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terça-feira, 17 de dezembro de 2024

PRESO? EM 1980 LULA ESTAVA É DORMINDO COM O INIMIGO: O DELEGADO QUE DEVERIA SER, MAS NÃO AGIA COMO SEU CARCEREIRO

O filme Dormindo com o inimigo, estrelado por Julia Roberts, é encontrado no streaming da Disney.
Q
ue falta fazem, na grande imprensa atual, os editores competentes do passado! 

Nas últimas décadas os jornalões cada vez mais preferiram trocar um profissional de alto gabarito por três meramente medianos, cujos ganhos somados equivaliam ao do bambambã descartado. 

Só que, no caso, um era muito mais do que três, porque experiência e perspicácia valem ouro no jornalismo.

O certo é que se tornaram frequentes as notícias bisonhas como esta de ontem (17) no Estadão: filho de ex-chefe do Dops que prendeu Lula na ditadura fez parte da equipe médica do presidente.
Que lindo: duas famílias unidas pelos laços da amizade!

Deveria provocar estranheza o fato de que "Romeu Tuma, pai de Rogério Tuma, foi chefe de órgão da ditadura militar que investigou o então metalúrgico e líder sindical, em abril de 1980"?!

Uma rápida pesquisa nos arquivos do Estadão, que eram ótimos quando eu trabalhei lá no século passado, revelaria que nunca houve antagonismo entre Lula e Tuma, muito pelo contrário.

Romeu Tuma era um delegado que dançava conforme a música, sempre evitando cair em desgraça com os poderosos. 

Comandando o Dops em plena ditadura militar, não deixou suas digitais impressas em nenhuma tortura ou execução, sendo posteriormente apontado apenas como responsável por esquemas para dar sumiço nos restos mortais de militantes assassinados e falsear as informações a respeito do destino que tiveram.

Prendeu mesmo Lula como grevista e
incitador da subversão em 1980, mas foi no mero cumprimento de ordens superiores. Durante aqueles 31 dias, a grande imprensa cansou de publicar fotos de Lula e outros sindicalistas disputando animadas partidas de futebol numa quadra do Dops. Cana brava? Nem a pau, Juvenal...
Mesmo atuando ao lado de vilãos odiosos como
Fleury e Erasmo Dias, Tuma não se queimava
Mais: Romeu Tuma Jr. depois revelou que o pai, encerrado o expediente, levava Lula consigo para casa, a fim de que pudesse tomar um bom banho, receber uma refeição caprichada, dormir com os anjos.  Ele voltava revigorado para o Dops na manhã seguinte, junto com aquele que deveria ser seu carcereiro, contudo estava mais para hospedeiro...  

Romeu Tuma era tão diferente de delegados sanguinários como o Sérgio Fleury que, quando o Plano Cruzado foi lançado pelo Governo Sarney em 1986, foi ele o escolhido para xerife do congelamento de preços, incumbido de posar para a imprensa autuando comerciantes que desrespeitavam os valores máximos determinados pela equipe de Dilson Funaro.

Então, chega a ser hilária a suposição do Estadão, de que houvesse algum risco em Lula ter como um de seus médicos, na última crise, um filho do Romeu Tuma 

Duvido que, sob algum dos bons editores com os quais trabalhei no Estadão, fosse publicada uma notícia baseada em suposições tão estereotipadas. 

Sabe-se lá o porquê, o fato é que Lula naquele tempo andou literalmente dormindo com o inimigo... embora tal inimigo não fosse exatamente o bicho papão  imaginado por jovens e ingênuos jornalistas de agora. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 22 de julho de 2019

RESSALVA OPORTUNA: NÃO SE PODE DAR AOS DALLAGNOIS E POLICIAIS UM PODER ARBITRÁRIO SOBRE A VIDA DE OUTREM.

O casuísmo que favoreceu o torturador Sérgio Fleury...
Quero deixar aqui registrado um contraponto de Jânio de Freitas às críticas que se fazem ao ministro Antonio Dias Toffoli pela polêmica decisão que tomou, como plantonista de férias do Supremo, cujo efeito imediato foi o de sustar as investigações de delitos presumivelmente cometidos pelo primeiro filho Flávio Bolsonaro.

Concordo plenamente que, em tese, a decisão é correta e necessária. Mas, seu timing inspira justificadas suspeitas de que tenha sido algo como a chamada Lei Fleury, medida tomada pela ditadura militar apenas e tão somente para livrar a cara do tocaieiro do comandante Marighella, evitando sua prisão preventiva imediata por envolvimento com o tráfico de drogas. 

Leiam e avaliem:
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"O dano causado à mal denominada Justiça e ao Ministério Público pelo juiz transgressor e sua impunidade, como pelos procuradores atrás de lucros, por ora não pode ser estimado. Nem as revelações do Intercept terminaram ainda, longe disso.
...pode ser comparado à decisão que beneficiou Flávio Bolsonaro?
Mesmo assim, há mais do que o suficiente para admitir a providência do presidente do Supremo, Dias Toffoli, tão hostilizada nos últimos dias.

À parte seus aspectos jurídicos, ainda por serem muito mais discutidos, funciona em proteção aos cidadãos essa medida que susta as investigações com uso, sem autorização judicial, de informações pessoais cedidas por entidades financeiras, como Banco Central e, em geral, Coaf, Receita. Não é justo deixar à sanha de dallagnois e policiais qualquer poder arbitrário sobre a vida de outrem.

Dispomos de farta exposição de abusos, inclusive criminais, a que os cidadãos ficam sujeitos se juízes, procuradores, promotores e policiais não estiverem submetidos a vigilância e limitações.

Não há por que dispensar o pedido de autorização judicial. Nos casos em que é feito, o comum é a pronta resposta do juiz. Diferente na escala, a autorização judicial é o mesmo que cabe à Câmara e ao Senado, na apreciação dos projetos do governo, para que se tornem leis, ou não.

A  sede  de poder arbitrário que procuradores, promotores e policiais  exibem  é  suficiente,  por  si  só,  para  que  lhes  seja negado ou retirado. É o que Moro e Dallagnol ensinam —sem querer".
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(trecho da coluna dominical do Jânio de Freitas)

sexta-feira, 10 de maio de 2019

QUEM APLAUDE TORTURADORES QUER QUE O BRASIL VIRE O PARAÍSO DO EXTERMÍNIO DE POBRES, PRETOS, ÍNDIOS E ATIVISTAS

vladimir safatle
BEM-VINDO AO PORÃO
Creio ter sido Paulo Arantes o primeiro a formular que o sr. Bolsonaro não representava a ditadura militar, mas o porão da ditadura militar. O ideal não era Geisel, Golbery ou algo parecido. Na verdade, as velas de seu panteão queimavam por gente da laia de Ustra, Sérgio Fleury e Sylvio Frota.

É bom lembrar disso agora. Pois quem um dia acreditou que o exercício do poder iria moderar este governo, injetar alguma forma de racionalidade administrativa, deve ter tido a última decepção quando, nesta semana, viu o embate entre o núcleo militar e os ideólogos da revolução conservadora. Este governo tem lado e nada vai mudá-lo.

O que o Brasil está a testemunhar é apenas o primeiro capítulo de um programa que tem duas frentes principais. A primeira vem do céu. O mesmo céu para o qual os evangelo-fascistas levantam as mãos em oração responde com balas vindas de helicópteros contra populações pobres.
Comandado diretamente por um senhor que atende pela alcunha de governador do Rio de Janeiro, o país viu estarrecido um verdadeiro ritual macabro de abate elevado à condição de política explícita de extermínio.

Isso é apenas a face mais primária de um desrecalque. O Estado brasileiro sempre foi um necroestado. Sua função principal foi gerir a morte, o desaparecimento e a eliminação de parcelas de sua própria população. Sua herança escravocrata se perpetuou nessa lógica de que o Estado teria o direito natural de matar e apagar. Mas, nas últimas décadas, isso foi feito, em larga medida, em outro ritmo de visibilidade.

Agora, temos um necroestado espetacular, que entrega armas para a população enquanto ocupantes do Executivo saem para o abate. Estado que procura moldar a psicologia de seus cidadãos por meio da promessa de violência barata e acessível a todos.

A função disso é simples: é a lógica Sérgio Fleury no poder. Está tudo pronto para um país emergir de grupos de milicianos, de esquadrões da morte, com o beneplácito da vista grossa do governo. Quem aplaude torturadores só pode mesmo esperar que o país vire o paraíso do extermínio de pobres, pretos, índios e ativistas.
Mas o programa tem ainda outra frente. Esta não vem do céu, mas dos escaninhos da burocracia candanga. Nunca o país viu quatro meses de guerra tão aberta e declarada contra a educação nacional. 

Não se trata de um embate entre projetos distintos. Esse desgoverno não tem um projeto alternativo de educação. A falácia de que o país gastaria muito em humanidades e que deveria focar em exatas foi desmentida pelas últimas ações: corte linear de 30% das verbas de todas as universidades, corte de novas bolsas de mestrado e doutorado em todas as áreas.

Na verdade, o que lhe move é um projeto de claro de combate a espaços mais ou menos autônomos de produção. As universidades, por mais que sejam controladas por avaliações e rankings, não se submetem por completo ao Estado. Ninguém pode fazer com as universidades o que o sr. Bolsonaro se julga no direito de fazer com bancos públicos: censurar peças publicitárias que não sejam do seu agrado.

Espaços dessa natureza devem ser destruídos o mais rápido possível. Todos devem estar submetidos ao servilismo ao Estado ou à irracionalidade performática dos ditos mercados. 
O verdadeiro horizonte aqui é a despolitização da sociedade para que a irracionalidade de uma economia de pauperização e concentração não encontre fricção alguma. De um lado, sociedade despolitizada; de outro, lógica de concentração e de livre-comércio para alguns, defendida à bala.

Não é à toa que o ideólogo de tal projeto de despolitização e de engenharia social não é outro que um jurista nazista, Carl Schmitt. Pois isso já foi tentado antes, nos anos 1930, na Alemanha. (por Vladimir Safatle)

Toque do editor — Ao decidir trazer para o blog o artigo do Safatle desta 6ª feira, 10, levei em conta sua perfeita descrição dos planos malucos do Rasputin da Virgínia e de seus toscos fãs brasileiros que um acaso nefasto catapultou para um poder que não estão nem de longe preparados para exercer.

Sim, é isso mesmo que eles fariam se estivessem na Alemanha dos anos 1930 e se o Bolsonaro possuísse um milésimo do talento (ainda que maligno e monstruoso) do Hitler. Mas, não estamos num país humilhado após a derrota numa guerra mundial, nem Bolsonaro mostra a mais remota competência para reerguer a economia nacional e devolver o amor próprio aos brasileiros.

Ademais, sua horda delirante conseguiu erguer um fosso entre ela e os únicos que poderiam viabilizar tais cenários: os militares. Transformou em inimigos os aliados de que mais necessitava.

Então, tudo indica que, se há um acontecimento histórico prestes a repetir-se no Brasil, não é a emergência do nazismo, mas sim o emparedamento de Jânio Quadros em 1961 e sua patética tentativa de rompê-lo por meio de um autogolpe sem a mínima chance de dar certo. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O GOVERNO DO 'MITO', QUE VEIO PARA ACABAR COM A CORRUPÇÃO, JÁ ESTÁ CRIANDO MANEIRAS DE FACILITÁ-LA

marcos augusto gonçalves
ESCÂNDALO FLÁVIO BOLSONARO EXPLICA
 ATAQUE CONTRA TRANSPARÊNCIA PÚBLICA
O escândalo que envolve Flávio Bolsonaro, o garoto número 1 do presidente, metido em transações suspeitas e associado a milicianos  criminosos, parece ter levado o governo a deflagrar uma ofensiva contra a transparência.

É espantoso que após tanta retórica contra a corrupção e pela mudaça do sistema, o grupo que chegou ao poder comece por dificultar o acesso da sociedade a dados públicos –uma garantia constitucional.
Flávio Bolsonaro já pode vangloriar-se de ter inspirado uma lei...

Duas medidas concomitantes vão nesse sentido. A primeira é o decreto assinado pelo presidente interino Hamilton Mourão, que altera regras de aplicação da Lei de Acesso à Informação e autoriza ocupantes de cargos comissionados a classificar dados do governo federal como ultrassecretos. Mais funcionários agora podem decidir pelo sigilo máximo de 25 anos.

Como bem disse o ex-presidente da Comissão de Ética da Presidência,  Mauro Menezes (2016-2018), “o sistema de transparência pública sofre um golpe duro com essa ampliação indiscriminada dos agentes capazes de impor sigilo a dados públicos”. Deve ser um marxista globalista corrupto…
...repetindo a façanha do delegado Fleury.
A  outra medida, patética na evidência de suas motivações, é a tentativa do Banco Central de  excluir parentes de políticos da lista de monitoramento obrigatório das instituições financeiras. É a Lei Flávio Bolsonaro!

O BC também quer derrubar a obrigação de notificações ao Coaf relativas a transações bancárias acima de R$ 10 mil.

Ou seja, o governo do Mito que veio para acabar com a corrupção já está criando maneiras de facilitá-la.

Quanto a Flávio, vai sendo entregue às baratas. Em nome do pai, pode acabar renunciando a seu mandato como senador. (por Marcos Augusto Gonçalves)

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

JAIR BOLSONARO SIMBOLIZA O PORÃO DA DITADURA: SEU CULTO A USTRA É LEPRA MORAL E REIVINDICAÇÃO DE LINHAGEM.

celso rocha de barros
BOLSONARO REPRESENTA FACÇÃO DAS FORÇAS
ARMADAS QUE GANHOU PODER
COM A TORTURA
Jair Bolsonaro não representa o regime de 64. Representa sua dissidência extremista, que revoltou-se contra a abertura de Geisel. O ídolo de Bolsonaro não é o moderado Castello Branco, que provavelmente gostaria mesmo de ter restaurado a democracia. Não é o Geisel, que matou gente, mas deu início à restauração. Não é nem, vejam só, o Médici.

O ídolo de Bolsonaro, o autor de seu livro de cabeceira (segundo ele mesmo disse no Roda Viva), a entidade a quem Bolsonaro consagrou o impeachment, é o torturador Brilhante Ustra. Com um santo protetor desses, não impressiona que Temer tenha dado o azar de receber o Joesley.

O culto a Ustra é lepra moral, mas não é só isso: é uma reivindicação de linhagem. Na convenção do PSL, Eduardo Bolsonaro comparou Ustra a Janaina Paschoal, possível candidata a vice na chapa de seu pai.
Fake até nisto: esforça-se para ser visto como antigo oficial...

Janaina se disse chocada com a comparação, e ultra-bolsonaristas como Olavo de Carvalho pediram sua cabeça. O vice foi Mourão, que tem Ustra entre seus heróis. O discurso de Eduardo Bolsonaro foi um teste de lealdade.

Bolsonaro representa, enfim, a facção das Forças Armadas que ganhou poder quando a tortura se tornou parte importante do regime. Bolsonaro é o porão.

Leiam o Gaspari: os militares e policiais que controlavam o porão logo se tornaram bandidos comuns, que os generais temiam que instaurassem a baderna na hierarquia. Aproveitaram-se do direito de atuar à margem da lei para ganhar dinheiro. Um célebre torturador se tornou um dos chefes do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Outros se envolveram com esquadrões da morte, aquela turma que cobra dez para matar bandido e vinte para matar seu cunhado e mentir que ele era bandido.

Essa turma não queria voltar a ser guarda da esquina, não queria voltar a ser só capitão de Exército. Compraram briga contra a abertura de Geisel. Perderam. 
...mas era tido como "mau militar", "totalmente fora do normal"

Ainda houve, entretanto, tempo de Geisel reconhecer o velho inimigo de cara nova: em entrevista ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da FGV, disse (*) que Bolsonaro era um “mau militar”.

Bolsonaro não é o anti-Lula. Bolsonaro é o anti-Geisel.

Como combater o porão? Aprendendo com quem de fato já o venceu. (por Celso Rocha de Barros)
.
* trechos do depoimento do penúltimo ditador do ciclo militar ao CPDOC da FGV estão reproduzidos no livro Ernesto Geisel, coletânea organizada por Maria Celina d’Araújo e Celso Castro.
Falando sobre vivandeiras de quartel que tentavam convencer os altos comandantes militares a darem um novo golpe, Geisel comentou: "Não contemos o Bolsonaro, porque o Bolsonaro é completamente fora do normal, inclusive um mau militar".
O coronel Jarbas Passarinho se referiu a ele com as mesmas palavras, "mau militar". Motivo? "É um radical e eu não suporto radicais." (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O HOMEM QUE ENFRENTOU O ESQUADRÃO DA MORTE E FEZ O HEDIONDO DELEGADO SÉRGIO FLEURY CAIR EM DESGRAÇA – 2

celso lungaretti
PARTIDO QUE PERDE UM HÉLIO BICUDO PARA TER UM ROBERTO TEIXEIRA E UMA MARTA SUPLICY SÓ
PODERIA CHEGAR À SITUAÇÃO ATUAL
D. Paulo Evaristo Arns, Hélio Bicudo e Audálio Dantas: firmeza nos momentos mais críticos.
Os muitos méritos da trajetória marcante de Hélio Bicudo como jurista e homem público estão sendo desconsiderados pelos internautas para os quais os interesses e conveniências do PT são a medida de todas as coisas. Estes o estão julgando apenas e tão somente por sua participação no impeachment de Dilma Rousseff; e o fazem, ademais, de forma bem simplista, repetindo acriticamente as narrativas partidárias. 

No post anterior, a ex-secretário nacional de Direitos Humanos Flávia Pioversan, acertadamente, avalia como principal mérito de Bicudo seu devoção à causa dos DH, lembrando tudo que ele fez neste sentido.

Bicudo foi, ademais, um homem público honesto e competente, desde a década de 1950, ao presidir as Centrais Elétricas de Urubupungá quando Carvalho Pinto era o governador de São Paulo. Depois foi ministro da Fazenda interino, por uma semana, no Governo João Goulart.

 Davi venceu Golias de novo

Adquiriria enorme prestígio como o homem que derrotou o Esquadrão da Morte, mas há um componente político importante que a Flávia deixou de mencionar: tal grupo de extermínio nasceu na segunda metade da década de 1960, sob a liderança do delegado Sérgio Fleury, que então comandava o radio-patrulhamento na capital paulista.

Em 1968, Fleury foi requisitado pelo Dops para atuar na repressão aos movimentos de resistência à ditadura militar, distanciando-se do Esquadrão. Foi quem armou a tocaia para que Carlos Marighella fosse assassinado a tiros (teria sido até fácil prendê-lo com vida, mas todo o modus operandi adotado evidencia que nunca foi esta a intenção).

E participou de várias outras execuções, como as de Devanir de Carvalho (o Henrique) e Eduardo Collen Leite (o Bacuri), ambos torturados até morrerem. Como reconhecimento dos bons serviços (de carniceiro) prestados, foi condecorado pelo Exército com a Medalha do Pacificador e pela Marinha com a Medalha Amigo da Marinha.

Então, Bicudo teve contra si não apenas os protetores de policiais que exterminavam delinquentes, mas também os protetores de um policial que era, àquela altura, o maior exterminador de resistentes.

Ou seja, por haver se tornado um dos principais assassinos e torturadores da repressão política, Fleury era ostensivamente protegido pelos militares. A ditadura chegou a criar uma lei unicamente para evitar sua prisão imediata quando virou réu de um processo do Esquadrão.

Com extrema coragem, Bicudo levou sua cruzada até o fim; o incisivo apoio que recebia do jornal O Estado de S. Paulo deve ter dissuadido aquelas bestas-feras de atentarem contra ele, pois a repercussão seria enorme, no País e no exterior, o que não convinha ao governo militar. 
O tocaieiro do Marighella virou arquivo queimado

Bicudo deu o xeque-mate ao colocar quem o apoiava na imprensa na pista da verdade sobre o Esquadrão: este não agia com fins de faxina social, mas sim para fazer jus à mesada de traficantes que utilizavam seus préstimos para eliminar a concorrência. A repercussão desta notícia foi péssima na caserna.

Os militares não tinham restrições morais quanto a proverem um escudo protetor para matadores covardes, mas a coisa mudou de figura quando se tornou conhecido que eram, ademais, capangas do narcotráfico. Então, os fardados deixaram Fleury e os outros carrascos do Esquadrão entregues à própria sorte. 

O primeiro sabia demais e foi, como diziam os mafiosos, dormir com os peixes, caso único de dono de barco que se afoga no ancoradouro. Os demais acabaram condenados ou transferidos para o quinto dos infernos (ou seja, para localidades as mais distantes possíveis da capital...).

Bicudo passou a ser visto pela esquerda como o homem que, por vias indiretas, vingara Marighella e outros resistentes martirizados. Daí o interesse do PT em recebê-lo nas suas fileiras: era um patrimônio moral de primeira grandeza. 

As decepções viriam com o tempo, à medida que seus feitos foram sendo esquecidos por nosso povo de memória curta e seu valor político, consequentemente, diminuiu. Falemos das duas maiores.
O partido oPTou por Marta contra Bicudo. Depois ela bateria asas...

Em 1998 (vide aqui), presidiu a Comissão de Ética que o PT criou para apurar as denúncias do economista e ex-guerrilheiro Paulo de Tarso Venceslau contra o empresário Roberto Teixeira, responsável pela montagem do primeiro esquema de desvio de recursos públicos para os cofres do partido. 

Foi uma satisfação à opinião pública, pois Venceslau, depois de passar dois anos recorrendo em vão à direção do PT, levara suas acusações ao Jornal da Tarde. 

Os grãos petistas certamente esperavam que Bicudo fizesse um jogo de compadres. Ele, contudo, optou por uma justiça salomônica. Recomendou a expulsão de Teixeira como maçã podre e de Venceslau por ter vazado à imprensa um assunto interno do partido. 

Lula, compadre do Teixeira, ameaçou desligar-se do PT. Chantageada, a Executiva Estadual avocou a decisão final e, desautorizando a comissão de ética, livrou a cara do corruptor. Bicudo teve de engolir um sapo gigantesco.

Depois, no final de 2004, era vice de Marta Suplicy e assumiu a Prefeitura quando ela se licenciou para disputar o governo do Estado.  
É ingenuidade supor que isto não ocorreria sem o Bicudo
Ao invés de ficar simplesmente coçando o saco e discursando em solenidades, resolveu governar de verdade. Suas iniciativas foram muito elogiadas pela imprensa, provocando ciumeira na Marta e seus cupinchas. Hostilizaram Bicudo de tal forma que a ruptura com o partido se tornou mera questão de tempo. Cumpriu seu mandato até o fim e logo se desligou.

A partir de então, tornou-se um crítico contundente do PT. Apoiou José Serra na eleição presidencial de 2010 e Marina Silva na de 2014.

Suas justificadas mágoas o levaram, na minha opinião, mais longe do que deveria ter ido. Mas, seria ingenuidade supormos que as razões jurídicas eventualmente por ele alinhavadas e sua assinatura num documento tenham decidido qualquer coisa. Tudo aquilo não passou de encenação mambembe para preencher partes de uma peça cujo final já estava escrito muito antes de as cortinas se abrirem.

De resto, um partido que perde um Hélio Bicudo para ter um Roberto Teixeira e uma Marta Suplicy só poderia mesmo chegar à situação atual.

quarta-feira, 21 de março de 2018

NÃO ENCARCERAR LULA É UMA DECISÃO JUSTIFICÁVEL. MAS FAZÊ-LO MEDIANTE SUBTERFÚGIO SERÁ LAMENTÁVEL!

Há muito este blogueiro defende firmemente a posição de que idosos só devam ser encarcerados quando tiverem cometido crimes hediondos ou continuarem representando grave perigo para a sociedade. E isto se aplica também ao ex-presidente Lula, tanto quanto ao ex-governador Paulo Maluf, p. ex.

Mas, a Operação Lava-Jato produziu um clima de intolerância e histeria punitiva que justifica os piores excessos, jogando no lixo séculos de civilização e nos fazendo retroceder às trevas da Idade Média ou à lei de talião dos tempos bíblicos.

É inaceitável vermos procuradores de Justiça sustentando que a pena por crimes do colarinho branco deva ser igualada à pena por homicídio, sob justificativas demagógicas e toscas do tipo "a corrupção de valores altos mata".

Então, tenho sempre me posicionado no sentido de que Lula cumpra suas penas, sejam de quantos anos forem, em prisão domiciliar, cercado pelos entes queridos e tendo a oportunidade de refletir sobre o que fez e o que deixou de fazer. 
Mas, foi simplesmente patética a pressão exercida sobre a presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, no sentido de que pautasse a rediscussão de uma decisão anterior da corte, num momento em que Deus e o mundo corretamente interpretarão a nova votação como um mero expediente para livrar o Lula da prisão sem passar recibo de que o objetivo é livrar o Lula da prisão. 

Que coisinha feia! Tal pulo do gato trará à lembrança a chamada Lei Fleury, um casuísmo de que a ditadura serviu-se para evitar a prisão imediata do tocaieiro do Marighella quando este respondia pelos crimes que cometera como membro do Esquadrão da Morte.

Já que o STF não quer tratar os idosos da forma compassiva e humanitária como civilizados devem fazê-lo, que pelo menos jogue franco: conceda o habeas corpus pleiteado pela defesa do Lula! 

Seria a opção mais honesta e digna nas atuais circunstâncias, tendo inclusive sido cogitada como uma saída para o impasse. Mas, como sempre, preferiu-se o caminho tortuoso. Não suporto mais essa forma de proceder bem brasileira, dissimulada e pusilâmine... 

Observação: na manhã de hoje (4ª feira, 21), a boataria na grande imprensa era quase toda no sentido de que o STF decidiria apreciar duas Ações Diretas de Constitucionalidade sobre se um réu pode ou não ser preso após ter sua condenação confirmada em 2ª instância, hipótese que repudiei, considerando-a um "mero expediente para livrar o Lula da prisão sem passar recebido de que o objetivo é livrar o Lula da prisão".

Parece que o Supremo concordou comigo, pois à tarde ficou resolvido que a corte pegará o touro pelos chifres: está marcado para amanhã (5ª feira, 22) o julgamento do recurso do Lula, que é o xis da questão neste momento. 

Seria um erro tomarem uma decisão de ordem geral sob influência tão acentuada de um caso específico. Que decidam primeiramente o destino do Lula e noutra ocasião, com a imprescindível serenidade, se mudará ou não o entendimento daquela questão por parte do STF.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

INTERVENÇÃO NO RJ: COMANDANTE DO EXÉRCITO QUER GARANTIA DE QUE NÃO HAVERÁ APURAÇÃO FUTURA DOS EXCESSOS!

"Na reunião com o Conselho da República, na manhã desta segunda-feira (19), o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, disse ser necessário dar aos militares 'garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade' no futuro, depois de o presidente Michel Temer informar aos integrantes do encontro da intervenção federal na área de segurança do Rio de Janeiro. 
A referência de Villas Bôas é ao fato de, depois da lei da Anistia, de 1979, ter sido criada Comissão da Verdade, durante o governo Dilma, que investigou casos de tortura e mortes durante o período da ditadura militar".
Mais uma vez a vida imita a arte: até agora a permissão para matar só era concedida oficialmente nas histórias do agente 007.

Oficiosamente (ou seja, por baixo dos panos), os poderosos do mundo inteiro, quando veem ameaçados seus privilégios, quase sempre tiram a coleira dos seus pit bulls e os deixam barbarizar à vontade, garantindo-lhes que não responderão por seus crimes.

As forças repressivas da ditadura de 1964-1985, p. ex., contaram com tal permissão às escâncaras. Só não via quem não queria.
Até a lei foi mudada para evitar que o delegado Sérgio Fleury, tocaieiro de Carlos Marighella, fosse preso por suas matanças anteriores (tinha sido um dos matadores do Esquadrão da Morte paulista).

E do que o general Villas Bôas está se queixando, afinal? A Comissão Nacional da Verdade, abandonada à própria sorte por quem a criou, não conseguiu ir fundo nas investigações nem abrir brecha nenhuma no manto de impunidade que desde 1985 garante sono tranquilo às bestas-feras do regime militar.

Quando penso na CNV, o paralelo que sempre me ocorre é futebolístico: parecia aqueles atacantes franzinos que, quando obrigados a disputar bola dividida com zagueirões de maus bofes, correm para não chegar...

sábado, 13 de janeiro de 2018

CONY NÃO FOI INSULTADO PELA VIDA, MAS PELAS ESCOLHAS QUE FEZ AO LONGO DELA.

Toque do editor
Um bom amigo me avisou que o artigo de Mário Sérgio Conti sobre Carlos Heitor Cony, publicado na Folha de S. Paulo de hoje (13/01), tem muitos pontos de contato com o meu de sábado passado (vide aqui). Fui checar e ele estava certo.

Como dificilmente terei motivo para postar algo sobre o Cony doravante, resolvi trazer para o blog o texto do Conti; apesar dos pesares, o finado travou o bom combate durante tempos difíceis, fazendo por merecer o espaço que, bem ou mal, estou lhe concedendo. Pena que não tenha mantido tal atitude pelo resto da vida.

Foi, também, uma grata surpresa para mim encontrar outro articulista capaz de falar de mortos célebres sem papas na língua. Geralmente sou apenas eu que desafino o coro dos contentes...

Por fim, comparar o escritor ao personagem principal do seu livro de 1967 foi uma boa sacada do Conti, tem realmente muito a ver. Mas preferi não ir por este caminho, pois me incomodou a forma caricata e até repulsiva com que Cony retratou seus guerrilheiros. 

Pareceu-me que ele estava muito à vontade na própria praia, dissecando a vidinha estagnada do seu alter ego, mas desconhecia completamente o universo da luta armada. 

UM HERÓI CÍNICO E HIPÓCRITA
Por Mário Sérgio Conti
O herói de Pessach: a travessia, o romance de Carlos Heitor Cony de 1967, é um narrador astuto. Reptiliano, Paulo Simões avisa logo de cara: "Os outros têm razão: sou um hipócrita ou um cínico, talvez as duas coisas juntas".

Na frase seguinte, porém, insinua que os outros se enganam: "Só a mim mesmo essa cara não tapeia. Também, olho-me pouco no espelho, o necessário para a barba: não gosto de estranhos". Superior à sociedade, Simões desdenha de sua aparência cínica e hipócrita.

O próprio narrador pode estar errado, contudo: só se olha no espelho para fazer a barba, e vê um estranho. Em ordem unida, suas frases rufam como tambores de parada. O ratimbum do ego onisciente soa unívoco e evidente, mas, visto de perto, é dúbio, furtivo, furta-cor.

Pessach, a Páscoa judaica, celebra a libertação do povo eleito do cativeiro e a travessia do Mar Morto. Como título, é uma metáfora forçada: Simões não é judeu e o povo inexiste. Sua travessia é pessoal. Ele supera a hipocrisia e o cinismo e se acha ao empunhar um fuzil contra a ditadura.

Foi uma travessia típica. Em 1967 saíram também Terra em Transe, de Glauber Rocha, que termina com Paulo Martins de submetralhadora em riste, e Quarup, de Antonio Callado, no qual padre Fernando adere à guerrilha. O filme é genial; o romance, um cálido documento de época.

Já Pessach se esbalda em sensacionalismo sádico. Um guerrilheiro, cujo pênis fora carbonizado na tortura com um maçarico, açoita um subordinado negro (abrutalhado e bêbado, portanto) e faz com que estupre uma virgem. Os personagens falam mais de bidês que de luta de classes.

O romance serve de alegoria para a intelectualidade –premida que estava entre a traição do PCB, a cartada suicida da luta armada, a inócua assinatura de manifestos, o desbunde ou a melancolia estéril. Simões nem cogita em aderir à nova ordem.

Pessach serve, ainda, para pensar os laços entre Cony e Simões. No lançamento do livro, sua primeira frase era: "Hoje faço quarenta anos". Não houve mudança na reedição, de 1975.

Em 1997, na terceira edição, ela foi alterada para: "Hoje, 14 de março de 1966, faço quarenta anos". Cony nasceu em 14 de março. Em 1966, fez quarenta anos. Ou seja, Simões é seu alter ego.

É equivocado identificar o autor, pessoa real, com o narrador do romance, personagem fictício. Em Pessach, tal identificação foi buscada ao longo dos anos. A mudança foi política. Nas primeiras edições, a ditadura dominava. Em 1997, Fernando Henrique cumpria o seu primeiro mandado presidencial.

A identificação Simões-Cony não faz com que Pessach deixe de ser ficção. Mas dá um sentido subjetivo à seguinte afirmação do narrador-autor: "Não quero morrer de velhice ou de moléstia... Antes que a vida me insulte, insultarei a vida: me engajo numa luta... Talvez consiga ser herói".
Dose de elefante: entrevistar isso aí.

Cony era um herói de verdade. Cronista alheio à política, a partir de abril de 1964 passou a vergastar com altivez a violência militar. Foi mais lúcido e corajoso que Simões. Fez isso sozinho e pagou caro: demissão, afastamento do Brasil, uma dúzia de processos.

Cerca de dois anos depois de Pessach, desistiu de ser herói. Virou o alter ego de Adolpho Bloch, que o contratou para exaltar o regime. E, meses após relançar o romance, não teve pejo em entrevistar na Manchete Sérgio Fleury, ponta de lança dos torturadores. Era chamado de Conyvente.

Com Lula no Planalto, o herói fantasmagórico abocanhou uma bolsa-ditadura. Cony pediu indenização e quis uma pensão mensal. Em valores de hoje, a indenização foi de R$ 2,8 milhões; a pensão, de R$ 37,6 mil.

O herói morreu de velhice e moléstia. Não foi insultado pela vida, mas pelas escolhas que fez ao longo dela. Seus artigos de 1964 são um cálido documento de época. Pessach, uma ruína sobre hipocrisia e cinismo.
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