobre a multiplicação das moedas. 'Creio que Vossa Excelência entregará 10 moedas a partir das 5 que está recebendo', disse.
...Para quem já conseguiu ser expulso do PFL e vaiado na posse da nova chefe, o céu é o limite".
O veterano Jânio de Freitas (vide íntegra aqui) completou o quadro, acrescentando um detalhe importantíssimo, o de que não se trata de uma iniciativa isolada, mas sim de uma escalada da Igreja Universal para fazer do esporte brasileiro seu novo feudo
"Se o pastor George Hilton não foi parar no Ministério dos Esportes por habilitação para o cargo, muito menos o foi por acaso ou descuido. Em Minas, o governador Fernando Pimentel entregou a Secretaria de Esportes a um pastor. Geraldo Alckmin nomeou um pastor para sua Secretaria de Esportes.
Os três são pastores da igreja Universal. São partes de uma nova extensão do plano político-religioso comandado pelo bispo Macedo, que reformula e amplia os seus objetivos no Brasil.
Só na aparência o Estado do Rio ficou fora dos domínios da Universal. A Secretaria de Esportes do governo Pezão foi dada a um jovem filho de Sérgio Cabral, o que significa entendimento com a igreja de Macedo".
O novo homem forte do esporte brasileiro. Cruz, credo!
MAIORES CULPADOS PELO MINEIRAZO
O GOVERNO E A REDE GLOBO!

É repulsiva a atitude dos governos que compram o apoio de bancadas fisiológicas distribuindo cargos e/ou propinas. E aberrante a incidência na mesma prática por parte do PT, partido que passou a vida inteira prometendo moralizar a política brasileira.

Então, não me omitirei quando o esporte brasileiro corre o risco de passar por outros vexames terríveis, em função de estar agora sendo entregue à sanha predatória dos mercadores da fé.

Afirmo que os principais culpados pela pior catástrofe do futebol brasileiro em todos os tempos foram o governo federal e a Rede Globo. Com forte possibilidade de repetirmos o papelão nas Olimpíadas de 2016 e nas eliminatórias do Mundial de 2018.

Por que? Simplesmente porque era só o que se poderia esperar de um José Maria Marin à frente da CBF. E, como os clubes brasileiros só não vão à falência graças à magnanimidade da viúva e à grana da TV, muitas maneiras havia para enxotá-lo antes que causasse tantos danos ou, pelo menos, impor-lhe a convocação dos melhores profissionais para a comissão técnica da Seleção Brasileira, ao invés das mais reluzentes relíquias do passado. O que não houve foi vontade política, ou interesse.

O sargentão que nos levou à derrota anunciada de 2014...
Além de medíocre até a medula e flagrantemente anacrônico, Marin tinha contra si um currículo horroroso, de lambe-coturnos dos ditadores: como deputado federal, discursou elogiando o tocaieiro de Marighella, o monstruoso delegado Sérgio Paranhos Fleury, além de haver pedido providências contra a infiltração comunista na TV Cultura (tais providências, como se sabe, redundariam no assassinato de Vladimir Herzog).

O omisso Aldo Rebelo, o estranho no ninho anterior, nem sequer preservou a presidenta Dilma Rousseff da saia justa de aparecer em solenidades e fotos ao lado de tão desmoralizada figura, o notório Zé da Medalha.

O que se poderia esperar de Marin, se não a entrega da Seleção a um técnico que, por não ter acompanhado a evolução tática do futebol mundial, vinha de uma década de retumbantes fracassos? A era dos sargentões ficara para trás, o novo perfil dos treinadores os aproximava mais dos enxadristas, conforme alertei já em dezembro de 2012 (vide aqui):
"Luiz Felipe Scolari, o mais conspícuo representante da velha e rústica escola cujo prazo de validade expirou com a revolução catalã, é unanimidade negativa entre os boleiros dos grandes clubes..."
E, em julho de 2013, quando a conquista da irrelevante Copa das Confederações iludia os torcedores brasileiros e intimidava comentaristas esportivos sem brios para marcharem contra a corrente --preferiram amenizar suas críticas e fazerem média com a galera, confortavelmente instalados em cima do muro--, eu cantei a bola (vide íntegra aqui):
...e o que nos conduzirá à próxima derrota anunciada.
"...Felipão, no Palmeiras, passava vexame após vexame quando enfrentava times treinados por técnicos mais atualizados... Na Copa do Mundo, a falta de um estrategista no banco tende a ser fatal".  
Depois, em outubro de 2013, cometi o erro de, mesmo prevendo a derrota anunciada, acreditar que nosso pobre escrete chegasse pelo menos à final (vide aqui):
"...o futebol atual depende --e muito!-- da inteligência com que o treinador dispõe as suas peças em campo, visando maximizar o aproveitamento da contribuição que os valores individuais tenham a oferecer para o desempenho coletivo. A estratégia hoje ganha jogos e ganha copas. Então, ficarmos entregues a quem é nulo como estrategista (Felipão) e a quem apenas sabe copiar as estratégias alheias (Carlos Alberto Parreira) nos encaminha diretamente para um novo maracanazo...".
O mineirazo da semifinal de 2014 acabaria sendo infinitamente pior que o maracanazo da final de 1950. E agora, com vendilhões comandando o templo e outro técnico jurássico no banco, o Brasil poderá inclusive deixar de ser o único país participante de todos os Mundiais da Fifa. 

Há tempo de sobra para evitar-se o pior, desde que Dilma Rousseff passe a respeitar a paixão dos brasileiros pelo esporte, ao invés de encarar o Ministério respectivo como moeda de troca de segunda categoria no balcão de negócios da Praça dos Três Poderes. 

Delenda est George Hilton!!! (*)

*  Utilizo a exortação célebre de Catão, o Antigo no sentido figurado, claro. Não pretendo que George Hilton seja destruído mas, tão somente, destituído. Ele, Kátia Abreu, Gilberto Kassab e Joaquim Levy acrescentariam muito ao ministério com suas ausências...
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