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sexta-feira, 19 de julho de 2024

OS SAPATOS DE TRUMP

 

Já passei em revista numerosas informações sobre o atentado contra o ex-presidente Donald Trump, o décimo sexto atentado de uma série iniciada com o assassinato do presidente Abraham Lincoln, mas não achei explicações conclusivas para um pormenor talvez supérfluo.

Não se trata de incluir aqui uma homenagem póstuma ao Sérgio Cabral pai, falecido no domingo, criador junto com Jaguar e Tarso de Castro do jornal Pasquim, em 1969, com o qual cheguei a colaborar de Paris. Mas até que poderia ser.

Quem viu os primeiros vídeos, logo depois do atentado, vai se lembrar. Tão logo Trump se abaixou e foi envolvido pelos agentes do FBI para ser protegido e retirado do local, ouve-se a voz do ex-presidente, ainda de cabeça baixa, enquanto parece resistir aos agentes para procurar alguma coisa - "where are my shoes?" (onde estão meus sapatos?) e querendo calçar os sapatos.

Só depois do gesto de uma agente do FBI se abaixar e pegar alguma coisa, no caso o referido sapato, Trump se ergue, levanta a cabeça, mostra o punho cerrado e convoca seus seguidores para a luta dizendo um "fight!". Ainda bem para Trump, pois se insistisse em procurar ou colocar o sapato, sua frase no vídeo distribuído no mundo inteiro seria "Onde estão meus sapatos?", digna de participar da mesma campanha de descrédito de Biden por seus esquecimentos e trocas de nomes.

Passado o susto, acalmados os ânimos, desapareceu dos vídeos a preocupação de Trump por seus sapatos! Uma espécie de mini-censura para limpar o vídeo de uma coisa tão insignificante. Mesmo porque algum democrata poderia vir com um piadinha - "e a agente do FBI lavou as mãos depois de pegar o sapato do Trump?".

Entretanto, antes de prosseguirmos, vou contar talvez um outro pormenor secundário ou insignificante nessa história trágica bem estadunidense, de armas, atentados e mortes, na qual morreram duas e ficaram feridas outras duas pessoas. No local do atentado, no tablado vermelho onde falara Trump, depois de removidos o ex-presidente ferido no alto da orelha, o morto, os feridos e os policiais protetores agentes do FBI, ficou solitário um sapato preto clássico inglês de laços, Oxford, marca tradicional de origem inglesa. Com a confusão, arrastado pelos agentes do FBI, Trump não teve tempo para calçá-lo e com um só sapato foi de meia mancando ao carro que o levou ao hospital.

Talvez esse pormenor não seja assim tão insignificante. Senão vejamos: Reinaldo Azevedo no Uol diz ter havido um erro de meio centímetro por parte do jovem atirador Thomas Matthew Crooks, na sua tentativa de matar o próximo presidente dos EUA. Qual teria sido a causa desse erro? Ele era míope? Sim, tanto que usava óculos.

Nas investigações feitas sobre Crooks se descobriu, além de ser um rapaz inteligente em matemática e ciência, ter um gosto pelas armas. Isso nada tem de repreensível nos EUA onde todo mundo pode ter revólveres, fuzis, cartuchos de balas em casa à vontade, onde é tão fácil comprar armas como cigarros. Razão pela qual - e isso pode parecer absurdo - Crooks tentou fazer parte da equipe de atiradores de carabina no seu liceu ou ginásio Bethel Park. Tentou, mas não conseguiu por ser mau atirador ou ruim de pontaria.

A reprovação como atirador no seu ginásio poderia ter sido miopia, mas o ligeiro erro no atentado ao ex-presidente poderia ter sido também consequência de um certo nervosismo causador de tremor nas mãos, fazendo desviar os tiros de alguns milímetros ou meio centímetro do foco da cabeça de Trump e acertar em pessoas próximas, matando uma e ferindo outras duas. Mas poderia também ter sido o sapato de Trump...

Quem pode retornar às primeiras imagens do atentado, ou gravou no celular ou computador as primeiras imagens divulgadas ao vivo pelas reportagens de TV no local, poderá comprovar não haver mais, nos vídeos recentes do atentado, os cartazes trumpistas erguidos atrás e ao lado de Trump por seus seguidores com as palavras "Joe Biden you are fired" (Joe Biden você está demitido). E nem ouvirá o ex-presidente Trump perguntando por seus sapatos, querendo recuperá-los e calçá-los antes de ser arrastado do local pelos agentes do FBI.

Alguém poderia comentar - "mas depois de sofrer um atentado é hora de se preocupar com seus sapatos?" Ora, pelo jeito, Trump não queria ser visto de meias por seus seguidores! Mas por que estava sem sapatos se os sapatos Oxford são considerados ultra-confortáveis? Ora, o sapato de Trump deixado no local do atentado não tem salto e nem reforço interno escondido para aumentar seu tamanho, como fazem certos políticos de pequena estatura.  Mesmo porque Trump não precisa disso, pois tem 1,90m de altura.

Será que Trump costuma descalçar os pés ao fazer seus discursos? Seria um par de sapatos novos e ainda um tanto apertados? Ou, ao contrário, os sapatos eram largos, fáceis de descalçar como um mocassim, e saíram dos seus pés quando Trump foi jogado ao chão pelos agentes do FBI? E, neste caso, por que usar sapatos largos? Tem pés inchados, joanetes, unha encravada ou dores nos pés?

Uma coisa é certa, Trump não queria ser flagrado pela TV de meias ou mancando por falta de sapatos. Vaidoso, imaginava mesmo naquele instante tenso, que isso poderia ferir sua imagem - herói não é para ser fotografado de meias!

Enfim, existe a hipótese de Trump ter tirado os sapatos como se fossem mocassins, enquanto discursava, usando os calcanhares, justamente no momento de ser alvejado, saindo fora do alvo pela falta de um centímetro da sola e salvando assim sua vida. Ao que se saiba, os agentes do FBI não voltaram para recuperar o sapato Oxford deixado no tablado, documentado por alguns fotógrafos, até desaparecer levado como troféu por algum trumpista. (por Rui Martins)

domingo, 26 de novembro de 2023

HÁ MAIS DE VINTE ANOS UM ATENTADO TIRAVA A VIDA DO DIPLOMATA SÉRGIO VIEIRA DE MELLO

 


Diante de tantas mortes e convulsões provocadas por mais uma guerra no Oriente Médio, cujo estopim foi um enorme e amplo atentado cometido por uma organização terrorista - não entro nas discussões sobre bom e mau atentado -, me lembrei de outro atentado, cometido há 20 anos em Bagdá, no começo da guerra do Iraque, contra a sede das Nações Unidas. Nele morreu o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello

No começo deste século eu não dispunha de muito tempo para escrever comentários, vivia correndo como repórter freelancer para jornais, rádios e mesmo para as próprias organizações ligadas à ONU quando, numa viagem, num evento especial, precisavam de um jornalista de língua portuguesa. Foi assim que conheci Sérgio Vieira. Ia com frequência à sede do Alto Comissariado e devo ter feito algumas viagens com ele, que era alguém bastante comunicativo e social.

A morte de Vieira de Mello foi um choque em Genebra. Ainda jovem, com 54 anos, formado em filosofia na Sorbonne, ativo, preocupado com os povos desamparados e desorientados, vivendo na miséria depois de cataclismas e guerras, Sérgio, como era chamado em Genebra, sabia das dificuldades da ONU para impedir e solucionar conflitos. Depois de ter agido em missão especial no Camboja, Bangladesh, Kosovo e Sudão, tinha sido administrador, por três anos, da ONU no Timor Leste.

Pouco antes da crise no Iraque, ele  havia desenvolvido a tese de que havia uma relação direta entre a segurança mundial e o respeito aos direitos humanos. A violação flagrante dos direitos humanos é a detonadora das crises internas nos países e as crises internacionais.

Os que conheceram Sérgio e seus projetos para tornar a organização internacional mais eficaz não têm dúvida de que hoje o alto comissário brasileiro teria chegado ao posto de secretário-geral da ONU. Não era um político e nem um funcionário de carreira, mas uma personalidade marcante preocupada em construir a paz com justiça.

Fato raro, a morte de Sérgio Vieira de Mello foi seguida da publicação de diversos livros escritos por jornalistas que acompanhavam suas atividades e projetos em Genebra.

Um dos livros mais conhecidos é Chasing the Flame, de Samantha Power, jornalista norte-americana de origem irlandesa, defensora dos direitos humanos, cujos estudos em Harvard, militância política e carreira universitária, a levaram ao cargo de embaixadora dos EUA junto às Nações Unidas, tendo dele saído após a eleição de Donald Trump. O livro se transformou, em 2020, num filme com o título Sérgio: a luta de um homem para salvar o mundo, com Wagner Moura no papel principal.

Na exibição do filme, a revista Veja publicou texto sobre o que teria precedido o atentado no Hotel Canal, onde funcionava a ONU: o objetivo da missão diplomática de Vieira de Mello era conduzir o Iraque a eleições democráticas, depois de anos da ditadura de Saddam Hussein, a partir de uma constituição escrita por iraquianos. A intervenção norte-americana, vista 20 anos depois, foi catastrófica e provocou a ascensão do Estado islâmico.

Outro livro importante – Sérgio, uma esperança explodida – foi o de Jean-Claude Bührer com Claude B. Levenson, ambos jornalistas em Genebra à época, no qual José Ramos-Horta, Prêmio Nobel a paz em 1996, e ministro das Relações Exteriores do Timor Leste, comentou: O atentado contra a sede da ONU em Bagdá, que custou a vida do brasileiro, enviado por Kofi Annan, não só deixou o Iraque cair lentamente na violência, como decapitou o alto Comissariado pelos Direitos Humanos.

Ainda em 2016, a porta-voz de Sérgio na ONU, Annick Stevenson, publicou, junto com um ex-Alto Comissário para Refugiados, George Gordon-Lennox, o livro Sérgio Vieira de Mello, um homem excepcional. Para eles, Sérgio é o único ícone que jamais teve a ONU. Sua morte trágica significou que a própria ONU tinha também se tornado alvo de atentados. Sérgio foi a Bagdá, por mandato do Conselho de Segurança, com um projeto: evitar que a invasão e ocupação americana transformassem o Iraque numa anarquia e desestabilizassem o Oriente Médio.

Hoje, vinte anos depois, embora numa situação e quadros diferentes, a pergunta é a mesma: como irão viver amanhã os palestinos de Gaza e Cisjordânia com seus vizinhos israelenses? (por Rui Martins) 


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