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domingo, 29 de dezembro de 2013

A NOBREZA DE ALI E A TORPEZA DE WEIDMAN

Nunca esquecerei a 3ª luta entre os extraordinários Muhammad Ali e Joe Frazier.

As duas primeiras, com uma vitória de cada lado, haviam sido inconclusivas. 

Ali acumulara pontos suficientes para, pelo menos, empatar a 1ª, apesar do knock-down sofrido no último assalto. Assim não entenderam os jurados, despertando fortes suspeitas de que fatores extra-ringue pesaram na sua decisão. Ser um símbolo do repúdio à Guerra do Vietnã acarretava consequências de todo tipo, como se constata num excelente filme de Stephen Frears, A maior luta de Muhammad Ali.

Também não pareceu ter vencido a 2ª, novamente por pontos. Dois empates teriam ficado de melhor tamanho.

No tira-teima, Ali teve Frazier totalmente à sua mercê no 14º round, mas preferiu não desferir um golpe poderoso contra o adversário grogue. Pediu ao juiz que encerrasse a luta e, não sendo atendido, deixou o tempo escorrer até o soar do gongo. 

O descanso não foi suficiente para Frazier se recuperar. Abandonou. Sua cara, numa foto, parecia pôster de filme de terror...

A nobreza de Ali contrasta com a torpeza do tal Chris Weidman no UFC.

Primeiramente, por ter utilizado uma defesa que tinha enorme chance de produzir o resultado que produziu.

Depois por, apesar das lágrimas de crocodilo que derramou sobre o pobre Anderson Silva, ter feito questão de trombetear aos quatro ventos que treinara muito tal defesa com o joelho, por ele justificada como uma maneira de intimidar os oponentes, dissuadindo-os de utilizarem chutes baixos. 

Ou seja, quis que todos soubessem que o ocorrido não fora obra do acaso. No fundo, no fundo, ele considera a fratura uma proeza; talvez emoldure uma foto do brasileiro se contorcendo em dores para colocá-la na sua estante de troféus.

Concordo com Weidman: não foi mesmo por acaso. Foi por ganância, ambição e insensibilidade. Por considerar que não há limites quando se trata de engordar sua conta bancária e alavancar sua carreira.

Há quem prefira restringir suas críticas à bestialidade das MMA e à morbidez do público que lhe garante estrondoso sucesso financeiro. Mas, o julgamento de Nuremberg consagrou o princípio de que a ninguém é dado praticar atos hediondos sob a justificativa de que cumpria ordens superiores (ou, no caso presente, de que contusões são aceitáveis nos esportes em que há contato físico).

Nada obriga o lutador a infligir no colega de profissão as dores mais terríveis, talvez danos permanentes, talvez a morte. 

Mesmo nessas arenas de gladiadores modernas, geralmente há como evitar o pior. Muhammad Ali o fazia. Já o repulsivo Weidman não tem a mais remota preocupação em evitar o pior (pouco importando o fato de que Anderson Silva também não seja um anjinho, apelando frequentemente para os perigosíssimos chutes na cara).

Considero-me um brasileiro cordial, quase sempre compassivo. Mas, no que tange a Weidman, seria um hipócrita se me mostrasse condescendente. Torço para que Vitor Belfort chegue às mesmas conclusões que eu::
  • quem encara o esporte como uma guerra, merece sofrer, como esportista, as consequências de uma guerra;
  • quem trata o adversário como inimigo, como inimigo deve ser tratado pelo adversário seguinte.
Isto, claro, dando como favas contadas que os interesses comerciais continuarão prevalecendo até sobre nosso direito à sanidade e à vida, como sói acontecer no capitalismo. Pois, já passou da hora dessas rinhas sanguinárias de humanos serem terminantemente proibidas. 

O melhor mesmo será se não ocorrer a luta Weidman x Belfort, nem nenhuma outra desse tipo.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

ANDERSON SILVA E A VERSÃO 2013 DO 'ME ENGANA QUE EU GOSTO'

É fácil percebermos...
Um tal Jorge Correa, que presumo seja comentarista das tais MMA --Marmeladas Marciais Acabrunhantes?--, aparece no UOL (vide aqui) defendendo a  lisura  do espetáculo em que o lutador brasileiro Anderson Silva fingiu perder do estadunidense Chris Weidman, repetindo uma das práticas mais manjadas das lutas, desde a  era do boxe: um franco favorito se deixa derrotar por um azarão, a máfia das apostas fatura uma fortuna com a mutreta e a revanche se transforma em acontecimento de primeira grandeza, rendendo outra fortuna aos promotores --afora a comissão que recebem dos mafiosos por baixo do pano. Alguns meses depois, a ordem natural das coisas é restabelecida, com a Cinderela de ocasião sendo devolvida ao depósito de coadjuvantes, do qual nunca deveria ter saído.

...o que é marmelada...
Assim os Dana Whites da vida realizam o antigo sonho dos alquimistas: transformam metal comum em ouro. Afinal, o estoque de adversários à altura do campeão é limitado e as grandes lutas constituem a alma do negócio. Por que não fajutar algumas?

O que vale mesmo a pena ler no UOL é o depoimento de um dos maiores  marmeleiros  brazucas, o  gigante do ringue  Michel Serdan (vide aqui). "Muita coisa no MMA não é real", diz ele, com total conhecimento de causa. 

E, diferenciando-se dos caras-de-pau como o White, ele enfatiza que jamais escondeu do seu público o fato de a luta livre não passar de um show esportivo que combinava  golpes e artes circenses. [Já o  danoso  personagem que é  dono  do MMA tem seu ilusionismo facilitado pelo fato de que as lutas de verdade ajudam a impingir as que não o são...]

...e o que é luta de verdade.
Só mesmo quem queria iludir-se não percebeu que Anderson tudo fez para ser atingido no queixo e Weidman tudo fez para não o machucar quando ele estava caído --tanto que a face do pseudo-nocauteado nem de longe exibia as marcas características de nocautes. Já um Joe Frazier, depois de haver perdido sua terceira luta com Mohammed Ali, parecia ter passado por um moedor de carne. 

Aliás, mesmo um gigante do pugilismo como Ali fez a sua mamata: quem acreditou que ele realmente perdeu a primeira luta com Leon Spinks deve ter recebido um diploma de otário.

Idem, quem engoliu a encenação constrangedora de Anderson. A julgar por ela, eu lhe aconselharia a arquivar seus projetos de atuar no cinema. Nunca será um Chuck Norris ou Steven Seagall. Nem mesmo um Hulk Hogan.

P.S.: A revanche foi um pouco diferente da minha previsão. Tendo ambos se enfrentado seriamente -Weidman, inclusive, atuando com muita maldade-, sou obrigado a admitir que a primeira derrota de Anderson não deva ter sido, como imaginei, uma repetição do velho truque do boxe para valorizar lutas com adversários sem gabarito. E que o brasileiro simplesmente tropeçou nas próprias pernas, ao imitar Muhammad Ali sem ter a mesma competência. Como nunca almejei ser infalível, mantenho o post exatamente como o redigi em julho. Não se pode acertar sempre...

domingo, 8 de julho de 2012

ENGANEI O BOBO, NA CASCA DO OVO...

...é o que dizíamos, quando eu era criança, em situações como a da fajutíssima  luta do século  das artes marciais mistas, entre o brasileiro Anderson Silva e o estadunidense Chael Sonnen, na noite deste sábado (7), em Las Vegas.

Pois, na verdade, era uma disputa das mais desequilibradas: evidentemente superior e com cartel muito melhor, o lutador corinthiano apenas fez a lição de casa, derrotando um azarão que, em 2010, o surpreendera em má jornada e castigara um pouco, acabando, contudo, por ser finalizado. 

Assim, depois do Barcelona 1x0 Villareal de dois anos e meio atrás, tivemos agora um 5x0. Isto lá é um clássico?!

Luta do século  foi Muhammad Ali x George Foreman, opondo a técnica refinadíssima de um pugilista cujas forças declinavam aos 32 anos à contundência de um gigante de 25 anos. Pela forma como Foreman havia massacrado Joe Frazier, derrubando-o seis vezes em dois rounds, muitos temiam que Ali não saísse vivo do ringue.

Já Silva x Sonnen foi fabricada inteirinha pelo esquema de comunicação, com destaque para as ameaças e ofensas promocionais que andaram trocando, havendo 99% de possibilidade de terem sido todas sopradas pelos assessores espertinhos. O que se viu no frigir dos ovos foi apenas dois profissionais exercendo seu ofício, não um duelo mortal entre inimigos irreconciliáveis.

É ESTE o exemplo que deve ser dado às novas gerações?!
Eu hesitaria até em chamar o MMA de esporte. Exibições organizadas a bel-prazer por um mandachuva, sem entidade que fixe normas e fiscalize seu cumprimento, estão mais próximas dos espetáculos circenses. Dana White é descendente de P. T. Barnum, o autor daquela frase antológica: "Nasce um otário a cada minuto".

A forma como a imprensa cúmplice bajula o  patrão  White é simplesmente repulsiva. Ele manda e desmanda, definindo quem enfrenta quem segundo o critério único da receita que poderá auferir com cada emparceiramento. Jornalistas de verdade questionariam este  "o mundo é seu"  que mais parece copiado do filme Scarface...

Por último, o vale-tudo é um péssimo exemplo, açulando os piores instintos de suas platéias. Fico enojado sempre que vejo um lutador caído, grogue e indefeso, e o outro sobre ele desfechando uma saraivada de golpes até que o árbitro ponha fim à agressão covarde.

A abertura de contagem protetora quando um dos contendores está abalado, praticada no boxe, é a linha divisória entre a competição e a mera bestialidade.

Não dá nem para se dizer que o MMA esteja mais para as brigas de rua: pelo menos na minha meninice, não espancávamos o moleque prostrado no chão. Esperávamos que ele levantasse.

Se retrocedermos mais, voltaremos às cavernas. Com plim-plim da Globo.
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