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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

"NÁUFRAGO DA UTOPIA"/ 20 ANOS: A VISÃO CRÍTICA, MAS DIGNA E SOLIDÁRIA, DE UM SOBREVIVENTE DA LUTA ARMADA.

F
az 20 anos que lancei o livro
Náufrago da Utopiana livraria Saraiva do Shopping Morumbi, com a participação do ex-preso político Ivan Seixas, do presidente do Sindicato dos Jornalistas Audálio Dantas e do jornalista Paulo Nogueira no debate que antecedeu a sessão de autógrafos.

Foi o coroamento da reabilitação da minha imagem como revolucionário. 

Tal revisão do passado acabou sendo uma consequência da luta pública que travei para que a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça colocasse em pauta o meu caso  (eu estava desempregado e em situação crítica, o que era a condição primeira da priorização de um julgamento, mas tal critério não estava sendo respeitado pelo colegiado). Minha batalha do tostão contra o milhão começou a repercutir na internet.

Ademais, o jornalista e escritor Marcelo Paiva inseriu uma referência desrespeitosa e gratuita sobre mim numa reportagem que fez para a Folha de S. Paulo. Ao polemizar com ele nas páginas do jornalão dos Frias pude mostrar o quanto havia de errado nas fantasias que circulavam na esquerda, começando pelo fato de que eram duas e não uma as áreas de treinamento guerrilheiro da VPR.

Foi minha primeira chance de expor o meu lado naquele episódio. Ao revelar que eu só conhecera a área 1 (desativada) e não estivera na área 2 (desbaratada pela repressão), coloquei um ponto de interrogação na mente de muitos companheiros que haviam acreditado piamente na versão mais falada.
Eu no centro, como um dos imortais da Oban
(nosso apelido para cartazes de procurados)
  

Logo em seguida eu tomei conhecimento de um relatório do II Exército que continha a data exata em que a repressão obteve, a partir de uma prisão efetuada  naquele dia, a localização exata da área 2 da Vanguarda Popular Revolucionária e iniciou os preparativos para o desencadeamento da Operação Registro: 18 de abril de 1970. 

Como eu havia sido preso dois dias antes, foi uma comprovação de que a lenda sobre ter sido eu o delator era uma falsidade e uma ignomínia (companheiros que não aguentaram a tortura descarregaram suas vaciladas sobre mim, transformando-me num indefeso bode expiatório, já que, preso, não tinha como contestar as inverdades). 

Pouco depois, Jacob Gorender, o maior historiador da luta armada brasileira, escreveu uma carta para a Folha de S. Paulo afiançando que eu era mesmo inocente daquela acusação infame. 

Foi o fim de um pesadelo de 35 anos e a reconquista da minha credibilidade para travar as lutas que surgissem no meu caminho. Era um tempo de batalhas ideológicas muito inflamadas na internet, tendo eu e o Ivan Seixas sido os maiores defensores no Orkut da memória da luta armada e dos combatentes que a haviam travado. 

Quando o guru dos bolsonaristas, Olavo de Carvalho, me atacou,  aceitei o desafio e botei-o para correr numa polêmica de três artigos cada.

Já o comentarista de tevê Boris Casoy me acionou na Justiça Criminal por haver-me referido a ele como antigo membro do nefando Comando de Caça aos ComunistasPenei para arrumar advogado que me defendesse gratuitamente, pois atravessava uma grave crise financeira, mas o Sindicato dos Jornalistas de SP acabou me socorrendo.
E um artigo sobre o CCC, publicado em 1968 pela Realidade, decidiu a questão: numa publicação de circulação nacional, Casoy era citado com membro da Juventude do CCC, portanto eu não cometia crime nenhum ao acreditar no que li na revista. 

O juiz de primeira instância concluiu que eu estava protegido pela liberdade de imprensa e não houve recurso contra sua decisão.

Enfim, o lançamento do Náufrago da Utopia ocorreu num momento em que eu completava uma guinada na minha vida passando a perseguir sem entraves os objetivos que durante 35 anos não pude buscar, por causa da estigmatização que sofria.  

Mesmo assim, tive dois bons momentos, levando à vitória a greve de fome dos quatro de Salvador e sendo talvez o único esquerdista a solidarizar-se na grande imprensa com o Paulo de Tarso Venceslau, expulso injustamente pelo PT

Depois que os caminhos se abriram, ainda travei lutas menores, além de uma que pareceu a concretização de uma visão de quando, lá pelos meus 13 ou 14 anos, encontrei numa biblioteca circulante aquela que seria minha primeira leitura de um livro sobre política adulta: A tragédia de Sacco e Vanzetti, do Howard Fast. Fiquei, evidentemente, indignado com a injustiça cometida contra aqueles dois anarquistas italianos nos EUA.

Em 2008 o Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti pediu-me ajuda e eu aceitei sem pestanejar.

Nunca me oferecia para atuar em episódios que estavam obtendo destaque na mídia (não queria ser chamado de caçador de holofotes), mas, quando estava em condições de prestar um grande auxílio a companheiros que recorriam a mim,  sempre atendia a suas solicitações. 

Via isto como era uma obrigação para um veterano que participara de uma luta com enorme letalidade do nosso lado. O mínimo que eu podia fazer para honrar o sacrifício dos companheiros era nunca recusar ajuda para um companheiro dela necessitado. 

Foram três anos (2008/2011) de uma luta extremamente desigual, contra a imprensa burguesa e o imenso poder de fogo de um país do primeiro mundo, que, ademais, jogava pra lá de sujo. Eu escrevia artigos quase diários, refutando as falácias da grande imprensa e pleiteando espaço para apresentar o contraditório, quase sempre negado. 

Ademais, atravessei o país fazendo palestras e participando de debates sobre o Caso Battisti. Meus textos eram publicados por vários sites e portais, então não seria pretensioso dizer que, na web, tive um papel destacado para a mudança de posição dos companheiros.

Talvez minha melhor contribuição haja sido ter-me tornado um repositório das informações de cocheira: por ser também jornalista e haver travado minhas polêmicas protegendo ciosamente tudo que tivesse obtido em off, colegas da grande imprensa começaram a me passar as informações sobre os círculos do poder que não podiam publicar em seus próprios veículos.

Inclusive uma valiosíssima: a de que o Lula, em fins do segundo mandato, não mexeria uma palha caso o STF, sozinho, extraditasse Battisti. Mas, se o abacaxi caísse na mesa dele, vetaria a extradição.

Graças a isso lutamos até o último argumento para que a decisão do caso não se desse no Supremo, no qual perdíamos todas as votações por 5x4, mas pelas mãos do Lula. O resto é História.

Gostaria de ter feito mais, contudo não consegui  o respaldo da esquerda organizada, que evitaria muitos vexames se aceitasse as estratégias que eu lhe propunha. Um consolo foi ter, no blog Náufrago da Utopia, combatido Jair Bolsonaro durante todo o ano eleitoral de 2018 e ao longo do seu famigerado mandaato.

Quando muitos se retraiam, temendo uma Operação Jacarta (massacre de opositores na Indonésia), não alteramos em uma vírgula sequer a linha editorial do nosso blog.

Concluindo: não daria para falar sobre o livro Náufrago da Utopia sem lembrar o contexto no qual foi escrito e os desdobramentos que gerou. Em termos literários, ele foi criado sob pressão máxima, pois devia vários aluguéis e estava ameaçado de despejo. 

O adiantamento que a Geração Editorial me prometeu contra a entrega do texto integral fez com que o terminasse em apenas 5 sofridas semanas. Para escrevê-lo fui obrigado a procurar informações sobre o destino de vários companheiros, o que há muito evitava fazer porque, quando ficava sabendo que haviam tido uma morte terrível nas garras da repressão, isto me deprimia demais. 

Então, parte do seu encanto advém de ser um livro escrito sob uma tremenda carga emocional, algo como a Autobiografia Precoce do Eugene Evtuchenko.

Uma decisão importante que tomei foi a de escrever com a isenção de um historiador, jamais escondendo ou maquilando episódios em que os personagens a mim simpáticos não se comportaram à altura do que deles eu esperava. 

Sempre detestei o culto à personalidade. A grandeza dos personagens históricos que a tinham em nada diminuía com o divulgação de seus maus momentos, pois estavam, como todos nós, longe de serem infalíveis.  Isto os fazia mais humanos. E a verdade é revolucionária.
A defesa dos direitos humanos é uma
prioridade do blog Náufrago da Utopia
.

Por que dividi o livro em três partes, as duas primeiras narradas na terceira pessoa e só a terceira parte na primeira pessoa? Foi uma forma de escapar ao constrangimento de relatar as torturas que sofri como quem as sofreu. Adotando a terceira pessoa, as torturas se referiam ao personagem Júlio, não a mim. 

Senti-me melhor assim, embora saiba que ser torturado por um estado policial não é vergonhoso, muito pelo contrário. Mas nem sempre as racionalizações  prevalecem sobre as emoções.

O Náufrago da Utopia foi um livro por muito tempo sonhado, daí a rapidez com que foi criado. Então, o uso da terceira pessoa nas partes iniciais também servia para descaracterizá-lo, no início, como autobiografia. 

O foco que eu escolhera fora mostrar oito jovens estudantes iniciando-se nos caminhos da revolução, mas da forma como tais personagens viam os grandes acontecimentos em cada momento. Ou seja, não como passado recordado mas sim como presente acontecendo. A primeira parte, com todo seu esforço de contextualização, é um painel sobre o movimento estudantil, a ditadura, a luta armada.

Depois, palestrando em escolas secundárias, tive a satisfação de ouvir alunos comentando que não sabiam nada sobre a ditadura, mas, depois do lerem meu livro, começaram a interessar-se pelo assunto. Fiquei emocionado. 

Quando já havia terminado as duas primeiras partes, me veio a ideia de adotar a primeira pessoa na parte final. Por quê? Para que ela fosse fiel ao meu ser  daquele momento. 

Eu não era mais o idealista ingênuo que havia sido quase destruído pela repressão nem o jornalista que adotava o pseudônimo de André Mauro para evitar problemas com a censura. Assumindo meu nome e minha história, estava recuperando a credibilidade. Tinha decidido ser, até o fim dos meus dias, um combatente da palavra, que em determinadas circunstâncias é mais eficiente do que as armas.

Aos jovens que me procuravam para saber qual minha opinião sobre uma nova luta armada, sempre mostrei cruamente como a dita cuja pode ser trágica quando a correlação de forças nos desfavorece tal qual agora. 

Aconselhava-os a, antes de mais nada,  irem aonde o povo estava, arregaçando as mangas e efetuando a laboriosa tarefa de politização do povão. Os voos maiores dependeriam do seu desempenho nessa etapa de acumulação de forças, pois hoje a correlação está totalmente desfavorável a nós

Encerro este artigo atual com o parágrafo final do livro de 2005:
"As cruzadas para mudar o mundo são repletas de armadilhas e sofrimento. Espero que ninguém mais entre de novo numa luta sanguinária com a ingenuidade do meu grupo secundarista em 1968. Mesmo assim, o mundo precisa ser transformado".

Desde então, o que mudou foi a premência da transformação do mundo, pois estamos  sob forte ameaça de extinção da espécie humana pelas alterações climáticas. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 10 de abril de 2025

TRUMP PÔS O MUNDO EM POLVOROSA POR ACREDITAR EM CONSELHEIRO MENTIROSO

Navarro expôs Trump a ridículo mundial
U
m artigo obrigatório sobre a gestação do plano protecionista retrô que o aprendiz de presidente dos EUA quis impor ao resto do mundo mas virou pó a partir da indignação generalizada que causou é o do nosso companheiro Rui Martins, Trump se inspirou num economista inexistente (clique 
aqui para acessá-lo).

Mostra que o pai da criança é Peter Navarro, o até  então obscuro autor de um obscuro livro desmedidamente antichinês chamado Death by China, que deslumbrou o bilionário ignorantão em 2017. 

Ultradireitistas têm essa mania de acreditarem que medíocres e/ou charlatães são gênios ainda não reconhecidos, à espera de que um político iluminado os revele para a humanidade.

O tal Peter, ademais, mente tanto quanto o Pinóquio: quando uma jornalista lhe perguntou de onde tirara suas teorias estapafúrdias sobre efeitos econômicos benéficos para os EUA de um aumento desmesurado das suas tarifas aduaneiras, citou um economista de quem nunca ninguém ouvira falar, Ron Vera. 
Trump ao descobrir que Ron Vera nem existe

O qual, descobriu-se, não passa de um anagrama do seu sobrenome, Navarro. Não existe.

Agora, alçado a principal conselheiro do Trump em Economia, tal picareta foi o cérebro da guerra econômica declarada pelos EUA ao resto do mundo... cujo resultado foi fazer picadinho da credibilidade do Trump, obrigado a uma rendição incondicional. 

Quando deixar a presidência, nem para apresentador de reality show ele servirá mais. Bem feito!

Para nós, brasileiros, não há novidade nenhuma em um economista inexistente estar no nascedouro do caos econômico criado por um presidente calamitoso: todos nos lembramos do filósofo inexistente que, em 2019, delineou as coordenadas básicas do desgoverno do presidente calamitoso daqui. 

Aquele não era um anagrama. Tinha certidão de nascimento, RG e passaporte. Mas, como filósofo, também era inexistente. Vivia de vender aos ingênuos empedernidos cursos de doutrinação manipulatórios e delirantes. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 10 de setembro de 2024

PARASITA DA VELHA POLÍTICA, BOLSONARO APENAS SURFAVA NA ENTROPIA DO OLAVO DE CARVALHO. PABLO MARÇAL NELA CRÊ

U
ltradireitista com carteirinha assinada, neto e admirador do Mário Andreazza (ministro dos Transportes que o ditador Figueiredo escolheu como sucessor mas, na convenção partidária do PDS, levou um chapéu do Paulo Maluf), Carlos Andreazza é quem melhor decifrou o fenômeno Pablo Marçal.

No programa Estadão analisa desta terça-feira (10), ele o decodificou como o mais extremado patrono do achincalhe geral, ao apostar todas as fichas na derrota/esculhambação do sistema.

Com intensidade sem precedente no Brasil, Andreazza encarna a promessa de retaliação ao que representariam os adversários, atores num velho teatro entre farsantes

Vote – não para eleger – para punir. Não por realizações estruturais de governo. Por forra instantânea. 

Daí o fascínio que desperta entre os náufragos da debacle capitalista: Muitos entre os que lhe votarão têm nada a perder, despedaçados pelo fim da classe média. Ressentidos de repente apaziguados sob a percepção de que a existência não ficará pior. Não pode piorar. E terão algum prazer.

Todo esse amargor niilista já estava presente na campanha eleitoral de Bolsonaro em 2018, mas não passava de um engodo, sendo o Bozo um político profissional com três décadas de mandatos legislativos nas costas, durante os quais assentara frondosa empresa familiar nas banhas do estado.

Pablo Marçal, sem tal limitação, seria o verdadeiro genérico da entropia pregada por Olavo de Carvalho, enquanto o palhaço psicopata não passaria de um similar oportunista.

Aonde leva esse furor vingativo? A prováveis vitórias eleitorais seguidas de fracassos catastróficos nas tentativas de governar países a partir de uma destruição indiscriminada. 

Daí todos os rebentos da nova direita estarem se revelando autênticas monstruosidades quando chegam ao poder.

Mas, por que eles têm vencido sucessivos embates contra a esquerda? Também aí não existe mistério nenhum. É porque a esquerda desistiu de superar o capitalismo e hoje atua apenas para dar-lhe sustentação e sobrevida, como mero serviçal do poder econômico  na agonizante democracia burguesa.

É ela quem poderia propor um passo adiante: a construção de uma sociedade que priorizasse o atendimento pleno das necessidades humanas ao invés do lucro. 

Mas, se não reagir em tempo, secundará a destruição da espécie humana pelo capitalismo, ao invés de servir-lhe de antidoto. (por Celso Lungaretti)
Obs. os trechos destacados em negrito são
reproduções exatas do artigo do Carlos Andreazza.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

EIS O MÍNIMO QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA NÃO SER UM IDIOTA OU, PIOR AINDA, O GURU DE UMA LEGIÃO DE IDIOTAS

O finado guru da Famiglia Corleonaro escreveu um livro sobre o que ele considerava ser o mínimo de conhecimento necessário para alguém não ser um idiota. 

Mas, só o adquiriram os que já eram idiotas. E, infelizmente, se tornaram mais idiotas ainda, muito mais! 

Então, estou tomando a liberdade de oferecer abaixo, grátis,  o meu antídoto, que serve também como vacina contra a idiotice. Garanto que os imunizados não sentirão mais vontade de andar para trás como os caranguejos, lamber coturnos de militares ou fazer badernaços na Praça dos Três Poderes. (CL)   

"OS GRANDES SÓ PARECEM GRANDES
PORQUE ESTAMOS AJOELHADOS" 

"Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, depositado, doutrinado, instituído, controlado, avaliado, apreciado, censurado, comandado por outros que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude.

Ser governado é ser, em cada operação, em cada transação, em cada movimento, notado, registrado, arrolado, tarifado, timbrado, medido, taxado, patenteado, licenciado, autorizado, apostilado, admoestado, estorvado, emendado, endireitado, corrigido.

É, sob pretexto de utilidade pública e em nome do interesse geral, ser pedido emprestado, adestrado, espoliado, explorado, monopolizado, abalado, pressionado, mistificado, roubado.

Depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa, reprimido, corrigido, vilipendiado, vexado, perseguido, injuriado, espancado, desarmado, estrangulado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, para não faltar nada, ridicularizado, zombado, ultrajado, desonrado. Eis o governo, eis sua justiça, eis sua moral!

E dizer que há entre nós democratas que pretendem que o governo prevaleça; socialistas que sustentam esta ignomínia em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade; proletários que admitem sua candidatura à presidência! Hipocrisia!" (Pierre-Joseph Proudhon).

"
Onde quer que tenha chegado ao poder, a burguesia destruiu todas as relações feudais, patriarcais e idílicas.

Dilacerou impiedosamente os variegados laços feudais que ligavam o ser humano a seus superiores naturais, e não deixou subsistir entre homem e homem outro vínculo que não o interesse nu e cru, o insensível pagamento em dinheiro.

Afogou nas águas gélidas do calculo egoísta os sagrados frêmitos da exaltação religiosa, do entusiasmo cavalheiresco e do sentimentalismo pequeno-burguês. 

Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e no lugar das inúmeras liberdades já reconhecidas e duramente conquistadas colocou unicamente a liberdade de comércio sem escrúpulos.

Numa palavra, no lugar da exploração mascarada por ilusões políticas e religiosas ela colocou um exploração aberta, despudorada, direta e árida." (Karl Marx e Friedrich Engels) 
.
"Aquele que botar as mão sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo." (Proudhon)

"Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo, de diversas maneiras. O que importa é transformá-lo." (Marx)

"Se o capitalismo é incapaz de satisfazer as reivindicações que surgem infalivelmente dos males que ele mesmo engendrou, então que morra!" (Leon Trotsky)

"A propriedade é o roubo." (Proudhon)

"De cada um, de acordo com suas habilidades, a cada um, de acordo com suas necessidades."(Marx e Engels)

"O primeiro homem que inventou de cercar uma parcela de terra e dizer isto é meu, e encontrou gente suficientemente ingênua para acreditar nisso, foi o autêntico fundador da sociedade civil. 

De quantos crimes, guerras, assassínios, desgraças e horrores teria livrado a humanidade se aquele, arrancando as cercas, tivesse gritado: Não, impostor!" (Jean-Jacques Rousseau)

"
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. 

Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempos de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar." (Bertold Brecht)

"A religião é o suspiro da criança acabrunhada, o coração de um mundo sem coração, assim como também o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo." (Marx)

"Pereça a pátria e salve-se a humanidade!" (Proudhon)

"Que meu país morra por mim!" (James Joyce)

"A revolução não é o convite para um jantar, a composição de uma obra literária, a pintura de um quadro ou a confecção de um bordado; ela não pode ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável e cortês, comedida e generosa. A revolução é uma insurreição, é um ato de violência pelo qual uma classe derruba a outra.(Mao Tsé-tung)

"A propriedade privada tornou-nos tão estúpidos e limitados que um objeto só é nosso quando o possuímos." (Marx)

"Os grandes só parecem grandes porque estamos ajoelhados." (Che Guevara)

terça-feira, 27 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 9: O LEVANTE VERDE E AMARELO


 O LEVANTE VERDE E AMARELO

Após a eclosão das manifestações, a mídia, vencida em sua primeira tática de incentivar a repressão, assume nova tática de disputar as pautas dos protestos e dividir os manifestantes entre bons e maus, ordeiros e baderneiros. Começam a surgir, nessa onda, manifestantes caracterizados de verde e amarelo e mesmo pedindo Intervenção Militar. 

Geralmente, a propaganda lulopetista foca a participação desses manifestantes para reforçar seu argumento falso de que Junho 2013 teria sido o ovo da Serpente do fascismo. Tal análise é incorreta por vários pontos de vista, mas peca por dois motivos principais.

O primeiro é desconsiderar a magnitude da presença desse grupo mais direitista nas ruas àquela época. Enquanto um grupo majoritariamente com idade superior a 35 anos, de alto rendimento e com ideais pró-mercado, a presença deles era em número reduzido caso comparado à massa de manifestantes, fato atestado por pesquisas dos próprios grupos de mídia realizadas durante as manifestações. A maioria absoluta dos manifestantes estava preocupada com questões sociais - transporte, educação, saúde - e era formada por estudantes.

A pauta anticorrupção foi introduzida pela
mídia burguesa

O segundo aspecto é não entender a processualidade histórica. A história é um terreno de possibilidades, com tendências que algumas vezes não se realizam, becos sem saída e acontecimentos com fins muito diferentes dos inicialmente colocados. Assim, é apenas se considerando a processualidade histórica que é possível entender como a Revolução Russa pôde terminar em Vladimir Putin ou como a Revolução Alemã conduziu ao fim à ascensão do Nazismo. 

Forças díspares disputam todo movimento político de massas e no meio do processo há a luta de classes, sempre colocando avanços e recuos. Uma intricada relação entre condições objetivas e subjetivas interagem complexamente para determinar para qual caminho se dirigirá o processo histórico. Ou seja, entre o começo de um processo e seu término existem diversos momentos responsáveis por determinar o caminho de fato seguido. 

Em outras épocas, essa análise da processualidade histórica era chamada de dialética, por levar em conta as complexas dinâmicas contraditórias que regem a história humana. Ela se opõe à análise mecânica, reducionista, que vê apenas uma linha direta entre o início de um acontecimento histórico e seu final. 

Assim, quem analisa a história por uma ótica mecânica acabará defendendo teses esdrúxulas de que o Iluminismo foi o responsável pelo Holocausto Nazista ou que a Revolução Francesa levou ao colonialismo. Embora de fato existam relações entre tais fenômenos, elas são contraditórias e sutis, não estando em uma dinâmica de causa e efeito igual um fenômeno da natureza. 

Igualmente, colocar uma linha reta entre Junho de 2013 e a ascensão bolsonarista é um equívoco porque desconsidera todo o processo contraditório existente naquele período. É efetuar uma análise mecânica, superficial e tola, recortando da história apenas uma faceta simplificadora. Contudo, por uma análise dialética é possível visualizar sim o aparecimento das forças de extrema-direita já naquele momento, embora de forma minoritária. 

Inicialmente minoritários, os verde e amarelo
assumiriam a liderança da luta política 

Na realidade, as forças de extrema-direita vinham se reorganizando no Brasil há anos. Tendo submergido após o fim da ditadura, nunca deixaram de existir por completo, ficando apenas abaixo do radar. Mas, conforme prova a influência de Olavo de Carvalho na internet no período, existia algo borbulhando por baixo da superfície. 

Contudo, quem galvanizava as forças reacionárias não era a extrema-direita, mas a mídia mediante campanhas moralistas. O tema da corrupção era batido diuturnamente contra o governo lulopetista e ganhou mais potência após o escândalo do Mensalão. Antes de Bolsonaro e sua trupe explorarem ad nauseam as fake news, a grande imprensa brasileira já fazia uso corriqueiro de histórias sensacionalistas e esdrúxulas, sempre com fundo moral, como é cabalmente atestado pela trajetória da revista Veja no período. 

Colunistas histriônicos eram bem-vindos não apenas para escrever, mas também para falar na Televisão e no Rádio. Indivíduos do porte de Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Roberto Guzzo, Carlos Sardenberg, entre outros, martelavam dia e noite o mantra da moralidade e do pensamento liberal. Até mesmo o desencarnado Olavo de Carvalho tinha lugar na grande mídia durante um período. 

O resultado era a formação de um caldo cultural, sobretudo na classe média e alta, conservador, focado na lógica moral e aderente aos valores da sociedade de mercado. Quando em 2013 as manifestações eclodem, a mídia burguesa já possuía um contingente populacional adestrado e pronto para tomar as ruas seguindo a pauta direitista. 

É por isso que a ação da Globo e demais grupos midiáticos conseguiu ser tão eficaz, pois sua pauta anticorrupção já ressoava em parte da população e mesmo seu discurso ordeiro e contrário à quebra radical da ordem fazia eco às pregações anteriores contra o perigo vermelho, a ameaça venezuelana ou mesmo a bagunça petista

Assim eram as capas da Veja
na década retrasada

Desse modo, convocados pela burguesia através da sua mídia, os manifestantes tomaram para si a tarefa de ir às ruas disputar a liderança do processo, mas não para golpear o capitalismo brasileiro, não para lutar por saúde, educação e transporte, ou mesmo contra a violência policial, mas para trazer o país de volta à ordem, para sanear a República e conduzir a nação de volta aos seus tempos brilhantes, em que não haviam black blocs, lutas sociais, e tão pouco direitos trabalhistas para empregadas domésticas, cotas raciais em universidades e pobres frequentando aeroportos. 

A partir da lógica aprendida dos grupos de mídia, todas essas coisas eram atribuídas ao governo petista, daí ser importante fazer a roda da história girar para trás, para antes de Lula e de Dilma, para antes da bagunça lulista. O que a fração dominante da burguesia não conseguiu ver, contudo, é que essa volta ao passado era vista por setores da extrema-direita não apenas como um retorno à era pré-PT, mas sim à era pré-democracia. Por isso, junto com a massa liberal, galvanizada pela mídia, também começou sair às ruas as viúvas de 1964, empoderando bandeiras em prol da Intervenção Militar no país, ou seja, de um golpe para reestabelecer o regime autocrático. 

A direita liberal e a extrema-direita possuíam pautas profundas em comum, sendo a imediata a salvação do país de um possível processo revolucionário. Para além disso, a luta contra o lulopetismo e por reformas liberais. Por isso, se uniram de forma estratégica em uma aliança que perduraria até o início do governo Bolsonaro quando, diante da possibilidade de serem engolidos pelo monstro, os liberais começaram a dissolver o pacto. 

No entanto, o ponto crucial é que em Junho de 2013 tais agrupamentos eram minoritários. Estavam nas ruas, disputavam a liderança e tentavam impor suas pautas, mas não tinham êxito, a ponto de logo começarem a recuar, reclamando do vandalismo e da falta de rumo do movimento. O que virou o jogo a favor deles foi a ação repressiva do governo Dilma que conseguiu conter o levante popular e, pela perseguição aos indivíduos mais mobilizados, desincentivou a continuidade dos atos. Somou-se a isso o pesado boicote promovido pelas organizações satélites do lulopetismo e as manifestações foram enxugando até minguarem de vez. 

Esmagado por Dilma, o Não Vai Ter Copa
foi o último suspiro da rebelião de 2013

Mas não desapareceram, pois o processo insurrecional e de descontentamento prosseguiu. Ele foi apenas transmutado de uma rebelião anticapitalista para uma mobilização conservadora e focada justamente nos pontos pautados pela mídia: luta contra a corrupção e medidas liberalizantes. Assim, já em 2014, após o rescaldo do fracassado movimento Não Vai Ter Copa, a direita, agora mais organizada e estruturada, saí às ruas pelo Impeachment de Dilma. Só puderam ocupar as praças públicas porque a própria ex-presidente as deixou vazias, prontas para serem tomadas pela massa de verde e amarelo antes minoritária. 

A história, conforme já vimos muitas vezes, é também irônica. (por David Emanuel Coelho) 

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. DILMA NO LABIRINTO 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE NACIONAL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA




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