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sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

ORWELLIANO PLANO DE FLAVIO DINO É MAIS UMA AÇÃO INÚTIL DE QUEM NÃO QUER ENFRENTAR O CAPITALISMO DE FRENTE


 Orwellianamente chamado de Pacote da Democracia, as propostas de Flávio Dino para responder aos atos bolsonaristas de 8 de janeiro são absolutamente mais do mesmo e nem de longe tocam no essencial. 

Em certo sentido, pioram o que já é ruim, ao criar uma esdrúxula Guarda Nacional para patrulhar a Praça dos Três Poderes, ampliar penas, instituir censura de conteúdo das redes sociais e mesmo inventar tipos penais, como a de uma espécie de regicídio, ampliando punições contra quem atentar contra a vida dos chefes dos (podres) poderes. 

A patetice de uma Guarda Nacional é índice do quanto no Brasil existe uma verdadeira tara por forças de segurança, pois somos campões em polícias, existindo polícia até para quem já está preso, a Polícia Penal, afinal o crime não descansa mesmo dentro de nossos presídios... 

A ideia baldia de ampliar punições mostra ter o lulopetismo não apenas uma tara com a polícia, mas também um desejo recôndito de ser também um policial. Vigiar e Punir. Talvez não apenas ser um policial, mas também reis, por isso qualificar a morte dos chefes dos Poderes, pois a vida deles vale mais que a vida do comum dos cidadãos. 

Mas o auge é a implementação de censura nas redes sociais, obrigando por lei plataformas a retirar conteúdos considerados nocivos contra a democracia. O que é ser nocivo? Obviamente, a resposta desta pergunta depende de a quem você pergunta. 

O pior destas medidas não são elas próprias, mas o fato de serem inócuas. A lei antidrogas, por exemplo, endurecida pelo próprio Lula em sua primeira passagem no governo, só serve para ampliar a repressão, matar milhares de pessoas e jogar outras milhares em masmorras, nunca tendo impedido ninguém de fumar um baseado ou cheirar uma cocaína. 

Repressão jurídica e mais polícia nunca é o caminho para lidar com fenômenos sociais e políticos complexos. A ascensão da extrema direita ao redor do mundo não ocorre por falta de censura, polícias ou punições, mas porque existe uma dinâmica socioeconômica a alimentando e tal dinâmica é o capitalismo em sua fase agonizante. 

A reorganização neoliberal do capitalismo produziu um panorama social de oligopólios, criando super bilionários ao mesmo tempo em que arruinava milhões de pequenos proprietários, destroçava parques industriais, proletarizava a classe média e jogava na miséria bilhões. Quando a era neoliberal colapsou em 2008, abriu-se uma perspectiva revolucionária expressa do Ocuppy Wall Street às Primaveras Árabes, passando pelas Jornadas de Junho de 2013. O fiasco destes movimentos abriu passagem a movimentos reacionários, bancados pela plutocracia capitalista, mas capturando o sentimento popular de indignação contra o dito sistema

Se punitivismo derrotasse a extrema-direita,
Hitler, que amargou anos de cadeia, não teria
virado ditador da Alemanha. 
De modo muito resumido, esta é a raiz do movimento de extrema direita espalhado pelo planeta na última década e cuja encarnação, no Brasil, se deu através da figura de Jair Bolsonaro. Combater isto pelo plano meramente institucional é ilusório, até porque, ao contrário de movimentos de esquerda, o reacionarismo conta com apoio maciço das elites econômicas e seus braços militares, jurídicos e policiais. 

Na realidade, conforme provado pela experiência da Social-Democracia Alemã na década de 1920, o fortalecimento das estruturas repressivas acaba fortalecendo a própria extrema-direita, seja ampliando os poderes de seus agentes nos órgãos repressivos, seja criando mecanismos posteriormente usados quando ela chega ao poder. 

O caminho certo para combater as forças reacionárias é mediante ações políticas, de mobilização popular e de desmonte das bases econômicas que as sustentam. Mas, para isso, seria necessário enfrentar minimante a estrutura capitalista, coisa muito longe dos tímidos planos de Lula e de seu ministro Dino. (por David Emanuel Coelho)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

A INSURREIÇÃO BOLSONARISTA PODE ESTAR LONGE DE ACABAR

 

Para além da mera condenação à quebradeira ou ao coro do ridículo discurso midiático de chamar os militantes bolsonaristas de terroristas - depredação não é e nunca será terrorismo - cabe focar no que de fato importa: o sentido político e as tendências do movimento da extrema direita. 

Não restam dúvidas que tal movimento é capitaneado por amplos setores do agronegócio e do extrativismo, sobretudo das regiões norte e centro-oeste, mas também com forte ação de indivíduos do Sul e de São Paulo. Também conta com considerável inserção nas forças policiais e nas forças armadas. Embora esteja centralizado na pessoa de Jair Bolsonaro, possui  autonomia frente a ele, servindo o ex-presidente fujão muito mais de aglutinador do processo que de seu idealizador. 

Após as ações em Brasília e a forte repercussão, a tendência é ocorrer um refluxo dos atos. Enganoso, no entanto, é considerar tal refluxo como algo duradouro, sendo muito mais uma forma de recuo estratégico. No ínterim, prisões devem acontecer, sobretudo de militantes diretamente envolvidos nas ações e, talvez, alguns financiadores também venham a ser responsabilizados, mas com o tempo o movimento se reorganizará, pois possui financiamento e organização robustos. 

No coração de todo o processo está a agonia do capitalismo que implica na decomposição do regime político a ele associado. Claramente, a democracia liberal constituída e estabelecida ao redor do planeta no período pós-guerra encontra-se em franco declínio, apodrecendo a olhos vistos.

Esta crise de dominação vem abrindo um flanco de batalha ao redor do mundo desde o Occupy Wall Street, passando pela Primavera Árabe, pelas Jornadas de 2013 e outras insurreições populares associadas. Inicialmente com conteúdo revolucionário, tais movimentos foram sendo esmagados ou se dissipando por falta de direção clara. 

Em seu lugar, começaram a surgir insurreições neofascistas enquanto formas contrarrevolucionárias, nas quais o descontentamento e a insatisfação popular foram sendo apropriados por forças da extrema-direita capitaneadas por setores do grande capital. 

No Brasil, tais forças apareceram nitidamente durante o Impeachment de Dilma Rousseff e foram naturalizadas pelos grupos conservadores interessados na queda da ex-presidente. Porém, logo ganharam vida própria e com um discurso antissistêmico chegaram ao poder através de Bolsonaro.

Há um projeto claro da extrema-direita brasileira, implementar um regime policialesco, com o enfraquecimento dos direitos jurídicos e sociais, o qual estará ancorado no novo regime econômico instalado no Brasil de neoextrativismo ilimitado e de super exploração dos trabalhadores. Ou seja, estabelecer uma República ancorada no aprofundamento da devastação capitalista e no cerceamento à vida democrática

As eleições já mostraram que este projeto, com maior ou menor compreensão, possui amparo popular e eco mesmo entre as classes trabalhadoras. Por isso, as ações bolsonaristas de modo algum podem ser consideradas como atos isolados de alguns gatos pingados, mas antes uma ação massiva enraizada na própria dinâmica da crise vivida atualmente, com propósitos claros e articulação em níveis superiores do empresariado. 

A ilusão lulopetista da pacificação nacional e mesmo da trégua precisa dar lugar a uma leitura mais realista dos tempos de crise vividos. 

A grave situação social e econômica, a estagnação, o desemprego, a fome e a miséria galopantes são fatores propícios a garantir eco junto ao povo de ações insurrecionais da extrema direita, situação que pode se agravar. Caso observemos a situação dos atuais governos ao redor do mundo, acossados por crises de ingovernabilidade, o futuro de Lula 3 parece pouco promissor. Sua derrocada, contudo, significaria um final trágico para o próprio Brasil. 

A olhos vistos, as instituições estão irremediavelmente condenadas ao ocaso e não virá delas a saída para a situação atual. Neste momento, a grande disputa é sobre o que será colocado no lugar do que está aí e apenas a chama revolucionária poderá fazer frente às trevas do reacionarismo. (por David Emanuel Coelho)

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

EM VEZ DE VITÓRIA FINAL DO CAPITALISMO, A QUEDA DO MURO DE BERLIM FOI O INÍCIO DE SUA DEBACLE EM ESCALA GLOBAL – 1

dalton rosado
O ESTADO E SUAS FORMAS OPRESSORAS
Podemos perceber na obra de Karl Marx e Friedrich Engels não só a grandeza dos ensinamentos, mas também um erro estratégico que embute uma contradição. Esta é a parte que qualifico de marxismo tradicional.

Mas, como não devemos jogar o bebê fora com a água do banho, o melhor é aproveitarmos tudo de inovador e genial que a crítica da economia política marxiana oferece e que, até hoje, pode nos ajudar a solucionarmos grandes impasses. 

Com seu erudito embasamento filosófico, que aproveitou as lições da filosofia de Hegel despojando-as do idealismo pernicioso ali contido, Karl Marx fez uma profunda análise dos mecanismos da relação social fundada na forma-valor (mercadoria dinheiro, representação abstrata da própria abstração valor, e mercadorias sensíveis, corporificadas num objeto com valor de uso e de troca, além da mercadoria serviço, que nada mais é do que trabalho abstrato também mensurado pelo valor) para fazer a correta dissecação anatômica de sua essência, para dela derivar as conclusões que hoje se confirmam. 

O erro estratégico foi acreditar que estaríamos no caminho correto para o fim colimado pelo processo revolucionário armado:
— conduzido por um partido pretensamente admitido como da classe operária;
— pretensamente entronizando a classe operária no poder estatal; e
—  estruturando o Estado como dono de todos os meios de produção.
Assim, eliminando-se a propriedade privada imediatamente (mas não a propriedade como instituto jurídico-econômico, que assim apenas passaria ao Estado) e, portanto, conservando-se as categorias capitalistas sob o pretenso comando operário, caminharíamos paulatinamente para a superação de suas categorias e caminharíamos para a sociedade comunista, sem as ditas cujas e sem classes sociais distintas.

O que se viu foi o feitiço virando contra o feiticeiro. 

As categorias capitalistas sob as rédeas do Estado totalitário e do Partido Comunista caminharam no sentido inverso ao programado por Marx e, embora tenham resgatado a Rússia e a China do seu milenar atraso com relação ao ocidente industrializado, transformaram tais países em potências capitalistas de mercado, conservando a divisão de classes.

Assim, a União Soviética e a China terminaram por não se diferenciarem daquilo que se dizia combater (o capitalismo) e se enquadrando na hipótese de colapso futuro de toda a lógica capitalista, vaticinada pelo próprio Marx. 
Ora, se Marx previu o colapso do capitalismo, se não pela revolução proletária, mas pelos seus próprios fundamentos, é evidente que a manutenção da lógica capitalista por um Estado pretensamente proletário sob uma forma política vertical e totalitária, e sem retirar do seu próprio organismo as categorias capitalistas, estaria contaminado pelos vírus da mesma doença que deveria curar. 

Mas, não se pode combater o mal social mantendo-se intacta a natureza do dito cujo, ainda que sob outra forma política de governo. 

Comprovado está que a revolução armada abrupta, cirúrgica, como a que foi levada a cabo eficazmente por Lenin, necessitava de um poder Estatal armado de igual monta para se contrapor à contrarrevolução ainda viva e com capacidade de reação, e isto implicava a remuneração do contingente humano do exército, armamentos e instalações, que, por sua vez, acarretavam expressivos gastos em dinheiro no pós revolução imediato.

Os dispêndios militares vultosos, remunerados em dinheiro, representavam apenas uma face do problema, já que todo a máquina estatal aumentada exigia gastos ainda mais volumosos e que não podiam ser eliminados imediatamente sem dinheiro. Uma coisa alimentou a outra. 

Tanto é assim que Lenin criou, no seu curto período de vida pós-revolução (até 1924), e premido pela fome e guerra contrarrevolucionária, a Nova Política Econômica, depois imposta por Stalin com mão de ferro, e que nada mais era do que a flexibilização mercadológica interna como forma de superar o atraso russo nos vários campos do conhecimento e combater os problemas do período de transição.

Isso demonstra que a verdadeira revolução deverá ser coletiva, operando-se em termos mundiais gradualmente, e feita a partir de comportamentos que, tangidos pelas necessidades objetivas e discernimentos teóricos, 
escapem da imanência capitalista

Por exemplo, um blog como o Náufrago da Utopia, que se mantém sem concessões ao capital, é um belo exemplo de postura verdadeiramente revolucionária; e a junção teórica com exemplos práticos de negação da imanência capitalista é a chave da verdadeira revolução.

Não estamos falando de reformas dentro da estrutura capitalista, como estão a fazer os sindicatos que se unem no Brasil de hoje para reivindicar a derrubada do veto de Boçalnaro, o ignaro (por sugestão de Paulo Guedes e do mundo empresarial capitalista) à lei da desoneração da folha de pagamento, que transfere para empresas capitalistas o ônus previdenciário dos salários dos trabalhadores. 

Por mais que seja justa tal reivindicação, ao negar o salário em si ela se circunscreve à imanência capitalista, pois, ao invés dos sindicatos lutarem contra a exploração do salário e pela superação completa deste, reafirma equivoca e subliminarmente a importância do dito cujo, que é a fonte primária de formação do capital e de sustentação de toda a entourage capitalista (econômica e institucional) conforme nos ensinou Marx na parte final dos Manuscritos Econômicos- Filosóficosque escreveu em 1844, tinha apenas 26 anos).

Quando os sindicatos não questionam o salário em si (de vez que se sustentam a partir do próprio trabalho assalariado e das contribuições sindicais e impostos daí advindos), mas apenas lutam pela melhora de sua sórdida existência, deixam transparecer o equívoco de considerarem o próprio salário como categoria ontológica, tão sagrada para eles como o ar que respiramos.

Lutar por conquistas salariais sem criticar a existência do próprio salário, é bandeira reivindicatória incompleta, que passa a falsa impressão de combatividade ao capitalismo, mas que visa essencialmente perpetuar a função sindical de defesa do trabalho e do trabalhador, categorias capitalistas por excelência. 

Deveriam, ao invés disso, estar sempre lutando pela superação do salário e não incensando-o como direito sagrado. O sindicalismo, da forma como atua, é poder imanente ao capitalismo e dele dependente. Lula e o Paulinho sem força que o diga. 

Os partidos de trabalhadores (e não apenas o PT brasileiro), dentro da estrutura política do Estado capitalista burguês, representam um obstáculo à luta emancipacionista de todos os que são obrigados e vender por preço vil a sua força de trabalho, categoria primária de toda a estrutura capitalista, uma vez que perpetuam, por interesses corporativos específicos, a manutenção da exploração. 

Os partidos de trabalhadores são inimigos dos próprios trabalhadores, pois, ao invés de superarem e exorcizarem o trabalho extrator de mais-valia e fonte primária do capital, e assim os libertarem do jugo do dito cujo, fazem seu elogio como condição honrosa pela via sub-reptícia da defesa de interesses corporativos. 

Não devemos esquecer que o Boçalnaro era e ainda é corporativista dos soldos e gastos militares, uma espécie sui generis de sindicalismo militar... (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

10 ANOS DO BLOG 'NÁUFRAGO DA UTOPIA': O SENTIDO DA REVOLUÇÃO, HOJE.

O primeiro assalto aos céus: a Comuna de Paris.
Nesta celebração dos dez anos do blog, gostaria de traçar algumas considerações sobre o sentido da revolução e dos revolucionários nos dias atuais. 

A primeira grande revolução operária foi a Comuna de Paris, em 1871. Desde então, a classe trabalhadora nunca parou de se erguer em lutas pelo mundo. 

No século 20 foram grandes pontos de inflexão na luta revolucionária os anos de 1917 e 1968, com seus exemplos inspirando episódios semelhantes em países do mundo inteiro, nos anos imediatamente posteriores. 

O século 21 já começou sob o signo da revolução com o movimento Occupy Wall Street, o qual desencadeou quase uma década de lutas que pipocaram pelos vários continentes. 

Contudo, é preciso reconhecermos o fracasso destes movimentos revolucionários. Além do capitalismo não ter sido superado, ainda se viu um profundo rebaixamento dos horizontes de ação da luta operária. Graças, sobretudo, à tragédia na qual terminou a revolução de 1917, com a ascensão do stalinismo e sua exportação para o mundo como o modelo de comunismo a ser seguido. 

Embora tenha se originado da revolução de 1917, o stalinismo não foi uma etapa adiante do processo revolucionário, antes se constituindo numa ruptura com este, ruptura dada a partir do fracasso da revolução na Europa.

Sendo a Rússia uma nação isolada, devastada por duas guerras, sem tradição democrática e com uma economia ainda pré-industrial, o stalinismo significou para ela muito mais uma forma ditatorial de modernização social do que um suposto processo de passagem ao socialismo. 
Trabalho forçado sob Stalin: "forma ditatorial de modernização"

Prova disto é o fato de ter entrado em colapso justamente quando tinha cumprido seu objetivo histórico (industrializar e urbanizar a Rússia) e se tornara obsoleto.

Mas, tendo se apropriado do marxismo, autoproclamava-se a pátria do socialismo. Tinha, de fato, prestado bons serviços nas causas anticoloniais e dado assistência a movimentos revolucionários na periferia do capitalismo, fazendo-o, contudo, mais por motivos geopolíticos do que por ideal socialista. 

Na média ponderada, deixou uma herança muito mais ruim que boa, inspirando a construção de regimes ditatoriais, burocráticos, além de disseminar uma visão negativa do comunismo, como se este fosse uma ditadura de estado máximo e democracia mínima. Não estava, portanto, errado Noam Chomsky ao dizer que a URSS agia conjuntamente com os EUA no sentido de destruir a imagem do socialismo entre a classe trabalhadora. 

Em resposta ao stalinismo, cresceu na Europa ocidental a posição social-democrata, com a burguesia aceitando oferecer uma série de benefícios aos trabalhadores a fim de frear o avanço de movimentos revolucionários. Com isto era fortalecida uma esquerda aburguesada, adepta do liberalismo econômico e respeitadora do regime capitalista. 

Tal esquerda neutralizava as organizações stalinistas e esvaziava o discurso revolucionário, ao mostrar ser possível elevar a qualidade de vida da população sem romper com o capitalismo nem instituir um regime ditatorial. 
"A ideia nacionalista não serve à classe trabalhadora"
No entanto, a social-democracia só era possível no centro capitalista europeu devido à enorme concentração de riqueza nestes países, concentração conseguida não apenas por quase dois séculos de colonialismo, mas também graças à expansão das multinacionais rumo aos países periféricos no período pós-guerra. 

Enquanto na Europa central havia democracia e benefícios sociais aos trabalhadores, na periferia (sobretudo na América Latina) reinavam a pobreza e os regimes autocráticos. 

Da social-democracia europeia, no entanto, veio mais um tipo de ilusão, a de seria possível controlar o capital e melhorar a condição de vida dos trabalhadores dentro do marco do regime burguês. 

Stalinismo e social-democracia tornaram-se as ilusões profundas da esquerda mundial. Em ambos, reina a visão do centralismo do partido, da burocracia e da ação institucional.

No período pós-URSS e pós-social-democracia, a esquerda passou a orbitar em função da luta eleitoral e da administração do Estado burguês, diferenciando-se cada vez menos da direita tradicional. 

A perspectiva revolucionária perdeu-se no horizonte histórico, trocada pelo acomodamento ao regime burguês. 

A hora, no entanto, não poderia ser pior. A situação histórica da humanidade aponta para um risco real de colapso ecológico. O crescimento da pobreza e da violência urbana leva a vida cotidiana ao caos. No meio disso, meia dúzia de bilionários concentram grande parte da riqueza mundial. A revolução, portanto, é urgente, mas sua urgência não encontra eco na esquerda mundial. 
"Há risco real de colapso ecológico"
O que fazer, então? O primeiro ponto, acredito, é efetuarmos o balanço rigoroso da história revolucionária até aqui. Compreender a natureza dos erros que levaram aos recorrentes fracassos. Fazer um acerto histórico com o stalinismo, superando-o, é fundamental. As ilusões social-democratas devem ser combatidas a partir de uma severa crítica, mostrando o quanto tal forma societária era dependente do capital importado dos países periféricos. 

Num país periférico como o Brasil, é preciso superarmos de uma vez a ilusão nacionalista. Por ser exportador de capitais, há uma tendência quase secular na esquerda brasileira de pensar numa possível ruptura com o capitalismo central a partir de uma aliança com a nossa burguesia. 

Tal ideia, no entanto, sofre de profundo erro analítico, pois não entende a natureza contemporânea do capital e nem o DNA da burguesia brasileira. 

O capitalismo é um sistema, hoje ainda mais que no passado, global. Não se trata de pensar cada país atuando no capitalismo como se fossem peças de lego encaixadas. O planeta Terra é um único mercado unificado, pelo qual o capital circula livremente, podendo, sim, enfrentar uma lentidão em seu fluxo neste ou naquele lugar, mas nada impeditivo de sua circulação. 
"A teoria converte-se em força material quando penetra nas massas" (Marx)
Nesta lógica, há uma divisão internacional do mercado, sendo determinado quais lugares funcionarão como instâncias industriais, quais como fornecedoras de matéria-prima, quais como centro de consumo, quais como locais de valorização do capital, etc. 

Os Estados nacionais desempenham a função de suporte jurídico e financeiro para a circulação do capital. 

A nação, já historicamente superada pelo capitalismo, ordena e ilha a mão de obra, impedindo sua livre circulação e internacionalização. Noutras palavras, enquanto a burguesia encontra-se unificada em escala internacional – dividindo-se em setores de participação do mercado global –, a classe trabalhadora é fragmentada dentro de cada país. Sua livre circulação possibilitaria não apenas a criação de laços de classe em nível mundial, mas também a elevação do custo do trabalho nos países periféricos. 

Não é outra a razão de existirem leis ferrenhas de imigração nos países centrais. Pois é preciso que os trabalhadores da periferia permanecem em seus países de origem forçando para baixo o preço da mão de obra. 

Não é outro o motivo de a União Europeia ter uma unidade monetária e econômica, mas não uma unidade política. Uma unidade política permitiria a união da classe trabalhadora em nível continental, coisa perigosa. Por isso, politicamente a classe permanece presa a seu país de origem, embora possa ir vender sua força de trabalho em qualquer lugar do bloco. 

Portanto, a ideia nacionalista é caduca e não serve à classe trabalhadora ou à revolução. O sentido da luta revolucionária deveria ser o de pressionar a burguesia à internacionalização não apenas econômica, mas também política, garantindo assim a unificação da luta operária a nível global. 

Seria isto, então, o importante a ser feito no médio prazo: praticar a crítica, não apenas do passado da luta revolucionária, mas também do presente. Para o processo de crítica resultar, no entanto, é fundamental fazer as perguntas; acredito que coloca-las seja nossa tarefa fundamental neste momento. 

Apenas a elucidação crítica de nossa situação poderá levar, por uma ascensão geométrica, à criação de um robusto movimento revolucionário entre as massas. Pois, como disse Marx: 
"É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria converte-se em força material quando penetra nas massas".
Assim, façamos a crítica, para que esta se torne força material

E o blog Náufrago da Utopia é um dos poucos que a ela confere importância fundamental, inclusive colocando-se, na sua declaração de princípios, como defensor da justiça social, dos direitos humanos e do exercício do pensamento crítico, sem definir uma ordem de prioridade entre tais bandeiras. (por David Emanuel de Souza Coelho)

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O GIGANTE ACORDOU INDECISO EM 2013. O PT O FEZ TOMAR O RUMO DA DIREITA

É, sem dúvida, instigante o artigo acadêmico do ensaísta Francisco Bosco sobre a tomada das ruas pela direita, um divisor de águas na política brasileira recente. Este blog publicou um resumo aqui aqui.

Desde então só vimos acumulando derrotas, três das quais desastrosas: o impeachment da Dilma, a prisão do Lula e a emergência de uma extrema-direita jurássica na paralisação dos caminhoneiros.

A presença dos partidários da intervenção militar foi ostensiva, estridente e brutal (houve bloqueios nos quais só ruralistas e membros de sociedades anticomunistas estavam a postos para deter os veículos, impondo violentamente sua vontade aos caminhoneiros em nome dos quais se colocava o país de pernas pro ar, numa canhestra tentativa de putsch!).

Analistas traçaram muitos paralelos históricos, mas ficou faltando o mais apropriado: o levante integralista contra a ditadura de Getúlio Vargas, que era de direita, mas não estava tão à direita como aqueles fanáticos toscos queriam (exatamente como o governo de Temer!).

E até a efeméride ajudava, pois no mês passado se completaram 80 anos desde tal putsch, que terminou com a prisão de aproximadamente 1.600 ativistas do nazifascismo tupiniquim, o fuzilamento de alguns deles e a partida de Plínio Salgado para o exílio (em Portugal). 

Se esses deficientes mentais da atualidade não ignorassem completamente nossa história, estariam reverenciando os galinhas verdes que os inspiraram com urros de Anauê! (o Sieg Heil! à brasileira).
O que ficou faltando no artigo do Bosco foi o principal motivo de os efeitos transformadores das jornadas de junho de 2013 não terem, segundo ele, ido "muito além" de alavancarem movimentos identitários e inspirarem "o surgimento de novos movimentos sociais, à esquerda e à direita".

Há um corte no seu relato, que nos remete diretamente ao que aconteceu depois, omitindo o que houve no meio, ou seja, a trajetória negativa que conduziu ao quadro por ele corretamente descrito:
"O gigante rapidamente foi se revelando menos progressista do que reacionário. Menos esclarecido que irracional. Menos espontâneo que titerizado por setores poderosos. Por fim, menos democrático do que autoritário".
Lembremo-nos que aquelas manifestações começaram como um protesto contra o aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo, com uma nítida visão de esquerda, magnificamente sintetizada no slogan Por uma vida sem catracas

Noutro trecho Bosco foi mais feliz, ao explicar o que motivou tamanha adesão a um movimento que, aparentemente, se limitava a tentar abortar um aumento de 20 centavos na passagem dos ônibus:
"...era a revolta acumulada contra a tendência progressivamente privatista da democracia liberal (tiveram o mesmo sentido o Occupy Wall Street, em Nova York, e os Indignados, em Madri), que comprimia cada vez mais o espaço do comum, e contra um sistema institucional endógeno, blindado, que asfixiava a participação política, reduzindo ao mínimo possível sua intensidade".
E, com a meninada do Movimento Passe Livre, uma nova geração de esquerda finalmente subia ao palco, assumindo um protagonismo que era a notícia mais auspiciosa para nós desde que a primeira eleição do Lula trouxe consigo a esperança de que dali em diante iríamos transformar pra valer a sociedade brasileira (esperança que foi melancolicamente se dissipando nos anos seguintes).

Mas, os jovens que, noutras condições, oxigenariam nossas fileiras foram esmagados pela brutal repressão das polícias estaduais e por uma perseguição judicial fascistoide, enquanto o PT emitia queixas tímidas só para constar e o governo federal lavava as mãos (o problema não é da nossa alçada), repetindo a traição histórica dos comunistas franceses ao maio de 1968, quando o principal sustentáculo do presidente De Gaulle acabou sendo o PCF e não o exército ou a direita.

Jamais esquecerei que, dentre tantos manifestantes e jornalistas triturados pela repressão do governador paulista Geraldo Alckmin, Dilma Rousseff só se solidarizou publicamente a um coronel da Polícia Militar que foi ferido por black blocs depois de seus comandados barbarizarem centenas de jovens. 

[Nos 696 protestos ocorridos em 2013 no Brasil, foram detidas 2.608 pessoas, feridas 837 – inclusive 117 profissionais da imprensa que estavam a serviço – e mortas oito. O coronel recebeu alta logo no dia seguinte...] 

Depois, para que o clamor das ruas não prejudicasse o deprimente espetáculo do Mundial das Maracutaias, a repressão se abateu sobre o #naovaitercopa, intimidando de vez o componente de esquerda originário dos movimentos de junho de 2013.

Previsivelmente, a partir daí o componente de direita não teve mais concorrência e se apossou com facilidade do difuso inconformismo da sociedade brasileira, que a crise econômica potencializava. 

E, no impeachment da Dilma, o PT pagou o merecido preço por sua postura infame de voltar as costas aos rebeldes de 2013 e favorecer a manutenção do status quo, na suposição de que empilharia mandatos como o PRI mexicano, sem verdadeiramente transformar o país.

Nós é que não merecíamos pagar tal preço, salvo, talvez, como castigo por nossa omissão ou impotência num momento decisivo.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O GIGANTE ACORDOU REACIONÁRIO, IRRACIONAL E MANIPULADO – 1

JUNHO DE 13 FOI DE SONHO 
DEMOCRÁTICO A PESADELO AUTORITÁRIO

Francisco Bosco afirma que a pintura romântica de cinco anos atrás parece dar lugar a retrato de Dorian Gray


jornalista Rachel Sheherazade, o MBL e o general Eduardo Villas Bôas foram atacados em suas redes sociais por terem criticado a greve dos caminhoneiros.

A turba acusou a princesa do conservadorismo e o militar de serem vendidos, declarou-se decepcionada com Kim Kataguiri (cofundador do Movimento Brasil Livre) e, pasmem, tachou a posição deles de... comunista.

Aquilo que até 24 horas antes era percebido por muitos como uma direita imoderada agora é deslocado de sua posição no espectro ideológico —rumo à esquerda!— pela ação de uma força tão extremista que já não cabe nos limites do quadro político democrático.

A coisa é desconcertante. Sheherazade, para quem não se lembra, é aquela que alegou legítima defesa coletiva em favor dos justiceiros que não somente espancaram um adolescente negro acusado de assalto como também o prenderam num poste, pelo pescoço, com uma tranca de bicicleta.
Greve dos caminhoneiros revelou a existência de uma turba neodireitista tão radicalizada...
O MBL é, na definição do professor Wilson Gomes, uma startup que promove o ódio político. E, pode-se acrescentar, produz e dissemina fake news como estratégia de convencimento.

Villas Bôas, além de representar o Exército, é o general que tuitou, na véspera de o Supremo Tribunal Federal julgar a possibilidade de Lula ser preso após decisão em segunda instância, que os militares estavam atentos e zelando pelas instituições.

Que essa turma seja percebida, por outra turma, como insuficientemente radical, isso ajuda a compreender o estado da arte da nova cultura política brasileira.

Durante os anos do lulismo, assistia-se com perplexidade renovada às alianças do Partido dos Trabalhadores com personagens notoriamente corruptas e/ou regressivas do sistema político nacional. De Sarney a Renan Calheiros, de Severino Cavalcanti a Eduardo Cunha, passando por Maluf, a conciliação do inconciliável desenhava uma lógica, fartamente descrita: a estratégia (...) de dirigir as forças conservadoras, em vez de confrontá-las.
...que tacha de comunistasvendidos os gurus do seu lado.

O filósofo Marcos Nobre nomeou de peemedebismo essa força conservadora e fisiológica que se instalou à larga no Parlamento e funcionou como o fiel da balança desde o começo da Nova República.

Tanto Fernando Henrique Cardoso como Lula foram capazes de no máximo dar algum sentido ao país sem entrar em choque com o peemedebismo. O governo Lula, de conservação e mudança, reprodução e superação, como escreveu André Singer em Os sentidos do lulismo (2012), realizou transformações à custa da manutenção e até do aprofundamento da lógica peemedebista.

Essa seria uma das contradições que levariam ao fim da pax lulista em junho de 2013. Não faltaram, como se sabe, bases materiais para os protestos. Apesar do pleno emprego e do PIB ainda em expansão, a classe média, protagonista dos atos, saíra perdendo nos anos anteriores.

Laura Carvalho, em Valsa Brasileira (2018), mostra os números que permitem falar de um squeezed middle, um miolo espremido financeiramente entre o crescimento da renda da elite e o dos mais pobres: "Os 50% mais pobres aumentaram sua participação na renda total de 11% para 12% entre 2001 e 2015" e "os 10% mais ricos subiram a sua parcela de 25% para 28%".
Lula e FHC evitaram choques com os fisiológicos e conservadores
Enquanto isso, "os 40% intermediários reduziram sua participação na renda de 34% para 32% naqueles anos".

Mas me parece correto dizer que o sentido geral de junho de 2013 era a revolta acumulada contra a tendência progressivamente privatista da democracia liberal (tiveram o mesmo sentido o Occupy Wall Street, em Nova York, e os Indignados, em Madri), que comprimia cada vez mais o espaço do comum, e contra um sistema institucional endógeno, blindado, que asfixiava a participação política, reduzindo ao mínimo possível sua intensidade.

A pauta original do aumento da tarifa do transporte público o atesta. Não era só por 20 centavos. Estava em jogo o poder empresarial submetendo o poder público e o interesse dos cidadãos; um péssimo serviço a preço alto; péssimas condições de circulação. Estava em jogo, em suma, o direito à cidade.

A proximidade da Copa do Mundo e da Olimpíada do Rio, por sua vez, adensava a sensação de um sistema político encastelado. 

Os custos exorbitantes das obras eram por si sós absurdos, da perspectiva orçamentária, diante da precariedade dos serviços públicos.
Mundial de 2014: "um fedor de corrupção no ar"

Além disso, os gastos crescentes com estádios, muitas vezes feitos sem licitações, deixavam um fedor de corrupção no ar. E o autoritarismo ainda mostrava a sola da bota nas remoções compulsórias de pessoas pobres.

Tudo isso já foi muito repetido.

A democracia sob aparelhos sofreu então um choque de alta intensidade. O começo do fim do lulismo deflagrou o que chamo de passagem da cultura à política na autoimagem social do país.

As pessoas foram para as ruas. As redes sociais digitais haviam se consolidado como uma vasta mídia (e metamídia), contando já àquela altura com dezenas de milhões de usuários no Brasil. Sua natureza de autocomunicação fez surgir nelas um novo espaço público marcado pela polarização e pela explicitação de todas as tensões.

No lugar do país do futebol, nos tornamos o país da política: lá onde se dizia que todo brasileiro era um técnico, agora todo brasileiro se revelava um analista de conjuntura. Em suma, o gigante acordou.

Escrevendo em cima do lance, muitos celebraram a explosão das ruas (eu entre eles).

Houve setores que se opuseram. A chamada grande imprensa tentou diminuir o acontecimento num primeiro momento, em seguida criminalizou os vândalos e por fim procurou capturar o sentido da irrupção... 
"Um coletivo horizontal e heterogêneo"
Os governistas também foram contra, é claro, pois rapidamente perceberam o risco envolvido. Afinal, não importava o caráter difuso das pautas; no limite, a conta sobraria no colo dos mandatários de turno (foi o que aconteceu).

Por outro lado, tanto uma esquerda marxiana crítica ao PT quanto uma esquerda filiada às ideias de Negri apoiaram e participaram dos atos. A primeira viu em junho uma amostra grátis de democracia participativa. A outra viu a materialização da experiência política da multidão.

Diferentemente da noção de povo (unívoca e coesa) e de classe operária (restritiva, sem correspondência com a realidade contemporânea do trabalho e da luta de classes), o conceito de multidão designa um coletivo horizontal e heterogêneo, cujo agenciamento é capaz de acolher singularidades e se transformar em potência. Com efeito, o que se viu em junho de 2013 foi a transformação da massa em multidão. (por Francisco Branco, poeta, compositor e filósofo)
(continua neste post)
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