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terça-feira, 27 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 9: O LEVANTE VERDE E AMARELO


 O LEVANTE VERDE E AMARELO

Após a eclosão das manifestações, a mídia, vencida em sua primeira tática de incentivar a repressão, assume nova tática de disputar as pautas dos protestos e dividir os manifestantes entre bons e maus, ordeiros e baderneiros. Começam a surgir, nessa onda, manifestantes caracterizados de verde e amarelo e mesmo pedindo Intervenção Militar. 

Geralmente, a propaganda lulopetista foca a participação desses manifestantes para reforçar seu argumento falso de que Junho 2013 teria sido o ovo da Serpente do fascismo. Tal análise é incorreta por vários pontos de vista, mas peca por dois motivos principais.

O primeiro é desconsiderar a magnitude da presença desse grupo mais direitista nas ruas àquela época. Enquanto um grupo majoritariamente com idade superior a 35 anos, de alto rendimento e com ideais pró-mercado, a presença deles era em número reduzido caso comparado à massa de manifestantes, fato atestado por pesquisas dos próprios grupos de mídia realizadas durante as manifestações. A maioria absoluta dos manifestantes estava preocupada com questões sociais - transporte, educação, saúde - e era formada por estudantes.

A pauta anticorrupção foi introduzida pela
mídia burguesa

O segundo aspecto é não entender a processualidade histórica. A história é um terreno de possibilidades, com tendências que algumas vezes não se realizam, becos sem saída e acontecimentos com fins muito diferentes dos inicialmente colocados. Assim, é apenas se considerando a processualidade histórica que é possível entender como a Revolução Russa pôde terminar em Vladimir Putin ou como a Revolução Alemã conduziu ao fim à ascensão do Nazismo. 

Forças díspares disputam todo movimento político de massas e no meio do processo há a luta de classes, sempre colocando avanços e recuos. Uma intricada relação entre condições objetivas e subjetivas interagem complexamente para determinar para qual caminho se dirigirá o processo histórico. Ou seja, entre o começo de um processo e seu término existem diversos momentos responsáveis por determinar o caminho de fato seguido. 

Em outras épocas, essa análise da processualidade histórica era chamada de dialética, por levar em conta as complexas dinâmicas contraditórias que regem a história humana. Ela se opõe à análise mecânica, reducionista, que vê apenas uma linha direta entre o início de um acontecimento histórico e seu final. 

Assim, quem analisa a história por uma ótica mecânica acabará defendendo teses esdrúxulas de que o Iluminismo foi o responsável pelo Holocausto Nazista ou que a Revolução Francesa levou ao colonialismo. Embora de fato existam relações entre tais fenômenos, elas são contraditórias e sutis, não estando em uma dinâmica de causa e efeito igual um fenômeno da natureza. 

Igualmente, colocar uma linha reta entre Junho de 2013 e a ascensão bolsonarista é um equívoco porque desconsidera todo o processo contraditório existente naquele período. É efetuar uma análise mecânica, superficial e tola, recortando da história apenas uma faceta simplificadora. Contudo, por uma análise dialética é possível visualizar sim o aparecimento das forças de extrema-direita já naquele momento, embora de forma minoritária. 

Inicialmente minoritários, os verde e amarelo
assumiriam a liderança da luta política 

Na realidade, as forças de extrema-direita vinham se reorganizando no Brasil há anos. Tendo submergido após o fim da ditadura, nunca deixaram de existir por completo, ficando apenas abaixo do radar. Mas, conforme prova a influência de Olavo de Carvalho na internet no período, existia algo borbulhando por baixo da superfície. 

Contudo, quem galvanizava as forças reacionárias não era a extrema-direita, mas a mídia mediante campanhas moralistas. O tema da corrupção era batido diuturnamente contra o governo lulopetista e ganhou mais potência após o escândalo do Mensalão. Antes de Bolsonaro e sua trupe explorarem ad nauseam as fake news, a grande imprensa brasileira já fazia uso corriqueiro de histórias sensacionalistas e esdrúxulas, sempre com fundo moral, como é cabalmente atestado pela trajetória da revista Veja no período. 

Colunistas histriônicos eram bem-vindos não apenas para escrever, mas também para falar na Televisão e no Rádio. Indivíduos do porte de Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Roberto Guzzo, Carlos Sardenberg, entre outros, martelavam dia e noite o mantra da moralidade e do pensamento liberal. Até mesmo o desencarnado Olavo de Carvalho tinha lugar na grande mídia durante um período. 

O resultado era a formação de um caldo cultural, sobretudo na classe média e alta, conservador, focado na lógica moral e aderente aos valores da sociedade de mercado. Quando em 2013 as manifestações eclodem, a mídia burguesa já possuía um contingente populacional adestrado e pronto para tomar as ruas seguindo a pauta direitista. 

É por isso que a ação da Globo e demais grupos midiáticos conseguiu ser tão eficaz, pois sua pauta anticorrupção já ressoava em parte da população e mesmo seu discurso ordeiro e contrário à quebra radical da ordem fazia eco às pregações anteriores contra o perigo vermelho, a ameaça venezuelana ou mesmo a bagunça petista

Assim eram as capas da Veja
na década retrasada

Desse modo, convocados pela burguesia através da sua mídia, os manifestantes tomaram para si a tarefa de ir às ruas disputar a liderança do processo, mas não para golpear o capitalismo brasileiro, não para lutar por saúde, educação e transporte, ou mesmo contra a violência policial, mas para trazer o país de volta à ordem, para sanear a República e conduzir a nação de volta aos seus tempos brilhantes, em que não haviam black blocs, lutas sociais, e tão pouco direitos trabalhistas para empregadas domésticas, cotas raciais em universidades e pobres frequentando aeroportos. 

A partir da lógica aprendida dos grupos de mídia, todas essas coisas eram atribuídas ao governo petista, daí ser importante fazer a roda da história girar para trás, para antes de Lula e de Dilma, para antes da bagunça lulista. O que a fração dominante da burguesia não conseguiu ver, contudo, é que essa volta ao passado era vista por setores da extrema-direita não apenas como um retorno à era pré-PT, mas sim à era pré-democracia. Por isso, junto com a massa liberal, galvanizada pela mídia, também começou sair às ruas as viúvas de 1964, empoderando bandeiras em prol da Intervenção Militar no país, ou seja, de um golpe para reestabelecer o regime autocrático. 

A direita liberal e a extrema-direita possuíam pautas profundas em comum, sendo a imediata a salvação do país de um possível processo revolucionário. Para além disso, a luta contra o lulopetismo e por reformas liberais. Por isso, se uniram de forma estratégica em uma aliança que perduraria até o início do governo Bolsonaro quando, diante da possibilidade de serem engolidos pelo monstro, os liberais começaram a dissolver o pacto. 

No entanto, o ponto crucial é que em Junho de 2013 tais agrupamentos eram minoritários. Estavam nas ruas, disputavam a liderança e tentavam impor suas pautas, mas não tinham êxito, a ponto de logo começarem a recuar, reclamando do vandalismo e da falta de rumo do movimento. O que virou o jogo a favor deles foi a ação repressiva do governo Dilma que conseguiu conter o levante popular e, pela perseguição aos indivíduos mais mobilizados, desincentivou a continuidade dos atos. Somou-se a isso o pesado boicote promovido pelas organizações satélites do lulopetismo e as manifestações foram enxugando até minguarem de vez. 

Esmagado por Dilma, o Não Vai Ter Copa
foi o último suspiro da rebelião de 2013

Mas não desapareceram, pois o processo insurrecional e de descontentamento prosseguiu. Ele foi apenas transmutado de uma rebelião anticapitalista para uma mobilização conservadora e focada justamente nos pontos pautados pela mídia: luta contra a corrupção e medidas liberalizantes. Assim, já em 2014, após o rescaldo do fracassado movimento Não Vai Ter Copa, a direita, agora mais organizada e estruturada, saí às ruas pelo Impeachment de Dilma. Só puderam ocupar as praças públicas porque a própria ex-presidente as deixou vazias, prontas para serem tomadas pela massa de verde e amarelo antes minoritária. 

A história, conforme já vimos muitas vezes, é também irônica. (por David Emanuel Coelho) 

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. DILMA NO LABIRINTO 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE NACIONAL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA




quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

A ASCENSÃO MILITARISTA AO PODER POLÍTICO COMEÇOU NO PRIMEIRO GOVERNO LULA

 

Já anteriormente à posse, a relação entre o governo Lula e os militares não era a mais cordial, a ponto de comandantes das três forças passarem o bastão antes do dia primeiro justamente para escaparem do dever de prestar continência ao novo presidente. 

Porém, desde a insurreição bolsonarista do dia oito, a animosidade cresceu ainda mais, sobretudo com revelações de apoio de alguns membros da caserna aos militantes, seja os diretamente partícipes dos ataques à Praça dos Três Poderes, seja os durante meses acampados em frente aos quartéis. 

As raízes desta questão militar, no entanto, ainda devem ser melhor compreendidas. Alguns buscam sua origem na ditadura militar e na ausência de julgamento aos torturadores e usurpadores do poder daqueles vinte e um anos de obscuridade. De fato, este elemento é importante a ser considerado, mas seria incorreto localizar nele a erupção recente da politização fardada. Em realidade, de forma irônica, o contexto atual tem muito mais a ver com o papel desempenhando pelas forças durante os 13 anos de lulopetismo. 

Antes de derrubarem a monarquia, Floriano e seus comandados eram 
enviados para capturar escravos fugitivos 
Alguém disse - acredito que Raymundo Faoro - que os militares no Brasil saem dos quartéis não por conta própria, mas puxados pelas mãos civis. Realmente, quando se analisa a história nacional, é possível visualizar não ser a autoideia do poder moderador uma simples crença nascida na ociosidade aquartelada. Ela possui um eco na própria sociedade civil, razão, inclusive, da existência de milhares de patriotas acampados país afora. 

Após o fim da ditadura, os militares, desmoralizados e troçados, recolheram-se à caserna, de lá saindo em ocasiões muito excepcionais de greves da polícias. Já este uso do exército para tapar greves era algo complexo e delicado, mas diante do quadro crítico de insegurança social não restava muita alternativa.

A situação começa a mudar de figura quando Lula decide dar mais atribuições aos militares. Desejando projetar-se internacionalmente enquanto uma força geopolítica, o presidente aceita para o Brasil o papel de interventor principal no Haiti e determina às Forças Armadas o comando da Missão de Paz naquele país.

É curioso pensarmos no fluxo histórico das palavras. Intervenção primeiro apareceu no vocabulário para designar a ação brasileira de agir na crise haitiana - crise de dois séculos e um pouco já analisada neste post - para transformar-se agora em súplica da extrema-direita por um golpe militar. No meio do caminho, contudo, outras intervenções ocorreram, como as das favelas cariocas e a da segurança do Rio. 

Quando se analisam os nomes da ocupação brasileira do Haiti é como se estivéssemos vendo os componentes do finado governo Bolsonaro. Entre os de destaque estão:

                   Augusto Heleno;

No Haiti, as forças brasileiras foram
acusadas de cometer inúmeros abusos
 Carlos  dos Santos Cruz;

Floriano Peixoto Vieira Neto;

Edson Leal Pujol;

 Luís Eduardo Ramos

 Fernando Azevedo e Silva;

 Tarcísio de Freitas,

Otávio Rêgo Barros;

Augusto Heleno, inclusive, possui uma trágica passagem, tendo saído do comando das tropas após massacre de moradores da favela Cité Soleil, na capital haitiana, Porto Príncipe. Pelo menos 63 pessoas morreram na invasão das forças militares à comunidade e Heleno acabou retirado do comando das operações, após pressão das Nações Unidas.

Não seria exagero afirmar ter sido a operação de Paz no Haiti o grande início do retorno militar à vida política e social brasileira, inclusive, com a futura conformação do governo do ex-presidente fujão. Para isso, no entanto, o Haiti foi apenas o começo da jornada, contando com outras etapas importantes em solo nacional. 

Certamente, dentro destas etapas está o uso dos militares para a segurança pública rotineira. Lula deu novo passo e mudou a escala de atuação das Forças neste quesito, pois agora não se tratava mais de suprir a força policial em caso de greve, mas de simplesmente a substituir por completo através de intervenções em comunidades e da decretação de atos de GLO (Garantia da Lei e da Ordem).

Como não esquecer as apoteóticas cenas de tanques da marinha invadindo os morros do Rio de Janeiro, sob aplausos da classe média? Naquele momento, Lula socorreu o dileto Sérgio Cabral em seu plano mirabolante de pacificar comunidades com ocupações militares, as famigeradas UPPs. Ora, pacificar era exatamente o que faziam as Forças Armadas no Haiti, então por que não poderiam fazer o mesmo também em seu próprio território?

Lula não se importou em jogar tanques da Marinha
contra os moradores da Favela do Alemão em 2010
Depois disso ainda viria a ocupação da Maré, já sob o governo reacionário, pós Junho de 2013, de Dilma Rousseff. Ali, o exército assumiu por completo o papel de força policial em momento em que os rescaldo das manifestações do último ano ainda eram sentidas na cidade do Rio de Janeiro. 

Neste ínterim, dona Dilma articulou com os militares a criação de um avançado sistema de vigilância, sobretudo cibernética, para ser acionado no período da Copa do Mundo e das Olímpiadas, e cujo maior objetivo era monitorar manifestações e, claro, terroristas. 

Mas o maior feito deste período é quando o governo da ex-presidente entrega aos fardados não apenas a organização da Olímpiada, mas também o treinamento de inúmeros atletas. Afinal, em um país onde a política esportiva é zero, os sedentários militares é que possuem a maior expertise em atividades físicas. Resultou daí as cenas vergonhosas de atletas batendo continência nos pódios após cada medalha. 

Esta vergonha é eterna

Deste modo, entronizou-se o militarismo na vida cotidiana brasileira, através de seu uso generalizado não apenas na segurança pública, mas também na própria administração. Criava-se o mito do exército eficiente, bom para combater bandido e também para tomar conta da máquina estatal. Todo o desastre de vinte e um anos de ditadura começou a virar apenas uma sombra perdida no tempo e, quando Temer assumiu, tratou logo de buscar ancoragem no oficialato, os colocando em postos importantes do governo e chegando ao ápice com a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. 

Neste ponto, os militares já possuíam seu próprio plano de voo solo e tinham determinado o nome do azarão capaz de leva-los de volta ao topo: Jair Bolsonaro. Isto porque enquanto os civis se digladiavam pelo poder durante o impeachment, os oficiais já haviam antevisto desde 2013 o fluxo dos acontecimentos, pois desde aquela época já existiam indivíduos nas ruas pedindo a Intervenção Militar e alguns outros já começavam a acampar em frente aos quartéis, se destacando entre as lideranças do momento um certo deputado do baixíssimo clero que, apesar de nulo na política tradicional, era sucesso de audiência televisiva e agregava seguidores em massa na internet. 

Desde o começo da década passada, Bolsonaro
 animava as noites da TV brasileira
Ao contrário do lulopetismo, os militares já sabiam que o futuro agora passava pelas ruas e não mais pelos salões, voltando a extrema-direita a ser um fenômeno de massas no Brasil. Nesta, sem alardes, eles embarcaram em um processo sinuoso de acúmulo de forças para retorno ao governo não por meio de uma quartelada, mas pelo voto popular, repetindo, em outra perspectiva e situação, o feito de Hermes da Fonseca em 1910.

Mas, o que querem os militares? Até onde se sabe, para além da velha doutrina de segurança imposta pelos EUA e do eterno papel de força contrarrevolucionária - o povo brasileiro é o único inimigo das Forças Armadas do Brasil -, os militares não possuem qualquer projeto para o país. Acertaram-se com o neoliberalismo e até se orgulham de nossa condição neoextrativista. 

Acampados de hoje já estão por aí há tempos
Ao que parece, portanto, no final, eles apenas buscam ser mais uma facção burguesa a disputar o controle do leme estatal, com todas as benesses daí advindas. E, para conseguirem, contam com a ajuda de uma massa de civis reacionários. 

O lulopetismo, assim, aparece ao militarismo muito mais enquanto um competidor. Nesta seara da luta intestinal burguesa muito ainda irá acontecer, mas o fato é que a nova questão militar tem o dedo podre do lulopetismo em sua gênese. (por David Emanuel Coelho


 

domingo, 31 de maio de 2020

CELSO DE MELLO, O DECANO DO STF, ALERTA: BOLSONARISTAS QUEREM INSTAURAR "UMA DESPREZÍVEL E ABJETA DITADURA MILITAR".

"Guardadas as devidas proporções, o ovo da serpente, à semelhança do que ocorreu na República de Weimar (1919-1933) , parece estar prestes a eclodir no Brasil! 

É preciso resistir à destruição da ordem democrática, para evitar o que ocorreu na República de Weimar quando Hitler, após eleito por voto popular e posteriormente nomeado pelo presidente Paul von Hindenburg, em 30/01/1933, como chanceler (primeiro ministro) da Alemanha (Reichskanzler). 

Não hesitou em romper e em nulificar a progressista, democrática e inovadora Constituição de Weimar, de 11/08/1919, impondo ao País um sistema totalitário de poder viabilizado pela edição, em março de 1933, da lei (nazista) de concessão de plenos poderes (ou Lei Habilitante) que lhe permitiu legislar sem a intervenção do Parlamento germânico!!! 

Intervenção militar, como pretendida por bolsonaristas e outras lideranças autocráticas que desprezam a liberdade e odeiam a democracia, nada mais significa, na novilíngua bolsonarista, senão a instauração, no Brasil, de uma desprezível e abjeta ditadura militar!!!"(Celso de Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal) 
"o ovo da serpente parece estar prestes a eclodir no Brasil"
Toque do editor — aos 74 anos de idade, ministro do STF há três décadas, Celso de Mello dá uma lição de coerência e coragem, ao enviar a seus colegas do colegiado esta mensagem, certamente sabendo que vazaria para a imprensa.

Em si tal diatribe não traz nada de novo, eu a qualificaria até de óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Importante é o peso institucional e moral do seu autor. Celso de Mello merece nosso aplauso e gratidão! (Celso Lungaretti) 

Filme de Ingmar Bergman que trata o nazismo 
como ovo da serpente. Leia sobre ele aqui

sexta-feira, 29 de março de 2019

...E A "INTERVENÇÃO MILITAR" NÃO VEIO! NEM VIRÁ, SE DEPENDER DOS MILITARES...

encontro com a ditadura – 5
Por David Emanuel Coelho
Na greve dos caminhoneiros de maio/2018 o grande público se deu conta de que havia muitos brasileiros querendo a instauração de uma nova ditadura nos moldes da de 1964/85, embora não ousassem dizer seu nome, preferindo um eufemismo: intervenção militar.

Não se tratou, porém, de novidade, visto serem tais pedidos recorrentes nas ruas brasileiras desde, pelo menos, as grandes manifestações de 2013. A existência de contingentes organizados em torno desta pauta já era um fato.

Formados predominantemente por homens maduros, tais grupos costumavam chamar a atenção pelo descalabro da reivindicação, muito mais que pela força numérica ou política.

No entanto, é importar ressaltar o fato de tais apelos ao militarismo não serem novidade na república nova. Desde o fim da ditadura militar existe um sentimento difuso de saudosismo daquela época entre uma parcela da população. 

Nem todos os nostálgicos do militarismo estão nas ruas pedindo a tal intervenção. Isto fica a cargo daqueles grupos organizados, constituídos principalmente por pessoas de classe média.  No entanto, é fato a existência difusa de entusiastas do autoritarismo castrense na sociedade.

Até onde sei, não existem pesquisas confiáveis mensurando este grupo da população. No entanto, de forma intuitiva, podemos perceber se tratar de um grupo majoritariamente masculino, branco e com idade acima dos 50 anos.
Novos tempos e os mesmos velhos clichês anticomunistas

Em se tratando de classes, parece haver uma distribuição relativamente homogênea entre todas. Dito de modo geral, o corte principal deste grupo parece ser geracional e de gênero.

Quais seriam, afinal, as causas para estas pessoas apoiarem a rigidez militar? Consigo pensar em alguns pontos:
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ATUAÇÃO DA CENSURA – Existe uma idealização do período ditatorial, como se tivesse sido uma época desprovida de problemas. É comum ouvir de algumas pessoas a frase “na época da ditadura não ouvíamos falar disso”. E, de fato, não ouviam, pois existia uma coisa chamada censura, seja a imposta pelo governo, seja a praticada pela imprensa por iniciativa própria.

Ademais, a mídia exercia um papel oficialista, em larga medida. Basta ver o tom ufanista de muitos programas da Globo (emissora que atuava quase como porta-voz oficial do regime) no período. É famosa a frase do ditador Médici sobre o Jornal Nacional:
"Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho".
O tranquilizante do ditador mais sanguinário
Ora, quando um noticiário serve de tranquilizante para o presidente é porque algo está errado.

Numa época de pouquíssimo acesso à informação e baixa escolaridade é perfeitamente compreensível o desconhecimento sobre o que ocorria.

Hoje, sem censura e com maior numero de canais de informação, é mais fácil ao cidadão médio saber do caos e das podridões que ocorrem no país. Ao comparar as duas épocas, obviamente o período militar aparenta ser mais pacífico, menos corrupto, para tais pessoas. 

A prova cabal disto é o fato de muitas delas alegarem ser justamente no período final da ditadura que o Brasil começou a piorar. Na verdade, neste período a censura foi afrouxada e o público pode informar-se de modo mais livre sobre sua própria realidade. 
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EFEITOS DO NEOLIBERALISMO – O neoliberalismo teve um efeito devastador sobre as relações e práticas sociais. Aumentou a concorrência entre os trabalhadores, pôs de cabeça para baixo antigas hierarquias e modificou profundamente a dinâmica do mundo do trabalho. O resultado foi o afrouxamento das relações de solidariedade social, a erosão da autoridade, a atomização do trabalhador, o crescimento da violência e a epidemia de doenças psíquicas (bem como do uso de drogas).
Cartão postal de São Paulo, a Avenida Paulista era assim em 1969

Em comparação com a época da ditadura militar, a vida mudou radicalmente. Durante a ditadura, o Brasil era um país ainda profundamente agrário, com relações e práticas sociais mais simples. se comparadas às atuais.

A comparação acrítica entre os dois períodos gera a ideia de que houve um descontrole social no período de redemocratização, fazendo muitos terem uma visão saudosista daquela época. Ou seja, é exercida uma avaliação de aparência sobre o mundo social, não considerando a dinâmica mais profunda de mutação promovida pelo capitalismo por meio do regime neoliberal.

Incapazes de entender a lógica profunda das mudanças sociais, conclui-se que tudo seria obra simplesmente da falta de um regime autoritário. Ou seja, culpa-se a democracia pelos males atuais.

A disseminação das cracolândias é um triste aspecto da crise neoliberal
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A CRISE DO PATRIARCADO – O Brasil foi construído em torno da figura do homem.
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Um típico patriarca e seus dependentes
Na época colonial não existia espaço público, mas apenas privado. Este era organizado pela dinâmica do engenho, em que vigorava uma rígida hierarquia patriarcal. O marido ocupava a função de comando político, econômico e jurídico. O resto da família, bem como os escravos, estavam a ele submetidos.

No fim do período colonial, e após a independência, surge o espaço público, mas a lógica patriarcal não se modifica. Ao contrário, ela é exportada para o espaço público, sendo este regulado de modo análogo ao espaço familiar. Neste aspecto, passa a existir uma espécie de hierarquia masculina do poder, estando o marido nela inserido enquanto base de sustentação.

Na segunda metade do século 20 tal forma de estrutura social já estava em franco declínio ao redor do mundo. Porém, a ditadura militar teve o efeito de não apenas retardar a derrocada deste patriarcalismo tradicional, como também de reforça-lo.

Na redemocratização, aos poucos, o patriarcalismo entra em crise. A antiga autoridade masculina vai sendo substituída por uma relação mais difusa de poder, com a ascensão de mulheres a postos de mando, a autonomia de filhos e filhas, e até mesmo a interferência pública nas relações intrafamiliares, com leis de proteção contra a violência infantil e de gênero.

Além disso, a própria noção do que é ser homem entra em crise, com questionamentos agudos sobre o próprio papel do gênero masculino.

Mulheres? Só bem lá atrás. Com lupa dá pra ver...
Na ditadura, o típico pai de família se via como um mini-general, comandando sua casa de modo análogo ao comando exercido pelos ditadores de farda no país. O patriarcalismo era inquestionável e visto como parte normal do sistema político do país.

Acostumados a esta dinâmica, muitos homens acabam sentindo-se deslocados na nova configuração social. Com seu poder contestado, sua identidade em crise, assumem uma posição reacionária, uma reivindicação de retorno aos bons tempos da ordem.

Isto explica o corte de gênero observado entre os defensores do militarismo. Não defendem apenas o retorno de um regime autoritário, defendem o retorno de seu próprio poder absoluto, de sua antiga identidade. Aspiram, sobretudo, ao retorno do patriarcalismo tradicional, com o poder masculino no centro.

Não é gratuito o fato do pedido de intervenção ser sempre um pedido por um general no poder; o masculino vem justamente reforçar o caráter patriarcal de seus ideais políticos.

Penso, inclusive, que é justamente da crise do patriarcado um dos fatores mais determinantes para o apoio deste grupo à intervenção militar.
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"sensação de perda de privilégio"
A CLASSE MÉDIA DECAI – O período pós-ditadura, sobretudo depois do impeachment de Collor, foi um período de ascensão social de enormes parcelas da população. O crédito facilitado, a melhora relativa da renda, a oferta de serviços públicos e a diversificação da economia possibilitaram uma profunda mudança na dinâmica social.

Durante a ditadura, a mobilidade social era mínima. Houve, sim, uma relativa ascensão nas condições de vida, mas isto se deveu ao êxodo rural em massa, o que permitiu a saída de largos contingentes populacionais da situação de miséria do campo para a pobreza urbana.

Em termos de capacidade de consumo e acesso a serviços, a ditadura foi um período de extrema exclusão. Praticamente apenas a classe média e a classe alta tinham acesso de fato a uma vida relativamente confortável. A maioria da população oscilava entre a pobreza e a miséria total.

O fosso entre a classe média e as classes baixas era profundo e de larga extensão. Os espaços de convivência eram rigidamente segregados e a classe média só cruzava com o povo comum quando estes lhes prestavam algum serviço.

Tudo muda no período pós-ditadura. A dita ascensão social significou para a classe média, por um lado, o afastamento da classe alta e, por outro, a aproximação das classes baixas. Agora, a população mais pobre também tinha acesso a bens e serviços antes exclusivos da classe média. Espaços antes segregados agora eram compartilhados, enquanto a classe alta se ilhava em áreas ultra exclusivas. Mesmo profissões antes exclusivas da classe média, agora tinham representantes populares.
"não oferecem soluções para a crise atual"

Para quem estava acostumado ao status quo do regime militar, a nova situação apareceu como perda de privilégio, o que gerou profundo ressentimento entre muitos. 

O fato de o processo coincidir com a redemocratização acabou levando estas pessoas a concluírem ser a democracia culpada pela mudança de sua condição social. Por isso, a única forma de reagir seria restaurando o antigo regime ditatorial.
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CONCLUSÃO – O fenômeno do saudosismo do regime castrense explica o aparecimento de grupos pedindo uma intervenção militar no país.

Longe de haver sido simplesmente uma resposta à crise do regime político implantado pela Nova República, tratou-se de uma rejeição das mudanças operadas neste período. Neste aspecto, aparece muito mais como um sintoma reativo aos fatores progressistas do regime combalido. Não oferece soluções para a crise atual, apenas busca restaurar uma situação histórica já superada.

Por não trazer soluções e apenas expressar um sentimento reativo, tal grupo não consegue impor seu programa, mesmo quando contribui, circunstancialmente, para a eleição de um presidente da República... apenas para descobrir que, afinal, quem menos almeja uma intervenção militar neste momento são os altos comandantes militares, que têm plena consciência de quão desastrosa seria tal tentativa de reviver o passado num mundo tão diferente! (por David Emanuel de Souza Coelho)

domingo, 23 de setembro de 2018

UM DEBATE ENTRE COMPANHEIROS: AS AFINIDADES ESTRATÉGICAS E ALGUMAS NUANCES TÁTICAS.

Caro Lungaretti, 

as nuvens estão escuras, augurando chuva forte.

Parece ser uma chuva como aquela que se abateu sobre Santiago, no Chile, ou algo semelhante, pois já não há condições conjunturais para uma volta ao passado como ele foi. Outras formas democráticas podem ser utilizadas, como está a ocorrer mundo afora. 

As eleições são um engodo do qual devemos nos distanciar.  

Mas, quando há prenúncio de uma tempestade dessas, prefiro fazer como os sertanejos nordestinos que, ao verem as nuvens anunciando chuva, dizem enfáticos, que está bonito pra chover, tão grande são as suas ânsias por um bom inverno, ao contrário dos sulistas que dizem o tempo está feio.

Assim, como nordestino de coração, onde me criei (apesar de ter nascido no Rio de Janeiro), prefiro ver a chegada da chuva como algo benfazejo.

Vivemos um tempo estranho, no qual os defensores do caos se apresentam como a solução para o caos, mas isto, apesar de prenunciar o apocalipse, pode ser também o anúncio do novo. 
Aliás, a palavra crise no idioma grego antigo corresponde à gestação do novo, que somente acontece em razão de saturação daquilo que está posto. Este tempo estranho pode ser o prenúncio de que está bonito pra chover.

Não devemos temer o caos e a barbárie que sempre denunciamos e que cresce a olhos vistos mundo afora. Ao contrário, devemos nos inserir nela e ir para as ruas beber a tempestade, como disse o poeta numa música do tempo no qual nós dois (que temos a mesma idade) vivíamos o ardor da crença na revolução, que agora deve ser retomada, ainda que sob outras formas e conceitos.

Guy Debord, num comentário sobre o seu livro A sociedade do espetáculo, fez uma citação de Sun Tsé, do livro deste último intitulado A arte da guerra cujo teor nos serve de alento para esses dias estranhos:
"Por mais críticas que sejam a situação e as circunstâncias, não aceite o desespero; nas ocasiões em que tudo leva ao medo, não devemos ter medo de nada; quando se está rodeado de perigos, não se deve temer perigo algum; quando já se esgotaram todos os recursos, deve-se contar com todos os recursos; quando se é surpreendido, deve-se surpreender o próprio inimigo".
Mas, para nossa sorte, o inimigo atual é, concomitantemente, nosso aliado. 

É que o capitalismo, o inimigo nº 1 da humanidade desde o seu surgimento, está agora se destruindo por seus próprios fundamentos, e é justamente a contradição de sua lógica irracional que agora expõe sua irracionalidade e aquilo que se constitui como nosso fator aliado (em que pese os padecimentos do aprofundamento da barbárie social), e eles não podem dar porrada numa lógica socialmente ilógica que, paradoxalmente, é a razão de ser dos capitalistas e ao mesmo tempo a sua ruína inexorável. 

Já não se pode dizer, como antes, que tudo é culpa dos (falsos ou equivocados) comunistas, capitalistas de estado, cujos pressupostos equivocados com os quais idealizaram a pretensa ruptura como o capitalismo mostraram-se ineficazes justamente porque as ferramentas de base por eles usadas eram as próprias categorias capitalistas. 

Agora está na hora da verdade, e quem é pseudo anticapitalista será identificado nas suas ações mais elementares, como se houvesse um detector de mentiras social a partir do qual qualquer proposição demagógica desfalece no médio prazo diante da sua própria inconsistência. 
Entendo que como em todo parto que dá luz à vida, as dores representam a vida nova, e teremos que enfrentar esse momento como as mães enfrentam o nascimento dos seus bebês: com um misto de dor e alegria.(Dalton Rosado)

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Prezado Dalton,

para que nossos leitores possam compreender melhor, explico que a simbologia da chuva se refere ao golpe de Estado chileno de 1973. Um falso boletim meteorológico, levado ao ar pelas emissoras de rádio, anunciava que chovia em Santiago e outras cidades, embora não caísse chuva nenhuma. Era uma forma de comunicarem a conspiradores do país inteiro que a quartelada fora desencadeada.

Nossas visões sobre a agonia do capitalismo são bem semelhantes, Dalton. Desde meu aprendizado marxista, nos longínquos anos 60, chamou-me a atenção o fetichismo da mercadoria (no jargão de então, a coisificação do ser humano paralelamente à humanização das coisas). 

Também já tinha claro que o capitalismo será vítima de sua contradição fundamental: ao não dar aos trabalhadores meios de adquirir algo além de uma pequena parte do que produzem, gera um desequilíbrio permanente entre oferta e procura, que leva até à irracional destruição do que é produzido e não tem comprador possível. 

Tal aberração nos tem, através dos tempos, conduzido às crises cíclicas do capitalismo (cuja eclosão agora é retardada por vários mecanismos artificiais, mas elas acabam ocorrendo do mesmo jeito e ainda mais devastadoras, como a do subprime de 2007/2008 e a que ora está se desenhando no horizonte), às guerras, ao incremento cada vez maior de atividades parasitárias e inúteis (boa parte das do setor terciário), às queimas de café outrora no porto de Santos, etc.

Enfim, a visão que você trouxe para o blog (dessa vertente pós-marxista centrada na crítica do valor) é um aprofundamento de algo que a geração 68 já conhecia e levava em conta, embora com menos ênfase. 

O terreno novo que estávamos principalmente explorando eram as perspectivas abertas pela psicanálise para novas abordagens marxistas (ou, de forma mais simples, a possível síntese entre Marx e Freud). Líamos muito Reich, Jung e Marcuse; e poucos livros de economia política.
Mas, à medida que a crise capitalista se agrava e aproxima do desenlace, é realmente obrigatório conhecermos seu detalhamento nas obras de Robert Kurz, Anselm Jappe, Guy Debord, etc. Neste sentido, sua contribuição, Dalton, tem sido um dos pontos altos deste blog.

Mas, se entre nós há coincidência quase total em termos estratégicos, existem também algumas diferenças táticas que já devem ter sido captadas pelos leitores mais assíduos e perspicazes, então vale a pena explicitá-las.

Um comentário ligeiro que Engels certa vez fez sobre Spartacus e a revolta dos gladiadores, sem aprofundá-lo depois, me inquietou muito. Segundo ele, se uma forma de organização econômica e social está esgotada e o sujeito revolucionário capaz de levar tal sociedade a um estágio superior de civilização for anulado, sobrevém a barbárie.

Ou seja, Roma já não tinha mais como desenvolver suas forças produtivas sob o regime de escravidão. Quem corporificou a esperança de uma sociedade de homens livres foram os gladiadores. A forma brutal como acabaram sendo esmagados dissuadiu outros escravos de tentarem algo semelhante. Então, incapaz de gerar o novo dentro de si, o Império Romano foi vencido e devastado pelos bárbaros que viviam fora de suas fronteiras.

Talvez Engels não tenha mais tocado neste assunto porque, naquele momento, o capitalismo parecia incapaz de ter a sobrevida longa que está tendo. Quis apenas deixar um alerta quanto a algo que lhe parecia possível, mas improvável.

Tal sobrevida, contudo, infelizmente perdura até hoje e implicou um aguçamento extremo de suas contradições, tanto que temos agora uma desigualdade econômica simplesmente ultrajante, a imposição de penúria desmedida a boa parte da humanidade, as graves ameaças ecológicas geradas pela ganância descontrolada, etc.

Então, temo que a agonia final do capitalismo será muito mais tempestuosa do que gostaríamos. E vejo uma enorme necessidade de engendrarmos uma vanguarda capaz de, em meio ao caos econômico e às (talvez coincidentes) catástrofes ambientais, apontar o caminho da sobrevivência e, depois, da reconstrução da sociedade em bases bem diferentes, com a priorização do bem comum e da cooperação solidária entre os seres humanos.

Dizem que tenho ódio ao PT. É, claro, um exagero. Mas, a decisiva contribuição que o PT deu em 2013 e 2014 à direita para, juntos, abortarem o surgimento e afirmação de uma nova geração revolucionária, foi um crime sem perdão. Desde então, passei a considerá-lo intrinsecamente nocivo à revolução brasileira.

Temo que, enquanto o PT mantiver a hegemonia na nossa esquerda, seu papel será sempre o mesmo, de ajudar a matar o novo para salvar a velha ordem, seus privilegiados e seus privilégios (os quais partilha, na condição de sócio subserviente e minoritário dos donos do PIB).
E é por não termos uma esquerda de verdade neste momento, capaz de oferecer resistência significativa a uma escalada fascista plenamente deslanchada, que favoreço a união de todos os civilizados para, enquanto ainda há tempo, determos as invasões bárbaras, derrotando Jair Bolsonaro nas urnas e frustrando quaisquer outras tentativas de forçarem uma intervenção militar.

A boa estratégia militar nos manda escolhermos cuidadosamente o momento ideal para travarmos uma batalha decisiva, Dalton. 

Penso que não seja o atual, e que devamos nos considerar em fase de defensiva estratégica, tentando pelo menos não ceder mais terreno ao inimigo enquanto reorganizamos nossos efetivos e acumulamos força.

De resto, nunca deixei de acreditar que dias melhores virão, talvez ainda para nós, talvez para nossos filhos ou netos. Tal esperança é a razão maior da minha existência há mais de meio século e continuará sendo até o fim dos meus dias.

Um forte abraço, companheiro! (Celso Lungaretti)
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