Roseann Kennedy, em sua coluna dominical no Estadão, dá uma informação tão auspiciosa que justifica a reprodução, abaixo, dos principais trechos: os poderosos estão rejeitando definitivamente o famigerado clã Bolsonaro. Leiam e curtam.(Celso Lungaretti)
"...o senador Flávio Bolsonaro conseguiu um feito político: formou um tripé de rejeição. O filho 01 do ex-presidente enfrenta desconfiança e resistência de partidos do Centrão, de parte do agronegócio e de setores econômicos.
Sua pré-candidatura fez uma confusão já na largada. Naquele dia 5 de dezembro, a Bolsa despencou, o índice Ibovespa derreteu. O dólar disparou e fechou em alta de 2,29%. Isso porque o entendimento é que Flávio na corrida presidencial eleva a possibilidade de vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em primeiro turno.
Representantes de grandes bancos, portanto, continuam na expectativa de uma candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ao Palácio do Planalto, e avaliam que o sobrenome Bolsonaro é tão tóxico que não pode estar na chapa nem para vice-presidente.
Esse mesmo entendimento cresce entre integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária.
A bancada do agro é a maior da Câmara e do Senado e sempre foi alinhada com Bolsonaro. Entretanto, depois de a atuação do deputado federal Eduardo Bolsonaro contribuir para o tarifaço de Trump a produtos brasileiros e abalar os números das exportações, muitos deles já viraram as costas para o bolsonarismo.
A tentativa de Jair Bolsonaro de derreter a tornozeleira eletrônica tem sido citada como um dos motivos para eles buscarem encerrar esse capítulo da história apostando em um nome fora da família.
'É uma coleção de vexame', observa um político descrente com os Bolsonaros. Primeiro foi Roberto Jefferson com disparos de fuzil e granada contra policiais federais, depois Carla Zambelli correndo com uma arma na mão em direção a um eleitor da oposição e agora foragida, teve ainda a fuga de Alexandre Ramagem, e tudo culmina com o ex-presidente tentando derreter a tornozeleira.
A rejeição a Flávio Bolsonaro pode ficar ainda maior. No próprio PL, sigla à qual o senador é filiado, há quem sinalize que a lista de problemas tende a avançar com outro grupo, o de evangélicos. Esse segmento vinha cada vez mais empolgado com eventual candidatura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e há quem reclame de 'traição' do enteado".
O receituário reformista brasileiro atual é o seguinte:
— primeiramente, devemos afastar o fascista do poder;
— depois... vamos apoiar o Lula e seu governo no rumo da reconstrução dos avanços sociais e institucionais detonados pelo governo miliciano.
Aí eu pergunto: mas se Lula, em todo discurso, fala em retomada do desenvolvimento econômico (que não passa de mais capitalismo), e como vamos nos libertar do mal que nos aflige, se estaremos usando como remédio o incentivo ao crescimento do próprio mal?
Quem embarca nessa canoa furada por medo da ditadura e à espera de um capitalismo próspero e bonzinho que possa prover o bem-estar social a partir da elevação dos salários e do pleno emprego, não se dá conta da dinâmica predatória salarial do capital, imposta pela guerra concorrencial de mercado globalizada.
Assim, até quando vamos ter de:
— continuar pagando os juros extorsivos que incidem sobre nossa dívida pública, sacrificando as demandas sociais tão vilipendiadas pelo governo que termina como o pior da história republicana? Por que não peitarmos a ordem mundial econômica que nos impõe tal sacrifício, enquanto os países ricos nada pagam de juros?
— aceitar a negação dos benefícios previdenciários e trabalhistas de idosos e inválidos aposentados, bem como de assalariados que já são extorquidos pela extração de mais-valia e pagamento de caros impostos a cada compra de mercadoria inflacionada, tudo isso para sustentar o capital e sua máquina estatal opressora em troca de apoio de uma elite política e empresarial?
— ver passivamente a fome aumentar nos lares bde desempregados e mal-empregados deste país que tem mais bois do que gente e é o segundo maior produtor de alimentos vegetais e animais do Planeta?
— ouvir o discurso conservador, elitista e golpista ditatorial de parte dos grandes empresários do agronegócio que se acham no direito de bloquear rodovias e se jactam de carregar o Brasil nas costas, enquanto tocam seus negócios com juros subsidiados, dívidas perdoadas e anistia fiscal concedida por parlamentares que elegeram?
— fazer alianças com políticos conservadores e elitistas que mudam de lado a cada ventania (Valdemar da Costa Neto, Roberto Jefferson e Michel Temer, p. ex., já foram aliados de Lula e Dilma...) em nome de um pragmatismo político que sempre se volta contra o povo como um bumerangue agressivo?
— conviver com o analfabetismo de grande parte da população brasileira por conta de uma escola pública ineficiente e com um currículo escolar que positiva as categorias capitalistas e a ordem social institucional republicana capitalista opressora?
— respeitar a adequação deficitária da contabilidade pública a um orçamento cada vez mais deficitário que endivida a passos largos as finanças públicas, ao custo da negação de atendimento das demandas sociais mais prementes?
— tratar a terra rural como uma mercadoria que pode ser concentrada nas mãos de grandes latifúndios empresariais, mais preocupados com o lucro das exportações que alimentam o mundo?
— tratar a terra urbana também como mercadoria que serve para a especulação imobiliária e com isto dificultar a sua aquisição para moradia?
— tolerar a não criação de juros subsidiados e de longo prazo para a aquisição de moradias e disponibilização de infraestrutura urbana de qualidade?
Muitos outros itens poderiam ser aqui alinhavados como roteiro para uma administração popular. Mas vamos virar a chave e analisar a viabilidade política da implementação das medidas acima elencadas e de muitas outras que deixamos de citar.
Sei que qualquer democrata que tentasse no Brasil direcionar o seu governo por tais pautas enfrentaria a oposição da poderosa elite político institucional-empresarial-militar brasileira.
Os patriotas de terços e bíblias nas mãos, que vivem a clamar por ditadura militar, sofrem da síndrome da minoria iluminada. Creem que a parcialidade populacional mais raivosa e minoritária seja mais brasileira do que a majoritária; e, na impossibilidade de aplacar a febre, quebram o termômetro, ou seja, questionam as urnas. Na sua visão delirante, o Brasil só é brasileiro para os conservadores na economia e nos costumes.
Para os conservadores religiosos fundamentalistas e viúvas da ditadura militar, as proposições acima são coisas de comunistas comedores de criancinhas e assim, com um rótulo ignorante, confundem democracia social com ditadura burguesa, numa óbvia inversão de conceitos: sustentam que o povo é culpado por seu próprio infortúnio e não merece a pretensa bondade e generosidade das elites secularmente privilegiadas.
Lula vai tomar posse, isto está definido pelos donos do PIB e até pelos militares mais conscienciosos da conjuntura geopolítica mundial na qual o Brasil está inserido. Mas, há um porém: jamais poderá ousar sair dos limites da constituição burguesa!
E ainda, é-lhe vedado cumprir fielmente aquilo que a carta magna estabelece como direitos constitucionais mas o capital considera abusivos. Caso, p. ex., da distribuição de lucros empresariais aos trabalhadores de empresas lucrativas (artigo 7º, inciso XI, da Constituição Federal).
Os que afirmam que o STF rasga a Constituição Federal e pedem uma corte suprema que atue respeitando os seus interesses, são os primeiros a negar o cumprimento da Constituição em vários artigos que tratam dos direitos sociais. Eles pulam para o artigo 142 e aceitam as interpretações tendenciosas de intervenção militar de um Ives Gandra, mero tributarista metido a constitucionalista.
Não é uma questão de ignorância dos que insuflam a população para ir às portas dos quarteis enquanto desfrutam dos seus privilégios nem sempre santificados, mas sim do empenho em construir uma constituição federal ditatorial burguesa, redutora de direitos dos explorados.
O capital não obedece à sua própria constituição quando se trata de cumprir obrigações que a sua lógica perversa não pode atender. Para beneficiar o povo a lei constitucional nunca pega.
Não tenho dúvidas de que caminhamos, com a roda da história se movendo lentamente (e de vez em quando acelerando o seu ritmo, como agora), para um avanço superior de consciência social que, mesmo aos trancos e barrancos, negue a ditadura burguesa e a impotência da democracia burguesa graças às contradições dos próprios fundamentos capitalistas que ora demonstram as suas incongruências lógicas e falibilidade social sistêmica e ecológica.
A terceira via não é eleitoral, mas sim social e emancipatória, a partir de novo modo de produção e ordem social fora da lógica do valor e da dissociação de gênero.
O que parecia impossível está se tornando uma meridiana clarividência. (por Dalton Rosado)
"Brasil cresce mais do que China e tem menos inflação que a Europa"
A frase foi dita pelo presidente Jair Bolsonaro durante uma rápida coletiva, nesta 6ª feira (28), após o último debate com Luiz Inácio Lula da Silva, promovido pela Rede Globo. Simplista, ela é a síntese de como as discussões foram conduzidas pelos candidatos em seu último encontro antes da votação no domingo (30).
Sim, as projeções apontam que o Brasil pode encerrar o ano com uma taxa de crescimento acima da chinesa pela primeira vez desde os anos de 1980. Porém, uma associação entre os dois países é patética, para dizer o mínimo.
Não existe régua de comparação entre as duas economias. Nem vale a pena citar o abismo estrutural. Vamos olhar apenas a diferença na grandeza do Produto Interno Bruto. O chinês fechou 2021 em US$ 17,7 trilhões, enquanto o brasileiro ficou em US$ 1,6 trilhão.
O mesmo vale para a comparação do custo de vida. Ao final de setembro, considerando 12 meses, a inflação na Zona do Euro alcançou 10%, o pico numa série histórica inIciada em 1977. No Brasil, a alta do custo de vida ficou em 7,17% no mesmo período.
O que o presidente não explica é que ambos os índices são influenciados pela valorização de alimentos e pela crise energética, com a diferença de que Bolsonaro, em campanha eleitoral, fez a Petrobras segurar o preço dos combustíveis e o Congresso aprovar medidas que também domaram momentaneamente a alta da energia elétrica.
Essas pretensas vantagens econômicas do Brasil não são consequências de nenhuma política pública do atual governo. São meras disfunções momentâneas ainda geradas pela pandemia.
Estivesse o Brasil surfando uma onde de crescimento e com inflação domada, Bolsonaro não teria iniciado o debate apostando na máxima de que a melhor defesa é o ataque.
Ele abriu a discussão dizendo que vai adotar um salário mínimo de R$ 1.400 na tentativa neutralizar um dos maiores estragos à sua campanha neste 2ª turno, o vazamento de que o Ministério da Economia avalia acabar com o reajuste do salário-mínimo pela inflação passada. Os estudos nesse sentido foram revelados pela Folha de S. Paulo.
O presidente não deu reajuste acima da inflação para o salário-mínimo no momento em que o rendimento das famílias encolheu e também foi corroído pela inflação, que chegou a 11,89% nos 12 meses encerrados em junho deste ano.
O Brasil não está melhor que a China ou que a Zona do Euro. Ao longo de todo o debate, o eleitor sofreu com o jogo de palavras e raciocínios.
Foi obrigado a acompanhar uma enxurrada de falas desconexas e a banalização de discussões tão vitais para o futuro do país como o combate a pobreza, temática que abordada com um recital de números que pouco dizem para o eleitor.
No trecho em que a discussão deveria tratar de respeito à Constituição, item essencial para garantir a confiança dos investidores, as falas erráticas foram de Lula promovendo invasões de terras a Bolsonaro defendendo pílula do dia seguinte nos anos de 1990.
O momento em que se falou de saúde Lula citou que Bolsonaro foi ao enterro da rainha da Inglaterra, mas não prestou apoio aos mortos da Covid no Brasil, enquanto Bolsonaro criticou o programa com médicos cubanos.
Num dos raros momentos de interação entre os candidatos, Bolsonaro explicou que a distribuição de 35 mil caixas de Viagra para o Exército eram para tratamento de próstata e ainda perguntou ao oponente: "Você usa?".
Ao questionar a proposta de desarmamento, Bolsonaro tentou associar Lula ao crime organizado, lembrando que ele visitou o Complexo do Alemão.
Como não poderia deixar de ser, vieram as citações a Roberto Jefferson, aliado do PT no passado e aliado de Bolsonaro até pouco tempo, que foi empurrado de um lado para o outro pelos candidatos que não querem ser relacionados ao ex-deputado que recebeu a PF a balas e granadas.
Em seguida, os contendores pularam para uma rasteira troca de considerações sobre a violência contra a mulher.
O debate terminou no zero a zero para os candidatos e também para os indecisos. (por Alexa Salomão, repórter especial da Folha de S. Pauloem Brasília)
Ao alvejar o próprio pé, Bob Jeff acertou também o do chefe da gang, o Bozo the Kid.
Então, como não existe honra entre bandidos, foi abandonado por aquele a quem tentara caninamente servir.
Em vão. O Brasil sem lei que o palhaço genocida tanto fez para criar encontrou sua exata corporificação nos tiros e granadas do pistoleiro parceiro contra os homens da lei.
E assustou os brasileiros que não querem voltar para o tempo das diligências, mas sim andar pelas ruas sem serem atingidos por balas perdidas.
Porque a parva gente brasileira não tem imaginação. Passava batida pelo fato de que retaliando, tão logo passou a dominar o território, fiscais que outrora o haviam multado por infringir leis e normas corretas, o gunfighter principal simbolicamente já fizera o mesmo que o Bob Jeff fez com mais estardalhaço no domingo.
O dano eleitoral foi tamanho que obrigou o Bozo the Kid a mais um recuo humilhante, como o do 7 de setembro de 2021, quando reuniu sua quadrilha para um golpe de Estado mas refugou, fugiu e acabou sentado no colo do uncle Temer, deixando que um adulto limpasse sua sujeira.
Não é à toa que se dá tão bem com o menino Ney, aquele que tenta convencer a justiça espanhola de que assina qualquer papel colocado pelo pai sob seu nariz, sem ler uma linha sequer.
E, no entanto, ameaça processar alguém que duvidou de que ele fosse capaz votar conscientemente em qualquer candidato, vendo-o apenas como um molecote que apoia quem quer que lhe compre um pirulito ou pague sua dívida com o Fisco.
Para terminar: esses cowboys fora-da-leitêm a sorte de não poderem ser punidos como os outlaws do Oeste selvagem que inspiram suas alucinações.
Pois, naquele tempo, até por roubar cavalo um criminoso desses podia ser enforcado. Então, que castigo receberia quem foi, indiscutivelmente, o culpado maior por cerca de 400 mil assassinatos? Ser enforcado 400 mil vezes?!
As coisas, contudo, mudaram: nem mesmo um matador muito pior do que qualquer mad dog do século 19 é punido com tamanho rigor hoje em dia.
Afora ter sempre a chance de evitar a pena máxima alegando loucura.
O que, no caso do Bozo the Kid, seria aceito sem apresentação de nenhum laudo de especialista, pois a sua insanidade mental salta aos olhos e clama aos céus... (por Celso Lungaretti)
Adepto da mitomania, o hábito de mentir desenfreadamente, Bolsonaro descuidou de uma regra básica da sua atividade. um político jamais deve dizer uma mentira que não possa provar.
Declarou que o aliado Roberto Jefferson recebeu da Polícia Federal tratamento de bandido. Foi desmentido antes que sua versão chegasse aos jornais. Gravada em vídeo, a conversa que antecedeu a rendição de Jefferson revela que ele recebeu tratamento de aliado, não de marginal.
Jefferson disparou contra a equipe da PF que foi prendê-lo um par de granadas e pelo menos duas dezenas de tiros de fuzil. Os estilhaços feriram dois agentes dois agentes federais.
Após um cerco de oito horas, o agente do grupo tático da Polícia Federal escalado para obter a rendição de Jefferson soou esquisito:
"É a ordem que eu tenho. Prioridade zero um. O que o senhor precisar, a gente vai fazer".
O timbre subserviente e reverencial exposto no vídeo estilhaçou a versão de Bolsonaro segundo a qual ordenara ao ministro da Justiça, Anderson Torres, que tratasse Jeffersom como o rigor que merece um bandido que atira em policial.
Há muito o Bob Jeff delirava que era um cowboy fora da lei. Acabou concretizando sua obsessão!
O negociador da PF:
— como que perdoou Jefferson por ter ferido dois colegas –"Os meninos estão bem";
— desqualificou a equipe destacada para realizar a prisão –"São burocratas, trabalham em inteligência, escritório, não são operacionais";
— sorriu quando Jefferson disse ter lançado granadas de "efeito moral".
Se o episódio serviu para alguma coisa foi para mostrar que, sob Bolsonaro, o rigor policial é seletivo. Nos morros do Rio de Janeiro, quem ousa atirar na polícia é enviado à sepultura sob aplausos do presidente.
Nos fundões do Nordeste, quando um motoqueiro parado sem capacete é morto num camburão de gás, Bolsonaro defende que os policiais rodoviários federais sejam julgados pelo assassinato "sem exageros".
No bolsonarismo radical, os encrencados no Supremo Tribunal Federal, quando não recebem indulto presidencial, são tratados como bandidos VIP. (por Josias de Souza)
...QUANDO, IMITANDO O CANGACEIRO CORISCO, ELE GRITAVA "EU NÃO ME ENTREGO, NÃO!" E MANDAVA MAIS DE 20 TIROS
DE FUZIL E 2 GRANADAS CONTRA OS AGENTES FEDERAIS
QUE TUDO FAZIAM PARA PRENDÊ-LO SEM VIOLÊNCIA:
Pintou um clima entre cangaceiro e miliciano
Alição do faroeste caboclo deste domingo é uma só:
— ou se passa a exigir exame de sanidade mental de todo candidato eleito, como requisito para assumir postos no Executivo e Legislativo,
— ou continuaremos empossando Bolsonaros que deixam o país em frangalhos com seus chiliques e delírios golpistas, e Jeffersons que mandam policiais para o hospital supondo estar enfrentando dragões.(CL)
Nunca se falou no Brasil tanto em Deus, pátria e família.
O festival de idolatria política e fanatismo religioso que assola o cotidiano nacional permite um inusitado vislumbre sobre o futuro primitivo da nação: o Brasil progride da condição de país do jeitinho para a posição de país que não tem jeito.
Nele, o presidente sessentão diz que pintou um clima com meninas venezuelanas de 14 anos. Seus partidários chamam a evangélica Marina Silva de vagabunda. O aliado Roberto Jefferson gruda na figura monástica da ministra do Supremo Carmen Lúcia a pecha de prostituta.
É como se de repente os brasileiros caíssem na década de 1930. Metade da nação tenta degolar a outra metade a fim de estabelecer se a sociedade deve ou não praticar barbaridades em nome de Deus, a serviço da pátria e em defesa da família.
Seria reconfortante saber o que pensam a cristã Michelle Bolsonaro, a pastora Damares Alves e os líderes do centrão evangélico sobre o insulto dos devotos do mito a Marina Silva. Afinal, trata-se de uma irmã em Cristo.
Seria instrutivo ouvir uma reação qualquer da turma do púlpito sobre a abjeção de Roberto Jefferson.
O dono do PTB (Partido Terrivelmente Bolsonarista) despejou o esterco que carrega na alma sobre a reputação de Carmen Lúcia:
"Lembra mesmo aquelas prostitutas, aquelas vagabundas, arrombadas, que viram para o cara e dizem: ''É, benzinho, no rabinho, nunca dei o rabinho. É a primeira vez'.
Ela fez pela primeira vez, ela abriu mão da inconstitucionalidade pela primeira vez. Ela diz assim: 'É inconstitucional, censura prévia é contra a súmula do Supremo, mas é só dessa vez benzinho'..."
É preciso muita ingenuidade para esperar alguma reprimenda de Michelle, sobretudo depois que madame tomou as dores do marido no caso em que ele injuriou adolescentes venezuelanas.
De Damares Alves não se pode esperar senão verdades pastosas e desculpas desdentadas.
Quanto aos pastores bolsonaristas, eles estão ocupados demais para perder tempo com a decência. Que diabos! Precisam cuidar dos negócios espirituais, vertendo o comércio de almas em moeda sonante.
Terceira mulher de Bolsonaro, Michelle pede votos para o presidente em cultos e eventos religiosos. Ao lado de Damares, dirige seus apelos especialmente às mulheres. "Perdão pelos palavrões do meu marido, eu também não concordo, mas ele é assim."
Passou a soar como se fosse ela a candidata ao trono: "Não olhe para meu marido, olhe para mim que sou uma serva do senhor", disse durante um culto que celebrou o aniversário de 63 anos da pastora Elizete Malafaia, mulher do pastor Silas Malafaia, um dos principais expoentes do centrão evangélico.
Além de Damares, incorporou-se à caravana espiritual de Michelle, suprema ironia, o padre Kelmon. É aquele presidenciável fake do PTB, que Jefferson improvisou na disputa do 1º turno apenas para servir de escada para Bolsonaro nos debates.
Jefferson é aliado do governo –qualquer governo– desde a chegada das caravelas. Jefferson relaciona-se com o erário como um Robin Hood para si mesmo.
Tem a cara embochechada por anos de uisquinhos, licores, pudins e babaganuches. Tudo 100% financiado pelo déficit público. É como se gritasse para os quatro ventos: "Tiro dos pobres contribuintes para o rico aqui, que ninguém é de ferro".
Quando o dono do PTB fala em prostituição, convém não contrariar. Não se deve discutir com especialistas.
Pintou um clima entre o bolsonarismo e a cafajestismo. Está cada vez mais difícil ouvir falar em Deus, pátria e família sem reprimir um sorriso interior.
Sempre que alguém esbraveja a tríade predileta do fascismo, uma voz no fundo da consciência avisa: "Farsantes!". Tudo está impregnado de oportunismo e cálculo eleitoral.
A aversão às mulheres e o estilo cafajeste faz com que Bolsonaro e os bolsonaristas mereçam o célebre epíteto do Evangelho: "Raça de víboras". (por Josias de Souza)
Não, não é um documentário sobre o bolsonarismo, mas sim um filme de
ficção científica que John Frankenheimer dirigiu em 1979, sobre monstro
criado pela poluição. Já o monstro brasileiro foi criado pelo centrão...
Todo debate eleitoral na democracia burguesa tem um ponto de unidade: todos devem restringir os seus discursos à governabilidade sob o capitalismo!
Como o capitalismo está entrando na sua fase de limite interno (a saturação da dinâmica da necessária e impossível reprodução aumentada do valor no atual estágio de sua incapacidade de expansão) e externo (os fatores climáticos que alteram a produção e a vida social), o discurso da governabilidade é falso.
Um candidato honesto e conhecedor da disparidade entre receitas fiscais e despesas correntes (aquelas que se constituem em custo fixo) teria de afirmar a ingovernabilidade do Estado é a razão pela qual seu país está cada mais endividado mundo afora – e, no nosso caso, pagando taxas altas de juros.
Mas, se assim o fizesse, teria cassada a candidatura pelo seu partido; a resultante obvia de tal declaração seria o questionamento sobre o porquê de ter assumido uma candidatura previamente tornada inócua.
Assim, todos os candidatos são forçados a prometer o paraíso na terra. Os que já governaram tentam ressaltar os insuficientes aceertos, supostos ou reais, dos seus governos, omitindo que não alteraram substancialmente a realidade de vida social caótica, com todas as mazelas que conhecemos de cor e salteado.
É graças ao enquadramento prévio sob balizas constitucionais burguesas que o debate televisivo entre candidatos é desfocado da realidade e nele não pode ser abordada (e nem eles querem fazê-lo) a possibilidade de uma existência sob outros parâmetros de produção social e organização jurídico-constitucional de base, sem a verticalidade do poder estatal, que é serviçal da ordem capitalista e, consequentemente, opressor na sua essência constitutiva.
O capitalismo tem uma estrutura de descentralização das esferas de poder estatal entre poderes executivo, legislativo e judiciário que apenas servem ao verdadeiro senhor que é o poder impessoal econômico do capital e sua lógica autotélica (e que beneficia apenas os seus administradores empresariais e os segmentos intermediários da elite gerencial e institucional).
Mas os candidatos, que somente têm tal condição por aceitarem as regras do jogo, e uma vez eleitos devem jurar a constituição burguesa, não podem, evidentemente, sair das quatro linhas demarcatórias da constitucionalidade, ou seja, são aderentes implícitos ao anacronismo de um modelo social exaurido, que clama por um novo tipo de abordagem: a ruptura decorrente do seu ocaso histórico.
Enfim, como o foco deste artigo, na antevéspera do 1º turno, tem de ser uma análise sobre os perfis de cada candidato e seu desempenho no debate levado ao ar em TV aberta, vamos ao que viemos fazer.
Do ponto de vista eleitoral, o debate prejudicou a tentativa de Lula ganhar a eleição ainda neste domingo (2) , embora tal perspectiva continue viva.
Não que ele haja tido um mau desempenho, pois foi até melhor do que seu principal oponente, Boçalnaro, o ignaro. Mas porque, como ele já foi governo e seu partido o exerceu de 2003 a 2016 (quando a Dilma Rousseff foi impichada), o Lula se tornou alvo dos ataques generalizados dos demais candidatos.
Isto deve ter lhe tirado voto que, carreados para qualquer outro candidato, pode representar um decréscimo nas suas de liquidar a fatura no 1º turno. Não sei se isto provocará um 2º turno, mas considero que, neste aspecto, o debate lhe foi desfavorável.
Boçalnaro mais uma vez demonstrou que os debates, mesmo sendo superficiais e nem sequer roçando nas causas da nossa tragédia, são-lhe desfavoráveis, expondo seu despreparo para o posto que lhe foi outorgado em 2018 pelo capital e seu aparelho governamental estatal.
É por isto que os donos do PIB já admitem que é melhor trocá-lo por alguém mais experiente e confiável como Lula, que governará, como tem afirmado, sob um programa de conciliação de classes próprio à social-democracia – e, como tem sido a tônica do seu partido trabalhista, reproduzindo tudo o que os partidos convencionais fazem mundo afora.
Mas a crise do capital pode levá-lo a um desgaste em 2023/2024, tal como ocorreu com Dilma Rousseff, e o establishment entender que é chegada a hora de o picolé de xuxu assumir o governo por manobra parlamentar e como forma de conter (mesmo que momentaneamente) a insatisfação popular decorrente da inviabilidade social de um sistema decrépito.
Ciro Gomes ficou isolado, ele e seu marqueteiro João Santana estão movido por ressentimentos pessoais e, em que pese a sua verve professoral e conhecimento da máquina administrativa, não teve tempo de discorrer com desenvoltura; aliás, mesmo que o fizesse, não seria entendido por eleitores desacostumados à uma linguagem rebuscada como a dele.
Tudo indica que Ciro vive o seu ocaso, inclusive no seu estado, o Ceará, com a família Ferreira Gomes rachada eleitoralmente e com a perspectiva de eleição de um governador petista. Deve perder pra Lula até no Ceará.
A grande beneficiária eleitoral é Simone Tebet que, de ilustre desconhecida senadora do MS, ganhou protagonismo eleitoral e se habilita para futuras disputas eleitorais, seja em seu estado ou mesmo nacionalmente.
Felipe D’Ávila e Soraya Thronicke, ambos de direita, são aqueles candidatos de uma nota só:
— o primeiro representa o liberalismo clássico ultrapassado do Paulo Guedes e crença no mercado como apanágio de solução para todos os males; e
— a segunda reapresentou a antiga crença em que a questão fiscal (imposto único) possa resolver substancialmente nossos problemas, os quais são estruturais e não pontuais.
O padre Kelmon, é uma fake em pessoa. Nem mesmo padre ele é, com sua mitra dos sacerdotes da Idade Média. Não passa de um engenho conservador e despreparado do Roberto Jefferson para introduzir no debate um cabo eleitoral do presidente candidato. Uma lástima.
Fico por aqui, pois tive de aguentar com sono e tédio um debate que mais pareceu um filme velho e ruim da Sessão Coruja. (por Dalton Rosado)
Se existiam algumas dúvidas sobre o projeto golpista do presidente Jair Bolsonaro, elas foram desfeitas com sua decisão inequívoca de provocar uma crise institucional ao desafiar o Supremo Tribunal Federal, concedendo o perdão ao deputado federal Daniel Silveira, mesmo antes de divulgada sua condenação a 8 anos e nove meses.
A decisão foi elaborada no Planalto, ao chegar ao Bolsonaro a informação de que o ministro terrivelmente evangélico André Mendonça não iria pedir vista do processo e assim impedir o julgamento do parlamentar delinquente. A informação só não dizia que Mendonça iria votar pela condenação de Daniel Silveira, embora com uma pena mais leve.
Para Bolsonaro, que se vangloriava de já ter seus 20% no STF e esperava chegar a mais de 50% depois de reeleito, a insubmissão do seu pupilo escolhido, mais do que uma bofetada, foi uma traição e a percepção de que pelos meios legais não chegará à maioria na suprema corte à maneira de Donald Trump.
A partir da divulgação da quase unanimidade na condenação de Silveira, este sim um fiel seguidor e também golpista, Bolsonaro, ainda com as bochechas quentes, quis revidar logo a seguir, mesmo que para isso precisasse passar por cima da Constituição.
Com a pressa, não sabendo temperar e modular sua raiva, praticou o que se poderia chamar de perdão por antecipação, falha jurídica que invalida legalmente o ato.
Exceto se, diante dos dentes e da fúria do Bolsonaro, o Supremo amarelar e recuar como Chamberlain diante de Hitler, comentou ironicamente o editor deste blog, ao tomar conhecimento pela Mônica Bergamo de que alguns ministros do STF pensavam em retomar o diálogo com Bolsonaro em lugar de:
— isolarem-se;
— entrincheirarem-se à espera do fim de todos os prazos no processo de Daniel Silveira; ou
— transferirem ao Tribunal Superior Eleitoral a questão da inelegibilidade do parlamentar e à Câmara dos Deputados a decisão sobre sua perda de mandato.
A crise tomou maior corpo depois do ministro de o STF Luís Roberto Barroso ter feito uma análise (talvez inoportuna) da situação brasileira, num encontro virtual promovido por uma universidade alemã, o Brazil Summit Europe.
Uma frase desagradou a Bolsonaro: a de que as Forças Armadas estão orientadas para colocar em dúvida a fiabilidade do processo eleitoral brasileiro. Ao externar as constantes citações de Bolsonaro sobre fraudes nas eleições decorrentes do voto eletrônico, na verdade jamais ocorridas, Barroso indiretamente alertou quanto à razão pela qual Bolsonaro poderá provocar e desencadear uma crise institucional, no caso – evidente no momento – de uma derrota nas eleições.
Não falou nomeadamente em golpe, mas no que considerou como uma tragédia para a democracia brasileira. Barroso citou momentos graves, nos quais se pediu o fechamento do Congresso e do STF, em badernaços com a participação do próprio Bolsonaro.
Barroso externou também sua preocupação com a politização das Forças Armadas, colocando em risco a democracia, mas acentuou que nestas três décadas de restabelecimento da democracia, as ditas cujas têm mostrado um comportamento exemplar.
Mas lembrou que Bolsonaro foi expurgando do governo, coisa nunca antes ocorrida, profissionais militares respeitadores da Constituição, como Santos Cruz, Maynard Santa Rosa e Fernando Azevedo.
O clima ficou tenso quando o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio de Oliveira, obedeceu (segundo noticiou incisivamente o blogueiro Josias de Souza) ordem de reagir, dada pelo Bolsonaro
O momento não é dos melhores para uma imagem dura das Forças Armadas, depois do escândalo das compras de Viagra e próteses penianas. Nesta altura, está evidente a intenção do Bolsonaro de rejeitar uma derrota nas urnas em outubro e suas recentes declarações de que possui um exército civil armado, já haviam mostrado suas intenções golpistas.
Os apelos feitos por Bolsonaro há alguns meses, para que seus seguidores comprassem armas em lugar de feijão, sem esquecermos o símbolo da arminha na campanha eleitoral de 2018, reforçam a atual desconfiança de que tente recorrer às milícias e aos seus seguidores mais fanáticos, ao se ver derrotado.
Mesmo porque, caso as Forças Armadas não garantam o resultado das urnas, a oposição a Bolsonaro provavelmente será apanhada de calças curtas, sem haver se preparado para enfrentar um golpe.
A hipótese remota de uma guerra civil no Brasil só pode ser imaginada no caso de os seguidores bolsonaristas desejarem usar as armas contra o presidente eleito e serem impedidos pelas Forças Armadas.
Não havendo oposição legal militar ao desrespeito do resultado das urnas por Bolsonaro, seus seguidores, em número muito maior que os de Donald Trump no ataque ao Capitólio, poderão criar o caos em Brasília e noutras cidades.
Uma aprovação do perdão concedido por Bolsonaro e consequente ilibação do deputado delinquente Daniel Silveira, um dos principais instigadores dos ataques contra o STF e seus ministros, corresponderá a uma autorização expressa, a uma carta branca para que se concretizem os atos pelos quais foi condenado.
A contagem regressiva para o golpe já começou e a deputada Carla Zambelli quer também reforçar o caos com sua proposta de anistia para outros bolsonaristas foras da lei, como Roberto Jefferson e Allan dos Santos (blogueiro golpista refugiado nos EUA).
Não se trata de um delírio, já não existem mais dúvidas: é este o plano de Bolsonaro face a uma derrota na eleição de outubro. (por Rui Martins)
Os partidos políticos não agem de acordo com suas respectivas doutrinas estatutárias (quando as têm), mas sim movidos pela obsessão de conservar o poder já conquistado e aumentá-lo cada vez mais, daí estarem sempre pensando nas próximas eleições.Se não, vejamos:
— o Partido Trabalhista Brasileiro, do Roberto Jefferson é de ultradireita, não passando de um usurpador da tradição trabalhista getulista (que, vale dizer, sempre foi populista e equivocada);
— o Partido dos Trabalhadores, trabalhista com bandeira e estrela do socialismo, é social-democrata;
— o Partido da Social Democracia Brasileira é liberal-progressista;
— oPartido Democrático Trabalhista agora é apenas cirista, e poderia muito bem ser chamado atualmente dePartido dos Ferreira Gomes(mas só por enquanto...);
— os partidos liberais são nacionalistas, e por aí vai...
O liberalismo, que jamais funcionou eficazmente (nem mesmo nos países de economia forte), não tem força para se manter como doutrina política nas repúblicas da periferia do capital, portanto nunca teremos um liberalismo ortodoxo no Brasil.
Nem no Chile de Pinochet, que adotou um regime de força e um programa liberal, o liberalismo deu certo, cavando, pelo contrário, um profundo abismo social de classes. Será por isto que o Paulo Guedes o admira tanto?!
O general Augusto Pinochet, assassino e torturador traíra do digno e heroico Salvador Allende, terminou seus dias rico, mas deposto e execrado historica e popularmente.
Solta dentro do galinheiro, a raposa sempre come as galinhas e engorda!
A social-democracia, num país da periferia do capitalismo, padece das agruras próprias às nações socialmente segregados pelo grande capital. Caso do Brasil, com moeda fraca e que paga juros altos por sua dívida, sendo apenas exportador de commodities sem valor agregado .
Quando bafejado pelos breves ventos da economia internacional favoráveis às commodities, como ocorreu do primeiro governo Lula, o Brasil teve seu período de vacas gordas, com os pequenos empresários ampliando os seus negócios, os bancos faturando alto e sobrando algum dinheiro para o assistencialismo populista que faz a alegria eleitoral dos governantes.
Mas, como no capitalismo a equação econômica é irresolúvel de modo permanente e satisfatório, passado a breve e relativa bonança, logo em seguida veio a tormenta e aquilo que antes servia como exemplo de boa política pública social e econômica virou desastre.
Foi o que aconteceu com Dilma Rousseff. Em que pese todos os seus esforços de conciliação com as classes dominantes e alianças políticas espúrias, seu governo acabou estagnado, com inflação e desemprego crescentes, insatisfação popular nas ruas sob cassetetes socialdemocratas, etc.
Um piparote do Legislativo e Judiciário a mandou para casa, sem nenhuma reação popular digna deste nome.
O liberalismo progressista praticado no governo FHC criou, de início, um clima de esperança (que era falsa) porque, com uma política monetária minimamente racional, conseguiu domar uma inflação que vinha resistindo a todos os planos econômicos e já atingira patamar próximo a 100% num único mês!
Registre-se que tal inflação descontrolada vinha desde os governos militares, passando por Sarney (o antigo presidente do partido da ditadura, que herdou o poder após a queda da dita cuja) e desembocando no bravateiro caçador de marajás, Collor de Mello.
Este último afirmava ter aquilo roxo, mas deixou, isto sim, o povo roxo de fome e os empresários com o dinheiro confiscado, levando a economia ao caos. (por Dalton Rosado– continuaneste post)
Composição do Dalton sobre o espírito do capitalismo (rs)