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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

A ASCENSÃO MILITARISTA AO PODER POLÍTICO COMEÇOU NO PRIMEIRO GOVERNO LULA

 

Já anteriormente à posse, a relação entre o governo Lula e os militares não era a mais cordial, a ponto de comandantes das três forças passarem o bastão antes do dia primeiro justamente para escaparem do dever de prestar continência ao novo presidente. 

Porém, desde a insurreição bolsonarista do dia oito, a animosidade cresceu ainda mais, sobretudo com revelações de apoio de alguns membros da caserna aos militantes, seja os diretamente partícipes dos ataques à Praça dos Três Poderes, seja os durante meses acampados em frente aos quartéis. 

As raízes desta questão militar, no entanto, ainda devem ser melhor compreendidas. Alguns buscam sua origem na ditadura militar e na ausência de julgamento aos torturadores e usurpadores do poder daqueles vinte e um anos de obscuridade. De fato, este elemento é importante a ser considerado, mas seria incorreto localizar nele a erupção recente da politização fardada. Em realidade, de forma irônica, o contexto atual tem muito mais a ver com o papel desempenhando pelas forças durante os 13 anos de lulopetismo. 

Antes de derrubarem a monarquia, Floriano e seus comandados eram 
enviados para capturar escravos fugitivos 
Alguém disse - acredito que Raymundo Faoro - que os militares no Brasil saem dos quartéis não por conta própria, mas puxados pelas mãos civis. Realmente, quando se analisa a história nacional, é possível visualizar não ser a autoideia do poder moderador uma simples crença nascida na ociosidade aquartelada. Ela possui um eco na própria sociedade civil, razão, inclusive, da existência de milhares de patriotas acampados país afora. 

Após o fim da ditadura, os militares, desmoralizados e troçados, recolheram-se à caserna, de lá saindo em ocasiões muito excepcionais de greves da polícias. Já este uso do exército para tapar greves era algo complexo e delicado, mas diante do quadro crítico de insegurança social não restava muita alternativa.

A situação começa a mudar de figura quando Lula decide dar mais atribuições aos militares. Desejando projetar-se internacionalmente enquanto uma força geopolítica, o presidente aceita para o Brasil o papel de interventor principal no Haiti e determina às Forças Armadas o comando da Missão de Paz naquele país.

É curioso pensarmos no fluxo histórico das palavras. Intervenção primeiro apareceu no vocabulário para designar a ação brasileira de agir na crise haitiana - crise de dois séculos e um pouco já analisada neste post - para transformar-se agora em súplica da extrema-direita por um golpe militar. No meio do caminho, contudo, outras intervenções ocorreram, como as das favelas cariocas e a da segurança do Rio. 

Quando se analisam os nomes da ocupação brasileira do Haiti é como se estivéssemos vendo os componentes do finado governo Bolsonaro. Entre os de destaque estão:

                   Augusto Heleno;

No Haiti, as forças brasileiras foram
acusadas de cometer inúmeros abusos
 Carlos  dos Santos Cruz;

Floriano Peixoto Vieira Neto;

Edson Leal Pujol;

 Luís Eduardo Ramos

 Fernando Azevedo e Silva;

 Tarcísio de Freitas,

Otávio Rêgo Barros;

Augusto Heleno, inclusive, possui uma trágica passagem, tendo saído do comando das tropas após massacre de moradores da favela Cité Soleil, na capital haitiana, Porto Príncipe. Pelo menos 63 pessoas morreram na invasão das forças militares à comunidade e Heleno acabou retirado do comando das operações, após pressão das Nações Unidas.

Não seria exagero afirmar ter sido a operação de Paz no Haiti o grande início do retorno militar à vida política e social brasileira, inclusive, com a futura conformação do governo do ex-presidente fujão. Para isso, no entanto, o Haiti foi apenas o começo da jornada, contando com outras etapas importantes em solo nacional. 

Certamente, dentro destas etapas está o uso dos militares para a segurança pública rotineira. Lula deu novo passo e mudou a escala de atuação das Forças neste quesito, pois agora não se tratava mais de suprir a força policial em caso de greve, mas de simplesmente a substituir por completo através de intervenções em comunidades e da decretação de atos de GLO (Garantia da Lei e da Ordem).

Como não esquecer as apoteóticas cenas de tanques da marinha invadindo os morros do Rio de Janeiro, sob aplausos da classe média? Naquele momento, Lula socorreu o dileto Sérgio Cabral em seu plano mirabolante de pacificar comunidades com ocupações militares, as famigeradas UPPs. Ora, pacificar era exatamente o que faziam as Forças Armadas no Haiti, então por que não poderiam fazer o mesmo também em seu próprio território?

Lula não se importou em jogar tanques da Marinha
contra os moradores da Favela do Alemão em 2010
Depois disso ainda viria a ocupação da Maré, já sob o governo reacionário, pós Junho de 2013, de Dilma Rousseff. Ali, o exército assumiu por completo o papel de força policial em momento em que os rescaldo das manifestações do último ano ainda eram sentidas na cidade do Rio de Janeiro. 

Neste ínterim, dona Dilma articulou com os militares a criação de um avançado sistema de vigilância, sobretudo cibernética, para ser acionado no período da Copa do Mundo e das Olímpiadas, e cujo maior objetivo era monitorar manifestações e, claro, terroristas. 

Mas o maior feito deste período é quando o governo da ex-presidente entrega aos fardados não apenas a organização da Olímpiada, mas também o treinamento de inúmeros atletas. Afinal, em um país onde a política esportiva é zero, os sedentários militares é que possuem a maior expertise em atividades físicas. Resultou daí as cenas vergonhosas de atletas batendo continência nos pódios após cada medalha. 

Esta vergonha é eterna

Deste modo, entronizou-se o militarismo na vida cotidiana brasileira, através de seu uso generalizado não apenas na segurança pública, mas também na própria administração. Criava-se o mito do exército eficiente, bom para combater bandido e também para tomar conta da máquina estatal. Todo o desastre de vinte e um anos de ditadura começou a virar apenas uma sombra perdida no tempo e, quando Temer assumiu, tratou logo de buscar ancoragem no oficialato, os colocando em postos importantes do governo e chegando ao ápice com a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. 

Neste ponto, os militares já possuíam seu próprio plano de voo solo e tinham determinado o nome do azarão capaz de leva-los de volta ao topo: Jair Bolsonaro. Isto porque enquanto os civis se digladiavam pelo poder durante o impeachment, os oficiais já haviam antevisto desde 2013 o fluxo dos acontecimentos, pois desde aquela época já existiam indivíduos nas ruas pedindo a Intervenção Militar e alguns outros já começavam a acampar em frente aos quartéis, se destacando entre as lideranças do momento um certo deputado do baixíssimo clero que, apesar de nulo na política tradicional, era sucesso de audiência televisiva e agregava seguidores em massa na internet. 

Desde o começo da década passada, Bolsonaro
 animava as noites da TV brasileira
Ao contrário do lulopetismo, os militares já sabiam que o futuro agora passava pelas ruas e não mais pelos salões, voltando a extrema-direita a ser um fenômeno de massas no Brasil. Nesta, sem alardes, eles embarcaram em um processo sinuoso de acúmulo de forças para retorno ao governo não por meio de uma quartelada, mas pelo voto popular, repetindo, em outra perspectiva e situação, o feito de Hermes da Fonseca em 1910.

Mas, o que querem os militares? Até onde se sabe, para além da velha doutrina de segurança imposta pelos EUA e do eterno papel de força contrarrevolucionária - o povo brasileiro é o único inimigo das Forças Armadas do Brasil -, os militares não possuem qualquer projeto para o país. Acertaram-se com o neoliberalismo e até se orgulham de nossa condição neoextrativista. 

Acampados de hoje já estão por aí há tempos
Ao que parece, portanto, no final, eles apenas buscam ser mais uma facção burguesa a disputar o controle do leme estatal, com todas as benesses daí advindas. E, para conseguirem, contam com a ajuda de uma massa de civis reacionários. 

O lulopetismo, assim, aparece ao militarismo muito mais enquanto um competidor. Nesta seara da luta intestinal burguesa muito ainda irá acontecer, mas o fato é que a nova questão militar tem o dedo podre do lulopetismo em sua gênese. (por David Emanuel Coelho) 


 

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

SE TANTOS PAÍSES PADECEM DAS MESMAS DIFICULDADES EM GRAU MAIOR OU MENOR, CULPE-SE O MODELO NELES ADOTADO – 2

(continuação deste post)
J
air Bolsonaro é cria de um povo que,  amargurado, acreditou numa  lorota martelada por meio das novas mídias de comunicação eletrônica: a de que ele falava a verdade ao, após passar toda sua trajetória na Câmara Federal ao lado do famigerado centrão (acaba, aliás, de reconhecer que tal pocilga  sempre foi seu habitat), declarar-se um outsider na política. 

O Paulo Maluf, que no próximo dia 3 se tornará um combalido nonagenário, se continuava capaz de acompanhar o noticiário diário, deve ter rido mais ainda do que na foto ao lado...

A miséria e o desespero nunca foram boas companheiras. 

Mentiras demagógicas, ainda que momentaneamente consigam enganar o povo, depois são analisadas e suas consequências, sentidas, provocando o desprezo a quem lhe diz uma coisa mas pratica o exato contrário. É como diz um velho provérbio chinês “um exemplo vale mais do que mil palavras”.

Agora mesmo vimos um novo terremoto atingindo o Haiti nesta 4ª feira (18), após o país ter sido devastado por um congênere de grande magnitude no sábado (14) e pelo ciclone tropical Grace na 2ª feira (16). Com certeza as mudanças do clima têm influência nos dois fenômenos, e incidem justamente sobre um povo oprimido e levado à miséria por uma ordem social internacional desumana que lhes cobra civilidade. Hipocrisia pura!!! 
A economia chinesa ainda cresce, mas cada vez menos 
Mas a agressão ecológica não é seletiva, como o é o capital. E é por isto que as florestas da Califórnia ardem em fogo, destruindo as mansões de bilionários nos arredores; enchentes na Alemanha; chamas no Canadá e até na Sibéria, e por aí vai... 

No campo da economia vemos a China desacelerar o seu crescimento, o que acontece por dois fatores: 
1 – há uma incompatibilidade entre necessidade de crescimento econômico contínuo que tende ao infinito e a capacidade matemática de expansão deste crescimento de modo empírico em face do limite do consumo físico e econômico de mercadorias pelos seres humanos, cujo consumo de mercadorias é previamente delimitado; 
2 – estamos, ainda, sob o espectro de uma pandemia renitente com a mutação de vírus que ficam cada vez mais resistentes aos antibióticos e vacinas, sendo seu combate incompatível com a lógica utilitária (e ecologicamente predatória) do capitalismo.

A China com sua colossal dívida, um trem veloz e sem freio em direção ao coração do capitalismo bancário mundial, tende a descarrilar e provocar um acidente financeiro sem precedentes no sistema bancário internacional. 

E é acintosa a capacidade dos países do G7 de darem alguma proteção aos seus cidadãos diante da depressão econômica mundial usando a manipulação dos padrões monetários dominantes (principalmente o dólar estadunidense, moeda internacional), no sentido de garantir-lhes sobrevida até uma suposta melhora da economia mundial, enquanto abandonam à própria sorte os cidadãos dos países da periferia capitalista. 
Haiti: calamidade dia sim, dia não!
O Afeganistão é o exemplo mais atual e visível desta tragédia, com seus cidadãos e cidadãs cometendo suicídio diante da barbárie que está sendo anunciada pela tomada do poder pelos jihadistas talibãs.

E o que dizer da nossa vizinha, a Argentina? Há 60 anos era considerada sofisticada e rica, mas hoje está cheia de pedintes percorrendo as ruas de sua outrora pujante capital (Buenos Aires) e com uma renitente depressão econômica que dura mais de duas décadas, enquanto se sucedem governos à direita e à esquerda, como num pêndulo que se move, mas não sai do mesmo lugar.

O retrato dos povos da América do Sul é deprimente: 
— a Venezuela se tornou exportadora de indígenas que perambulam pelo Brasil e outros países, bem como de exilados advindos de todos os estratos sociais daquele país dito socialista embora mantenha regras capitalistas de mediação social e tutela militar corrupta; 
— o Paraguai virou um centro exportador de contrabando de mercadorias chinesas e de outros países, além de escoadouro e exílio para criminosos comuns; 
Evo Morales já pegou carona no mito Guevara, mas decerto
o teria entregado à sanha dos inimigos, como fez com Battisti
 
— a Bolívia acaba de repatriar Evo Morales dentro dessa busca de soluções num figurino fadado ao fracasso (e ainda sendo de uma laia de esquerdista que entregam perseguidos socialistas aos seus algozes capitalistas); 

— o Chile do conservador Sebastian Piñera, com uma população insatisfeita, tenta uma constituinte que revogue os resquícios da carta nada magna promulgado durante a ditadura do assassino Augusto Pinochet, incrivelmente ainda vigente; 
— na Colômbia, Peru e Equador são frequentes as manifestações de insatisfações populares, denúncias de corrupção, entra-e-sai de governantes, e tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. 

O modelo de mediação social de um país pode ser interpretado como ruim apenas pelo fato de o poder estar sendo exercido por um governante desequilibrado e incapaz (como o genocida brasileiro, que só agrava os problemas sociais seculares). Isto reduziria o problema à mera questão do gerenciamento político-administrativo por parte deste ou daquele indivíduo. 

Mas, se todos as nações padecem das mesmas dificuldades (umas mais, outras menos, mas sofrendo todas), a culpa é do modelo generalizadamente adotado.  

Por toda parte reina a insatisfação popular. Tal constatação nos remete à certeza de que padecemos sob modelos econômicos one world anacrônicos, que somente se diferenciam nos modelos políticos de governabilidade, num prova inconteste de que vivemos as dores do parto de uma nova era. 
Até quando teremos de sofrer em
função da agonia do capitalismo?
Marx disse, acertadamente, que as revoluções são o motor da história; acrescento que a insatisfação é o móvel das revoluções.

E repito: a questão não é de forma, mas de conteúdo.

Quiçá possamos usar os conhecimentos, instrumentos tecnológicos e ensinamentos históricos à nossa disposição para podermos proporcionar aos seres humanos do presente e do futuro uma vida que seja digna da sua condição humana!

Mas temos de agir depressa, porque a natureza já não nos aguenta mais! (por Dalton Rosado)
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