Mostrando postagens com marcador Primavera Árabe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Primavera Árabe. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

ORWELLIANO PLANO DE FLAVIO DINO É MAIS UMA AÇÃO INÚTIL DE QUEM NÃO QUER ENFRENTAR O CAPITALISMO DE FRENTE


 Orwellianamente chamado de Pacote da Democracia, as propostas de Flávio Dino para responder aos atos bolsonaristas de 8 de janeiro são absolutamente mais do mesmo e nem de longe tocam no essencial. 

Em certo sentido, pioram o que já é ruim, ao criar uma esdrúxula Guarda Nacional para patrulhar a Praça dos Três Poderes, ampliar penas, instituir censura de conteúdo das redes sociais e mesmo inventar tipos penais, como a de uma espécie de regicídio, ampliando punições contra quem atentar contra a vida dos chefes dos (podres) poderes. 

A patetice de uma Guarda Nacional é índice do quanto no Brasil existe uma verdadeira tara por forças de segurança, pois somos campões em polícias, existindo polícia até para quem já está preso, a Polícia Penal, afinal o crime não descansa mesmo dentro de nossos presídios... 

A ideia baldia de ampliar punições mostra ter o lulopetismo não apenas uma tara com a polícia, mas também um desejo recôndito de ser também um policial. Vigiar e Punir. Talvez não apenas ser um policial, mas também reis, por isso qualificar a morte dos chefes dos Poderes, pois a vida deles vale mais que a vida do comum dos cidadãos. 

Mas o auge é a implementação de censura nas redes sociais, obrigando por lei plataformas a retirar conteúdos considerados nocivos contra a democracia. O que é ser nocivo? Obviamente, a resposta desta pergunta depende de a quem você pergunta. 

O pior destas medidas não são elas próprias, mas o fato de serem inócuas. A lei antidrogas, por exemplo, endurecida pelo próprio Lula em sua primeira passagem no governo, só serve para ampliar a repressão, matar milhares de pessoas e jogar outras milhares em masmorras, nunca tendo impedido ninguém de fumar um baseado ou cheirar uma cocaína. 

Repressão jurídica e mais polícia nunca é o caminho para lidar com fenômenos sociais e políticos complexos. A ascensão da extrema direita ao redor do mundo não ocorre por falta de censura, polícias ou punições, mas porque existe uma dinâmica socioeconômica a alimentando e tal dinâmica é o capitalismo em sua fase agonizante. 

A reorganização neoliberal do capitalismo produziu um panorama social de oligopólios, criando super bilionários ao mesmo tempo em que arruinava milhões de pequenos proprietários, destroçava parques industriais, proletarizava a classe média e jogava na miséria bilhões. Quando a era neoliberal colapsou em 2008, abriu-se uma perspectiva revolucionária expressa do Ocuppy Wall Street às Primaveras Árabes, passando pelas Jornadas de Junho de 2013. O fiasco destes movimentos abriu passagem a movimentos reacionários, bancados pela plutocracia capitalista, mas capturando o sentimento popular de indignação contra o dito sistema. 

Se punitivismo derrotasse a extrema-direita,
Hitler, que amargou anos de cadeia, não teria
virado ditador da Alemanha. 
De modo muito resumido, esta é a raiz do movimento de extrema direita espalhado pelo planeta na última década e cuja encarnação, no Brasil, se deu através da figura de Jair Bolsonaro. Combater isto pelo plano meramente institucional é ilusório, até porque, ao contrário de movimentos de esquerda, o reacionarismo conta com apoio maciço das elites econômicas e seus braços militares, jurídicos e policiais. 

Na realidade, conforme provado pela experiência da Social-Democracia Alemã na década de 1920, o fortalecimento das estruturas repressivas acaba fortalecendo a própria extrema-direita, seja ampliando os poderes de seus agentes nos órgãos repressivos, seja criando mecanismos posteriormente usados quando ela chega ao poder. 

O caminho certo para combater as forças reacionárias é mediante ações políticas, de mobilização popular e de desmonte das bases econômicas que as sustentam. Mas, para isso, seria necessário enfrentar minimante a estrutura capitalista, coisa muito longe dos tímidos planos de Lula e de seu ministro Dino. (por David Emanuel Coelho)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

A INSURREIÇÃO BOLSONARISTA PODE ESTAR LONGE DE ACABAR

 

Para além da mera condenação à quebradeira ou ao coro do ridículo discurso midiático de chamar os militantes bolsonaristas de terroristas - depredação não é e nunca será terrorismo - cabe focar no que de fato importa: o sentido político e as tendências do movimento da extrema direita. 

Não restam dúvidas que tal movimento é capitaneado por amplos setores do agronegócio e do extrativismo, sobretudo das regiões norte e centro-oeste, mas também com forte ação de indivíduos do Sul e de São Paulo. Também conta com considerável inserção nas forças policiais e nas forças armadas. Embora esteja centralizado na pessoa de Jair Bolsonaro, possui  autonomia frente a ele, servindo o ex-presidente fujão muito mais de aglutinador do processo que de seu idealizador. 

Após as ações em Brasília e a forte repercussão, a tendência é ocorrer um refluxo dos atos. Enganoso, no entanto, é considerar tal refluxo como algo duradouro, sendo muito mais uma forma de recuo estratégico. No ínterim, prisões devem acontecer, sobretudo de militantes diretamente envolvidos nas ações e, talvez, alguns financiadores também venham a ser responsabilizados, mas com o tempo o movimento se reorganizará, pois possui financiamento e organização robustos. 

No coração de todo o processo está a agonia do capitalismo que implica na decomposição do regime político a ele associado. Claramente, a democracia liberal constituída e estabelecida ao redor do planeta no período pós-guerra encontra-se em franco declínio, apodrecendo a olhos vistos.

Esta crise de dominação vem abrindo um flanco de batalha ao redor do mundo desde o Occupy Wall Street, passando pela Primavera Árabe, pelas Jornadas de 2013 e outras insurreições populares associadas. Inicialmente com conteúdo revolucionário, tais movimentos foram sendo esmagados ou se dissipando por falta de direção clara. 

Em seu lugar, começaram a surgir insurreições neofascistas enquanto formas contrarrevolucionárias, nas quais o descontentamento e a insatisfação popular foram sendo apropriados por forças da extrema-direita capitaneadas por setores do grande capital. 

No Brasil, tais forças apareceram nitidamente durante o Impeachment de Dilma Rousseff e foram naturalizadas pelos grupos conservadores interessados na queda da ex-presidente. Porém, logo ganharam vida própria e com um discurso antissistêmico chegaram ao poder através de Bolsonaro.

Há um projeto claro da extrema-direita brasileira, implementar um regime policialesco, com o enfraquecimento dos direitos jurídicos e sociais, o qual estará ancorado no novo regime econômico instalado no Brasil de neoextrativismo ilimitado e de super exploração dos trabalhadores. Ou seja, estabelecer uma República ancorada no aprofundamento da devastação capitalista e no cerceamento à vida democrática. 

As eleições já mostraram que este projeto, com maior ou menor compreensão, possui amparo popular e eco mesmo entre as classes trabalhadoras. Por isso, as ações bolsonaristas de modo algum podem ser consideradas como atos isolados de alguns gatos pingados, mas antes uma ação massiva enraizada na própria dinâmica da crise vivida atualmente, com propósitos claros e articulação em níveis superiores do empresariado. 

A ilusão lulopetista da pacificação nacional e mesmo da trégua precisa dar lugar a uma leitura mais realista dos tempos de crise vividos. 

A grave situação social e econômica, a estagnação, o desemprego, a fome e a miséria galopantes são fatores propícios a garantir eco junto ao povo de ações insurrecionais da extrema direita, situação que pode se agravar. Caso observemos a situação dos atuais governos ao redor do mundo, acossados por crises de ingovernabilidade, o futuro de Lula 3 parece pouco promissor. Sua derrocada, contudo, significaria um final trágico para o próprio Brasil. 

A olhos vistos, as instituições estão irremediavelmente condenadas ao ocaso e não virá delas a saída para a situação atual. Neste momento, a grande disputa é sobre o que será colocado no lugar do que está aí e apenas a chama revolucionária poderá fazer frente às trevas do reacionarismo. (por David Emanuel Coelho)

quinta-feira, 20 de maio de 2021

PARA LER E REFLETIR: "UMA REVOLUÇÃO MOLECULAR ASSOMBRA A AMÉRICA LATINA"

Se os brasileiros reagissem às reformas neoliberais como os colombianos, elas teriam passado?
O
termo veio pelas mãos de Álvaro Uribe, ex-presidente da Colômbia e líder efetivo da direita linha-dura que hoje governa aquele país. 

Diante das inéditas manifestações que tomaram as ruas colombianas, fazendo o governo abandonar um projeto de reforma tributária que, como sempre, passava para os mais pobres os custos da pandemia, não lhe ocorreu ideia melhor do que conclamar os seus à luta contra uma revolução molecular dissipada que estava a tomar conta do país. No que, há de se reconhecer, Uribe tinha razão. Normalmente, são os políticos de direita que entendem primeiro o que se passa.

A América Latina, ou ao menos uma parte substantiva do continente, está a passar por um conjunto de levante populares cuja força vem de articulações inéditas entre recusa radical da ordem econômica neoliberal; sublevações que tensionam, ao mesmo tempo, todos os níveis de violência que compõem nosso tecido social; e modelos de organização insurrecional de larga extensão.  
Protestos chilenos de 2019 desembocaram...
As imagens de lutas contra a reforma tributária, que têm à frente sujeitos trans em afirmação de sua dignidade social ao lado de desempregados a fazer barricadas juntamente com feministas, etc., explicam bem o que revolução molecular significa nesse contexto.

Significa que estamos diante de insurreições não centralizadas numa linha de comando e que criam situações que podem reverberar, num só movimento, tanto a luta contra disciplinas naturalizadas na colonização dos corpos e na definição de seus pretensos lugares quanto contra macroestruturas de espoliação do trabalho. 

São sublevações que operam transversalmente, colocando em questão, de forma não hierárquica, todos os níveis das estruturas de reprodução da vida social.

De fato, o século 21 começou assim. Engana-se quem acredita que o século 21 começou em 11 de setembro de 2001, com o atentado contra o World Trade Center. Essa é a maneira como alguns gostariam de contá-lo. 

Pois seria a forma de colocar o século sob o signo do medo, da ameaça terrorista que nunca passa, que se torna uma forma normal de governo. Colocar nosso século sob o signo paranoico da fronteira ameaçada, da identidade invadida. Como se nossa demanda política fundamental fosse, numa retração de horizontes, segurança e proteção policial.

Na verdade, o século 21 começou numa pequena cidade da Tunísia chamada Sidi Bouzid, no dia 17 de dezembro de 2010. Ou seja, começou longe dos holofotes, longe dos centros do capitalismo global. Ele começou na periferia. 
...na eleição de uma nova constituinte, domingo passado.

Nesse dia, um vendedor ambulante, Mohamed Bouazizi decidiu ir reclamar com o governador regional e exigir a devolução de seu carrinho de venda de frutas, que fora confiscado pela polícia. 

Vítima constante de extorsões policiais, Bouazizi foi à sede do governo com uma cópia da lei em punho. No que ele foi recebido por uma policial que rasgou a cópia na sua frente e lhe deu um tapa na cara. Bouazizi então tacou fogo em seu próprio corpo. 

Depois disso, a Tunísia entrou em convulsão, o governo de Ben Ali caiu, levando insurreições em quase todos os país árabes. Começava assim o século 21: com um corpo imolado por não aceitar submeter-se ao poder. 

Começava assim a primavera árabe. Com um ato que dizia: melhor a morte do que a sujeição, com uma conjunção toda particular entre uma ação restrita (reclamar por ter seu carrinho de venda de frutas apreendido) e uma reação agonística (imolar-se) que reverbera por todos os poros do tecido social.

Desde então o mundo verá uma sequência de insurreições durante 10 anos. occupy, Plaza del Sol, Istambul, Brasil, gillets jaunes [coletes amarelos/França], Tel-Aviv, Santiago: são apenas alguns lugares por onde esse processo passou. 

E na Tunísia já se via o que o mundo conheceria nos próximos 10 anos: sublevações múltiplas, que ocorrem ao mesmo tempo, que recusam centralismo e que articulavam, na mesma série, mulheres egípcias que se afirmavam com seios a mostra nas redes sociais e greves gerais. 
 Indignação de um injustiçado foi o estopim da primavera árabe 

A maioria dessas insurreições irá se debater com as dificuldades de movimentos que levantam contra si as reações mais brutais, que se deparam com a organização dos setores mais arcaicos da sociedade na tentativa de preservar o poder tal como sempre foi. 

Mas há um momento em que a repetição acaba por gerar uma mudança qualitativa. Dez anos depois, ela ocorreu e foi possível de ser vista no último domingo, no Chile.

No último domingo, o Chile elegeu uma nova Assembleia Constituinte. Depois de manifestações massivas em outubro de 2019 que fizeram as ruas chilenas queimarem até o governo parar de matar sua própria população e aceitar convocar um processo constitucional, o Chile elegeu 155 deputados constituintes, dos quais 65 são independentes, ou seja, não vinculados a estrutura partidária alguma.

Mas unidos, como os 24 constituintes da lista del pueblo por um Estado ambiental, igualitário e participativo; 79 constituintes são mulheres, sendo a única Assembleia Constituinte da história mundial a ter maioria feminina; 18 são povos originários, sendo que todos estão presentes (desde os rapanui da ilha da Páscoa até os mapuches). 

A direita, que ansiava alcançar ao menos um terço para poder barrar as modificações constitucionais, terá apenas 37 deputados.
Em 2013 já houve aqui um ensaio de revolução molecular; o segundo ato será sua consumação.
O caráter absolutamente único do processo chileno encontra-se no fato de ele se produzir como institucionalização insurrecional. Ele foi resultado de uma insurreição que exigiu imediatamente uma nova institucionalidade. 

Os islandeses tentaram isso, quando a crise econômica produziu profundas mobilizações populares que terminaram por produzir uma nova constituição. No entanto, o Parlamento não reconheceu a nova carta, abortando o processo.

Tal excepcionalidade andina deve ser compreendida à luz do que foi a via chilena para o socialismo. O governo de Salvador Allende (1970-1973) procurou realizar um programa marxista por meio de uma mutação progressiva da vida social que preservava largas partes da estrutura da democracia liberal. 

Muitos criticaram tal estratégia depois do golpe, mas há de se lembrar de suas razões. Era a maneira dos chilenos e chilenas impedirem a militarização da vida social, como normalmente ocorreu em todos os processos revolucionários até agora. Havia uma questão real que o Chile procurou resolver inovando.
"O cenário tendencial entre nós é o de uma insurreição contra outra insurreição"
De certa forma, esse processo interrompido retoma agora 47 anos depois. Desde as revoltas estudantis no Governo Bachelet, o Chile viu lideranças estudantis se tornarem deputados e deputadas para arrancar do Congresso uma reforma que tornava gratuito o sistema público de ensino. Agora, eles fizeram o movimento inédito de só saírem das ruas com uma constituinte nas mãos, o que os tunisianos só conseguiram anos depois da formação do primeiro governo pós-ditadura. 

Ao acoplar os dois processos, o Chile permitiu que o entusiasmo insurrecional comandasse o processo constitucional, institucionalizando sua revolução molecular.

O espectador que vê tudo isso do Brasil pergunta-se o que ocorre conosco. No entanto, erram aqueles que pensam que tal dinâmica não chegará no Brasil. Ocorre que ela encontrará uma situação muito mais dramática. Pois o Brasil é o país no qual as forças da reação organizaram-se de forma insurrecional. São setores expressivos da população que foram e irão às ruas pedir golpe militar e defender o fascismo de quem nos governa. 

Dentro da lógica da contrarrevolução preventiva, o Brasil, à diferença de outros países latino-americanos, foi capaz de mobilizar as dinâmicas de um fascismo popular. Por isso, o cenário tendencial entre nós é o de uma insurreição contra outra insurreição. Uma revolução fascista contra uma revolução molecular dissipada. 

Melhor seria estarmos preparados para tanto. (por Vladimir Safatle, na edição brasileira do jornal global El Pais) 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O MODELO QUE GUIOU A ESQUERDA NOS ÚLTIMOS 35 ANOS CADUCOU. O QUE FAZER?

ORGANIZAR AS LUTAS
"as lutas são pautadas por quem a esquerda combate"
.
Na avaliação de Vladimir Safatle, a esquerda jamais deveria ter-se deixado configurar como força reativa, incapaz de propor pautas próprias
A situação brasileira atual não é apenas a figura da emergência de novos perigos e violência. Ele é a expressão de um esgotamento profundo dos modos de organização das lutas e das mobilizações.

Não se trata apenas de esperar por novos líderes, de fazer partidos voltarem às bases ou de resistir em nossos espaços.

Agora, começa um dos mais duros exercícios: essa mistura de consciência do colapso de nossas forças e da possibilidade de sua reconstrução.

A ascensão à Presidência de uma figura com vínculos orgânicos à ditadura militar significa, entre outras coisas, que o modelo de organização e luta produzido no fogo do combate à ditadura, modelo que nos guiou nesses últimos 35 anos, não nos serve mais.

Aqueles que ampararam nossos espaços de lutas, seja sob a forma de partidos, seja sob a forma de sindicatos e associações diversas, mostraram não estar à altura das formas de emergência que a sociedade contemporânea conheceu nos últimos tempos e conhecerá ainda mais.
"há de se defender o descontrole dos processos"

Desde a primavera árabe, o mundo vê uma forma de explosão popular constante e com as mesmas características. Elas não estão ausentes do nosso junho de 2013. 

Trata-se de explosões de descontentamento econômico, social e político sem organização definida, que começam como uma centelha e rapidamente se propagam.

Fácil seria dar aqui mais um giro em nossas teorias da conspiração e não ver que se trata de uma emergência informe que não é fruto da organização prévia de um grupo de vanguarda.

Ela é fruto de um contágio a partir de um descontentamento local (reajuste de passagens de ônibus, aumento no imposto de combustível, aumento no preço da gasolina etc.), mas que coloca imediatamente à vista a ausência de vínculo às nossas instituições de poder.

Até agora, a esquerda perdeu todas as possibilidades de criar hegemonia a partir de tais explosões porque não houve um tipo de organização que soubesse criar hegemonia em movimento, parar de desqualificar aquilo que não foi previamente organizado.

O que não poderia ser diferente, já que a grande maioria das intervenções da esquerda foi reativa, dirigista e sem capacidade de criação de implicações genéricas.
"capacidade absoluta de criar monstruosidades e obscenidades"

Boa parte das lutas principais da esquerda se deu ultimamente sob a forma da recusa. Na verdade, elas são pautadas por quem ela combate: contra o desmonte de direitos, contra a política econômica vigente, não à PEC do Teto, #EleNão.

Ou seja, a esquerda se deixou configurar como força reativa, incapaz de pôr pautas em circulação. Ela responde a pautas postas por outros.

No entanto, a lógica atual do poder se baseia em nos prender nessas dinâmicas infinitas de reação. Eles gerarão continuamente rumores e boatos, ameaças que serão desmentidas no dia seguinte para nos prender em um movimento infinito de pânico.

A primeira coisa a fazer é parar esse movimento. O poder tem uma capacidade absoluta de criar monstruosidades e obscenidades, mas devemos parar de operar como divulgadores involuntários.

Isso exige não apenas uma agenda, mas, principalmente, uma dinâmica de radicalização de posições. As formas da ruptura hoje migraram quase todas para a extrema direita.

Por isso, ela é forte. Algo que se sabe desde a Comuna de Paris é que a imaginação social só volta a funcionar quando se assume a emergência de formas de descontrole social.
Por Vladimir Safatle

Contra uma sociedade controlada pelas figuras do Estado e de suas instituições, há de se defender o descontrole dos processos que voltam para as mãos de conselhos e de espaço de decisão direta.

Mas a última coisa que parece similar a tais espaços são as organizações de esquerda. Essa é uma das razões por que há um processo que sempre se trava. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

DEVEMOS APRESSAR O FIM DO INVERNO DE NOSSA INFELICIDADE E FAZER SURGIR UMA NOVA PRIMAVERA

Por Renato Janine Ribeiro
O ano de 2013 foi excepcional no Brasil. Em nosso país todo inverno neva uma vez em algum lugar do Sul. Naquele ano nevou duas vezes, em mais de cem cidades. Um cronista medieval, se relatasse esse evento, falaria em portentos, augúrios de algo surpreendente. Algo que estava mesmo acontecendo: em junho daquele ano, tivemos nosso maio de 68. 

Os protestos registrados há 50 anos na França tornaram-se referência para manifestações que, de forma espontânea e sem organização tradicional, eclodem com força e marcam um determinado momento histórico.

Contudo, a crítica que mais se faz aos maios do mundo (em 2013 também houve um na Turquia e outro na Bulgária) é que não têm projeto convergente nem liderança com quem negociar. Ouviu-se isso aqui no Brasil. 

Tal crítica, no entanto, ignora o principal; equivale a dizer que é ótimo ser vegetariano, mas considerar um problema não comer carne... Porque, se houvesse projeto ou liderança, não seriam maios. São movimentos do desejo —não por acaso, Olgária Matos escreveu um belo livro chamado Paris 1968, as Barricadas do Desejo (1989, Brasiliense). 
França, 1968: "relâmpago num céu azul"

Um programa político, ao fazer escolhas, inclui e exclui. Já o desejo, o id, as pulsões não querem saber do princípio de não contradição. O desejo inclui tudo o que pode —uma coisa e seu contrário. Os maios são contraditórios, só que isso não é um problema.

Quando acontece um maio, ele chega sem aviso. Há muito tempo as ciências sociais ensinam que os grandes acontecimentos vêm de longe: não são relâmpagos em céu azul, mas frutos de processos sociais latentes.

Mesmo a 1ª Guerra Mundial, p. ex., detonada após o assassínio do herdeiro do Império Austro-Húngaro, só na aparência derivou dessa causa imediata. A Europa estava armada até os dentes, com alianças letais que só esperavam uma fagulha —a iskra de que falavam os revolucionários russos— para explodir.

Exceção a essa regra, o maio de 1968 francês foi mesmo um relâmpago num céu que era azul, mas sem graça. Um dos maiores jornalistas da época, Pierre Viansson-Ponté reclamava no Le Monde, em 15 de março de 1968: “A França está entediada”. 

Uma semana depois, começavam os grandes enfrentamentos da polícia com os estudantes; mais dois meses e o país vivia a maior greve de sua história. 

Na Tunísia do ditador Ben Ali, muitos já haviam morrido por força da repressão policial. Em 2010, contudo, quando um camelô riscou um fósforo em suas vestes e se matou, o fogo tomou conta do país e se espalhou pela região, no que ficou conhecido como a Primavera Árabe.
Brasil, 2013: para todo descontentamento, uma via de protesto

No Brasil, em 2013, o Movimento Passe Livre ganhou as ruas, como já fizera em anos anteriores, exigindo melhor condução pública. 

Daquela vez, no entanto, graças em parte (mas não só) ao inestimável concurso da polícia do então governador Geraldo Alckmin (PSDB), que até cegou um repórter fotográfico, a sociedade inteira se indignou. Houve passeatas mesmo em cidades pequenas ou médias, virgens em protestos. 

A pauta cresceu, do transporte para a saúde e a educação. Na avenida Paulista, em São Paulo, vi  numa noite de junho três manifestações diferentes: uma de surdos e mudos, outra de bolivianos protestando contra o assassinato de seu compatriota Brayan Yanarico, de apenas cinco anos, e uma terceira defendendo a volta da ditadura. 

A mídia rapidamente desviou o foco, que estava nas pautas de serviços municipais e estaduais (educação básica, transporte urbano, saúde), para o tema da corrupção, que ela atribuiu ao PT. 
"A sociedade inteira se indignou"
Mas o mais rico foi essa multiplicação de manifestações. O Brasil descobria que, para todo descontentamento, há uma via política de protesto. A política pode ser a saída, a chave para tudo. Fascinado, eu via aulas de teoria política na prática, a cada dia, nas ruas.
Essa proliferação de causas, essa crença de que um mundo inteiramente diferente é possível, é um traço de todos os maios. No maio de 68 francês, houve duas grandes correntes —a estudantil e a operária. Tinham reivindicações diferentes.

Os trabalhadores exigiam direitos básicos, de melhores salários ao direito do sindicato de atuar dentro da empresa. Os estudantes se sentiam mais livres para pedir o impossível. 
Cohn-Bendit peitou ministro: mais sexo, menos ginástica

Ainda assim, houve um 1968 que ocorreu naquele ano mesmo —incluindo mais linguagem marxista, mais ataques ao capital, a esperança num socialismo democrático, como o que se tentava na então Tchecoslováquia com a Primavera de Praga, a defesa da libertação dos povos como o brasileiro, então sob uma ditadura que ainda pioraria— e, por outro lado, um 1968 que foi rapidamente construído nas imaginações.

O maio de 68 imaginado é em boa parte norte-americano: realça as agendas não diretamente políticas. Destaca a altercação de dezembro de 1967, quando um ministro inaugurava a piscina da Universidade de Nanterre e um jovem ruivo —Daniel Cohn-Bendit era seu nome— o acusou de, pela ginástica, pela natação, querer conter as pulsões sexuais dos jovens. Estratégia tradicional de direita, completou Dany. 

Foi esse 68, mais libertário e anárquico do que revolucionário e marxista, que emplacou nas narrativas do maio francês. De lá para cá, Che Guevara saiu da guerrilha para triunfar nas camisetas. 
"As marcas de 2013 parecem ter sumido"
E como terminam as coisas? Raro é o maio que triunfa na hora, porque sem projeto e liderança uma vitória fica difícil. O general Charles de Gaulle (1890-1970), presidente da França naquela época, arrasou nas eleições que convocou em 1968. Mas a maior parte das pautas de maio acabou vencendo —enquanto os 363 deputados então eleitos pela direita francesa o tempo levou. 

Aqui no Brasil está sendo bem pior. O momento que saudei como abrindo uma quarta agenda democrática, a dos serviços públicos de qualidade —a ser implantada depois da democratização de 1985, da estabilidade monetária de 1994 e da inclusão social tornada prioridade nacional em 2003—, deu para trás.

Não tivemos o novo então desejado, e as pautas democráticas anteriores, a política de 1985 e a social de 2003, estão sendo destruídas. 

Pior: a descoberta da política virou aversão a ela. Em 2013, multidões investiram na política como meio de resolver seus problemas —até mesmo o do assassinato da criança boliviana e do respeito aos surdos e mudos.
"Agora é o inverno de nossa desesperança" 

Hoje, agravou-se o cada um por si, com a classe média ainda pagando uma segunda vez para ter saúde, educação, transporte e segurança um pouco melhor do que o serviço fornecido pelo Estado, enquanto a pobreza e a miséria renascem. 

As marcas de 2013 parecem ter sumido. Esperança não há.

Ela voltará? A história dos últimos 500 anos é a de um aumento crescente —embora interrompido inúmeras vezes— dos direitos humanos e da democracia. O próprio maio de 68 recuou, mais no Brasil que na França, assim como a Primavera Árabe só deu certo, e olhem lá, na Tunísia. O Egito, p. ex., piorou muito. A Síria, nem se fala.

Mas o germe democrático é forte. O que devemos é apressar o fim do inverno de nossa infelicidade, parafraseando a famosa frase de Shakespeare no Ricardo 3º, e fazer surgir uma nova primavera. 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A NOVA BESTIALIDADE DO CARNICEIRO DE DAMASCO

Já lá se vão 11 anos que eu divulgo sistematicamente meus artigos na internet. Uma posição que mantenho desde o início e da qual jamais abrirei mão é a de colocar os princípios revolucionários acima de todas e quaisquer conveniências. Quem vai ao povo pregar a luta contra a desumanidade não pode, ele mesmo, compactuar com práticas desumanas.

Pouco se me dão as alianças firmadas por ditadores sanguinários como Bashar al-Assad, o carniceiro de Damasco. Mesmo que sua permanência no poder incomode EUA, Israel, as nações ricas da Europa Ocidental ou qualquer outro grande vilão da esquerda, ainda assim ele tem de ser afastado o quanto antes. 

Não passa de um réprobo da civilização, um genocida e um psicopata, tanto quanto Adolf Hitler. ou Pol-Pot. Deveria estar num tribunal como o de Nuremberg, sendo julgado por crimes contra a humanidade.

Das muitas distorções em que incorre a esquerda desvirtuada do pós-1968, uma das piores é avaliar os acontecimentos internacionais sob a ótica desumana da realpolitik, como se o mundo fosse um enorme tabuleiro de xadrez. Ao copiarmos a amoralidade estadunidense (expressa de forma emblemática na frase do secretário de Estado Cordell Hull a respeito do ditador dominicano Rafael Trujillo, “ele pode ser um filho da puta, mas é nosso filho da puta”), deixamos os melhores seres humanos sem motivos para nos seguirem. 
Exemplo de realismo político: pacto Hitler-Stalin de 1939.

Bom para quem quer convencer o povo de que os políticos são todos farinha do mesmo saco e que é melhor cada um de nós cuidar da própria vida. Péssimo para quem precisa reavivar as esperanças de que, unidos, possamos dar um fim à exploração do homem pelo homem.

Revolucionários existem para conduzirem a humanidade a um estágio superior de civilização. Traem sua missão quando compactuam com a barbárie, seja lá qual for o pretexto. Ponto final. 

As sucessivas opções pelo supostamente menos pior em detrimento do realmente melhor vêm conduzindo a humanidade para a beira do abismo e a esquerda para a impotência e até a irrelevância. É hora de voltarmos a nossos clássicos, a Marx, Engels, Proudhon, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo e outros deste porte, pois, como aprendizes de Maquiavel, fracassamos miseravelmente.

A indignação do veterano Clóvis Rossi com mais uma bestialidade cometida por Assad é minha também. 

Idem o desalento, pois ele escreveu e eu o subscrevo por mero desencargo de consciência. Ambos estamos carecas de saber que nem desta vez o cão danado será, pelo menos, neutralizado. Continuará barbarizando, continuará mentindo e aqueles que o protegem continuarão fingindo que acreditam. (Celso Lungaretti)
.
DITADURAS SÃO SEMPRE TÓXICAS
.
É tarde demais para o mundo se horrorizar com o ataque com armas químicas ocorrido na 3ª feira (4) na Síria.

O horror é inerente às ditaduras, de qualquer coloração política, e elas se instalam ou se mantêm ante a indiferença e/ou impotência do mundo civilizado. No caso da Síria, a ditadura do clã Assad já dura 46 anos, primeiro com o pai, Hafez, e a partir de 2000 com o filho Bashar. Que esse horror suba alguns pontos na escala, com ataques com armas químicas, é tudo menos surpreendente.

Até porque já ocorreu antes: o BuzzFeed relata que, em outubro passado, uma investigação conjunta das Nações Unidas e da Organização para a Proibição de Armas Químicas denunciou que forças aliadas ao governo sírio haviam usado armas químicas pelo menos três vezes entre 2014 e 2015.

O caso mais notório ocorreu em 2013, com o uso de gás sarin em Ghouta, nas imediações de Damasco, o que causou a morte de cerca de 500 pessoas. O episódio levou a um acordo, organizado por EUA e Rússia, pelo qual o governo sírio entregou, em tese, todo o seu arsenal de armas químicas para destruição.

Se, como tudo parece indicar, o ataque desta semana é de responsabilidade do governo ou de aliados, fica claro que nem todo o arsenal foi destruído. Escrevo antes de saber o resultado da sessão de emergência das Nações Unidas (*), até porque é desnecessário esperar: se tivesse que agir, a comunidade internacional deveria tê-lo feito no início da crise síria, em março de 2011.
Tratava-se, então, da revolta de parcela importante da sociedade civil contra a ditadura. Revolta pacífica, reprimida, porém, com a violência característica de toda ditadura.

Deu no que deu: os rebeldes pegaram em armas, o regime endureceu ainda mais, outros países se envolveram – e, seis anos depois, "era uma vez um país, a Síria", como escreve o radialista Fouad Roueiha no capítulo sírio do livro Rivoluzioni Violate, editado na Itália a propósito da fracassada Primavera Árabe.

É natural que um ataque com armas químicas acenda sinais de alarme e desperte gritos de indignação, mas o alarme e a indignação deveriam ter ocorrido também (ou principalmente) ante os 470 mil mortos, os 5 milhões de refugiados no exterior e os 6,3 milhões de refugiados internos.

Para ficar só no tema armas químicas, "desde o início do conflito em 2011, mais de 14 mil pessoas foram vítimas de ataques com armas químicas e mais de 1.500 morreram em decorrência", escreve para o New York Times Ahmad Tarakji, da Sociedade Médica Sírio-Americana.

Para um país de cerca de 18 milhões de habitantes, tais números desenham o pior desastre humanitário desde a 2ª Guerra Mundial, como admitem os organismos das Nações Unidas. A ditadura e a guerra que ela atiçou deixaram a Síria com 85% da população na pobreza, com mais de 2/3 em extrema pobreza, e 1,75 milhão de crianças sem escola.

Uma tragédia inenarrável a que o mundo assistiu, às vezes horrorizado, mas sempre passivo. (Clóvis Rossi)
.
* Nota do editor: como o Clóvis Rossi previa, a reunião deu em nada, pois o representante russo conseguiu criar um impasse ao sustentar que as armas químicas pertenceriam aos rebeldes, estando estocadas num depósito atingido pelos bombardeios de Assad. Esopo e La Fontaine não fariam melhor. Como alguém consegue mentir tão descaradamente sem sequer enrubescer?! 
Related Posts with Thumbnails