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segunda-feira, 31 de maio de 2021

NÃO HÁ DESCULPA POSSÍVEL PARA QUEM DIZ SER DE ESQUERDA E SE OMITE NA HORA DE AGIRMOS EM LEGÍTIMA DEFESA DA VIDA

dalton rosado
OPOSIÇÃO AO QUÊ?
"A revolução, tal qual o arco-íris, é multicolorida e diversa!" (de um cartaz do #forabolsonaro!)
Há muitos tipos de oposição.

Há oposição conservadora que não aceita o genocídio no Brasil praticado por um conservadorismo retrógrado, anticientífico, fundamentalista religioso, antiglobalista, antiecológico, racista, xenófobo, misógino e, sobretudo, burro.

Os conservadores deste naipe lastimam ter entronizado no poder um energúmeno como o presidente Boçalnaro, o ignaro. 

É que, com a suas obtusidade primária e confusão ideológica entre nacionalismo estatizante e liberalismo de mercado, ele troca sua equipe de ministros como quem troca de sapatos (e de simbologias), com resultados desastrosos no plano administrativo, além de comprovar que não passavam de lorotas eleitoreiras seus discursos propondo nova política, combate ao crime organizado e à corrupção, privatização de estatais, reforma tributária, eliminação do custo Brasil, equilíbrio das contas públicas, mais Brasil e menos Brasília, etc.

A verdade é que o seu (des)governo é idiossincrático por excelência e isto incomoda os conservadores mais moderados –mas igualmente equivocados– que gostariam de ter na presidência da República um dos seus e não um mero reacionário trapalhão (o jornal mais representativo de tal fauna, O Estado de S. Paulo, queixou-se exatamente disto num editorial de semana pessada). O capitão cloroquina está mais para Roberto Jefferson do que para Roberto Campos. 

Há oposição empresarial sentindo-se prejudicada pela má performance governamental na área administrativa, que termina por prejudicar os interesses do capital. Tamanha incompetência em meio a depressões mundiais econômica e sanitária é fator negativamente explosivo para a burguesia consciente do seu papel explorador em meio à turbulência sistêmica que a ameaça.   

Há oposição de segmentos da imprensa como a rede Globo, que se vê excluída do butim governamental, dando lugar a emissoras pertencentes ao campo pseudo-religioso da mercantilização da fé, aliadas do genocida, que exploram o entretenimento medíocre, disseminando um discurso superficial e demagógico entre um público empobrecido e em grande parte semialfabetizado, ou nem isto.

Há oposição de uma ala militar mais bem informada que conhece a história e faz análises econômicas (um novo generalato, pós-1964), além de ter consciência do seu papel na defesa constitucional sistêmica da burguesia à qual serve, daí renunciar ao canto de sereia de um empreguismo governamental de pouca consistência e vida efêmera, corrosivo para a credibilidade que os fardados tanto se esforçaram para reconquistar após terem saído da ditadura dos generais com um perfil hediondo.

Tal credibilidade é mais forte principalmente entre segmentos conservadores que, por desconhecerem a história ou sofrerem de amnésia crônica, não percebem que de 1930 a 1985 fomos tutelados, perturbados ou subjugados por governos militarmente fortes (com apenas breves períodos de democracia burguesa mais independente, de 1954 a 1960, assim mesmo com fracassadas tentativas de golpes), cujos resultados negativos são hoje facilmente perceptíveis.

Neste aspecto, das intervenções militares, temos muitas similaridades com as chamadas repúblicas bananeiras das Américas Central e do Sul, ou ainda com as frágeis repúblicas africanas e regimes totalitários asiáticos (principalmente no mundo arábico).

E há, ainda, uma oposição dita de esquerda que não se opõe ao substancial, bem na linha da frase célebre do Tomasi di Lampedusa em
O Leopardo (algo deve mudar para que tudo continue como está). São os sociais-democratas burgueses, que querem humanizar o capitalismo como se fosse possível regenerar o diabo. 

Neste grupo inserem-se os mais variados segmentos políticos entendidos como um tiquinho mais à esquerda ou levemente moderados, que chamam os outros de radicais.  As diferenciações cosméticas apenas ratificam as suas identidades mais substantivas e profundas; são conservadores travestidos de mudancistas e que dizem fazer parte de um bloco progressista.

Os dois últimos séculos de práticas capitalistas e desenvolvimento de toda a sua entourage institucional colaboracionista, pretensamente civilizatória (apesar de alguns avanço neste campo, que não raro retrocedem acentuadamente quando as circunstancias o exigem, como agora ocorre), demonstraram a incapacidade de solução do grande apartheid histórico da humanidade nos últimos milênios.

Mesmo nos países que fizeram a revolução marxista-leninista, as categorias capitalistas têm estado sempre presentes, ainda que sob o falso discurso da fase de transição para uma sociedade sem classes sociais distintas. Nestas, o que se viu foi uma recuperação econômica de seus retardamentos industriais e desenvolvimento de práticas capitalistas que desembocaram no mais selvagem capitalismo de mercado.  

O que se observou neste sábado (29), dia do protesto contra o governo genocida que aí está, foi uma explicitação prática do que seja o tipo de oposição manca praticada pela esquerda institucional beneficiária das migalhas que a constituição burguesa lhe concede:
o PT ficou contra as manifestações #forabolsonaro!!! 

As direções dos eleitoreiros partidos de esquerda se mostraram mais preocupadas com as eleições de 2022 do que com o necessário estancamento do processo de genocídio em curso no Brasil como consequência da desídia governamental.

O desgaste sofrido pelo atual governo é entendido pela esquerda institucional como a possibilidade de um perdão popular ao mensalão e ao petrolão, bem como ao servil alinhamento ao que há de mais podre na política brasileira. 

Justificam a ausência ao ato contra Boçalnaro, agarrando-se à desculpa esfarrapada de que não poderíamos criticar as aglomerações boçalnaristas e incorrermos no mesmo erro. A alegação é oportunista e incorreta!

A verdadeira esquerda de hoje não precisa de bandeiras e de um vermelho desbotado, mas da multiplicidade de cores que traduzem a diversidade comportamental do pensar revolucionário. 

Um pensar que está a exigir uma nova ordem de produção social e de organização horizontalizada da vida social; que está a propor um anti-poder contra o poder institucional vertical e segregacionista!
Ir às ruas contra a falta de vacinas e pedir o afastamento do
Boçalnaro 
—não só como punição por seu atual crime de lesa-humanidade, mas também para abrir um precedente no sentido de que nunca mais qualquer representante do povo ousar proferir obscenidades como a de que a ditadura de 1964/85 deveria ter exterminado 30 mil ditos subversivos e a de que o megatorturador Brilhante Ustra mereceria ser reconhecido como herói da pátria— é agir em legítima defesa da vida!

Ir às ruas mesmo sabendo que isto implicará mais infecção e morte por propagação do vírus é lutar contra as muitas e mais volumosas mortes que adviriam (ou advirão) se não mantivermos uma estratégia de isolamento social responsável que ampare a população nos seus vários níveis de subsistência (e que se dane a contabilidade da economia genocida e dissociada do respeito à vida!) e que force a compra de vacinas onde quer que elas possam ser adquiridas, é agir em legítima defesa da vida! 

Ir às ruas demonstrando a força da mobilização popular representa um altaneiro repúdio aos que defendem a força das armas em contraposição à força da razão, sendo, portanto, mais uma forma de agir em legítima defesa da vida!  

Ir às ruas e demonstrar que a manipulação da vontade popular por discursos conservadores veiculados massivamente por fake news não é capaz de promover uma lavagem cerebral entre a maioria que sabe distinguir: 
— o justo do injusto;
— o certo do errado;
— o escravismo da liberdade;
— o civilizado do retrógrado; 
— o verdadeiramente moderno do que é atraso conservador nos costumes;
— o que é heroico do que é covarde;
— o que é ecologicamente preservador do que é predador;
— o que é humano do que é irracional,

é agir em legítima defesa da vida!  (por Dalton Rosado)  

sábado, 11 de abril de 2020

O MUNDO DA RIQUEZA ABSTRATA FALIU

O mundo fundado na riqueza abstrata (aquela mensurada por padrões monetários) de há muito roda em falso.

Isto se dá porque o dinheiro perdeu sua conexão com o valor, do qual deveria ser representação fidedigna.

A moeda meramente fiduciária, quando deixa de ser emitida sob correspondência com a chamada economia real (da produção de mercadorias e serviços, sendo estes últimos também mercadorias), processo que já vinha ocorrendo e agora atinge o seu clímax com o coronavírus, passa a ser um capital fictício por excelência, sem possibilidade de resgate futuro por produção de valor válido (produção de mercadorias). Tende, portanto, a chegar a um momento de inviabilidade como modo de mediação social. 

A crise do coronavírus, como bem escreveu outro colaborador permanente deste blog, David Emmanuel de Souza Coelho, apenas acelerou o processo. 

Tal aceleração, caso se torne prolongada, não permitirá aos Estados nacionais (todos) que, por intermédio dos seus Bancos Centrais, supram a carência social por dinheiro indefinidamente, posto que é único instrumento de aquisição dos meios de subsistência social nas sociedades mercantis (aquisição de mercadorias). 

Eles sabem disto, mas não aceitam formas alternativas de produção social, sendo este o pavor que faz com que governantes ignaros, aferrados à forma de poder político-econômico sob o qual ascenderam ao comando do Estado, proponham a volta à circulação da produção de mercadorias e do mercado, sem se importarem com o custo de vidas que isto acarretará.

Afirmando cinicamente que estão preocupados com o sustento das pessoas  e servindo-se do argumento falacioso de que morrerão mais pessoas pela crise econômica do que pela pandemia, eles procuram disfarçar a verdadeira intenção: evitar que caia, para o cidadão comum, a ficha de que se pode produzir e distribuir bens e serviços sem a intermediação do dinheiro e de toda a entourage institucional dele derivada, aí incluída a própria forma de poder político submisso ao capital sob a qual governam.

País que emite a moeda internacional por todos aceita como válida e que de há muito tem seus números econômicos artificialmente sustentados, os Estados Unidos veem, agora, evidenciado tal artificialismo, já que estão sendo obrigados a suprir economicamente sua população com dinheiro oficial falso (o dólar estadunidense). 

Somente para se ter uma ideia do tamanho da encrenca, nos últimos dias 16,8 milhões de pessoas economicamente ativas (que representam cerca de 60 milhões de estadunidenses, considerando os familiares) pleitearam seguro- desemprego.

O FED, Banco Central deles, deverá injetar cerca de US$ 2,6 trilhões (correspondentes a cerca de 13% de todo o PIB dos EUA) para suprimento do sustento das pessoas e do próprio fluxo da economia. Mas tal medida não tem o condão de promover uma retomada sustentável da economia caso a pandemia persista por longo prazo.

O resultado desta ópera bufa é que a hora da verdade para o dólar dos Estados Unidos e para toda a sua economia pode estar chegando bem antes do que era previsto.

O aporte dos US$ 2,6 trilhões é medida de socorro financeiro capaz de minimizar os danos por cerca de um trimestre, mas caso tenha de se repetir pelos trimestres seguintes, isto causará um déficit orçamentário sem precedentes.
Isto obrigaria a mais e mais emissões de moeda sem lastro, demonstrando aquilo que já sabíamos: o dólar é uma mercadoria sem valor e que sobrevive à custa da incauta credibilidade alheia e dos sacrifícios impostos a outras nações.

Tanto os bancos quanto os organismos como Goldman Sachs, Morgan Stanley, JP Morgan e Capital Economics preveem uma queda brutal do PIB dos EUA, que já têm uma dívida pública superior ao seu PIB, a qual só não lhe causa maiores danos em razão dos baixíssimos juros sobre ela incidentes. 

É fácil rolar e até aumentar a dívida quando os credores aceitam financiá-la sem remuneração, na vã esperança de que acabarão recebendo o dinheiro de volta, pois não acreditam no dia do juízo final. 

O mesmo não acontece com o Brasil e demais países da periferia capitalista que pagam juros altos, daí o desespero por aqui ser ainda maior. Não é, Paulo Guedes?

Um exemplo de como é difícil a vida dos países periféricos (e o era antes mesmo da epidemia que veio piorar tudo): em 2019 o capital internacional já havia retirado do Ibovespa cerca de R$ 44,5 bilhões, levando os rentistas brasileiros a migrarem da renda fixa baixa para o mercado de ações, o que lhes acarretou um prejuízo de até 34% do capital investido. 

O Ibovespa, que em 23/01/2020 cravava quase 120 mil pontos, desabou para menos de 80 mil pontos. Um terço da grana (bilhões e bilhões de reais!) virou fumaça.  

A França, pela voz do seu ministro das Finanças Bruno Le Maire, informa que houve uma queda de 6% do PIB projetado para o primeiro trimestre, e que cerca de 5 milhões de franceses aderiram ao programa de apoio ao desemprego, por meio do qual o governo paga parte dos salários dos trabalhadores.

Considerando que o Estado não produz valor, mas apenas o recolhe via impostos extraídos da população, como se admitir que possa subsidiar indefinidamente em valor válido (dinheiro gerado na produção de mercadorias) a paralisia da produção causada pela pandemia? 

O fenômeno do subsídio via dinheiro sem lastro (que em algum momento será confrontado com a realidade de maneira trágica para a população) resta evidenciado.

Há escassez de dinheiro válido mas inexiste escassez de dinheiro oficial falso, e isto ocorre porque a chamada economia real (produtora de valor válido via mercadorias) já não tem capacidade de gerar uma massa global de valor (com correspondente extração de mais-valia) no nível exigido para a irrigação das relações financeiras mundiais. 

Em tais condições o Estado se vê obrigado a emitir moeda oficial falsa, como tem ocorrido, ou emitir títulos da dívida que jamais serão resgatados; ou seja, ruma para o abismo. 

Pergunta-se: cabe a nós, os anticapitalistas, assumirmos a administração dessa falência sistêmico-estatal dentro dos critérios políticos-jurídicos-econômicos-constitucionais estabelecidos, ou devemos negar o Estado e sua democracia burguesa, denunciando a sua impropriedade funcional?   

A verdade é que os capitalistas, embora detenham a concentração de riqueza abstrata acumulada a partir da apropriação indébita do valor produzido socialmente pelos trabalhadores assalariados e contem com apoio institucional e jurídico das regras de Direito que correspondem à negação do ideal de justiça, não conseguem administrar a contento aquilo que formataram. 

Não será a esquerda, aferrada às migalhas que o poder institucional burguês aceita lhe conceder como forma de autolegitimação, quem vai, por dentro, sabotar o Estado burguês, e pela via do processo eleitoral. Ao contrário, a história tem demonstrado a esquerda sempre se subsume ao poder burguês.

A teoria revolucionária, infelizmente, vem sendo de há muito negada pelos acomodados partidos de esquerda que somente pensam nas próximas eleições, como fazem o PT, o Psol, o PC do B, etc. Mas ela (e a própria realidade que constatamos no dia a dia da agonia do capitalismo) está a demonstrar de forma cabal a urgente necessidade de um novo modo de produção social.

Temos aqui tentado elaborar tal teoria revolucionária a partir de ensinamentos teóricos da crítica da economia política marxiana e de tantos outros pensadores (Guy Debord, Robert Kurz, Moishe Postone, Klaus Peter Ortlieb, já falecidos, além de Anselm Jappe e Jorge Paiva, felizmente ainda vivos, entre outros), com os ajustes que a própria realidade nos ensina. 

E é ela  que deverá ser nosso fio de Ariadne, capaz de nos mostrar a saída do labirinto escravista imposto à humanidade nos últimos milênios, conduzindo-nos à emancipação humana. 

Que bom seria se não precisássemos de uma terrível pandemia para fazer cair a nossa ficha!

A vida está nos mostrando que a riqueza material produzida socialmente é a única possível no estágio atual do saber da humanidade. (por Dalton Rosado)

terça-feira, 19 de março de 2019

CARTA ABERTA AO LULA – 2

(continuação deste post)
"Não se faz isso com um companheiro"
Com a bifurcação conceitual de governo entre o nosso projeto de então e o projeto do PT, que se tornou cada vez mais evidente e distanciada, veio a nossa expulsão sob o argumento mentiroso de que a prefeita havia indicado um candidato do seu colete e sem qualificação à sua sucessão. 

Dalton Rosado, o modesto colaborador permanente desse blog, secretário de finanças da administração popular, foi o personagem pessoal dessa ocorrência política que bem demonstra o curso das coisas.   

Aliás, você mesmo, Lula, que me conheceu pessoalmente nas lutas populares em Fortaleza como advogado, e depois no exercício das minhas funções na prefeitura, sabia muito bem que eu não havia caído de pára-quedas, como tentou me rotular para o Brasil que não me conhecia. 

Não se faz isso a um companheiro sem que a História se encarregue de restabelecer a verdade com as devidas e cruéis consequências.  

O projeto do PT já havia passado a ser, mesmo antes de tal episódio, voltado para a mesmice do jogo político tradicional, no qual se exige muito dinheiro para participar com chance de vitória do processo eleitoral e, depois, para a conciliação com os poderes institucionais e corporativos. 

Daí para o envolvimento do PT com o que sempre houve de mais podre em termos de convivência política sistêmica foi um passo: o partido aceitou o fisiologismo como método de atuação política em todo o Brasil, passando a nortear-se, na prática, pela célebre frase com que o sinistro ministro Jarbas Passarinho justificou a assinatura do AI-5: “Às favas, sr. presidente, neste momento, com todos os escrúpulos de consciência!”. 
Outra expulsão traumática: a do ex-guerrilheiro Venceslau em 87

Os melhores e mais combativos quadros do PT foram paulatinamente alijados e substituídos pelos subservientes e pelos novos cristãos oportunistas (Delcídio do Amaral e tantos outros da mesma estirpe). 

Mas, confiar nos inimigos de classe nunca foi comportamento que trouxesse segurança para a esquerda que o adota, e o castelo de cartas começou a desabar com a auto-denúncia suicida de Roberto Jefferson, que fez balançar o PT no caso do mensalão e somente não lhe destituiu da Presidência da República em face de uma certa maré mansa da economia. 

Quando a marolinha virou um tsunami veio a Lava-Jato que trouxe à tona toda a podridão que permeia antes, hoje e sempre, o funcionamento da máquina estatal e os negócios de suas empresas milionárias com o mundo político e o empresariado privado. 

Assim, ruiu o edifício sobre cujo alicerce se erigiu um projeto político nascido sob a égide de pretensões populares ou revolucionárias e que descambou (como sempre acontece com poderes sob o comando fetichista da forma-valor) para uma negação de tudo que se possa conceber como emancipação popular. 
A Convergência Socialista, aqui vista desafiando a ditadura em 1978, seria expulsa do PT em 1992
Para os revolucionários, atingidos antes pelos desvios ideológicos do PT, e depois pelo descrédito que no Brasil de hoje atinge toda a doxa conceitual do pensamento libertador da humanidade, resta a humildade de, tal qual uma Fênix renascida das cinzas, aproveitar as experiências acumuladas e os desenvolvimentos teóricos das últimas décadas para tentar reconstruir e viabilizar o sonho de emancipação humana.

Se governar em prol do povo é impossível, porque o próprio Estado se constitui uma instância de governo opressora a serviço do verdadeiro poder (o econômico), criticar os governantes denunciando a natureza opressora desse mesmo Estado é tarefa possível e coerente.

É justamente a coerência da análise teórica e prática sobre os fundamentos sociais que estão na base do poder institucional que dá consistência à nossa crítica aos governos de direita, de centro ou de qualquer outro rótulo.  
Lula light em 1984, com Montoro, Brizola, Mário Soares...
[E até aos partidos de esquerda envolvidos numa aparente oposição sistêmica que somente contribui para a legitimação do poder que se diz voltado para o bem social, mas que é opressor na sua natureza ontológica.]

Caro companheiro Lula,

Hoje já consigo traçar um perfil daquilo em que você acredita como forma política ideal: aposta, como bom social-democrata, na humanização do capitalismo. 

A social-democracia é um hibrido de viés moderadamente esquerdista, com incentivo capitalista da produção; a estrela do PT não representa, portanto, fielmente a orientação político-ideológica do partido (a mão segurando a rosa, símbolo socialista, talvez fosse mais apropriada).

Social-democracia e liberalismo de direita são espécies de um mesmo gênero: o capitalismo. A primeira corrente quer um estado forte e intervencionista, keynesiano; e a segunda, um Estado mínimo e protetor das regras do livre mercado, do laissez-faire de Adam Smith. 

As diferenças são meramente políticas e terminam por aí, sempre convergindo para um mesmo proposito: a ontologização e permanência da mediação social sob a forma-valor.     

Mas, direitistas brasileiros são politicamente tão ignorantes que tomam você por comunista. Eles nem imaginam que você expulsou quase todos os comunistas do partido, só deixando ficar aqueles que lhe juraram fidelidade canina, como o ex-trotskista Antônio Palocci. 
Lula tinha confiança irrestrita no delator serial Palocci

Você escolheu mal em quem confiar, à direita e à esquerda.  

Aliás é esquisito como no Brasil os nomes dos partidos diferem do seu conteúdo, senão vejamos:
— o Partido da Social Democracia (PSDB) é de centro-direita, mais para o liberalismo ortodoxo do que qualquer outra coisa; 
— o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) é de direita, embora tenha o descaramento de se pretender herdeiro do trabalhismo getulista; 
— o DEM, tido como democrata, parece mais o Partido Republicano dos Estados Unidos. O Bob Fields [Roberto Campos] teria dado um grande presidente do Dem;
— o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) não passa de um amontoado de políticos fisiológicos, tanto que melhor seria chamá-lo de shopping-center da democracia; 
— o PDT, este sim herdeiro do trabalhismo getulista, agora está mais para Partido dos Ferreira Gomes, pelo menos até que outra mudança seja vantajosa para o clã; 
— o PC do B, Partido Comunista do Brasil, o que mais propõe é a retomada do crescimento, ou seja, mais capitalismo (é de fazer Marx remexer no túmulo 136 anos após a sua morte);
— o Psol faz lembrar aquela antiga propaganda de vodca, eu sou você amanhã;
— o PV, Partido Verde, é multicolor;
— e esse entreguista PSL, para fazer jus à grande maioria das notícias publicadas a seu respeito, deveria se chamar Partido Semeador de Laranjas. (continua neste post)
.
(por Dalton Rosado)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O MERCADO COMPROU GATO POR LEBRE: NEM GUEDES É ROBERTO CAMPOS, NEM BOLSONARO É CASTELLO BRANCO.

celso rocha de barros
A PREVIDÊNCIA NÃO VESTE AZUL
A primeira semana do novo governo mostrou que o caos da campanha de Bolsonaro persiste: muitos desmentidos, nenhum detalhe sobre qualquer sacrifício que será imposto à população —isto é, nenhuma conta que feche— e uma densa cortina de fumaça de papo furado sobre marxismo cultural, ideologia de gênero, empréstimo do Bolsonaro para o Queiroz e outras coisas que não existem.

Os dois meses de transição, ao que parece, foram completamente desperdiçados.

Relembrando: o presidente anunciou que havia assinado a criação de um novo imposto. Foi desmentido por Marcos Cintra, secretário especial da Receita Federal, e por Onyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil.

O presidente também apresentou uma proposta para a Previdência Social que foi considerada fraca pelo mercado, e claramente não é a de Paulo Guedes, o superministro da Economia.

Contrariado, Guedes cancelou seus compromissos de 6ª feira (4) para não ter que dar explicações.

Para quem já perdeu o fio da meada: quatro meses atrás, qualquer dúvida de economia deveria ser tirada com Guedes, o Posto Ipiranga.
Também pode voltar rapidamente a ser nada...

Quando Guedes, durante a campanha, resolveu discutir aumento de impostos, Bolsonaro reivindicou de volta para si a palavra final. Agora não tem mais palavra final.

O que realmente preocupou os economistas foi a confusão sobre a Previdência.

Ao que parece, ao contrário de nossa bandeira, nossa Previdência poderá continuar vermelha. A Previdência não poderá voltar para o azul, talvez por ser a Previdência, e pairam dúvidas se lhe será permitido usar ao menos um tom de rosa mais claro.

Parte do problema parece ser a disputa entre o núcleo político do governo, liderado mais ou menos por Onyx Lorenzoni, e o núcleo econômico, liderado mais ou menos por Paulo Guedes.

Onyx é coautor de uma proposta de reforma da Previdência, elaborada em parceria com os irmãos Abraham e Arthur Weintraub. A proposta não agrada a Guedes.

Se as declarações de Bolsonaro sinalizarem uma aproximação com a proposta Onyx-Weintraubs, o superministro da Economia terá tomado um olé.

Por sua vez, Onyx precisa desesperadamente cavar espaços e recuperar influência. Antes da campanha, foi denunciado por corrupção, e fez uma tatuagem para se lembrar de nunca mais receber contribuições ilegais da JBS.

Perdeu influência quando o general Santos Cruz foi nomeado para dividir com ele as articulações com o Congresso. A função de Santos Cruz é impedir que Onyx faça algo que justifique novas tatuagens.
...se perder o braço-de-ferro contra Onyx Lorenzoni.
Guedes, por sua vez, continua sem paciência para a política. Declarou que o plano B, caso o Congresso não reforme a Previdência, é aprovar uma emenda constitucional desvinculando o Orçamento todo.

Se isso for feito, o governo, se quiser, pode não pagar funcionários, pode não pagar aposentadorias. Aparentemente, o ministro acha que aprovar isso é mais fácil do que aprovar a reforma da Previdência.

O problema por trás da briga entre Onyx e Guedes é real.

Os políticos do bolsonarismo sabem que seus eleitores não votaram no programa do Guedes. O mercado pode ter tido conversas entusiasmantes com o novo ministro, mas o grande público não teve esse privilégio.

E, quando os cortes começarem, não vai ter WhatsApp que resolva. (por Celso Rocha de Barros)
.
TOQUE DO EDITOR: bastou uma semana de novo governo para ficar evidenciado que, tanto quanto o cidadão comum, o mercado também comprou gato por lebre, iludido pelos disparos de fake news do Bolsonaro.

Por Celso Lungaretti
Paulo Guedes foi vendido aos poderosos como um novo Roberto Campos, a quem o presidente neofascista, com a firmeza de um Castello Branco, daria poderes plenos para efetuar as reformas impopulares e impor todas as medidas polêmicas que Dilma Rousseff e Michel Temer não conseguiram viabilizar. 

Mas, agora com a faixa presidencial no peito, Bolsonaro volta a ser o que sempre foi: um político convencional, que não quererá perder prestígio identificando-se totalmente com os sacos de maldades exigidos pelos donos do Brasil, nem providenciar todas as privatizações e entregas com as quais eles sonham, pois os militares as encaram como medidas lesa-pátria.

Ou seja, começa a cair para o grande empresariado a ficha de que Guedes é outro Joaquim Levy, um economista de segundo escalão incumbido de uma missão que ultrapassa em muito sua competência.  

E, pior, que quem foi por ele colocado no Palácio do Planalto não passa de uma versão atualizada do Jânio Quadros, ainda mais inconsequente e destrambelhada que a original. Bem feito! 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

CLÓVIS ROSSI MATA A COBRA E MOSTRA O PAU: OS LIBERAIS NÃO PODEM APOIAR FILHOTES DA DITADURA COMO BOLSONARO.

AO NAMORAR UM LIBERTICIDA, OS
LIBERAIS CONTRADIZEM SUA ESSÊNCIA
Ele foi um "herói brasileiro"...
Alguém aí se surpreendeu com o namoro que o tal de mercado começa a planejar com a candidatura de Jair Bolsonaro, conforme apontou a manchete desta Folha no domingo (12)?

Não creio que haja surpresa. Afinal, é coerência: agentes de mercado financiaram, durante a ditadura, a Operação Bandeirantes, embrião do que viria a ser o tenebroso Doi-Codi, centro de torturas e demais violências aos direitos humanos. É natural que, agora, agentes de mercado se inclinem por alguém, como Bolsonaro, que já fez a apologia da tortura e defende a ditadura.

É justo dizer que, até onde se sabe, não foram muitos os empresários que financiaram as operações da máquina de matar que funcionou nos porões do regime militar. Não cabe, portanto, generalizar.

Feita essa ressalva, vale lembrar que uma parcela substancial do tal mercado apoiou e financiou a campanha de Fernando Collor de Mello, que Leonel Brizola designava, com toda a propriedade, de filhote da ditadura.
...na opinião de seu mais estridente discípulo.
Tendo em vista esses antecedentes, não há surpresa na simpatia de setores do mercado por Bolsonaro, muito mais filhote da ditadura do que Collor.

É o pecado original que os liberais ainda precisam purgar no Brasil (e na América Latina) para serem críveis como alternativa política relevante.

Estou chamando agentes de mercado de liberais porque tenho que partir do princípio de que agentes de mercado são favoráveis à livre iniciativa e, por extensão, liberais. É uma obviedade, mas, no Brasil, há incontáveis defensores da livre iniciativa que preferem encostar no Estado, em vez de confiar no mercado.

Mas a grande incoerência nem é essa. Absurdo mesmo é que liberais participem de regimes liberticidas, como foi a ditadura do período 1964/85, ou apoiem, depois dela, candidatos que nasceram graças a ela ou que a defendem, como é o caso de Bolsonaro.

Não dá para esquecer que Roberto Campos, o maior ícone liberal brasileiro, foi ministro durante a ditadura. Depois, votou, p. ex., a favor do confisco da poupança decretado por Fernando Collor, uma intervenção brutal do Estado que deveria causar arrepios na alma de qualquer liberal digno do nome.
Não chegou o Collor? Mais um filhote da ditadura na Presidência?!

O Brasil não é um caso isolado. Liberais argentinos participaram alegremente de governos ditatoriais, aliás abundantes no vizinho.

Em tese, dado o evidente fracasso de esquemas governamentais que aumentaram a participação do Estado na economia (a ditadura, inclusive), seria natural que tivesse chegado a vez e a hora dos liberais. Está até acontecendo. Os liberais estão claramente saindo do armário.

Mas, enquanto não jogarem ao mar o lastro representado pelo apoio aos liberticidas, convém desconfiar. (por Clóvis Rossi)

sábado, 11 de julho de 2015

O IMPEACHMENT ANUNCIADO, AS ÚLTIMAS CHANCES PARA VIRAR O JOGO E AS PERSPECTIVAS DO DAY AFTER

É hora de assinar a exoneração. Ou vão morrer abraçados.
Lendo um inimigo inteligente ou um independente que sabe das coisas, acabamos aprendendo algo e sendo compelidos a raciocinar sobre aspectos que ainda não nos haviam chamado a atenção.

Lendo boa parte dos articulistas de esquerda, hoje só nos deparamos com proselitismo, não com reflexão. Então, para os que sabemos e queremos pensar por nossas próprias cabeças, de nada nos servem. Destinam-se aos eternos liderados, Marias vão com as outras que não deveriam existir do nosso lado, mas hoje brotam como cogumelos. [Que saudades de 1968, quando o pensamento crítico era cultuado e praticado pela esquerda!!!]

Roberto Campos, p. ex., era direitista convicto e tinha uma das mentes políticas mais argutas e brilhantes do Brasil. Acompanhar sua coluna dominical era obrigatório para quem participava dos embates daquele tempo, pois assim ficava conhecendo a argumentação do melhor dos adversários, ponto de partida para a conseguir refutar quando tal desafio se apresentasse. Já tico-ticos como o Reinaldo Azevedo e o Olavo de Carvalho não oferecem ameaça nenhuma, seus simplismos e tiradas demagógicas são previsíveis e facílimos de reduzirmos a pó.

Enfim, reproduzo mais uma vez um artigo do Demétrio Magnoli, um schoolar cujo modelo de sociedade almejado está muito distante do meu, mas cujas análises de conjuntura são das mais perspicazes. 

P. ex., ele constata o fracasso anunciado de Joaquim Levy, e aqui vale lembrar que fui um dos únicos analistas de esquerda a, desde o primeiro momento, não só repudiar sua ortodoxia econômica, mas também caracterizá-lo como pertencente à segunda divisão do neoliberalismo, Chicago-boy por convicção e Chicago-office-boy por qualificação... 

Aliás, há poucas semanas li que é exatamente esta a avaliação que dele fazem os grandes capitalistas: adota a ortodoxia que a eles convém, mas não tem competência técnica para fazê-la dar certo. 

Também concordo com o Magnoli quanto ao primarismo da posição assumida pela Dilma, de tentar desacreditar a Operação Lava-Jato com uma retórica confusa, inconvincente e que, ainda por cima, ofende os veteranos da luta contra a ditadura, ao comparar-nos com a corja repulsiva de corruptos que recorrem à delação premiada para salvarem o pescoço.

E ele está certíssimo ao constatar que a agonia lenta de Dilma mina o futuro do PT e da própria esquerda (pois o cidadão comum tende a enxergar esses dois universos como um só). Mantendo-se teimosamente no rumo atual, quanto mais durar no cargo, mais execrável tornará a nossa imagem e maiores dificuldades acrescentará ao trabalho de reconstrução da esquerda que teremos de empreender depois do vendaval.

Discordo, contudo, do Magnoli quanto à sua visão negativa de uma eventual ruptura de Dilma com o Levy. Se der um bico na política de austeridade imposta pelo grande capital e cair nos braços do povo, ela embaralhará um jogo que, por ora, desemboca na sua destituição. Aí, vai abrir-se um novo leque de possibilidades, podendo até recuperar seu prestígio. Por que não convocar um referendo sobre o ajuste fiscal, seguindo as pegadas do Syriza?

Então, haveria uma luta de verdade para ser lutada, e desta a esquerda participaria com entusiasmo. No fim da linha, mesmo que Dilma não conseguisse salvar seu mandato, pelo menos o teria perdido travando o bom combate, não como serviçal dos empresários soltos que exigem o arrocho fiscal e aliada dos empresários presos que tentam desmoralizar a luta contra a corrupção porque ela finalmente os alcançou. 

Enfim, leiam o artigo abaixo, Coordenadas do impeachment, e tirem suas conclusões. Livre pensar é só pensar... 

A determinação da posição geográfica solicita duas coordenadas. A decisão do impeachment, três: a vontade popular, o fato jurídico e um consenso da elite política. A primeira existe desde as manifestações de 15 de março. A segunda esboçou-se mais tarde, com a impugnação das "pedaladas fiscais" e, sob outra forma, com a delação premiada de Ricardo Pessoa. A terceira desenha-se aos poucos, como fruto do colapso do ajuste fiscal.

Dilma Rousseff pendurou o destino de seu governo no varal do sucesso de Joaquim Levy. O varal caiu. De uma promessa de superávit de 1,2% do PIB, não se fará mais que metade. A marcha batida do desemprego e da erosão dos salários pulverizou a legitimidade social da presidente. O empresariado queima as pontes com o Planalto. O PMDB ensaia saltar da nau que faz água. O fracasso de Levy é um dobre de finados. Todas as forças políticas reposicionam-se a partir desse diagnóstico, a começar do próprio governo.

Nos EUA, pela primeira vez, Dilma bombardeou a Lava Jato, sugerindo que os juízes, os procuradores e os delegados violam as leis da democracia, torturando os acusados para obter delações. É um giro retórico tão marcante quanto a reviravolta na política econômica. A presidente, que se gabava de patrocinar o combate à corrupção, incorporou as fórmulas discursivas dos porta-vozes informais de Lula na imprensa legítima e na "imprensa" chapa-branca financiada com dinheiro público.

A tática, filha do desespero, obedece a uma lógica. Diante do surgimento de fatos jurídicos que propiciam o impeachment, Dilma dá um passo à frente e apresenta-se como aliada de todos os que temem as investigações, especialmente Lula, Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Contudo, como o Brasil não é a Venezuela, ninguém acredita que uma presidente desmoralizada tenha meios para cortar as pernas da Procuradoria e do Judiciário. Nessas circunstâncias, o expediente volta-se contra Dilma, expondo-a como parceira das máfias políticas que colonizaram a República.

Paralelamente, Tarso Genro articula com os "movimentos sociais" e setores do PSOL a formação de uma Frente de Esquerda. A iniciativa é uma resposta à crise do lulopetismo e à anunciada ruptura da aliança entre PT e PMDB. No cenário pós-Dilma, pretende funcionar como núcleo de reagrupamento político e oferecer uma plataforma eleitoral ao ex-presidente. Desde já, porém, ao reativar a campanha do "Fora, Levy!", a Frente de Esquerda tende a descosturar a teia frágil que ainda interliga o Planalto ao PT.

Lula, que ainda é um fator, perdeu o prumo e o rumo. Como biruta de aeroporto, depois de apostar no ajuste fiscal, ameaçou chamar o fantasmagórico "exército de Stedile", mas extinguiu a chama da revolta no Congresso do PT e, na sequência, estimulou o movimento da Frente de Esquerda, mas ensaiou uma reaproximação com o PMDB. 

Agora, conclama Dilma a entrar em guerra aberta com a Lava Jato e "encostar a cabeça no ombro do povo", senha óbvia para, sacrificando Levy, empreender um novo giro de política econômica. Se a presidente der ouvidos ao antigo mestre, engajando-se na aventura, precipitará o desenlace que tenta evitar.

O impeachment não está sendo feito pelos partidos de oposição, mas pela progressiva desconstrução da coalizão governista. O PSDB opera no compasso da prudência, oscilando entre os horizontes de um governo transitório de Michel Temer e do chamado a eleições presidenciais antecipadas. 

Paradoxalmente, a interrupção do mandato de Dilma pode revelar-se a saída menos desastrosa para Lula. Nessa hipótese, o ex-presidente e seus áulicos esperneariam em público, difundindo a lenda do "golpe das elites", mas festejariam à luz de velas. Sem as lições dos três anos de apodrecimento derradeiro, a história ficaria suficientemente inconclusa para oferecer uma chance de restauração ao lulopetismo. (Demétrio Magnoli)
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