quarta-feira, 4 de março de 2026
COVARDES E SANGUINÁRIOS
segunda-feira, 23 de junho de 2025
POR SE PROSTRAR À POSTURA IMPERIAL DOS EUA, A ONU TEM DE SER SUBSTITUÍDA POR UM NOVO PACTO ENTRE AS NAÇÕES
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| Urge sepultar esta velha dama indigna |
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024
APÓS ACUSAÇÕES DE ISRAEL, EUA E EUROPEUS RETIRAM APOIO AOS REFUGIADOS PALESTINOS
Talvez não haja no Brasil uma grande repercussão, mas as acusações feitas por Israel contra a agência da ONU pelos refugiados palestinos, UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente), ainda são manchetes na mídia européia, como o jornal francês Libération e o suíço Le Temps. O grande espaço no Le Temps deve-se também ao fato de ser um suíço-italiano, Philippe Lazzarini, o responsável por esse comissariado da ONU.
Nos últimos dias, as acusações forçaram Lazzarini a demitir uma dezena dos funcionários sob sua direção, acusados ou implicados direta ou indiretamente no ataque do 7 de outubro a civis e militares israelenses. Alguns desses funcionários teriam mesmo participado dos assassinatos, demonstrando com isso terem sabido previamente dos planos e agido como cúmplices. Pior, teria a agência UNRWA participado dos planejamentos do Hamas ? Chegam a cogitar alguns.
Na dúvida, mas sob forte suspeita, já são 15 os países que suspenderam sua ajuda ao órgão da ONU, temendo ter havido desvio dessas contribuições para a criação do arsenal e forte armamento do Hamas na Faixa de Gaza, onde resistem há quatro meses às represálias israelenses.
Essa suspeita cresceu nestes últimos dias, tanto que a União Europeia pediu uma auditoria dentro da UNRWA, enquanto o conselho nacional do governo suíço convidou Philippe Lazzarini para fazer uma análise da situação aos parlamentares suíços. Logo nos primeiros dias depois dos ataques do Hamas corriam rumores de ter havido comemorações em algumas escolas de Gaza, dirigidas por professores pertencentes à agência.
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| Existente desde 1947, quando os palestinos foram expulsos de suas terras por Israel, a UNRWA é uma das poucas formas de auxílio ao povo da Faixa de Gaza. |
O escritor, sociólogo e professor Gilles Kepel, especialista do Islã e do mundo árabe contemporâneo, numa entrevista à revista L ́Express, lembra ter sido também num 7 de outubro a Guerra do Kippur, há 50 anos, que Anuar el Sadate e Hafez el Assad atacaram Israel, mudando a situação no Oriente Médio. Entretanto, enfatiza Kepel, tanto o Egito como a Síria não tinham por objetivo destruir Israel, como deseja o Hamas, mas para criar uma relação de equilíbrio de força com aquele país e dar um legitimidade aos regimes de Sadate e El-Assad. (por Rui Martins)
domingo, 26 de novembro de 2023
HÁ MAIS DE VINTE ANOS UM ATENTADO TIRAVA A VIDA DO DIPLOMATA SÉRGIO VIEIRA DE MELLO
Diante de tantas mortes e convulsões provocadas por mais uma guerra no Oriente Médio, cujo estopim foi um enorme e amplo atentado cometido por uma organização terrorista - não entro nas discussões sobre bom e mau atentado -, me lembrei de outro atentado, cometido há 20 anos em Bagdá, no começo da guerra do Iraque, contra a sede das Nações Unidas. Nele morreu o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello.
No começo deste século eu não dispunha de muito tempo para escrever comentários, vivia correndo como repórter freelancer para jornais, rádios e mesmo para as próprias organizações ligadas à ONU quando, numa viagem, num evento especial, precisavam de um jornalista de língua portuguesa. Foi assim que conheci Sérgio Vieira. Ia com frequência à sede do Alto Comissariado e devo ter feito algumas viagens com ele, que era alguém bastante comunicativo e social.
A morte de Vieira de Mello foi um choque em Genebra. Ainda jovem, com 54 anos, formado em filosofia na Sorbonne, ativo, preocupado com os povos desamparados e desorientados, vivendo na miséria depois de cataclismas e guerras, Sérgio, como era chamado em Genebra, sabia das dificuldades da ONU para impedir e solucionar conflitos. Depois de ter agido em missão especial no Camboja, Bangladesh, Kosovo e Sudão, tinha sido administrador, por três anos, da ONU no Timor Leste.
Pouco antes da crise no Iraque, ele havia desenvolvido a tese de que havia uma relação direta entre a segurança mundial e o respeito aos direitos humanos. A violação flagrante dos direitos humanos é a detonadora das crises internas nos países e as crises internacionais.
Os que conheceram Sérgio e seus projetos para tornar a organização internacional mais eficaz não têm dúvida de que hoje o alto comissário brasileiro teria chegado ao posto de secretário-geral da ONU. Não era um político e nem um funcionário de carreira, mas uma personalidade marcante preocupada em construir a paz com justiça.
Fato raro, a morte de Sérgio Vieira de Mello foi seguida da publicação de diversos livros escritos por jornalistas que acompanhavam suas atividades e projetos em Genebra.
Um dos livros mais conhecidos é Chasing the Flame, de Samantha Power, jornalista norte-americana de origem irlandesa, defensora dos direitos humanos, cujos estudos em Harvard, militância política e carreira universitária, a levaram ao cargo de embaixadora dos EUA junto às Nações Unidas, tendo dele saído após a eleição de Donald Trump. O livro se transformou, em 2020, num filme com o título Sérgio: a luta de um homem para salvar o mundo, com Wagner Moura no papel principal.
Na exibição do filme, a revista Veja publicou texto sobre o que teria precedido o atentado no Hotel Canal, onde funcionava a ONU: o objetivo da missão diplomática de Vieira de Mello era conduzir o Iraque a eleições democráticas, depois de anos da ditadura de Saddam Hussein, a partir de uma constituição escrita por iraquianos. A intervenção norte-americana, vista 20 anos depois, foi catastrófica e provocou a ascensão do Estado islâmico.
Outro livro importante – Sérgio, uma esperança explodida – foi o de Jean-Claude Bührer com Claude B. Levenson, ambos jornalistas em Genebra à época, no qual José Ramos-Horta, Prêmio Nobel a paz em 1996, e ministro das Relações Exteriores do Timor Leste, comentou: O atentado contra a sede da ONU em Bagdá, que custou a vida do brasileiro, enviado por Kofi Annan, não só deixou o Iraque cair lentamente na violência, como decapitou o alto Comissariado pelos Direitos Humanos.
Ainda em 2016, a porta-voz de Sérgio na ONU, Annick Stevenson, publicou, junto com um ex-Alto Comissário para Refugiados, George Gordon-Lennox, o livro Sérgio Vieira de Mello, um homem excepcional. Para eles, Sérgio é o único ícone que jamais teve a ONU. Sua morte trágica significou que a própria ONU tinha também se tornado alvo de atentados. Sérgio foi a Bagdá, por mandato do Conselho de Segurança, com um projeto: evitar que a invasão e ocupação americana transformassem o Iraque numa anarquia e desestabilizassem o Oriente Médio.
Hoje, vinte anos depois, embora numa situação e quadros diferentes, a pergunta é a mesma: como irão viver amanhã os palestinos de Gaza e Cisjordânia com seus vizinhos israelenses? (por Rui Martins)
quinta-feira, 23 de novembro de 2023
QUANDO A ONU CONDENOU O SIONISMO
Nestes dias de guerra, quando Israel bombardeia Gaza e causa milhares de mortes de civis, em represália aos atentados cometidos pela organização terrorista Hamas, provocando manifestações internacionais, certas palavras destacam-se na imprensa mundial como sionismo, antissemitismo e islamofobia. Vamos tratar do sionismo.
Pouca gente se lembra de que a ONU, mesmo tendo sido criadora do Estado de Israel - que já deveria conviver com um Estado palestino vizinho -, condenou o sionismo, a ideologia e o movimento que uniu os judeus pela criação de Israel.
Ora, isso ocorreu no dia 10 de novembro de 1975, na Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque. O Brasil estava sob a ditadura militar, o presidente era Ernesto Geisel, luterano e filho de imigrantes alemães, e votou pela condenação do sionismo, indiretamente contra Israel, junto com Cuba, China, URSS e outros 69 países, se demarcando do voto dos Estados Unidos.
Os militares olhavam os judeus com desconfiança, pois muitos deles condenavam ou lutavam contra a ditadura. Durante outra ditadura, a de Vargas, o líder comunista Luís Carlos Prestes esteve preso durante nove anos e sua esposa, Olga Prestes, alemã e judia, também foi presa. Grávida, em 1936 foi deportada para a Alemanha nazista, ficou nos campos de trabalho forçado para judeus e morreu aos 34 anos numa câmara de gás.
A jornalista Marina Lemle, do blog HCS-Manguinhos, publicou, em maio de 2014, uma importante reportagem sobre um seminário realizado no Instituto de História da UFRJ, “Judeus, militância e resistência à ditadura militar”. O título da reportagem é bastante revelador: “Judeus que resistiram à ditadura eram secularizados”.
Participaram alguns nomes importantes da esquerda judaica, como Bernardo Sorj, Bila Sorj, Jeffrey Lesser, Marcos Chor Maio, Roney Cytrynowicz, Roberto Grun e Alberto Dines.
“Dines contou que a comunidade judaica era claramente dividida entre os “roite idn” (judeu vermelho, em ídish) e os não “roite”. Segundo ele, a vida judaica de esquerda no Brasil era muito intensa e corria separada da vertente sionista”.
Dines contou também terem desaparecido durante a ditadura militar os judeus Ana Rosa Kucinski Silva, Mauricio e André Grabois - pai e filho -, Chael Schreier, Gelson Reicher, Pauline Philipe Reischtuhl, Vladimir Herzog e Yara Iavelberg.
Provavelmente, estes judeus seculares também teriam concordado com a definição de sionismo, dada pela ONU, Resolução 3379, que considerou o sionismo como forma de racismo e discriminação racial.
A aprovação da Resolução 3379 teria sido também uma condenação da decisão israelense de permanecer nos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, como resultado da ascensão política do terceiro-mundismo e da legitimidade da causa palestina.
Nessa época, há 48 anos, os evangélicos – que se identificam com a história bíblica do povo judeu, são de extrema direita e apoiam Netanyahu e Israel contra os palestinos – não possuíam a mesma força religiosa de hoje para influir no voto do Brasil.
Em 1991, com o fim da guerra fria, a maioria dos países não árabes mudou o voto e anulou a Resolução 3379, votando a Resolução 4686, cujo texto é o mais sucinto da história da ONU. Só diz o seguinte: a Assembleia Geral decide revogar a determinação contida na resolução 3379 de 10 de novembro de 1975. (por Rui Martins)
quarta-feira, 8 de novembro de 2023
ANTONIO GUTERRES EM UMA SINUCA DE BICO
António Guterres em busca do tom certo ou, se achar melhor, sentado num barril de pólvora!
O socialista António Guterres, secretário geral da ONU reeleito e cujo mandato irá até 2027, tinha se investido na questão da prevenção da mudança climática, cuja consequências serão danosas para muitos países. Mas seu segundo mandato se transformou, desde o ataque do Hamas no dia 7 de outubro, na difícil "procura do tom certo para ajudar Gaza sem irritar Israel", como comenta o semanário Expresso, de Lisboa.
Membro durante 10 anos do Alto Comissário da ONU para os Refugiados, Guterrez logo se sensibilizou com a situação dos palestinos em Gaza, em meio aos bombardeios, e tentou obter um cessar fogo para a entrada de ajuda humanitária. Mas nem todos os países concordaram com sua proposta humanitária, pois para eles Israel ainda tem o direito de se defender, não sendo ainda o momento de se falar em contenção. Com esse aval, Israel pode continuar com seu ataque terrestre e invadir os subterrâneos de Gaza, onde estão as estruturas do Hamas, seus arsenais e os israelenses capturados na invasão de Israel há um mês.
Não é fácil para Guterres encontrar um equilíbrio e o tom certo nessa questão, que há meio século envenena o Oriente Médio. Ainda no Expresso, o historiador Lourenço Pereira Coutinho diz que "Antonio Guterrez está do lado do humanismo, não do terrorismo", sendo possível encontrar uma análise equilibrada da situação: Guterrez "sabe que os palestinos são mantidos em campos de refugiados pelos países árabes, que lhes recusam cidadania, e vivem em permanente tensão com os israelenses na Cisjordânia onde, a partir de 1967, estes estabeleceram colonatos"
Esse é um aspecto importante da questão, porém, o texto continua, Guterres "sabe também que Israel é continuamente ameaçado por organizações fanáticas que pretendem a sua destruição".
Guterres, cuja vida política está ligada a conquistas obtidas pelo Partido Socialista em Portugal, tem diante de si um desafio, bem além das contendas partidárias nacionais: o da gestão do fim da guerra.
Destruído o inimigo que pregava a destruição de Israel, assim que passar o ódio gerado pela guerra, não será o momento de Guterrez repensar na ONU a criação efetiva do Estado palestino, com o apoio de Mohmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, que não é amigo do Hamas? Sem a adoção dessa solução para os palestinos, já decidida desde o fim da Segunda Guerra Mundial, nunca haverá paz na região.
Missão impossível? (por Rui Martins)
sábado, 4 de novembro de 2023
ONU SEGUE PARALISADA DIANTE DOS CONFLITOS AO REDOR DO MUNDO
ONU, impotente diante das guerras?
Quase um mês de guerra envolvendo a organização Hamas, que controla a Faixa de Gaza, e Israel, qual tem sido a atuação da ONU, no sentido de parar o conflito? E não é só, quase dois anos depois da invasão da Ucrânia por decisão do presidente russo Vladimir Putin, o que tem feito a ONU de efetivo para acabar com essa guerra? Ou é sua própria estrutura que a impede de agir?
No caso de conflitos que envolvam direta ou indiretamente os cinco grandes países, membros do Conselho de Segurança, praticamente quase nada se pode fazer. Basta o uso do veto por um desses países – Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e China – para bloquear qualquer iniciativa.
A mais importante participação da ONU numa intervenção militar foi em 1950, na época da guerra fria, quando os chamados Capacetes Azuis, sob o comando dos Estados Unidos, intervieram na Guerra da Coréia. Não houve veto porque a China ainda não era a de Mao e a URSS estava ausente no momento da decisão pelo Conselho de Segurança. Outras intervenções foram no Iraque, Kosovo, Afeganistão, Líbia e contra os jihadistas do chamado Estado Islâmico, que se formou principalmente no Iraque depois dos EUA terem derrubado o ditador Saddam Hussein.
Outras intervenções da ONU, quase uma centena, consistiram em operações de manutenção da paz, como fiscalizar o cessar fogo entre Israel e os países árabes. Ou então ações de cunho humanitário no continente africano. A questionável intervenção militar no Haiti, que durou treze anos, contou com o comando militar brasileiro.
No caso do conflito agora em curso na Palestina, houve quatro tentativas frustradas de cessar fogo por parte do Conselho de Segurança da ONU e uma decisão por uma trégua votada pela Assembleia Geral, mas sem unanimidade e sem força para intervir e impor a suspensão das hostilidades e permitir uma troca de prisioneiros, o atendimento e tratamento dos feridos e o abastecimento da população civil de Gaza com alimentos e água.
Faz uma semana, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse ter havido má interpretação de suas palavras no Conselho de Segurança, quanto aos ataques do Hamas no 7 de outubro, e tratou de desfazer a confusão: “Estou chocado com as interpretações erradas de algumas de minhas declarações no Conselho de Segurança, como se eu estivesse justificando os atos de terror do Hamas. Isso é falso. Foi o oposto”.
A explicação veio logo após Israel ter pedido sua demissão, por Guterrez ter contextualizado o conflito ao afirmar que o ataque do Hamas não aconteceu do nada.
O cessar fogo humanitário também não havia encontrado unanimidade dentro da Europa – Portugal, Irlanda e Espanha estavam entre os países favoráveis à decretação de um trégua, porém a Alemanha, a Áustria, a Letônia e a Tchecoslováquia achavam não ser ainda o momento de se conter Israel. Uma voz discordante era a do primeiro-ministro belga, segundo o qual o direito de defesa “não pode ser desculpa para ações indiscriminadas”.
Netanyahu, alvo de críticas dentro e fora de Israel, escreveu e depois apagou no Twitter, agora X, não ter recebido nenhum alerta dos responsáveis pela segurança de Israel sobre as intenções de ataques do Hamas. De acordo com todos os serviços secretos e de segurança interna, dizia Netanyahu, o Hamas estava com medo de agir e procurava um acordo. Depois de ter escrito isso, alguém deve ter lembrado a Netanyahu ter sido ele mesmo quem desorientou e enfraqueceu a vigilância israelense, com sua obsessão de obter plenos poderes e diminuir os poderes da Corte Suprema - equivalente ao nosso STF - para escapar a processos por corrupção.
Na sequência de protestos contra Israel e em favor dos palestinos podem ocorrer perigosos desvios antissemitas, como a intenção de uma multidão de muçulmanos realizar um pogrom ou massacre dos passageiros judeus, como ocorrido na chegada de um avião procedente de Israel, no aeroporto russo de Makhatchkala, no Daguestão.
Paralelamente, ocorreu no Irã a morte da jovem Armita Geravand por traumatismo craniano cometido pela polícia moral islâmica. Ela é a segunda jovem assassinada pelo crime de não ter colocado o véu na sua cabeça. É sempre bom lembrar que as mulheres têm poucos direitos e que os LGBTs não são tolerados pelos países ou organizações islâmicas como o Hamas. (por Rui Martins)
sábado, 7 de outubro de 2023
BRASIL NO VESTIBULAR DA ONU
Brasil passou no vestibular da ONU?
Com as más notas tiradas nos últimos quatro anos, o Brasil seria certamente reprovado nesse vestibular da ONU com as piores notas! Porém, os exames ou sabatinas pelas quais passaram os representantes do Brasil na ONU, em Genebra, não são eliminatórios. O objetivo da ONU, sabendo que o aluno Brasil é fraco, indisciplinado e repetente, é o de questionar quais medidas estão sendo adotadas para melhorar suas notas.
O momento é propício, pois a vitória da oposição contra o governo de extrema-direita, reincidente a cada ano nos erros condenados pela comunidade internacional, abre perspectivas de mudanças. Em todo caso, uma boa avaliação do cumprimento pelo governo Lula do Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais só será possível nesta mesma época, no último ano do seu mandato.
Os resultados das atuais avaliações feitas, em Genebra, nos dias 27 e 28 de setembro por 18 peritos internacionais da ONU, durante as quais não faltaram duras críticas às precárias situações ainda existentes em setores diversos do Brasil, só serão conhecidos mais tarde.
Os povos originários continuam sendo
massacrados no Brasil.
Entretanto, e isso deve ter impressionado os examinadores, a delegação brasileira chefiada pela secretária-executiva do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, Rita Oliveira, acompanhada de associações e ativistas, chegou corrigindo e rabiscando os posicionamentos do governo Bolsonaro e mostrando os novos rumos fixados pelo presidente Lula. Porém, nem tudo quanto foi denunciado pela ONU o Brasil poderá solucionar até fins de 2026.
As exigências dos examinadores perpassa vários aspectos, as quais o novo governo deverá responder com afinco.
O exame ao qual foram submetidos os representantes do novo governo brasileiro, após nove meses de mandato do presidente Lula, mereceu um atento resumo, publicado pelo Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU.
Foram bem recebidas as primeiras iniciativas planificadas pelo novo governo e a criação de novas instâncias dedicadas às mulheres e à população negra.
As críticas vieram logo a seguir sobre o desmatamento da Amazônia, a exploração mineira ilegal e a violação dos direitos à terra dos povos originários que ali vivem.
Durante o governo Bolsonaro houve assassinatos de índios, centenas de invasões de áreas indígenas e a desativação da FUNAI.
Os técnicos da ONU criticaram a insegurança jurídica em que vivem os indígenas, diante do avanço de grileiros, garimpeiros e do agronegócio. Foi mesmo lembrado o assassinato de Maria Bernardete Pacífico, líder do Quilombo Pitanga dos Palmares, na Bahia, agora cobiçado por agentes imobiliários.
A morte de Maria Bernardete Pacífico foi
lembrada.
Foram mencionados também os assassinatos, ataques e ameaças aos defensores dos direitos humanos, ocorridos já no primeiro semestre do governo Lula.
A seguir, vieram as críticas ligadas ao vasto setor de exploração do trabalho informal, já constituindo 40% do mercado de emprego brasileiro. Enquanto choviam críticas sobre discriminação salarial, persistência da pobreza, das inegalidades econômicas e sobre os 10 milhões de jovens sem emprego. Alguém da equipe do Comitê aliviou a tensão existente durante os questionamentos e críticas, ao lembrar que o atual governo quer reverter as políticas regressivas adotadas por seus antecessores de 2016 a 2022.
Michael Windfuhr, relator do grupo de trabalho a cujo exame o Brasil foi submetido, enfatizou que a comunidade negra é também alvo de ataques nas terras ou quilombos que lhes pertencem. Por isso a necessidade de uma rápida entrega de títulos de propriedade às comunidades Quilombolas.
Foi lembrado o retorno do Brasil ao Mapa da fome do Programa Mundial de Alimentação, do qual tinha saído em 2014, havendo atualmente cerca de 64 milhões de pessoas vivendo a insegurança alimentar.
Outra técnica da ONU acentuou a existência, em certas regiões brasileiras, de uma precariedade nas infraestruturas escolares e indagou sobre o valor dos salários dos professores e sobre o total dos meios financeiros dedicados ao ensino.
Foram também mostradas preocupações com a população LGBT+, alvo de discriminação e violências, assim como o grande número de descendentes negros vivendo na miséria, inclusive mulheres sem acesso à saúde.
Outro tema levantado nessa sabatina foi a do uso de produtos químicos contra pragas e de fertilizantes na agricultura, lançados do alto por drones. Segundo denúncia apresentada, muitos cereais exportados para a Europa só são utilizados na alimentação de suínos, embora esses mesmos cereais sejam comercializados, sem qualquer controle, para o consumo pela população sem controle no Brasil.
Ou seja, há muitos desafios ao Brasil e caso esse queira passar no vestibular da ONU será preciso muito estudo e aplicação nos próximos anos. (por Rui Martins)
terça-feira, 9 de maio de 2023
A MISÉRIA NUNCA É BOA COMPANHEIRA!
Não! Só a consciência revolucionária adquirida a partir de uma teoria e aliada a uma ação concreta levada a cabo pela coletividade resoluta pode alterar o quadro de submissão à barbárie social e agressão ecológica ora em curso mundo afora.
Há flagrante perda de poder aquisitivo coletivo no estágio atual de ocaso do itinerário de nascimento, vida e morte do processo histórico do capitalismo mundial que hoje atinge todos os poros das sociedades mundiais.
É no exato momento do seu apogeu social, quando se instalou em todos os espaços mundiais, que o capitalismo dá sinais de esgotamento, e isto ocorre justamente porque não há mais como se expandir, fazendo-o perder a força anteriormente obtida pela velocidade de crescimento constante, ora impossível de ocorrer, e cai tal qual uma bicicleta que uma vez tendo sua velocidade paralisada - perda da força centrífuga -, derruba o seu condutor.
O capitalismo sempre foi segregacionista e belicista, vez que cresce como rabo de cavalo, para baixo, ou seja, cria ilhas de prosperidade e oceanos de pobreza, além de ser genocida em razão de sua necessidade de guerra expansionista.
Entretanto, agora, em seu estágio de ocaso enquanto forma de relação social tornada obsoleta, nem mais nas ilhas de prosperidade ele consegue se manter estável, e é a partir dos grandes centros da hegemonia capitalista que deve vir a grande ruptura a se irradiar para a sua imensa periferia.
Observa-se, hoje, nos grandes centros capitalistas do ocidente, notadamente na União Europeia, movimentos pendulares de ruptura com o ardem jurídica e econômica vigente, ora indo para a extrema direita com Marine Le Pen, na França, Adam Walker, do Partido Nacional, na Inglaterra, Beatrix von Storch, na Alemanha e Georgia Meloni, na Itália, respectivamente. E ora com grandes manifestações populares de insatisfações.
Mas também na Ásia, na China e Japão são comuns movimentos de insatisfação populares que estão a reclamar uma mudança de rumos. Nos Estados Unidos, a alta inflação dos últimos tempos tem causado perda de poder aquisitivo, ainda que o nível de desemprego esteja baixo.
Os países ricos, em que pese a receita que ainda obtêm em função dos manufaturados de alta tecnologia vendidos a preços diferenciados em relação às comodities dos países periféricos - como ocorre com o Brasil exportador de soja e minério de ferro, substancialmente, que o faz ser inexpressivo economicamente, mas vital como riqueza material fornecida a valor e preços irrisórios -, dos lucros de suas empresas operando no exterior de onde recebem as respectivas remessas e do sistema bancário credor dos juros altos cobrados aos países pobres, a situação já não é mais tão cômoda com foi no passado recente.
A migração das unidades industriais para os países onde a mão de obra barata lhes permite continuar competitivos na guerra concorrencial de mercado tem feito decrescer as suas rendas e impostos nacionais.
A chamada classe média nos países ricos vem perdendo direitos sociais, como é o caso do aumento da idade para a aposentadoria causado pelo fato de que os jovens já não conseguem empregos e salários compatíveis com o recolhimento de contribuições previdenciárias gerando um déficit atual insuportável.
A conta previdenciária não fecha mais em nenhum lugar do mundo graças ao desemprego estrutural causado pela substituição do trabalho abstrato pelo trabalho morto das máquinas que não recebem salários e reduzem a massa global de extração de mais-valia.
A incapacidade da democracia burguesa e da social-democracia em seus vários matizes de dar respostas dentro da lógica capitalista sob a qual se insere é o leitmotiv do crescimento da extrema direita entre a chamada classe média ansiosa por uma volta ao passado, ainda que isto represente uma adesão à negação tenebrosa dos preceitos anticivilizatórios por ela defendidos.
Os movimentos de rejeição à imigração dos povos das antigas colônias exploradas pelos europeus é exemplo flagrante de que o nacionalismo xenófobo capitalista é sobretudo desumano e conservador de privilégios fruto de práticas socialmente condenáveis.
A expressiva votação do genocida Boçalnaro, o ignaro no último pleito eleitoral brasileiro e o clamor por um golpe militar nas portas dos quartéis por muitos dos seus adeptos patridiotizados, é um claro exemplo dessa vertente direitista que, ao invés de caminhar para o futuro, prefere clamar por uma impossível volta ao passado mais confortável para eles, embora sempre tenha sido ruim para a maioria, e que agora já não serve para nenhuma das partes.
E nesse sentido que Lula corre grave perigo de sofrer um impeachment ao longo do seu mandato - já se esboçam iniciativas de parlamentares de direta neste sentido, com apenas quatro meses de mandato -, ao concentrar a sua estratégia política na retomada do desenvolvimento capitalista e buscar alianças com quem quer que seja para alçar tal objetivo de impossível consecução.
A aliança com o povo que diz defender implicaria numa postura de confrontação com a poderosa elite política e econômica brasileira, detentora de privilégios ainda confortáveis e fruto da desigualdade social absurda existente em nosso país, onde o salário-mínimo mensal é trinta vezes menor que o salário médio de uma alta função pública dos poderes judiciário e legislativo.
Por outro lado, se a miséria por si só não é revolucionária, a classe média dos centros de hegemonia capitalista, insatisfeita com a perda dos seus privilégios, aliada aos jovens desempregados e à classe operária vítima do desemprego estrutural, pode se cansar do movimento eleitoral pendular ineficaz entre esquerda e direita institucionais e provocar uma ruptura que somente pode se configurar num novo modo de produção social e ordem jurídico-constitucional, sem a figura do Estado opressor, e numa linha horizontalizada de exercício do controle da vida social.
Alia-se ao limite interno de expansão capitalista, fator endógeno da relação social por ela mediada, outro fator, exógeno, ainda que seja oriundo da predação por ele promovida: o aquecimento global que desertifica, inunda, devasta com furacões e incêndios, agravando uma situação que já é socialmente caótica.
Não é por menos que a própria ONU, por seu departamento de aferição da fome, FAO – Fundo para Alimentação e Agricultura – certifica haver um aumento da fome no mundo, em que pese os avanços tecnológicos extraordinários obtidos pela humanidade. Um paradoxo somente explicável quando se analisa a essência da funcionalidade da relação social sob o capital.
Os tempos imediatamente vindouros se apresentam como altamente perturbadores da vida social, mas há esperança de que, ao invés de nos submetermos à extrema direita opressora e escravista, ou nos aniquilarmos pela guerra ou pela questão climática, possamos estabelecer uma forma de vida socialmente equilibrada e ecologicamente saudável e sustentável.
E sem medo de ser feliz! (por Dalton Rosado)
terça-feira, 21 de março de 2023
20 ANOS DA GUERRA DO IRAQUE. OS CRIMES DE BUSH E BLAIR ATÉ HOJE SEGUEM IMPUNES!
Há vinte anos George Bush júnior e Tony Blair lideravam a invasão ao Iraque em uma ação baseada em mentiras e claramente contrária ao direito internacional.
Muitos foram os impactos da guerra. O mais claro e nítido foi a destruição do Iraque com a morte presumida de mais um de milhão de iraquianos. O país, antes considerado um dos mais prósperos do Oriente Médio, foi reduzido a cinzas com seu povo vivendo em absoluta miséria.
Outro impacto, menos nítido, mas também decisivo, foi a ruína do sistema jurídico internacional, cristalizado na Carta das Nações Unidas, e que estabelecia ações bélicas multilaterais passíveis de serem autorizadas apenas pelo Conselho de Segurança da ONU. Ao ir para a guerra sem autorização do Conselho, EUA e Reino Unido sepultaram o ordenamento legal, deixando clara a mensagem de que quem tivesse a força poderia agir segundo sua vontade. Putin, já presidente à época, colheu as lições e as aplicou anos depois em seu ataque à Ucrânia. Se Bush pode, por que ele não poderia?
A justificativa oficial para a invasão era a posse de armas de destruição em massa pelo regime de Saddam Hussein. Não apenas isto nunca se comprovou, como tragicamente foram os próprios EUA os responsáveis pelo uso de armas proibidas na guerra, majoritariamente químicas, além do temido fósforo branco.
Massacres contra civis aconteceram às centenas, seja diretamente pelas tropas, seja mediante o emprego de milícias paramilitares. Em vídeo vazado pelo Wikileaks - e que transformou Julian Assange em inimigo número 1 do tio Sam - militares estadunidenses em um helicóptero atiram contra civis desarmados, matando 12 pessoas, sendo 2 repórteres da Reuters, e ferindo 2 crianças.
E também não se pode esquecer dos casos de tortura na prisão de Abu Ghraib, onde choques elétricos, asfixia, pauladas e outros tratamentos cruéis foram aplicados não para extrair informações, mas por puro sadismo dos militares contra os detidos. A maioria dos prisioneiros sequer possuía acusação formal e, muitos, nem participavam do movimento iraquiano de resistência.
O real motivo para a agressão estadunidense foi o controle dos campos de Petróleo do Iraque que haviam sido nacionalizados na década de 1960, justamente em detrimento das petrolíferas dos EUA e do Reino Unido. Desde então, os dois países lutavam uma batalha surda pela retomada da exploração do óleo, batalha acelerada após a desastrosa invasão iraquiana do Kuwait, em 1990.
Após a derrota das tropas de Sadam, os EUA conseguiram convencer o Conselho de Segurança a impor uma série de sanções a Bagdá, além de promover, rotineiramente, bombardeios ao país. Calcula-se terem as sanções custado a vida de mais de 500 mil crianças em uma década devido às dificuldades no acesso à comida e a remédios. Em 2003, o país já estava economicamente falido, fato que facilitou e muito a tomada do poder pelos estadunidenses.
Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 deram a Bush avassalador apoio popular, rapidamente convertido em ações militares na chamada Guerra ao Terror. Tendo invadido o Afeganistão, após o Talibã não entregar Osama Bin Laden, o presidente estadunidense operou potente campanha política para ligar Sadam ao terrorismo, justificando a guerra e conseguindo sua aprovação no Congresso, inclusive com o voto de Joe Biden, à época senador.
Uma vez invadido, as companhias petrolíferas estadunidenses e inglesas reapoderaram-se dos campos de óleo, transformando os locais de exploração petrolífera, junto com os oleodutos, nos lugares mais seguros de um Iraque afundado no caos e no morticínio.
E assim segue até hoje. Após o fim da ocupação, o Iraque foi sacudido por sucessivas guerras civis, tendo sido o bastião do surgimento do Estado Islâmico. Mais recentemente, uma luta fratricida entre grupos étnicos irrompeu, deixando milhares de mortos pelo país. No entanto, os poços e os oleodutos continuam absolutamente seguros, agora também abastecendo a Europa após a imposição de embargos contra a Rússia.
A guerra do Iraque fica marcada na história como expressão eloquente da desumanidade capitalista e do desprezo imperialista por qualquer legalidade ou verdade. A prova cabal de que no capitalismo, a guerra é uma continuidade da economia. (por David Emanuel Coelho)
quinta-feira, 19 de janeiro de 2023
A ASCENSÃO MILITARISTA AO PODER POLÍTICO COMEÇOU NO PRIMEIRO GOVERNO LULA
Já anteriormente à posse, a relação entre o governo Lula e os militares não era a mais cordial, a ponto de comandantes das três forças passarem o bastão antes do dia primeiro justamente para escaparem do dever de prestar continência ao novo presidente.
Porém, desde a insurreição bolsonarista do dia oito, a animosidade cresceu ainda mais, sobretudo com revelações de apoio de alguns membros da caserna aos militantes, seja os diretamente partícipes dos ataques à Praça dos Três Poderes, seja os durante meses acampados em frente aos quartéis.
As raízes desta questão militar, no entanto, ainda devem ser melhor compreendidas. Alguns buscam sua origem na ditadura militar e na ausência de julgamento aos torturadores e usurpadores do poder daqueles vinte e um anos de obscuridade. De fato, este elemento é importante a ser considerado, mas seria incorreto localizar nele a erupção recente da politização fardada. Em realidade, de forma irônica, o contexto atual tem muito mais a ver com o papel desempenhando pelas forças durante os 13 anos de lulopetismo.
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Antes de derrubarem a monarquia, Floriano e seus comandados eram enviados para capturar escravos fugitivos |
Após o fim da ditadura, os militares, desmoralizados e troçados, recolheram-se à caserna, de lá saindo em ocasiões muito excepcionais de greves da polícias. Já este uso do exército para tapar greves era algo complexo e delicado, mas diante do quadro crítico de insegurança social não restava muita alternativa.
A situação começa a mudar de figura quando Lula decide dar mais atribuições aos militares. Desejando projetar-se internacionalmente enquanto uma força geopolítica, o presidente aceita para o Brasil o papel de interventor principal no Haiti e determina às Forças Armadas o comando da Missão de Paz naquele país.
É curioso pensarmos no fluxo histórico das palavras. Intervenção primeiro apareceu no vocabulário para designar a ação brasileira de agir na crise haitiana - crise de dois séculos e um pouco já analisada neste post - para transformar-se agora em súplica da extrema-direita por um golpe militar. No meio do caminho, contudo, outras intervenções ocorreram, como as das favelas cariocas e a da segurança do Rio.
Quando se analisam os nomes da ocupação brasileira do Haiti é como se estivéssemos vendo os componentes do finado governo Bolsonaro. Entre os de destaque estão:
Augusto Heleno;
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| No Haiti, as forças brasileiras foram acusadas de cometer inúmeros abusos |
Floriano Peixoto Vieira Neto;
Edson Leal Pujol;
Luís Eduardo Ramos
Fernando Azevedo e Silva;
Tarcísio de Freitas,
Otávio Rêgo Barros;
Augusto Heleno, inclusive, possui uma trágica passagem, tendo saído do comando das tropas após massacre de moradores da favela Cité Soleil, na capital haitiana, Porto Príncipe. Pelo menos 63 pessoas morreram na invasão das forças militares à comunidade e Heleno acabou retirado do comando das operações, após pressão das Nações Unidas.
Não seria exagero afirmar ter sido a operação de Paz no Haiti o grande início do retorno militar à vida política e social brasileira, inclusive, com a futura conformação do governo do ex-presidente fujão. Para isso, no entanto, o Haiti foi apenas o começo da jornada, contando com outras etapas importantes em solo nacional.
Certamente, dentro destas etapas está o uso dos militares para a segurança pública rotineira. Lula deu novo passo e mudou a escala de atuação das Forças neste quesito, pois agora não se tratava mais de suprir a força policial em caso de greve, mas de simplesmente a substituir por completo através de intervenções em comunidades e da decretação de atos de GLO (Garantia da Lei e da Ordem).
Como não esquecer as apoteóticas cenas de tanques da marinha invadindo os morros do Rio de Janeiro, sob aplausos da classe média? Naquele momento, Lula socorreu o dileto Sérgio Cabral em seu plano mirabolante de pacificar comunidades com ocupações militares, as famigeradas UPPs. Ora, pacificar era exatamente o que faziam as Forças Armadas no Haiti, então por que não poderiam fazer o mesmo também em seu próprio território?
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| Lula não se importou em jogar tanques da Marinha contra os moradores da Favela do Alemão em 2010 |
Neste ínterim, dona Dilma articulou com os militares a criação de um avançado sistema de vigilância, sobretudo cibernética, para ser acionado no período da Copa do Mundo e das Olímpiadas, e cujo maior objetivo era monitorar manifestações e, claro, terroristas.
Mas o maior feito deste período é quando o governo da ex-presidente entrega aos fardados não apenas a organização da Olímpiada, mas também o treinamento de inúmeros atletas. Afinal, em um país onde a política esportiva é zero, os sedentários militares é que possuem a maior expertise em atividades físicas. Resultou daí as cenas vergonhosas de atletas batendo continência nos pódios após cada medalha.
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| Esta vergonha é eterna |
Deste modo, entronizou-se o militarismo na vida cotidiana brasileira, através de seu uso generalizado não apenas na segurança pública, mas também na própria administração. Criava-se o mito do exército eficiente, bom para combater bandido e também para tomar conta da máquina estatal. Todo o desastre de vinte e um anos de ditadura começou a virar apenas uma sombra perdida no tempo e, quando Temer assumiu, tratou logo de buscar ancoragem no oficialato, os colocando em postos importantes do governo e chegando ao ápice com a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro.
Neste ponto, os militares já possuíam seu próprio plano de voo solo e tinham determinado o nome do azarão capaz de leva-los de volta ao topo: Jair Bolsonaro. Isto porque enquanto os civis se digladiavam pelo poder durante o impeachment, os oficiais já haviam antevisto desde 2013 o fluxo dos acontecimentos, pois desde aquela época já existiam indivíduos nas ruas pedindo a Intervenção Militar e alguns outros já começavam a acampar em frente aos quartéis, se destacando entre as lideranças do momento um certo deputado do baixíssimo clero que, apesar de nulo na política tradicional, era sucesso de audiência televisiva e agregava seguidores em massa na internet.
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| Desde o começo da década passada, Bolsonaro animava as noites da TV brasileira |
Mas, o que querem os militares? Até onde se sabe, para além da velha doutrina de segurança imposta pelos EUA e do eterno papel de força contrarrevolucionária - o povo brasileiro é o único inimigo das Forças Armadas do Brasil -, os militares não possuem qualquer projeto para o país. Acertaram-se com o neoliberalismo e até se orgulham de nossa condição neoextrativista.
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| Acampados de hoje já estão por aí há tempos |
O lulopetismo, assim, aparece ao militarismo muito mais enquanto um competidor. Nesta seara da luta intestinal burguesa muito ainda irá acontecer, mas o fato é que a nova questão militar tem o dedo podre do lulopetismo em sua gênese. (por David Emanuel Coelho)
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