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domingo, 29 de dezembro de 2013

UMA AMOSTRA DO MAGNÍFICO CINEMA POLICIAL FRANCÊS DOS ANOS 60 E 70

Finalmente encontrei no Youtube e estou podendo disponibilizar aqui um filme representativo do magnífico cinema policial francês das décadas de 1960 e 1970: Adeus, amigo (1968).

Era um tempo em que os estadunidenses insistiam em introjetar nos espectadores, martelando-a ad nauseam, sua visão maniqueísta de mundo, de forma que quase todos os seus policiais (e também os westerns) tomavam o partido das forças da ordem e apresentavam os bandidos sob ótica extremamente negativa. 

A demonização dos gangsters ia a tais extremos que, na fita famosa de 1932, dirigida por Howard Hawks, há uma clara sugestão de que Scarface seria incestuoso. Para que os tiras parecessem sãos, confiáveis e protetores, os marginais eram apresentados como monstruosidades.

Produto de uma sociedade muito mais evoluída, o cinema francês não estava comprometido com lavagens cerebrais conservadoras e policialescas. Grandes novelistas como George Simenon e Auguste Le Breton fixaram um parâmetro para o gênero: enfocar o submundo e a polícia como dois universos complementares, cujas regras e valores eram expostas de forma isenta, sem preconceitos rançosos.

O comissário Maigret, personagem de Simenon, não está a serviço de uma Justiça infalível nem obedece cegamente à lei. Sempre que há um conflito entre o que é certo e o que acabará ocorrendo face às imperfeições da Justiça e da lei, ele opta por seguir seu próprio juízo. 

O grande Jean Gabin no papel do Comissário Maigret
Até cometendo pequenas ilegalidades, age e tange os acontecimentos para que haja Justiça no sentido maior da palavra, seja poupando coitadezas que não sabiam o que estavam fazendo ou merecedores de uma nova chance, seja castigando poderosos que normalmente ficariam impunes. Expressa uma um descompromisso e uma desconfiança bem européia em relação ao Estado.

Quanto a Le Breton, seu clássico Rififi mostrou o submundo (o chamado milieu) de forma até simpática: quando um gângster sequestra uma criança para pressionar os comparsas a entregarem-lhe todo o butim, a reação da marginalidade é unânime e indignada, tomando as dores do pai aflito. Não são monstros, têm sua moral e seus códigos, incluindo uma solidariedade básica para com os outros marginais. 

[Isto é algo difícil de compreender para os jovens de hoje, pois os criminosos, principalmente a partir dos lucros mirabolantes do tráfico de drogas, tornaram-se bestas-feras, além de manterem laços promíscuos com a polícia e delatarem uns aos outros com a maior sem-cerimônia. Mas, nem sempre foi assim.]

Robert Ryan contracenou com Jean-Louis Trintignant
Se Simenon e Le Breton foram determinantes para a postura arejada dos policiais franceses da primeira metade do século passado, cujo principal astro era Jean Gabin, adiante vieram juntar-se-lhes Sebastien Japrisot e, principalmente, Jose Giovanni (autor de novelas policiais que também atuava como roteirista -adaptando tanto seus textos como os de outros escritores, daí ter colaborado com duas dezenas de filmes- e diretor).

E David Goodis, cuja obra é muito mais afim dos policiais franceses que dos estadunidenses, teve suas novelas aproveitadas em cinco filmes, dentre eles o primoroso O homem que surgiu de repente.

Um divisor de águas foi O samurai (1967), do grande cineasta Jean-Pierre Melville, veterano da Resistência Francesa. Equiparando um matador de aluguel francês aos ronins japoneses, o filme disseca exaustivamente a técnica e os valores desse indivíduo que obedece a um código de conduta extremamente rígido: é o profissional perfeito, só que atuando numa profissão diferente. Com sua parcimônia de diálogos e sua abordagem desglamourizada, influenciou fortemente os cineastas franceses daquela geração, praticamente definindo o modo francês de fazer policiais dali em diante.

Antes de ser cineasta, Melville resistiu à ocupação nazista
Melville é responsável por outros filmes fundamentais, como Bob le Flambeur (1956), Técnica de um delator (1962), Os profissionais do crime (1966), O círculo vermelho (1970) e Expresso para Bordeaux (1972). 

Entre os principais diretores do filão, destacam-se também: 
  • o próprio Giovanni (Último domicílio conhecido, 1970; Scomoune, o tirano, 1972: Dois homens contra uma cidade, 1973; O cigano solitário, 1975; e Bumerangue, 1976);
  • Henri Verneil (Gangsters de casaca, 1963; Os sicilianos, 1969; Os ladrões, 1971; e Medo sobre a cidade, 1975):
  • Jacques Deray (Borsalino, 1970; Os gangsters não esquecem, 1972; e Flic story, 1975);
  • Rene Clement (O sol por testemunha, 1960; O passageiro da chuva, 1970; e O homem que surgiu de repente, 1972); 
  • Robert Enrico (Ho! A face de um criminoso, 1968; Um beijo ao morrer, 1972; e O segredo, 1974); e
  • Yves Boisset (O assassino tem as horas contadas, 1968; O chefão, 1970; e O cobra, 1971). 
Delon e Belmondo, juntos em Borsalino
Os astros do filão, claro, eram Alain Delon e Jean-Paul Belmondo, mas muita gente boa andou por lá: Jean-Louis Trintignant, Maurice Ronet, Robert Hossein, Yves Montand, Simone Signoret, Lino Ventura, Gian-Maria Volonté, Serge Reggiani, Michel Bouquet, Bernard Fresson, o eterno Jean Gabin, etc. Até Robert Ryan e Omar Shariff deram o ar de suas graças.

Adeus, amigo tem direção correta de Jean Herman, valendo, sobretudo, pela excelente história de Sebastien Japrisot e pela atuação marcante de Alain Delon e Charles Bronson, ambos na melhor fase de suas carreiras. 

Uma série de equívocos acaba fazendo com que ambos fiquem presos num enorme cofre, durante o feriadão de Natal: Dino (Delon), porque queria fazer um favor à amante de um saudoso amigo; e Franz (Bronson) por pensar que se tratava de um roubo, do qual tentou também participar. 

Ao finalmente saírem, Dino pede a Franz que lhe dê sua palavra de honra, de jamais revelar que estiveram juntos no cofre, evitando assim um enquadramento jurídico que aumentaria muito uma eventual pena de prisão. Franz responde: "Mas, eu não tenho honra". E Dino: "Prometa-me, mesmo assim".

A insólita amizade entre pessoas tão diferentes vai lhes acarretar muitos tormentos. Mas, acabará mesmo havendo honra entre ladrões (um título alternativo do filme, por sinal mais adequado). Recomendo enfaticamente.  

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

UMA OBRA-PRIMA QUE POUCOS CONHECEM: "CÃO BRANCO"

Quando eu aqui posto filmes como Queimada, O último tango em Paris e Terra em Transe, não surpreendo ninguém. Ele são exatamente o que os leitores assíduos deste blogue esperam encontrar; atendo às expectativas.

Mas, de vez em quando eu consigo garimpar no Youtube uma obra-prima que não teve o merecido reconhecimento, como este Cão branco (d. Samuel Fuller, 1982). Aí, acredito estar prestando ao meu público um serviço bem mais relevante. Ainda mais ao se tratar de um filme boicotado, como este.

Jovem atriz (Kristy McNichol) atropela um belíssimo cachorro, socorre-o e resolve ficar com ele. Já afeiçoada, descobre tratar-se de um animal que o antigo dono treinara para atacar negros; não era somente a cor do seu pelo que fazia dele um cão branco.  

Buscando uma saída para conservá-lo consigo, ela trava contato com um adestrador negro (Paul Winfield), que conhece a dificuldade para descondicionar um bicho desses, mas aceita a empreitada. Ele já tentara fazer o mesmo em outras ocasiões; é a contribuição pessoal que quer dar à luta contra o racismo.  

São comoventes os esforços (exaustivos e arriscados) que desenvolve para salvar o animal da terrível doença que lhe inocularam: o ódio.  

E, até por tratar-se de um cão magnífico, seu drama nos toca profundamente. Seria preciso um coração de pedra para ficarmos indiferentes -ainda mais com todo o clima criado pela primorosa trilha musical de Ennio Morricone...

Fuller é um diretor sui generis. Esteve como jornalista nos campos de batalha da 2ª guerra mundial... com a idade de 17 anos! Deve ter sido o correspondente mais jovem da História. Depois, aproveitou esta vivência para realizar um filme muito elogiado sobre o conflito, Agonia e glória (1980). 

Quando a preconceituosa Paramount resolveu não lançar o Cão branco, ele ficou tão decepcionado que mudou-se com armas e bagagens para a França, onde acabou filmando bem menos.

Mas, restou-lhe o consolo de haver tido um canto do cisne à sua altura: seu trabalho derradeiro para o cinema foi Rua sem volta (1989), adaptação de uma ótima novela de David Goodis.

sábado, 2 de janeiro de 2010

A VOLTA DO CRÍTICO ACIDENTAL

Glauber Rocha tinha "uma idéia na cabeça e uma câmara na mão". Tarantino, só a câmara...

No último mês de abril, em dia tão sem notícias impactantes como hoje, publiquei neste blogue alguns recuerdos da fase em que tentara estabelecer-me como crítico de cinema: O crítico acidental.

Foi entre 1979 e 1984. Há exatos 25 anos, a crise do papel expulsou-me das pequenas editoras em que conseguia garantir meu sustento sem fazer tantas concessões ao sistema.

Ou seja, o preço do papel subiu muito e a editora na qual eu trabalhava fixo precisou extinguir metade das revistas sob meu comando.

Com as restantes eu não conseguiria pagar minhas contas. E os frilas também estavam escasseando, naquela fase de vacas magras.

Então, tive de dar uma guinada de 180º na minha carreira, deixando de fazer o que gostava para fazer o que remunerava (razoavelmente). No caso, jornalismo econômico, que sempre me causou urticária...

Vez por outra, continuava publicando uma ou outra crítica por aí.

E me lembro de que em 1994, quando Quentin Tarantino virou o xodó dos novos bárbaros que posavam de críticos na grande imprensa, escrevi o que deveria ser escrito sobre ele.

Tagarela, atarantado, Tarantino foi o título. O Jornal da Tarde (SP) aproveitou, mas num espaço para crônicas, que eu esporadicamente frequentava.

O motivo foi o filme que ergueu a carreira até então medíocre de Tarantino e reergueu a de John Travolta: Pulp Fiction.

Simplesmente detestei que, pretextando homenagear as velhas e boas novelas policiais do passado, ele as apresentasse como o que não eram. David Goodis ficaria horrorizado.

Seus gangstêres falavam mais palavras numa única sequência do que os gangstêres da verdadeira pulp fiction no livro inteiro. Era um blablablá interminável, que me deixou com a bunda doendo: não encontrava posição na poltrona do cinema que me satisfizesse, tal o desagrado que me causaram os 154 minutos desse filme no qual não havia nem sequer 90' aproveitáveis.

Fã de carteirinha dos policiais franceses das décadas de 1960 e 1970, dirigidos por cineastas de verdade como Robert Enrico e René Clement, detestei a abordagem espalhafatosa e intelectualóide de Tarantino.

A graça do gênero estava em ser lacônico, seco, despojado. E, nas mãos de um Jose Giovanni, p. ex., não dar a mínima para juízos de ordem moral.

FRANCESES DESCARTAVAM
MANIQUEÍSMO HOLLYWOODESCO

Ou seja, o cinema estadunidense sempre apresentara as histórias de gangstêres sob ótica puritana e maniqueísta. As forças da ordem enfrentando os agentes da desordem. No final, o gângster morre e os videotas têm sua ansiada catarse (agora é o terrorista quem morre, na tralha hollywoodesca típica).

Já os melhores policiais franceses (como os muitos derivados das novelas de Giovanni, que ele próprio adaptou para o cinema) interessavam-se apenas em esmiuçar as características dos dois tipos de profissionais que se opunham.

Desde o antológico O Samurai (1968), de Jean-Pierre Melville, esta passou a ser a tônica: o gângster não como uma aberração (os mad dogs do cinema estadunidense), mas como um ser humano com defeitos e também virtudes, só que dedicado a um ofício diferente.

Cinema não é púlpito, para nos impingir sermões. Deve contar histórias e nos deixar as conclusões, ao invés de embutí-las no viés adotado.

O atarantado Tarantino, no fundo, foi aclamado pelos pseudocríticos de uma época que baniu o pensamento crítico. Como o conteúdo dos seus filmes era raso como uma poça d'água, sobressaía mesmo a embalagem extravagante, copiadas dos mestres.

O que são os dois Kill Bill, se não uma mistura indigesta dos westerns de Sergio Leone com as fitas de artes marciais estreladas por Bruce Lee?

Pior: seus duelos coreografados não têm uma centelha sequer do gênio de Bruce Lee, e o visual chupado de Leone nos deixa saudades das reflexões que o mestre italiano embutia em seus filmes de ação.

A grandeza de Leone reside em ter conseguido realizar fitas atraentes para o grande público, mas que falavam muito mais aos que conseguiam fazer uma leitura mais aprofundada.

Assim, Três Homens em Conflito é um verdadeiro líbelo contra as guerras, Era Uma Vez o Oeste disseca magnificamente a relação entre mito e realidade, Quando Explode a Vingança nos ensina muito sobre as revoluções e Era Uma Vez na América se constitui numa das mais grandiosas abordagens cinematográficas da transição da sociedade aventureiresca da primeira metade do século passado para o subsequente primado insípido das grandes organizações.

Tarantino me faz lembrar uma ótima frase do Paulo Francis: você olha para um ator francês como o Philippe Noiret e vê toda uma civilização atrás dele, mas se você olha para um ator estadunidense típico, nada vislumbra além do vazio.

Sérgio Leone desenvolveu uma forma caprichadíssima, com ênfase no aproveitamento impecável das músicas de Ennio Morricone, para atrair os espectadores e tentar motivá-los a refletirem sobre temas importantes.

Tarantino copiou essa forma caprichadíssima, inclusive usando e abusando dos mesmíssimos temas de Morricone, apenas para agregar a si próprio uma aura de sofisticação. Atrás de um Pulp Fiction e de um Kill Bill nada há além do vazio.

UMA ANTI-DECLARAÇÃO
DOS DIREITOS HUMANOS


Pior, muito pior, é seu recente Bastardos Inglórios. Trata-se de um filme que faz apologia de bestialidades a um nível que Tropa de Elite nem chega perto.

Apresenta como justificáveis os assassinatos mais cruéis e o escalpelamento das vítimas, desde que estas sejam nazistas. Direitos humanos só existem para as pessoas, com as não-pessoas tudo é permitido.

Enganam-se os que relevam a desumanidade intrínseca do filme por considerá-lo apenas uma farsa (afinal, os acontecimentos históricos são deturpados a ponto de Tarantino dar a Hitler uma morte diferente da que ele teve).

Esta lavagem cerebral hollywoodesca vem de longe e intensificou-se ao máximo após o atentado contra o WTC. Quer incutir em cada videota do planeta a noção de que vale tudo para defender a sociedade dos seus descontentes. É a anti-Declaração dos Direitos Humanos.

Ao engajar-se nessa empreitada fascistóide, Tarantino reafirmou uma velha verdade: o vazio acaba sempre sendo preenchido pela força dominante.

Então, ele está agora ecoando a ideologia do capitalismo em sua fase de putrefação, quando não tem mais valores positivos a oferecer e só tenta manter os cidadãos apavorados diante da mera possibilidade de alteração do status quo, de maneira que não se dêem conta do quanto o status quo é irracional e injusto.

Ao constatar que a mediocríssima crítica cinematográfica atual aclamou em uníssono um filme tão nocivo e desumano quanto Bastardos Inglórios, pude dimensionar para onde a indústria cultural nos está levando, como vanguarda do retrocesso que sucedeu as jornadas gloriosas de 1968: para vários séculos atrás na história da civilização, cancelando até o Iluminismo.

O horror, o horror!
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